Catedral em Prosa

A catedral em prosa de Rainer Maria Rilke
 
Mariana Ianelli
 
Anos atrás, relendo o livro de um dos mais influentes autores de língua alemã do início do século 20, José Saramago viu surgir o embrião da idéia que o levaria a escrever "As intermitências da morte". Tratava-se do romance "Os cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rainer Maria Rilke, de volta às livrarias brasileiras após décadas fora de catálogo, pela editora Novo Século, na tradução de Lya Luft. A considerar o lançamento não menos recente, em coletâneas até então inéditas em português, de algumas das inúmeras cartas escritas por Rilke ao longo da vida, aos poucos vai se ampliando o espectro da obra deste que foi, além de autor dos célebres "Sonetos a Orfeu" e "Elegias de Duíno", um insaciável epistológrafo e contista. 
 
Em uma carta a Rodin, datada de 1908, época em que ainda compunha "Os cadernos", Rilke se refere à prosa como uma "catedral" que deve ser construída para a solidão da consciência. Com essa mesma imagem, pode-se definir a trama de seu romance, tecida pelos relatos de amor e de morte do jovem Malte Laurids Brigge, cujas incursões pelas ruas de Paris e lembranças de infância fundem-se na construção de um único edifício. Pois é dentro desse espaço imaginário de luz e de sombra, sensações e pensamentos, que se torna real o testemunho de uma existência. 
 
Durante o período em que o livro é escrito, entre 1904 e 1910, Rilke também conclui os poemas de "O Livro de Horas" (1905) e "Cartas a um jovem poeta" (1908). No mesmo intervalo, precisamente em 1907, a visita a uma exposição de Cézanne, no Grand Palais, em Paris, deixa-o de tal modo impactado com a obra e a vida desse artista que ele acaba por aprofundar em seu trabalho fortes relações entre pintura e poesia. Essas reverberações e nuances são reconhecíveis em muitas passagens de "Os cadernos", que não deixam de suscitar ainda um intenso diálogo do autor com os poetas que ele lê e admira, como Jacobsen e Baudelaire. 
 
Fechando um pouco mais o foco sobre tais influências, há uma síntese poética presente no romance que perpassa toda a atividade literária de Rilke - andaimes, por assim dizer, que erigem e abrigam sua catedral e outros escritos: da vida monástica, da peregrinação, da morte e da pobreza. Eis aí as partes que subdividem "O Livro de Horas", e que, juntas, permitem entrever o caminho interno que o escritor percorreu desde muito jovem, com uma espiritualidade extracristã, até chegar aos seus últimos sonetos e elegias. Marina Tsvetáïeva, em uma carta enviada ao poeta poucos meses antes de sua morte, em 1926, reconhece nessa síntese de natureza humana "uma topografia da alma" impossível de ser desmembrada, algo que "pode ser visto pelo mais simples camponês - com os seus olhos -, atestado. O milagre: o intocável, o inacessível". 
 
Com efeito, Rilke é um entusiasta da totalidade inseparável da vida e da morte, do terreno e do maravilhoso, do efêmero e do sublime. Toda experiência de queda ou de perda tem para ele uma força atuante que deve ser assimilada e sofrida. Posse e tarefa de cada um, a morte não é falta, e sim abundância, maturação diária, um compromisso do humano com o que lhe é humanamente inapreensível. Apenas a compreensão maior de uma existência que não exclui nem o abjeto, nem o terrível, pode fazer justiça ao amor, em tudo o que nele é também transbordante e partícipe da vida. Cioso dessa tarefa de admirar cada coisa conforme seu peso, e cada vivência de acordo com sua velocidade, Rilke se aferra ao trabalho solitário e cotidiano da escrita, orientado pelo mesmo ímpeto com que Cézanne se dedicou à pintura, colocando a si próprio em risco, sem recuar diante do difícil.
 
 
 
Os episódios de morte, em "Os cadernos", a exemplo da emblemática agonia do Camareiro Brigge, e as marcas do sobrenatural, também constantes nos contos do autor, falam de uma mesma reconciliação com algo prodigioso, que excede a dimensão do inteligível. O relato do herói, quando criança, diante do armário de fantasias traz outra imagem relevante desse encontro com o desconhecido, que, não por acaso, remete aos famosos versos de Álvaro de Campos, no poema Tabacaria: "Quando quis tirar a máscara / Estava pegada à cara". 
 
Além disso, cabe destacar no romance o olhar revelador de Rilke sobre seu tempo, registro de uma modernidade hostil aos valores do passado e expatriada da noção do divino. Entram aí os retratos da juventude parisiense, as reflexões do narrador em tom de missiva, nas quais ecoam as páginas de Cartas a um jovem poeta, e, finalmente, o belíssimo trecho sobre a procura do amor na parábola do filho pródigo ao final do livro. 
 

Atravessando o espaço de quase um século, o ressurgimento de Os cadernos recupera para a atualidade, nas palavras visionárias de Malte Laurids Brigge, a interrogação de um poeta que, mais uma vez, impõe sua urgência e faz pensar: "Quem, hoje, dá valor a uma morte bem executada? Até os ricos, que poderiam dar-se ao luxo de morrer bem, começam a se mostrar relaxados, indiferentes; faz-se cada vez mais raro ter uma morte particular. Mais um pouco e será tão raro quanto ter uma vida particular". 

 

 

© Mariana Ianelli , 2008 - Poeta, autora de Almádena, Fazer Silêncio, Passagens, Duas Chagas e Trajetória de Antes - Iluminuras

Publicado no Blog Prosa On Line

publicado por ardotempo às 16:57 | Comentar | Adicionar