Almádena, no Da Literatura

Regresso

 

Almádena

 

Texto crítico de João Paulo Sousa

 

Tendo aqui escrito pela última vez sob o signo de Mariana Ianelli, o que aconteceu há mais de dois meses, agrada ‑me a ideia de regressar ao blogue a partir de outra obra da escritora brasileira. Acredito até que a noção circular assim proposta poderia agradar a uma autora que estruturou o último livro com base em frases do Padre António Vieira. Refiro ‑me a Almádena, editado em 2007 pela Iluminuras, que se apresenta como um volume poético em sintonia com algumas palavras retiradas do Sermão de Quarta ‑Feira de Cinza (1672), segundo as quais «não sois o que cuidais, nem o que sois», mas «sois o que fostes e o que haveis de ser». Ao escolher esta apropriação do passado e do futuro como elementos constituintes do presente, Mariana Ianelli aponta uma questão essencial da sua poética, a saber, a profunda ligação estabelecida entre o ser humano e o mundo.

Poderíamos aqui retomar a noção de Einfühlung, tão cara à estética alemã, para a qual não há descontinuidade na percepção que o ser humano constrói daquilo que o rodeia; pelo contrário, será lícito falar ‑se de entropatia ou mesmo de comunhão entre o indivíduo e o que lhe é exterior, ao ponto de essa exterioridade não ser percebida como tal. É a leitura do mundo que se pode encontrar em versos como estes: «O que morria comigo não tinha fim» (p. 15); «Tal como há bilhões de anos, / No teu porvir o teu início» (p. 21); ou «Não há rumor nas coisas, / Elas são o que são, / Não desejam explicar ‑se» (p. 70).

Um tal olhar não significa que se esteja perante uma poesia da beatitude, da contemplação comovida e extática, porque a dimensão do trágico moderno irrompe na escrita de Mariana Ianelli em conexão com o labor de outros autores e, sobretudo, em perfeita consciência das circunstâncias inerentes ao tempo que lhe coube viver. Assim, o conjunto «Da Liberdade» vai tecendo, com uma espécie de pudor elíptico, um cenário de horror que se serve da palavra final para produzir uma confirmação. Os últimos versos dessa parte do livro são também um diálogo com a obra do europeu Paul Celan, na sua aspiração a uma linguagem capaz de se reduzir ao essencial, cuja intensidade advém precisamente da depuração que se pretende alcançar: «O campo limpo, / A vida refeita, / Alguém virá para ser o primeiro / A falar novamente – e escrever – / Por sobre o jazigo das línguas. // O poeta depois de Auschwitz» (p. 83).

 

 

Publicado no blog Da Literatura

 

publicado por ardotempo às 12:31 | Comentar | Adicionar