Homem Lento

No seu penúltimo romance, Homem Lento, o escritor sul-africano J. M.

Coetzee (n. 1940) tem outra vez à perna Elizabeth Costello, e desta vez em

sentido literal. Para quem não saiba, Elizabeth Costello é o alter-ego do

autor. Apareceu pela primeira vez em 1999, com A Vida dos Animais e, em

2003, a obra que precede Homem Lento leva mesmo o seu nome no título.

 

O processo é simples: Coetzee cria uma situação de mise en abyme (ou seja, de

encaixe) de modo a inserir na intriga um mecanismo de auto-contemplação.

Elizabeth Costello é escritora: "começa a recordar-se de quem ela é. Tentou

uma vez ler um livro escrito por ela, um romance, mas desistiu: não lhe

prendeu a atenção. [...] Em tempos que já lá vão (agora está a escavar na

memória) ela foi célebre por uma coisa qualquer, mas isso parece ter

desaparecido, ou talvez fosse apenas mais uma tempestade dos meios de

comunicação." Os dois falam a mesma linguagem (no romance de 2003 ela

comenta ensaios do autor) e provocam-se mutuamente.

 

 

O fotógrafo Paul Rayment é um homem diminuído. Foi atropelado e

amputaram-lhe uma perna: "O impacto [...] deu-se em cheio no joelho, e havia

uma componente acrescida de rotação, de forma que a articulação fora ao

mesmo tempo esmagada e torcida." Como se não bastasse, apaixonou-se pela

enfermeira, Marijana Jokics, uma mulher com formação em arte, que emigrou

com o marido e os filhos para a Austrália, país onde não teve oportunidade

de aplicar o saber obtido em Dubrovnik. Paul Rayment é um dos seus

pacientes.

 

Longe da Croácia natal, a família Jokics vive os equívocos da diáspora. Em

Adelaide, uma cidade muito diferente da Munno Para de onde veio, Miroslav

Jokics, um restaurador conceituado, vê-se obrigado a ganhar a vida como

mecânico de automóveis. É o desenraizamento dessa família que permite a

Coetzee discorrer sobre os óbices e consequências do expatriamento, algo que

conhece bem. (Natural de Cape Town, o escritor deixou a África do Sul em

2002, radicando-se na Austrália.) À primeira vista poderão parecer

experiências diferentes, porque os Jokics foram ao encontro de outra

cultura, e de uma língua nova, enquanto que o exílio de Coetzee o manteria

no mundo de língua inglesa.

 

Pura falácia. A realidade encalha onde menos se espera.

Com efeito, Coetzee é um genuíno africânder, alguém que cresceu e se

formou à sombra da cultura e língua africânder (a origem remonta a 1652,

quando os primeiros colonos holandeses se fixaram em Cape Town), nessa

qualidade tendo traduzido, para o inglês e outros idiomas, a literatura

nativa. É na qualidade de escritor sul-africano emigrado na Austrália que o

protagonista do seu último romance, Diary of a Bad Year (2007), inédito em

Portugal, comenta o terrorismo, a globalização, os desastres ecológicos, o

avanço das experiências genéticas e outros temas mediáticos. Quando trocou a

África do Sul pela Austrália, e não foi o único escritor sul-africano que o

fez, Coetzee emigrou, de facto, para outra cultura. Por isso é que, ao falar

da família Jokics, está na verdade a lamber as suas próprias feridas.

 

À margem das questões identitárias (convém não esquecer o peso que a

experiência colonial tem no conjunto da obra do autor), Homem Lento é uma

epifania sobre o envelhecimento e a perda do amor. A obsessão de Paul

Rayment por Marijana é que o impede de desistir. Por essa mulher, casada e

mãe de filhos, fará o que for preciso. Nem que tenha de corromper o filho,

esse Drago demasiado luminoso que tem estampada a marca da morte. O rapaz

quer ir para o Wellington College, cujas propinas não estão ao alcance dos

pais? Não seja por isso. Paul Rayment assina o cheque. Afinal de contas,

nunca tinha tido uma paixão balcânica! Quem o traz de volta à terra,

obrigando-o a reflectir na insensatez, é Elizabeth Costello. Não se trata de

moral. Mrs. Costello preocupa-se com questões práticas: "É melhor que esteja

também limpo para ela. Se falo com crueza, desculpe. Lave-se bem. Lave tudo.

E desfaça-se dessa cara triste. Perder uma perna não é uma tragédia. Pelo

contrário, perder uma perna é cómico. [...] Caso contrário não haveria

tantas piadas sobre o assunto."

 

Ao longo do livro, há envios ao Ulisses de Joyce e a certos personagens de

banda desenhada, bem como referências de outro tipo, mas tudo isso flui com

extrema naturalidade na prosa dúctil de Coetzee. Sem a força de obras

anteriores, como, por exemplo, À Espera dos Bárbaros (1980) ou A Vida e o

Tempo de Michael K (1983), romances que têm um ímpeto declarativo que

contrasta com o tom resignado da história do fotógrafo perneta, ainda assim

Homem Lento evidencia a excepcional capacidade narrativa do autor.  

 

Publicado no blog Da Literatura

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publicado por ardotempo às 15:26 | Comentar | Adicionar