Terça-feira, 19.08.08

A viagem do elefante

Novo livro de José Saramago 

 

A história de um elefante asiático que, no século 16, teve de percorrer mais de metade da Europa é o tema do novo livro do escritor português José Saramago, que terá cerca de 240 páginas e deverá ser lançado no outono europeu (primavera no Brasil), anunciou nesta terça-feira a Fundação Saramago.

"Escrevê-lo não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro", escreve no blog da entidade a mulher do escritor, a jornalista Pilar del Rio.

"Não obstante, sete meses depois, Saramago restabelecido e com novas energias pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século 16, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios, teve de percorrer mais de metade da Europa", continua a presidente da Fundação Saramago.
 
A idéia de escrever este livro tem mais de dez anos e surgiu quando Saramago visitou a Áustria e entrou, em Salzburgo, em um restaurante chamado "O Elefante".

"Escrevi os últimos três livros na mais deplorável situação de saúde, nada propícia a sentimentos de alegria. Prefiro dizer: se tens que escrever, escreverás", disse Saramago, 85, único lusófono ganhador do Nobel de Literatura, em 1998 e autor do livro "Ensaio sobre a Cegueira", que tem versão cinematográfica feita pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles.

"É o livro que estávamos esperando e que chegou a bom porto, o leitor. Salomão, o elefante, não teve tanta sorte, mas disso não falarei, aguardemos o outono, e então sim: aí, em vários idiomas simultaneamente, poderemos comentar páginas, aventuras, desenlaces. Os materiais da ficção, que são também os da vida", acrescenta Pilar del Rio sobre a obra.
 
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Viva a Arte

 

Um homem corre 100 metros em 9,69 segundos. O mais espantoso é que corre quase dois metros à frente da linha formada pelos homens mais velozes do mundo, que se esforçam muito para alcançar a meta final. Uma linha involuntária, em retaguarda. Antes da chegada, ele abre os  braços e num gesto impressionante bate com a mão espalmada no peito. O rosto voltado para o público. Naquele instante ele é o deus da velocidade

 

Em Arte existem vários artistas construindo suas próprias linguagens. Buscam alcançar algo intangível, que está além da decoração (que não é Arte), além da retórica, da pompa, da hierarquia, do sensacionalismo, do chocante, da academia, do investimento, da publicidade. Procuram realizar alguma obra que seja transcendental, que tenha originalidade, que estabeleça vínculos humanos, que surpreenda. Em pintura, em literatura, em escultura, na fotografia, em cinema, em música, na dança, no teatro, numa instalação, num poema.

 

 

É difícil fazer uma obra-prima. É cada vez mais raro. 6,69 segundos. O artista sabe quando alcança o estado de epifania. Nunca há um estádio lotado para testemunhar o feito, tampouco centenas de câmeras para transmitir as imagens para milhões de pessoas. Ele (ou ela) no entanto, sabe que conseguiu algo único. Precioso. Basta que alguém veja, que compreenda e entre em sintonia. Um+Um. A comunicação de um para o outro. Meu nome é legião.  

 

Fazer é a disciplina, o cotidiano, o exercício de precisão, a exigência máxima. Isso é o normal. Saber fazer e o que fazer – não apenas executar a fórmula, convocar o limite conhecido. Ir além e alcançar o inusitado, o impossível – é a meta, é a dor e a leveza, é a expansão dos limites, é estar onde ninguém jamais esteve, é mostrar o que jamais se viu, as palavras usuais como nunca soaram. Torna-se cada vez mais penoso alcançar o impossível. É difícil saber constatar que se fez o impossível. Mas é possível estar ali. Viva a Arte.

 

 

 

 

 

Pintura - Vibrações em Vermelho - Arcangelo Ianelli - Óleo sobre tela - 2001

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Grande Vaca Mecânica

Lina Bo Bardi

 

 

Grande Vaca Mecânica - Objeto escultórico / Instalação sonora e luminosa / Contenedor-expositor articulado de objetos de artesanato popular brasileiro - "o quarto de milagres"; criação de Lina Bo Bardi  

Fotografia de Pierre Yves Refalo

publicado por ardotempo às 03:28 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Inverno

Fotografia 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotografia - Cadeira Cativa - Pierre Yves Refalo, Paris - 2008

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Segunda-feira, 18.08.08

Pintura-Carta

Carta Azul 

 

 

Pintura-Carta, de Alfredo Aquino - Carta, óleo sobre tela - 2006

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publicado por ardotempo às 18:15 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Aromas

Notícia de um assalto inusitado


Ferreira Gullar


Certa noite, ao sair do prédio onde mora a Cláudia, fui surpreendido - seria melhor dizer agredido? assaltado? - por uma onda perfumada que me arrebatou: era o perfume que, como uma espécie de gás, emanava das flores de um jasmineiro postado ali, a poucos passos do portão do edifício.


Aturdido e inebriado, arranquei do jasmineiro um punhado de flores e, chegando-as ao nariz, aspirei-lhes avidamente o aroma que, para minha surpresa, revelou-se selvagem e quase me envenena. Embriagado, caminhei até o carro, nele entrei, atirei as flores sobre o banco ao lado e parti na noite, como não fosse para casa.


Mas fui e, ao chegar, depus sobre a estante da sala as brancas flores que já não exalavam tanto odor. Era óbvio que daquela inusitada aventura, nascesse um poema. E foi o que ocorreu, mas não naquela noite, que já havia sido suficientemente avassaladora.


Na manhã seguinte, sentei-me para escrever o poema que deveria expressar a aventura vivida na noite anterior, num jardim da rua Senador Eusébio, no Flamengo. Tinha diante de mim um papel em branco. Sim, e agora, o que fazer? Por onde começar? Não sabia. Tudo o que havia era uma necessidade de, com palavras, expressar aquele momento quando um cheiro de jasmim atacou-me e aturdiu-me, como um assaltante vaporoso surgido da treva.


O poema, sabe, nasce do espanto, isto é, de um instante em que o enigma sempre não explicado e oculto da existência se põe à mostra. E então vemos que todas as explicações não explicam tudo, não explicam o que o cheiro de um jasmineiro nos revela, de repente, de noite, num jardim do Flamengo.


Até certo ponto, por seu caráter inusitado, o poema é uma notícia: notícia de um fato fora da História mas que pertence a ela, e que o poeta, como um repórter bêbado, quer dar a conhecer ao mundo, um testemunho: um cheiro de jasmim atacou-o, de súbito, num jardim aparentemente seguro, às 11h50 de uma noite de quinta-feira.


No entanto, dito assim como notícia, a ocorrência não chega a ser um poema. Seria, quando muito, uma nota na página policial do jornal, assim: "jasmim agride cidadão desavisado, no Flamengo". Caberia, na nota, uma referência ao policiamento ineficiente do bairro pelas autoridades competentes.


E não haveria exagero, se se leva em conta que, quando saí do prédio e fechei o portão, mal desci os dois degraus até o chão de terra, o assaltante, embuçado no jasmineiro -e que era o próprio jasmineiro- saltou sobre mim, como sombra, ou melhor, como aroma, e me agrediu nariz a dentro. Um assaltante disfarçado de arbusto, agindo impunemente num bairro residencial constitui de certo modo um "furo" jornalístico. E nisso o poema se assemelha à notícia, frutos ambos do ineditismo e do espanto.


Mas não se escreve um poema como se escreve uma notícia, com lide e sublide, tendo por objetivo principal relatar o ocorrido, de maneira o mais impessoal possível, com total isenção e sem ambigüidade. Já no poema, muito pelo contrário, o autor se confunde com o que diz, mistura-se com o fato, de tal modo que não se distingue o ocorrido do imaginado. O poeta, na verdade, não informa -inventa; não instrui o leitor, confunde-o deliberadamente, para deslumbrá-lo.


E por que inventa e confunde? Porque o perfume do jasmim - qualquer perfume - é intraduzível em palavras, e é o perfume -a iluminação, na noite, pelo olfato- que o poeta quer dar no poema, ou quer, melhor dizendo, fazê-lo exalar no teu dia, leitor, já não através do nariz mas da boca, ao lê-lo. Quer te dizer o indizível. E ali está ele, diante da página em branco, onde tudo pode acontecer mas, onde, por ora, nada acontece: apenas o silêncio anterior à fala.


Mas, se o perfume não se traduz em palavras, o que dizer com as palavras? O que há a dizer, de fato, ele não sabe, já que ainda não o disse: é só vontade, impulso indefinido. Assim, antes de ser escrito, o poema é apenas uma difusa intenção, não existe e pode nunca existir. Como a palavra não diz o aroma, escrevê-lo é um jogo de probabilidades, de necessidade e acaso, que começa quando a primeira palavra é posta na página em branco. Ela reduz a probabilidade, que era infinita, ao dar início a um discurso possível e não sabido.


Essa primeira palavra, que poderia ser outra, deflagra a invenção do poema, a aventura imprevisível de escrever o impossível que o poeta dará por finda arbitrariamente. E assim o cheiro do jasmim, que não está nele, tornou possível inventá-lo, como a expressão da ausência do vivido, ou uma de suas possíveis presenças.




© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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Domingo, 17.08.08

Miniatura

O que está no meio não interessa

 

Era uma vez e foram felizes para sempre.

 

 

© José Mário Silva - Efeito Borboleta - Oficina do Livro, 2008

© Mãos da Terra - Artesanato popular brasileiro, placa de argila para parede, barro cozido ao sol, pintado com motivos populares - "Namorados"; Autor: MLC - Proveniente de região do interior de Pernambuco - Brasil

publicado por ardotempo às 21:11 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

8h46 - Conto de José Mário Silva

8h46

 

 

Enquanto espera pela hora da reunião, sentado numa cadeira Barcelona, Jonathan K. imagina a mão de Mies van der Rohe a desenhar com minúcia, há precisamente 74 anos, aquele prodígio de design. Tocando muito ao de leve no couro negro, pensa: "Isto sim é uma cadeira, não apenas um assento para corpos demasiado humanos."

 

A reunião, marcada para as oito e meia, vai começar mais tarde. O CEO comeu qualquer coisa esquisita ontem à noite (certamente um dos malditos hors d'oeuvre com que as galerias de Manhattan envenenam os seus clientes) e será substituído por um dos quadros superiores da empresa, infelizmente ainda a caminho, algures no trânsito caótico de Upper East Side. O encontro só começará por volta das nove horas, diz-lhe a secretária, sorridente. "OK", responde Jonathan, "eu espero". Um café? "Sim, obrigado, mas sem açúcar."

 

Na parede de tons claros, uma imitação tosca de Salvador Dali. Elefantes de patas gigantescas caminhando por entre os arranha-céus, uma mulher nua feita de gavetas, o silêncio espectral do deserto insinuando-se atrás da cidade de vidro. O quadro é horrível. Jonathan K. sente uma veia a pulsar no pescoço. "O que raio estou eu a fazer aqui?" Atrás de uma porta transparente, a secretária fala ao telefone e faz-lhe um sinal. Não se esqueceu do café. Continua a sorrir muito.

 

Jonathan revê mentalmente a sua vida nos últimos quatro meses. A queda na piscina do hotel de Miami. O som da cabeça a bater numa aresta de cimento. O túnel de luz (igualzinho ao do quadro de Hieronymus Bosch). A sala dos cuidados intensivos, vista do tecto, fora do corpo. As duas semanas em coma. O acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo. A demorada reaprendizagem dos gestos. A epifania daquela manhã de sábado em que decidiu, com a convicção dos profetas, emendar os muitos erros da sua existência.

 

A outra vida, a vida anterior, está envolta numa espécie de nevoeiro. Já quase não se lembra dos anos passados em África. O negócio das armas, o tráfico de influências, os muitos mortos que as suas decisões, os seus lucros, engendraram. A fortuna manchada de sangue vai sendo repartida por fundações, ONG's, empresas solidárias, causas filantrópicas. Foi também por isso que veio esta manhã até ao 53.º andar da Torre Norte do World Trade Center. "Serei algum dia capaz de salvar a minha alma?", pergunta-se.

 

A secretária sorridente traz-lhe o café. Jonathan K. bebe-o junto à janela. No Patek Philippe, os ponteiros marcam 8h46. Pelo seu rosto passa, súbita e absurda, a sombra de um avião.

 

 

© José Mário Silva - Efeito Borboleta, Oficina do Livro, 2008

Fotografia de Mário Castello, 2008

publicado por ardotempo às 18:30 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Jean-Alex Brunelle

Fotografia

 

 

 

Jean-Alex Brunelle - Legume - Fotografia - Paris, 2006 

publicado por ardotempo às 14:40 | Comentar | Adicionar

Alfredo Volpi - Mastros

 Pintura

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alfredo Volpi - Mastros - Pintura, têmpera sobre tela

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publicado por ardotempo às 14:20 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Gravura em metal

Relevo

 

 

Maria Inês Rodrigues, artista plástica das mais importantes do Brasil contemporâneo, não se revela apenas com magnitude na pintura, onde a emoção pensativa das cores se funde à imaginação do abismo, criando seres de perene infância.

 
A gravurista e a escultora são ainda mais alentadoras,  onde o bizarro se mescla ao fantástico, como se um Goya esculpisse na gravura ou no metal, desfiando um outro tempo, o das feéricas imagens.
 
E reativa em sua arte, incrível liberdade inventiva, deixando os olhos perturbados diante de um certo toque do desconhecido. O que assusta, entretanto, já acordou o eito de estar no mundo. Em sua última fase, Relevos e Gravuras em Metal  explodem como que advindas de pesadelo. 
 
E com maestria generosa e original, nova, exsurgem  as criaturas de sementes, ou a sementeira de mitos. O que dizer, senão o maravilhamento? E numa estirpe de metamorfoses, a linguagem retorna à caverna dos símbolos primevos, e à mágica dos símbolos que, face a face, nos vêem.
 
E amam toda a penúria e grandeza  da humana condição. 
 
Carlos Nejar 
 
Relevo - Maria Inês Rodrigues - Gravura em metal, 2006
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publicado por ardotempo às 13:24 | Comentar | Adicionar
Sábado, 16.08.08

Claustrofóbico

Escultura

 

 

Sem título - Angela Pettini de Oliveira -  Escultura em bronze, em grande formato, 2008 

publicado por ardotempo às 14:17 | Comentar | Adicionar

Ao Der Terrorist - Blog Bom

Agradecimento

 

Saudações ao Der Terrorist, o agradecimento pelas palavras simpáticas e pela expectativa com relação ao romance Carassotaque.

ARdoTEmpo recomenda vivamente o blog bom, de alto nível e rigor – por ali passo todos os dias para ler textos de qualidade e de criação. Vale muito a visita diária.

 

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publicado por ardotempo às 04:40 | Comentar | Adicionar

Arquitetura, instalação e fotografia

 Intervenção no átrio do museu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Átrio da Fundação Iberê Camargo (arquitetura de Álvaro Siza Vieira), intervenção no espaço por Iole de Freitas, com lâmina curva translúcida de policarbonato, trespassada por cilindro de aço inox polido; fotografia do conjunto por Fábio Del Re. Porto Alegre, 2008

publicado por ardotempo às 00:57 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 15.08.08

Jacaré no Museu

Fotografia

 

 

"Jacaré" na Pinacoteca do Estado de São Paulo - Fotografia de Mário Castello -

São Paulo - 2006

publicado por ardotempo às 19:55 | Comentar | Adicionar

Bandeira Nacional

Leis, hábitos e costumes. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotografia de Jefferson Rudy - Amazônia, Brasil - 2008

 

Publicado no blog PicturaPixel

publicado por ardotempo às 13:04 | Comentar | Adicionar

Art-Favela

Olhos da Favela

 

 

Intervenção urbana - Arte na rua, instalação com colagem de gigantografia em escadaria de acesso na favela do Morro da Providência, Rio de Janeiro - 2008

Autor: JR

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Quinta-feira, 14.08.08

GERI GARCIA - Pintura

Os fusilados de Sierra Nevada

 

 

 

 

Geri Garcia - Pintura (Da Série Memórias da Guerra Civil), óleo sobre madeira - Padul/ Granada, Espanha -1953

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publicado por ardotempo às 23:40 | Comentar | Ler Comentários (3) | Adicionar

Jogos são de guerra

Mostruários

Luis Fernando Verissimo

Enquanto o mundo se maravilhava com a festa de abertura das Olimpíadas de Pequim, a Rússia invadia a Geórgia. Fogos de artifício de um lado, fogo de verdade do outro, e no mesmo dia. Há uma metáfora nessa coincidência, em algum lugar.

Durante muitos anos China e Rússia, ou União Soviética e seus satélites, foram o oposto em tudo ao mundo capitalista - ou, na linguagem da Guerra Fria, ao Mundo Livre. Eram, cada uma a seu modo, mostruários do comunismo no poder como alternativas para o capitalismo. O comunismo acabou na União Soviética junto com a União Soviética e continuou no poder na China em tudo menos na direção da economia, desmentindo algumas pilhas de tomos teóricos. As alternativas perderam.

 

 

Nem União Soviética nem China souberam ser bons mostruários quando eram ortodoxamente comunistas. A Alemanha foi um exemplo de fracasso na guerra da propaganda entre comunismo e capitalismo. Por mais que se exaltasse a superioridade do lado comunista em matéria de educação universal e saúde comunitária, bastava uma visita a Berlim Oriental para você se convencer que aquela tristeza - ainda mais em contraste com a exuberância luminosa de Berlim Ocidental - não tinha futuro. Os feitos da revolução maoísta, arrancando a sociedade chinesa do seu passado feudal numa geração, não escondiam o custo disso em sangue, e a impressão que se tinha da China antes da abertura para o consumismo era a de caos permanente. Nada muito atraente.

Pode-se discutir o que o fantástico espetáculo da abertura das Olimpíadas representava: uma sociedade que finalmente redimia, na capacidade de nos deslumbrar com a sua técnica e inventividade, o sacrifício dos anos terríveis, ou uma sociedade festejando sua nova competência no mundo do marquetchim e do espetáculo, muito melhor do que qualquer ocidental? Uma apoteose do maoísmo, já que só com anos de arregimentação e autoritarismo se consegue uma organização coletiva assim, ou uma apoteose da abertura? Nunca se viu um mostruário igual. Só resta saber do que.

 

Enquanto isto, a Rússia só mostrava uma truculência datada e, independentemente de ter ou não ter razão, recorria à nostalgia armada contra a Geórgia. 

 

© Luis Fernando Verissimo

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publicado por ardotempo às 21:03 | Comentar | Adicionar

Extinção

A sexta extinção das espécies ainda pode ser evitada

 

Texto de Christiane Galus – Le Monde

 

A espécie humana, que já conta 6,7 bilhões de indivíduos, modificou de tal maneira seu meio ambiente que, nesta fase atual da sua história, ela já começou a atingir gravemente a biodiversidade das espécies terrestres e marinhas, e, no médio prazo, já está ameaçando a sua própria sobrevivência. A tal ponto que um número cada vez maior de cientistas não hesita a falar de uma sexta extinção, que será provocada pelas importantes alterações introduzidas pelo ser humano na natureza e no meio ambiente. Esta nova extinção deverá se suceder às cinco precedentes, que estabeleceram o ritmo da vida na Terra.

 

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), com sede na Suíça, que desenvolve estudos sobre 41.415 espécies (de um total de cerca de 1,75 milhão conhecidas) para elaborar sua lista vermelha anual, avalia que 16.306 dentre elas estão ameaçadas. Ou seja, um mamífero em cada quatro, uma ave em cada oito, um terço de todos os anfíbios e 70% de todas as plantas estudadas estão correndo perigo, segundo a UICN.

 

Será ainda possível frear esse declínio das espécies, que corre o risco de ampliar-se quando o nosso planeta atingir 9,3 bilhões de humanos em 2050? Os biólogos americanos Paul Ehrlich e Robert Pringle (da universidade Stanford, na Califórnia) acreditam que isso seja possível, com a condição de que diversas medidas radicais sejam tomadas no plano mundial. Eles apresentam essas medidas num relatório publicado em 12 de agosto na revista especializada americana "Proceedings of The National Academy Of Sciences" (PNAS - Minutas da Academia Nacional de Ciências), numa edição que dedica um dossiê especial à sexta extinção.

 

Em preâmbulo, os dois pesquisadores não hesitam a declarar que "o futuro da biodiversidade no decorrer dos próximos 10 milhões de anos será certamente determinado pelo que acontecerá nos próximos 50 a 100 anos que estão por vir, em função da atividade de uma única espécie, o Homo sapiens, que tem apenas 200.000 anos de existência". Se considerarmos que as espécies de mamíferos - às quais nós pertencemos - têm uma vida útil de um milhão de anos em média, isso coloca o Homo sapiens em meados da sua adolescência. Este "adolescente" mal-criado, "um narcisista que pressupõe a sua própria imortalidade, andou maltratando o ecossistema que o criou e o mantém em vida, sem preocupar-se com as conseqüências dos seus atos", acrescentam severamente Paul Ehrlich e Robert Pringle.

 

 

Consumo Excessivo

 

Segundo os dois cientistas, é preciso insuflar uma mudança de mentalidade profunda, de maneira que a humanidade enxergue a natureza com outros olhos. Isso porque "a idéia segundo a qual o crescimento econômico é independente da saúde do meio ambiente e que a humanidade pode expandir indefinidamente sua economia é uma perigosa ilusão", afirmam Ehrlich e Pringle. Para enfrentar esta perda de rumo, é preciso começar controlando o ritmo da expansão demográfica e diminuindo nosso consumo excessivo dos recursos naturais, dos quais uma boa parte serve para saciar gostos supérfluos e não para as necessidades fundamentais. Por exemplo, a piscicultura e a avicultura são atividades menos onerosas em termos de transportes e de consumo de combustível, do que a criação dos porcos e dos bois, dois animais reunidos no sacrossanto cheeseburger com bacon...

 

Os autores do estudo propõem um outro ângulo de ataque: os serviços oferecidos pela biosfera são numerosos e gratuitos. Ela fornece as matérias-primas; os sistemas naturais de filtração das águas; a estocagem do carbono pelas florestas; a prevenção da erosão e das inundações pela vegetação, além da polinização das plantas por vários tipos de insetos e de pássaros. Por si só, esta última atividade movimenta cerca de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 2,4 bilhões) nos Estados Unidos. Com isso, seria extremamente necessário avaliar os custos dos serviços oferecidos pela natureza e incluí-los nos cálculos econômicos, de tal modo que se possa garantir sua proteção.

 

Para financiar o desenvolvimento das áreas protegidas, cujo número é insuficiente e que são excessivamente parceladas, Paul Ehrlich e Robert Pringle propõem que se recorra a fundações privadas dedicadas à conservação. Esta solução apresenta a vantagem de ser menos custosa para os contribuintes e permite gerar quantias importantes. Na Costa Rica, um fundo desse tipo, o Paz Con La Naturaleza, arrecadou US$ 500 milhões (cerca de R$ 800 milhões), quantia esta que servirá para financiar o sistema de conservação do país. É possível igualmente associar de maneira mais estreita pastores e agricultores nas tarefas de preservação da biodiversidade, evitando impor-lhes decisões em relação às quais eles não têm nenhum poder de controle, e com a condição de que a sua fonte de renda seja preservada. Esse processo deve ser viabilizado por meio de explicações e de uma melhor educação neste campo. Contudo, nada impede que esforços também sejam empenhados na restauração das áreas onde o habitat foi deteriorado.

 

Entretanto, os dois pesquisadores se dizem preocupados diante do divórcio crescente, nos países industrializados, entre a população e a natureza, divórcio esse gerado pela utilização intensiva da multimídia. Eles constatam que, "nos Estados Unidos, a expansão das mídias eletrônicas coincidiu com uma diminuição importante das visitas nos parques nacionais, depois de um crescimento ininterrupto que durou cinqüenta anos".

 

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publicado por ardotempo às 13:23 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 13.08.08

Efeito Borboleta - Recomendado

 Excelente

 

O livro de contos de José Mário Silva é excelente. 50 contos curtos, agregado a um conjunto de 38 aforismos (ou micro-contos), este com o título de 38 Miniaturas.

 

Regido pela sugestão da parábola de Chuang-Tzu – "Um dia, o mestre taoísta  sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, já não sabia se era um homem que sonhava ser uma borboleta ou uma borboleta que sonhava ser homem" – o autor constrói uma pequena catedral de originalidade e síntese, em textos refinados e de uma imaginação rica, na melhor tradição da inventividade borgesiana, surpreendendo o leitor e conduzindo-o a reflexões aprofundadas e memorizadas de si próprio, acerca do tempo, do universo paralelo das coincidências, o dos pequenos gestos e o da contundência de certas decisões aparentemente inofensivas que se revelam desvastadoras e incontornáveis.

 

O livro prende e hipnotiza por trazer funda identificação psicológica e uma simplicidade atordoante de mensagens em textos elaborados em sofisticada filigrana literária.

 

Tudo está ao alcance de todos pois a vida é para ser vivida com intensidade instintiva e cerebral, e trata-se um jogo arriscado pois a aposta habitual, minuto a minuto, é o da própria vida, o cenário não exige menos dos protagonistas. As sutilezas, as ironias, a alegria e a diversão são as constatações que magnetizam o leitor e essa leitura certamente confortará a muitos leitores, entre eles, possivelmente até Alberto Manguel e outros borgesianos assumidos. É um prazer ler este Efeito Borboleta e outras histórias.

 

Roleta Russa

"Já perdera tudo na vida. Não queria perder aquela bala."

 

O livro, Efeito Borboleta, de José Mário Silva (Editora Oficina do Livro) por enquanto, se consegue apenas em Portugal ou importando-o através das melhores livrarias no Brasil, mas vale muito a pena e seria bastante interessante que logo estivesse também editado no Brasil.

 

 

  Efeito Borboleta e outras histórias, 2008

  Autor: José Mário Silva

  Editora: Oficina dos Livros (Portugal) –  

  http://www.oficinadolivro.pt

  Número de páginas: 140 páginas

  ISBN nº 978-989-555-374-7

 

publicado por ardotempo às 19:51 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 12.08.08

A voz de Borges

Cartografia do Império

 

 

Video-cartográfico com uma leitura de um texto (Del rigor en la Ciencia) de Jorge Luis Borges, pelo próprio autor.

 

Veja e ouça aqui

 

Publicado pelo blog Bibliotecário de Babel

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publicado por ardotempo às 17:49 | Comentar | Adicionar

Aforismo Borgesiano - 34

 Jogos

 

"Penso que se deveria inventar um jogo em que não existissem vencedores."

 

 

©Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecé Editores – Buenos Aires  Argentina

publicado por ardotempo às 12:55 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Henry Moore

Escultura em bronze

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Oval com pontas - Escultura em bronze polido - Henry Moore - 1968/69 

publicado por ardotempo às 04:25 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 11.08.08

Noblat indica o Bibliotecário de Babel

O Bibliotecário recomendado 

 

 

O Blog do Noblat é um dos mais importantes e visitados blogs de jornalismo político do Brasil, possivelmente o mais importante, o de maior credibilidade, o mais visitado.

Ali ele dá dicas de Blogs interessantes, principalmente culturais e hoje ele está recomendando o Bibliotecário de Babel, de José Mário Silva, em Portugal. Vá lá, visite ambos os blogs, o Bibliotecário e o do Noblat, sempre vale a pena.


Blog Bibliotecário de Babel

Blog do Noblat

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publicado por ardotempo às 21:05 | Comentar | Adicionar

Homenagem ao fotógrafo Mauro Holanda

Aniversário

 

No dia 09.08 a festa no boteco bacana - no Bar Santa Madalena, no Paraíso, em São Paulo, reunindo os seus incontáveis amigos e amigas, o grande e talentoso fotógrafo Mauro Holanda, com o seu cigarrinho, a sua cervejinha Paulaner e o seu bom humor cativante. Parabéns e longa vida, meu amigo, povoada de imagens surpreendentes. (Foto de Mário Castello)

 

 

 

publicado por ardotempo às 04:00 | Comentar | Adicionar
Domingo, 10.08.08

O fato que mudou a História do século

Fotografias de Robert Clark

 

 

 

O que você estava fazendo naquele dia? Onde você estava? Lembra bem de tudo? O mundo mudou e a sua vida, a sua rotina, também mudou...

 

WTC - 11.setembro.2001 - Fotografias de Robert Clark, New York, 2001

publicado por ardotempo às 19:51 | Comentar | Adicionar

Antony Gormley - Pedra Humana

 Escultura pública, em parque em Londres

 

 

 

Pedra Humana - Antony Gormley - Escultura em pedra granítica em grande formato, retirada do mar nas costas da Ilha de Portland e cinzelada pelo artista - Londres - 1982 

publicado por ardotempo às 14:34 | Comentar | Adicionar

Jeff Koons - "Pour les enfants"

Escultura gigante, coberta por begônias, em Bilbao

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Puppy - Jeff Koons - Escultura monumental-kitsch em formato de um cão-pet, coberta de flores (begônias), colocada defronte ao Museu Guggenheim, em Bilbao - Espanha, 2001

publicado por ardotempo às 14:18 | Comentar | Adicionar

1obrax1frase - 12

 

 

 

 

 

 

 "Os perigos da Metafísica."

 

EMMANUEL TUGNY

 

 

© Emmanuel Tugny, Éditions Léo Scheer, Paris, 2008

Escorpião - Escultura pública, em resina policromada - 2008 

publicado por ardotempo às 02:10 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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