Sexta-feira, 25.12.09

Desenho poema

Mana Bernardes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

© Mana Bernardes - Desenho-Poema -Tinta china sobre papel artesanal kozo, 2009

publicado por ardotempo às 22:09 | Comentar | Adicionar

A simplicidade de Mana Bernardes

"...porqueninguémpensounissoantes?"

 

 

 

 

Mana Bernardes - Colar - Design (MOMA Nova York / MASP SP / Habitart RS), 2009

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publicado por ardotempo às 16:16 | Comentar | Adicionar

Vitrine em Paris

Luz

 

 

 

 

Eric Tenin - Vitrine em Paris / Luz 25.12.2009 - Fotografia (Paris France), 2009

 

publicado por ardotempo às 16:11 | Comentar | Adicionar

Estrelas feitas de letras

A língua única de Schlee e suas múltiplas vozes
 
Joana Bosak de Figueiredo
 
Leio Os limites do impossível – Contos gardelianos, de Aldyr Garcia
Schlee. Com suas doze mulheres, que nos falam ou são faladas, Schlee
converte-se num escritor que entende plenamente o feminino. Sentimos o
que elas sentem e mesmo o que há de mais íntimo aparece na escritura
desse autor múltiplo.
 
Regionalista. Não. É pouco. Fronteiriço. Com certeza. Acima de tudo, universal.
 
Universal porque conversa e converge com o mundo e as vidas pequenas e
a escrita enorme e vigorosa de um registro único, de um autor idem.
Narrativa na fronteira, escritura no mundo. Quiçá a fronteira seja realmente o único lugar possível para estar no limite do impossível do universo que Schlee propõe.
 
Superamos a barreira limite. Superamos mesmo o entre lugar. A
fronteira é o lugar. O lugar onde se pode escrever numa língua única,
a língua de Schlee, que doma, alumbra e alambra aquilo que não pode
ser cerc(e)ado: uma identidade, uma maneira una, porém múltipla de ser
e estar nesse mundo tão homogeneizado por uma cultura de massa, mas ao
mesmo tempo, tão sedento de representações próprias de seu próprio
teto – ainda mais quando o teto são estrelas feitas de letras.
 
Ao ler Schlee se me escorrem as certezas e as tipificações acerca da
literatura regional, pois ela repete as pátrias pequenas de todos os
lugares, e isso a torna muito maior. Schlee bebe num tempo perdido que
parece que ficou pra trás, mas que nunca nos abandona – os Oitocentos,
tão únicos e tão fundadores de nossa cultura -, mas, ao mesmo tempo,
projeta o presente e o futuro numa linguagem que ziguezagueia entre o
ocorrido e o devir, como se o tempo passado continuasse sendo narrado
ad infinitum até virar o agora – e o que resta é o que somos hoje. E
aí somos brindados por “documentos” que atestam a existência “real
dos fatos em questão, como se estivéssemos lendo a correspondência
ativa de alguma personalidade do século XIX cuja voz só apareceu hoje.
Essa é uma narrativa intemporal, coloca-se, parece, no passado, mas
flerta como se fosse hoje, o tempo inteiro.
 
 
Nessa costura narrativa, Schlee não perde o fio da meada e o que
parecem ser contos interligados converte-se em um romance polifônico,
onde cada voz representa uma protagonista feminina que reveste de
significados próprios uma história coletiva com interpretações
pessoais de rara beleza e força marcantes. Todas elas têm razão. Todas
elas têm as suas razões. Todos os contos são delas e de quem mais for
narrando. E o perverso justifica-se; não fosse ele não existiriam doze
mulheres que contam e que são contadas, não haveria Gardel, não
haveria esse livro mágico de Schlee.
 
As múltiplas vozes de Schlee são proferidas por mulheres da vida, no
sentido de que são absolutamente verossímeis: elas estão – ou melhor,
estavam – nas fazendas, nos arrabaldes, no limite do urbano, nas
cidadezinhas de uma enorme fronteira que se alarga cada vez mais em
nosso imaginário: os limites entre o mundo hispânico e o luso no sul
da América do Sul e mais ainda: nos limites de um mundo real e de
outro inventado, onde as barreiras são tão tênues que impossíveis de
serem visualizadas. O que fica é a impressão de que tudo é possível
dentro dessa pretensa impossibilidade porque absolutamente visível nas
imagens e paisagens interiores dessas mulheres. A vida doméstica, a
alcova, os segredos, tudo aquilo que se sabe e que se oculta, tudo
sobre o que se deve calar está lá. Schlee não esconde toda a
devassidão de homens e mulheres, incesto, estupro, gozo, prazer. É nas
margens que tudo acontece. É na fronteira do impossível que vivemos e
escrevemos nossas vidas permanentemente.
 
Há espaço pra tudo na prosa de Schlee: para homens sedentos de sexo,
para mulheres que não abrem mão de seu prazer – por inusitado ou
amoral que seja -, para mucamas que vêem mais do que deveriam, para
chinas que não se contentam em ser chinas, para filhas que não são
apenas filhas, mas cúmplices, amantes, mães.
 
E essa é nossa América profunda. O sul, ao qual volvemos sempre, não
se olvida. E é no cruzamento – e não no entrechoque – dessa língua
particular que Schlee, tradutor, escritor e fronteiriço escreve. É uma
língua toda sua, o teto sob o qual se abriga. Sob o qual abriga as
raízes de sua cultura. Mas se as abriga, não as esconde, porque o trunfo
desses contos gardelianos é justamente uma realidade ficcional
verossímil completamente exposta.
 
Dói. Schlee não alivia. Mas um tango, para ser bem cantado, precisa
dessa dor. E se Gardel precisava de uma pré-história para existir ainda
mais completamente, ela já foi contada. E quem não acreditar que
invente um causo melhor. Depois de Schlee, há que ser muito bagual para
conseguir.
 
©Joana Bosak de Figueiredo

Os limites do impossível – Contos gardelianos. Aldyr Garcia Schlee.
Edições ARdoTEmpo - 2009   -  ISBN nº  978-85-62984-00-6
 
ardotempo@gmail.com
 
Imagem: Leonid Streliaev - "Uma fazenda decadente no meio do pampa"
- Fotografia (Fronteira Sul Rio Grande do Sul RS Brasil)
publicado por ardotempo às 14:11 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Transparente

António Lobo Antunes
 
 
Não importam as horas agora, hoje são sempre onze da noite e chove. Na janela fronteira, num quarto iluminado, vejo uma rapariga a ler na cama. Lençóis encarnados, édredon encarnado. De vez em quando muda de posição com o livro, apercebe-se, pelo meu candeeiro, que estou aqui e inicia atitudes que lhe devem parecer voluptuosas: espreguiça-se, deixa escorregar uma das alças, o joelho direito surge devagar do édredon, demora um instante, some-se. Mal lhe distingo a cara mas distingo-lhe os óculos. Tira-os, lambe uma das hastes, volta a colocá-los. Não tem muita habilidade, coitada. Torno a escrever e desce o estore, furiosa, embora pelos intervalos do estore distinga a sua silhueta a espreitar-me antes de se desinteressar de mim: deve achar-me maricas.
 
 
 
 
Não importam as horas agora, são onze da noite e é no halo das árvores que me apercebo da chuva. Uma porção de livros à espera de serem lidos, uma porção de páginas para corrigir: quantos meses até acabar isto? E, ao acabar isto, que forma terá? O Júlio Pomar ao telefone: às vezes tem voz de peluche. Combinamos jantar. Gosto de comer na cozinha da Teresa, eu que não gosto de comer. Da conversa lenta. O desenho de Matisse que eles têm, uma cara de rapariga, a lápis, feita com meia dúzia de traços, mine de rien como diz o Júlio. Como se traduz mine de rien? Como quem não quer a coisa, talvez? Que simplicidade aparente, que fácil. Onde aquele sujeito metia a mão saía luz. E, por pintores franceses, veio-me à cabeça uma passagem do diário de Delacroix, artista muito da minha estima: o homem é uma criatura sociável que não gosta dos seus semelhantes. A rapariga que lê na cama sobre o estore e chega-se às vidraças, nua. Que raio de jogo, o dela. O marido
 
(suponho que marido)
 
entra no quarto e fica a olhar para mim, ao seu lado. Não me admirava que se despisse também. Não despe: some-se. Na janela de baixo uma senhora de idade em frente da televisão, a comer sopa. Tudo é irreal neste mundo. O Júlio começa sempre os telefonemas da mesma maneira
 
- Como estás tu?
 
ou seja a pergunta mais difícil de responder que conheço. Nunca sei como estou. Estou hexagonal. Estou cor de laranja. Estou chato como a potassa para mim mesmo. Faz-me uma pergunta menos complicada, Júlio. Quantos são dois e dois, por exemplo. Não, essa não. Bertrand Russel levou cem páginas a explicar a razão de um mais um serem dois e não ficou lá muito certo disso. Estou cheio de citações, que gaita. Pareço um cigano a mostrar o oiro falso dos anéis. E, por cima disto tudo, uma ambulância aos gritos. Que noite. Tudo treme com o vento e eu a juntar palavrinhas. Vi retratos meus num jornal francês: tão feio. Não me habituo à minha cara, ao meu aspecto. Vontade de usar uma máscara, tapar a cara com as mãos. A minha filha Joana, que ainda agora nasceu, teve um filho, uma coisa pequena com os dedos todos. Daqui a nada está a fazer a barba. Quem me arranja uma ideia feliz para esta crónica? Flores numa jarra acolá. E o relógio da secretária do meu avô em cima de uma estante. Avôzinho. Ontem fez anos que morreu: novembro é um mês do caraças. Saudades do Zé Cardoso Pires, saudades do Ernesto Melo Antunes: passou que tempos e não me habituo. Por que razão não falam comigo, vocês? E um grande silêncio no meio da gente, um vazio que dói. O filho da Joana tem uma unha em cada dedo, veio completo. Devíamos nascer aos poucos, acho eu, ou então com coisas a mais, pernas por exemplo, que se perderiam uma a uma. Outra ambulância a riscar o escuro. Aqui há uns tempos fui atrás da ambulância que levava o meu irmão Pedro ao hospital. Ainda conservo o gosto amargo da aflição.
 
A propósito dos retratos do jornal francês: que diferença me fazia que aquele tipo morresse? A senhora da televisão acabou a sopa, desapareceu com o tabuleiro, voltou com um iogurte e uma colher. Não mete a colher no iogurte, fascinada com um episódio no ecrã. Também usa óculos, como a rapariga das leituras na cama, só que não se despe. Adivinha-se um brochezito a fechar a gola. Cheira a vento, a outono, a frio. A minha vida inteira sobe-me à boca como um vómito. Apetecia-me estar em Nelas em setembro. Esta semana almocei com dois camaradas da guerra e, como sempre, a cabeça a escapar para Angola:
 
- Lembras-te de?
 
- Daquela vez que?
 
memórias horríveis que o tempo adoçou. E a gente a cortar o passado com a faca. Agora vou acabar isto e continuar a corrigir as páginas. Que esquisito o mundo. Que esquisitos nós. No móvel dos retratos a minha tia Madalena sorri, a perder cor na película. Não perdeu cor dentro de mim. A rapariga deitou-se e apagou a luz, a senhora da televisão começa o iogurte, rapa a embalagem com a colher, limpa a boca no lencinho. Sorrio-lhe e não me vê. Claro que não me vê: tornei-me transparente. Digo
 
- Boa noite
 
o mais baixinho que posso, a fim de que consiga escutar-me.
 
© António Lobo Antunes
publicado por ardotempo às 02:26 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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