(Para que funcione)...todos têm que acreditar

Resmungos financeiros
 
Ferreira Gullar
 
Para quem que, como eu, não entende de economia, esta crise financeira mundial é, além de atemorizante, incompreensível. Não é que eu não perceba, no geral, como a coisa nasceu, gerando a tal bolha imobiliária, que terminou arrebentando sobre a cabeça de banqueiros e empresários. Dentro do possível, tenho acompanhado a evolução da crise, as medidas tomadas para detê-la, a inoperância de algumas dessas medidas e a falência de empresas até então poderosas.
 
Logo que a bomba estourou e seus efeitos se ampliaram, era de ver a expressão apreensiva de altas figuras que antes pareciam ter o mundo em suas mãos. Era-lhes impossível esconder a perplexidade e a impotência diante do tsunami financeiro que parecia arrasar o sistema capitalista inteiro. Mas, além da impotência dos homens de empresa e de Estado, espantava-me muito mais a inesperada fragilidade do próprio sistema, que parecia se desfazer como um castelo de cartas.
 
E, juntamente com essa sensação, assaltava-me ainda o espanto de ver que tudo que ocorrera -os empréstimos sem limites, as dívidas sem garantia consistente (ou nenhuma), a irresponsabilidade de executivos de notório prestígio- tudo se me apresentava agora como uma aventura irresponsável, supostamente apoiada num capital hipotético e, de fato, inexistente.
 
Foi aí que me vi refletindo sobre o dinheiro, como surgiu e em que se transformara nos tempos de agora. É divertido fazer esse retrospecto: o dinheiro nasceu para atender à crescente atividade comercial, que consistia, no começo, em trocar pano por trigo, arroz por sal e, mais tarde, adotou-se o ouro como moeda de troca, por ser muito raro, logo valioso, e preservar suas qualidades sem se deteriorar. E daí veio o resto.
 
Veja se não é interessante: o comércio cresceu tanto, ampliou-se tanto geograficamente, que se tornou impossível levar, por toda a parte, a quantidade de ouro necessária para satisfazer as operações de troca, e surgiu o papel moeda: leve, fácil de carregar e guardar, que não era o ouro, e sim uma representação dele.
 
Lembro-me, não faz muito tempo, de uma cédula nossa onde se lia mais ou menos isto: "O valor desta nota será trocado por seu equivalente em ouro no Tesouro Nacional". Quer dizer: aquele papel só valia porque o governo lhe garantia o valor em ouro. Por isso que, um dia, o general De Gaulle, então presidente da França, obrigou o Tesouro norte-americano a trocar por ouro os bilhões de dólares que estavam em mãos do governo francês. E o Tesouro norte-americano teve de atendê-lo, sob pena de desacreditar-se mundialmente, confessando que não dispunha de lastro que garantia o valor de sua moeda. E o que é a inflação senão emitir moeda além do lastro que lhe assegure o valor?
 
De certo modo, desde que surgiu, o capitalismo, para funcionar, tem que contar com a confiança de todos no valor do dinheiro, assim como você tem que confiar em que o dinheiro com que lhe pagam não é falso e pode ser trocado por ouro, se preciso for. Na verdade, a maioria das pessoas de nada desconfia, acha que está tudo garantido. Até que uma bolha imobiliária estoura e arrasa com as finanças da maior potência econômica do mundo. Aí então, estabelece-se o pânico, a confiança se evapora e o sistema inteiro entra em crise.
 
Esta crise é proporcional ao nível de abstração a que chegaram as transações financeiras no mundo de hoje e a crescente distância entre o valor real da moeda e sua representação simbólica. O ouro, que se tornara o lastro do papel-moeda, passou a ser representado pelo cheque, que tende a sumir, substituído pelo cartão eletrônico. Assim, você tem cada vez que confiar mais e mais em meras abstrações.
 
Por exemplo, se alguém me paga por serviço prestado, deposita o valor correspondente em minha conta no banco. Não vejo a cor do dinheiro, só constato, no extrato do banco, a informação. Se vou comprar alguma coisa, uso o cartão de crédito e o que o vendedor recebe é também apenas uma informação. Foi assim que as financeiras norte-americanas negociaram "informações" com outras financeiras, que passaram a outras até que, como quem garantia o lastro desses valores não pagou, veio tudo por água abaixo.
 
Com isso, perdeu-se a confiança em toda e qualquer informação financeira, e ninguém mais quer investir, nem emprestar nem avalizar. A crise atinge o comércio, a indústria, o sistema ameaça entrar em colapso. E a impressão que temos é que a economia mundial era um sonho, minha gente!
 
 
© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

 

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publicado por ardotempo às 17:01 | Comentar | Adicionar