Sexta-feira, 01.08.08

Quando a pintura é jazz...

 "Eu pinto como um bárbaro... no tempo da barbárie." – Karel Appel

 

 

 

 

A cabeça flutuante - Karel Appel - Pintura, óleo sobre tela, em grande formato - 1977

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publicado por ardotempo às 23:27 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

A saída do labirinto

 Jan Voss

 

 

 

Pintura - A saída do labirinto - Acrílica e colagem sobre tela, 2008

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publicado por ardotempo às 20:40 | Comentar | Adicionar

Aforismo Borgesiano - 33

 Intenções

 

"A literatura é uma arte, ou um exercício, misterioso, em que as opiniões do autor não contam. Tampouco contam as suas intenções."

 

 

©Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecé Editores – Buenos Aires  Argentina

publicado por ardotempo às 20:17 | Comentar | Adicionar

Prêmio Fundação Bunge para Poesia - Mariana Ianelli

Paulo Bonfim, Mariana Ianelli, Nilson Villa Nova e Genei Dalmago são os contemplados com o Prêmio Fundação Bunge 2008

Fundação Bunge acaba de anunciar os nomes dos contemplados com o Prêmio Fundação Bunge 2008. São eles: Paulo Bonfim e Mariana Ianelli, na área de literatura, nas categorias Vida e Obra e Juventude, respectivamente e Nilson Villa Nova e Genei Dalmago, em Agrometeorologia, também nas categorias Vida e Obra e Juventude.

A escolha dos agraciados coube ao Grande Júri, formado por reitores e representantes de entidades e institutos científicos e culturais de todo o país, em solenidade realizada, em 1 de agosto, no Tribunal de Justiça de São Paulo.

O Prêmio Fundação Bunge é considerado um dos mais importantes estímulos à produção intelectual, por reconhecer o trabalho de personalidades que contribuem para o desenvolvimento do Brasil.

 Os candidatos são indicados por universidades e entidades científicas e culturais brasileiras. Uma Comissão composta por especialistas para cada ramo da premiação, pré-seleciona dois nomes em cada ramo do conhecimento, indicando-os para a decisão do Grande Júri. No caso dos jovens talentos, a Comissão escolhe diretamente os homenageados.

Os agraciados receberão medalhas de ouro e prata, diplomas em pergaminho e um prêmio de R$ 40 mil para a categoria Juventude e R$ 100 mil para a categoria Vida e Obra. A entrega dos prêmios será em setembro, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

Paulo Bonfim nasceu em São Paulo (SP) em 1926. Iniciou suas atividades jornalísticas em 1945, no Correio Paulistano, indo a seguir para o Diário de São Paulo a convite de Assis Chateaubriand onde escreveu durante uma década Luz e Sombra, redigindo também Notas Paulistas para o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. Foi diretor de Relações Públicas da Fundação Cásper Libero e fundador, com Clóvis Graciano, da Galeria Atrium. Homem de TV, produziu Universidade na TV juntamente com Heraldo Barbuy e Oswald de Andrade Filho, no Canal 2 e Crônica da Cidade e Mappin Movietone no canal 4. Publicou seu primeiro livro, Antonio Triste, em 1947. Em seu prefácio, Guilherme de Almeida saudava o jovem estreante como “O novo poeta mais profundamente significativo da nova cidade de São Paulo”. O livro foi premiado no ano seguinte pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Olavo Bilac. Suas obras destacam-se pelas raízes eminentemente paulistas e pela absoluta independência a todos os movimentos literários surgidos na sua época. Ao longo de mais de 50 anos de carreira Bomfim publicou diversos livros. Destaque para: Poema do Silêncio (1954); Armorial (1956); Sonetos (1959); Ramo de Rumos (1961); Sonetos do Caminho (1983) e Janeiros de meu São Paulo (2006). Suas obras foram traduzidas para o alemão, francês, inglês, italiano e castelhano. Em 1963, passou a ocupar a cadeira de número 35 da Academia Paulista de Letras.

Mariana Ianelli, jornalista e escritora, nascida em São Paulo em 1979, tem uma produção poética das mais consistentes entre os autores jovens da literatura brasileira. Suas poesias são de alta qualidade e tecnicamente bem trabalhadas. Graduou-se e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP. Possui cinco livros publicados: Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005) e Almádena (2007), todos pela editora Iluminuras. Atua também como mestre em literatura e crítica literária. Como resenhista colabora com os jornais O Globo – Caderno PROSA&VERSO, do Rio de Janeiro e Rascunho, do Paraná. Participou de diversos eventos da área da literatura, com destaque para: Le Printemps des poetes, em Rennes, na França; Projeto Escritor nas Bibliotecas, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo; 12º Jornada Literária de Passo Fundo (RS); Rumos de Literatura e Crítica Literária, em Pernambuco; Projeto de incentivo à leitura Escritor na Escola, da Academia Paulista de Letras e A poesia no final do século, integrante do ciclo A poética – anos 70, 80 e o final do século, do Centro Cultural FIESP. É autora dos textos Trajetória de um artista, sobre a vida e obra do artista Arcângelo Ianelli, no livro IANELLI (Via Impressa, 2004) e O desgaste, publicado no livro Mutações: o jardim da vida (CMS, 2003) e de poemas publicados no livro Cartas (Iluminuras, 2004).

publicado por ardotempo às 17:33 | Comentar | Adicionar

Para pintores

As maçãs

 

 

Um pintor pinta uma maçã numa tela.

 

Se ele retira a maçã de sua tela, ele faz pintura abstrata.

 

Se ele retira a tela e deixa a maçã, ele faz arte conceitual

(expõe a maçã, escreve a palavra maçã, etc.)

 

E se ele  continua a pintar maçãs sobre sua tela,

ele tem todas as chances

de fazer má pintura...

 

Alguns pintores, bem definidos, 

continuam pintando maçãs em suas telas.

Portanto, nós podemos ousar afirmar

que suas obras são boas.

 

Não é a pintura que restou morta.

 

Tampouco terá a arte "progredido".

 

Foram as maçãs que mudaram.

 

 

 

 

Hector Obalk

Pote de pincéis - Pintura de Philippe Cognée - Óleo sobre tela, 1996

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publicado por ardotempo às 04:16 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

O duplo

Fotografia

 

 

 

 

O duplo - Fotografia de Mário Castello, 2007 

publicado por ardotempo às 03:40 | Comentar | Adicionar

Para poetas - e para a poeta

Morto cobrido de amor

 

António Lobo Antunes

 

Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas. O que eu queria mesmo, o que mais queria neste mundo, o que mais desejava mas não tenho talento, era ser poeta. Até aos dezanove, vinte anos, só escrevi poemas. Descobri que eram maus, que não era capaz, que me faltava o dom. Foi um achado tremendo para mim, a certeza que a minha vida perdera o sentido. E então, aflito, desesperado, a medo, comecei a tentar outra coisa, porque não me concebia sem uma caneta na mão. Nunca fiz contos, nem diários, nem teatro, nem ensaios e contar lérias não me interessava.

 

Interessava-me transferir o mundo inteiro para o interior das capas de um livro. E cheio de hesitações, recuos, influências, a certeza que ainda não era aquilo, ainda não era aquilo, dei início a este fadário. Resignado com a minha ausência de talento para me exprimir em verso.

 

Nos primeiros tempos ainda experimentei, ocasionalmente, redigi uns poemas: eram horríveis. Então conformei-me.O projecto de mudar o mundo através dos meus livros ajudava-me, romper com os cânones, a tradição, o passado, dizer o que nunca havia sido dito. A este sonho me amparo e com este sonho continuo. No entanto a secreta inveja dos poetas permanece. Tento contorná-la ao exigir de mim o impossível: a quadratura do círculo das emoções. Conseguir uma obra que contenha tudo dentro. Tudo dentro. E assim ando.

 

Claro que gostava de ter composto o “Branco e Vermelho” de Pessanha. “A Toada de Portoalegre” de Régio. As “Canções” de Camões. “A Pavorosa ilusão da Eternidade” de Bocage. Certas estrofes, certos sonetos de Sá Miranda, tanta coisa mais.Mesmo nos vivos: invejo Vasco Graça Moura, António Franco Alexandre, Pedro Tamen, etc., que a lista é longa e toda a omissão é uma exclusão injusta. João Cabral de Melo Neto, Drummond:

”O Desaparecimento de Luísa Porto”, por exemplo, é uma obra-prima.

 

E eu aqui amarrado em busca do infinito, palavra a palavra, lento como um boi, a emendar, a voltar ao princípio, a emendar de novo, a voltar ao princípio de novo, a lograr uma linha, duas linhas, uma página por fim. Trabalho de oficina, excepto em momentos privilegiados em que a mão anda por si, e o texto encontra, como por milagre o seu caminho. No resto do tempo sinto-me como os velhos nas escadas, conquistando duramente cada degrau. Não me estou a queixar: tenho o que escolhi, faço o que quero, não trocava a minha vida por nada deste mundo.

 

No ano passado achei-me de repente diante da minha finitude, num imenso assombro. Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era.

 

Ter passado o que passei alterou-me por completo a existencial e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca. Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele.Não podemos deixar que ele nos assuste.

 

Gastei meses a encostar o ouvido á terra do meu corpo, tenso, à espera. Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade. Os exames afirmam que o meu corpo está bom:á alturas em que me apetece despi-lo, vogar sem ele, à deriva no meu lago de emoções, esperanças, desânimo ocasional, amor.Sou muito mais capaz de amar agora. Não me sinto apenas feito para escrever como um danado, sinto-me feito para amar como um danado, numa doce ferocidade. De engolir o universo. Cristovam Pavia, poeta que estimo imenso e se abraçou a um comboio aos trinta e cinco anos, publicou um único livro de poemas antes desse abraço.

 

O último verso do livro ficou para sempre na minha cabeça. Diz:

 

Só há saída pelo fundo.

 

De maneira mais ou menos obscura sempre achei isso verdade.Agora faz parte da minha carne: só há saída pelo fundo, realmente, mas á uma saída. E basta-me a certeza disso. Acabarei o livro que escrevo agora, escreverei mais livros. Até me tornar, não sei quando, um morto cobrido de amor, como na morna que o Vitorino me cantou um dia.

 

Eugénio, neste momento lembrei-me de si, do seu repouso no coração do lume.Éramos tão amigos, gaita, teve para comigo tão delicadas atenções enquanto as palmeiras da Foz esbracejavam lá fora. Ou o Alexandre O’Neill, a única pessoa que conheci que não gostava de ninguém. Nem de si mesmo, acho eu. Mau como as cobras, a rir um riso torto, devastador.

 

Era uma época em que os escritores me fascinavam porque os olhava como mesas de espíritas, capazes de comunicarem noutra dimensão. Uma espécie de demiurgos, de feiticeiros. Qualquer bom artista é uma mesa de espírita a receber mensagens do além, o que os torna, em certo sentido, quase irrespeitáveis: a quantidade de mulheres que sempre rodearam um monstro físico e moral como Sartre; Simenon gabava-se de ter dormido com quinze mil. Faz-me lembrar Billy The Kid afirmando haver morto dezoito homens.

 

           Acrescentava

          ... não contando os mexicanos.

 

E esse tipo de proezas acabou para mim.

 

Deixou de interessar-me. Uma única mulher basta.: ela é todas. Nem sequer é uma questão de maturidade, é uma questão de não ser parvo. Acabando esta crónica regresso ao livro: ali está ele à minha espera fazendo negaças. Não tem sorte nenhuma: vou ganhar. Nem que a pele fique pelo caminho vou ganhar. Mudá-lo-ei dúzias de vezes mas ganho. Só há saída pelo fundo. Eu encontro-a. De onde me virá esta teimosia, esta firmeza? Não sei.Julgo que fui assim desde o início. As partes gelatinosas que tive vão-se tornando de pedra. Cheio de ferro por dentro. Acabo de comer a torrada, vou-me embora. Atravesso a rua para o sítio onde trabalho, pego na caneta, espero. Chamo caneta a uma esferográfica vulgar, qualquer que risque me serve. Terá sido a esferográfica que me riscou a testa com o tempo? Porque não voltas atrás e vês o que ficou escrito nela? Retratos, livros, papéis, eu a começar.

 

O telefone soluça como um bebé e, dentro de mim, o teu nome. Vozes de crianças por trás e tudo de súbito fácil, perfeito. Não sei bem o que digo, não sei bem o que oiço. Limito-me a afogar-me em ti como no mar.

 

 

 

 © António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 03:28 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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