Que cavalos são esses?
Fotografia
Gaúchos - Fotografia de Leonid Streliaev, 2005
Do País das Nanas
Nana-Boule - Niki de Saint-Phalle - Escultura de resina policromada,
em grande formato, 1968
Poderes
Luis Fernando Verissimo
O Batman é um super-herói sem super-poderes. Não voa, não enxerga através do aço, não faz o globo girar ao contrário. O único outro exemplo da espécie que me ocorre é o Fantasma, mas o Fantasma ficou datado. Há algo de irremediavelmente antigo na sua figura, vivendo aquela fantasia de onipotência colonial entre os pigmeus. O Batman, ao contrário, é um herói metropolitano. Só é concebível num cenário urbano onde o gabarito foi liberado. E fica cada vez mais atual.
Cada nova versão do Batman no cinema é mais sofisticada do que a anterior. Começou como gibi filmado, já foi comédia pós-moderna estilizada, agora - pelo que leio, ainda não vi - é uma tragi-comédia com sombrias referências às paranóias do momento. Batman é reincidente e nunca fica datado porque nunca fica bem explicado, tem sempre uma conotação a mais a ser explorada, um lado da sua personalidade e da sua legenda a ser descoberto e dramatizado. E acho que o fato de não ter super-poderes tem muito a ver com a sua permanência através de todos estes anos, que não foram piedosos com os outros super-heróis clássicos, massacrados pela paródia e o esquecimento.
Desde o momento em que foi matar uma mosca e demoliu a mesa o Superhomem conhecia seus poderes. Os poderes definiram o homem. Ele não poderia ser outra coisa além de Superhomem, sua vida estava decidida já nas fraldas. Batman escolheu ser Batman. Nada determinava a sua escolha. Não tinha nem a carga genética para guiá-lo, como o Fantasma, que pertencia a uma dinastia de Fantasmas. Se a legenda do Superhomem é uma parábola sobre a predestinação, a do Batman é uma reflexão sobre o livre-arbítrio. A única coisa que une os dois é a obsessão em fazer o Bem - o que torna a escolha do Batman ainda mais misteriosa.
Ele decidiu ser um homem-morcego. Logo o morcego, bicho hemofágico e ruim, cuja única antropomorfização (com perdão do palavrão) conhecida antes do Batman foi o Drácula. Escolhendo um símbolo do Mal para fazer o Bem, Batman enfatizou seu livre-arbítrio. Nada determina as suas ações, nem a Natureza que fez o Superhomem super e o morcego asqueroso. Sua obsessão pelo Bem é uma escolha moral, desassociada de qualquer imperativo externo. Ele não é um herói para melhorar a reputação dos morcegos nem porque veio de outro planeta predestinado a ser bom, ou porque gosta de usar malha justa. O que a sua legenda nos diz, e talvez por isso dure tanto, é que o ser humano é cheio de imperfeições e maus impulsos, limitado pela biologia e condicionado por mitos e tradições, mas é livre para escolher o que quer ser. E decidir ser justo.
Está aí, um super-herói do iluminismo. Longa vida para o Batman.
Máscara
Fotografia de Pierre Yves Refalo - Máscara
Modelo: Vitória Cuervo
© Carassotaque - Iluminuras, 2008
É o que diz José Saramago sobre a atribuição do Prêmio Camões a João Ubaldo Ribeiro.
José Saramago declarou ter ficado "tão contente" com a atribuição do Prêmio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro que só lhe apetecia dizer o título de um dos romances do amigo: "Viva o Povo Brasileiro".
Em declarações telefônicas o Prêmio Nobel da Literatura 1998 exclamou ao saber da notícia: "Fico muito contente e até tenho vontade de dizer 'Viva O Povo Brasileiro', numa referência ao título do romance de João Ubaldo Ribeiro."Ele é uma pessoa extraordinária, que infelizmente já não vejo há um par de anos, mas de quem guardo as melhores recordações do Brasil, ou da Alemanha, onde estivemos juntos", lembrou Saramago.
"Desprende cordialidade em cada gesto e devemos estar todos satisfeitos", acrescentou o Nobel da Literatura português, em relação ao galardoado com o Prêmio Camões 2008.
"Justifica-se plenamente a atribuição do prémio que leva o nome de Camões, afinal a grande figura que une os países (lusófonos) através do laço autêntico da Língua Portuguesa", concluiu Saramago.
Nos muros de São Paulo
Graffitis nas ruas da Vila Madalena, em São Paulo, Brasil - Arte coletiva - 2008
Por António Lobo Antunes
"Sempre que alguém afirma ter lido um livro meu fico decepcionado com o erro. É que meus livros não são para ser lidos no sentido em que usualmente se chama ler: a única forma
parece-me
de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença. (...)
Aquilo a que por comodidade chamei romances, como poderia ter chamado poemas, visões, o que se quiser, apenas se entenderão se os tomarem por outra coisa. A pessoa tem que renunciar à sua própria chave
aquela que todos temos para abrir a vida, a nossa e a alheia
e utilizar a chave que o texto lhe oferece. De outra maneira torna-se incompreensível, dado que as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana. (...)
O mais que, em geral, recebemos da vida, é um conhecimento dela que chega demasiado tarde. (...)
Gostaria que meus romances não estivessem nas livrarias ao lados dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para não contagiarem as narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade.Caminhem pelas minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas claridades e nas suas sombras, que se irão achando os significados do romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de claridade e às sombras da vossa pré-história.
E uma vez acabada a viagem
e fechado o livro
convalesça. Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance
ou o poema, ou a visão, ou outro nome que lhes apeteça dar
a fim de poder ter assento no meio dos demónios e dos anjos da terra."
© António Lobo Antunes, 2008
Entre o fascínio e o ludíbrio
Ferreira Gullar
Rosto e máscara são temas inesgotáveis. Fui mexer com eles e agora não
consigo me livrar. Eis que, por acaso, deparo-me com um artigo de Roger
Caillois, publicado numa velha "Nouvelle Revue Française" (outubro de 1957),
intitulado "Le Masque".
Como eu, ele também havia sido arrastado a especular sobre o tema, só que
com mais competência e originalidade: partiu da relação entre homens e
insetos, alguns dos quais também "usam" máscara. Caillois se refere,
precisamente, a um tipo de hemípteros chamados "fuegosos" (de fogo), que o
dicionário descreve como "insetos luminosos de países quentes", ou
vagalumes, como os chamamos no Brasil. O principal desses insetos - fulgosa
lanternalia - emite uma luminosidade tão intensa que, segundo a lenda, daria
para ler um jornal sob ela. Mas o que importa, para nós, neste caso, é que
sua cabeça se alonga como uma protuberância que fulge igual a uma estranha
lanterna. Os cientistas descobriram, porém, que a função daquela cabeça
desproporcional -que lembra a de um minúsculo crocodilo - é assustar.
Mas assustar a quem, se a cabeça, embora monstruosa, é tão pequenina? Caillois, levando em conta o fato de que as asas do inseto são coloridas e lindamente decoradas, conclui que ele, na verdade, se acredita um feiticeiro, oculto sob aquela máscara, e o que pretende não é assustar e, sim, fascinar tanto
as suas vítimas como os seus predadores. Essa é uma tese interessante,
quando mais não seja, porque nos situa na fronteira imprecisa que separa o
medo e o fascínio.
Mas não é a regra. Segundo ele, nas sociedades primitivas, o que importa é
estar mascarado - e fazer medo; ou não estar - e ter medo, muito embora haja
comunidades em que alguns têm medo de uns e fazem medo a outros. Nestes
casos, já se aprendeu que a aparição assustadora do mascarado não é mais que
um truque de alguém que se disfarça para assustar os profanos. Mas é
inevitável que, aos poucos, as máscaras e os outros elementos utilizados
para assustar se tornem com o tempo instrumentos litúrgicos, acessórios de
cerimônia, de dança ou de teatro.
Ele afirma que talvez a última tentativa de dominação política pelo uso da
máscara tenha sido a de Hakim al-Moquaunâ, o Profeta Velado (ou mascarado)
do Khorassan que, no século 8, derrotou os exércitos do Califa. Hakim
ocultava o rosto sob um véu de cor verde ou, segundo outros, sob uma máscara
de ouro, que jamais tirava. Ele se dizia Deus e garantia que nenhum mortal
poderia ver-lhe o rosto sem ficar instantaneamente cego. Mas alguns de seus
seguidores quiseram provas disso e exigiram que lhes mostrasse a face
oculta. Um antigo texto conta que 50 mil soldados de Moquaunâ se juntaram à
porta do castelo, ajoelharam-se e pediram para ver-lhe o rosto, mas não
receberam resposta. Como insistissem e implorassem, Hakim mandou um servo
dizer-lhes que os atenderia em breve.
Ordenou, então, que cada uma das cem mulheres que o serviam segurasse um
espelho e se postasse em determinada posição no alto do castelo, de modo que
um espelho ficasse refletindo outro, no momento em que o sol brilhasse
intensamente. Quando os soldados chegaram, aquele jogo de espelhos, dada a
luminosidade que provocava, deixou-os cegos por um momento. Hakim então
mandou que lhes dissessem: "Vosso Deus está presente. Contemplai-o". Os
homens, aturdidos, ajoelharam-se.
Mas um dia a farsa se desfez. Hakim, para não se deixar desmascarar,
envenenou suas cem servas, decapitou o seu servo particular, tirou as roupas
e se jogou dentro de uma fornalha acesa.
Essa é a versão de Caillois, mas a de Jorge Luis Borges é outra. Conta ele
que Hakim parecia buscar a morte a cada momento, seja nas batalhas quando as
flechas silvavam em torno de seu corpo, seja abraçando e beijando leprosos
que chamava para dentro do castelo. Mandara cegar as 104 mulheres de seu
harém para que pudessem deitar-se com ele sem lhe ver o rosto proibido.
Ainda na versão de Borges, no ano de 163 da Héjira, Hakim estava cercado por
seus inimigos quando uma mulher do harém começou a gritar que a mão direita
do profeta não tinha o dedo anelar e que os demais dedos não tinham unha.
Dois capitães lhe arrancaram a máscara de ouro, pondo à mostra um rosto
branco como se manchado de lepra e tão deformado que parecia uma careta: uma
úlcera comia-lhe os lábios. Hakim ainda tentou um engano final: "Vosso
pecado abominável vos impede de perceber meu esplendor...", começou a dizer.
Não o escutaram e o trespassaram com lanças.
© Ferreira Gullar - publicado na Folha de São Paulo / UOL
Metáfora
"A palavra metáfora é uma metáfora."
©Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecé Editores – Buenos Aires Argentina
"Descido da escada, Jacob sumiu."
EMMANUEL TUGNY
© Emmanuel Tugny, Éditions Léo Scheer, Paris, 2008
Berlinde De Bruyckere - Instalação - Perdido - Objeto escultórico em resina de epóxi, couro de cavalo, madeira, corda e metal - 2006
Separação
Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...
© Vinicius de Moraes
in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "Para viver um grande amor"
O lançamento do livro AULA DE GRAVURA (um romace) de Maria Inês Rodrigues acontecerá com um simpático e acolhedor coquetel no dia 05 de agosto na Livraria Cultura, de Porto Alegre. Será impossível perder esse notável evento e especialmente, essa aula de gravura.
A Editora Movimento e a Livraria Cultura convidam para o lançamento do livro
Sofisticação
A música singular, elegante e sideral de Monsieur Greaves, com os poemas de Verlaine e Dylan Thomas... "além de Saturno, ou logo abaixo." (Emmanuel Tugny)
24 de julho 2008
No Vale do Vinhedos, no interior do Rio Grande do Sul, próxima à cidade de Bento Gonçalves, numa das margens da estrada que serpenteia por entre as vinicolas, lá está, colocada no meio do gramado, uma legítima, espirituosa e espontânea manifestação de arte de rua, um antigo Ford Galaxie, reduzido em mais da metade de sua largura original.
Colorida, meio danificada, ao relento, exposta às intempéries duras da serra, sol, chuvas e até alguma neve, a obra despretenciosa traz alegria a quem a contempla com alguma surpresa.
Terá seu autor desconhecido visto (em fotografia ou em presença física) e se inspirado na sofisticada obra de Gabriel Orozco, a DS prateada e cortada, que tem sido um orgulhoso ícone da arte contemporânea em museus europeus e em prestigiadas bienais de arte recentes?
Fotografias de Pierre Yves Refalo, 2008
Inconfundível Humor
Mino Carta
E aqui estou, neste espaço insólito e até indevido. Aproveito a oportunidade para declarar minha simpatia por Marcel Duchamp, que a partir de 15 de julho expõe no Museu de Arte Moderna de São Paulo o seu inconfundível humor. Mostra sabiamente intitulada Uma obra que não é obra de arte.
Há dezessete anos visitei uma exposição de Duchamp em Veneza, no Palazzo Grassi, e me diverti muito. Não falo como crítico de arte, que não sou, e sim como interessado, cidadão comum a enxergar a própria como fenômeno sociológico. Como espelho do tempo, passado, presente e futuro.
No estudo da personalidade de Duchamp não me aprofundei, pelo contrário, fiquei no raso. Mas ao enfrentar-lhe a produção, percebo a vis comica envolta em graciosa bonomia. Um desafio aos vezos inseguros da nossa época que, ao mesmo tempo, consegue ser cínico e terno, feroz e suave.
Ocorre, abalo-me a dizer, que o talento de Duchamp é de explicitude clamorosa, excitado pelo refinamento e pelo requinte do imbatível bom gosto. Tivesse escrito um livro sobre arte contemporânea não teria sido mais eficaz.
Certa vez em Roma fui ao Museu Massimo e andei pelas salas tomadas pela pintura e pelos mosaicos romanos. No primeiro século d.C. havia artistas soberbos, tecnicamente impecáveis, colhiam à perfeição o ponto de fuga. O descaminho começa no II século e se robustece no III, no IV e no V. É uma descida aos ínferos, o começo da Idade Média. Foi preciso esperar por Masaccio e Paolo Uccello, início de 1400, para recuperar a perspectiva. No sentido estrito e lato.
Temo que o mundo já tenha inaugurado uma nova etapa medieval, muito bem representada pela decadência da pintura em particular e da arte em geral.
E no outro dia vejo a foto de um moço de camiseta a visitar uma exposição de Andy Warhol. Postado diante de uma série de latas Campbell, todas implacáveis na determinação de reforçarem a mesma pretensa importância. A única diferença entre elas, em número de dez, está no conteúdo, explicitado na embalagem: feijões, ervilhas, favas. Etc. Etc. E o moço encara uma das latas como se sofresse o impacto das telas da história caravaggesca de São Mateus na Capela Contarelli.
Impossível é avaliar os contemporâneos, falta distanciamento. Não é difícil dizer que, por exemplo, Picasso, Matisse, Francis Bacon, são grandes artistas, mas ninguém poderá prever que daqui a 700 anos os mencionaremos como hoje falamos de Giotto. Mais provável imaginar que a larga maioria dos supostos heróis da arte do nosso tempo acabara no lixo do esquecimento.
Creio mais na sobrevivência de Marcel Duchamp, o ameno pensador.
© Mino Carta - publicado em Carta Capital
Marcel Duchamp - Catálogo da Mostra Surrealista, de 1947, Paris
Foto de Jean Alex Brunelle
Nos muros de Paris
Imagem de Fernando Pessoa - Graffiti encontrado espalhado pelas ruas e esquinas de Paris, 2008
Autor: Anônimo
Com os poemas musicados de Verlaine
Músico bastante contemporâneo, ele é um cantor singular e envolvente, originalmente um roqueiro inglês, radicado há muito tempo em Paris e que adotou algum sotaque parisiense. John Greaves traz as suas mais belas utopias. Compositor de melodias, refinado e hábil, negociador de intrincados desafios musicais, ele quebra os rótulos e nos conduz a uma vanguarda questionadora e interessante.
Há muitos anos, John Greaves redescobriu Paul Verlaine. Passou dois meses nas conturbadas terras da Escócia, transpondo melodicamente uma dúzia de poemas, segundo ele – "um punhado de diamantes" – em canções. Elas serão apresentadas no Teatro do SESC, em Porto Alegre no dia 24 de julho, interpretadas, arranjadas e estruturadas musicalmente de uma maneira desafiadoramente insólita mas intensamente fiel ao espírito límpido, inquietante, exaltado (e até desesperado) de seu autor... Verlaine, o show musical de John Greaves traz uma notável performance que flutua acima de um contexto localizado de tempo e portanto, trata-se de algo que é fundamental para todos nós.
John Greaves - Verlaine
Festival de Inverno de Porto Alegre
Teatro do SESC - Dia 23 de julho de 2008 - 20 horas
Av. Alberto Bins, 665
Porto Alegre RS Brasil
Para ver os aviões
Fotografia de Mário Castello - Aeroporto de Congonhas (arquitetura moderna do início dos anos 60), 2008
Intervenção em Paris
Intervenção realizada com graffiti, sobre escultura pública de metal pintada com tinta automotiva (grande formato), em Paris, 2008
Autor: Bek le Rat - veterano grafiteiro parisiense.
A Argentina é um país com características muito próprias, que a tornam inconfundível na comunidade sul-americana. Inconfundível e, sob certos aspectos, contraditória. Por exemplo, se o nível cultural de seu povo é bem mais alto que o de seus vizinhos, por outro lado, no plano político, paga o preço de um atraso -o populismo peronista- que já dura mais de meio século. Nós e os demais países latino-americanos (para ficarmos em família) temos também nossos atrasos mas, talvez, menos arraigados e mais disseminados. Na Argentina, por certo devido a seu caráter marcadamente original, que não se limita à tradição peronista, há coisas que só acontecem lá, como é o caso do casal Kirchner, uma espécie de reedição da dupla Perón e Evita, ainda que em versão moderna. Mas que Néstor e Cristina formam um casal inusitado, não há dúvida. Se cabe, com referência a eles, a tese de que a história, quando se repete, é em tom de farsa, não sei, mas não me arriscaria a eliminar de todo essa hipótese. É impossível, quando penso neles mas, sobretudo, quando os vejo juntos, não lembrar de Perón e Evita, não como uma repetição da história argentina e, sim, como uma imitação suspeita, em que não confio inteiramente.
Veja bem, não é que Perón e Evita tenham sido exemplos louváveis de líderes políticos. Muito pelo contrário, eles foram a expressão de um populismo sindicalista que pretendia eternizar-se no poder. A morte precoce de Evita -que se havia tornado a mãe dos descamisados- retirou do general-presidente seu principal instrumento de mistificação do poder. De pouco lhe valeu embalsamar o corpo dela e deixá-lo exposto à visitação pública na sede da CGT. Talvez até tenha sido esse um dos motivos do golpe que o derrubou. Mas isso não foi suficiente, pois o cadáver continuava ali, como uma ameaça, uma espécie de réplica do de Lenine, também líder dos trabalhadores (é que certos líderes não devem morrer e, quando morrem, não podendo ressuscitar como os santos, são embalsamados). Temerosos, os militares argentinos roubaram o cadáver de Evita e o sepultaram num distante cemitério de Milão, na Itália, dando início a uma espécie de vaudeville macabro.
Não se tem notícia de nada parecido na história política nem se imagina que Néstor e Cristina venham a passar por lances semelhantes. No entanto, foi Perón mesmo que tentou copiar sua própria história, casando-se, após ter sido deposto, com Isabelita, dançarina, mulher da noite como Evita, que era cantora. E, assim que pôde, eleito de novo presidente da Argentina, trouxe a tiracolo, como vice, a nova esposa.
Mas, bem antes disso, exilado em Madri, recebeu de volta o cadáver de Evita, que havia sido exumado do túmulo em Milão. Pateticamente, manteve-o em sua casa, sob os cuidados de Isabelita, que, regularmente, a penteava e maquiava, com espantosa dedicação.
Eu estava em Buenos Aires, a caminho de Santiago do Chile, em 1973, quando Perón disputava a presidência. Ouvi um de seus discursos no rádio do hotel. Um ano depois, morto Allende, ao descer no aeroporto de Ezeiza, o carregador de bagagem, comovido, me comunicou:
- Estamos de luto, morreu Perón.
Se o velório de Evita durara 15 dias, o de Perón durou quatro, e Isabelita assumiu o governo para ser deposta, dois anos depois, pelos milicos de sempre. A iminência parda de seu governo chamava-se Lopez Rega e tinha fama de bruxo. Um de seus primeiros atos foi trazer de volta o corpo de Eva Perón para a exibição pública em Buenos Aires, certamente visando manter vivo o culto à mãe dos pobres. Os milicos rosnaram e ela mandou finalmente sepultá-la ao lado do marido (das duas). Uma história que seria inconcebível no Brasil, em que pese a nossa fama de país surrealista, talvez porque sejamos mais chegados a um samba que a um tango.
E tanto assim é que, ao ler aquela frase de Cristina Kirchner, o que me veio à mente nada tinha de macabro: lembrei-me de um fato, que embora ocorrido na época de Perón e Evita, me fez rir de novo. O embaixador brasileiro, em Buenos Aires, foi visitar o ministro argentino das Relações Exteriores, acompanhado de sua esposa, quando a senhora do ministro, para mostrar-se familiarizada com o Brasil, falou:
-Son muy semejantes nuestros idiomas, verdad? Nosotros decimos carajo y ustedes dicen "caralho", no?
Sim, digo eu agora, mas não na presença de senhoras.
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo - UOL
Instalação de arte contemporânea - Lego, ataúde construído em módulos de lego, 2008
Fotografia
Estação Pinacoteca - Fotografia de Marcos Magaldi - Prédio da década de 20, restaurado e adaptado museologicamente para receber as mostras temporárias de arte contemporânea e arte moderna - Pinacoteca do Estado - Bairro da Luz, São Paulo
No muro de Londres - arte coletiva
Graffitis executados numa parede de Londres, por Banksy e por um outro grafiteiro E.M.(anônimo), que faz ao primeiro uma legenda de autoria, em vermelho.
Autores: Banksy e E.M.
Escultura de Roy Lichtenstein
A Cara de Barcelona - Escultura pública em grande formato de Roy Lichtenstein, construída com diversos materiais (resinas, plásticos, cerâmicas vitrificadas e pedras) - Barcelona
Extremidades
"A extrema direita e a extrema esquerda são igualmente partidárias do Estado e de sua intromissão em cada instante de nossas vidas."
©Jorge Luis Borges / Borges Verbal, Emecé Editores – Buenos Aires Argentina