A morte de Soljenitsin

Texto de João Paulo Sousa

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
A propósito da morte de Soljenitsine, aqui recordo o número 45/47 da revista Nova Renascença, referente à Primavera e ao Outono de 1992, onde José Augusto Seabra (JAS) escreveu sobre os entraves postos à publicação em Portugal do Arquipélago de Gulag. Convirá lembrar que JAS colaborou na tradução do volume, apurando, como ele mesmo referiu, "o estilo em português da versão feita directamente a partir do russo", por Francisco Ferreira, dissidente do PCP, e pela sua mulher, Maria Llistó. Como é sabido, o livro, em edição da Bertrand, só saiu entre nós em 1975, perto do fim do "gonçalvismo". Nas palavras de JAS, tal apenas foi possível, apesar da pressão exercida pelo Partido Comunista ou pelos sectores que lhe eram próximos, porque se alertaram "os meios políticos e a opinião pública para essa tentativa censória" (p. 348).
No citado número da Nova Renascença, precisamente dedicado à análise e à desmontagem do totalitarismo comunista, consta também um excerto do volume (em concreto, retirado do capítulo "História da nossa Civilização"), que se detém em considerações sobre o artigo 58 do Código Penal soviético de 1926, exemplo pertinente e assaz significativo da lógica repressiva da (entretanto) extinta União Soviética.

Não creio, porém, que o mérito moral da denúncia que Soljenitsine levou a cabo baste para o considerar um grande escritor. Herdeiro de uma atitude estética que encontra em Tolstoï uma das figuras mais relevantes, o autor de Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch parece ter atravessado o século XX com as armas artísticas do século XIX (bem ao contrário de dois dos seus antecessores russos, Dostoiévski e Tchékhov, ambos de origem oitocentista, mas cujas obras, graças às formas literárias que assumiram, preservaram a sua força até ao nosso tempo).

 

Tenho, assim, a impressão de que o entusiasmo suscitado hoje por Soljenitsine em tantos antigos esquerdistas se poderá ficar a dever a uma espécie de má consciência, devida à descoberta tardia do que era, afinal, o paraíso soviético na terra. Na verdade, talvez mais do que o livro sobre a Administração Geral dos Campos, que, quando muito, poderá ter aparecido na altura certa, há de ter sido o esgotamento da crença a conduzir ao afastamento da órbita do PC. Os exemplos da lógica totalitária estavam ao alcance de quem os quisesse ver desde, pelo menos, o fim da Segunda Guerra (estou a ser generoso), e as repressões húngara e checa não foram exactamente brincadeiras infantis.

 

O problema, como se sabe, é que, em matéria de fé, não há razão que resista. 

 

Publicado no blog Da Literatura

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publicado por ardotempo às 20:13 | Comentar | Adicionar