(bip) José Mário Silva (bip)

 Atendedor de chamadas

 

(bip) Olá Alfredo, não sei se te lembras de mim, sou a Teresa, aquela miúda avantajada com quem tu gozavas, no terceiro ano de Medicina. Estudávamos juntos em casa do Rodrigo, lembras-te, rodeados pelos calhamaços de Anatomia, eu a ouvir os The Cure e a curtir uma depressão, vocês a beber gin e a fumar ganzas. A verdade é que já não nos vemos há uns anitos e entretanto deixei de ser miúda, embora continue avantajada. Hmmmm, por que é que estou a falar disto? Desculpa, Alfredo, acho que não me sinto à vontade a falar para uma máquina, acabo por nunca dizer as coisas como queria, baralham-se-me as ideias, sabes como é. Conseguir o teu número foi uma odisseia porque não vens na lista, meu safado, mas isso agora não interessa. A razão do meu telefonema é muito simples: queria convidar-te para um jantar dos antigos colegas de faculdade. E adivinha lá quem é a organizadora de tão distinto evento? Acertaste, that’s me, imagina só, a gaja que abandonou o curso no quarto ano para se dedicar à pintura, a degenerada, a ovelha negra. Resumindo, se puderes estar presente, dia 20, às oito da noite, num restaurante do Bairro Alto a confirmar, diz-me qualquer coisa. Espero que o meu número ainda conste da tua agenda. E se me puderes arranjar os contactos de alguma malta, era óptimo. Que é feito do Rodrigo, o maluquinho dos carros? E a Magda, a nossa menina de ouro, a nossa promessa, já estará perto do Nobel? E a Ana Maria? Sempre casaste com ela? Tiveram filhos? Diz-me qualquer coisa. (bip)

 

 

(bip) Alô big boy, daqui fala o Rodrigo. Ouvi dizer que estavas de férias em parte incerta, sem telemóveis e sem morada, longe do mundo civilizado. Só espero é que tenhas escolhido um sítio porreiro, tipo cabana debaixo das palmeiras no Havaii ou um iglo redondinho no pólo Norte. Desde que haja uma rapariga com flores ao pescoço por perto, ou uma esquimó insaciável, estás no Paraíso. Olha, quando chegares apita. Com sorte, ainda te levo a passear na minha nova máquina, um BMW descapotável que é uma bomba que até faz impressão. Esta semana vou fazer a rodagem do bicho para Espanha, a ver se impressiono nuestras hermanas com o fulgor do turbo. Mas depois volto, está descansado. Há muito álcool na tua casa, muita conversa para pôr em dia, muito jogo do Benfica na SportTV. Até breve, um abração. (bip)

 

(bip) Alfredo Manuel, fala a tua mãe. Tu só sabes é apoquentar-me, é o que é. Então havia alguma necessidade de desapareceres assim, de um momento para o outro, sem dizer água vai? Só me dás arrelias, filho. Lá na clínica, disseram que foste de férias. Pois, pois, foste de férias e não me disseste nada. Tanto podes estar no Tibete como nas Ilhas Maurícias, a morrer de sede no deserto ou de fome numa prisão turca. Um dia ainda me matas, é o que é, com as ralações. Sim, que o meu coração anda fraquito, com sopros e coisas dessas, mas tu, que és médico, nem te dás ao trabalho de telefonar-me a perguntar como estou. Andei eu a criar um filho para isto. Ai Alfredo Manuel, Alfredo Manuel, quando é que ganhas juízo? Beijos da mamã. (bip)

 

(bip) Olá querido, fala a Cristina. É só para dizer que adorei, adorei, adorei. Foi tudo perfeito. A viagem, as montanhas, a pousada, a manhã de domingo, a compota de morango no pão quente, os miminhos, os abraços, as palavras, tudo, tudo, tudo. Só não percebo porque não estás em casa há três dias. E porque não disseste nada desde o regresso a Lisboa. Acho que precisamos de beber um café e reflectir um pouco sobre a nossa relação. (silêncio). Isto é, se na realidade tivermos uma relação. Liga-me, por favor. Muitos beijos da tartaruguinha. (bip)

 

(bip) Alfredo, sou eu, a Ana Maria. Falei há pouco com a tua mãe, que também não sabe por onde tu andas. Afinal, o que é que se passa contigo? Na semana passada parecia tudo em ordem e agora está tudo de pantanas. Ou muito me engano ou deu-te outro amock, outra pancada na cabeça, e fugiste para Marrocos, à procura do sentido da vida nos cumes do Atlas. Se assim foi, espero que faças bom proveito da tua loucura e que voltes depressa. Daqui a pouco, só falta a polícia procurar por ti. Aliás, já que vem a talhe de foice, chegaste a pagar aquelas multas de quando andaste com o meu carro, a fazer as mudanças para o novo apartamento? E a miúda, a que dias é que vens buscá-la, afinal? É a tua filha, lembras-te? Como a tua mãe costuma dizer, e olha que nunca pensei dar-lhe razão, tu não tens remédio, Alfredo. Vê se te dignas a aparecer, ok? (bip)

 

(bip) Senhor doutor Alfredo Barros, é o seu contabilista. É só para dizer que surgiram umas dúvidas em relação às suas contas de Fevereiro, nomeadamente no que concerne às facturas de táxi e de refeições. Lembro também que está na altura de passar o cheque do IVA e de pagar mais uma prestação da dívida à Segurança Social. Fico a aguardar uma resposta da sua parte, espero que tão rápida quanto possível. Com licença. (bip)

 

(bip) Alô big boy, é Rodrigo quien habla. Estou a ligar de Valência. A Espanha é um espanto, meu amigo. E as espanholas nem se fala. Digo-te uma coisa: se tivesse que pagar por todos os pecados que cometi nestes últimos dias e nestas últimas noites (sobretudo nas noites), já era meu o lugar mais quentinho do inferno. Isto é que é vida, amiguito. Liberdade absoluta, uma estrada pela frente, dinheiro no bolso. É o Easy Rider em versão de luxo e só para um gajo, estás a ver? Olha, tenho que desligar. Estou num motel com uma pantera a precisar de festas, compreendes. Amanhã sigo para os Pirenéus. Talvez telefone quando chegar a Paris. Tchauzesku até Brejnev. (bip)

 

(bip) Alfredo, é a Cristina outra vez. Assim não dá, Alfredo. Não pode ser assim. Sempre que passamos um fim-de-semana juntos, foges de mim logo a seguir. Da outra vez compreendi, ainda estavas muito fragilizado com a separação, essas coisas todas. Mas desta vez não compreendo. Posso parecer forte e decidida, mas também tenho as minhas fraquezas, as minhas crises de auto-estima. E assim não pode ser. Já fui abandonada demasiadas vezes e não quero entrar noutra espiral de sofrimento, entendes, não quero. Pensa nisto tudo e fala comigo. Depressa, está bem? Um beijo. (bip)

 

(bip) Eh, Alfredo, lembras-te do Joaquim Veloso, o especialista-mor em traqueotomias? Sou eu, rapaz. Estás por cá? Gostava de falar contigo e de saber como é que montaste uma clínica tão próspera em tão pouco tempo. Sabes quem é que me deu o teu contacto? Nem vais acreditar: foi a Teresa, aquela maluca gordinha que abandonou o curso e foi para Belas Artes. Lembras-te? Ela está a organizar uma jantarada com a malta e não pára de falar em ti. Sabes que mais, encontrei-a no cocktail de uma exposição com quadros dela, na galeria Vértice Negro. A série intitula-se Obsessão e é composta por uns trinta e tal retratos de um mesmo homem, pintados em vários estilos: hiperrealista, abstracto, pontilhista, à la Warhol, cubista. Uma coisa muito pós-moderna. E olha, posso estar enganado, mas o homem é a tua cara chapada. Se não nos virmos antes, até dia 20. Um abraço. (bip)

 

(bip) Alfredo, nunca estás quando as coisas se tornam difíceis, não é? Só queria avisar que a menina está com sarampo e pergunta de três em três minutos pelo pai. Fala a Ana Maria, claro, para o caso de já teres esquecido a minha voz. (bip)

 

(bip) Está lá? Está lá? Não estás mesmo em casa, Alfredo? É a Magda. Preciso muito de falar contigo. O Rodrigo morreu. E eu acho que fiz um grande disparate. (Choro convulsivo). Porquê? (bip) 

 

(bip) Olha, Alfredo, daqui é o Joaquim, quatro da tarde, dia 21. Nem tenho palavras. Costumavas dizer que o destino é o mais irónico e cruel dos juízes. Tinhas razão. Em vez do jantar de reencontro, o velório do Rodrigo, estupidamente morto numa curva perto de Bordéus. E tu, o melhor amigo, ausente. Depois, a Magda internada de urgência, com duas caixas de comprimidos no estômago e uma carta em cima da cama, explicando a paixão antiga pelo colega de curso. Parece que aconteceu tudo de uma vez. O Rodrigo metido num caixão; a Magda no hospital, a soro. E até o desaparecimento da Teresa, hoje de manhã. Ela não disse nada a ninguém, limitou-se a partir sem deixar rasto. Mas sabes, eu era capaz de apostar que foi à tua procura. Até sempre. (bip) 

 

 

 

 


 

© José Mário Silva - Efeito Borboleta e outras histórias, edições ardotempo, 2010

Salvador Dali - Telefone-Lagosta - Objeto escultórico, 1936

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