Ironia-humor-deboche-bonomia

 

Inconfundível Humor

 

Mino Carta

 

E aqui estou, neste espaço insólito e até indevido. Aproveito a oportunidade para declarar minha simpatia por Marcel Duchamp, que a partir de 15 de julho expõe no Museu de Arte Moderna de São Paulo o seu inconfundível humor. Mostra sabiamente intitulada Uma obra que não é obra de arte


Há dezessete anos visitei uma exposição de Duchamp em Veneza, no Palazzo Grassi, e me diverti muito. Não falo como crítico de arte, que não sou, e sim como interessado, cidadão comum a enxergar a própria como fenômeno sociológico. Como espelho do tempo, passado, presente e futuro. 

No estudo da personalidade de Duchamp não me aprofundei, pelo contrário, fiquei no raso. Mas ao enfrentar-lhe a produção, percebo a vis comica envolta em graciosa bonomia. Um desafio aos vezos inseguros da nossa época que, ao mesmo tempo, consegue ser cínico e terno, feroz e suave.

 



Ocorre, abalo-me a dizer, que o talento de Duchamp é de explicitude clamorosa, excitado pelo refinamento e pelo requinte do imbatível bom gosto. Tivesse escrito um livro sobre arte contemporânea não teria sido mais eficaz. 

Certa vez em Roma fui ao Museu Massimo e andei pelas salas tomadas pela pintura e pelos mosaicos romanos. No primeiro século d.C. havia artistas soberbos, tecnicamente impecáveis, colhiam à perfeição o ponto de fuga. O descaminho começa no II século e se robustece no III, no IV e no V. É uma descida aos ínferos, o começo da Idade Média. Foi preciso esperar por Masaccio e Paolo Uccello, início de 1400, para recuperar a perspectiva. No sentido estrito e lato. 

Temo que o mundo já tenha inaugurado uma nova etapa medieval, muito bem representada pela decadência da pintura em particular e da arte em geral. 

E no outro dia vejo a foto de um moço de camiseta a visitar uma exposição de Andy Warhol. Postado diante de uma série de latas Campbell, todas implacáveis na determinação de reforçarem a mesma pretensa importância. A única diferença entre elas, em número de dez, está no conteúdo, explicitado na embalagem: feijões, ervilhas, favas. Etc. Etc. E o moço encara uma das latas como se sofresse o impacto das telas da história caravaggesca de São Mateus na Capela Contarelli. 

Impossível é avaliar os contemporâneos, falta distanciamento. Não é difícil dizer que, por exemplo, Picasso, Matisse, Francis Bacon, são grandes artistas, mas ninguém poderá prever que daqui a 700 anos os mencionaremos como hoje falamos de Giotto. Mais provável imaginar que a larga maioria dos supostos heróis da arte do nosso tempo acabara no lixo do esquecimento. 

Creio mais na sobrevivência de Marcel Duchamp, o ameno pensador. 

 

 

© Mino Carta - publicado em Carta Capital 

Marcel Duchamp - Catálogo da Mostra Surrealista, de 1947, Paris  

Foto de Jean Alex Brunelle

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publicado por ardotempo às 22:55 | Comentar | Adicionar