CRUZ

Esculturas de Ângela Pettini de Oliveira

 

Cruz é um tema da Arte. Foi assim na Antigüidade, foi assim ao longo de 400 anos pós-renascimento, é hoje um tema da contemporaneidade. Diria que é um tema crucial na Arte Contemporânea. Ali está com seu estojo de múltiplos significados e isso se prova com as propostas estéticas de Kasimir Malevitch, de Antonio Saura, de Tápies, de Velicovic, de Anselm Kiefer, de Antony Gormley, em Siron Franco.

 

Está a cruz presente em algumas obras desses artistas a apontar sua riquíssima carga de significados e simbologia, até mesmo quando o artista se inscreve na fatura abstrata. É um ícone da contemporaneidade e comporta o seu conjunto formal para as diversas formas de expressão.

 

Neste conjunto de obras Ângela Pettini de Oliveira a traz para a sua escultura. Aliás, a sua pertinência se consagra no espaço tridimensional, no universo da linguagem escultórica, posto que a cruz desde sempre é escultura.

 

Vemos nesta exposição, várias obras em que a cruz se explicita e se impõe dominando o espaço volumétrico. Noutras, ela se faz de suporte, preferencialmente em bronze, de diferentes pátinas ou graus de polimento, e dessa base universal conta uma história. Revela as outras cruzes dos seres humanos, no tráfego, nos acidentes, nos distúrbios, na violência, nas opções do livre arbítrio. Revela outras cruzes nos vícios, na sorte, na desdita. Na contas de um terço-cassino. Numa grande cruz que é carregada penosa e solidariamente por um grupo de pessoas, no caso específico, por crianças.

 

A escultora avança no tema e nos apresenta uma cruz em forma de favela, de bairro de lata, de vila miséria. A cruz, que é destinada a tantos, sem que eles a pedissem e assim ela se espalha por todos os lados, por todos os continentes.

 

A cruz deixa assim de ser um logotipo religioso e torna-se letra de um alfabeto comum a todos os seres, que identificam e compreendem imediatamente o signo e o alcance de seus significados. Existem também os labirintos de cruzes, as prisões e a poética de um lenho premonitório, ainda na sua forma primeva e original de árvore.

 

Uma escultura me chama a atenção, particularmente, será aquela em que a artista encaminha audaciosamente a cruz no formato de um cubo vazado e ali pendura um ser, torturado, que se mostra igualmente vazado, exaurido de sua força e de sua consistência integral no condicionamento ao espaço limitado, claustrofóbico e tenaz –aquele exato a que se acha reduzido e condenado. O espaço, que aberto também é fechado, que o confina e que o impossibilita de qualquer ação alternativa, na medida em que o esvazia do conhecimento e da consciência.

 

 

Olhe em volta e veja as cruzes, veja o caos que nos toca com os dedos longos.

 

Duas torres verticais que desabam – em fragmentos retorcidos de aço, em pedaços estilhaçados de concreto, em lascas de vidro, em fogo e poeira, em corpos ainda vivos arremessados ao espaço vertiginoso, em bilhões de pedaços de papel, sepultando, inutilizando e infelicitando milhares de vidas – quando caem ao solo, formam um imensa cruz, indelével e sinistra, mesmo que não a percebamos imediatamente.

 

A cruz é um tema contemporâneo – que faz pensar.

 

© Alfredo Aquino 

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publicado por ardotempo às 15:12 | Comentar | Adicionar