Conto-Carta, de Ignácio de Loyola Brandão

 

 

O horror de minha autópsia

 

 

Minha mais do que adorada, amada Luisa

 

O que me deixa apreensivo é a perspectiva de, por qualquer razão, ter de sofrer uma autópsia. Não sei os motivos que levam a lei a exigir uma autópsia. Morte em circunstâncias suspeitas.

 

Sempre que leio essa frase em jornais, me delicio. Agora, a possibilidade me deixa consternado. Ser estendido em uma mesa de mármore — ao menos é mármore nos filmes e romances, mas acho que no Brasil ninguém vai gastar mármore com defunto. Digamos ser estendido em uma mesa de granito, pedra, madeira, fórmica. Branca, não muito limpa, que nada é limpo nesses lugares, com restinhos de sangue, talvez excremento — Deus me livre de tal inglória — ou pedacinhos de vísceras secas. Eu nu. Indefeso, exposto, a pele amarela, cheirando mal sobre o tampo repelente. Situação incomoda, estarei à mercê do legista insensível que vai me cortar com bisturis e serras, sem se incomodar com o que fui, pensei, sonhei.

 

Jamais passou pela cabeça dele que o corte possa doer em um morto, porque os mortos não podem reclamar, comprovado está que não falam. Certeza de que serei — ele fez milhares de autópsias e as executa com frieza, automaticamente — um objeto qualquer, ele vai me cortar como se estivesse abrindo a boca de um saco de carvão, uma lata de sardinhas, uma lata de comida de gato, jamais como uma latinha de precioso caviar. Não importa que esteja frio ou faça calor, ou que moscas voem ao redor, pousando sobre meu corpo impotente, quem sabe me fazendo cócegas. Nenhuma preocupação com a higiene ou a assepsia. Não poderei mais ser contaminado, não estarei sujeito a infecções. Parece que a morte traz imunidade, o cadáver fica isento de perigos corriqueiros em hospitais.

 

Pode ser que o legista trabalhe com música, tomara que goste de Brahms, não vou suportar o rock vulgar, barulhento, odioso, rotineiro em nossas cidades, em qualquer lugar, em todos os lugares, nos bares, supermercados, restaurantes, salas de espera, elevadores, garagens, lojas, igrejas (bem, não sei, há tanto tempo não entro e uma, apesar dos cinemas todos estarem se transformando em igrejas. São boas essas novas religiões, minha cara?). Não podemos mais fugir do som, ele está à nossa volta, incessante, qual peste negra, grudando-se em nossa pele, invadindo as cabeças.

 

O legista estará fumando, enquanto corta. É impossível que não o faça, o cheiro da fumaça é um modo de desviar o nauseabundo odor de um cadáver. Não é improvável que tendo as duas mãos ocupadas, o cigarro ou o charuto, ou a cigarrilha, fique o tempo inteiro na boca, sem que ele possa bater as cinzas. Assim, é cem por cento provável que a cinza caia dentro mim, sobre meus pulmões, cubra meu coração rígido, inutilizado. De que adianta um coração que não bate mais?

 

Tenho pavor que seja um velho médico pachola, funcionário público em vias de se aposentar, com alguns dentes podres e que, ao trabalhar de boca aberta, babe dentro de mim. Mesmo morto, posso vomitar, não suporto baba viscosa. Ou que, ao tossir, injete perdigotos nos meus pulmões abertos. Logo eu que me cuido tanto! Penso nesse homem serrando minhas costelas, arrancando meu estômago, abrindo, verificando o que comi. Por isso quero ter uma última refeição decente, boa. Devo estudar o que pode ser agradável ao paladar e tenha bom aspecto, quando os ácidos da digestão atuarem. Para que ninguém tenha nojo. Para que me admirem como um gourmet, apreciador do melhor.

 

Vão me extirpar o pâncreas, a vesícula, pedaços do intestino, os rins, examinar o fígado. Será possível, antes de morrer, ir ao banheiro esvaziar meus intestinos? Como evitar que a minha autopsia seja envolvida pelo cheiro pestilento da carne putrefata, fezes envelhecidas, gases e tudo o que está num corpo em decomposição? Recuso-me a morrer, enquanto a ciência não encontrar meios de me proteger desse repugnante pós-final. Não quero participar dessa cerimônia horrenda e sem sentido, caso morra em circunstâncias suspeitas. Vou pesquisar, saber se é possível deixar um documento pedindo: mesmo que as circunstâncias sejam suspeitas, deixem correr. É excitante morrer no mistério insolúvel, participar de um caso não esclarecido. Assim, vou estar sempre lembrado, presente, citado. Nunca morto definitivamente, um mito solidificado. Morrer naturalmente nunca trouxe glória pra ninguém, é passagem rápida para o esquecimento.

 

Ao pensar na autópsia, fico a supor o que farão com o que retirarem de dentro de mim. Tudo será recolocado, junto com serragem, como ouvir dizer? Ou guardam em vidros, dentro de formol? E se algum dia alguém, por descuido, ou sacanagem — porque existe muita corrupção nos hospitais, estão sempre comprando corações, fígados, rins, órgãos para transplante, vendem crianças, há contrabando de córneas — e se alguém apanha aqueles vidros e vende a um desses caminhões que percorrem o Brasil, com exposições pseudo-científicas de anormalidades em parques e pavilhões? Até perdi o fôlego.

 

Ou após os exames e análises serei colocado em um saco plástico, desses de lixo, e jogado, dado aos cachorros, abandonado em terrenos baldios, vendido aos quilos em circos para alimentar as feras? Outro dia, li que no quintal de uma casa próxima a um hospital foram encontrados dezenas de corações humanos, atirados fora sem mais nem menos.

 

Se recolocam tudo em meu corpo, não ajustarão cada coisa em seu lugar, devem imaginar que não há necessidade. Farão suturas, me enviarão ao túmulo. As suturas serão bem feitas ou costuras apressadas, com agulhas para se fechar sacos de feijão ou soja? Nada de grande cuidados com o pobre defunto vilipendiado. Não exijo cirurgias plásticas, mas tenham a bondade de me fechar com atenção, reconstituindo este corpo que me será necessário no Juízo Final. Não posso comparecer estropiado diante do Senhor, com as costuras arrebentando. Imaginem o bom Senhor me olhando e vendo o coração invertido, os intestinos mal enrolados, a pequena vesícula fora de lugar!

 

Cavaleiro de triste figura, eu, que as pessoas admiram tanto, com tão belo físico, bem cuidado, musculado, massageado, pele tratada com cremes magníficos, perfeito exemplo do metrossexual, eu, logo eu, sendo objeto de escárnio, sarcasmo, galhofa, o próprio Senhor não poupando um riso zombeteiro, como se me censurasse: “não disse sempre que as vaidades humanas eram tolices?” Triste espetáculo no último instante da humanidade, momento que marcará o fim do ciclo do ser humano. Fim.

 

Se existe o Juízo Final, existe uma data para tudo se encerrar, fazer o balanço, avaliar o que se passou, se valeu a pena. E o Senhor — ou quem quer que seja que iniciou tudo isso e se tornou o âncora do show  — decidir se continua ou não com suas velhacas experiências. Ou se tenta um nova, porque esta aqui não está adiantando nada.

 

 

Com todo o meu imenso carinho te beijo

 

 

 

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(Não assino, quero ver se você adivinha o remetente)

 

 


 

© Ignácio de Loyola Brandão – CARTAS, Iluminuras, 2005

Cigarros – Fotografia de Irving Penn – 1972

publicado por ardotempo às 19:42 | Adicionar