Poesia de Mariana Ianelli - Almádena

Livro: ALMÁDENA
Poesia /  102 páginas
Autora: Mariana Ianelli
Editora: Iluminuras - São Paulo SP Brasil
Ano: 2007
ISBN 978-85-7321-260-0

          
DO ADEUS


Porque é sempre despedida,
Todas as noites, desde o princípio,
Na resma de papéis escritos,
No que só o olhar suplica.

Porque é sempre uma ponte,
Um banco de jardim, um navio:
Pequeno mundo de viagens prometidas,
Sem outro regresso que partir.

Homens do Mediterrâneo,
Plural de um só navegante,
Ser e esquecimento,
Um minuto apenas e tanto sangue.

O que se cria do que se perde,
Cavalinho de bronze,
Borra de açúcar, gota de rubi –
O infinito durante.

De tudo há que se colher o pó,
Continuar a alma, legar para o filho.
Em tudo há que se viver um domingo.

Porque sete vezes sepultado.
Porque no vento e para o vento, cotovia.

Morrer de ter sido, quantos não morreram.
Amar por ter amado, quem poderia?

Nos galeões naufragados,
Os punhais esperam pelos escafandristas.
Escudos, canhões, astrolábios e lamparinas
Repetem o céu com sua campa vidrada
E a paz que, por existir, está dita.
 
O último debate, o último trago,
Hoje o último dia.
Sempre o mesmo e diverso
Merecimento da vida.

Esta casa, feita para dois,
É prata do mar se exibindo.
Para quem vai sozinho,
A paisagem é bem outra,
Deserto de baleias, estrada de beduíno.

Nos espaços abertos
Dentro de salas e quartos,
Longe, muito longe,
Sempre há uma vontade de nuvem.

Sempre um estar mais além,
Andrômeda, colibri.

A madeira que se move, imperceptível;
Um punhado de brasa, um vestido –
Tudo que a terra pulveriza.
E, no entanto, este coração
Martelando sob o tecido.
Agora a última sístole.

Encontrar a chave anos mais tarde,
Quando a passagem já está perdida;
Descobrir uma carta selada,
Quando a palavra secou na raiz.
Instante dos instantes,
Viaja-se de encontro ao extinto.

Seja como for, a vida fugitiva.

Talvez a ânsia de vitória
Perdoe o soldado desconhecido.
Talvez a roda de bicicleta
Despedaçada contra o portão
Envelheça o menino.

Mas sempre isto e um albatroz,
Sempre as marés do Pacífico.

Um século esculpindo a montanha,
Fazendo-a consentir.
Porém, terá sido menos da rocha que do fogo
O seu mirante, o seu abismo.

Porque, entre cinzas, o grão do possível.

Aquele que chega ao Farol de Santa Marta
Não volta dali completamente,
Nem o farol é mais o que era
Antes, pouco antes de ser visto.
Uma luz vai, um corpo fica.

Porque cada coisa, para ser,
Em seu todo se divide.
As fases da lua, a pele da orquídea,
As cores com que se faz o branco.

Houston, Valparaíso,
E Cáceres e Labé,
Siena, Malakal, Xangai,
E Bayamón e Quebec.
Onde o tempo deságua,
Onde a eternidade hesita.

Se as distâncias se alargam,
Gavião, codorniz.

O mito, desde sempre, o mito.
Mas outubro tudo que passa.
Regato o próximo que se afasta,
O estrangeiro que desliza.

Sempre menos e a esfinge do exílio.

Por um gole de rum,
Por teus olhos antigos,
Ainda estar aqui.
Por pouco, muito pouco,
Ainda acordar e vestir-se.

Em nome de alguma história de brisa,
De uma hora debaixo da sombra,
Um sonho que se batiza.

Quantas tardes por uma tarde,
Quantos mares por um destino.

Ainda se ouve uma prece
Rugindo no cemitério dos livros.
Ainda a fresta de um muro
Cala o testemunho do grito.

Num espelho coberto,
No desenho lapidar das ruínas,
Qualquer volúpia ou gaivota,
Vaga fluindo e refluindo.
 
E as cordas tiradas da harpa.
E as páginas soltas de uma elegia.
Tudo que resta incompleto
Porque areia, neblina.

Sempre o desmedido,
A graça e o desmedido.

Estilhaço de vidro,
Uma ampulheta, um cachimbo,
Todos objetos e nenhum,
Todos inquilinos do sigilo.

E o ninho expulso do topo,
E o fruto não nascido.
Tanta morte, tanto sono
Para que um, entre milhões, andorinha.

Porque pássaro diz o carvalho
E água o bordejo das línguas.
Porque não mais e por enquanto,
Porque não ainda e neste ínterim.

Vem do sul uma nudez pelicana,
Vem a corola e sua margem de abismo.
Do sul aquele rio neste rio
Subtraído de um momento,
Mas transbordante de si mesmo.

Adeus, pavio de vela,
Negro turbante, água de batismo.
Adeus para a pedra que rola,
Adeus para ti, pequenino.

A flecha será arremessada,
A flecha acaba de acertar a mira.
Na travessia de um ponto a outro,
Sempre o fim e volver para cima.

O que paira, o que silencia.


© Mariana Ianelli  - Almádena / Iluminuras, 2007

publicado por ardotempo às 10:26 | Comentar | Adicionar