Domingo, 02.03.08

Futuro do livro (2)...?


Há cerca de 570 anos atrás surgiu a forma de impressão com tipos móveis e forneceu o conceito e, de certa maneira, o padrão do livro industrializado como o reconhecemos e utilizamos ainda hoje, cotidianamente.
Isso formou o extenso conjunto das bibliotecas públicas, privadas e individuais e organizou o universo do conhecimento e da civilização ocidental, democratizando de maneira crescente o saber e a cultura, como todos nós bem sabemos.
São esses mesmos livros como os conhecemos, como os transportamos para todos os lados, como os lemos nos locais mais improváveis. Assim têm sido e um aluvião deles é lançado no mundo todos os dias, de literatura, de arte, técnicos, didáticos, de poesia, de instruções, de leis, de auto-ajuda e do que se puder imaginar.

E multidões de todas as línguas continuam comprando-os, nas livrarias, nos mercados, nos sebos, nas feiras, nos boquinistas das calçadas e das praças...

Há quem diga que ler livros é chato, outros consideram isso uma maravilha exponencial, a sensação da existência do Paraíso.
O livro está ao alcance de todos, é comumente leve, portátil e em boa parte dos casos, barato.

Afirma-se por vezes, aqui e ali, que um novo formato digital vai substituir o livro de papel. Que a tecnologia do futuro dará um novo design aerodinâmico ao livro, digitalizado. Confortável, leve, high-tech

Permanecem as dúvidas…
O que custará um artefato desses, apenas o invólucro, a casca tecnológica, mesmo sem o custo do conteúdo literário, do direito autoral e do direito comercial das editoras?
Como se manterá e onde permanecerá o conteúdo literário, agora virtual? 
Como se perpetuará para a consulta futura dos leitores?
Quanto tempo durará um equipamento desses?
Quem o consertará, se pifar, quando sabemos que ninguém conserta mais nada em tempos de tecnologia descartável?
Como utilizá-lo e conseguir ler sem a alimentação da bateria ou da fonte de energia elétrica ao aparelho?
Esse "aparelho de portar textos virtuais" não sofrerá a mesma avalanche frenética de substituição tecnológica de linguagens eletrônicas nos gadgets, como ocorre hoje com os computadores e telefones celulares?
Quem não lembra daqueles maravilhosos CD Roms sobre Petra ou de visita virtual ao Louvre (CD Roms tão caros e vistos apenas uma vez), que já não rodam mais nos atuais computadores de última geração?
Quem não perdeu todos os arquivos, verdadeiramente importantes, em disquetes ou noutras “avançadas” formas de armazenagem de dez anos atrás, objetos que são inutilidades obsoletas hoje em dia?
Quem recorda o formato e o peso de seu primeiro celular, aquele carissimo, que perdeu-se espontaneamente em alguma gaveta sombria para não produzir mais nenhum vexame complementar…? 
publicado por ardotempo às 17:44 | Comentar | Adicionar

A cabeça



A dor na cabeça aumentara.
Começara na noite anterior depois do jantar, um sanduíche industrial, insosso e gorduroso, um erro imprudente, ao qual B. deixara-se levar sem resistência. 
Tornara-se agonia crescente durante o abismo noturno. Fora uma platitude vertical em claro, na escuridão e no calor do verão tropical.
De tempo paralisado como uma fermata.
Intervalo desagradável, perpétuo, estivera apenas metrizado por gemidos imaginários ritmados com a respiração espaçada. Foi começando aos poucos e logo já se fazia dor, sem início e sem fim. Sem sentido. Não houvera a vertigem, apenas a dor. Estava exausto na manhã seguinte, após a vigília indesejada.
A dor o atacara com intensidade. Como um alfinete longo, fio de prata sem volume, macabra criação de tortura científica. Enfiado. De dentro para além dos limites do crânio e transformara o mundo ao redor em algo inchado, esponjoso, disforme  e desesperador.
Uma enxaqueca, talvez. Prolongada como suplício. Intensa, não saberia quantificá-la de outra maneira porque nada sentira parecido antes.
Tudo estava ocupado. Nervos, células, fluídos e pensamentos. Tudo se fizera dor.
A cabeça, os olhos embaçados sem foco, os gestos reumáticos. O fígado, obsoleto pelo arsênico de Napoleão, interpretava-se como um protagonista trespassado e friamente dividido. Congestionado. Abismado e incapaz. Sem função vital.
Lâmina transversal, polida, resplandecente e áspera no corte excessivo.
A dor não era uma palavra, um conceito.
Era objeto substantivo, físico, metal em fusão perdendo calor, que transbordava desconfortável num espaço um tanto maior que a caixa craniana e expulsava as abstrações, os pensamentos e as possibilidades das ações refletidas.
Punha os demônios na sala e no quarto.

Era apenas dor. Imperativa, sem matizes.

Ele não era mais um indivíduo, um sujeito de pensamentos e de ações, de humor moderado e silencioso. Não mais. Agora ele passara a ser a dor. Simplesmente a dor, que tomava conta e espaço de tudo em torno e na sua atenção, desfiada.
A dor era agora o tempo, intumescido e imóvel.
Gesso nauseabundo. Um rumor – infinito – de pele de surdo, sem a usina das pancadas, somente o ruído profundo, da gruta infernal, monótono.

Aquilo se estendera pela manhã e pelo princípio da tarde.
Mas passara lentamente. Em câmera bem lenta. Diminuíra e como chegara, partira.
B., que era a dor, passou a ser o nada. Um trapo, um miolo de pão dormido.


© Alfredo Aquino – Conto A cabeça, Revista Aplauso nº 86 - Porto Alegre RS  2007
    Pintura de Siron Franco
publicado por ardotempo às 02:34 | Comentar | Adicionar
Sábado, 01.03.08

Borges fala



Algumas palavras de Jorge Luis Borges sobre criação literária. Veja aqui.
publicado por ardotempo às 21:12 | Comentar | Adicionar

Moçambique



É o tema e o conjunto de impacto visual imponente nas fotografias de Lucas Moura, apresentando imagens captadas em p&b. Lucas Moura permaneceu longo tempo, morando e trabalhando com fotografia em Moçambique e realizou um notável ensaio transitando pelo país, desde Maputo, no sul, até Pemba na costa norte do país africano, incluindo-se a Ilha de Ibo.
São 30 magníficas ampliações em grande formato, tiragem vintage em papel especial.
A exposição será mostrada em Porto Alegre RS
em 2008 e seguirá itinerância em circuito internacional em 2009.

Prata de Ibo - © Fotografia de Lucas Moura,
Porto Alegre RS  - Exposição MOÇAMBIQUE

 
publicado por ardotempo às 13:35 | Comentar | Adicionar

Aforismo Borgesiano - 01



As Mil e Uma Noites

“ O Corão é muito inferior às Mil e Uma Noites. Alá não estava tão
inspirado quanto Sherezade.”

©Jorge Luis Borges / Borges Verbal - Emecê Editores Buenos Aires – Argentina
publicado por ardotempo às 13:29 | Comentar | Adicionar

Vencedores


É o título da mostra de Itaci Batista, o talentoso fotógrafo dos retratos p&b. Trata-se de um conjunto precioso de fotografias captadas numa academia
gratuita e popular, de boxe, existente ao ar livre e sob um viaduto, numa das movimentadas avenidas da
grande metrópole São Paulo SP.

A temática para Itaci definitivamente não é o esporte,
não é a competição brutal, nem é a apologia do corpo, não existe a busca pelo hedonismo mascarado. Nas fotografias de Itaci está redescoberto um outro mundo, difuso, paralelo e submerso, o da poética dos espíritos,
o da esperança, o da vontade de viver confrontando a mais aguda das asperezas, a indiferença. Ali está um mundo denso e encoberto que é o  teluricamente revelado pelo foto-jornalismo do fotógrafo inspirado.
São 30 ampliações p&b em grande formato, tiragem vintage em papel especial. A exposição será apresentada em Porto Alegre RS em 2008 e seguirá itinerância em circuito internacional em 2009.

Vencedores © Fotografia de Itaci Batista, São Paulo SP
publicado por ardotempo às 00:24 | Comentar | Adicionar

É permitido!



A segunda melhor coisa na vida é a leitura.
A terceira, talvez seja fumar um bom charuto…
publicado por ardotempo às 00:20 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

Pesquisar

 

Março 2008

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9

Posts recentes

Arquivos

tags

Links