Coringa

Ricardo Noblat

 

 

 

Foi ontem à noite, na última sessão de uma sala de cinema aqui perto de casa. De tanto insistir, André, o filho roqueiro petista, que já assistira o filme três vezes, conseguiu me arrastar para assistir ao novo Batman.

 

Sou do tempo de Marcelino Pão e Vinho, produção espanhola exibida entre nós no final dos anos 50 do século passado; de Lili, Bambi e Dez Mandamentos - esse, de tão longo, era interrompido no meio para que pudéssemos ir ao banheiro e beber água.

 

Sou do tempo também de Faca na Água, incompreensível filme do francês Roman Polansky que no final dos anos 60 fez muito sucesso entre intelectuais e estudantes que por aqui imaginavam mudar o mundo para melhor.

 

Gosto muito de cinema, mas não assisti à série Guerra nas Estrelas, Harry Porter e a nenhum filme sobre super heróis. Não colecionei gibis. André coleciona e é especialista em super heróis. Garantiu-me que o Batman em cartaz é o melhor feito até hoje.

 

O que observei:

 

As calças jeans das adolescentes que estavam na fila do cinema continuam rasgadas na altura dos joelhos. Há mais de um rombo às vezes. E elas pagam mais caro por calças jeans rasgadas. Provoquei uma delas: "Ih, você rasgou sua calça..." Ela me olhou com pavor como se temesse ser atacada. Depois relaxou e respondeu: "É assim mesmo, tio". (Detesto ser chamado de tio pelas amigas de minha filha.)

 

Permanece alto o percentual de falsas louras, todas elas de cabelos escovados. Como tem feito frio à noite em Brasília, casacos de pele foram resgatados dos armários e as botas estão em alta. O que torna essas meninas inalcançáveis para quem mede menos de 1 metro e 70 como eu. Bem, não é isso que as torna inalcancáveis.

 

Havia muitos rapazes tatuados e com piercing nos lábios, orelhas, narizes, e sei lá mais aonde. Um deles exibia uma Sakura no alto do braço direito. Sakura é a flor nacional do Japão. Depois de comprar no Rio minha primeira bicicleta e de pedalar pela primeira vez depois de 40 anos, comentei outro dia com Rebeca que estava pensando em me tatuar. Ela nem respondeu.

 

Sim, o filme. Não leve crianças para vê-lo. Vá você. É para adultos. Talvez seja o filme mais bem feito sobre terrorismo. Qualquer ator razoável seria capaz de fazer o papel de Batman. De máscara e metido naquela roupa soturna, o herói não exige um grande ator para vivê-lo. O Coringa, esse não. Só um excelente ator seria capaz de interpretá-lo. 

 

E sei que chovo no molhado: mas será muito difícil vir a existir outro Coringa tão bom quanto o concebido por Heath Ledger. O Coringa anterior de Jack Nicholson era gaiato, quase diria inocente. O de Ladger é a própria encarnação do mal. Você passa o filme inteiro querendo ver Ledger na tela - e até se irrita com Batman e os demais personagens.

 

 

Publicado por Ricardo Noblat, no Blog do Noblat

publicado por ardotempo às 13:33 | Adicionar