Sonho

Como num sonho
 
Ferreira Gullar
 
Ele sabia  que o fato mais importante e definitivo de sua existência estava para acontecer. Não o sabia como se sabe que dia é hoje ou que, ao lado do escritório, está o quarto de dormir. Sabia-o como nos sonhos. E assim, como nos sonhos, enxugou-se após o banho, trocou de roupas e decidiu sair de casa. Não sabia por que o fazia nem para onde iria.
 
Foi até a garagem, entrou no carro e saiu para a rua que, como nos sonhos, era fantasticamente a mesma, demasiado a mesma, com as fachadas de sempre, a banca de jornais, os carros estacionados no meio-fio. Sem decidir tomou o rumo de Ipanema, pois intuía que era para lá que deveria ir, depois de tanto tempo sem andar por ali. É que, nesta tarde, vivia um momento diferente e definitivo: teria que ir para lugares onde continuavam pulsando afetos de passados instantes. Mas não pensava nisso: apenas ia.
 
Ligou o CD, pôs nele um disco de Nara. Como nos sonhos. E a voz dela incrivelmente verdadeira não parecia a voz de quem já não existe. É que ela ainda existe, de outro modo. Ela cantava mas era como se conversasse com ele, dentro de seu carro, em certa noite de 1964, à porta do Teatro Opinião. Ali ficaram quase até amanhecer. Volta a ver seu rosto na penumbra, seu sorriso e aquele olhar de bichinho bom.
 
De repente, está rouca, na sala de sua casa, lhe diz que não voltaria ao show Opinião, ia sair em excursão pelo Nordeste e quer que ele a acompanhe. Já agora, muitos anos depois, ela o chama pelo telefone: "Só para você tenho coragem de contar isto: estou curada, o tumor desapareceu, estou curada!".
 
É pau, é pedra, é o fim do caminho... Sua voz se mistura à de Tom Jobim, cujo rosto sorridente aparece na vidraça do carro. Puxa uma baforada no charuto e some desfeito na fumaça. E as estrelas que esquecemos de contar... Ao atravessar a avenida Graça Aranha, no centro do Rio, numa tarde de muito sol, alguém o chama pelo nome, ele se volta: é Tom, de paletó, segurando uma pasta, e que acena para ele, sorrindo, e some entre os transeuntes, poucas semanas antes de fazer sua última viagem. A onda que se ergueu no mar...
 
O carro chega quase ao fim da Barata Ribeiro. Àquela altura, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina de Francisco Sá, no Bar Bico, Otto, Fernando Sabino e Armando Nogueira conversam altas horas da noite. O carro dobra pela rua Rainha Elizabeth e chega até a praia de Ipanema, deslumbrante ao sol. Não é domingo, mas a praia está cheia de gente, barracas, vendedores de sucos, picolé e sorvete. Ciclistas passam ao lado do carro. Lá adiante, muito adiante, depois do Leblon, erguem-se o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea. Coisas eternas. Testemunhas de tantos domingos de sol, quando ali, em frente à Farme de Amoedo, ele e os amigos bebiam água de coco e discutiam política. Tudo como num sonho.
 
O carro continua mas as montanhas parecem se afastar, negras contra o azul-celeste. E ali estarão para sempre, porque não vivem; apenas são. Duram, duram, enquanto aqui embaixo as pessoas chegam e passam, como as ventanias.
 
Observa as coisas com a surpresa de quem as vira antes.
 
A canção se repete na memória - a onda que se ergueu no mar - e, de repente, ele vê sobre areia vazia da praia, seus amigos ausentes brincando de dançar ciranda. O mais animado é o Vinicius. De mãos dadas, eles rodam e flutuam, alguns palmos acima da areia que esplende à luz da tarde.
 
Enquanto isso, o carro segue em direção às negras montanhas que se afastam. Sabia, este era o passeio que faltava fazer, antes do acontecimento definitivo. O carro levantou vôo e avançou sobre as últimas casas do Leblon, planou sobre a encosta e prosseguiu até perder-se nas nuvens.
 
Mas agora ele sai do elevador, mete a chave na porta e defronta-se com a sua sala de jantar: a mesa, as cadeiras, a estante repleta de livros. Tudo ali, intacto, eterno. O fato extremo e definitivo não tardaria a ocorrer.
 
Atravessa a sala, caminha pelo corredor até o quarto de dormir. Observa o cenário: ali estão o pequeno armário, o cabide de pés, a cômoda e o guarda-roupas, em cujo espelho a obscuridade da ausência se reflete. E então, todas as imagens, todas as lembranças, todas as vozes do mundo foram se apagando, e ele teve a vertiginosa certeza de que nunca mais as ouviria. Foi até a cama e nela se deitou. Nunca lhe parecera tão macia e acolhedora.
 
 
 

© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL 

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publicado por ardotempo às 12:38 | Adicionar