Quarta-feira, 15.06.11

CAMISA BRASILEIRA - 4 de julho - Porto Alegre - Livraria Cultura

 

Convite para o Lançamento do livro CAMISA BRASILEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quinta-feira, 19.05.11

A rua do escritor

 

O nome da rua: Uma terra só

 

 

 

 

Uma magnifica homenagem ao livro premiado e à obra do escritor Aldyr Garcia Schlee.

 

A mensagem:

 

Caro Jornalista Luiz Carlos Vaz,

 

É com grande satisfação que informo que ocorreu nesta segunda-feira (16.05.2011), na Câmara dos Vereadores de Jaguarão, a aprovação do projeto que intitula a rua ao lado do Mercado Público de Jaguarão - Uma terra sóMerecida homenagem ao escritor Aldyr Garcia Schlee e sua obra.

 

Andréa Lima

Secretaria de Cultura e Turismo de Jaguarão

 

Enviado pelo Jornalista Vaz, de Luiz Carlos Vaz

 

 

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Sexta-feira, 29.04.11

O professor encontra com o escritor

 

Revelações de Aldyr Garcia Schlee

 

 

Abrindo a temporada do projeto itinerante de 2011, a caravana do Encontros com o Professor viajou - pela primeira vez - para Pelotas para a entrevista com o escritor e jornalista Aldyr Garcia Schlee.

 

O mais recente romance de Aldyr Schlee, Don Frutos, lançado em novembro do ano passado, foi o primeiro assunto da conversa entre Ostermann e o entrevistado diante do público que lotou o auditório do Instituto Simões Lopes Neto, em Pelotas. Segundo o autor, o livro foi rejeitado por duas das maiores editoras brasileiras antes de ser publicado pela edições ardotempo. "Meu orgulho é de quem tem a consciência de que os argumentos utilizados pela editoras eram mais do que falsos", declarou. Mas isso não foi motivo para desencorajá-lo. "Minha mulher acha que se o cara não escreve um romance, ele não é bom. Por isso que eu dediquei esse livro a ela. Mas continuo achando que o bom conto é mais difícil de fazer do que o romance", brincou.

 

A obra utiliza o linguajar fronteiriço e narra os derradeiros meses de vida do caudilho uruguaio Don Fructuoso Rivera. No livro, o personagem estacionado por meses em Jaguarão, em regresso à sua pátria depois de prisioneiro em duro exílio no Brasil, assume pela terceira vez o mandato de Presidente da República. "O meu mundo é muito pequeno, ele gira todo em torno de Jaguarão e da fronteira com o Uruguai".

 

Bem-humorado e ácido nas críticas, Schlee comentou as contradições que percebe no Movimento Tradicionalista Gaúcho que, segundo ele, baseia-se numa "tradição que não nasce, que tem que ser criada. O mate [chimarrão] é um traço rico e verdadeiro da cultura pampeana, mas ele não distingue, ele revela a identidade dos que vivem no pampa. Os descendentes os colonos que saíram do pampa e foram para Santa Catarina, Paraná e mesmo outras partes do Rio Grande do Sul, levam o mate e vão nos CTGs. O MTG extrapolou o espaço onde estava sendo desenvolvido e cultivado. O Paixão [Côrtes] e o Barbosa [Lessa] se atiraram como tigres em busca de outros traços além dos que dizem respeito ao pampa".

 

A conversa entre Ostermann, Schlee e o público ainda versou sobre a literatura gaúcha, a camiseta canarinho da Seleção Brasileira de Futebol - da qual Schlee é o criador -, João Simões Lopes Neto, Nelson Rodrigues e sobre as vivências jornalísticas de Schlee nas décadas de 1960 e 1970 . Encerrando o evento, entrevistado e entrevistador tiraram fotos com o público e distribuíram autógrafos.

 

 

 

 

Publicado pelo blog Encontros com o Professor -

Imagem: Divulgacão Album Encontros com o Professor  - Ruy Carlos Ostermann, Marlene R. Schlee e Aldyr G. Schlee

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27.04.11

A mostra e o livro

Camisa Brasileira estreia na França

 

A mostra do ensaio fotográfico vai inaugurar no dia 6 de maio, no Hôtel des Isles, em Barneville-Carteret, Normandia, França, balneário localizado perto de Cherbourg, na costa da Mancha que faz frente à ilha de Jersey, já no percurso em direçãao ao Mont Saint-Michel. Ali também ocorrerá o primeiro lançamento do livro Camisa Brasileira, de Gilberto Perin (fotografias) e Aldyr Garcia Schlee (texto).

 

 

 

© Gilberto Perin/ Aldyr Garcia Schlee - Camisa Brasileira, edições ardotempo, 2011

 

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Domingo, 24.04.11

O livro das imagens de futebol que ninguém vê

Camisa Brasileira

 

 

 

 

 

Trata-se de um livro de arte, de fotografias de autoria de Gilberto Perin, com o texto de Aldyr Garcia Schlee (e de João Gilberto Noll) – um majestoso ensaio fotográfico sobre um universo pouco conhecido acerca das atividades e do comportamento dos milhares de trabalhadores do futebol, os que jogam e os que os apóiam. Não é o do espaço dos astros televisivos do super-espetáculo regido pelo rico mercado dos clubes-empresas, dos formidáveis anunciantes, dos empresários e dos artistas a quem a fortuna sorriu. É outra gente, mais numerosa, mais frágil, para quem os dramas humanos estão evidenciados e que são capazes de nos emocionar e comover com a sua humildade e de sua humanidade. É outro espaço, é outro o tempo, são grandes as carências, as limitações materiais – mas talvez seja mais genuína a paixão que o esporte, distanciado dos holofotes do negócio-futebol, desperte em torcedores desses times e clubes espalhados pelo Brasil inteiro.

 

 

 

 

 

Projeto Camisa Brasileira - 2011

 

GILBERTO PERIN

ALDYR GARCIA SCHLEE

JOÃO GILBERTO NOLL

 

Livro de Arte de Fotografias,

Textos de Autoria e Exposição de Fotografias

110 imagens, em cores e p&b a quatro cores

Formato: 22 cm x 28 cm

Capa dura com sobrecapa debruada - Miolo em Couchê Fosco 170g

Edição bilíngue - Português / Inglês

Apoio Cultural: Construtora Ricardo Ramos

 

ISBN nº 978-85-62984-08-2

 

 

 

Copyright © 2011 Gilberto Perin - Fotografias © 2011 Aldyr Garcia Schlee

 

edições ardotempo ardotempo@gmail.com

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Quarta-feira, 13.04.11

Don Aldyr Garcia Schlee

Contos Gardelianos

 

Geraldo Hasse

 

 

 

 

Os ditos “contos gardelianos” de Aldyr Garcia Schlee (Os limites do impossível, edições ardotempo, 2009) são na realidade um romance construído a partir da circularidade de uma dezena de narrativas sobre mulheres que participaram direta ou indiretamente de um acontecimento real – o nascimento em 1884 em Tacuarembó, no Uruguai, de Carlos Gardel, o ídolo do tango argentino falecido em acidente aéreo em Medellín em 1935.

 

É uma história alinhada com o que a literatura sulamericana tem de melhor. Não admira que tenha sido escrita por um nativo de Jaguarão, lugar onde se aprende portunhol no berço. Mesclando uma narrativa histórica com lances do mais criativo realismo literário, Schlee constrói uma carreata fabulosa. A leitura é tão saborosa que não temos a menor dificuldade em colocá-lo ao lado de mestres latino-americanos como Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Márquez e Juan Rulfo. Ele também fica de pé fácil se colocado na estante ao lado de Domingos Pellegrini, Lourenço Cazarré e Miguel Sanches Neto, para citar apenas contistas do Sul do Brasil.

 

O livro tem uma personagem central, D. Carlos Escayola, “mandamais” de San Fructuoso, nome ficcional de Rivera, a cidade gêmea de Santana do Livramento. Além de ser o cacique local, D. Carlos é acidentalmente cunhado do general farrapo Antonio de Souza Netto e tem o dom extraordinário de seduzir todas – todas – as mulheres do enredo.

 

Garanhão inveterado, ele começa desposando uma moça que o despreza, casa com a cunhada após enviuvar e emprenha a sogra enlouquecida de amor por ele. Perto do auge da história, o herói-canalha estupra e engravida a própria filha, uma vingencita de 13 anos, que vai ter o bebê numa fazenda no interior de Tacuarembó, assistida por uma parteira que eventualmente trabalha também como despenadeira, isto é, a pessoa que ajuda os moribundos a desencarnar – segundo o autor, esse tipo de pessoa foi comum na época das guerras e revoluções do Cone Sul.

 

Levada para Buenos Aires por uma ex-corista francesa paga para “desaparecer” com a encomenda, a criança vinga espetacularmente na Argentina, dando sentido a uma antiga e misteriosa declaração de Carlos Gardel: “Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade...” No entanto, no seu passaporte resgatado em Medellín das cinzas do avião acidentado em 1935 estava escrito: “Nascido em Tacuarembó”.

 

Desfez-se assim também a lenda de que o ás do tango teria nascido no interior da França. Se não é verdadeira, a história é muito bem montada com todos os ardis possíveis da literatura. Artista plástico, jornalista e professor de literatura, Schlee construiu uma obra que segue magistralmente pela trilha do realismo fantástico. Há indícios de pesquisa histórica por trás de tantos contos encadeados, mas a criação literária parece ser ainda maior.

 

Daí o clima de contido exagero que permeia a narrativa, pontilhada de palavras e expressões corriqueiras na fronteira do espanhol e do português. Fora a genial remexida na história pessoal do ídolo mercosulino (há muito Gardel não é somente argentino), a invencionice da linguagem é a maior qualidade desta história editada em 2009 por uma editora de Porto Alegre e premiada no final de 2010 com o Açorianos pela Prefeitura de Porto Alegre.

 

Em quase todas as páginas do livro se encontram ditos saborosos que fazem parte da linguagem oral do pampa mas que até agora não haviam sido incorporados à literatura. No correr da história, sem qualquer esforço ou rebuscamento, o jornalista jaguarense nos regala com um palavreado inolvidável. Nesse aspecto, promove um resgate semelhante ao de Simões Lopes Neto quando este jornalista pelotense fixou há 100 anos nos seus contos gauchescos e lenda do Sul o modo de falar do gaúcho da campanha. É muito bom para a Metade Sul que esse livro brilhante seja fructo de um trabalhador intelectual que vive em Capão do Leão, a menor cidade entre Jaguarão e Pelotas, polos de origem e afirmação de Don Aldyr Garcia Schlee.

 

 

Geraldo Hasse

Imagem: Mario Castello - Fotografia de porta colonial espanhola (detalhe). Cartagena de Indias. Colômbia


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Quarta-feira, 30.03.11

EM BREVE – Lançamento

CAMISA BRASILEIRA

 

 


 

 

Projeto BRASIL - Camisa Brasileira - 2011

GILBERTO PERIN

ALDYR GARCIA SCHLEE

JOÃO GILBERTO NOLL

Livro de Arte de Fotografias, Textos de Autoria e Exposição de Fotografias

Formato: 22 cm x 28 cm

Capa dura com sobrecapa debruada - Miolo em Couchê Fosco 170g

Edição bilíngue - Português / Inglês


 

ISBN nº 978-85-62984-08-2

 

Copyright © 2011 Gilberto Perin - Fotografias

© 2011 Aldyr Garcia Schlee

edições ardotempo

 

ardotempo@gmail.com

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Domingo, 20.02.11

O retrato

(Trecho de Don Frutos)

 

Herrmann Rudolph von Drotte (ou Wendroth) esteve desaparecido durante os três dias seguintes a sua visita de apresentação a Rivera. Só alguns meses depois, quando frequentadores honestos exigiram que se cobrissem de cal as paredes com seus ofensivos desenhos, num lupanar da rua dos Prazeres, soube-se que ali ele permanecera esses três dias, desenhando aquelas indecências e bebendo sem parar, até ser arrojado porta afora.


Rudolph andava procurando por uma tal de Sophia, que conhecera no Rio Grande e atrás da qual chegara ao bordel, onde logo ofereceu seus préstimos artísticos em troca de bebida e carinho, tendo retratado a carvão as mulheres da casa e desenhado pelas paredes as coisas mais surpreendentemente obscenas que só a cabeça de um degenerado se animaria a imaginar (e cuja descrição as imposições da decência fazem-nos calar e esquecer). Se durante os três dias bebeu e bebeu e bebeu tudo o que havia, em troca de sua arte, por conta da rufiona e das marafonas retratadas, não chegou, ao que se saiba, a capacitar-se para desfrutar do carinho de nenhuma delas, tal seu continuado estado de ebriedade.


O alemão recebera convite do dr. Hart para prestar-lhe serviços de desenho e pintura no acompanhamento médico da saúde de Rivera, começando pelo retrato do próprio General, fiel ao estado em que o homem se encontrava. Seria uma nobre e relevante tarefa a ser cumprida artisticamente no respeito e em nome da ciência, havia lhe dito o doutor, ao anunciar-lhe que, tão logo fora apresentado a Don Frutos, já estava incorporado à escolta, a suas ordens e sob sua proteção. Rudolph, entretanto, não ficou alojado exatamente como os demais soldados da guarda de Rivera – nas tarimbas sobrepostas do armazém ao lado –, pois teve permissão para instalar-se no galpão de mantimentos. Além disso, na condição aparente de novo ajudante recém admitido, recebeu ordem de só sair e entrar pelo portão dos fundos; mas com liberdade de fazê-lo quando bem quisesse ou fosse necessário ao cumprimento de seu ofício e de suas obrigações, desde que portando o salvo-conduto assinado pelo General.


O retrato de Don Frutos foi pintado sobre um quadro de madeira feito à feição por um mestre carroceiro, na medida e esquadro, com duas tábuas bem aplainadas e melhor encaixadas entre si, tratadas com pasta de linhaça e alvaiade.


Quando menos se esperava, a feitura desse retrato colocou Rudolph diante de Rivera, com palheta, tintas e pincéis; e ante a necessidade de ambos tomarem alguma bebida – porque o pintor confessou que precisava de ânimo para enfrentar a empreitada de pôr no quadro o General; e o General advertiu que já não tinha ânimo para mais nada, muito menos para fazer pose de sair num quadro (de fato, o que pretendia Rivera, admitindo enfim que o retratassem, era uma oportunidade para ludibriar o dr. Hart e beber alguma coisa escondido – fazendo com o artista um pacto de silêncio, ao oferecer-lhe cerveja; e o que Rudolph queria, combinado com o dr. Hart, era ludibriar Rivera, ao retratá-lo por algum tempo – ganhando-lhe na cerveja a confiança, para depois poder dedicar-se livremente a pintar o que o médico mais pretendia).


Enquanto tratava de passar para o quadro a figura do General, Rudolph esteve por três tardes, três dias seguidos, bebendo com Rivera. E, por mais que se tenha cuidado da vestimenta e de melhorar o aspecto de Don Frutos, por mais que Don Frutos quisesse que a pintura retratasse fielmente sua figura decrépita, a capacidade e a habilidade do mestre pintor no trato com as tintas era tal que o resultado – como diria, ao constatá-lo, o dr. Hart – não ficou aquém do que pretendia o retratista e nem além do que esperava o retratado, tal a conformidade e a proporção obtidas entre o original e a cópia.

 

 

Trecho do romance DON FRUTOS - de Aldyr Garcia Schlee

Imagem: Retrato do General Fructuoso Rivera - Óleo sobre madeira, por Herrmann Rudolph Wendroth - 1853

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Terça-feira, 18.01.11

Isento de ênfases, blindado ao ufanismo

 

Uma terra só


Flávio Loureiro Chaves


No processo cultural do regionalismo, as obras de Simões Lopes Neto e Amaro Juvenal assinalaram a mais alta expressão literária do gaúcho e também o seu limite histórico, isto é, a desagregação do mito em que outros pretenderam fixar a sua saga heróica.


Por isso mesmo, sob uma perspectiva dialética, estes textos já anunciam o esgotamento do regionalismo.


A Literatura subsequente é varrida pelo sopro de novos ventos: o Ciclo do gaúcho-a-pé, de Cyro Martins, o Incidente em Antares, de Erico Verissimo, e os contos do lbiamoré, de Roberto Bittencourt Martins.


Trata-se de resultantes notáveis de um mesmo processo onde surge um dos traços mais interessantes de nossa literatura atual: a permanência da região e a ultrapassagem do regionalismo. É certo que, em determinados casos, o aproveitamento do manancial folclórico e da linguagem localista sustentaram a continuidade de uma manifestação gauchesca.


Tal não é o caso de Aldyr Garcia Schlee. Aqui o passado histórico retorna como uma força subterrânea para recolocar o espaço sul-rio-grandense e o gaúcho no núcleo da matéria abordada. No entanto, não é lícito relacioná-lo à vertente do regionalismo.


Estamos, antes, diante do que Antônio Cândido denominou super-regionalismo, assegurando a universalidade na observação da particularidade.


A ficção de Aldyr Garcia Schlee pertence aos novos caminhos que se abriram durante os anos setenta, após a renovação roseana.


Seus temas profundos, capazes de garantir a amplitude da comunicabilidade, são a concepção trágica da existência e o absurdo essencial que aciona os personagens.


Aldyr Garcia Schlee só observa o passado heróico para confrontá-lo com o presente desprovido de magia.


Nesse processo, a sua ficção simultaneamente mantém o cenário tradicional para inseri-lo numa temática já situada na fronteira da modernidade.


Entende-se, portanto, que estejamos diante e um fato literário cuja importância não pode ser desprezada – o vínculo entre a tradição de raiz gauchesca e uma problemática que pertence ao homem contemporâneo de qualquer latitude. Eis um texto que se legitima a si mesmo.

 

 

 

 

Estou certo de que o desenvolvimento ulterior da obra de Aldyr Garcia Schlee nos permitirá parafrasear em relação a ele o que Tristão de Athayde em certa ocasião afirmou de Erico Verissimo: “não haver escritor que mais honre sua região, sendo o menos regionalista e ufanista de seus filhos”.


Isento de ufanismo, Aldyr Garcia Schlee revela-se legatário de uma tradição e proponente de um estilo que a renova.

Flávio Loureiro Chaves

Imagem: O escritor, por Alexandre Schlee Gomes

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Quinta-feira, 30.12.10

Livro do Ano - DON FRUTOS

Livro do Ano 2010 - Zero Hora Retrospectiva 2010


DON FRUTOS


Depois de anos como um autor que se definia “à margem”, Aldyr Garcia Schlee tornou-se um dos nomes mais comentados de 2010. Recebeu o prêmio Fato Literário e o Açorianos na categoria Conto com o livro Os Limites do Impossível e, durante a Feira deste ano, lançou o mais interessante romance gaúcho da temporada: Don Frutos, elaborada reconstituição histórica da trajetória do caudilho uruguaio Don Fructuoso Rivera. Schlee reconstrói os últimos dias de Rivera, moribundo e encalacrado em Jaguarão (o caudilho viajava para tomar posse como governante do Uruguai, mas morreu sem conseguir cruzar a fronteira).

 

 


Publicado no jornal Zero Hora RS Brasil- 30 de dezembro 2010

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Quarta-feira, 15.12.10

Os livros do novo ano

Livros e amigos

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee esteve em Porto Alegre na segunda-feira, participando da entrega do Prêmio Açorianos, onde encontrou vários escritores amigos e junto a eles festejou a premiação, a bela cerimônia e o show em que vários deles foram premiados em diversas categorias. Foi uma bela festa de confraternização e amizade, bem organizada pela Secretaria Municipal da Cultura, pela equipe do Secretário da Cultura e escritor Sergius Gonzaga.

 

 

 

No dia seguinte, terça-feira, esteve com agenda cheia, conversando sobre DON FRUTOS, sobre Jaguarão, sobre Pelotas e sobre o pampa, com um brinde de espumante pelo FATO LITERÁRIO 2010, numa lotada Livraria Sapere Aude! (de Lia, Letícia e Carlos Cartell), a casa repleta de amigos e especialmente de muitos jaguarenses; até o momento em que se dirigiu ao Bar Ocidente, para participar de um bate-papo animadissimo no SARAU ELÉTRICO, sobre a sua literatura do pampa, com KATIA SUMAN, CLAUDIA TAJES, LUÍS AUGUSTO FISCHER (outro premiado Açorianos) e CLÁUDIO MORENO. Em nenhum instante se falou de futebol, apenas de literatura e livros.

 

Em 2011, serão relançados em novas edições, os livros Contos de verdades e O dia em o Papa foi a Melo (atualmente esgotados), além de um novo livro de contos, inédito, previsto para lançamento em setembro.

 

 

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Terça-feira, 14.12.10

Prêmio Açorianos - Contos

 

 

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee ganhou. Com o livro Os limites do impossível - Contos Gardelianos

Imagem: Desenho do troféu Açorianos, de Xico Stockinger, realizado a caneta esferográfica por Flor, neta do escritor.

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Sábado, 11.12.10

Um brinde ao FATO LITERÁRIO - RSVP

CONVITE

 

 

 

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Quinta-feira, 25.11.10

Convite para DON FRUTOS em Pelotas

 

Convite para Lançamento do novo romance de Aldyr Garcia Schlee em Pelotas RS

 


 

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Quinta-feira, 04.11.10

Em São Paulo - segredos do nascimento de Carlos Gardel no Uruguai

Lançamento do livro de contos/ romance Os limites do impossível, de Aldyr Garcia Schlee

 


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DON FRUTOS na Livraria da Vila

Lançamento do romance DON FRUTOS, de Aldyr Garcia Schlee

 


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Quarta-feira, 03.11.10

Don Frutos na Praça dos Livros

Os últimos meses de Rivera em Jaguarão

 

 



Para apreender a vida do personagem principal de seu novo livro, o escritor Aldyr Garcia Schlee contou com tempo de praticamente uma vida inteira.


Don Frutos, romance que Schlee discute com Cláudio Moreno às 17h30min de hoje no Santander Cultural e que autografa às 20h30min na Praça de Autógrafos, é mais do que uma reinvenção dos últimos meses de vida do caudilho uruguaio Fructuoso Rivera. É o ponto final de um interesse de 45 anos.


Quando tive a ideia de fazer esse livro pela primeira vez, meu filho que hoje já fez 50 anos tinha apenas cinco – rememora o escritor.


A gênese do romance remonta à época em que Schlee, então um jovem professor de Relações Internacionais na Universidade Federal de Pelotas, começou a fazer uma pesquisa sobre as intervenções do imperialismo ibérico nas guerras de fronteira sul-americanas. No decorrer desse levantamento foi que Schlee topou com documentos comprovando uma história que já ouvira contada de boca a boca em sua cidade natal, Jaguarão: fora lá que o caudilho e político uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), primeiro presidente institucional do Uruguai, havia morrido. (NE: Na realidade, Rivera morreu no Uruguai, nas proximidades de Melo, a caminho de Montevidéu, depois de permancer praticamente um ano em Jaguarão, por razões de saúde e de estratégia política, conforme está narrado no livro Don Frutos).


Foi apenas no início dos anos 2000, com a ajuda de um pesquisador uruguaio, Amilcar Brum, que Schlee conseguiu se dedicar à pesquisa necessária para criar o romance – a obra está pronta desde 2007, mas suas mais de 500 páginas assustaram mais de uma editora à qual o livro foi submetido.


Uma das editoras me enviou um parecer dizendo que o livro era muito bom, mas que o custo-benefício não aconselhava a publicação – diz Schlee.

 

 

 

Carlos André Moreira - Publicado em Zero Hora

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Terça-feira, 02.11.10

DON FRUTOS - 56ª Feira do Livro de Porto Alegre

 

CONVITE:

 


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DON FRUTOS - Trecho inédito do romance

 

Trecho de Don Frutos, de Aldyr Garcia Schlee (O casamento de Anita)


 

QUE FAZER, diante de um pedaço de papel como este?


–  Comandante Rivera, responda por Don Juan Antonio Lavalleja, do qual tem plenos poderes: deseja casar com esta mulher?

 

–  Sim.

 

Doña Ana Monterroso: deseja casar com este homem?

 

Sim.

 

Sendo estas as expressões de suas vontades de se terem por esposos por mútuo consentimento, e não havendo algo que possa impedir este matrimônio, em nome de Deus e da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, eu vos declaro marido e mulher.


Rasgar o papel? Olvidar? Recordar?


Pois o padre Oubiña ou era meio atolondrado ou estava confundido ou tinha bebido por demais... O cura, depois de ouvir o que lhe havia dito em nome de Lavalleja – que sim, que queria casar com Ana; depois, ainda perguntou a ela, simplesmente: deseja casar com este homem ? E ela: sim. E quem era este homem, o homem ali, ao lado dela? Era o homem com quem ela havia dito que desejava casar; era o homem que, afinal, pelo menos pela vontade manifesta dela mesma, o padre Oubiña declarava casado com Ana de Monterroso!


A gente toda está sempre tão habituada às arengas e prédicas, às palavras de sempre dos padres nas igrejas, que nem ouve nem se preocupa em saber o que  ficam dizendo e repetindo eles, seja num casamento, seja num batizado ou numa missa de defuntos...

 

De modo que ninguém se deu conta de com quem mesmo Ana de Monterroso disse que desejava casar...Bastou olhar para Felipe Duarte e Ramón Mansilla para entender que, como testigos, não haviam maliciado nada: estavam ausentes dali, apesar de por demais compenetrados e o mais ajaezados possível. Bastou ver uma luz meio que piscando, como que um lampejo de dúvida e de perplexidade, um brilho de nada nos olhos de Anita (quando ela disse sim), para notar como ela bem havia entendido tudo – mesmo que ninguém pudesse testificar aquilo; e como ela parecia bonita, que lindaça estava!...

 

Ana havia dito sim; e, no ato, havia entendido perfeitamente tudo. Se chegou a ter um instante de titubeio, foi, foi porque soube bem com quem, com que homem havia dito que desejava casar.


Numa solenidade de casamento há que agir com compostura e recato: as mãos cruzadas por diante, os olhos baixos, a cara séria e os pensamentos distantes. Mas ali, ali era demais: ia casando por outro, estava casando, e ao repente terminava como que casado com Ana; e ela se dava conta disso e era preciso fazer-lhe saber que, afinal, depois do sim, quedavam os dois mesmo que casados.

 

Tinha, afinal, cumprido com a representação delegada por Lavalleja. Permanecia ali, diante da noiva acompanhada apenas pela irmã – a mãe delas em total estado de demência, o pai já falecido; e sem a presença dos parentes do noivo, opostos ao enlace (na capela vazia, ninguém mais que o padre, o major, o capitão e dois negros saídos sabe lá de onde). O noivo Juan Antonio andaria pelas cercanias do arroio de la Calera, no cumprimento de ordens e de seus deveres de capitão de milícia, a reaproximar os artiguistas e a combater os portugueses.A noiva estava passada quase dez anos da idade de casar, bem como a irmã, Juana. Mas era uma mulher de presença forte, de porte altivo, a fisionomia aberta e a tez louçana. Ainda assim, quem a imaginaria, um dia, mandando em Lavalleja (“dá-te corte, Juan Antonio! não te quedes atrás!”)?

 

Quem imaginaria o que ela ia fazer, depois, daquele petiço cambota sem garbo e sem ânimo? Animo, ela sempre teria; como valor, valentia e intrepidez suficientes para incendiá-lo; e para defendê-lo: para lutar por ele, para se expor por ele, para sacrificarse por ele.Naquele instante, mirava Anita como a buscar adivinhar o que lhe passava pela cabeça; e, ao mesmo tempo, para tomar coragem suficiente e encontrar as palavras próprias para fazê-la ver o que então havia se passado. Ela estava com um vestido muito rodado – azul-claro, parece – de mangas compridas com fofos nos ombros; e dava para ver-lhe o que jamais esqueceria: a ponta dos sapatos, de camurça branca, lisos, com uns tufos de seda por cima.


Foi preciso esperar um pouco, porque, encerrada a cerimônia, Juana abraçou-se à irmã, chorando; e, havendo se sumido os negros, Anita esteve, ainda, a receber os cumprimentos do próprio cura e dos dois oficiais. Só aí foi possível chegar até ela, quedar-se de banda para saudá-la, e dizer-lhe:

 

Cumprimentos... Receba meus cumprimentos.

 

Gracias, senhor comandante.

 

Bueno... Mire, Anita...

 

Sim?

 

– Sabes de uma cousa?

 

Que cousa?

 

Que estou mui feliz de ver-te casada.

 

Ah! Gracias, muchas gracias por seu sentimento.

 

E mais, se me permite...

 

Mais quê?

 

O que já lhe digo...

 

Diga nomás...

 

Usté me desafia a dizer-lhe, porque é inteligente e vivida o suficiente para sabê-lo.

 

Saber quê, senhor comandante?

 

Disse-lhe, então, sorrindo:

 

Saber que o cura se atrapalhou; e à vez de perguntar-lhe se queria casar-se com Juan Antonio, perguntou se usté queria casar-se comigo.

 

Pobre padre Oubiña, estava tão nervoso...

 

É que usté respondeu que sim, que queria casar comigo...

 

Que cousa, comandante...

 

 

 

 

 

Imagem: ©Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo (Don Frutos, Aldyr Garcia Schlee - 2010)

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Terça-feira, 26.10.10

O romance secreto

OS LIMITES DO IMPOSSÍVEL - de Aldyr Garcia Schlee

 

 



Os limites do impossível é um livro de contos, identificados na narrativa singular e no estilo personal de doze mulheres diferentes e idades diversas, todas elas de alguma maneira relacionadas com uma personagem masculina que galvaniza e define a estrutura da construção literária. Estes contos finamente polidos e essencialmente trabalhados interligam-se a tal ponto que geram uma espécie de “romance secreto”. Será isso mesmo, diretamente um romance integral, disfarçado pelo subtítulo de Contos Gardelianos, apenas porque o escritor teve a intenção de nos confundir um pouco? Doze relatos de mulheres, com denso carregamento poético e intenso prazer na sua leitura, que geram imaginações e fantasias na consciência dos leitores e resultam em conclusões surpreendentes que não estão escritas em nenhuma página do livro. Será essa a intervenção criativa dos próprios leitores sobre o texto de Aldyr Garcia Schlee. Este livro notável ( de contos ou romance, o leitor decide essa questão) resultou na indicação de Aldyr Garcia Schlee, como finalista ao Prêmio Fato Literário de 2010.

 

Feira do Livro de Porto Alegre - 03 de novembro de 2010

Com a presença e autógrafos do autor - Palestra e conversa com Cláudio Moreno.

 

Aldyr Garcia Schlee é finalista indicado ao Prêmio Fato Literário 2010

 

Os limites do impossível

Contos.

Capa de Mario Castello, em duas versões diferentes.

Edições ARdoTEmpo.

204 páginas.

ISBN nº 978-85-62984-00-6

Valor: R$ 30,00

Edições ARdoTEmpo, 2009

 

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Domingo, 24.10.10

Prêmio Fato Literário - 2010

3 perguntas para Aldyr Garcia Schlee


Entrevista de Daniel Feix


ZHOs Limites do Impossível – Contos Gardelianos é um romance. Você o vê assim ou prefere classificá-lo como um livro de contos? E em algum momento pensa em escrever um texto ficcional longo?


Aldyr Schlee – Chamei Os Limites do Impossível subsidiariamente de Contos Gardelianos porque como tais os imaginei e os construí; mas sempre percebendo que podia (e até devia) levar o leitor a admitir que a trama ficcional urdida em cada história imbricava-se na de outra história e na de outra e outra... De modo que, tendo a ver todas as histórias entre si, resultava tudo numa só. Sempre estive consciente de que não queria estruturar um romance convencional. Estava apenas no exercício de meu ofício, que é duro e sério – de dizer, redizer, desdizer, contradizer o que seja, sempre bem e da melhor maneira; mas é também ofício divertido – de fazer de conta, imaginar, admitir que tudo é verdade e que não se está mentindo nem inventando; e que é, enfim, um ofício mágico – de recriar o mundo, ordenar e desordenar vidas, interferir na realidade e irrealidade. A propósito: antes de Os Limites do Impossível, eu havia escrito um romance – que será lançado agora, na Feira. Ele se chama Don Frutos e é uma longa narrativa ficcional de 500 páginas a partir da vida de Don Fructuoso Rivera, caudilho pampeano e primeiro presidente constitucional do Uruguai, que passou os últimos meses de sua vida em Jaguarão (RS).


ZH A formação de artista gráfico o ajuda no processo de escrita, especialmente na construção de cenas literárias?


Schlee – Não exatamente: o cinema me ajuda mais. Sempre, entretanto, com a certeza de que o texto, como forma de concretização da criação literária, deve se impor entre a invenção do autor e a imaginação do leitor – entre aquilo que talvez pudesse ter sido e aquilo que bem poderia ser. Aí, sobressaindo a palavra: a palavra precisa ser posta a serviço do texto como mediadora entre o inventar e o imaginar, impondo-se e valorizando-se também pela sonoridade que oferece e pela imagem que ajuda a construir.


ZH Você se considera mais brasileiro, uruguaio ou gaúcho?


Schlee – Eu sou um brasileiro sul-rio-grandense que, como escritor fronteiriço, sente-se quase uruguaio. Aqui, sobre a fronteira uruguaio-brasileira, tenho a gostosa e permanente ilusão de estar com meus leitores e personagens dentro de um particularíssimo mundo ficcional – fiel a mim mesmo e a eles –, com a sempre renovada certeza de que assim posso melhor me dedicar honesta e autenticamente à execução de meu projeto literário.


Publicado em Zero Hora RS - Brasil (23. outubro. 2010)

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Segunda-feira, 27.09.10

Camisa Brasileira - O livro

Vestiários


Em breve, o livro das imagens secretas do futebol.

 

 

 


Trata-se  de um livro de arte, de fotografias de autoria de Gilberto Perin, com o texto de  Aldyr Garcia Schlee – um majestoso ensaio fotográfico sobre um universo pouco conhecido acerca das atividades e do comportamento dos milhares de trabalhadores do futebol, os que jogam e os que os apóiam. Não é o do espaço dos astros televisivos do super-espetáculo regido pelo rico mercado dos clubes-empresas, dos formidáveis anunciantes, dos empresários e dos artistas a quem a fortuna sorriu. É outra gente, mais numerosa, mais frágil, para quem os dramas humanos estão evidenciados e que são capazes de nos emocionar e comover com  a sua humildade e de sua humanidade. É outro espaço, é outro o tempo, são grandes as carências, as limitações materiais – mas talvez seja mais genuína a paixão que o esporte, distanciado dos holofotes do negócio-futebol, desperte em torcedores desses times e clubes espalhados pelo Brasil inteiro.

 

 


Um livro que desvenda e revela com imagens e texto, um universo que ninguém mais vê.

 

 

 

 


Fotografias de Gilberto Perin

Texto de autoria de Aldyr Garcia Schlee

Edições ARdoTEmpo

 

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Terça-feira, 14.09.10

Aldyr Garcia Schlee - CONTO INÉDITO


LA FOLIE ET L’AMOUR

Aldyr Garcia Schlee

 


Desde muitos anos antes de eu nascer, meu tio tinha um aparelho mágico que não sei bem como chegara a suas mãos: se fora como um presente, trazido da Europa pelo padrinho de minha irmã, juntamente com uma máquina de escrever; se fora como algo surrupiado em Jaguarão do espólio do sr. Tomazzo Aimone, que era pai de meu próprio padrinho e que havia explorado em Pelotas uma casa de cinematógrafo.

 

Aquele mágico ou pelo menos misterioso aparelho servia para ver as coisas como elas seriam, se fosse verdade; mas era de mentira, pois embora as mostrasse como verdadeiras, só nos deixava a impressão disso ao fazer de conta que ali elas não eram de mentira e ao gerar a ilusão de que ali elas existiam realmente.

 

Faz tempo. Eu não era nascido, meu pai e minha mãe ainda nem se conheciam, o irmão mais velho de minha mãe já era moço e se dizia sacrílego. Terá sido quando o futuro padrinho de minha irmã voltou da Europa, trazendo como grande novidade a inesperada e inacreditável máquina alemã Adler, uma alta, grande e rara “typewrite machine” – a primeira em que eu viria um dia a escrever. Ou foi quando se quedaram abandonados em Jaguarão os restos dos despojos do cinematógrafo de seu Tomazzo Aimone. O certo é que meu tio tinha aquele aparelho desde antes de eu nascer; desde quando fora a Porto Alegre fazer concurso para calígrafo da polícia civil.

 

Era uma caixa, uma simples caixa de madeira ornamentada que, fantasticamente se abria de dentro para fora dela mesma e se armava para a gente olhar como por um binóculo e ter ali, diante das vistas, imagens deslumbrantes das mais famosas batalhas, dos mais importantes monumentos e dos mais distantes e exóticos lugares do mundo.


A Lápia, a Hercínea, a Tingitânea

O Touro de Perilo, Hercule et Omphale, a medusa de Caravaggio.

A batalha de Ourique, a de Badajoz, a do Salado.


Faz muito tempo. Meu tio recém fora levado pelo futuro padrinho de minha irmã a conhecer mulher, num prostíbulo da beira da praia, onde haveria de ser apresentado a uma china chamada Ignez, suficientemente louca para atendê-lo de graça como o primeiro e último homem do mundo, para iniciá-lo enfim nas mais inesperadas e surpreendentes formas de fornicação humana e animal. Ele ainda era guri, contam; mas foi preciso arrastá-lo à força daquele puteiro imundo, de onde não queria mais sair, onde insistia em ficar o tempo que fosse, sem arredar pé da louca Ignez.

 

Faz muito, muito tempo. Seria de se pensar que tudo aquilo poderia ser esquecido, que nunca mais seria lembrado, que nunca seria revelado (como nunca foi revelado à minha avó, para não se somar como mais um desgosto no rosário de desgostos em que ela rezaria a vida inteira pela salvação da alma de seu pobre filho, meu tio). Assim, o esquecimento, a deslembrança, o segredo acabaram borrando o suceder da vida de meu tio desde antes que eu tivesse nascido. De modo que fica difícil agora rememorar o olvidado. Restou durante algum tempo a rejeitada máquina de escrever; resta comigo o instigante e maravilhoso aparelho que acompanhou meu tio a vida inteira como se fosse coisa de mentira; e já não resta mais nada que possa ser lembrado.

 

Esqueceu-se tanta coisa vista que aquele aparelho quase se perdeu no tempo e, para muitos, é ou foi como se não houvesse existido; mas, sendo um velho objeto que servia para ver as coisas como foram ou deveriam ser, não se pode dizer que era de mentira – pois só o que se via, isso era mentira (não propriamente mentira, mas sim umas figuras, umas imagens, umas estampas caprichosamente coloridas pelo avesso, devidamente emolduradas sob rubrica francesa como “tableaux vivants” e que, postas diante de nossos olhos deslumbrados, revelavam-se imediatamente como se nunca tivessem deixado de ser o que deveriam ser e eram de verdade).


Les vues stéréoscopiques

Meu tio era como um quarto de século mais velho do que eu; e desde pequeno fora capaz de ultrajes, profanações e sacrilégios. Uma vez, chegara ao confessionário da Matriz e dissera ao padre, de maneira a ser ouvido pelas beatas em volta: não me arrependo de ser pecador – sabe? –; e, por isso, não me importo de te mandar daqui mesmo pra puta que te pariu. Antes havia metido a mão por baixo do vestido de veludo da Virgem – e descobrira, aos berros, que a santa era só uma armação de madeira por dentro, com pés, cabeça e mãos de louça! E desde muito vinha mastigando hóstias, mantendo-as na boca mastigadas, trazendo-as mastigadas para casa, num lenço – e rindo com naturalidade daquilo.

 

Pois um dia meu tio fora a Porto Alegre fazer concurso para calígrafo da polícia. Como o convenceram disso, não sei; como também não sei bem se viajou no vapor Juncal ou no Jenny Naval, se minha avó deu-lhe dinheiro bastante e se ele levou consigo o mágico estereoscópio e suas vistas – os seus quadros vivos. O certo é que foi a Porto Alegre aparentemente com uma única finalidade: a de fazer concurso para calígrafo da polícia civil.

Les tableaux vivants


Os quadros vivos eram montados em molduras de cartão grosso, com duas figuras aparentemente iguais postas lado a lado, num retângulo de uns 9 x 18 cm, coloridas e sombreadas manualmente pelo reverso, em diferentes camadas de papel de seda muito fino e transparente, de maneira tal que observadas através de um visor binocular, contra a luz, davam a impressão e per-mitiam a ilusão de uma única imagem, apresentando relevo e profundidade.Ainda tenho comigo apenas e exatamente trinta dessas vistas, das muitas dezenas que pas-savam pelo visor, uma a uma, e a cada vez reviviam-se ante nossos olhos e nossa imaginação. Já não sobra quase nada das coleções de dúzias e dúzias delas, que foram se extraviando, se extraviando, e se perderam definitivamente no esquecimento. Também ainda tenho comigo a surpreendente caixa do estereoscópio: ela permanece fechada – ao lado do montezinho de vistas desusadas, presas entre si por um elástico – sem abrir-se e desencantar-se, avolumando-se sobre si mesma num prodigioso aparelho; tem só um palmo de comprimento por meio de largura, com guarnição de prata lavrada nos quatro cantos da tampa, fecho igualmente de prata, com um aplique posto no centro, talvez para a gravação do monograma do proprietário (mas sem qualquer inscrição).


Porto Alegre, 1929


Meu tio fez concurso para calígrafo da polícia numa quinta-feira à tarde (chegara três dias antes, depois de dois de viagem num vapor desde Jaguarão). Havia mais onze candidatos numa sala escura fedendo a creolina, onde foram dispostas doze largas classes escolares duplas, com tinteiro embutido – ficando cada um numa classe, fazendo-se ditado de duas páginas de um detalhado inquérito policial; e, depois, dispondo-se de até uma hora para copiar o maior trecho, com o menor número de erros e a letra mais parelha possível do Canto III de “Os Lusíadas”.


Agora tu, Calíope, me ensina

o que contou ao Rei o ilustre Gama


Desde a chegada, meu tio metera-se em Porto Alegre nos puteiros da Pantaleão Telles, ruela que se espremia pelo costado da Matriz em direção à velha ponte de pedra, lá embaixo. Embora estivesse ali com a única finalidade de fazer concurso para calígrafo da polícia; e, embora eu não seja capaz de afirmar que ele tenha levado e utilizado o estereoscópio, duvido que não o aproveitasse para impressionar e empolgar as mulheres, acionando-o com indispensáveis gestos estudados tanto de precisão como de encantamento – e as imagino cercando-o, atraídas pela maquina mágica, surpresas e curiosas, arrepiando-se alvorotadas com suas inimagináveis figuras como dos mais longínquos lugares desconhecidos e perdidos do mundo ou do outro mundo – os mais distantes e exóticos lugares sabe lá de onde, seus mais importantes e fantásticos e inacreditáveis monumentos, suas mais sangrentas e famosas e inimagináveis batalhas...


Esta é a ditosa pátria minha amada

à qual se o Céu me dá que eu sem perigo torne,

com esta empresa já acabada,

acabe-se esta luz ali comigo.


Então meu tio tirava de sua mala de papelão moldado a caixa do estereoscópio, a surpreendente caixa do estereoscópio abrindo-se e desencantando-se, avolumando-se sobre ela mesma no prodigioso aparelho que ainda guardo comigo. E apresentava às putas em volta os “tableaux vivants” que, postos diante de seus olhos deslumbrados, através da mágica binocular contra a luz, revelavam-se imediatamente como se nunca tivessem deixado de ser o que deveriam ser e eram de verdade: mulheres desnudas, de rostos insinuantes e cabelos insolentes, de largas cadeiras e generosos seios, em poses sensuais e gestos lúbricos, a exporem despudoradamente suas partes íntimas diante de um cenário onírico dominado pela perspectiva infinita de colunas e mais colunas quebradas sob seus respectivos capitéis.

 

 

 

 

 

 

Cada uma das mulheres do prostíbulo precisava então se despir toda e tentar repetir da melhor maneira que pudesse o mesmo gesto obsceno e provocador daquela que ela estava vendo pelo aparelho (isso tudo eu só imagino agora, pelo que sei que contavam e diziam de meu tio, e pelo que penso do que ele seria capaz – pois, infelizmente, não me restaram entre as “vues stéréoscopiques” mais que o montezinho de trinta, presas entre si por um elástico – nenhuma delas com ao menos a imagem de uma única mulher pelada; embora uma, extraviada como a número 3 e intitulada La Folie et l’Amour, propusesse as imagens de uma impossível mulher cor de rosa e de um provável tipo afeminado posando ambos com gestos imprecisos e cabelos dourados, entre pombas esvoaçantes ou asas de cisnes numa insuspeitada ribalta ou num improvisado picadeiro).


Meu tio dizia-se herege. Mas era desrespeitoso e ímpio, além de irreligioso, porque afrontava, insultava e ofendia quem quer que fosse, quando menos se esperava. Com um sorriso nos lábios era capaz de estragar uma festa, acabar com um velório, comprometer uma simples apresentação – fosse identificando um marido traído diante da mulher que o corneava, fosse anunciando secretas intimidades de quem estava sendo velado, fosse admitindo que não tinha prazer em conhecer quem lhe estendia a mão.


Nesta Chefatura de Polícia consta que N.N., brasileiro, pardo, de 23 anos de idade,

sem profissão fixa, residente à rua do Arvoredo, s/n,

foi identificado e compromissado nos termos constantes deste registro de investigação como depoente,

na condição de testemunha ocular da ocorrência anotada sob número 0117/29,

constante às folhas 34 e 35 do Livro de Ocorrências de numero 2-B desta Chefatura,

tendo respondido as perguntas de praxe


Meu tio fora expulso do seminário onde minha avó pretendia vê-lo transformado em padre e onde ele passava o dia lendo, lendo e contestando em aula o que fosse ante quem fosse; até comprovar-se que incluía em suas leituras os mais ten-tadores livros do index da Igreja – que manuseava às escondidas e distribuía fartamente entre os colegas (eu sei que depois, de volta a casa, ele até foi dado por doido: não tomava banho, não se arrumava, deixara a barba crescer à semelhança de Antonio Conselheiro e andava vagando pela rua arrenegado, a escarrar longe e a patear cachorros, sem cumprimentar ninguém).


1. se teve participação no ocorrido, disse que não;

2. se conhecia as pessoas envolvidas no ocorrido, disse que não;

3. se vinha passando pelo local do ocorrido, dis-se que sim;

4. se viu um homem atacando um outro com uma faca, disse que sim;

5. se sabe se era com uma faca ou facão, disse que não;

6. se sabe se a arma é a mesma que lhe foi apresentada nesta Chefatura, disse que não;

7. se chegou a ver que o agressor fugiu para um baldio, disse que sim;

8. se  sabia que a vítima resultou morta, disse que não;

9. se chegou a perseguir o agressor ou a ajudar a vítima, disse que não;

10. se ficou sabendo de algo mais no local do ocorrido, disse que não.


Não terá sido difícil para meu tio levar o estereoscópio em sua mala para Porto Alegre (o aparelho fechado, sabemos, tem só um palmo de comprimento por meio de largura, com guarnição de prata lavrada nos quatro cantos da tampa, fecho igualmente de prata, e um aplique posto no centro, mas sem qualquer inscrição). A mala de papelão moldado de meu tio, metida embaixo de muitas camas, antes e depois do concurso, terá disputado espaço com penicos cheios e panos sujos e frascos de desinfetantes (e baratas e ratos) em cada chineredo onde ele tratou de se meter a cada noite, tentando dispor de pousada e mulher, ainda que sem encontrar quem o acolhesse de graça ou lhe pagasse a despesa. Em Jaguarão era diferente: em pelo menos três dos nossos muitos puteiros, só pelo prazer do desfrute meu tio dispunha quando queria de ca-ma e mulher; uma destas, a velha e decadente louca Ignez, ainda lhe dava boa parte da féria do dia, para os vícios.


Ignez

 

Ignez da Silva Berneira

 


Meu avô bem que tentara colocar meu tio como seu ajudante no Banco Pelotense, ou de auxiliar de guarda-livros na Mesa de Rendas, ou de escriturário na Alfândega, ou de anotador na Ca-pitania dos Portos – afinal, tinha uma bela caligrafia! – mas meu tio só tinha cabeça para ler, ler e ler; e tanto no Porto como na Aduana e na Exatoria, até no Banco, deixava de fazer as devidas anotações, atrasava a escrita, trocava nomes e valores, escondendo na gaveta mais próxima o livro que mal-parava de ler. Era como se sonhasse com o mundo indizível das vistas maravilhosas.


Mas quem pode livrar-se, porventura,

dos laços que Amor arma brandamente

entre as rosas e a neve humana pura,

o ouro e o alabastro transparente?

 

O futuro padrinho de minha irmã, contudo, admirava meu tio por sua rara inteligência (aprendera francês utilizando apenas um manual de conversação, uma gramática, livros escolares e o dicionário), por suas variadas leituras (lera mais da metade da biblioteca do Clube Jaguarense), por sua boa caligrafia (copiava com letra admirável os trechos que mais lhe agradavam da melhor literatura) – e, vendo-o um dia limpo, enfim, e até falante, deu-lhe de presente a máquina de escrever que trouxera da Europa e falou-lhe em dactilografia. Meu tio, contudo, nunca acionou uma mínima tecla, nunca escreveu uma única palavra na poderosa Adler; jamais leu o manual de instruções em quatro idiomas que ensinava a manejar, lubrificar e manter limpa a imponente máquina negra.

 

q  w  e  r  t  y  u  i  o  p

a  s  d  f  g  h  j  k  l

z  x  c  v  b  n  m


Meu tio possuía uma letra magnífica: graú-da, arredondada, parelha, elegante, levemente inclinada à direita – e sempre primorosamente igual. Cada maiúscula, cada minúscula, fosse vogal, fosse consoante, abria-se e fechava-se sempre da mesma maneira nas suas correspondentes curvas e retas e no requinte de seus remates de pena. Era uma perfeição.

 

Pude constatar a excelência da letra de meu tio no dia em que arrombaram a porta do guarda-roupa do quarto do asilo de velhos em que ele morava (e morrera) e me alcançaram, além do precioso estereocópio, um amarelado caderno Vasquez de caligrafia com suas iniciais, resgatado entre roupas emboloradas e os mais triviais ou inesperados produtos comprados em Rio Branco. No guarda-roupa, havia ainda cubinhos de açúcar Rausa, pedras de anil Rekitt, duas garrafas de leite vazias (ambas de vidro verde, daquelas com boca larga e tampinha de cartão), um pacote de caixas de fósforos de cera Victoria, uma garrafa âmbar de Crush, uma lata de galletitas Cauci, um caixa de sabão Reuter, duas garrafas cheias de Malta Montevideana, uma garrafa vazia de mandarina Urreta, uma outra de pomelo Pomona, dois rolos de papel higiênico verde H-H, e uma lata de erva-mate Armiño.

Largada no chão, desprezada e sem uso, a velha máquina de escrever, coberta de pó.


Adler Werke – Frankfurt


Meu tio nunca chegara a ter um emprego decente. Sobrevivera e envelhecera fazendo de conta que não recebia uma permanente ajuda de vovó, além de parte da féria diária do prostíbulo da louca Ignez. Quando a louca morreu, fora instalado no asilo, onde teve livre a fantasia e pôde dela desfrutar como e quando queria. Jamais deixara, entretanto, de redigir com todo o capricho de sua letra impecável todas as cartas que o padrinho de minha irmã dirigia à amante que deixara no Havre e que lhe ditava seguida e pausadamente em francês (dizem até que meu tio, de posse do endereço da mulher, passara um dia a se corresponder com ela, entabulando uma ardente e paralela correspondência íntima cheia de indecente lubricidade).


Mas quem pode livrar-se, porventura,

dos laços que Amor arma brandamente

entre as rosas e a neve humana pura,

o ouro e o alabastro transparente?

Quem de uma peregrina fermosura

de um vulto de Medusa propriamente,

que o coração converte que tem preso,

em pedra não, mas em desejo aceso?


Meu tio havia permanecido em Porto Alegre o tempo que dava. Para que voltasse, fora necessário mandar-lhe um dinheiro extra – que lhe pudesse garantir a passagem de retorno no vapor e mais um dia de mínimos gastos, evitando-se que ele chegasse a melindrar dona Ercília, solteirona comadre de vovó, que vivia sozinha com seus ga-tos e suas rezas na rua Riachuelo e em cuja casa ele ameaçava meter-se, para ter onde comer e dormir – quem sabe também para espiá-la pelo buraco da fechadura, às gargalhadas, como já fizera em Jaguarão.


A. E. G.      Jaguarão

 

Depois, de volta, não houve aqui quem pudesse convencer meu tio a assumir o cargo de calígrafo da polícia.

 

Foi identificado e compromissado nos termos constantes deste registro

de investigação como depoente, na condição de testemunha ocular da ocorrência anotada

sob número tal, constante às folhas tais tais do Livro de Ocorrências, tal, tendo respondido ...
Não houve conselho que ajudasse, ameaça que intimidasse, promessa que resolvesse.
1. se teve participação no ocorrido, disse que não;

2. se conhecia as pessoas envolvidas no ocorrido, disse que não...


Meu tio fora aprovado em primeiro lugar no concurso para calígrafo da polícia.


se ficou sabendo de algo mais no local do ocorrido, disse que não.


Ele fora aprovado no concurso com mais outros quatro; e fora classificado em primeiro lugar (vovô recebera um telegrama anunciando o resultado).

 

Meu tio fora aprovado em primeiro lugar no concurso para calígrafo da polícia. Mas não quis saber de nada. Com a mesma mala de papelão moldado, com que chegara de volta de Porto Alegre, ele saiu de casa no mesmo dia em que soube o resultado do concurso. Foi-se para não voltar: preferira ficar por conta da pobre louca Ignez em seu puteiro – com a imponente e inútil máquina de escrever Adler, com as maravilhosas “vues stéréoscopiques”, com os deslumbrantes “tableaux vivants”, e como se partisse feliz com La Folie et l’Amour para os mais longínquos lugares desconhecidos e perdidos do mundo (ou do outro mundo).

 

Quem viu um olhar seguro, um gesto brando

Uma suave e angélica excelência,

Que em si está sempre as almas transformando,

Que tivesse contra ela resistência?

 

 

 

© Aldyr Garcia Schlee - "La Folie et l'Amour" - Conto, 2010

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Domingo, 20.06.10

Herói de dois mundos

Torcedor do Uruguai, criador do uniforme da Seleção Brasileira: Aldyr Garcia Schlee

 

Thaís Bilenky e Anna Virginia Balloussier

 

Dona Marlene, 75, está revoltada. Desde que conheceu seu marido, há quase 55 anos, é a mesma história: chega a Copa do Mundo e Aldyr está lá, com o coração na mão pela seleção que, em 1950, tirou do Brasil o sonho do primeiro título. Aldyr Garcia Schlee, 75, criou há 57 anos a camisa verde e amarelo da seleção - um dos mais eficientes cartões de visita brasileiros, da Palestina aos Alpes suíços. Mas ele vai torcer pelo Uruguai, como faz desde que se entende por gente. Nada de birra, garante.

 

É que Aldyr nasceu em Jaguarão, cidade do Rio Grande do Sul que faz fronteira com o país vizinho, e cresceu "escutando na rádio tangos, boleros e notícias do Uruguai". Ele morava em Pelotas (RS) quando, aos 19 anos, soube do concurso aberto pelo extinto jornal "Correio da Manhã". O desafio: dar nova cara ao uniforme da seleção brasileira, até então azul e branco.

 

O jovem Aldyr correu para comprar "umas tintas gouaches holandesas, que foram pagas em prestações por quase um ano". E começou a rabiscar. Usar as quatro cores da bandeira no uniforme era uma das exigências da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antepassada da CBF). Um horror para Aldyr, já que "isso, quatro cores, não é uma tradição no futebol mundial". Para driblar o regulamento, ele decidiu "despejar o azul e branco nas meias e calções". A ideia colou. Reza a lenda que o modelo repaginado serviria para tirar a zica daquela derrota para o Uruguai no Maracanã. "Não é verdade. É preciso desmentir isso", diz. "Tanto que o Brasil perdeu em 1954, na Suíça".

 

 

 

 

No dia 15 de dezembro de 1953, o "Correio da Manhã" reproduziu pela primeira vez o modelo canarinho.O vencedor recebeu convite para estagiar como ilustrador no jornal, "uma bolada que dava para comprar um carro popular" e "uma cadeira 'perpétua' no Maracanã". Pouco depois, Aldyr foi entregar sua criação aos jogadores.

 

Na vez de Zizinho, craque do Bangu, escutou o que até hoje considera "a maior definição" para o esporte."Como torcedor, encaro futebol com paixão. Mas tenho certeza de que, em épocas de amadorismo ou hiperprofissionalismo, nada mais certo do que a frase do Zizinho: 'Futebol é uma merda'".

 

Toda Copa ele faz sempre tudo igual. Com um mês de antecedência, começa a confeccionar um livrinho da Copa, uma espécie de álbum de figurinhas artesanal. Nele, registra todos os resultados, desenha a carinha dos jogadores de cada seleção e anota impressões gerais sobre o torneio. Ele e a mulher acompanharão todos os jogos - na primeira fase, são três por dia, ou 270 minutos diários de futebol.

 

Aldyr não gostou da escalação de Dunga. Mas não viu tanto problema no técnico ter deixado Neymar de lado na hora de montar a equipe. Garrincha, afinal, também ficou de fora em 1954. Quatro anos depois, deu no que deu. De 1953 para cá, Aldyr foi rebatendo todas as bolas que a vida lhe jogou. No passado, dividiu plantões de trabalho e mesas de bar com ilustres do jornalismo, de Samuel Wainer a Nelson Rodrigues. Também foi professor de direito internacional. Por conta disso, na metade dos anos 1960, virou persona non grata para a ditadura.

 

Chegou a ser banido de uma faculdade no Rio Grande do Sul por três anos, acusado de "atividades filocomunistas", segundo documento que afirma ter recebido em 1965. Tudo intriga da oposição, já que mexer com política não era a dele, garante Aldyr. Afirma, contudo, diz ter abrigado em seu apartamento de Pelotas algumas "cabeças a prêmio" do regime militar. No começo daquela década, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (região Sul) por uma matéria, sobre combustível mineral, que entusiasmou o presidente João Goulart . A década de 1980 lhe rendeu dois prêmios na Bienal de Literatura.

 

Escritor criativo e de muita produção, Aldyr tem duas gavetas cheias de livros de sua autoria, com temas que vão de contos de futebol a uma suposta "identidade secreta uruguaia" de Carlos Gardel (Os limites do impossível - Edições ARdoTEmpo, 2009) Vive num sítio em Capão do Leão (perto de Pelotas). Numa parede da casa, a plaquinha da "Rua Uruguai". Dona Marlene nem esquenta a cabeça: prefere jogar na cara do companheiro a vitória contra o Uruguai, de 4 a 0, nas eliminatórias 2010.

 

 

Thaís Bilenky e Anna Virginia Balloussier - Publicado na Folha de São Paulo (desde Capão do Leão RS)

Imagem: Aldyr Garcia Schlee - Esboços originais da criação do uniforme da Seleção Brasileira, 1953

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Segunda-feira, 29.03.10

Lançamento de Livro - Aldyr Garcia Schlee

Convite - Lançamento do livro Os limites do impossível - de Aldyr Garcia Schlee

 

 

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Sexta-feira, 19.02.10

Iluminar a vida

Aldyr Schlee - Os limites do impossível
 
Luis Antonio de Assis Brasil
 
As provas são inequívocas e devastadoras: Carlos Gardel nasceu em Tacuarembó, no Uruguai, resultado da relação adulterina de um coronel estancieiro. El Morocho silenciava acerca desse fato, o que é compreensível. Mais tarde surgiu a história de que teria nascido em Toulouse, na França. História forte, mas que não impediu Aldyr Garcia Schlee de dar como certo o polêmico nascimento no vizinho país e de escrever um dos mais curiosos e bons livros de nossa ficção literária: Os Limites do Impossível Contos Gardelianos, saído em 2009.
 
Schlee é escritor de longa estrada, com vários livros de contos e inúmeros prêmios nacionais, para além da distinção de haver desenhado o uniforme da seleção canarinho. Esse autor de tão variadas habilidades – também é professor universitário –, transita entre duas pátrias: o Brasil e o Uruguai. Publica no país vizinho e aqui mesmo. Possui tantos amigos uruguaios como brasileiros.
 
Tudo isso pode explicar que se tenha dedicado às raízes orientales de Gardel. A ideia de seu livro é de luxo: são 12 contos em que as protagonistas são 12 mulheres, reais ou imaginárias, que têm algo a ver com o nascimento do menino Carlos. E nessa tarefa Schlee saiu-se muitíssimo bem, compondo um quadro magnífico do Uruguai campestre, com suas contrastantes modalidades existenciais.
 
Clara, Felícia, Juana, Cisa, Blanca, Rosaura, La Niña, Manuela, Mulata-Flor, Cosntantina, Berta, La Madorelli... São mulheres das mais diversas condições e psicologias. Gardel é o Leitmotiv, mas mesmo que não o fosse, os contos sustentam-se em sua literalidade intrínseca, com suas frases de encanto e emoção: “Ela foi só e sempre apenas uma pobre moça desgraçada e desventurada que nossos bisavós conheceram de longe em San Fructuoso como La Niña; uma pobre moça morrendo de padecimentos e atribulações, uma pobre moça que morria de sentimento; aquela pobre moça morrendo-se de mágoa, morrendo de dor...”.
 
Schlee pratica o conto com estrutura que se desenvolve no tempo, e nos quais as personagens sempre terminam diferentes do que começaram. Tem-se a sensação, ao chegar à última linha, de que se leu um romance inteiro, um belo romance, capaz despertar em nós as maiores emoções que a autêntica literatura pode produzir. Estamos de parabéns e agradecidos a Schlee por nos iluminar a vida com esse livro.
 
 
Luis Antonio de Assis Brasil - Publicado no jornal Zero Hora
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Sábado, 13.02.10

Retrato do escritor

 Aldyr Garcia Schlee, autor de Os Limites do Impossível - Contos Gardelianos (2009) 

 

 

 

 

Gilberto Perin - Retrato do escritor Aldyr Garcia Schlee - Fotografia (Pelotas RS Brasil) 2009

publicado por ardotempo às 00:12 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sexta-feira, 25.12.09

Estrelas feitas de letras

A língua única de Schlee e suas múltiplas vozes
 
Joana Bosak de Figueiredo
 
Leio Os limites do impossível – Contos gardelianos, de Aldyr Garcia
Schlee. Com suas doze mulheres, que nos falam ou são faladas, Schlee
converte-se num escritor que entende plenamente o feminino. Sentimos o
que elas sentem e mesmo o que há de mais íntimo aparece na escritura
desse autor múltiplo.
 
Regionalista. Não. É pouco. Fronteiriço. Com certeza. Acima de tudo, universal.
 
Universal porque conversa e converge com o mundo e as vidas pequenas e
a escrita enorme e vigorosa de um registro único, de um autor idem.
Narrativa na fronteira, escritura no mundo. Quiçá a fronteira seja realmente o único lugar possível para estar no limite do impossível do universo que Schlee propõe.
 
Superamos a barreira limite. Superamos mesmo o entre lugar. A
fronteira é o lugar. O lugar onde se pode escrever numa língua única,
a língua de Schlee, que doma, alumbra e alambra aquilo que não pode
ser cerc(e)ado: uma identidade, uma maneira una, porém múltipla de ser
e estar nesse mundo tão homogeneizado por uma cultura de massa, mas ao
mesmo tempo, tão sedento de representações próprias de seu próprio
teto – ainda mais quando o teto são estrelas feitas de letras.
 
Ao ler Schlee se me escorrem as certezas e as tipificações acerca da
literatura regional, pois ela repete as pátrias pequenas de todos os
lugares, e isso a torna muito maior. Schlee bebe num tempo perdido que
parece que ficou pra trás, mas que nunca nos abandona – os Oitocentos,
tão únicos e tão fundadores de nossa cultura -, mas, ao mesmo tempo,
projeta o presente e o futuro numa linguagem que ziguezagueia entre o
ocorrido e o devir, como se o tempo passado continuasse sendo narrado
ad infinitum até virar o agora – e o que resta é o que somos hoje. E
aí somos brindados por “documentos” que atestam a existência “real
dos fatos em questão, como se estivéssemos lendo a correspondência
ativa de alguma personalidade do século XIX cuja voz só apareceu hoje.
Essa é uma narrativa intemporal, coloca-se, parece, no passado, mas
flerta como se fosse hoje, o tempo inteiro.
 
 
Nessa costura narrativa, Schlee não perde o fio da meada e o que
parecem ser contos interligados converte-se em um romance polifônico,
onde cada voz representa uma protagonista feminina que reveste de
significados próprios uma história coletiva com interpretações
pessoais de rara beleza e força marcantes. Todas elas têm razão. Todas
elas têm as suas razões. Todos os contos são delas e de quem mais for
narrando. E o perverso justifica-se; não fosse ele não existiriam doze
mulheres que contam e que são contadas, não haveria Gardel, não
haveria esse livro mágico de Schlee.
 
As múltiplas vozes de Schlee são proferidas por mulheres da vida, no
sentido de que são absolutamente verossímeis: elas estão – ou melhor,
estavam – nas fazendas, nos arrabaldes, no limite do urbano, nas
cidadezinhas de uma enorme fronteira que se alarga cada vez mais em
nosso imaginário: os limites entre o mundo hispânico e o luso no sul
da América do Sul e mais ainda: nos limites de um mundo real e de
outro inventado, onde as barreiras são tão tênues que impossíveis de
serem visualizadas. O que fica é a impressão de que tudo é possível
dentro dessa pretensa impossibilidade porque absolutamente visível nas
imagens e paisagens interiores dessas mulheres. A vida doméstica, a
alcova, os segredos, tudo aquilo que se sabe e que se oculta, tudo
sobre o que se deve calar está lá. Schlee não esconde toda a
devassidão de homens e mulheres, incesto, estupro, gozo, prazer. É nas
margens que tudo acontece. É na fronteira do impossível que vivemos e
escrevemos nossas vidas permanentemente.
 
Há espaço pra tudo na prosa de Schlee: para homens sedentos de sexo,
para mulheres que não abrem mão de seu prazer – por inusitado ou
amoral que seja -, para mucamas que vêem mais do que deveriam, para
chinas que não se contentam em ser chinas, para filhas que não são
apenas filhas, mas cúmplices, amantes, mães.
 
E essa é nossa América profunda. O sul, ao qual volvemos sempre, não
se olvida. E é no cruzamento – e não no entrechoque – dessa língua
particular que Schlee, tradutor, escritor e fronteiriço escreve. É uma
língua toda sua, o teto sob o qual se abriga. Sob o qual abriga as
raízes de sua cultura. Mas se as abriga, não as esconde, porque o trunfo
desses contos gardelianos é justamente uma realidade ficcional
verossímil completamente exposta.
 
Dói. Schlee não alivia. Mas um tango, para ser bem cantado, precisa
dessa dor. E se Gardel precisava de uma pré-história para existir ainda
mais completamente, ela já foi contada. E quem não acreditar que
invente um causo melhor. Depois de Schlee, há que ser muito bagual para
conseguir.
 
©Joana Bosak de Figueiredo

Os limites do impossível – Contos gardelianos. Aldyr Garcia Schlee.
Edições ARdoTEmpo - 2009   -  ISBN nº  978-85-62984-00-6
 
ardotempo@gmail.com
 
Imagem: Leonid Streliaev - "Uma fazenda decadente no meio do pampa"
- Fotografia (Fronteira Sul Rio Grande do Sul RS Brasil)
publicado por ardotempo às 14:11 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Quarta-feira, 23.12.09

Mulheres de Gardel

Gardelianas
 
 
 
 
Em novo livro - Os limites do impossível -, Aldyr Garcia Schlee faz ficção a partir de relatos de mulheres envolvidas com as origens do cantor Carlos Gardel
 
Você certamente já ouviu falar da controvérsia em torno das origens de Carlos Gardel – el morocho, el mago, o cantor de tango cuja voz se confunde com o gênero musical que representa teria nascido em Toulouse, na França, ou Tacuarembó, no Uruguai? A polêmica não existe, garante Aldyr Garcia Schlee.
 
O escritor, que nasceu em Jaguarão, sempre viveu entre o Rio Grande do Sul e cidades uruguaias como Melo e Treinta y Tres e hoje mora em Capão do Leão, zona sul do Estado, dedicou anos de pesquisa à vida de Gardel. Concluiu que sua alegada origem francesa foi um golpe “dedicado a tomar a sua herança”. Mais: fascinado pelo contexto ao mesmo tempo bucólico e sórdido em que o intérprete nasceu, escreveu um romance sobre o tema. Chama-se Os Limites do Impossível – Contos Gardelianos. E é um livro notável.
 
São 12 contos, cada um dando voz a uma mulher daquele contexto. Contos ou um romance?
 
Não sei – responde Schlee. – Minha ideia sempre foi contar uma história única, porém dividida em fragmentos que representam diferentes pontos de vista dos acontecimentos.
 
E que acontecimentos. Clara, título do primeiro desses fragmentos, vive numa morada rural em La Fructuosa, Tacuarembó. É apaixonada pelo filho do leiteiro, um amor platônico, doce, dotado de uma ingenuidade que combina com aquele ambiente mas que é quebrada quando ela se vê forçada a casar com outro homem. A partir daí, primeiro pelos olhos da mucama Felicia, depois da senhora Juana, o cenário que se revela é dos mais abjetos, com paixões incontidas, mentiras, traições em âmbito familiar, incesto. Tudo levando à figura – ou partindo dela – do Coronel Carlos Escayola, o pai de Gardel, e culminando com o nascimento do cantor de Mano a Mano.
 
Admito que há uma certa fabulação, por exemplo, na construção da personagem Mulata-Flor. Mas ela existiu. Tudo ali existiu – afirma o autor. – Há tanta verdade na história que, lá pelas tantas, decidi não mais ir a Tacuarembó. A casa onde Gardel nasceu está lá, o lugar permanece com as mesmas características. Como digo no livro, a semelhança entre o que é narrado e o que aconteceu não é só uma coincidência, mas a prova de que a realidade, como a ficção, também é feita do improvável, do inacreditável.
 
Os Limites do Impossível é um lançamento da nova editora porto-alegrense ARdoTEmpo. Está à venda com duas opções de capa.
 
ardotempo@gmail.com
 
 
Daniel Feix - Publicado em Zero Hora (23.12.2009)
Imagem: Gardeliana, desenho a tinta china e aguadas por Aldyr Garcia Schlee 
 
O mito
 
Carlos Gardel nasceu no dia 11 de dezembro. As referências biográficas mais recorrentes dão conta de que teria sido em 1884 ou 1887, em Tacuarembó, ou 1890, em Toulouse. Ele chegou a dizer que nascera no Uruguai, mas, depois de sua morte, um testamento que teria sido escrito pelo cantor dava conta de sua origem francesa.
 
Radicado em Buenos Aires, foi o criador do tango-canção, no final da década de 1910, que revolucionou e ajudou a popularizar o gênero. Lançou sete longas e dezenas de discos antes de morrer em um acidente de avião, em Medellin (Colômbia), em 1935.
 
O autor
 
O escritor Aldyr Garcia Schlee tem 75 anos e também é conhecido por seu trabalho como designer. É ele o criador da clássica combinação verde-amarela do uniforme da seleção brasileira, escolhida em concurso público nos anos 1950 – antes o Brasil jogava de branco ou azul.
 
Natural de Jaguarão, tem livros de contos publicados tanto no Brasil quanto no Uruguai. Entre eles, Linha Divisória, Uma Terra Só, Contos de Futebol e O Dia em que o Papa Foi a Melo, sobre o mesmo episódio retratado no filme O Banheiro do Papa (2007).

 

publicado por ardotempo às 10:39 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 07.12.09

O livro lido

Aldyr Schlee e o impossível

 
Pablo Rodrigues
 
Transito com cautela por estas linhas. E já começo o texto tendo que resistir a mim mesmo, tendo que resistir à vontade de largar tudo para reler Os limites do impossível - Contos gardelianos, sétimo livro de contos do escritor jaguarense Aldyr Garcia Schlee. Na verdade, este comentário que inicio é, no fundo, um atrevimento. Sim, porque diante de uma obra como a que acabo de ler o não dito sempre falará mais. E melhor. Atiro-me, portanto, ao não-sei-onde.
 
Em 12 contos narrados a partir da história de 12 mulheres, o leitor caminha sutilmente pelo que há de mais belo e também de mais terrível no espírito humano: amores, traições, melancolias, desejos, violações e muitos disparates. No primeiro conto, intitulado Clara e por Clara narrado, a tristeza da menina feia apaixonada pelo filho do tambeiro e obrigada a casar com outro angustia o leitor. Angustia sobretudo pela forma como Clara se mantinha presa àquele mísero momento de quase-alegria, e sempre repetia para si mesma, como se estivesse condenada eternamente a andar em círculos: “... eu corria todos os dias de manhã cedo a receber-te na porta e tu me dizias ola e eu te respondia ola.” 
 
Em Felicia, segundo texto do livro, a história da mucama - contada por um narrador onisciente - começa a revelar a interdependência dos contos. A partir de Felicia, o leitor entrevê - um tanto abismado e a se perguntar: “Como ele faz isso?” - a grandeza do escritor. Ao longo de Os limites do impossível, o encanto se descortina gradualmente. De pequenos contos com histórias próprias e isoladamente repletas de sentido, o autor tece uma supra-história - e cria um romance. Talvez neste ponto resida o verdadeiro encanto estrutural da obra. Algo sem igual na literatura brasileira. 
 
“E Vidas secas?”, alguém dirá. Pois respondo: as diferenças são enormes. O livro de Graciliano Ramos é linear. E por vezes óbvio. O livro de Schlee, ao contrário, se desenvolve em narrativas labirínticas - ao melhor estilo borgiano - e misturadas, como a vida. Arrisco-me a dizer e me sujeito às pedras: Os limites do impossível (com toda a enorme carga de imaginação e invenção nele contido) soa mais real que Vidas secas (com todo o realismo que nele se pretendeu imprimir).  
 
“E onde entra Carlos Gardel nesta história?”, outro perguntará. Em tudo. E em muito pouco. Neste ponto reside mais um encanto do livro: Gardel não é citado. Fica como uma espécie de promessa. De porvir. Até nasce, na história de Manuela (“... um machito de quase dois palmos e cara mui redonda”), rebento do estupro e do incesto. A obra, porém, se ocupa em tratar profundamente do antes de Gardel. De como as coisas rumaram até ele. A figura central no livro é Carlos Escayola, pai do futuro tangueiro e de tantas outras crianças. Homem sedutor e mulherengo, capaz das maiores crueldades. Não entrarei em detalhes sobre ele, para não tirar do leitor o gosto - algumas vezes doce, mas em maioria amargo - da descoberta. 
 
De personagens reais (quase todos, ao menos), as histórias imaginadas ganham contornos que a realidade muito bem poderia ter dado. O cenário principal, onde se desenrola grande parte dos fatos, é a vila uruguaia de San Fructuoso, fundada em 1832 e que viria a se chamar Tacuarembó (sim, essa terra mítica onde, sim, também no livro nasceu Gardel). Em muitos trechos de Os limites do impossível  tem-se a nítida impressão de que o texto, pela construção das frases, foi pensado em espanhol. Nada mais coerente. 
  
Por enquanto, falta-me tempo à segunda leitura. Falta-me tempo para pensar melhor sobre pontos que ficaram insinuados e mereceriam mais atenção, como a estratificação social bem delineada dos personagens e a profunda oralidade presente nos diferentes estilos de narrar utilizados com maestria por Schlee; os não-dizeres de La Niña, por exemplo.
 
De certo, tenho que - pelo número de pormenores e peculiaridades narrativas - estamos diante de uma obra incomparável. De certo, tenho que cada linha, cada quebra de parágrafo e cada palavra valem o esforço do leitor. O livro vale ainda pelo muito que nele não coube, mas ficou indicado: inúmeras outras possibilidades. 
 
Schlee é homem da fronteira. E talvez isso diga tudo.

Pablo Rodrigues - Publicado no Diário Popular (Pelotas)
publicado por ardotempo às 01:41 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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