O futuro do passado

Das inumeráveis atualidades

 

Ferreira Gullar

 

Como se sabe, a história não caminha em linha reta e tampouco os processos econômico, tecnológico e ideológico gozam da mesma atualidade em todos os pontos do planeta. Daí porque García Márquez, em "Cem Anos de Solidão", inventou a cidade de Macondo, onde tudo acontecia com enorme atraso, se comparado com os centros mais desenvolvidos. Não por acaso, Macondo se situa precisamente na América Latina.

Eu mesmo nasci em Macondo, ou seja, na São Luís do Maranhão dos anos 30 e lá vivi até 1951, quando decidi também participar da história contemporânea, no Rio de Janeiro, que, se não era o centro do mundo, ficava mais perto.

Hoje São Luís é outra, bem mais moderna e atual.
A verdade é que essa noção de atualidade é relativa, de modo que quem vive na África profunda, seguindo rituais e adorando elefantes, vive sua própria atualidade. Por isso mesmo, quando passa por lá um avião, voando baixo, tenta atingi-lo com flechadas, certo de que é, em sua atualidade própria, um espírito do mal.


Não obstante, graças aos novos meios de transporte e comunicação, uma boa parte da humanidade vive numa atualidade maior, mais ampla, que abrange o que chamamos de mundo civilizado. De certo modo, a partir de determinado momento da história humana, esses povos, em maior ou menor grau, participam de um mesmo processo econômico e cultural, em níveis diferentes, claro, mas, de uma maneira ou de outra, de uma mesma história. Por essa razão, costumo dizer que não há "exclusão", já que estamos todos incluídos, ainda que em condições de desigualdade, tanto cultural quanto econômica.


Esta região, hoje chamada América Latina, foi cooptada pelos europeus, que a anexaram a seu processo civilizatório. De uma maneira ou de outra, o fator determinante de nosso processo histórico foi europeu; defasado, é claro, mas europeu. E, a cada dia, pelo avanço mesmo das tecnologias e do conhecimento, o mundo se globaliza, a economia é uma só e, gostemos ou não, estamos no mesmo barco: se a Bolsa cai ou sobe, em Nova York, cai ou sobe aqui também; se uma epidemia surge na Tailândia, temos que nos precaver porque ela pode desembarcar de um avião no aeroporto Tom Jobim e nos infectar.


Essa contemporaneidade de povos, que vivem em diferentes estágios culturais e econômicos, gera uma atualidade complexa, rica e contraditória, que faz com que o índio do Xingu, que ainda acredita em Tupã, assista pela televisão a uma partida de futebol que acontece em Barcelona, ou a um show dos Rolling Stones, na praia de Copacabana.
Não obstante, não há que se iludir: o índio não vive na mesma realidade que um morador do Harlem ou de Hong Kong, uma vez que as relações dessas diferentes pessoas com a realidade do mundo moderno são distintas, isso porque o homem é um ser cultural, que se apóia nos valores de sua comunidade e que são os seus. Por isso mesmo, aquele nativo africano, que vive num mundo tribal, não vê o avião como uma máquina que voa, e, sim, como uma aparição maligna.


A coisa não é muito diferente, embora seja mais complexa, se se passa no plano das idéias e das utopias. Quando Marx escreveu, em 1848, o "Manifesto Comunista", clamando pela libertação da classe operária, no Brasil ainda imperava o trabalho escravo e o sonho dos países latino-americanos era se tornarem impérios. A revolução que, segundo Marx, aconteceria nos países capitalistas avançados, aconteceu na Rússia, de capitalismo atrasado.

Esse fato, mesmo contrariando a teoria, não deixou de mudar o curso da história que, como se sabe, não está escrita, mas é fruto de fatores objetivos, de opções humanas e do acaso. Donde, poder dizer-se que a vida é, em certa medida, quântica, já que se rege pelo princípio da incerteza e da indeterminação. Todo o esforço humano para impedir que seja assim.
Contra o poder dos países capitalistas, a revolução soviética sobreviveu e a URSS tornou-se, em meados do século 20, a segunda potência econômica e militar do planeta.

Pois bem, o socialismo real desmoronou. Não obstante, enquanto a própria China, governada pelo Partido Comunista, troca o socialismo pelo capitalismo de Estado, na América Latina de García Márquez, reacende-se o sonho socialista, como em Macondo, onde o passado chega como se ainda fosse o futuro. E pode ser que o seja, porque a atualidade é relativa e há muitas e diversas atualidades.

Por isso, nada impede que, num povoado qualquer de nosso continente, renasça o sonho da sociedade sem classes. Só não se sabe quanto tempo duraria.

 

 

 

© Ferreira Gullar – publicado na Folha de São Paulo / UOL

Fotografia de Mário Castello - Série Mantiqueira, 2008

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publicado por ardotempo às 11:27 | Comentar | Adicionar