Transatlântica / Transpacífica

Onde andarás?

 

Ferreira Gullar

 

Começo a te esperar, gritou ela da janela do apartamento, quando ele saiu do prédio e iniciou o caminho sem volta para o outro lado do mundo. Seu tempo em Moscou havia se esgotado, mas deixar Helena, separar-se dela para sempre, era como morrer e, ainda assim, seguia em frente pisando um chão coberto de neve naquela noite gelada. Foi quando ouviu o ruído de passos atrás de si e voltou-se. Ela se jogou sobre ele, abraçou-o e beijou-o chorando. Em seguida, sem que ele tivesse tempo de dizer qualquer palavra, deixou-o e voltou correndo para a entrada do edifício, onde sumiu. Ele rebentou em soluços e retomou seu caminho.


 

Até chegar à "abchejite", ainda no metrô, a frase de Helena não lhe saía da cabeça: "Começo a te esperar". Por que dissera aquilo, se sabia que nunca mais se veriam?

 

Talvez o disse para tornar possível uma última esperança, já que ninguém suporta o fim arbitrário de um amor feliz.
Ao chegar a seu quarto, lá encontrou um grupo de amigos, que o esperavam com cerveja e vodka para se despedirem dele festivamente. Queriam saber onde estivera até aquela hora da noite, mas ele apenas sorriu e nada revelou.

 

Puseram na vitrola um disco de samba, ele tomou um porre-mãe e só acordou de manhã, quando bateram à porta do quarto. Era um funcionário do PCUS, que o levaria para o aeroporto. Como um zumbi, trocou de roupa, pegou a maleta que já estava feita, desceu pelo elevador e entrou no carro que o esperava à porta da casa de estudantes. Como um zumbi, entrou no avião e adormeceu. Só acordou quando aterrizava em Roma, era como se acordasse de um sonho, que durara dois anos, e era agora devolvido à realidade.

 

Chegou ao hotel, trancou-se no quarto e, deitado na cama, abandonou-se à derrota: chorou sem aflição, sem desespero, as lágrimas descendo-lhe dos olhos e ensopando-lhe a camisa. Nada fez para parar o choro, disposto que estava a chorar tudo o que devia chorar, até não mais ter lágrimas nem necessidade. Quando terminou, sentiu-se aliviado e vazio, um morto-vivo, que se ergueu, lavou o rosto e voltou a sentar-se na cama.

 

Ainda bem que, na manhã seguinte, voaria para Santiago do Chile.
Na verdade, o vôo era Roma-Buenos Aires e pareceu não terminar. Nunca. Sentiu um misto de melancolia e consolo, quando o comandante informou que o avião bordejava a costa brasileira.

 

Consolou-se com o fato de que sobrevoava o Brasil e que, lá embaixo, estavam seus filhos, sua mulher, seus amigos, sua gente. Mas doía-lhe saber que não poderia descer em nenhuma daquelas cidades, muito menos no Rio, e voltar para casa. Por quanto tempo ainda teria que suportar o exílio?
De qualquer modo, chegar a Buenos Aires já foi uma alegria, sentiu-se quase em casa. Calle Florida, Corrientes já lhe eram familiares. Estar na América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz.


 

Em Santiago, a situação era ameaçadora, pois os inimigos do governo Allende o boicotavam, comprando tudo nos supermercados e deixando a população sem alimentos suficientes.Uma greve de transportes parara o país, ao mesmo tempo que a ameaça de golpe militar pairava no ar.

 

Em meio a esses problemas, ainda sentia a falta de Helena a tal ponto, que, certa tarde, ao cruzar uma avenida do centro da cidade, ele a viu entrar numa loja. Seu coração quase explode. Entrou na loja, mas não a encontrou; ao sair, viu que ela seguia pela calçada em meio aos transeuntes. Foi atrás dela, empurrando as pessoas que lhe dificultavam a passagem, mas de nada adiantou: uma esquina adiante, ela tomou um táxi e seguiu nele. Desapontado, voltou para o apartamento onde morava, na Providência. Só então se deu conta de que não podia ser ela, tudo aquilo não era mais que um delírio.


 

Passaram-se os meses, a situação política se agravou e um golpe derrubou Allende e o levou ao suicídio. Conseguiu sair do Chile para a Argentina, depois para o Peru e Buenos Aires, de novo. A vida seguiu adiante, envolta em sustos e desespero, até que, finalmente, voltou para o Brasil.

 

Recompôs sua vida, retomou suas ocupações e esqueceu Helena.
Anos mais tarde, porém, ao ver um filme sobre a vida de Luis Carlos Prestes, depara-se, surpreso, com ela, a mesma daqueles anos, linda, falando e rindo na casa dele, em Moscou.
Onde andará ela, hoje? perguntou a si mesmo. Àquela altura, já a URSS se acabara e, certamente, ela, que sonhava conhecer o mundo, deveria ter saído de lá. Telefonou para um amigo, que também estivera em Moscou, e soube que ela fora para Cuba, donde seguira para Madri. Depois disso, ninguém teve mais notícia dela.

 

 

© Ferreira Gullar – Publicado na Folha de São Paulo - UOL

Foto de Pierre Yves Refalo 

publicado por ardotempo às 14:36 | Comentar | Adicionar