Sábado, 09.08.08

César

Escultura de César

 

 

Agacha 316 - César - Escultura, compressão de materiais diversos: aço, plásticos, borracha e ferro - Marseille, 1998 

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Sexta-feira, 08.08.08

Guarajuba, Bahia

 Fotografia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Praia de Guarajuba, Bahia - Fotografia de Mário Castello, 2008

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Chartier, Paris - por Pierre Yves Refalo

 Fotografia

 

 

 

Chartier (Restaurante parisiense datado de 1896, Rue du Faubourg-Montmartre nº 7, IXème - Garçons "bouillonneux" capazes de transportar até 25 pratos de cada vez e cuidar de dezenas de pedidos, sem anotar nada, para acelerar o serviço - a velha geração que vai sendo substituída aos poucos pela nova geração de imigrantes asiáticos e árabes) - Fotografia de Pierre Yves Refalo, 2008 

publicado por ardotempo às 22:27 | Comentar | Adicionar

CARASSOTAQUE - Lançamento em outubro

Um novo livro - uma novela.

 

 

CARASSOTAQUE

Autor: Alfredo Aquino

Editora: Iluminuras

Apresentação de capa: Luís Augusto Fischer

Prefácio: Aldyr Garcia Schlee

Capa: Pierre Yves Refalo

Número de páginas: 144

ISBN nº 978-85-7321-286-0

 

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Quinta-feira, 07.08.08

Rumor Olímpico

Novo espírito

 

Luis Fernando Verissimo

 

Se é que existiu algum dia, o espírito olímpico há anos não comparece às Olimpíadas, cujo lema não declarado tem sido que o importante não é ganhar, é ganhar muito. Os atletas competem pelas suas bandeiras nacionais e as nações competem entre si para provar qual é a mais forte, bem nutrida e abençoada.

O ideal do congraçamento universal para festejar os feitos de superação da raça humana não conseguiu vencer a idéia mais simples e realista da competição tribal. Na verdade, o único momento de congraçamento dos jogos — e por isso o mais bonito, pois recupera o ideal derrotado, mesmo que por um instante — é o que vem acontecendo depois dos desfiles de encerramento, quando as delegações se misturam, os atletas se abraçam e todos se comportam, afinal, como uma espécie só.

A partir da Olimpíada de 1936 em Berlim, que os nazistas quiseram usar para mostrar a superioridade da raça ariana, a política tem ajudado a abafar os ideais olímpicos, E a partir do atentado contra atletas judeus em Munique, em 1972, as Olimpíadas, como as Copas do Mundo e outros eventos de massa, passaram a conviver com a ameaça do terror. Munique 72 mostrou que era impossível manter sequer um simulacro de distanciamento olímpico das fissuras do mundo, e desde então cada nova Olimpíada, Copa do Mundo etc. se realiza sob a expectativa do desastre.

Por sorte o desastre não se repetiu depois de Munique, salvo um ou outro boato de bomba, mas a ameaça permanece, cada vez mais preocupante, porque as fissuras aumentam. Agora mesmo, às vésperas dos Jogos de Pequim, houve um atentado com mortes de separatistas de uma região da China que poucos sabiam que existia, quanto mais que queria se separar.

Mas de quatro em quatro anos se tenta reavivar todas as melhores intenções olímpicas, como se nada tivesse acontecido e pudesse acontecer. O distanciamento olímpico renasce na forma de mentira: vamos fingir que está tudo bem, e que venha a festa. Assim as Olimpíadas se repetem como símbolos de normalidade apesar de todas as evidências em contrário. E o novo espírito olímpico não tem nada a ver com ideais altissonantes. É um espírito de resistência, um espírito de cidadela sitiada. É isso que você deve pensar, vendo a cerimônia de inauguração, que eu ainda não vi e já achei espetacular. Vai ser tudo mentira, mas a alternativa é entregar a cidadela aos bárbaros.

 

 

© Luis Fernando Verissimo

 

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Quarta-feira, 06.08.08

A morte de Soljenitsin

Texto de João Paulo Sousa

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
A propósito da morte de Soljenitsine, aqui recordo o número 45/47 da revista Nova Renascença, referente à Primavera e ao Outono de 1992, onde José Augusto Seabra (JAS) escreveu sobre os entraves postos à publicação em Portugal do Arquipélago de Gulag. Convirá lembrar que JAS colaborou na tradução do volume, apurando, como ele mesmo referiu, "o estilo em português da versão feita directamente a partir do russo", por Francisco Ferreira, dissidente do PCP, e pela sua mulher, Maria Llistó. Como é sabido, o livro, em edição da Bertrand, só saiu entre nós em 1975, perto do fim do "gonçalvismo". Nas palavras de JAS, tal apenas foi possível, apesar da pressão exercida pelo Partido Comunista ou pelos sectores que lhe eram próximos, porque se alertaram "os meios políticos e a opinião pública para essa tentativa censória" (p. 348).
No citado número da Nova Renascença, precisamente dedicado à análise e à desmontagem do totalitarismo comunista, consta também um excerto do volume (em concreto, retirado do capítulo "História da nossa Civilização"), que se detém em considerações sobre o artigo 58 do Código Penal soviético de 1926, exemplo pertinente e assaz significativo da lógica repressiva da (entretanto) extinta União Soviética.

Não creio, porém, que o mérito moral da denúncia que Soljenitsine levou a cabo baste para o considerar um grande escritor. Herdeiro de uma atitude estética que encontra em Tolstoï uma das figuras mais relevantes, o autor de Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch parece ter atravessado o século XX com as armas artísticas do século XIX (bem ao contrário de dois dos seus antecessores russos, Dostoiévski e Tchékhov, ambos de origem oitocentista, mas cujas obras, graças às formas literárias que assumiram, preservaram a sua força até ao nosso tempo).

 

Tenho, assim, a impressão de que o entusiasmo suscitado hoje por Soljenitsine em tantos antigos esquerdistas se poderá ficar a dever a uma espécie de má consciência, devida à descoberta tardia do que era, afinal, o paraíso soviético na terra. Na verdade, talvez mais do que o livro sobre a Administração Geral dos Campos, que, quando muito, poderá ter aparecido na altura certa, há de ter sido o esgotamento da crença a conduzir ao afastamento da órbita do PC. Os exemplos da lógica totalitária estavam ao alcance de quem os quisesse ver desde, pelo menos, o fim da Segunda Guerra (estou a ser generoso), e as repressões húngara e checa não foram exactamente brincadeiras infantis.

 

O problema, como se sabe, é que, em matéria de fé, não há razão que resista. 

 

Publicado no blog Da Literatura

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Utopia Realizada

 Jornada de Passo Fundo, RS - Brasil

 

A Jornada tem uma extraordinária ambivalência: ela é um megaevento que reúne milhares de interessados em literatura (professores, alunos, leitores leigos, escritores, editores, jornalistas) em poucos dias efusivos, mas é também um processo, que se estende pelas escolas e bibliotecas de uma larga região (uns 200 kms de raio em torno de Passo Fundo, RS) na forma de incentivo à leitura, debates, formação continuada, teatralização, etc, durante o ano todo. Não é uma espécie de utopia realizada, neste nosso país de poucos leitores? É sim.”

 

Luís Augusto Fischer

 

publicado por ardotempo às 14:10 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

"Um chops e dois pastel"

É a palavra de ordem no boteco
 
Pode-se afirmar que é uma expressão coloquial paulistana clássica. Acontece em várias rodas e em todos os botequins de São Paulo, sempre que existe a oportunidade de ser falada e, na seqüência, invariavelmente, claro, todos sorriem, solidários com a "originalidade" do viés repetitivo. 
 
Uma expressão espontânea que se insere na brejeirice da tradição poética boêmia, disseminada talvez, pela forma peculiar da fala de Adoniram Barbosa, compositor do Bixiga (Bela Vista), de acentuado sotaque do bairro, autor de sambas nacionalmente conhecidos como o Samba do Arnesto, Trem das Onze e Saudosa Maloca
 
Dessa raiz brasileirinha que gerou alguns achados preciosos “...frechada de tiro ao álvaro...,” “... cada táuba que caía...”, poderia ter vindo igualmente o pedido arisco e bem humorado que tanto se utiliza nas mesas mais populares, para a solicitação da bebida e dos salgadinhos.
 
Nela repousa (inconscientemente ou não) uma espécie de senha revelada do cosmopolitismo paulistano, antídoto atávico e sofisticado contra o provincianismo que passa bem à distância da grande metrópole. E é com essa expressão de auto-ironia e alegre ingenuidade que o paulistano brinca de forma recorrente, com modéstia e ausência de soberba, neutralizando e atribuindo consistência à sua condição de habitante descontraído de uma das cidades mais populosas do mundo e a mais rica e pujante da América Latina.
 
Um chops e dois pastel é a esgrima rápida e acumpliciada de todas as idades, nos divertidos e animados bares das happy-hours, nas vilas madalenas e marianas, no velho centro da cidade, de boêmia atualmente revigorada. Nos bares anônimos e singelos de todas as esquinas da grande cidade e seria também nas feiras-livres (que produzem todos os dias desde cedo, disputados pastéis, aos milhares, fritos na hora, fumegantes, de queijo, carne, palmito e tantas outras versões bem ao gosto do consumidor) se ali se vendesse também o chope ou a cerveja “estupidamente gelada”.
 

Os pastéizinhos são deliciosos em harmonia com o chope de barril e tudo isso forma um cenário corriqueiro e familiar aos habitantes da cidade de São Paulo, de custo acessível e prazer garantido aos protagonistas, que transitam felizes entre seus bares preferidos, desde os mais simples aos mais requintados. Naturalmente, isso se os pastéis não estiverem excessivamente gordurosos, e o chope estiver na temperatura adequada e com o seu colarinho perfeitamente bem tirado. Bom apetite

 

 

 

 

© Palavras da Cidade - São Paulo, 2008

Texto de Alfredo Aquino

Foto de Pierre Yves Refalo 

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O buquê da sereia

"Saudáveis peixes frescos embrulhados em folhas do jornal do dia"


 


 

"O buquê da sereia" - Mauro Holanda - Fotografia

publicado por ardotempo às 13:44 | Comentar | Adicionar

Coringa

Ricardo Noblat

 

 

 

Foi ontem à noite, na última sessão de uma sala de cinema aqui perto de casa. De tanto insistir, André, o filho roqueiro petista, que já assistira o filme três vezes, conseguiu me arrastar para assistir ao novo Batman.

 

Sou do tempo de Marcelino Pão e Vinho, produção espanhola exibida entre nós no final dos anos 50 do século passado; de Lili, Bambi e Dez Mandamentos - esse, de tão longo, era interrompido no meio para que pudéssemos ir ao banheiro e beber água.

 

Sou do tempo também de Faca na Água, incompreensível filme do francês Roman Polansky que no final dos anos 60 fez muito sucesso entre intelectuais e estudantes que por aqui imaginavam mudar o mundo para melhor.

 

Gosto muito de cinema, mas não assisti à série Guerra nas Estrelas, Harry Porter e a nenhum filme sobre super heróis. Não colecionei gibis. André coleciona e é especialista em super heróis. Garantiu-me que o Batman em cartaz é o melhor feito até hoje.

 

O que observei:

 

As calças jeans das adolescentes que estavam na fila do cinema continuam rasgadas na altura dos joelhos. Há mais de um rombo às vezes. E elas pagam mais caro por calças jeans rasgadas. Provoquei uma delas: "Ih, você rasgou sua calça..." Ela me olhou com pavor como se temesse ser atacada. Depois relaxou e respondeu: "É assim mesmo, tio". (Detesto ser chamado de tio pelas amigas de minha filha.)

 

Permanece alto o percentual de falsas louras, todas elas de cabelos escovados. Como tem feito frio à noite em Brasília, casacos de pele foram resgatados dos armários e as botas estão em alta. O que torna essas meninas inalcançáveis para quem mede menos de 1 metro e 70 como eu. Bem, não é isso que as torna inalcancáveis.

 

Havia muitos rapazes tatuados e com piercing nos lábios, orelhas, narizes, e sei lá mais aonde. Um deles exibia uma Sakura no alto do braço direito. Sakura é a flor nacional do Japão. Depois de comprar no Rio minha primeira bicicleta e de pedalar pela primeira vez depois de 40 anos, comentei outro dia com Rebeca que estava pensando em me tatuar. Ela nem respondeu.

 

Sim, o filme. Não leve crianças para vê-lo. Vá você. É para adultos. Talvez seja o filme mais bem feito sobre terrorismo. Qualquer ator razoável seria capaz de fazer o papel de Batman. De máscara e metido naquela roupa soturna, o herói não exige um grande ator para vivê-lo. O Coringa, esse não. Só um excelente ator seria capaz de interpretá-lo. 

 

E sei que chovo no molhado: mas será muito difícil vir a existir outro Coringa tão bom quanto o concebido por Heath Ledger. O Coringa anterior de Jack Nicholson era gaiato, quase diria inocente. O de Ladger é a própria encarnação do mal. Você passa o filme inteiro querendo ver Ledger na tela - e até se irrita com Batman e os demais personagens.

 

 

Publicado por Ricardo Noblat, no Blog do Noblat

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Poema de Leonard Cohen

Cansados

Leonard Cohen

 

Estamos cansados de ser brancos

e estamos cansados de ser pretos

e não vamos continuar a ser brancos

e não vamos continuar a ser pretos

nem por um segundo mais.

Agora vamos passar a ser vozes,

vozes desencarnadas no céu azul,

harmonias agradáveis

nas cavidades do nosso tormento.

E permaneceremos assim até perceberem,

até o seu sofrimento os acalmar,

e poderem acreditar na palavra de Deus

que disse excessivas vezes,

e de várias maneiras,

para se amarem uns aos outros,

ou pelo menos para não torturarem

e assassinarem em nome da estupidez

e do vômito de uma qualquer idéia humana

que faz com que Deus se afaste de vocês

e escureça o cosmos com um desgosto inconcebível.

Estamos cansados de ser pretos,

e não vamos continuar a ser brancos

e não vamos continuar a ser pretos

nem por um segundo mais.

 

 

Leonard Cohen, Livro do Desejo - Tradução de Vasco Gato.

Publicado no blog Bibliotecário de Babel

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Terça-feira, 05.08.08

Leveza

A revolução bem-humorada

 

Ferreira Gullar 

 

Foi no Diário Carioca que aprendi a fazer jornalismo bem-humorado.

 

O jornal ficava na avenida Rio Branco, quase na praça Mauá, perto do edifício de A Noite, onde funcionava (e ainda funciona) a Rádio Nacional. Quando as fãs da Emilinha Borba saíam do Programa César de Alencar, cantando pela rua, Tinhorão, da janela da Redação - que ficava na sobreloja -, gritava: "Macacas!" E as "macacas de auditório", como eram apelidadas, respondiam com palavrões. Prudente de Moraes, neto, o inesquecível Prudente, que chefiava a Redação, ria de sacudir a barriga.


Esse era o clima do Diário Carioca, cujo diretor, Pompeu de Souza, também vivia rindo, e assim implantara no noticiário da imprensa brasileira o lide e o sublide, mas sobretudo o bom humor. Nessa escola completei meu aprendizado de redator, que havia iniciado na revista Manchete, onde conheci Janio de Freitas, já então empenhado em mudar o aspecto gráfico de nossa imprensa.


Sucede que o Diário Carioca atrasava o pagamento, obrigando-nos a tirar vales durante o mês. Carlos Castello Branco, preocupado comigo, sugeriu ao Odylo Costa Filho que me levasse para o Jornal do Brasil, onde iniciava uma reforma radical. Ali, pouco depois, assumi a direção do copidesque, a que vieram integrar-se Janio e Tinhorão, ambos do DC, além de Edison Carneiro e Luiz Lobo.


Odylo, que era sobretudo repórter político, não entendia de cozinha de jornal e, por isso, tinha dificuldade em fazer avançar a reforma do jornal. Por sugestão de Janio, chamou Amilcar de Castro para paginar o jornal e com isso viabilizou-se uma série de mudanças. No plano gráfico, eliminou-se o fio preto que separava as colunas, arejando as páginas do jornal. Outra mudança importante foi a adoção de uma mesma família de tipo para todo o jornal, pondo fim ao aspecto sujo, confuso, das páginas, o que era comum a todos os jornais brasileiros. Noutro plano, uma inovação importante foi acabar com uso tradicional de iniciar as notícias na primeira página e remeter o leitor para as páginas de dentro.

 

Agora, a primeira página trazia sínteses (lide e sublide) das matérias importantes, que se leriam inteiras nas páginas correspondentes. Para isso, era preciso que nenhuma matéria transbordasse de uma página para outra, o que levou à adoção do papel diagramado, que permitia escrevê-la no tamanho determinado pela diagramação. Uma verdadeira revolução que iria mudar, com os anos, todos os jornais brasileiros. Em tudo isso, minha contribuição foi mínima, quase nenhuma.


Fui responsável, sim, por algumas gaiatices, como a de uma notícia que redigi sobre o vírus da icterícia, que um telegrama da United Press descrevia como sendo redondo, mutável etc. Pus o seguinte título: "Descoberto o vírus da icterícia: é redondo". No dia seguinte, ouvi uma bronca do Odylo, que me acusava de brincar com a notícia. Expliquei-me que com aquele título buscava despertar o interesse do leitor e não me emendei. Pouco depois, faltou água na cidade devido a um acidente ocorrido na subadutora de Macacos, parte do sistema do Guandu. Dei à notícia este título: "Causa da falta d'água no Rio: Macacos". Nova bronca do diretor do jornal. Mal ele virava as costas, e eu sorria para meus colegas do copidesque, solidários comigo.


Antes da reforma, o JB era um jornal de anúncios classificados, que ocupavam até mesmo a primeira página. Agora, ela era ocupada por manchetes e notícias, mas uma coluna de classificados fora mantida, como alusão ao passado. Fotografia, ali, nem pensar. E isso nos deixava inconformados.


Certa noite, porém, Odylo teve que sair cedo e me deixou à frente da Redação. Deu-se mal porque caiu-me nas mãos uma fotografia que, se não me engano, era do casamento de Ibrahim Sued, um acontecimento no high-society. Decidimos pô-la, grande, na primeira página, desse no que desse.


Na tarde seguinte, mal entrei na Redação, Odylo me chamou: "Quem o autorizou a pôr uma foto na primeira página do jornal?"


Estava sem saber o que dizer, quando o telefone tocou e a telefonista chamou Odylo: era a condessa Pereira Carneiro, dona do jornal. Ele atendeu: 
"A senhora gostou? Ótimo... Muito obrigado, senhora condessa...
Virou-se para mim, sorrindo: "Vocês ganharam!"


Muitos anos depois, já trabalhando noutro jornal, leio no JB a notícia de que Mao Tse-tung indicara Lin Piao como seu futuro sucessor no governo da China comunista. O título era o seguinte: "De Mao a Piao". Gostei. O bom humor que nosso grupo implantara no jornal continuava vivo. 

 

 

 

 

© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

Andy Warhol - Mao - Pintura, Acrílica e serigrafia sobre tela, 1972

 

 

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Residências e Bolsas para artistas, em Paris

Residências em concurso para Projetos Artísticos - Novo Local

 

O CentQuatre

 

A abertura do CentQuatre, um novo espaço artístico da cidade de Paris, ocorrerá no dia 11 de outubro de 2008. Esse novo local permitirá ao público o acesso aos ateliês de criação várias vezes por semana. Nessa proposta de abertura, os diretores Robert Cantarella et Frédéric Fisbach, apontam o novo espaço como um ambiente artístico livre de qualquer rotulação, onde todas as artes são bem-vindas. O processo artístico é favorecido e bastante destacado em função de sua produção e originalidade. Os artistas poderão assim apresentar as experiências e os seus projetos artísticos diretamente ao público interessado.

 

Como se candidatar?

 

O procedimento para se candidatar encontra-se disponível no site internet www.104.fr, até o 31 de agosto de 2008, - atenção - esse é o prazo final.

 

Um júri de 30 qualificadas personalidades internacionais, oriundas de todos os campos da Arte e da Criação, examinarão os projetos. Os resultados serão anunciados em outubro de 2008.

 

Essa licitação é para projetos originais, com períodos variáveis de residência em Paris, e destina-se aos artistas de diversas áreas (dança, cinema, narrativa, artes visuais e plásticas, música, moda, design, circo, teatro, novas mídias digitais, paisagismo, arquitetura/urbanismo), em propostas individuais ou coletivas, sem quaisquer restrições de idade ou de território.

 

A residência

 

As residências no CentQuatre disponibilizam aos artistas selecionados, os espaços de trabalho, uma bolsa e um apoio para a produção do projeto. As residências serão estabelecidas por contrato e supõem a aceitação das regras e do projeto global do espaço, pelos artistas proponentes. O período deduração da residência dependerá do conteúdo dos projetos e da justificaficativa de suas práticas de execução . A determinação de locação de alojamento em Paris, será estritamente decorrente ao estudo e aprovação dos dossiês submetidos à análise do Conselho de Aprovação do CentQuatre. 

 

Contato em Paris:

 

Mme. Constance De Corbière

11 bis rue Curial

75019 Paris

Tél : +33 1 40 05 51 71

Tél : +33 1 40 05 27 17

Fax : +33 1 40 05 54 45

 

c.decorbiere@104.fr 

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Sexta-feira, 01.08.08

Quando a pintura é jazz...

 "Eu pinto como um bárbaro... no tempo da barbárie." – Karel Appel

 

 

 

 

A cabeça flutuante - Karel Appel - Pintura, óleo sobre tela, em grande formato - 1977

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A saída do labirinto

 Jan Voss

 

 

 

Pintura - A saída do labirinto - Acrílica e colagem sobre tela, 2008

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Aforismo Borgesiano - 33

 Intenções

 

"A literatura é uma arte, ou um exercício, misterioso, em que as opiniões do autor não contam. Tampouco contam as suas intenções."

 

 

©Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecé Editores – Buenos Aires  Argentina

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Prêmio Fundação Bunge para Poesia - Mariana Ianelli

Paulo Bonfim, Mariana Ianelli, Nilson Villa Nova e Genei Dalmago são os contemplados com o Prêmio Fundação Bunge 2008

Fundação Bunge acaba de anunciar os nomes dos contemplados com o Prêmio Fundação Bunge 2008. São eles: Paulo Bonfim e Mariana Ianelli, na área de literatura, nas categorias Vida e Obra e Juventude, respectivamente e Nilson Villa Nova e Genei Dalmago, em Agrometeorologia, também nas categorias Vida e Obra e Juventude.

A escolha dos agraciados coube ao Grande Júri, formado por reitores e representantes de entidades e institutos científicos e culturais de todo o país, em solenidade realizada, em 1 de agosto, no Tribunal de Justiça de São Paulo.

O Prêmio Fundação Bunge é considerado um dos mais importantes estímulos à produção intelectual, por reconhecer o trabalho de personalidades que contribuem para o desenvolvimento do Brasil.

 Os candidatos são indicados por universidades e entidades científicas e culturais brasileiras. Uma Comissão composta por especialistas para cada ramo da premiação, pré-seleciona dois nomes em cada ramo do conhecimento, indicando-os para a decisão do Grande Júri. No caso dos jovens talentos, a Comissão escolhe diretamente os homenageados.

Os agraciados receberão medalhas de ouro e prata, diplomas em pergaminho e um prêmio de R$ 40 mil para a categoria Juventude e R$ 100 mil para a categoria Vida e Obra. A entrega dos prêmios será em setembro, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

Paulo Bonfim nasceu em São Paulo (SP) em 1926. Iniciou suas atividades jornalísticas em 1945, no Correio Paulistano, indo a seguir para o Diário de São Paulo a convite de Assis Chateaubriand onde escreveu durante uma década Luz e Sombra, redigindo também Notas Paulistas para o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. Foi diretor de Relações Públicas da Fundação Cásper Libero e fundador, com Clóvis Graciano, da Galeria Atrium. Homem de TV, produziu Universidade na TV juntamente com Heraldo Barbuy e Oswald de Andrade Filho, no Canal 2 e Crônica da Cidade e Mappin Movietone no canal 4. Publicou seu primeiro livro, Antonio Triste, em 1947. Em seu prefácio, Guilherme de Almeida saudava o jovem estreante como “O novo poeta mais profundamente significativo da nova cidade de São Paulo”. O livro foi premiado no ano seguinte pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Olavo Bilac. Suas obras destacam-se pelas raízes eminentemente paulistas e pela absoluta independência a todos os movimentos literários surgidos na sua época. Ao longo de mais de 50 anos de carreira Bomfim publicou diversos livros. Destaque para: Poema do Silêncio (1954); Armorial (1956); Sonetos (1959); Ramo de Rumos (1961); Sonetos do Caminho (1983) e Janeiros de meu São Paulo (2006). Suas obras foram traduzidas para o alemão, francês, inglês, italiano e castelhano. Em 1963, passou a ocupar a cadeira de número 35 da Academia Paulista de Letras.

Mariana Ianelli, jornalista e escritora, nascida em São Paulo em 1979, tem uma produção poética das mais consistentes entre os autores jovens da literatura brasileira. Suas poesias são de alta qualidade e tecnicamente bem trabalhadas. Graduou-se e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP. Possui cinco livros publicados: Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005) e Almádena (2007), todos pela editora Iluminuras. Atua também como mestre em literatura e crítica literária. Como resenhista colabora com os jornais O Globo – Caderno PROSA&VERSO, do Rio de Janeiro e Rascunho, do Paraná. Participou de diversos eventos da área da literatura, com destaque para: Le Printemps des poetes, em Rennes, na França; Projeto Escritor nas Bibliotecas, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo; 12º Jornada Literária de Passo Fundo (RS); Rumos de Literatura e Crítica Literária, em Pernambuco; Projeto de incentivo à leitura Escritor na Escola, da Academia Paulista de Letras e A poesia no final do século, integrante do ciclo A poética – anos 70, 80 e o final do século, do Centro Cultural FIESP. É autora dos textos Trajetória de um artista, sobre a vida e obra do artista Arcângelo Ianelli, no livro IANELLI (Via Impressa, 2004) e O desgaste, publicado no livro Mutações: o jardim da vida (CMS, 2003) e de poemas publicados no livro Cartas (Iluminuras, 2004).

publicado por ardotempo às 17:33 | Comentar | Adicionar

Para pintores

As maçãs

 

 

Um pintor pinta uma maçã numa tela.

 

Se ele retira a maçã de sua tela, ele faz pintura abstrata.

 

Se ele retira a tela e deixa a maçã, ele faz arte conceitual

(expõe a maçã, escreve a palavra maçã, etc.)

 

E se ele  continua a pintar maçãs sobre sua tela,

ele tem todas as chances

de fazer má pintura...

 

Alguns pintores, bem definidos, 

continuam pintando maçãs em suas telas.

Portanto, nós podemos ousar afirmar

que suas obras são boas.

 

Não é a pintura que restou morta.

 

Tampouco terá a arte "progredido".

 

Foram as maçãs que mudaram.

 

 

 

 

Hector Obalk

Pote de pincéis - Pintura de Philippe Cognée - Óleo sobre tela, 1996

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O duplo

Fotografia

 

 

 

 

O duplo - Fotografia de Mário Castello, 2007 

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Para poetas - e para a poeta

Morto cobrido de amor

 

António Lobo Antunes

 

Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas. O que eu queria mesmo, o que mais queria neste mundo, o que mais desejava mas não tenho talento, era ser poeta. Até aos dezanove, vinte anos, só escrevi poemas. Descobri que eram maus, que não era capaz, que me faltava o dom. Foi um achado tremendo para mim, a certeza que a minha vida perdera o sentido. E então, aflito, desesperado, a medo, comecei a tentar outra coisa, porque não me concebia sem uma caneta na mão. Nunca fiz contos, nem diários, nem teatro, nem ensaios e contar lérias não me interessava.

 

Interessava-me transferir o mundo inteiro para o interior das capas de um livro. E cheio de hesitações, recuos, influências, a certeza que ainda não era aquilo, ainda não era aquilo, dei início a este fadário. Resignado com a minha ausência de talento para me exprimir em verso.

 

Nos primeiros tempos ainda experimentei, ocasionalmente, redigi uns poemas: eram horríveis. Então conformei-me.O projecto de mudar o mundo através dos meus livros ajudava-me, romper com os cânones, a tradição, o passado, dizer o que nunca havia sido dito. A este sonho me amparo e com este sonho continuo. No entanto a secreta inveja dos poetas permanece. Tento contorná-la ao exigir de mim o impossível: a quadratura do círculo das emoções. Conseguir uma obra que contenha tudo dentro. Tudo dentro. E assim ando.

 

Claro que gostava de ter composto o “Branco e Vermelho” de Pessanha. “A Toada de Portoalegre” de Régio. As “Canções” de Camões. “A Pavorosa ilusão da Eternidade” de Bocage. Certas estrofes, certos sonetos de Sá Miranda, tanta coisa mais.Mesmo nos vivos: invejo Vasco Graça Moura, António Franco Alexandre, Pedro Tamen, etc., que a lista é longa e toda a omissão é uma exclusão injusta. João Cabral de Melo Neto, Drummond:

”O Desaparecimento de Luísa Porto”, por exemplo, é uma obra-prima.

 

E eu aqui amarrado em busca do infinito, palavra a palavra, lento como um boi, a emendar, a voltar ao princípio, a emendar de novo, a voltar ao princípio de novo, a lograr uma linha, duas linhas, uma página por fim. Trabalho de oficina, excepto em momentos privilegiados em que a mão anda por si, e o texto encontra, como por milagre o seu caminho. No resto do tempo sinto-me como os velhos nas escadas, conquistando duramente cada degrau. Não me estou a queixar: tenho o que escolhi, faço o que quero, não trocava a minha vida por nada deste mundo.

 

No ano passado achei-me de repente diante da minha finitude, num imenso assombro. Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era.

 

Ter passado o que passei alterou-me por completo a existencial e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca. Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele.Não podemos deixar que ele nos assuste.

 

Gastei meses a encostar o ouvido á terra do meu corpo, tenso, à espera. Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade. Os exames afirmam que o meu corpo está bom:á alturas em que me apetece despi-lo, vogar sem ele, à deriva no meu lago de emoções, esperanças, desânimo ocasional, amor.Sou muito mais capaz de amar agora. Não me sinto apenas feito para escrever como um danado, sinto-me feito para amar como um danado, numa doce ferocidade. De engolir o universo. Cristovam Pavia, poeta que estimo imenso e se abraçou a um comboio aos trinta e cinco anos, publicou um único livro de poemas antes desse abraço.

 

O último verso do livro ficou para sempre na minha cabeça. Diz:

 

Só há saída pelo fundo.

 

De maneira mais ou menos obscura sempre achei isso verdade.Agora faz parte da minha carne: só há saída pelo fundo, realmente, mas á uma saída. E basta-me a certeza disso. Acabarei o livro que escrevo agora, escreverei mais livros. Até me tornar, não sei quando, um morto cobrido de amor, como na morna que o Vitorino me cantou um dia.

 

Eugénio, neste momento lembrei-me de si, do seu repouso no coração do lume.Éramos tão amigos, gaita, teve para comigo tão delicadas atenções enquanto as palmeiras da Foz esbracejavam lá fora. Ou o Alexandre O’Neill, a única pessoa que conheci que não gostava de ninguém. Nem de si mesmo, acho eu. Mau como as cobras, a rir um riso torto, devastador.

 

Era uma época em que os escritores me fascinavam porque os olhava como mesas de espíritas, capazes de comunicarem noutra dimensão. Uma espécie de demiurgos, de feiticeiros. Qualquer bom artista é uma mesa de espírita a receber mensagens do além, o que os torna, em certo sentido, quase irrespeitáveis: a quantidade de mulheres que sempre rodearam um monstro físico e moral como Sartre; Simenon gabava-se de ter dormido com quinze mil. Faz-me lembrar Billy The Kid afirmando haver morto dezoito homens.

 

           Acrescentava

          ... não contando os mexicanos.

 

E esse tipo de proezas acabou para mim.

 

Deixou de interessar-me. Uma única mulher basta.: ela é todas. Nem sequer é uma questão de maturidade, é uma questão de não ser parvo. Acabando esta crónica regresso ao livro: ali está ele à minha espera fazendo negaças. Não tem sorte nenhuma: vou ganhar. Nem que a pele fique pelo caminho vou ganhar. Mudá-lo-ei dúzias de vezes mas ganho. Só há saída pelo fundo. Eu encontro-a. De onde me virá esta teimosia, esta firmeza? Não sei.Julgo que fui assim desde o início. As partes gelatinosas que tive vão-se tornando de pedra. Cheio de ferro por dentro. Acabo de comer a torrada, vou-me embora. Atravesso a rua para o sítio onde trabalho, pego na caneta, espero. Chamo caneta a uma esferográfica vulgar, qualquer que risque me serve. Terá sido a esferográfica que me riscou a testa com o tempo? Porque não voltas atrás e vês o que ficou escrito nela? Retratos, livros, papéis, eu a começar.

 

O telefone soluça como um bebé e, dentro de mim, o teu nome. Vozes de crianças por trás e tudo de súbito fácil, perfeito. Não sei bem o que digo, não sei bem o que oiço. Limito-me a afogar-me em ti como no mar.

 

 

 

 © António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 03:28 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

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