O fantasma de Fellini

A fotografia

 

O fotógrafo e a namorada aproximaram-se do palazzo antigo em Florença, entraram na fila para comprar os ingressos no meio da multidão de turistas alvoroçados. No gelado do inverno e na concorrida temporada cultural. Muita gente em todos os lados, diversas procedências. Línguas na aglomeração. Português, grego, inglês, japonês, francês, outras linguas que o fotógrafo e a namorada não foram capazes de identificar; e mais o italiano. Por todos os lados. Movimento em frenesi. E fantasmas.

 

De repente, sem se perceber de onde, eles chegaram. Alegre e ruidosamente. Contornaram deslizantes o espaço frontal do edifício secular e pararam juntos. Vistosos, coloridos e falantes. Os ciclistas italianos, em equipe. Capacetes e tecidos emborrachados. Bicicletas de corrida para estrada. Juntaram-se com alegria contagiante à fila dos turistas, instatalaram uma confusão momentânea de medina marroquina, de mercado persa, de tráfego romano. 

 

Resolveram montar um fotografia conjunta da equipe na porta do palazzo. Sob a orientação de um diretor de cena, gestos largos e teatrais. Gritos de lado a lado, o conjunto se forma em orquestra de futebol. Um maestro-ciclista e um fotógrafo-ciclista. E um outro fotógrafo atento. E o fantasma de Fellini a coordenar a cena. Claquete. Ação. Clique. Corta.

 

 

 

 

O fotógrafo e a namorada entram no palazzo no meio da multidão. Obras de arte. Afrescos. Tetos e pisos antigos. Turistas em movimento. Escadarias e fotografias dos turistas. O fotógrafo e a namorada sobem a grande escada. Degraus desgastados de mármore, arredondados, lisos, seculares, cheios de histórias de calçados que por ali passaram, a conspirar, em serviço ou a passeio. No teto, o afresco dos anjinhos brincalhões e irônicos tropeçando em globos coloridos como se passeassem no céu pintado. Céu azul e nuvens brancas, anjos e planetas. E um fantasma a observar a cena.

 

O fotógrafo olha para o teto, enquadra a cena, faz a foto. O fantasma do cineasta dirige a tomada. Claquete. Ação.

 

Um passo em falso, um leve toque de equilibrio, um vento de fantasma... O vôo frenético do perdiz. Topo da escada, o cume do Mont Blanc. Degraus sem arestas, lisos de neve de Carrara. Em elipse descendente, a curva definitiva da gravidade, numa fração de segundo. Um despenhadeiro profundo de grota alpina. Base lisa de Carrara no fundo do abismo. Corta, grita o fantasma. Baque seco, estalo de ossos, grita o fotógrafo.

 

No fundo do vale escuro do palazzo renascentista, o fotógrafo quebrara um de seus instrumentos de trabalho... não a cabeça, não o crânio, não a câmera, quebrara o braço esquerdo.

 

Logo a corrida dos funcionários, o transporte a uma sala de serviços, com rapidez e discrição. Silêncio e dor. O consolo da namorada ao fotógrafo ferido, mimos contra gemidos. A chegada dos enfermeiros na ambulância, o som dos metais cromados da maca articulada. A metamorfose do fotógrafo com o braço arruinado em paciente-refém de uma maca de tubos de aço. Um funcionário encaixa mal a maca, a articulação força uma dobradura inesperada, alguém de branco apoia-se no braço avariado. O fantasma sorri. O fotógrafo grita. A enfermeira comanda o motorista: "Meta a sirena"

 

E a ambulâcia parte alucinada, com seu grito histérico jogado ao ar, pelas apertadas vias do centro histórico, curvas de dor em ondas de sangue para o abatido protagonista, navegando com brusquidão no tubo vermelho e branco de luz, como se fora um surfista de onda grande em prancha rápida, 

 

A ambulância chega ao hospital. Logo após chega apressado o fantasma do cineasta. Claquete. Ação. A cena agora se desenrola nos corredores planos e brancos de centro de ortopedia de emergêcia de Florença. Fellini dirige a cena. Por uma porta entra a maca do fotógrafo, braço direito estropiado. Na mesma sequência, sem cortes, entra pela porta lateral uma segunda maca em aços cromados, com outra vítima de atividade no dia. Um dos ciclistas, vestido com o espalhafatoso uniforme colorido, a perna direita arruinada, ossos partidos , ensangüentada fratura exposta. Os atores involuntários se reconhecem da cena anterior e riem da nova situação, apesar dos dolorosos sofrimentos comuns. Corta, pensa o fantasma.

 

 

Fotografia de Pierre Yves Refalo - Ciclistas - Florença, 2008 

 

publicado por ardotempo às 01:06 | Adicionar