Terça-feira, 16.06.09

Gaudízinho da Paraíba

Fotografia

 

 

 

 

Mário Castello - Céu e mar (Espreitando a África) - Fotografia (Ponta do Seixas - João Pessoa Paraíba PB Brasil), 2005

publicado por ardotempo às 00:36 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Segunda-feira, 15.06.09

MASP - As grandes telas de Portinari

Cândido Portinari no MASP

 

 

 

 

As grandes telas de temas dos sertões e da fome, de Cândido Portinari, presentes no Coleção do MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand São Paulo SP Brasil (Mostra / Curadoria de Eunice Sophia) - Fotografia de Pierre Yves Refalo

publicado por ardotempo às 23:35 | Comentar | Adicionar
Domingo, 14.06.09

O mundo é nossa casa

 O milagre da vida (ou O suicídio anunciado)

 

O maravilhoso filme de Yann Arthus-Bertrand sobre a terra e a vida; e sobre a tragédia que se abate (lentamente ?) sobre o meio ambiente e sobre a vida. Será que ainda poderemos mudar esse destino anunciado?

 

 

Veja o filme de Yann Arthus-Bertrand: O mundo é nossa casa

Fotografia de Yann Arthus-Bertrand

publicado por ardotempo às 20:15 | Comentar | Adicionar

O papel do futuro

O raiar da nossa obsolescência
 
Luis Fernando Verissimo
 
Já contei que fui cobrir minha primeira Copa do Mundo em 1986, no México. Aquela em que a França nos eliminou nos pênaltis. Fui como correspondente da revista “Playboy”, o que me valeu dois problemas:
 
1) explicar para quem olhava o meu crachá o que, exatamente, um correspondente da “Playboy” fazia numa Copa do Mundo, onde sexo e mulheres nuas sem dúvida faziam parte mas não eram o assunto principal, e
 
2) como escrever para uma revista mensal sobre um evento que ia se redefinindo quase que dia a dia, obrigado a ter a matéria pronta antes de saber como o evento acabava.
 
Não consegui convencer ninguém que a “Playboy” não é só sexo e mulheres e que eu estava lá para ver futebol com todo o respeito, e tive que fazer uma ginástica estilística para que a matéria da revista tivesse ao menos algum mérito literário, já que não teria nenhum como reportagem. Isso depois de resistir à tentação, que seria desastrosa, de adivinhar o resultado - uma final, claro, com a presença do Brasil - e reportá-lo como acontecido. No fim a matéria falava mais sobre o México do que sobre futebol, mais sobre astecas e melecas e os murais do Orozco em Guadalajara do que sobre Zico, Platini e Maradona. Ou sobre sexo e mulheres nuas.
 
Lembro como tínhamos inveja dos jornalistas europeus e americanos, que já então usavam lap-tops, ou coisa parecida, enquanto nós estávamos condenados a perfurar fitas de telex e esperar vagas em barulhentos aparelhos medievais para transmiti-las. Eu também, pois além da matéria única para a “Playboy” fazia colunas diárias para jornais no Brasil. Enquanto nosso futebol era derrotado em campo nossa imprensa era humilhada pela tecnologia adversária. Em técnica jornalística, os cinturas-duras éramos nós.
 
Na Copa seguinte, no entanto, em Roma, já estávamos empatando. E na última copa ninguém nos humilhou - pelos menos fora de campo. O vexame na Alemanha teve cobertura tecnicamente perfeita da imprensa brasileira, igual a de qualquer super-desenvolvido. Entramos na zona VIP do silencio, e hoje só ouvimos o martelar dos aparelhos de telex em pesadelos. Não tenho a menor idéia de como funciona o uai-fai, nem a menor idéia de como consegui viver por tanto tempo sem ele.
 
 
Mas mal sabíamos nós que, ao ver aqueles primeiros computadores portáteis no México, estávamos vendo o raiar da nossa obsolescência. O que era para ser instrumento do jornalismo impresso está substituindo o jornalismo impresso. As maiores empresas jornalísticas do mundo sentem a competição da Internet e de outros derivados daquelas máquinas primitivas e contemplam um futuro sem papel, ou a morte. A notícia do futuro irá da máquina para a máquina, sem necessidade do jornal como nós o conhecemos, e amamos. Talvez já na Copa de 14.
 
© Luis Fernando Verissimo
tags:
publicado por ardotempo às 18:55 | Comentar | Adicionar

O dinheiro é público, o ingresso é caro

O dinheiro de Caetano Veloso
 
Gilberto Dimenstein
 
 
 
 
Para assisitir neste final de semana ao show "Zii e Zie", de Caetano Veloso, paguei R$ 290 por dois ingressos -as duas horas de espetáculo terão custado mais da metade um salário mínimo ganho por muitos trabalhadores depois de um mês de trabalho. Apesar de as cadeiras, espremidas em torno de uma mesa, ficarem longe do palco e não apreciar gente bebendo ou comendo enquanto ouço música, não reclamo: o show vale o preço. Até me dispus a pagar um pouco mais se encontrasse um lugar melhor. Não tinha.
 
O que me incomodou foi saber que Caetano Veloso tem a chance de receber dinheiro da Lei Rouanet (R$ 2 milhões) para a turnê nacional desse espetáculo, com a interferência direta do ministro da Cultura, Juca Ferreira. Aparentemente, não há nenhuma ilegalidade no patrocínio - aliás, concedido, mais uma vez com a intervenção do ministro, a Maria Bethânia.
 
Nem Caetano nem Maria Bethânia estão fazendo nada de errado; estão seguindo o que a lei permite. Mas esse tipo de fato acaba estimulando o debate, cada vez mais efervescente, sobre a lei de incentivos fiscais para a cultura.
 
É óbvio que Caetano e Maria Bethânia não precisam de dinheiro público para fazer seus shows - assim como também não fez sentido, por exemplo, a verba incentivada para o Cirque de Soleil, cujo ingresso pode chegar até a R$ 490 e a pipoca (e aqui não vai nenhum exagero) custa mais do que o "PF" de um operário.
 
Supostamente, a reforma da lei de incentivo à cultura veio para corrigir essas e outras distorções e desperdícios. Isso não significa que se deva confiar na capacidade gerencial das burocracias públicas.
 
Se todo o dinheiro arrecadado até agora com o incentivo fiscal se transformasse em imposto e ficasse nas mãos só do governo, acabaria, em boa parte, sustentando salários de funcionários -isso se não ficasse preso por alguma restrição orçamentária ou fosse desviado para protegidos políticos. Desapareceram os bilhões de um fundo (Fust) para informatizar as escolas.
 
Se, na cidade de São Paulo, ir a museus virou programa de pobre, como mostra pesquisa do Datafolha, é por causa da lei de incentivos fiscais. Não haveria, por exemplo, um Museu da Língua Portuguesa - nem concertos de música erudita a preço popular.
 
 A melhor contrapartida a esse do benefício fiscal é quando ele se converte em educação pública. É sabido que estímulos culturais como a dança, a música, o teatro, as artes plásticas e o cinema são uma extraordinária isca para o aprendizado -e uma alavanca para desenvolver na criança e no jovem a capacidade de interpretar a realidade. Não deveria, aliás, existir nenhuma separação entre educação e cultura. Não existe pessoa educada sem repertório cultural -e não existe repertório cultural sem educação.
 
Por isso, foi um avanço o acerto entre o governo federal e representantes de empresários para maior aproximação entre as escolas públicas e o chamado "Sistema S", como Sesi ou Sesc. Se está sendo implementado, é algo a ser observado -a minha impressão é de que, por enquanto, a ideia está mais no papel.
 
 Na semana passada, relatório do Unicef mostrou, mais uma vez, a debandada de jovens do ensino médio. Se as escolas tivessem mais conexões culturais, seria menos difícil conter essa evasão.
 
Os incentivos seriam muito bem usados se a contrapartida se traduzisse não apenas em ingressos gratuitos mas também em programas para o envolvimento das escolas, com direito à formação de professor. Se o Caetano Veloso e todas as celebridades artísticas quiserem cobrar até R$ 500 por uma cadeira num de seus shows, sem problema.
 
Mas se quiser ter apoio da Lei Rouanet, ele que apresente um plano de shows públicos ou aulas-espetáculo para estudantes de música. As escolas poderiam transformar esses espetáculos em momentos inesquecíveis na vida dos jovens - e fontes de aprendizado.
 
Um pouco desse espírito transgressor aprendi a apreciar ouvindo Caetano Veloso. Pelo menos quando ele e tantos baianos se mostravam novos e caminhavam contra o vento sem lenço e sem documento.
 
 
 
 
© Gilberto Dimenstein - Publicado na Folha de São Paulo / UOL
publicado por ardotempo às 15:27 | Comentar | Adicionar

O olhar de Deus

Voo cego
 
Ferreira Gullar
 
 
Não se trata de que o que irá acontecer já esteja escrito. Os gregos pensavam assim e, ainda hoje, há quem pense igual: se não é o Destino, é Deus. Mas há quem acredite que coisas acontecem por uma combinação de acaso e necessidade, sendo que o que chamamos de acaso não é mais que uma probabilidade real embora imprevisível. É que a complexa tessitura da existência excede nossa capacidade de abarcá-la e, menos ainda, de prevê-la. Assim, nós, seres humanos, em face da imprevisibilidade da vida, inventamos Deus, que é a Providência, ou seja, aquele que nos protege do imprevisível, do acaso, isto é, da bala perdida.
 
Pois bem, como disse no começo, não se trata de que o que vai ocorrer na viagem de Guto - que neste momento arruma a mala - à Europa esteja escrito. Não está, mas, na intrincada cadeia de probabilidades, dada a ação de tantos fatores que, cegamente, prepararam o futuro, pode a aeronave despencar de 11 mil metros de altura ou simplesmente explodir.
 
Assim, sem de nada saber, fechou a mala, pôs no ombro a sacola e dirigiu-se para o elevador. Atravessou o hall de entrada e caminhou até o táxi. Depois que o chofer guardou-lhe a bagagem no porta-malas, Guto, já acomodado no banco de trás, falou-lhe:
 
- Para o aeroporto Tom Jobim.
 
- Vamos nessa. Quer que ligue o ar refrigerado?
 
- Por enquanto, não.
 
Estavam em Copacabana e o melhor caminho àquela hora era pela avenida Atlântica, mesmo porque Guto preferia ver o mar a sentir-se sufocado em meio a ruas saturadas de tráfego.
O táxi entrou, depois, pela Princesa Isabel, passou pelo Túnel Novo e dirigiu-se para o Aterro do Flamengo. Durante todo esse caminho, ele olhava a cidade com uma sensação estranha, como se despedisse dela. Evitou esse pensamento e voltou-se para a enseada de Botafogo, tranquila naquele fim de tarde. Ao fundo, o Pão de Açúcar erguia-se granítico e eterno, o que lhe fez pensar nas tantas e tantas pessoas que, ao longo do tempo, o viram ali e se foram, enquanto ele continua. Para livrar-se dessas ideias, pegou o celular e ligou para Júlia.
 
- Oi, amor, tudo bem com você?... Ainda estou no táxi, a caminho do aeroporto... Ontem à noite foi bom, não foi?
 
Conversaram ainda um pouco, mas ela estava de saída para a casa da irmã, onde passaria alguns dias.
 
O táxi seguia agora pela Linha Vermelha, como sempre engarrafada àquela hora. Mas tinha tempo suficiente, pois, quando viajava, sempre saía de casa com bastante antecedência para evitar estresse. E com razão, pois quando desceu do carro no aeroporto faltavam ainda duas horas para o embarque. Por isso, sem pressa, ainda que estranhamente apreensivo, dirigiu-se para o balcão da Air France, onde teve de enfrentar uma fila de bom tamanho. Finalmente, despachou a bagagem, recebeu o cartão de embarque e caminhou até o restaurante para beber alguma coisa, enquanto esperava a chamada. O restaurante estava lotado, como costuma acontecer ultimamente, tal é o número de pessoas que viajam de avião. Preferiu ir logo para a sala de embarque, onde se acomodou e ficou lendo a revista que levara consigo.
 
Enquanto isso, acima do Atlântico, na zona de convergência intertropical, por onde o seu avião inevitavelmente passaria, armava-se uma feroz tempestade. Nuvens de tamanho incomensurável, como negras montanhas móveis, carregadas de eletricidade e granizo, juntavam-se naturalmente, sem qualquer propósito, movidas aleatoriamente pelas correntes atmosféricas.
 
Sem de nada saber, Guto, ao ouvir a chamada para o embarque, entrou na fila que já se formara à porta da aeronave. Ali estava ele, tomado de estranha apreensão, como nunca lhe ocorrera nas viagens que frequentemente fazia. Nunca ficara tenso, mesmo porque, mal sentava na poltrona, caía no sono e só acordava horas depois, quando a viagem já chegava ao fim. Desta vez, porém, a tranquilidade costumeira mudara-se em tensão, e tenso esperou até que os motores começassem a funcionar e o avião levantasse voo.
 
Não só lá fora, sobre o Atlântico, uma ameaça se armava, mas também no avião, na sua estrutura eletromecânica, alguma coisa inesperada parecia insinuar-se, como falha ou pane. Se na natureza os processos se desenvolvem sem nenhum propósito ou finalidade, no avião, ao contrário, máquina que é, obra humana, tudo cumpre uma função determinada, para fazê-lo voar. Se alguma coisa falha...
 
Só que, para Guto e as outras 220 pessoas que, no bojo daquele Airbus-A330, seguiam para Paris, era impossível sabê-lo, já que, na ausência dos deuses, todo voo é cego. Para o bem ou para o mal.
 

 
 
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL 
tags:
publicado por ardotempo às 15:24 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 12.06.09

Livros para ver, não para ler

Artista norte-americano faz 'autópsia' em livros
 
 
 
 
Um artista norte-americano vem aplicando uma técnica que visa dar nova vida e forma a velhos livros, dicionários e enciclopédias amontoados em prateleiras empoeiradas. Brian Dettmer, de 35 anos, realiza o que chama de "autópsia dos livros", em que "disseca", por meio de recortes, páginas de dicionários, livros de engenharia e artes, revistas em quadrinhos e atlas.O resultado são obras de arte em três dimensões, que revelam interpretações novas ou alternativas de seu interior. "Livros velhos, discos, fitas, mapas e outros tipos de mídia caíram hoje em uma esfera onde estão vários outros tipos de arte. Seu papel diminuiu e hoje existem mais como símbolos de ideias do que como mensageiros de conteúdo", diz Dettmer. O artista diz nunca inserir ou alterar o conteúdo das publicações. Além dos recortes, a arte de Dettmer ainda consiste em unir e dobrar vários livros juntos antes de colá-los e recortá-los.
 
 
 

Publicado no blog BBC Brasil 

tags: ,
publicado por ardotempo às 23:29 | Comentar | Adicionar

Mariana Ianelli - Um poema

 

 

És o senhor de um continente livre

Onde os teus amores não pretendem nada

Porque a miragem da carne não existe mais.

Na tua postura delgada e muda

Uma essência ora se ilumina,

Ora te faz prosseguir ao acaso,

Mas o temor do exílio já não ecoa dentro em ti

Sua velha litania desesperançada.

Pouquíssimos conseguiriam contemplar

Os mistérios que a tua religião emana

Sem te julgarem um homem enfeitiçado.

Tu sabes facilmente de onde extrair o que te falta.

Enquanto te achas perdido, ao invés,

Estás muito bem guardado em tua alma.

 

 

Mariana Ianelli

 

© Mariana Ianelli - Passagens, 2003, ed. Iluminuras

publicado por ardotempo às 21:34 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 11.06.09

Retratos Notáveis - 32

Infinito

 

 

 

Fotografia: Retrato de José Saramago (Lanzarote, Ilhas Canárias - Espanha) - 2009

Fotógrafo: Daniel Mordzinski

 

publicado por ardotempo às 18:11 | Comentar | Adicionar

Mistura fina

Fotografia

 

 

 

Mário Castello - Fotografia - Nos muros da Liberdade (São Paulo SP Brasil), 2009

publicado por ardotempo às 18:04 | Comentar | Adicionar

Passado maleável

Revisionismos
 
Luis Fernando Verissimo
 
O passado não é um lugar seguro. Volta e meia aparecem revisionistas querendo mudar tudo, abalando antigas certezas e dizendo que o acontecido não aconteceu, ou não aconteceu bem assim. História, já se disse muito, é versão, mas gostamos de pensar que alguns fatos do passado são fatos mesmo e não interpretações convenientes. Os revisionistas não permitem. A função deles é não deixar o passado em paz. E sugerir que há sempre a possibilidade de uma versão nova para um fato velho.
 
As repetidas comparações do Obama com o Roosevelt provocaram uma reação nos Estados Unidos, segundo a qual não apenas o Baraca tem pouco a ver com o Roosevelt histórico como o próprio Roosevelt tem pouco a ver com o mito que se formou em torno do seu governo. Segundo a história - ou o mito, para os revisionistas - Roosevelt pegou um país arruinado pelos desmandos de um capitalismo fora de controle durante o governo Hoover, enfrentou os cachorros grandes das finanças e do conservadorismo e, com programas sociais acusados de bolchevistas, subsídios para a produção acusados de anti-americanos e uma mobilização popular acusada de populista e coisa pior - embora fosse um aristocrata - salvou os americanos. Os revisionistas dizem que muitas das medidas contra a crise dos anos 30 já tinham sido tomadas por Hoover, que até agora era o grande vilão da história, que Roosevelt aliou-se aos cachorros grandes, convencendo-os a aceitar seu pseudosocialismo com o argumento que, além de salvar os Estados Unidos, estava salvando o capitalismo, e que no fim sua política intervencionista não estava dando muito resultado. Um adendo inescapável à versão revisionista, nem sempre, compreensivelmente, citada, é que não foi a mobilização do New Deal de Roosevelt que tirou o país da crise, foi a mobilização para a Segunda Guerra Mundial.
 
O tempo é aliado do revisionismo. Com o tempo os fatos ficam maleáveis, como que mergulhados em solvente. Além de facilmente moldados, adquirem uma neutralidade que os absolve. Faz muita diferença, hoje, saber como o Simonal se comportou durante a ditadura? Se o revisionismo concluir que a única posteridade que ele merece é o de um bom cantor, está sendo justo. Enquanto isto, como a própria ditadura se comportou naqueles anos está posto a salvo de qualquer discussão, revisionista ou não.
 
 
 
© Luis Fernando Verissimo
publicado por ardotempo às 15:06 | Comentar | Adicionar

À deriva

Un camino insólito

Enrique Vila-Matas

1 - Empiezo como puede que termine: a la deriva. Y lo hago preguntándome si tienen forzosamente las novelas que narrar una historia. La respuesta es sencilla: pretendan contarla o no, siempre la cuentan. Porque no hay un solo lector inteligente que, por mucho que le den a leer algo raro, e incluso la novela más hermética del mundo, no sepa leer una historia detrás del impenetrable texto que hayan podido darle. Ahora bien, ¿qué puede suceder si el lector es inteligente y en cambio el novelista no lo es? Sospecho que en esos casos tiene lugar siempre una gran fiesta. Me acuerdo de Georges Simenon, que dijo que no es en absoluto necesario que un novelista sea inteligente, sino todo lo contrario: cuanto menos inteligente sea, más posibilidades se abren para él de ser novelista. Sin duda llevaba toda la razón del mundo, porque yo he tratado a grandes novelistas a lo largo de mi vida y ninguno me ha parecido muy inteligente, sobre todo comparado con otras personas que he conocido: personas dedicadas a otras artes, negocios o ciencias.

 

 



Hay excepciones a esta regla y el novelista argentino Sergio Chejfec es una de ellas. Aunque, si lo pienso bien, este escritor es alguien a quien no le cuadra bien la palabra novelista, porque él en realidad crea artefactos, pensamiento narrado antes que novelas. En Mis dos mundos, por ejemplo, nos recuerda que hay novelas con historias, pero también novelas como la suya, que no son tan ortodoxas, aunque contienen también historias. La que se cuenta en Mis dos mundos (Candaya) no es fácil de sintetizar, pero digamos que es la historia de un escritor que, a punto de cumplir los 50 años, y probablemente debido a esta fecha crucial, quisiera convertirse en un no escritor. Esto lo sabremos cerca del final, aunque es una ilusión que organiza el relato: la historia de un escritor que está visitando una ciudad del Brasil y, mientras recorre su parque más emblemático, ve en ese gran espacio medio abandonado (incluyendo las barcas con forma de cisne o las aves cautivas) señales de su propia condición incompleta y una prueba cósmica de que cualquier autenticidad es imposible y de que "así como uno no elige el momento en que va a nacer, también ignora los mundos variables que va a habitar".

 

 



2 - La caminata ocupa casi todo el libro. Es un paseo cargado de frases que disuelven -algunas de forma asombrosa- el sentido de frases que han aparecido páginas atrás. Allí donde el narrador (cuyos dos mundos parecen confundirse tanto como en ocasiones se mezclan en el libro el estilo ensayístico con el narrativo) vacila y duda sobre lo que está narrando, o bien se pregunta cómo hacerlo, Chejfec, en el fondo, no se lo pregunta jamás. Es más, está entre quienes dominan con mayor maestría tanto el arte de la digresión como el de la narración en la literatura actual. Ante Chejfec, en una primera impresión recordamos a muchos autores admirados, y en un segundo momento - más sólido y perdurable en el tiempo - advertimos de que no se parece a nadie y que ha elegido un camino insólito, único, muy diferenciado, que tarda en distinguirse a causa de las exigentes y muy personales búsquedas que el propio autor realiza en su narrativa.


Chejfec parece pertenecer a una casta de escritores que debió comenzar a existir allá por los tiempos en los que Proust mostró su desprecio por una novelística reducida a un desfile cinematográfico de las cosas. Siempre he pensado que ese tipo de desfiles, aparte de ser burdas traducciones de la vida interior del narrador, operaban perniciosamente, actuaban como impedimento para que pudiéramos hundirnos en el fragmento de una historia -o en el detalle de un fragmento de esa historia - y dedicarnos por fin a la deriva feliz que podríamos hallar, por ejemplo, en el análisis a fondo de la condición de relato de un relato - nuestro propio mundo, sin ir más lejos - desprovisto en realidad por completo - para qué engañarnos- de sentido.


Chejfec - muy injustamente poco conocido entre nosotros - destaca entre los novelistas que de un tiempo a esta parte vienen esforzándose por traducir sus historias al pensamiento narrado, género del que, aun no sabiéndose mucho, se sabe al menos que escapa con inteligencia ensayística de la corriente de aire limitado de los grandes novelistas con tendencia obtusa al desfile cinematográfico de las cosas. ¿He calificado de obtusa a esa tendencia? Voy bien. Perfecto. Veo que afortunadamente sigo paseando -como el discreto héroe de Mis dos mundos - a la deriva.

Enrique Vila-Matas - publicado em Babelia - El País

tags: ,
publicado por ardotempo às 03:20 | Comentar | Adicionar

Grafismo

Fotografia

 

 

 

 

Mário Castello - Têxtil - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2008

publicado por ardotempo às 03:14 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 10.06.09

O ex-marido de Cicciolina é neopop

Un divo del arte pop
 
Isabel Lafont 
 
 
Arte. Pocos artistas actuales suscitan más controversia que Jeff Koons. Para algunos, es uno de los monstruos que ha creado el desenfreno de un mercado del arte alimentado por nuevos multimillonarios sin más conocimiento del arte que las cotizaciones de las subastas de arte.
 
Para otros, es un genio del marketing, como Damien Hirst o el japonés Takashi Murakami, que en lugar de arte hacen merchandising muy caro, pero merchandising al fin y al cabo. El hecho de que Koons o Hirst se hayan disputado en los últimos años el título de artista vivo más caro, seguramente ha contribuido a alimentar los argumentos de sus críticos.
 
Pero también hay otra posición que cree que Koons ha abierto nuevas vías a las corrientes del arte pop (su obra se suele clasificar de pospop o neopop) y por tanto merece un reconocimiento en la historia del arte.
 
Su obra es explícitamente sexual a veces - quién no recuerda la serie de fotografías abiertamente pornográficas con su ex esposa, Ilona Staller, más conocida como Cicciolina - y casi siempre irreverente. Pero, como suele suceder con las figuras polémicas, para emitir un juicio informado es aconsejable profundizar en ellas. 
 
Isabel Lafont - Publicado em Babelia - El País
tags: , ,
publicado por ardotempo às 20:10 | Comentar | Adicionar

Inscrições para o Prêmio da Jornada de Passo Fundo

 
Está chegando o dia. Se você quer participar, é momento de se apressar porque se encerram nesta sexta-feira as inscrições para o 6º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Podem participar romances escritos em língua portuguesa que tenham sido publicados entre junho de 2007 e maio de 2009. O vencedor receberá R$ 100 mil, e será conhecido na abertura da 13ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, no dia 24 de agosto.
 
Na última edição do prêmio, realizada em 2007, participaram escritores de 17 Estados brasileiros, além de autores de países como Inglaterra, Moçambique, Portugal e Tailândia. O vencedor foi o moçambicano Mia Couto, com a obra O Outro Pé da Sereia. A ficha de inscrição está disponível para download no site da Jornada.
publicado por ardotempo às 18:55 | Comentar | Adicionar

Na Serra da Mantiqueira

Escritores entre montanhas

 

"Ao organizarem alguma coisa não me convidem para a mesa do português Miguel Sousa Tavares. O homem se acha, deve pensar que é o Fernando Pessoa ou Eça de Queiroz  e nem chega aos pés do José Cardoso Pires, Lídia Jorge, Saramago ou Lobo Antunes. Foi marcada uma sessão de autógrafos dele e minha na mesma mesa, mesmo local, ao meio dia e meia de domingo. Ao chegar, ele estava sentado, cumprimentei-o. Ele nem me olhou, rosnou: "Hum". Sentei-me e estendi a mão, dizendo o meu nome. Ele nem estendeu a mão, nem se virou para o meu lado, nem rosnou "Hum". Diante de tanta cortesia, levantei-me, levei minha turma, fui autografar na praça. Não sem antes apanhar o romance Equador, que havia comprado para que ele me autografasse, afinal, é um companheiro de ofício. Na caixa da livraria Saraiva, troquei o Equador pelos 125 Contos de Guy de Maupassant."

 

Ignácio de Loyola Brandão - Publicado em O Estado de São Paulo

publicado por ardotempo às 16:23 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Faz-te à vida, miúdo

O que vêem os olhos quando já não podem ver
 
António Lobo Antunes
 
 
Para a Rita, que sabe enxotar papões.
 
Isto que escrevo é o quê? Uma pessoa a bater à porta sem que lhe respondam e continua a insistir numa monotonia aflita? A mão que imita no papel a chuva da janela? O silêncio do outro lado das vozes quando as nossas lembranças, uma a uma, se calam? Um velho a morrer sozinho num terceiro andar sem elevador e na cabeça dele, não alcançando a boca, o chamamento que só eu oiço
 
- Elisa
 
e o relógio de parede que só ele ouve, com todas as horas da sua vida dentro, as insignificantes, as grandes, um barco a afastar-se? Será isso acabar, um barco que se afasta, uma senhora a dizer adeus com o lenço, por trás do lenço um sorriso e por trás do sorriso ninguém, nem o que pensamos ser a nossa sombra? O lugar onde o Mondego nasce, num fiozinho, entre pedras e o sol no fiozinho e a tua sombra dentro? Isto que escreves é o quê? O teu pobre corpo no hospital, há dois anos, um corpo que não é teu, és tu, um trapo que tenta resistir, desiste, continua e tu, sem orgulho nele, a vê-lo desobedecer-te, diluir-se? Qual o teu nome verdadeiro sob o nome que te chamam e nem a tua mãe conhece? Escreves para quem se estão mudos, se não podem ler-te, se lendo-te se distraem de ti e te abandonam? Que sentido fazes e a quem esse sentido importa? Haverá alguém mais sem companhia do que aquele que fala? Depois de não seres virão escutar-te ou são os móveis da casa que escutam, as cruzetas baloiçando sem descanso nos varões, seja o que for parecido com o mar, a sétima onda que sempre procuraste e nunca veio, vem um enfermeiro medir-te a temperatura na orelha e queres dizer-lhe e não consegues, ao não conseguires perdes o que querias dizer e em ti
 
- Elisa
 
e o relógio de parede com todas as horas da tua vida dentro, sobretudo as que não viveste e te gastaram, mínimas horas entre as quatro e as seis quando era possível, ainda, encontrar um buraquinho onde coubesses neste muro? Não te lamentes, não te tornes amargo, não esperes: ocuparam o teu lugar, não tens espaço, fica o pó de algumas frases que um sopro distraído varrerá, um lugar nas selectas, títulos que penduraste à entrada dos teus gritos, nada porque nada te atinge ou te perturba, é tarde. Isto que escrevo é o quê? A empregada continuará a vir, a tomar conta da casa, a deixar-te bilhetes, a surpreender-se com a ausência de roupa no cesto, a ausência de correio, a ausência de ordens, a camisa azul precisa de, lave melhor o plástico do chuveiro, não encontro a faca do queijo na gaveta? Tão quotidiana foi a tua vida, pequeninos gestos, pequeninas maçadas, pequeninos projectos, pequeninos desejos e tanta luz em volta que te não pertence. És uma estátua entre estátuas, cegaste?
 
Quem passeia o cão que não tens, quem examina o que te resta de intestinos, quem morrerá contigo se morreres? Fotografias de outro, cartas de outro, o teu prato não na mesa, vazio, limpo? Mais perguntas ainda ou nenhuma pergunta, vais-te embora e ficas, durarás para sempre a esta mesa, nesta rua, neste quarteirão, a lembrares-te do homem que vivia com o gato e passava fome para comprar fiambre ao bicho, peixe caro, miminhos, enquanto ele se alimentava de cerveja, resmungos e cigarros? Ou o sujeito enorme que ao deixares o automóvel no passeio te tranquilizou, olhando o fulano das multas com desprezo
 
- Vá sossegado, doutor, que por cima de mim só os aviões?
 
Ou aqueles que não te deixavam pagar a torrada, o Julinho, o Carlos, os outros que, ainda estás para saber porquê, te estimavam? O paquistanês que se despediu de ti a apertar-te a mão, comovido
 
- Tenho de me ir embora, desculpe, não ganho um tostão com a loja
 
sentindo-se culpado de ser pobre? O senhor Varela, digno, delicadíssimo, de cabelos brancos, a quem o cancro levou a esposa e se injectava derivado aos diabetes, iluminando a esquina ao cumprimentar-te
 
- Ontem à noite senti-me mal, rezei dois Padre-Nossos, melhorei
 
a solidão que morava nesta conversa, rezei dois Padre-Nossos, melhorei? Senhor Varela, senhor Miguel que te oferecia do bolo que a mãe fez no Alentejo, João Paulo, Vítor, Senhor Cardoso, dona Irene, senhor Jorge, sempre tão atentos contigo, generosos? Senhor Leonel, senhor Paulo, um rosário protector à tua volta e tu a pensares
 
- Não mereço a vossa estima?
 
Formaram a matéria dos teus livros, ensinaram-te tanto, e tu é que eras o doutor, tu é que eras importante, que patetice, que asneira, ficarás aqui ao ires-te embora? Ficarás aqui ao ires-te embora, é aqui que pertences, reencontraste a Benfica perdida neste lugar de Lisboa, nestas pessoas que não sonham o que lhes deves nem acreditam em ti por mais que o repitas
 
- O senhor doutor está a brincar
 
convencidos que estás a brincar e não estás a brincar, é no meio desta gente que te sentes bem, deste canto que ninguém a não ser nós sabe onde fica, é para eles, que te não lêem, que escreves. O senhor Ribeiro, que ainda não saiu da guerra na Guiné, a dona Fernanda que te enrolava salsichas em couve lombarda, a esplanadazinha com as empregadas brasileiras do cabeleireiro?
 
O teu avô nasceu em Belém do Pará, o teu bisavô nasceu em Belém do Pará, ao teu trisavô, filho de camponeses da Póvoa do Lanhoso, meteram-no num veleiro faz-te à vida, e ele fez-se à vida, que remédio, e lá andou na borracha, aguentou-se. Chamava-se Bernardo António Antunes e aguentou-se. Aguenta-te tu. Isto que escrevo é o quê? O trineto do senhor Antunes a aguentar-se, a nobreza dele um casinhoto que deixou de existir há séculos, na Póvoa do Lanhoso. Todo o Minho do sangue do senhor Antunes está no teu, é uma criança num veleiro, a fazer-se à vida. Faz-te à vida, miúdo. António Antunes, mais o Lobo da nora do senhor Antunes, Leopoldina claro, como a imperatriz. O teu pai tinha retratos dela, morreu nova. Isto que escreves é Belém do Pará a tremer ao longe nas histórias que te contavam em pequeno, mamãe diz ao papai que eu quero ir para a guerra do Paraguai. E vou. Pensando bem já lá cheguei há que tempos.
 
© António Lobo Antunes
tags:
publicado por ardotempo às 03:58 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 09.06.09

Conto inédito de Jean-Michel Lartigue

Equívoco
 
Jean-Michel Lartigue
 
Começou na hora do jantar. Estava segurando o garfo quando sentiu um leve formigamento nos dedos. Aos poucos foi intensificando, até ficar tão forte que teve de deixar o talher. Passou. Ficou na cabeça.
 
Na hora da novela, voltou. Uma vibração desagradável deslizava pela espinha, dos ombros até os rins.  Lembrou das sessões de fisioterapia que tivera no ano anterior, ele nunca havia gostado das ondas curtas. Passou também. Mas a estranha sensação fincou uma bandeira escura na sua mente. Pressentia alguma coisa e a coisa tinha uma cor sombria, verde escuro precisamente. Estremeceu. Nem conseguiu assistir o beijo apaixonadamente estúpido no final do capítulo, deu vontade de escovar os dentes e deitar.
 
Foi na frente do espelho que a percepção tomou forma e adquiriu sentido e palavra: metamorfose. A compreensão súbita de que estava se transformando em algo o deixou mais perplexo do que apavorado. Algo. Era uma palavra sem sentido, indefinida, vazia. “Algo” não era nada, não era ninguém. Em que “algo” estaria se tornando? Sentiu a pele do rosto mais esticada, a boca ligeiramente mais curta, as sobrancelhas mais finas, o olhar mais suave. Notou a ausência absoluta de barba de final de dia, afecção exclusivamente masculina.
 
Estava perfeitamente liso. Imberbe. Como uma mulher. Reprimiu um sorriso. Era melhor ser uma mulher do que um inseto kafkiano. Verificou os membros, quatro, que bom, pensou, aparentemente tudo estava normal por esse lado, as pernas apenas um pouco dobradas para fora, coisa a toa, não tinha motivo para agachar-se, tentou ficar reto e não conseguiu.
 
Estranhou e esqueceu em seguida, havia notado uma, duas, três espinhas verdes no rosto, mais pareciam escamas. Ao passar a mão no queixo e na bochecha voltou a sensação ruim que tivera assistindo a novela. A pele estava fria. Lisa, fria e esverdeada. Um sapo! Estava se transformando em sapo! Pensamentos oblíquos colidiam desordenadamente nas paredes parietais do crânio: tinha que ligar imediatamente o chuveiro ou encher a banheira, água era necessária, urgente, coisa de vida ou morte, se via pulando o tempo todo no recinto do seu quarto sala até morrer de cansaço ou de tédio ou de solidão, a solidão do sapo era terrível e nunca tinha sido objeto de pesquisa zoológica, não se podia aliviar a angústia dos batráquios, no final uma moça caipira iria surgir do nada e de um beijo na boca transformá-lo de volta em humano encantado. Foi para a cama sem mais olhar no espelho, pensando se valeria a pena voltar a condição de homem, voltar a enfrentar a inutilidade de sua vida, se não seria melhor ficar pulando mesmo atrás das moscas de verão que entravam pela varanda.
 
Quando acordou avistou a cama a uma distância de uns dois metros, bem abaixo. Virou a cabeça e deu de cara com um ângulo reto e metálico prolongado por uma borda do mesmo metal azulado. Seguiu-a até o ângulo seguinte. Deu a volta do quadro - reconheceu a gravura de Peticov pendurada no seu quarto - e subiu até o teto. Sentia-se seguro, perfeitamente grudado às paredes. Olhou para baixo e leu as horas no despertador digital: três horas.
 
Estava escuro no quarto, mas na sala entrava o luar; correu pelas paredes e parou em cima da porta que dava para a sacada. Voltavam lembranças de acrobacias infantis, quando escalava as macieiras do jardim de sua avó. Curtiu, percorrendo o apartamento inteiro numa velocidade incrível, sem jamais precisar ficar no chão. Na luz tênue que banhava a sala acabou enxergando a sua cauda e as patas. Assim, tinha se metamorfoseado em lagarto.
 
Por que não? Era um destino talvez inusitado para um ser humano, mas quem falou que havia algum mérito em ser um ser humano, ter mãos e pés simiescos, uma coluna fraca e uma cabeça mais ainda? Rememorou a semana anterior, a crise aguda de depressão, a televisão ligada - a televisão era melhor amigo que um cachorro, falava sozinha sem se incomodar do silêncio dele e até chegava a emitir sinais de inteligência em algumas ocasiões - lembrou do programa do National Geografic Channel e da morte de um lagarto pelo bote certeiro de uma víbora. Coisa terrível a de nascer lagarto, havia pensado. A idéia de que ele poderia ter vindo ao mundo na pele lisa e verde de um lagarto o deixara paralisado por longos minutos, num bloqueio mental introspectivo salutarmente interrompido pelo interfone, a pizza havia chegado. Lagarto não come pizza e comedor de pizza não é mordido por víbora em apartamento com carpete. Esquecera do acontecimento, até a metamorfose.
 
Por que não um lagarto afinal. De toda evidência, era um lagarto urbano, com riscos remotos de cair na cadeia alimentar de cobras ou águias. Ele, por sua vez, podia caçar a vontade os pernilongos que antes o atormentavam. Ia se vingar de todas as picadas sofridas na vida.
 
Ouvira dizer que apenas pernilongos fêmeos sugavam o sangue dos adormecidos indefesos. Mulheres. Não tinha por que se vingar delas - entre as que o fizeram sofrer e as que ele fizera sofrer a conta devia estar empatada - tampouco tinha por que não se vingar. De qualquer modo, iria nada mais do que obedecer ao instinto do lagarto. Ia rastejar em silêncio, sem deslocar sequer uma molécula de ar, ficar na espreita, dar o bote de língua afiada nas asas e comê-las sem pudor nem remorso. Seria um ato de sexualidade antropofágica. Uma pura delícia. Decretou que a vida de lagarto urbano valia a pena. Iniciou a caça.  
 
Aventurou-se na varanda, atrás de um pernilongo particularmente apetitoso. Imobilizado do lado de fora da sacada, virou lentamente a cabeça, acompanhando o vôo despreocupado do inseto. Enxergou o seu próprio reflexo no vidro da porta, mas não durou mais que um décimo de segundo. Estava pelado. Viu os olhos estarrecidos e só. O pavor tomou conta de oito andares imediatos.  
 
Encontraram o corpo de madrugada. Ao lado acharam uma pequena cauda de lagarto quebrada. A polícia concluiu em suicídio. 
 
 
 
 
© Jean-Michel Lartigue
publicado por ardotempo às 13:47 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 08.06.09

Espera

Fotografia

 

 

 

Mário Castello - À espera da chuva - Série Mantiqueira - Fotografia (São Bento do Sapucaí SP Brasil), 2008

publicado por ardotempo às 12:22 | Comentar | Adicionar

Recato

Num mundo cada vez mais mediático e feérico, ser recatado não é um contrasenso ou uma exceção à regra, tampouco revela comportamento excêntrico ou bizarro, é simplesmente a recriação primordial do conceito do luxo.
publicado por ardotempo às 12:20 | Comentar | Adicionar

Regra

 
Desde o naufrágio do Titanic, os passageiros de 1ª Classe e de Classe Executiva  são os que pagam mais caro pelo seu próprio infortúnio.
publicado por ardotempo às 03:01 | Comentar | Adicionar

Estatística

O criador de notícias

 
O criador do maior avião de passageiros de todos os tempos é, ao mesmo instante, o criador da maior tragédia com vítimas fatais, com certeira precisão estatística, como jamais se imaginara antes.
publicado por ardotempo às 02:56 | Comentar | Adicionar
Domingo, 07.06.09

Árvore de Caiobá

Fotografia

 

 

 

Mário Castello - Árvore de Caiobá - Fotografia (Caiobá PR Brasil), 2009

publicado por ardotempo às 23:29 | Comentar | Adicionar

Salto Alto Vermelho

Fotografia

 


 

Mário Castello - Salto Alto Vermelho - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2009

publicado por ardotempo às 23:23 | Comentar | Adicionar

Irreconhecíveis

No aeroporto, num triste sítio solitário, o busto em bronze do homenageado é irreconhecível. Na placa iluminada, estão bem visíveis os nomes de todas as autoridades interessadas na homenagem: o presidente, o governador, o ministro, o prefeito, o administrador. Irreconhecível também porque esquecido em anonimato, está o artista autor da estátua.

publicado por ardotempo às 22:43 | Comentar | Adicionar

Guerra

Guerras adjetivadas
 
Não existe guerra “santa” ou “honrada”. Existe apenas a violência ilimitada, o morticínio patrocinado em logotipos e amortecido pela fé das orações.
 
publicado por ardotempo às 22:35 | Comentar | Adicionar

Chance: sorte e azar

Azar
 
 
 
Como acreditar em chance, num jogo em que os apostadores colocam as fichas com a mão, e a banca as recolhe com um rodo?
 
Eduardo Longman
publicado por ardotempo às 22:33 | Comentar | Adicionar

Repensar o modelo

Se a crise econômica é uma onda, a crise ecológica é um tsunami” –  Nicolas Hulot
 
As finanças e a tecnologia não bastam para enfrentar a crise. Há que construir um novo modelo econômico“. O apelo vem de Nicolas Hulot, autor da frase do título, que lançou as sementes da revolução verde francesa, a qual Al Gore deseja agora ver nascer como projeto mundial.
 
Nicolas Hulot, um repórter, ecologista e escritor francês de 54 anos, tornou-se muito popular em seu país graças ao sucesso de seu programa televisivo Ushuaia e Okawango, pelo qual busca sensibilizar o público em geral para as questões ecológicas. O programa deu mesmo origem, em 1990, à Fundação Ushuaia, que cinco anos depois assumiria o nome de Fundação Nicolas Hulot - pela Natureza e pelo Homem.
 
No percurso de mais de vinte anos de sensibilização para a causa ecológica, somam-se, ainda, sua candidatura à presidência da república francesa, em 2007, a autoria de 17 livros e a produção de um filme com lançamento previsto para 2009. A popularidade das suas intervenções chega, inclusive, a traduzir-se na lotação esgotada do Zénith, uma das maiores salas de espetáculos da França, e nas 700 mil assinaturas que reuniu com o lançamento do seu Pacte Écologique, que convida os franceses a subscrever um pacto para salvaguardar o futuro do planeta. Uma das assinaturas é a do atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, que, assim, assume um compromisso público com a causa ecológica.
 
Renovar o sistema econômico internacional como resposta aos desafios sociais, econômicos e ambientais é a sugestão de Hulot, face ao tenso cenário atual. Bastante influente na França e a segunda personalidade mais admirada no país, o ecologista tem até mesmo apresentado ao presidente Sarkozy propostas para as reuniões de cúpula do G20. Para isso, conta com o Comitê de Vigia Ecológica da fundação que leva o seu nome, constituído por diversos especialistas, de economistas a biólogos. No eixo da discussão, dois pontos-chave: substituir as taxas sobre o trabalho por taxas sobre o consumo de produtos e de serviços da natureza.
 
Uma solução que poderá gerar mais empregos e aliviar a economia da atual depressão.
 

Sandrine Lage - Publicado no blog Verdes Trigos 
tags:
publicado por ardotempo às 22:31 | Comentar | Adicionar

Muito depressa

O tempo em movimento
 
No dia 11 de setembro de 2001 o curso da História da civlização mudou. O assassinato de centenas de passageiros de aviões e de milhares de funcionários empregados em dois prédios numa metrópole norte-americana extinguiram definitivamente a frágil conduta ética no comportamento organizado das culturas das civilizações. A partir daquele momento a nova barbárie instalou-se e informou a ausência das regras e dos limites de conduta.
 
A guerra, que sempre fora intolerável, suja e cruel, tornou-se hedionda e de brutalidade desmedida, fora de qualquer controle.
 
publicado por ardotempo às 22:28 | Comentar | Adicionar

As sombras da memória

Uma experiência radical
 
Ferreira Gullar
 
Naquela noite de abril de 1959, no apartamento de Lygia Clark, ali, na Prado Júnior, esquina com avenida Atlântica, quando li o manifesto neoconcreto para os companheiros que deveriam assiná-lo, nem eu nem nenhum deles imaginaria o que de fato começava naquele momento. Na verdade, começava um movimento que marcaria a história da arte brasileira e seria reconhecido como efetiva contribuição à vanguarda artística internacional.
 
Até algumas semanas antes, não me passava pela cabeça escrever um manifesto que assinalasse um rumo novo para a arte construtiva no Brasil. A proposta inicial, de Lygia Clark, era fazermos uma exposição coletiva para mostrar os trabalhos que os integrantes do grupo haviam realizado nos dois últimos anos.
 
Fiquei encarregado de escrever o texto de apresentação dessa mostra, mas, ao começar a tomar notas para escrevê-lo, dei-me conta de que os nossos trabalhos - tanto dos artistas plásticos como dos poetas - diferiam muito do que se entendia por arte concreta.
 
Por que, então, me perguntei, continuar a nos chamar de "grupo concreto do Rio", em contraposição ao grupo concreto de São Paulo? Ocorreu-me o nome "neoconcreto" porque, ao mesmo tempo que indicava a nossa origem (o concretismo), afirmava que já não seguíamos a mesma trilha. Algo novo nascera.
 
Essa é a razão por que, diferentemente dos demais manifestos, o nosso não anunciava a arte do futuro: apenas mostrava que os trabalhos mais recentes do grupo diferiam do concretismo de Max Bill, dos concretos argentinos, dos paulistas e, mais que isso, que nossa visão teórica da arte era radicalmente outra.
 
Em que consistia a diferença? Vou tentar explicá-lo sucintamente: a arte concreta, herdeira que era das vanguardas construtivas do começo do século 20, transformara a pintura numa espécie de exploração das energias do campo visual, o que a tornara uma experiência estritamente retiniana, ótica, destituída de qualquer subjetividade.
 
Essa concepção estética era o reflexo, no plano da arte, da visão racionalista e cientificista, que pretendia eliminar da expressão artística toda e qualquer emoção e fantasia. Dentro dessa concepção, o que não fosse objetivo e "científico" não passava de resíduo romântico, que a modernidade superara.
 
Contrapondo-se a isso, nosso manifesto, apoiado na fenomenologia de Merleau-Ponty, afirmava que a experiência afetiva do homem no mundo era um modo de conhecimento tão verdadeiro quanto o conhecimento científico. E, do ponto de vista da criação artística, mais rico. Isso implicava um retorno à subjetividade e a substituição da expressão ótica instantânea pela duração e pela participação manual, tátil do espectador na obra de arte.
 
Essa nova relação obra-espectador -que começou com os "livros-poema", os "poemas espaciais" e desenvolveu-se com os "bichos" de Lygia Clark- teria desdobramentos inesperados, nas obras futuras da própria Lygia e de Hélio Oiticica.
 
A visão neoconcreta, ampliada na teoria do não-objeto, pôs em questão a natureza contemplativa da experiência estética e abriu caminho para que a ação substituísse a contemplação. Daí os "objetos relacionais" de Lygia e os "parangolés" de Hélio, antecipadores do que hoje se chama de arte contemporânea, mas que não devem nada a Duchamp.
 
Encerrei minha participação no movimento neoconcreto, depois de inventar o "poema enterrado", construído na casa de Oiticica, mas que, no dia de sua inauguração, estava inundado pela chuva da noite anterior. Fui então trabalhar em Brasília, donde voltei para atuar no CPC da UNE, desligando-me das experiências de vanguarda para escrever poemas políticos e trabalhar pela reforma agrária. O resto se sabe: golpe militar de 1964, intimação para responder a inquérito policial-militar. O CPC virou o Grupo Opinião, um dos centros de resistência à ditadura militar. As consequências foram prisão, clandestinidade e exílio.
 
Não obstante, meu afastamento não significou o fim do neoconcretismo. Pelo contrário. Especialmente Lygia e Hélio, com sua audácia, estenderam a desdobramentos extremos as propostas implícitas na teoria neoconcreta, hoje considerada uma contribuição brasileira ao pensamento estético contemporâneo.
 
Esses dois artistas ganharam reconhecimento internacional, tendo levado para além dos limites do que se chama arte as inquietações nascidas daquele convívio e intercâmbio que nos uniam e incendiavam. Isso foi há 50 anos.
 
 
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL
Fotografia de Mário Castello - A sombra de Duchamp (São Paulo), 2004
publicado por ardotempo às 22:25 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

Pesquisar

 

Junho 2009

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
13
25
27

Posts recentes

Arquivos

tags

Links