O Chef da Fotografia

Alma Descarnada - de Mauro Holanda

 

O "cozinheiro", como o fotógrafo foi chamado pelo curador e especialista em fotografia de autoria, François Barré, é um criador original e possui o talento dos gênios. A mostra que ele, "o cozinheiro" – Mauro Holanda – vai apresentar no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, em Porto Alegre RS, a partir de 25 de novembro, é inédita e impactante.

 

A fotografia de autoria está ali potencializada naqueles aspectos imantados que possui: a verdade revelada, e ao mesmo tempo, o seu lado desconhecido, sombrio, misterioso e secreto, contidos nessas mesmas imagens e que nos é apresentado com surpresa pelo olhar individualizado de um criador refinado. Refinado porque comporta uma técnica apurada pela larga experiência do fazer e um domínio rigoroso do controle da luz, das volumetrias, das cores, das texturas selecionadas com critério e da linguagem audaciosa conquistada na pertinência acerca da temática escolhida. Nessas imagens tudo faz sentido e nada está escondido.

 

O cérebro, o fígado, os testículos do touro, as patas do porco, as cabeças das galinhas, a fatia de queijo, o salmão.

 

Mauro Holanda fotografa alimentos. Simplesmente. Os mesmos alimentos que todos nós encontramos de maneira singela em todos os mercados do mundo. Não há truques nessas fotografias e tampouco há truques agregados aos alimentos naturais, que se fazem protagonistas nesses espaços iluminados com mestria. O fotógrafo apresenta-nos de maneira direta, sem máscaras, acentuando ao limite os aspectos plásticos, sem a literatura simbólica do expressionismo, sem a suavização da ambigüidade impressionista. A fotografia da verdade, elevando os objetos quase a categoria do fetiche visual, costurando-os imaginariamente com fios invisíveis ao seu sentido estrito. Sagrado e profano.

 

Um peixe enrolado numa bandagem de gaze é apenas isso. Um peixe e uma fita de gaze. Ponto. Legenda museográfica. 

 

Peixes, com seus olhos arregalados e suas bocas entreabertas de perfil pré-histórico sempre parecem vivos, mesmo quando saem do forno, mesmo quando estão retalhados em postas e pousados sobre uma folha de papel. O cubo de polvo. As costelas na carcaça do cordeiro em luz espectral de pintura flamenca. Tudo é muito simples e direto mas nunca vimos antes nada parecido.

E o conjunto de 20 fotografias formata uma imagética de teor explosivo que nos atinge com um raio.

 

Uma exposição rara e criativa, do chef Mauro Holanda.

 

 

 

 

Fotografia - Cubo de polvo - © Mauro Holanda - da mostra Alma Descarnada - 2008


publicado por ardotempo às 11:32 | Comentar | Adicionar