"Um chops e dois pastel"

É a palavra de ordem no boteco
 
Pode-se afirmar que é uma expressão coloquial paulistana clássica. Acontece em várias rodas e em todos os botequins de São Paulo, sempre que existe a oportunidade de ser falada e, na seqüência, invariavelmente, claro, todos sorriem, solidários com a "originalidade" do viés repetitivo. 
 
Uma expressão espontânea que se insere na brejeirice da tradição poética boêmia, disseminada talvez, pela forma peculiar da fala de Adoniram Barbosa, compositor do Bixiga (Bela Vista), de acentuado sotaque do bairro, autor de sambas nacionalmente conhecidos como o Samba do Arnesto, Trem das Onze e Saudosa Maloca
 
Dessa raiz brasileirinha que gerou alguns achados preciosos “...frechada de tiro ao álvaro...,” “... cada táuba que caía...”, poderia ter vindo igualmente o pedido arisco e bem humorado que tanto se utiliza nas mesas mais populares, para a solicitação da bebida e dos salgadinhos.
 
Nela repousa (inconscientemente ou não) uma espécie de senha revelada do cosmopolitismo paulistano, antídoto atávico e sofisticado contra o provincianismo que passa bem à distância da grande metrópole. E é com essa expressão de auto-ironia e alegre ingenuidade que o paulistano brinca de forma recorrente, com modéstia e ausência de soberba, neutralizando e atribuindo consistência à sua condição de habitante descontraído de uma das cidades mais populosas do mundo e a mais rica e pujante da América Latina.
 
Um chops e dois pastel é a esgrima rápida e acumpliciada de todas as idades, nos divertidos e animados bares das happy-hours, nas vilas madalenas e marianas, no velho centro da cidade, de boêmia atualmente revigorada. Nos bares anônimos e singelos de todas as esquinas da grande cidade e seria também nas feiras-livres (que produzem todos os dias desde cedo, disputados pastéis, aos milhares, fritos na hora, fumegantes, de queijo, carne, palmito e tantas outras versões bem ao gosto do consumidor) se ali se vendesse também o chope ou a cerveja “estupidamente gelada”.
 

Os pastéizinhos são deliciosos em harmonia com o chope de barril e tudo isso forma um cenário corriqueiro e familiar aos habitantes da cidade de São Paulo, de custo acessível e prazer garantido aos protagonistas, que transitam felizes entre seus bares preferidos, desde os mais simples aos mais requintados. Naturalmente, isso se os pastéis não estiverem excessivamente gordurosos, e o chope estiver na temperatura adequada e com o seu colarinho perfeitamente bem tirado. Bom apetite

 

 

 

 

© Palavras da Cidade - São Paulo, 2008

Texto de Alfredo Aquino

Foto de Pierre Yves Refalo 

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publicado por ardotempo às 13:47 | Comentar | Adicionar