Leveza

A revolução bem-humorada

 

Ferreira Gullar 

 

Foi no Diário Carioca que aprendi a fazer jornalismo bem-humorado.

 

O jornal ficava na avenida Rio Branco, quase na praça Mauá, perto do edifício de A Noite, onde funcionava (e ainda funciona) a Rádio Nacional. Quando as fãs da Emilinha Borba saíam do Programa César de Alencar, cantando pela rua, Tinhorão, da janela da Redação - que ficava na sobreloja -, gritava: "Macacas!" E as "macacas de auditório", como eram apelidadas, respondiam com palavrões. Prudente de Moraes, neto, o inesquecível Prudente, que chefiava a Redação, ria de sacudir a barriga.


Esse era o clima do Diário Carioca, cujo diretor, Pompeu de Souza, também vivia rindo, e assim implantara no noticiário da imprensa brasileira o lide e o sublide, mas sobretudo o bom humor. Nessa escola completei meu aprendizado de redator, que havia iniciado na revista Manchete, onde conheci Janio de Freitas, já então empenhado em mudar o aspecto gráfico de nossa imprensa.


Sucede que o Diário Carioca atrasava o pagamento, obrigando-nos a tirar vales durante o mês. Carlos Castello Branco, preocupado comigo, sugeriu ao Odylo Costa Filho que me levasse para o Jornal do Brasil, onde iniciava uma reforma radical. Ali, pouco depois, assumi a direção do copidesque, a que vieram integrar-se Janio e Tinhorão, ambos do DC, além de Edison Carneiro e Luiz Lobo.


Odylo, que era sobretudo repórter político, não entendia de cozinha de jornal e, por isso, tinha dificuldade em fazer avançar a reforma do jornal. Por sugestão de Janio, chamou Amilcar de Castro para paginar o jornal e com isso viabilizou-se uma série de mudanças. No plano gráfico, eliminou-se o fio preto que separava as colunas, arejando as páginas do jornal. Outra mudança importante foi a adoção de uma mesma família de tipo para todo o jornal, pondo fim ao aspecto sujo, confuso, das páginas, o que era comum a todos os jornais brasileiros. Noutro plano, uma inovação importante foi acabar com uso tradicional de iniciar as notícias na primeira página e remeter o leitor para as páginas de dentro.

 

Agora, a primeira página trazia sínteses (lide e sublide) das matérias importantes, que se leriam inteiras nas páginas correspondentes. Para isso, era preciso que nenhuma matéria transbordasse de uma página para outra, o que levou à adoção do papel diagramado, que permitia escrevê-la no tamanho determinado pela diagramação. Uma verdadeira revolução que iria mudar, com os anos, todos os jornais brasileiros. Em tudo isso, minha contribuição foi mínima, quase nenhuma.


Fui responsável, sim, por algumas gaiatices, como a de uma notícia que redigi sobre o vírus da icterícia, que um telegrama da United Press descrevia como sendo redondo, mutável etc. Pus o seguinte título: "Descoberto o vírus da icterícia: é redondo". No dia seguinte, ouvi uma bronca do Odylo, que me acusava de brincar com a notícia. Expliquei-me que com aquele título buscava despertar o interesse do leitor e não me emendei. Pouco depois, faltou água na cidade devido a um acidente ocorrido na subadutora de Macacos, parte do sistema do Guandu. Dei à notícia este título: "Causa da falta d'água no Rio: Macacos". Nova bronca do diretor do jornal. Mal ele virava as costas, e eu sorria para meus colegas do copidesque, solidários comigo.


Antes da reforma, o JB era um jornal de anúncios classificados, que ocupavam até mesmo a primeira página. Agora, ela era ocupada por manchetes e notícias, mas uma coluna de classificados fora mantida, como alusão ao passado. Fotografia, ali, nem pensar. E isso nos deixava inconformados.


Certa noite, porém, Odylo teve que sair cedo e me deixou à frente da Redação. Deu-se mal porque caiu-me nas mãos uma fotografia que, se não me engano, era do casamento de Ibrahim Sued, um acontecimento no high-society. Decidimos pô-la, grande, na primeira página, desse no que desse.


Na tarde seguinte, mal entrei na Redação, Odylo me chamou: "Quem o autorizou a pôr uma foto na primeira página do jornal?"


Estava sem saber o que dizer, quando o telefone tocou e a telefonista chamou Odylo: era a condessa Pereira Carneiro, dona do jornal. Ele atendeu: 
"A senhora gostou? Ótimo... Muito obrigado, senhora condessa...
Virou-se para mim, sorrindo: "Vocês ganharam!"


Muitos anos depois, já trabalhando noutro jornal, leio no JB a notícia de que Mao Tse-tung indicara Lin Piao como seu futuro sucessor no governo da China comunista. O título era o seguinte: "De Mao a Piao". Gostei. O bom humor que nosso grupo implantara no jornal continuava vivo. 

 

 

 

 

© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

Andy Warhol - Mao - Pintura, Acrílica e serigrafia sobre tela, 1972

 

 

tags:
publicado por ardotempo às 20:47 | Adicionar