DARIO FO - dramaturgo e pintor


“É preciso rir de si mesmo e compreender que nos manipulam.”

Dario Fo – Prêmio Nobel 1997, arquiteto, pintor, doutor na Universidade de Sorbonne (Paris), historiador de Arte e autor de teatro traduzido em vários idiomas.
Entrevista concedida a Rosana Torres, El País, Milão – março 2008

RT: A democracia formal presente em muitos países ocidentais, com sistemas de dois grandes partidos muito semelhantes entre si,  confundindo-se com suas políticas efetivas, é um avanço ou seria uma mera estabilização do poder?

Dario Fo: Representa a estabilização do poder e do sistema capitalista. O poder se faz assim para dele não mais sair. Nos Estados Unidos há uma variante importante: ambos os partidos têm instrumentos de questionamento que podem colocar em cheque, inclusive, o próprio Presidente; aqui, ao contrário, procura se esconder tudo, termina-se por arranjar um pacto conveniente.

RT: O sr. continua pensando que as revoluções começam bem e terminam esclerosadas?

Dario Fo: Nada mais a fazer do que simplesmente olhar para a História. Penso no cristianismo, nos seus significados, em seus fins… e observo o Papa.
O que tem a ver este senhor com o pensamento de Cristo? Se nada faz para alcançar aqueles objetivos! Nem ele, nem seus cardeais...o clero é uma grande massa de poder e Jesus pregava apenas o poder do Amor. Basta ver os bispos espanhóis pedindo que se vote na direita. Ainda por cima são politicamente reacionários. Justamente o contrário de Cristo.

RT: Porque o sr. acredita que isso acontece?

Dario Fo: Está na raiz de um fato que resultou completamente esquecido.
No século 3, Constantino percebeu que o cristianismo adquiria importância. Como a religião pagã não resolvia os problemas, ofereceu ao cristianismo a possibilidade de se tornar a religião do Império e os bispos se viram com o direito de não pagar taxas nem impostos de sucessão, tampouco os tributos, obrigações que já existiam na jurisdição romana.
Eles detinham o poder do espírito e a partir de então tomaram o poder material, sem esquecer que se tornaram grandes proprietários por toda a Europa graças a um documento, supostamente escrito por Constantino em seu leito de morte, que se demonstrou posteriormente que era falso.
 
RT: O sr. está imerso mais do que nunca na pintura, com seus livros dos grandes gênios?

Dario Fo: Meus pensamentos sempre passam pela pintura…quando enfrento dificuldades pinto para resolvê-las e todas as minhas pinturas são projetos para espetáculos de teatro…

RT: O sr. é um pintor emprestado ao palco ou um dramaturgo emprestado ao mundo das artes plásticas?

Dario Fo: A verdade é que não sei. Desde pequeno comecei ao mesmo tempo a rabiscar e a contar histórias porque era um inventor de fábulas nato.
A pintura serve-me para analisar a realidade através do grotesco, se alguém conta uma história depois de estudá-la e analisá-la a fundo, transmite melhor o valor dos fatos, a sua importância ou a sua falsidade.

RT: Sendo o sr. um ateu convicto e confesso, não deixa de ser curiosa essa sua paixão, transformada em autêntica e minuciosa investigação sobre Jesus Cristo, os Evangelhos, São Francisco e sobre a Igreja...
 
Dario Fo: Jesus era um grande homem de teatro, com o domínio da palavra e um grande sentido de organização das histórias que contava; projetava espacialmente os seus discursos utilizando-se da topografia dos terrenos, de maneira que falava sem forçar muito a própria voz a cinco ou dez mil pessoas. Que percepção de palco!

RT: Como as técnicas utilizadas pelos gregos em seus teatros?

Dario Fo: Exatamente. E se confrontava com a necessidade de ter que improvisar porque nem todos estavam de acordo, sempre havia provocadores no meio e ele jamais os ignorava, tratava de integrá-los. Procurava fazer isso através de manobras envolventes em que não faltavam elementos cômicos e situações grotescas, tinha essa grande habilidade como São Francisco, ambos faziam discursos muito “limados” e bem trabalhados.

RT: Isso se percebe na leitura dos Evangelhos?

Dario Fo: Nos Apócrifos vê-se claramente que ele procurava os diálogos, criava atmosferas, gerava as réplicas com os seus discípulos… intuem-se muitas coisas quando se lê com atenção e descobre-se que aquilo tudo somente podia funcionar se fosse teatralizado, com atores em cena, com situações coletivas e falas em coral. Isso é o teatro!

RT: Não havia improvisação?

Dario Fo: Nada era deixado ao acaso. A mesma anedota era contada em locais diferentes, como demostram os vários testemunhos, era um espetáculo itinerante, que esteve três anos em tourné num espaço geográfico muito grande. Em teatro não se improvisa, é necessário respeitar algumas regras e ele o fazia.

RT: Vê-se que o sr. se mostra muito preocupado com o meio ambiente e que fala de um “Apocalipse Inconsciente”.

Dario Fo: Sim! O poder, através da desinformação, de seus próprios espetáculos, de seus jornais, revistas e de suas manifestações atordoa as pessoas para que não pensem e não se preocupem com o que está sucedendo. Age como se estivéssemos numa nau à deriva na qual o capitão aparece de vez em quando e diz, sorridente: “Nada acontece, tudo está bem, estamos no melhor dos mundos”, como o Cândido de Voltaire… enquanto se olharmos para o lado, encontraremos mulheres maltratadas, crianças mortas, trabalhadores que despencam na fornalha e a natureza do planeta agonizando.

RT: Existe solução?

Dario Fo: Tudo passa por uma retomada de consciência e de se lutar para que todos percebam o que está acontecendo. Eu sempre acreditei que a melhor forma de informar as pessoas é envolvendo-as com humor, com o riso, é preciso rir de si mesmo, compreender que se está agindo como um tolo que se deixa manipular por quem dirige e manda.

RT: O poder saberia rir de si mesmo?

Dario Fo: Não, o poder não é capaz de rir de si próprio. Noutro dia me disseram: “O homem sério é aquele que não sabe rir”, ou seja, é aquele que não possui senso de humor, que não compreende as ironias, as brincadeiras, o sentido do que é grotesco…

Pintura de Dario Fo

(El País –  Entrevista concedida a Rosana Torres, Milão – março 2008)

publicado por ardotempo às 21:21 | Adicionar