Cadáveres no poder

De vivos e de mortos
 
Ferreira Gullar
 
Em meio à crise que a Argentina atravessa, alguém teria ouvido a presidente Cristina Kirchner gritar para o marido Néstor: "Aquí, quién es la presidenta soy yo, carajo!".

A Argentina é um país com características muito próprias, que a tornam inconfundível na comunidade sul-americana. Inconfundível e, sob certos aspectos, contraditória. Por exemplo, se o nível cultural de seu povo é bem mais alto que o de seus vizinhos, por outro lado, no plano político, paga o preço de um atraso -o populismo peronista- que já dura mais de meio século. Nós e os demais países latino-americanos (para ficarmos em família) temos também nossos atrasos mas, talvez, menos arraigados e mais disseminados. Na Argentina, por certo devido a seu caráter marcadamente original, que não se limita à tradição peronista, há coisas que só acontecem lá, como é o caso do casal Kirchner, uma espécie de reedição da dupla Perón e Evita, ainda que em versão moderna. Mas que Néstor e Cristina formam um casal inusitado, não há dúvida. Se cabe, com referência a eles, a tese de que a história, quando se repete, é em tom de farsa, não sei, mas não me arriscaria a eliminar de todo essa hipótese. É impossível, quando penso neles mas, sobretudo, quando os vejo juntos, não lembrar de Perón e Evita, não como uma repetição da história argentina e, sim, como uma imitação suspeita, em que não confio inteiramente.

Veja bem, não é que Perón e Evita tenham sido exemplos louváveis de líderes políticos. Muito pelo contrário, eles foram a expressão de um populismo sindicalista que pretendia eternizar-se no poder. A morte precoce de Evita -que se havia tornado a mãe dos descamisados- retirou do general-presidente seu principal instrumento de mistificação do poder. De pouco lhe valeu embalsamar o corpo dela e deixá-lo exposto à visitação pública na sede da CGT. Talvez até tenha sido esse um dos motivos do golpe que o derrubou. Mas isso não foi suficiente, pois o cadáver continuava ali, como uma ameaça, uma espécie de réplica do de Lenine, também líder dos trabalhadores (é que certos líderes não devem morrer e, quando morrem, não podendo ressuscitar como os santos, são embalsamados). Temerosos, os militares argentinos roubaram o cadáver de Evita e o sepultaram num distante cemitério de Milão, na Itália, dando início a uma espécie de vaudeville macabro.

Não se tem notícia de nada parecido na história política nem se imagina que Néstor e Cristina venham a passar por lances semelhantes. No entanto, foi Perón mesmo que tentou copiar sua própria história, casando-se, após ter sido deposto, com Isabelita, dançarina, mulher da noite como Evita, que era cantora. E, assim que pôde, eleito de novo presidente da Argentina, trouxe a tiracolo, como vice, a nova esposa.

Mas, bem antes disso, exilado em Madri, recebeu de volta o cadáver de Evita, que havia sido exumado do túmulo em Milão. Pateticamente, manteve-o em sua casa, sob os cuidados de Isabelita, que, regularmente, a penteava e maquiava, com espantosa dedicação.

Eu estava em Buenos Aires, a caminho de Santiago do Chile, em 1973, quando Perón disputava a presidência. Ouvi um de seus discursos no rádio do hotel. Um ano depois, morto Allende, ao descer no aeroporto de Ezeiza, o carregador de bagagem, comovido, me comunicou:

- Estamos de luto, morreu Perón.

Se o velório de Evita durara 15 dias, o de Perón durou quatro, e Isabelita assumiu o governo para ser deposta, dois anos depois, pelos milicos de sempre. A iminência parda de seu governo chamava-se Lopez Rega e tinha fama de bruxo. Um de seus primeiros atos foi trazer de volta o corpo de Eva Perón para a exibição pública em Buenos Aires, certamente visando manter vivo o culto à mãe dos pobres. Os milicos rosnaram e ela mandou finalmente sepultá-la ao lado do marido (das duas). Uma história que seria inconcebível no Brasil, em que pese a nossa fama de país surrealista, talvez porque sejamos mais chegados a um samba que a um tango.

E tanto assim é que, ao ler aquela frase de Cristina Kirchner, o que me veio à mente nada tinha de macabro: lembrei-me de um fato, que embora ocorrido na época de Perón e Evita, me fez rir de novo. O embaixador brasileiro, em Buenos Aires, foi visitar o ministro argentino das Relações Exteriores, acompanhado de sua esposa, quando a senhora do ministro, para mostrar-se familiarizada com o Brasil, falou:

-Son muy semejantes nuestros idiomas, verdad? Nosotros decimos carajo y ustedes dicen "caralho", no?

Sim, digo eu agora, mas não na presença de senhoras.

 

© Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo - UOL 

Instalação de arte contemporânea - Lego, ataúde construído em módulos de lego, 2008

tags:
publicado por ardotempo às 12:32 | Comentar | Adicionar