Satíricon

Retrato da Decadência Moral

Resenha de Mariana Ianelli, para o livro Satíricon, de Petrônio (Cosac&Naify)


















 O banquete - Afresco em Pompéia, Itália


Foi a partir de um dos livros prediletos de sua juventude que Frederico
Fellini veio a realizar, em 1969, a fantástica arqueologia visual da antiga
Roma em seu filme Fellini Satyricon. Escrito no 1º século da era cristã, já
com a marca de nascença da modernidade, o romance Satíricon, de Petrônio,
que tanto fascinava o grande cineasta por seus fragmentos propícios à
imaginação, aparece agora em novíssima edição brasileira, pela Cosac&Naify,
na tradução de Cláudio Aquati.

Com prefácio de Raymond Queneau e excelentes dicas de leitura, além de um
elucidativo posfácio assinado por Aquati acerca do contexto histórico e literário
no qual a obra se insere e se codifica, o livro traz ainda um breve mas significativo
relato do historiador Tácito sobre o autor, este aristocrata da corte de Nero que,
por inveja alheia, foi acusado de conspiração contra o imperador e, antecipando-se
à pena, suicidou-se.

Uma atmosfera enigmática encobre a extensão e a seqüência originais de
Satíricon, já que apenas três de seus prováveis vinte e quatro livros,
supondo um conjunto similar ao da Odisséia, sobreviveram ao longo dos
séculos, não sem terem sido também eles mutilados em várias de suas partes.
O título da obra igualmente contempla mais de um significado, podendo
remeter tanto a uma sátira dos costumes da época, como a uma mistura de
gêneros alinhavados à narrativa principal na sua forma prosimétrica.

Valendo-se de expressões e motivos da épica e da tragédia clássicas,
passando por temas da lírica mitológica e amorosa, Petrônio os incorpora ao
registro do latim vulgar e constrói um romance legitimamente polifônico,
cuja inspiração encontra na sátira paródica um de seus constantes recursos
para tingir com cores realistas a decadência das instituições no tempo de
Nero. Não apenas o sistema educativo, o funcionamento da justiça e o culto
religioso são alvos da crítica do autor aos valores de uma sociedade
degradada por uma retórica vazia, pela falta de autoridade moral e pela
crendice popular, mas também a presença de Homero, Virgílio, Eurípides,
entre outros, no romance, por meio da paródia, costura a trama com o fio da
ironia, conferindo aos episódios e personagens da história uma feição
hilariante.

Narrado em primeira pessoa, o romance conta as aventuras de Encólpio,
anti-herói comparável a uma versão tragicômica de Ulisses, que, para vencer
o castigo da impotência imposto pelo deus Priapo, move-se em um cenário de
tipos bajuladores, embusteiros e libertinos, com os quais contracena sempre
enroscado em pequenas trapaças e crises de ciúme envolvendo seu companheiro
Gitão e seu rival, Ascilto. Amor, verdade e cultura têm, cada qual, o seu
preço no comércio de interesses individuais que caracteriza um mundo de
assustadora atualidade, onde esses três personagens se imiscuem, salvos da
morte como que por engano. Deuses, aliás, também têm o seu preço e por eles
rezam os fora-da-lei para lograrem em sua farsa.

O banquete de Trimalquião, "o mais bem estudado [trecho] de todo o
 Satíricon", conforme observa o tradutor no posfácio do livro, não sem razão
se destaca, a exemplo da memorável adaptação de Fellini para o festim, ao
retratar a megalomania do novo-rico Trimalquião, cujo próprio nome, "três
vezes rei", segundo o pesquisador René Martin, confirma as pistas de uma
personalidade tirânica que, contrariamente ao banquete de Platão, impede os
convivas de qualquer verdadeira meditação sobre o prazer. A encenação do
funeral de Trimalquião é outro interessante episódio no qual uma sutil
referência a Sêneca apontaria uma crítica de Petrônio à disparidade entre o
modo de vida suntuoso do filósofo e o conteúdo de seus escritos morais.

Vale destacar ainda um dos poemas maiores de Satíricon, na voz de Eumolpo,
personagem que, embora seja recebido a pedradas toda vez que se dirige a uma
platéia, ao recitar seus versos sobre a guerra civil romana, inaugura
oportunamente a chegada de seus companheiros à pútrida cidade de Crotona.
São também de Eumolpo os relatos do Menino de Pérgamo e da Matrona de Éfeso,
ambos exemplares de um povo corrompido pela volubilidade moral.

Questionado por Encólpio sobre qual seria "a causa da decadência de nossos
dias", o poeta diz: "- Foi a cobiça do dinheiro que provocou essas mudanças.
Nos tempos antigos, quando a virtude pela virtude ainda agradava, vigoravam
as artes liberais, e a maior emulação entre os homens era desvendar o que
seria proveitoso para a posteridade. (...) Mergulhados em vinho e mulheres,
porém, nós nem sequer ousamos conhecer as artes já estabelecidas, mas,
detratores das coisas dos antigos, apenas aprendemos e ensinamos vícios".

Em pleno séc. 21, a leitura de Satíricon parece atrair uma atenção renovada,
que suplanta o círculo de estudiosos da obra para ganhar um público mais
amplo. Tendo influenciado inúmeros escritores modernos, entre eles, T.S.
Eliot, que escolheu como epígrafe de Terra Devastada uma fala de
Trimalquião, Petrônio fez que se unissem o riso e a angústia em um elo de
forças que hoje, e indefinidamente, incita o leitor a refletir sobre seu
tempo e sua consciência humana.

Mariana Ianelli

(Publicado pelo jornal O GLOBO, Rio deJaneiro - 15.03.2008)

  SATÍRICON
  Autor: Petrônio  Tradução: Cláudio Aquati
  Editora: Cosac&Naify
  267 páginas / 2008
  ISBN Nº 978-85-7503-681-5
publicado por ardotempo às 14:17 | Comentar | Adicionar