Os dois


 

 

Os Dois

 

 

Não havia espelho. Os dois estavam parecidos e tinham o mesmo nome. Cláudio. Um era 25 anos mais velho que o outro, um pai e um filho. Um Cláudio e outro Cláudio. Eram pessoas simples e indiscutivelmente anônimas. Jamais tiveram seus nomes publicados em jornais ou citados na TV. Amigos sempre foram e já não eram jovens. Estavam solitários e isso doía, pois tinham sido, ao longo de cada uma de suas vidas, sociáveis, expansivos, generosos além do que o bom senso lhes recomendara, e souberam assim agregar vários grupos, em diferentes momentos e locais.
 
O tempo, no entanto, passara para os dois, com velocidade. Hoje, ninguém mais os procurava, pessoalmente ou por telefone. De internet, eram analfabetos. Dos numerosos antigos amigos do mais velho, a maioria capitulara e já estava enterrada ou pragmaticamente incinerada na fornalha, novidade cosmopolita reinventada para livrar os parentes, instantaneamente, da inconveniência de corpos imobilizados; cotidianamente ele constatara isso, silenciosamente alarmado, no necrológio dos periódicos. Para o menos velho as razões tinham sido outras, mudanças de cidades e de empregos, mas a solidão resultara a mesma.
 
O tempo passara para ambos com seus reflexos especulares. Cada um perdera um pouco da respectiva saúde e a maior parte dos cabelos. O mais velho cuidava-se muito ainda, com uma quantidade considerável de remédios, enquanto o mais jovem negligenciava metodicamente os cuidados mais elementares, evitando remédios e médicos, como fizera sempre.  Essa era uma diferença nas atitudes. Tornavam-se idosos a cada minuto que passava e, talvez em razão disso, assemelhavam-se pouco a pouco na aparência, uma vez que os velhos, à maneira dos peixes, tendem a ficar mais parecidos com o passar do tempo.
 
Os humores eram um tanto diversos, um permanecia sorridente, ainda bem humorado, sem recorrer à armadilha da ironia, que abandonara a bom tempo, no distanciado período da juventude por ter constatado o efeito sulfúrico de seu veneno sobre as afeições duradouras, e especialmente para as então recentes relações, ainda superficiais e frágeis. O outro, cada vez mais silencioso, concentrado e sério como sempre fora, tornara-se aos poucos mais exigente, fazendo-se algo intolerante e um pouco ranzinza.
 
Ambos tinham-se fechado para o mundo que os agredira e conservavam secretamente em algum ponto misterioso de seus cérebros ou de suas costelas as justificativas consideradas convincentes para suas condutas.
 
O mais velho desejava, sem segredos, viver o mais longo período de tempo possível, apreciaria tornar-se centenário e ultrapassar o recorde. O outro tinha inúmeras dúvidas sobre um desejo (ou um ardil) desses, pois testemunhara na velhice estendida uma fórmula incorrigível de colecionar ausências: todo tipo de carências, de desafeições, de abandonos, de tristezas e desconfortos. Dessa maneira tinha refletido profundamente sobre a condição destinada ao seu papel no decorrer dessa história, na contribuição que deixara para si, para os outros, para os dois, talvez, e no seu não revelado desejo de sair logo da cena, enquanto ainda estava bem de saúde e não se tinha encanecido demasiadamente.
 
Considerava que perdera o fio da vida com sentido, num impreciso instante e que dali mergulhara vertiginosamente rumo ao inferno.
 
Alguém o acusara certa feita, com crueza, de sentir-se vitimado pela vida. Ora, a vida não vitima ninguém, ela produz intensidades e resulta até na felicidade, num caso extremado de sintonia, de um amor correspondido. O que vitima alguém são os outros, são as doenças, são os acidentes, são as crueldades planejadas e realizadas, são as malícias, são os sistemas, são as falhas inevitáveis dos sistemas e a falta de dinheiro.
 
Não havia espelho. Eles não se compreendiam. Os dois seguiam agora os caminhos e os relógios ritmados de suas pequenas vidas, cada um esperando pelo desfecho imaginado de seus próprios destinos.
 
 
 
 
 
© Alfredo Aquino - do livro A Fenda, Iluminuras - 2007 
publicado por ardotempo às 12:52 | Adicionar