Arquitetura de Frank Gehry no Hyde Park, Londres
Em 2008 o arquiteto convidado é Frank Gehry (autor do projeto do Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha). Convidado para criar o pavilhão temporário da Serpentine Gallery, no Hyde Park, em Kensington Gardens, Londres (anteriormente ali já foram montados também os projetos de Oscar Niemeyer e de Álvaro Siza Vieira - sempre os convidados são arquitetos renomados que ainda não têm obras realizadas em Londres ).
O projeto de Gehry é uma estupenda estrutura em madeira, metal e vidro, encaixados como se fosse um puzzle. O arquiteto declara ter se inspirado nos desenhos das catapultas articuladas de Leonardo da Vinci e em parte, nos quiosques de praia.
O pavilhão temporário da Serpentine Gallery é concebido para os eventos musicais do Festival de Verão que ocorrem em Londres de julho a outubro. A inauguração ocorre no dia 19 de julho, com a apresentação do pianista, compositor e maestro Thomas Ades.
Os Dois
"Sob céu de faiança."
EMMANUEL TUGNY
© Emmanuel Tugny, Éditions Léo Scheer, Paris, 2008
César - Natureza-morta com cinco cafeteiras (bules) azuis - Série Homenagem a Giorgio Morandi - Painel com cinco bules esmaltados comprimidos e colados sobre placa de madeira, intervenção com pintura em acrílica - 1990
A identidade de Banksy?
O jornal britânico The Mail On Sunday diz ter descoberto a identidade do misterioso artista Banksy. Segundo o jornal, ele seria Robin Gunningham, de 34 anos, um ex-aluno de uma escola particular (a Bristol Cathedral School).
O jornal diz que identificou Banksy a partir de uma fotografia de um homem ajoelhado com uma lata de tinta spray, tirada na Jamaica há quatro anos.
Banksy, cuja identidade nunca foi revelada oficialmente, é conhecido por seus desenhos de conotação política em edifícios públicos da capital britânica e em outras partes do mundo.
Uma porta-voz do artista se recusou a comentar a reportagem do jornal britânico. "Nós recebemos esse tipo de ligação o tempo todo", disse à BBC. "O que vou dizer é o que sempre digo, eu nunca confirmo ou nego essas histórias."
Até agora, a única coisa que se sabe de Banksy é que o artista nasceu e cresceu na cidade britânica de Bristol. Rumores de que ele se chama Robin Banks e que seus pais acreditam que ele seja um pintor ou decorador são comuns.
Scott Nurse, um ex-aluno da escola de Gunningham, a Bristol Cathedral School, disse ao jornal que seu colega era "extremamente talentoso nas artes".
"Eu não ficaria surpreso se ele fosse mesmo Banksy", disse. Luke Egan, um artista que já realizou uma exposição conjunta com Banksy, inicialmente disse que não conhecia Gunningham, mas depois admitiu que dividiu um apartamento com ele. Ao ser perguntado pelo jornal se Gunningham era Banksy, ele disse "bem, ele não era na época".
O pai de Gunningham, Peter, disse que não reconhecia a pessoa na fotografia mostrada no The Mail On Sunday, enquanto a mãe, Pamela, negou ter um filho.
A fotografia tirada na Jamaica pelo fotógrafo Peter Dean Rickards apareceu pela primeira vez na Internet e em seguida no jornal The Evening Standard em 2004.
Na época, o agente de Banksy, Steve Lazarides, disse à revista "The New Yorker" que a foto não era de seu cliente. Mas Colin Saysell, um policial que trabalha na prevenção de grafites em Bristol e que seguiu Banksy por anos, disse que a foto era legítima.
Dois anos depois, o artista insistiu que o público jamais deveria descobrir sua identidade. "Eu não tenho interesse em me revelar", disse à revista Swindle. "Eu estou tentando apenas fazer com que os desenhos apareçam bem, eu não quero fazer com que eu mesmo apareça bem."
"Além disso, é uma aposta segura dizer que a realidade do que sou iria ser uma terrível decepção para alguns moleques de 15 anos por aí", disse Banksy.
Essa história é um pouco confusa, meio fantasiosa, parece coisa do filme do Batman e com um super-herói grafiteiro de identidade camuflada, na cara de todo mundo.
Como é possível não se descobrir a sua verdadeira identidade sabendo-se que ele pintou, por encomenda (utilizando-se de um andaime externo) a imagem de uma janela indiscreta no alto de uma parede lateral de um prédio, defronte a importante prédio administrativo da prefeitura de Bristol, durante dois dias, e depois pintou vários graffitis gigantes numa exposição institucional dentro de um túnel desativado de metrô, em Londres?
Ou que viajou a Telaviv e Jerusalém para pintar uns graffitis políticos e umas intervenções em muros que separam israelenses de palestinos? Ninguém viu, ninguém fotografou? Também foi grafitar em Nova York e assim sendo desviou-se candida e secretamente das polícias locais e procedimentos de segurança dos aparatos de vigilância em Israel e nos Estados Unidos? Incógnito??? Quem acredita...?
Além disso o cara tem blog, agente-marchand e porta-voz... Então, está bem assim, acreditamos todos no segredo inviolável e na sua invulnerabilidade.
A todos os meus amigos franceses...
Le 14 juillet - Paris em azul
Foto de Eric Tenin – publicada no blog ParisDailyPhoto
Não basta ter razão para estar certo
Ferreira Gullar
A nova lei - apelidada lei seca - que reprime com maior rigor o abuso de bebidas alcoólicas, com poucos dias de aplicação, já havia dado ótimos resultados. Em prontos-socorros, o atendimento de vítimas de acidentes de trânsito caiu numa semana entre 17 e 27%. Concomitantemente, a diligência da polícia fez com que dezenas de motoristas alcoolizados fossem impedidos de continuar dirigindo. Alguns - que a televisão mostrou - desceram dos carros tropeçando nas pernas, tão bêbados estavam.
Naqueles poucos dias muitas vidas foram poupadas. Mas logo surgiram os defensores dos direitos individuais para condenar a nova lei, alegando que ela atenta contra a liberdade dos cidadãos.
Mal começou a polícia a agir e já um membro da promotoria de São Paulo declarava que o uso do bafômetro era um atentado aos direitos individuais, já que ninguém é obrigado a produzir provas contra si. A Associação de Hotéis e Empresas de Entretenimento entrou com uma ação contra a lei seca. Não sei em que vai dar isso mas, pelas decisões que costumam tomar nossos juízes, não duvido que se termine por suspender a aplicação da lei e os motoristas irresponsáveis continuem a pôr em risco a vida das pessoas.
O problema não é simples, pois, em muitos casos, se obedece estritamente à letra da lei, a autoridade fica impedida de agir. O juiz reconhece que a nova lei, criada com a melhor das intenções, contraria princípios básicos do direito ou o parágrafo tal da Constituição. Mas, segundo um amigo meu, que é jurista, o argumento que pretende impedir o uso do bafômetro não se sustenta, pois há hoje o entendimento de que negar-se ao teste é uma confissão de culpa. E parece que assim entende a polícia, ao impedir os que resistem a soprar o bafômetro de continuarem dirigindo.
A aplicação das leis é quase sempre difícil e sujeita a contestações.
As leis existem porque, sem elas, o convívio social seria impossível. Por isso mesmo, toda lei implica a redução do grau de liberdade dos indivíduos, uma vez que, se cada um pudesse fazer o que lhe desse na telha, atropelaria o direito do outro e, assim, chegaríamos ao caos ou à lei da selva, o mais forte impondo sua vontade. O difícil está, por isso mesmo, em alcançar a sintonia fina entre o bem geral da sociedade e o direito de cada indivíduo.
Não resta dúvida de que essa nova lei seca veio estragar o fim de semana de muita gente habituada a sair de noite para jantar com os amigos, tomar seus uísques e voltar para casa dirigindo o seu carro. E agora, como abrir mão de um hábito de dez, 20 anos? A opção seria ou não bebe ou corre o risco de ser levado em cana e ficar sem a carteira de motorista por um ano ou mais. Já os donos de restaurantes e hotéis, se bebem ou não, pouco importa: estão preocupados é com a queda na venda de bebidas alcoólicas. Pouco se lhes dá se o freguês, depois de pagar a conta, vai imprensar contra um poste uma família inteira. E certamente um bom advogado sempre encontrará um dispositivo legal que garanta o livre comércio de bebidas alcoólicas e algum juiz que suspenda a aplicação da lei seca.
Eu, que não entendo de leis, tendo a achar que o interesse geral -como a proteção da vida das pessoas- deve prevalecer sobre a aplicação estrita do dispositivo legal. Vou lhes dar um exemplo, que não tem nada a ver com bebidas alcoólicas nem perdas de vidas, mas que talvez sirva para amainar o ímpeto legalista dos juristas. Desculpem se o exemplo me envolve mas é que ele me parece bastante ilustrativo dessa escolha que às vezes temos de fazer entre a aplicação da lei e o interesse maior da sociedade.
Quando presidente da Funarte, caiu-me nas mãos um processo que, já julgado em última instância, autorizava a instituição a retomar as obras de arte popular que tinham sido cedidas, por um prazo, ao museu do Convento do Sino, de João Pessoa, na Paraíba.
Conhecia o museu e vira lá as obras expostas. Tratava-se de uma coleção, adquirida pelo governo para uma exposição de arte popular brasileira na França e que deveria integrar o acervo do Museu do Folclore, da Funarte. Ao ler o processo, lembrei que este museu possuía mais de 5.000 obras guardadas no porão, sem expô-las, por falta de espaço mas, por força de lei, deveria retomar as obras que estavam expostas na Paraíba, para enfurná-las como as outras. Com a concordância do ministro, arquivou-se o processo e assinou-se uma cessão em comodato com o museu paraibano. Por direito, a Funarte deveria retomá-las mas isso não traria qualquer benefício à sociedade.
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL
Desenho de Saul Steinberg
Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
O novo Museu dos Coches em Belém, um "pavilhão de exposição em cristal e aço", nas palavras do arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha (Prêmio Pritzker de Arquitetura 2006), estará pronto em outubro do próximo ano (2009). Até lá a coleção de carruagens antigas, coches de gala, berlindas e liteiras, que datam desde o século XVII ao XIX, pode ser admirada no mesmo local de sempre – no antigo Picadeiro do Palácio de Belém, em Lisboa.
Projeto do Museu Nacional dos Coches - Veja o vídeo-animação
No seu penúltimo romance, Homem Lento, o escritor sul-africano J. M.
Coetzee (n. 1940) tem outra vez à perna Elizabeth Costello, e desta vez em
sentido literal. Para quem não saiba, Elizabeth Costello é o alter-ego do
autor. Apareceu pela primeira vez em 1999, com A Vida dos Animais e, em
2003, a obra que precede Homem Lento leva mesmo o seu nome no título.
O processo é simples: Coetzee cria uma situação de mise en abyme (ou seja, de
encaixe) de modo a inserir na intriga um mecanismo de auto-contemplação.
Elizabeth Costello é escritora: "começa a recordar-se de quem ela é. Tentou
uma vez ler um livro escrito por ela, um romance, mas desistiu: não lhe
prendeu a atenção. [...] Em tempos que já lá vão (agora está a escavar na
memória) ela foi célebre por uma coisa qualquer, mas isso parece ter
desaparecido, ou talvez fosse apenas mais uma tempestade dos meios de
comunicação." Os dois falam a mesma linguagem (no romance de 2003 ela
comenta ensaios do autor) e provocam-se mutuamente.
O fotógrafo Paul Rayment é um homem diminuído. Foi atropelado e
amputaram-lhe uma perna: "O impacto [...] deu-se em cheio no joelho, e havia
uma componente acrescida de rotação, de forma que a articulação fora ao
mesmo tempo esmagada e torcida." Como se não bastasse, apaixonou-se pela
enfermeira, Marijana Jokics, uma mulher com formação em arte, que emigrou
com o marido e os filhos para a Austrália, país onde não teve oportunidade
de aplicar o saber obtido em Dubrovnik. Paul Rayment é um dos seus
pacientes.
Longe da Croácia natal, a família Jokics vive os equívocos da diáspora. Em
Adelaide, uma cidade muito diferente da Munno Para de onde veio, Miroslav
Jokics, um restaurador conceituado, vê-se obrigado a ganhar a vida como
mecânico de automóveis. É o desenraizamento dessa família que permite a
Coetzee discorrer sobre os óbices e consequências do expatriamento, algo que
conhece bem. (Natural de Cape Town, o escritor deixou a África do Sul em
2002, radicando-se na Austrália.) À primeira vista poderão parecer
experiências diferentes, porque os Jokics foram ao encontro de outra
cultura, e de uma língua nova, enquanto que o exílio de Coetzee o manteria
no mundo de língua inglesa.
Pura falácia. A realidade encalha onde menos se espera.
Com efeito, Coetzee é um genuíno africânder, alguém que cresceu e se
formou à sombra da cultura e língua africânder (a origem remonta a 1652,
quando os primeiros colonos holandeses se fixaram em Cape Town), nessa
qualidade tendo traduzido, para o inglês e outros idiomas, a literatura
nativa. É na qualidade de escritor sul-africano emigrado na Austrália que o
protagonista do seu último romance, Diary of a Bad Year (2007), inédito em
Portugal, comenta o terrorismo, a globalização, os desastres ecológicos, o
avanço das experiências genéticas e outros temas mediáticos. Quando trocou a
África do Sul pela Austrália, e não foi o único escritor sul-africano que o
fez, Coetzee emigrou, de facto, para outra cultura. Por isso é que, ao falar
da família Jokics, está na verdade a lamber as suas próprias feridas.
À margem das questões identitárias (convém não esquecer o peso que a
experiência colonial tem no conjunto da obra do autor), Homem Lento é uma
epifania sobre o envelhecimento e a perda do amor. A obsessão de Paul
Rayment por Marijana é que o impede de desistir. Por essa mulher, casada e
mãe de filhos, fará o que for preciso. Nem que tenha de corromper o filho,
esse Drago demasiado luminoso que tem estampada a marca da morte. O rapaz
quer ir para o Wellington College, cujas propinas não estão ao alcance dos
pais? Não seja por isso. Paul Rayment assina o cheque. Afinal de contas,
nunca tinha tido uma paixão balcânica! Quem o traz de volta à terra,
obrigando-o a reflectir na insensatez, é Elizabeth Costello. Não se trata de
moral. Mrs. Costello preocupa-se com questões práticas: "É melhor que esteja
também limpo para ela. Se falo com crueza, desculpe. Lave-se bem. Lave tudo.
E desfaça-se dessa cara triste. Perder uma perna não é uma tragédia. Pelo
contrário, perder uma perna é cómico. [...] Caso contrário não haveria
tantas piadas sobre o assunto."
Ao longo do livro, há envios ao Ulisses de Joyce e a certos personagens de
banda desenhada, bem como referências de outro tipo, mas tudo isso flui com
extrema naturalidade na prosa dúctil de Coetzee. Sem a força de obras
anteriores, como, por exemplo, À Espera dos Bárbaros (1980) ou A Vida e o
Tempo de Michael K (1983), romances que têm um ímpeto declarativo que
contrasta com o tom resignado da história do fotógrafo perneta, ainda assim
Homem Lento evidencia a excepcional capacidade narrativa do autor.
Publicado no blog Da Literatura
Pica-pau
Encontros com o Professor
O Professor é Ruy Carlos Ostermann, o sofisticado, sóbrio e culto jornalista-entrevistador que rege com mestria o seu palco. A platéia lotada no Studio Clio vê a performance do twister e poeta Fabricio Carpinejar. Ele fala de tudo nesta noite de quinta-feira: de poesia, dos filhos, do pai poeta, da mãe poeta, da psicanálise, dos afetos, da memória, das palavras, dos amigos, das namoradas antigas, do casamento, das gaffes, do tamanho do seu carro, do ato de escrever, da alegria, da melancolia, de perfumes, de uniformes, das ausências e da recordação de seu primeiro livro editado...
Uma noite animada e espetacular. Termina com música e aplausos.
Encontros com o Professor - Fotos de Carlos Carvalho
Labirinto
"Todas as construções do homem têm uma finalidade bastante clara. Mas a idéia de se construir um labirinto; uma construção concebida para quem nela entre e ali se perca, é uma idéia estranhíssima."
©Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecé Editores – Buenos Aires Argentina
Pintura
Criatura/Labirinto - Pintura de Alfredo Aquino, óleo sobre tela - 1991
Acervo do MASP - Museu de Arte de São Paulo
Prédio na periferia, 1997
Lavadora, 1994
Cadeira, 1995
Banheira, 1995
Supermercado, 1998
Phillipe Cognée - Pinturas em óleo sobre tela, coladas em chapas de madeira
"Só gosto de você, minha alma."
EMMANUEL TUGNY
© Emmanuel Tugny, Éditions Léo Scheer, Paris, 2008
Roy Lichtenstein - Natureza-morta cubista com cachimbo -
Pintura, acrílica sobre tela
Pierre Ardouvin
Instalação com luz - Sol Poente - Grande disco translúcido em chapa de acrílico, de cor laranja e luminária em tubo fluorescente amarelo, 2005
Dada
Os dadaístas, com suas provocações, o seu cinismo e a sua metralhadora estética giratória, atiraram em todo mundo e alguns momentos contra eles mesmos. A sua pontaria contra os outros foi muito mais precisa e fatal do que contra si próprios. Hoje em dia a obra perpetuada por eles em objetos, textos, fotografias, instalações e "apropriações" (e o seu legado conceitual na forma de atuação recorrente de seus milhares de seguidores) estão presentes nos mais exclusivos espaços expositivos da Arte Contemporânea, nos mais prestigiados museus, nas bienais internacionais de arte, no curriculo teórico da Escolas Superiores de Arte Contemporânea (a neo-academia) e, curiosamente, no núcleo duro e excluente de um potente mercado de arte.
A sua conduta, os seus ensinamentos e o seu toque de midas conceitual sobre os objetos, quaisquer que eles sejam, tornou-se o dogma pétreo que permeia a orientação dos curadores dos grandes museus contemporâneos, dos certames de arte e do valioso mercado da Arte.
Jacques Vaché: "A Arte é uma bobagem".
Francis Picabia: " A Arte é um produto farmacêutico especialmente indicado para os imbecis".
Marcel Duchamp: " A Arte não se pode compreender mediante o intelecto, uma vez que se a percebe e sente através da emoção, o que apresenta certas analogias com a fé religiosa e com a atração sexual".
Algo mudou e a orquestração intelectual e mediática dadaísta invadiou os espaços museológicos, esses mesmos que lhes outorgam a "aura" artística por presença, o que não se percebe quando colocados em outros espaços não-artísticos; e que alavancam substancialmente o valor comercial de suas assinaturas e de sua produção.
Dada, que abriu a caixa de pandora, espalhou os ventos incontroláveis e as chuvas ácidas e agora colhe os melhores frutos...
Jean Baudrillard: " ...se tudo é arte; então nada é Arte".
No cano do esgoto
Graffitis executados nas galerias de esgotos e em canalizações subterrâneas na cidade São Paulo, em 2007 / 2008
Autor: Zezão
A máscara da face
Ferreira Gullar
Já escrevi aqui sobre o rosto humano, a propósito da descoberta que fizera então, óbvia e surpreendente, de que "estamos na cara", isto é, em nossa cara. E apesar de já tê-lo dito e de sabê-lo, continuo a me surpreender com esse fato banal, que se torna mais evidente quando vejo um lindo rosto de mulher: ela tem ombros, busto, quadris, coxas e pernas, move-se na quadra de tênis como se voasse - como Maria Sharapova -, mas tudo se resume, para nós, num rosto.
E então pensei no contrário do rosto: pensei na máscara, no que não somos. Porque o rosto é o que somos, inventou-se a máscara, a ocultação do que somos. Certamente já escreveram sobre isso. Deve haver estudos e teorias sobre esse tema, pelo qual nunca me interessara, até este momento.
Lembro-me de que uma das primeiras pinturas rupestres, do paleolítico, mostra uma figura mascarada, que se supõe seja um feiticeiro ou um caçador disfarçado de animal.
Se for uma coisa ou outra, o significado de mascarar-se será diferente: sendo o caçador, é um disfarce; se for um feiticeiro, trata-se da representação de uma entidade mítica, dotada de poderes sobrenaturais.
Ao longo da história, em povos e civilizações diferentes, a máscara representava espíritos em geral demoníacos, que participavam de rituais, fosse para exorcizá-los, fosse para atemorizar os membros da comunidade e torná-los obedientes e submissos. Muitas dessas máscaras, que estão hoje em museus de antropologia, exageram na expressão assustadora, na feiúra que seria própria dos demônios. Mas a máscara tem tido funções diferentes nas diferentes culturas, seja como um modo de garantir a vida depois da morte, como no antigo Egito, seja como um modo de enganá-la, cobrindo o rosto do cadáver com uma cara inventada. Aliás, como é óbvio, a máscara, falso rosto, foi criada para enganar, pelo fato mesmo de que, como ficou dito, nosso rosto somos nós. E, se assim é, ele nos identifica e, portanto, nos denuncia, pelos traço fisionômicos, mas também pela expressão do olhar.
De cara exposta, olho no olho, é quase impossível fingir, mentir, enganar, mas, por trás da máscara, estamos a salvo do olhar perscrutador. Não adianta fitar os olhos, se não sabe de quem são. Devemos admitir que desse olhar perscrutador queremos todos escapar e aí talvez esteja a razão fundamental porque a máscara esteve sempre tão presente na vida dos povos. No Ocidente, particularmente, a partir do desenvolvimento da economia, o olhar que indaga foi se tornando mais agudo e necessário: é que nasceu o comércio, a transação fundada na confiança e, então, segundo Arnaldo Hauser, surge a psicologia. Essa situação fez nascer um outro tipo de máscara, ou seja, o cara-de-pau, que não hesita em se fazer passar pelo que não é. E assim, além da máscara material, existe a de cara limpa. A máscara virtual do fingidor. E aqui tocamos num ponto que explica, em grande parte, a invenção da máscara pelo homem, o fato de que, se o rosto que temos somos nós, nem sempre queremos expô-lo, porque nem sempre queremos nos expor, não só por autodefesa como também porque não sabemos quem somos e não sabemos, tampouco, se o outro, ao nos olhar, nos vê como somos ou desejamos ser vistos.
É que o que somos só ganha realidade pelo reconhecimento do outro, ou seja, não somos, de fato, senão porque nos inventamos tal como queremos que o outro nos reconheça e aprove. Esse personagem inventado, que mostramos ao outro, exige de nós equilíbrio e adequação ao meio social, a fim de que ele nos aceite como pessoa verdadeira e não como um "mascarado". Essa relação do rosto e da máscara parece decorrer da necessidade que temos de ficar livres do olhar do outro e livres, portanto, de sermos, para ele, aquela mesma pessoa de quem espera as mesmas coisas. Por essa razão, Jean-Paul Sartre dizia que "o inferno são os outros".
A questão toda é que nem para nós somos os mesmos, sempre, totalmente fiéis aos e princípios que decidimos adotar. Ser ético não é jamais se deixar tentar pelo erro e, sim, resistir à tentação, para poder, depois, olhar-se no espelho, sem sentir constrangimento. Talvez o certo seja dizer que o rosto é a máscara que o acaso biológico nos impôs como identidade e é o espelho que nos informa da cara que é nossa, gostemos ou não. Mas, segundo li, nos Estados Unidos, graças à cirurgia plástica, já se pode trocar o rosto de nascença pelo de uma bela atriz ou de um belo ator, que se admira. E andar com a cara dela (ou dele) pelas ruas da cidade.
© Ferreira Gullar – Publicado pela Folha de S.Paulo / UOL
Pintura de Giorgio De Chirico - Retrato Premonitório de Guillaume Apollinaire, 1914
Biocombustíveis podem ser piores do que se pensava a princípio
Um relatório interno do Banco Mundial que vazou para o Guardian sustenta que os biocombustíveis talvez sejam responsáveis por até 75% da alta nos preços dos alimentos. Nem os grupos ambientais foram tão longe em suas estimativas.
Os preços de alimentos são um assunto prioritário na agenda para a reunião de cúpula da semana que vem do G-8 no Japão, e o presidente do Banco Mundial Robert Zoellick foi claro que é preciso tomar medidas. "O que estamos testemunhando não é um desastre natural - um tsunami silencioso ou uma tempestade perfeita", escreveu em uma carta na terça-feira aos principais líderes ocidentais. "É uma catástrofe feita pelo homem e, como tal, deve ser consertada pelas pessoas."
De acordo com um relatório confidencial do Banco Mundial obtido pelo Guardian na quinta-feira, a organização de Zoellick talvez tenha uma idéia bem clara de como deveria ser a solução: parar de produzir biocombustíveis.
O relatório alega que os biocombustíveis elevaram os preços dos alimentos mundiais em 75%, sendo responsáveis por mais da metade do salto de 140% nos preços desde 2002 dos alimentos examinados pelo estudo. O artigo do Guardian alega que o relatório, concluído em abril, não foi divulgado para não embaraçar o presidente americano George W. Bush.
Uma análise americana recentemente chegou à conclusão que apenas 3% do aumento dos preços dos alimentos poderiam ser atribuídos aos biocombustíveis.
O Banco Mundial na sexta-feira procurou limitar o impacto do vazamento do relatório. Um porta-voz da organização, que pediu para não ser identificado, disse ao Spiegel Online que o documento obtido pelo Guardian foi apenas um de vários relatórios internos sobre biocombustíveis não destinados à publicação. Ele salientou que o Banco Mundial há muito concordou que os biocombustíveis são um fator que pressiona os preços dos alimentos, mas que prefere não quantificar esse impacto.
"Os biocombustíveis sem dúvida contribuem significativamente", disse Zoellick nesta primavera, estabelecendo a linha do Banco Mundial sobre biocombustíveis. "Claramente, os programas na Europa e nos EUA que aumentaram a produção de biocombustíveis contribuíram para a maior demanda por alimentos."
Ainda assim, em um ambiente de crítica crescente aos biocombustíveis e cada vez mais preocupação com o impacto do salto nos preços de alimentos, o relatório é uma bomba. Ele estima que os aumentos nos custos de energia e de fertilizantes foram responsáveis por apenas 15% do aumento nos preços de alimentos. Nem mesmo o grupo ambiental Oxfam chegou tão longe quanto o relatório do Banco Mundial. Em um estudo divulgado no final de junho, chamado "Outra verdade inconveniente", a Oxfam disse que os biocombustíveis levaram mais de 30 milhões de pessoas à pobreza - mas que haviam contribuído com apenas 30% no aumento de preços globais de alimentos.
"Os líderes políticos parecem ter a intenção de suprimir e ignorar fortes evidências que os biocombustíveis são um importante fator nos recentes aumentos de preços de alimentos", disse o assessor de política da Oxfam, Robert Bailey, ao Guardian, na sexta-feira.
A demanda por biocombustíveis aumentou significativamente nos últimos anos, na medida em que os países industrializados procuraram cortar as emissões de CO2 utilizando fontes de energia renováveis. Em abril, Londres introduziu novos regulamentos exigindo que 2,5% do combustível vendido nas bombas no Reino Unido fosse composto de biocombustível e que essa mistura aumentasse para 5% em 2010. A União Européia estabeleceu para si mesma a meta de acrescentar 10% de biocombustível aos combustíveis até 2020 em todo o continente. O presidente dos EUA, George W. Bush, também se apegou ao etanol como forma de reduzir a dependência dos EUA em petróleo estrangeiro.
Em um relatório publicado na terça-feira pelo Banco Mundial, em preparação para a reunião de cúpula da próxima semana do G-8, a organização recomendou que o grupo promovesse "ações nos EUA e na Europa para diminuir subsídios, mandatos e tarifas sobre biocombustíveis que derivam do milho e de sementes".
As críticas ao combustível feito de grãos e capim não giram apenas em torno dos preços de alimentos. Os produtores nos países em desenvolvimento estão derrubando florestas e drenando mangues - ambos valiosos por sua habilidade de absorver CO2 da atmosfera - para abrir espaço para plantações de biocombustível. Assim, muitos duvidam que o produto seja neutro em carbono. E mais, alguns fertilizantes usados na produção de grãos para biocombustíveis liberam óxido nitroso na atmosfera, um gás de efeito estufa que é até 300 vezes mais nocivo do que o CO2.
O relatório do Banco Mundial obtido pelo Guardian diz que a produção de biocombustíveis coloca pressão sobre os preços de alimentos tirando os grãos da produção de alimentos, estimulando os agricultores a separarem terras para plantações de biocombustíveis e gerando especulação de grãos nos mercados financeiros.
O problema tornou-se tão ruim que o Representante Especial da ONU pelo Direito ao Alimento, Jean Ziegler, chamou os biocombustíveis de um "crime contra a humanidade" no início desta primavera.
Publicado por Der Spiegel / UOL
Fotografia de Mauro Holanda
Eduardo Pitta
Assim que deixou o Mount Holyoke Female Seminar, onde concluiu a sua formação, Emily Dickinson pôde permitir-se ficar fechada em casa a escrever poemas. O resultado foi que escreveu para cima de dois mil. Afinal de contas, na Nova Inglaterra dos anos 1840-50, as meninas de boas famílias não andavam propriamente a abrir. E é muito provável que o envolvimento com Charles Wadsworth, um padre jovem, casado e com filhos, tenha sido uma resposta ao calvinismo ortodoxo do pai, um influente advogado e político de Amherst, cioso dos valores da família. Fosse como fosse, Emily isolou-se por opção. No quarto só mesmo Helen Hunt Jackson, antiga companheira dos bancos de escola e, sim, também isso em que possam conjecturar. Se leram Mercy Philbrick's Choise, o romance que Helen publicou em 1876, ficam a saber que a protagonista não é outra senão Emily.
Hoje, nenhum escritor tem um quarto que seja seu. Meia dúzia tem suite cativa nas praças-fortes da edição, Nova Iorque, Londres e Frankfurt, e esses não fazem a coisa por menos que o Lowell da rua 63, a Cliveden Town House de Cadogan Garden ou o Hessischer Hof da Friedrich Ebert Anlage, moradas em conformidade com o box-office e a agenda mediática. Digamos que é o patamar Bernard-Henri Lévy. Luxo sem culpa, à francesa.
Do outro lado do espelho, o indisfarçável tédio dos pequenos-almoços de Susan Sontag no quarto apainelado do Gritti, em Veneza, tal como a Leibovitz o imortalizou, traduz a variante radical toldada pela culpa. Ali perto, mas já em Dorsoduro, Brodsky, quase um nativo da cidade, contentou-se anos a fio com uma pensione acanhada. Bem vistas as coisas, sempre há alguma diferença entre quem é expulso da sua terra sob a acusação de parasitismo social (e foi o que sucedeu com ele, corria o ano de 1972), e a mãe do camp em repouso sabático. Quando ainda havia Muro, a indústria dadétente juntou-os na Bienal da Dissidência. Ela no Gritti, prolongando uma genealogia iniciada por Ruskin, ele no Londra Palace, quem sabe se no quarto onde Tchaikovsky compôs a Quarta Sinfonia. Então, numa tarde de Novembro, mandaram a guerra fria às urtigas, indo juntos ao sestiere Salute visitar Olga Rudge, a viúva de Pound. Para mal de ambos, o serão foi um fiasco.
O tempo em que a literatura era uma coutada de iluminados, como foi ainda o da Dickinson, acabou. A era dos extremos inventou e largamente subsidiou o autor de causas, como ilustrado por Malraux, Neruda ou Spender. O francês por duas vezes foi ministro: primeiro da Informação (ah bon?), mais tarde dos Assuntos Culturais. O chileno vingou os anos de Temuco no dia em que o Nobel foi parar às suas mãos. O inglês, como era expectável, morreu Sir. Contra o figurino e a disciplina do compromisso, Sontag e Brodsky quiseram-se déracinés. Em todo o caso, o que fica da literatura não é a dieta de ostras e champanhe da baronesa von Blixen-Finecke, mas os livros que assinou como Isak Dinesen depois de deixar o marido e o Quénia. Nos anos 1930-40, a Toscana e o sul da França tinham uma elevada quota de escritores (ingleses e americanos) residentes porque ali podiam construir uma obra longe da pressão do quotidiano. Pouco propensa à viagem, Virginia Woolf fez de Richmond a sua Villefranche-sur-Mer. E Cardoso Pires refugiava-se no cottage da Caparica. A lista não tem fim.
A seguir vieram os assalariados e, na enxurrada, o autor novo. Foi o mercado que inventou o autor novo, aquele que não tem passado, o que faz dele um homem sem memória. No Cabo Espichel como em Vaiaku, o autor novo anda sempre com o tempo universal coordenado. O romance que fez dele um ícone tem inscrita a frase primitiva — Ele viu a gaja —, e essa frase brutal, vertida em todas as línguas (excepto em urdu), objecto de seminários nas universidades da Ivy League, e também na Beira Interior, obriga-o a explicar o rizoma da gaja ao arrepio do fuso horário. À distância, porém atento, o agente põe a correr nos mentideros o rumor de uma edição anotada em escalabitano. Espremido entre dois aviões, o autor novo sente chegada a sua hora.
Eduardo Pitta, publicado no blog Da Literatura