Segunda-feira, 12.04.10

Sobrevivem os deuses?

Último refúgio do Mito

 

Mariana Ianelli

 

Entre os sonhos de Borges, existe um em que os Deuses aparecem, voltando de um exílio de séculos, para desfilar tragicamente em uma Faculdade de Filosofia e Letras. Foragidas desde a ascensão da “lua do Islã” e da “cruz de Roma”, as divindades olímpicas regressam agora degeneradas, bestiais, sem o brilho dos velhos tempos, e acabam sendo baleadas pela platéia acadêmica. Este conto, do livro O Fazedor, é um bom exemplo de como repercute na modernidade o tema do desterro dos deuses e de seu massacre, enquanto força mágica, pela fuzilaria da erudição científica. A literatura como último refúgio do mito, no quanto inspirou escritores e artistas desde o Romantismo, faz lembrar Os Deuses no Exílio, do poeta alemão Heinrich Heine. 

 

Publicado primeiramente em francês, em abril de 1853, três anos antes do fim da vida e do exílio de Heine em Paris, esse texto causou alvoroço no meio literário não somente da França mas da Alemanha, onde chegou a circular clandestinamente, sob a censura, em versões não autorizadas pelo autor. A razão da popularidade de Os Deuses no Exílio, e de sua influência sobre inúmeros escritores, entre eles Gérard de Nerval, pode ser redescoberta agora com o lançamento, pela editora Iluminuras, de um rico material incluindo a tradução das versões francesa e alemã do texto, mais dois excelentes ensaios críticos, além de excertos dos Irmãos Grimm e textos de Théophile Gautier e Eça de Queiroz, que figuram, respectivamente, como amostra das fontes de pesquisa e dos desdobramentos criativos da obra de Heine na literatura. 

 

O livro traz ainda, em uma tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, o poema “Os Deuses da Grécia”, uma espécie de gênese da narrativa, composta por Heine quase trinta anos antes. Ali aparecem, como personagens de um espetáculo fantasmagórico, um Zeus destronado, uma Juno impotente, uma Afrodite avelhantada, que despertam no poeta a compaixão e a defesa dos deuses vencidos na luta com os deuses novos, “dominantes e tristes deuses, / a malícia na pele de carneiro da humildade”. Esta defesa do helenismo ressurgirá, com a mesma compaixão, e agora com um humor finíssimo, em Os Deuses no Exílio.  

 

Na versão francesa do texto, Heine começa contando a história de um certo bacharel Henri Kitzler, envolvido no megalômano projeto de uma “Magnificência do Cristianismo”, um manuscrito, no fim, atirado ao fogo, como “oferenda expiatória” aos antigos deuses mortos pelo triunfo da cruz. Com essa narrativa introdutória, o autor passa a olhar para os templos arruinados, “fortalezas de Satã” aos olhos dos cristãos, e o que o poeta vê, na derrocada dos costumes pagãos, é o espírito alegre do helenismo ser banido pela vitória de “nazarenos melancólicos”. Se em tempos primitivos os deuses foram expulsos do Olimpo pelos Titãs, obrigados a se refugiar na terra sob a forma animal, o cristianismo seria o novo gigante a rechaçar os deuses da terra, levando-os a mais uma metamorfose, agora sob a forma humana. Baco, irreconhecível debaixo do capuz de um monge tirolês, encarna aí perfeitamente a defesa do mito “na pele de carneiro da humildade”, retomando o poema de Heine. 

 

O conflito entre helenos e nazarenos, que o autor expõe logo nas primeiras páginas de Os Deuses no Exílio, aludindo a um conflito entre duas maneiras de pensar e sentir, caracteriza o próprio tom da narrativa, que oscila entre o jocoso e o melancólico. No relato do deus Mercúrio, por exemplo, bem se nota o humor de Heine. Disfarçado num homenzinho gorducho, de rosto avermelhado, vestindo uma roupa antiquada e um tricórnio, Mercúrio se apresenta a um pescador da costa oriental da Frísia para negociar com ele o transporte de “uma certa quantidade de almas, ou seja, tantas quantas couberem em seu barco”. Sendo o deus dos ladrões e dos comerciantes, como diz Heine, nada mais “natural que, ao escolher os disfarces sob os quais procuraria se esconder e a condição que lhe permitiria viver, levasse em conta seus antecedentes e seus talentos”. Foi assim que, entre um ofício e outro, “que diferiam entre si apenas por algumas nuanças”, Mercúrio optou “pela condição mais lucrativa e menos perigosa: o comércio, e, para ser comerciante por excelência, fez de si um comerciante holandês”.

 

Já no episódio do exílio de Júpiter, o quadro é predominantemente desolador. Em uma ilha do Polo Norte viveria o rei do mundo, em estado decrépito, coberto com peles de coelho, junto de uma velha cabra e um pássaro desplumado. Recebendo a visita de marinheiros que aportam na ilha por acidente, desviados da rota por uma tempestade, Júpiter reconhece entre eles alguns gregos e pede que lhe dêem notícias de sua terra natal. “Era curioso, contudo, que nenhum dos marinheiros conhecesse os nomes das cidades sobre as quais lhes fazia perguntas e que, segundo dizia, haviam sido florescentes em seu tempo. Por outro lado, os nomes pelos quais os marinheiros designavam as cidades e os povoados da Grécia atual lhe eram completamente estranhos. O ancião balançava a cabeça sem parar, mostrando abatimento, e os marinheiros se entreolhavam, surpresos”. 

 

O ensaio crítico de Marta Kawano, no livro, trata maravilhosamente da questão do exílio dos deuses e do estilo ao mesmo tempo “irônico e sentimental” de Heine, destacando os aspectos autobiográficos presentes na história de Júpiter ao final da narrativa. Para compor a figura devastada do personagem, “cujo destino, sendo ele o deus dos deuses”, conforme lembra Kawano, “é emblemático da derrota de todo o paganismo”, não faltaria a Heine o motivo de seu próprio exílio em Paris, e também da doença que o paralisou nesses últimos anos de vida.  

 

Além disso, vale a pena cotejar o relato de Heine com a versão de uma lenda nórdica, um dos apêndices do volume, sobre o desterro do deus Thor. Pode-se entrever aí como o autor utiliza criativamente suas fontes, reinventando-as. Sobre a atividade mitográfica de Heine, aliás, que abrange desde canções populares a livros eruditos, é precioso o estudo de Márcio Suzuki, intitulado “A Anatomia Comparada em Literatura”, expressão usada pelo próprio poeta em Os Deuses no Exílio. Confirma-se, com este ensaio, que o rastreamento de elementos mitológicos, exercido com argúcia por Heine, denota um trabalho que de longe transcende o de um pesquisador, pois seu desafio é reavivar na palavra o poder dos mitos e dar à escrita “uma fertilidade helênica”, como diz Suzuki, que “se contrapõe à linguagem esquálida e impotente dos ‘nazarenos’”. Pensando, portanto, na literatura como reduto dessa força mágica, seria interessante sondar, hoje, com olhos heinianos, sob quais formas literárias os deuses ainda sobrevivem.

 

 

© Mariana Ianelli

publicado por ardotempo às 15:03 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 26.03.10

A próxima atração

Livro recorda os 50 anos de televisão no Rio Grande do Sul – OS TELEVISIONÁRIOS

 

Denis Gerson Simões


Em um evento digno de show internacional, com cerca de 1.000 convidados presentes, foi lançado, nesta quarta-feira, 24/05, o livro Os teleVisionários, trabalho do jornalista Walmor Bergesch, profissional que foi um dos visionários da televisão no sul do Brasil. A recepção aos convidados ocorreu no Teatro do Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre, contando com a presença de autoridades e muitos dos personagens que construíram a história do veículo de comunicação mais popular do Rio Grande do Sul.

 

A publicação, que conta com 400 páginas de textos e 300 fotografias, faz um apanhado do transcurso da TV no passar de cinco décadas no sul do país, pincelando, também, fatos nacionais que repercutiram em âmbito regional. Mesmo não se tratando de um trabalho acadêmico, o conteúdo tem a seriedade e comprometimento de quem esteve presente nos principais acontecimentos que deram forma a este veículo em terras sulinas.

 

O prefácio é de Alexandre Garcia e conta também com participações de Luiz Fernando Veríssimo, Fabrício Carpinejar, Luís Augusto Fischer, Aldyr Garcia Schlee, Ignácio de Loyola Brandão, Claudia Tajes, Sergius Gonzaga, Gilberto Perin, entre outras personalidades.

 


Homenageando os primeiros visionários dessa epopéia, o autor, em solenidade, doou ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa uma placa comemorativa ao cinqüentenário da televisão no estado, tendo citados nela todos os profissionais que trabalharam na TV Piratini quando do lançamento do veículo, em 1959. Segundo Bergesch, aqueles foram os pioneiros do primeiro canal de televisão da região sul, o canal 5.


O autor realiza no livro um verdadeiro passeio pelo tempo, de modo descontraído, ao lembrar os personagens e as diversas emissoras que deram corpo a esta história.


Não ignorando a atualidade, o evento de lançamento trouxe uma projeção do futuro da televisão: as imagens em 3D. Em um telão, foram exibidos trechos de eventos captados com tecnologia de terceira dimensão, como o Planeta Atlântida 2010 e o Desfile das Escolas de Samba do Carnaval do Rio de Janeiro. Os convidados receberam óculos especiais para ter a recepção diferenciada, mas o autor de Os TeleVisionários ressaltou: "logo não será necessário o uso desses óculos". A ação não deixou de destacar o potencial midiático e tecnológico da Rede Brasil Sul (Grupo RBS) e da Rede Globo de Televisão.


O livro contou com patrocínio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Grupo CEEE e do Governo Federal, através da Lei do Mecenato do Ministério da Cultura.  Este financiamento mostra que é possível, através dos dispositivos de incentivo à cultura, buscar alternativas aos custos de lançamento de publicações pertinentes à sociedade, seja como audiovisual, seja como impresso. Bergesch acabou por marcar um acontecimento histórico que a própria mídia televisiva, figura central do cinqüentenário, acabou por ignorar. Trata-se de uma voz do mercado que passa a ser uma referência do tema, mesmo para o ambiente acadêmico, já que a questão da televisão no RS carece de maiores publicações dentro das próprias universidades gaúchas.


Denis Gerson SimõesMestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), membro do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation) e licenciando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

E-mail: <denis@portal25.com>.
Fontes: http://projeto.unisinos.br/cepos/ e http://projeto.unisinos.br/oddd

Imagem: Fotografia de Rafael Jacques (Na imagem, Alexandre Garcia, Chico Anysio e Walmor Bergesch)

publicado por ardotempo às 01:27 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 18.03.10

O livro de Maria Carpi

A palavra encarnada e repartida 

 
Mariana Ianelli - Resenha sobre o livro Abraão e a Encarnação do Verbo,
de Maria Carpi 
 
Abraão e a Encarnação do Verbo
Maria Carpi
Age Editora
120 páginas
 
Iniciar uma reflexão poética invocando clareza e humildade não é tarefa que hoje se possa dizer costumeira entre poetas, sobretudo no que se refere à humildade. Considerar, além disso, que a palavra seja sagrada, talvez chegue mesmo a provocar desconforto em alguns. Pois é a partir desta fé, e desta fidelidade, que Maria Carpi apresenta os fundamentos de sua arte poética em Abraão e a Encarnação do Verbo.
 
De origem italiana por parte de pai, Maria ainda guarda de sua infância em Guaporé as memórias de uma plantação de vinhedos e a imagem da mãe, com seu avental branco, preparando o pão. Quanto à paternidade de espírito, Maria se declara cristã-israelita, “essencialmente filha de Abraão e da Encarnação do Verbo”. Tem-se aí os pilares da história e da obra de uma poeta que, ao entremear a escritura da vida com as Escrituras Sagradas, fez de sua visão de mundo uma “metáfora viva”, o aprendizado do corpo e do sangue de Cristo desde o pão e o vinho da casa de infância.
 
Em seu livro, Maria Carpi evoca os autores que admira, como Martin Buber e Simone Weil, para juntar-se a eles na experiência de uma reflexão sobre o sagrado tão digna de interesse quanto se esperaria de uma contribuição no campo das reflexões científicas ou filosóficas. “E quem somos, por mais brilhante nossa capacidade de raciocinar, para arredar do mundo o espaço do mistério?”, questiona a poeta, para quem “o invisível não é uma abstração, mas uma concreção”. Deve-se a esta “ausência ardente” de Deus o princípio de toda criação humana. Com a queda do homem para a mortalidade, resta-lhe a virtude de ser fecundo, de continuar o “poema da criação” e dar fruto na palavra. A poesia cumpre aqui, tal como na vida, o caminho do regresso, de um crescente despertar da atenção, a capacidade de um sopro criador que “devolve o alento originário” e faz recordar ao homem sua morada. 
 
Se na liturgia os divinos mistérios são celebrados por meio dos sacramentos, na poesia o Inominável se deixa vislumbrar através do véu do simbólico. Essa aproximação do ato poético e do ato litúrgico, vale lembrar, também era cara à poeta italiana Cristina Campo, que via em ambos a presença daquele “esplendor gratuito, delicado desperdício, mais necessário do que útil”, um esplendor que remontaria ao gesto de Maria Madalena lançando o vaso de nardo sobre o corpo de Jesus. Afinada com essa gratuidade amorosa na raiz da poesia e da liturgia cristã, Maria Carpi reconhece que “toda criação é um ato que transborda”, assim como “toda graça é sem causa provável”.
 
Inspirada pela narrativa bíblica, a poeta vai do Antigo ao Novo Testamento, refazendo nesse percurso de leitura o caminho do exílio à terra da promessa. Assim, a Graça e a Paixão se encontram na exigência da vinda de Cristo contida nas palavras de Abraão a Isaac: “Deus proverá ele mesmo o cordeiro”. Por uma enunciação poética, Abraão precipita a Encarnação do Verbo. E quando “Deus desentranha-se de Deus para entranhar-se Filho do Homem”, dá-se o escândalo, o grande desconforto de um sagrado que tem corpo, que precisa ser amado, acolhido e respeitado no corpo do próximo, “justamente aquele do qual nos desviamos”.
 
Esta percepção de uma realidade sagrada entre os homens, e não acima deles, de um dever imediato para com o próximo, e não para com um Deus transcendente, incomoda pelo que de laborioso exige, porque perturba a inércia, delata o egoísmo e responsabiliza a todos por aquele que sofre, aquele que está ao alcance dos olhos e das mãos, e que aparece como um intruso, ainda que seja um irmão. Pois na “prontidão somos poucos”, diz Maria Carpi, somos poucos na disponibilidade da doação sem reservas, no “milagre do pão repartido”. E a poesia, por este mesmo critério de um pão que se reparte, requer uma entrega sem subterfúgios nem limites, um abrir-se ao desconhecido de tal modo que se possa acolher o outro, ser o outro, e desta semelhança entranhada desponte “a rosa do convívio”. Para esse encontro, Maria Carpi se prepara em silêncio. À maneira de uma semente, seu poema se vai desdobrando em oferta, até dizer: “extrema compaixão / extenuada, corpo a corpo / em sequidão, é de repente, / de ponta a ponta, estar maduro” (do 34º Canto de As Sombras da Vinha).
 
 
Mas o amor do poeta, assim como a vizinhança do outro, nem sempre é bem-vindo. Isto porque “somos também filhos da mesquinhez”, e, sobretudo, porque “há um pudor inexplicável, doentio, em dizer a palavra interdita: eu te amo na obra que não é minha”. Há aqueles que quando lêem não comparecem, nem compartilham. E ainda aqueles que escrevem não para retribuir, mas para renegar a vida. Abraão e a Encarnação do Verbo contempla também esse vazio, esse território infértil que coexiste com a literatura, a banalização do sagrado par a par com uma religião pessoal, os sete ais das bem-aventuranças. Nada falta, portanto, aos fundamentos de uma arte poética, com toda uma ética, uma estética e uma mundividência reconhecíveis no testemunho de uma vida. Doação, comunhão e apetência para o bem e para o belo atuam nesse livro duas vezes: como fé e como obra. Trata-se da palavra encarnada, do sagrado tornado visível na escada que sobra intacta, apontando para o céu, no meio dos jardins de uma casa demolida. Aos olhos da poeta, essa é a escada de Jacob.
 
Precioso, ao final do livro, o relevo dado às mulheres da Bíblia, desde Rute, Ester e Judite, até as irmãs de Lázaro, que já marcavam presença nos versos de Os cantares da Semente: “Marta sustenta, Maria consente / e aquele, irmão das duas, posto / à prova, é sepultado, semente”. Pois é assim que, em sua história de filha, mãe e avó, em seu trabalho de Defensora Pública e em sua rotina de ocupações domésticas não separadas do espírito, a poeta Maria Carpi convoca para sua vida as figuras emblemáticas de Marta e Maria, ação e contemplação jungidas pela fraternidade, para que um único dom se aprimore em seu mais alto grau de exercício: o dom de ver a dignidade nas coisas cotidianas tanto quanto na palavra que as designa. Entre as muitas razões para celebrar Abraão e a Encarnação do Verbo, por ora basta destacar a corajosa tarefa que a autora ali assume, de recuperar para a palavra esta dimensão sagrada, tantas vezes já depreciada ou esquecida, da qual provém uma poética dos sentidos, fonte da linguagem e da experiência criadora, sem dúvida, mas, antes disso, uma virtude simplesmente humana de se arriscar à vida e ao convívio.   
 
Mariana Ianelli
publicado por ardotempo às 00:42 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 19.02.10

Iluminar a vida

Aldyr Schlee - Os limites do impossível
 
Luis Antonio de Assis Brasil
 
As provas são inequívocas e devastadoras: Carlos Gardel nasceu em Tacuarembó, no Uruguai, resultado da relação adulterina de um coronel estancieiro. El Morocho silenciava acerca desse fato, o que é compreensível. Mais tarde surgiu a história de que teria nascido em Toulouse, na França. História forte, mas que não impediu Aldyr Garcia Schlee de dar como certo o polêmico nascimento no vizinho país e de escrever um dos mais curiosos e bons livros de nossa ficção literária: Os Limites do Impossível Contos Gardelianos, saído em 2009.
 
Schlee é escritor de longa estrada, com vários livros de contos e inúmeros prêmios nacionais, para além da distinção de haver desenhado o uniforme da seleção canarinho. Esse autor de tão variadas habilidades – também é professor universitário –, transita entre duas pátrias: o Brasil e o Uruguai. Publica no país vizinho e aqui mesmo. Possui tantos amigos uruguaios como brasileiros.
 
Tudo isso pode explicar que se tenha dedicado às raízes orientales de Gardel. A ideia de seu livro é de luxo: são 12 contos em que as protagonistas são 12 mulheres, reais ou imaginárias, que têm algo a ver com o nascimento do menino Carlos. E nessa tarefa Schlee saiu-se muitíssimo bem, compondo um quadro magnífico do Uruguai campestre, com suas contrastantes modalidades existenciais.
 
Clara, Felícia, Juana, Cisa, Blanca, Rosaura, La Niña, Manuela, Mulata-Flor, Cosntantina, Berta, La Madorelli... São mulheres das mais diversas condições e psicologias. Gardel é o Leitmotiv, mas mesmo que não o fosse, os contos sustentam-se em sua literalidade intrínseca, com suas frases de encanto e emoção: “Ela foi só e sempre apenas uma pobre moça desgraçada e desventurada que nossos bisavós conheceram de longe em San Fructuoso como La Niña; uma pobre moça morrendo de padecimentos e atribulações, uma pobre moça que morria de sentimento; aquela pobre moça morrendo-se de mágoa, morrendo de dor...”.
 
Schlee pratica o conto com estrutura que se desenvolve no tempo, e nos quais as personagens sempre terminam diferentes do que começaram. Tem-se a sensação, ao chegar à última linha, de que se leu um romance inteiro, um belo romance, capaz despertar em nós as maiores emoções que a autêntica literatura pode produzir. Estamos de parabéns e agradecidos a Schlee por nos iluminar a vida com esse livro.
 
 
Luis Antonio de Assis Brasil - Publicado no jornal Zero Hora
publicado por ardotempo às 00:59 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 03.02.10

Os espiões

Os espiões
 
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote (Portugal) / Alfaguara (Brasil)
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-20-3922-2 (Portugal)
ISBN: 8560281991 (Brasil)
Ano de publicação: 2009
 
O narrador de Os Espiões (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais e pelas cartas de recusa, ele afoga em álcool a sua insatisfação profissional e familiar, até ao dia em que começa a receber às prestações o manuscrito de uma certa Ariadne, candidata a escritora, cujo projecto literário consiste em revelar a sua história de amores proibidos e crimes de sangue numa cidade do interior (Frondosa), suicidando-se no fim.
 
Apesar dos erros ortográficos e da ausência de vírgulas, o texto deslumbra tanto o editor como os amigos com quem costuma discutir no bar do Espanhol. Acreditando na veracidade do relato, o grupo decide montar uma «Operação Teseu» que inverta o mito e salve Ariadne, presa ainda no labirinto (à mercê de um temível Minotauro de apelido italiano) ou já em Naxos, aguardando um Dionísio que a redima.
 
Exímio na caracterização das personagens, Verissimo oferece-nos uma galeria de tipos inesquecíveis, de que fazem parte o Professor Fortuna, especialista em sexo tântrico sem contacto físico e em tiradas definitivas sobre autores que não leu («A literatura terminou com Sófocles. Tudo que veio depois é post-scriptum.»); o «Uruguaio», milionário que ganhou a sua fortuna ao apostar contra o Brasil na célebre e traumática final da Copa do Mundo, em 1950, esbanjando o dinheiro, desde então, para expiar a culpa; e Afonso, director do jornal Folha de Frondosa, estalinista empedernido que procura, à falta de revoluções, criar uma «rosa de um vermelho inédito» – a que chamaria, claro está, Rosa Luxemburgo.
 
Nunca perdendo o fio da narrativa (muito bem arquitectada, com os vários elementos da intriga a encaixarem-se na perfeição), o escritor gaúcho conseguiu urdir uma história sólida mas leve, alucinante e divertidíssima, onde cabem De Chirico e Sylvia Plath, conspirações e plágios, sequestros e resgates, cemitérios e bordéis, exercicíos meta-ficcionais e crónica de costumes, literatura e futsal. Em duas palavras: uma delícia.
 
 

 

José Mário Silva - Publicado no blog Bibliotecário de Babel 

publicado por ardotempo às 13:50 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 21.01.10

Paris, de Vila-Matas

Paris não tem fim
 
 
Primeira página
 
"Fui a Key West, Florida, y me inscribí en la edición de este año del tradicional concurso de dobles del escritor Ernest Hemingway. La competición tuvo lugar en el Sloppy Joe's, el bar favorito del escritor cuando vivía en Cayo Hueso, en el extremo sur de Florida. No es necesario decir que presentarse a ese concurso - repleto de hombres robustos, de mediana edad y con poblada barba canosa, idénticos todos a Hemingway, idénticos incluso en su vertiente más estúpida - es una experiencia única. 

Yo llevo no sé ya cuántos años bebiendo y engordando y creyendo - en contra de la opinión de mi mujer y mis amigos - que cada vez me parezco más físicamente a mi ídolo de juventud, a Hemingway. Como nadie me ha dado nunca la razón en esto y yo tengo un carácter más bien fuerte, quise darles una lección a todos y, provisto de una barba postiza - que pensé que mejoraría mi parecido con Hemingway - me presenté este verano al concurso.

Debo decir que hice un ridículo espantoso. Y es que fui a Key West, concursé y quedé el último o, mejor dicho, fui descalificado, y lo peor de todo es que no me apartaron de la competición porque hubieran descubierto la barba postiza -que no la descubrieron-, sino por mi "absoluta falta de parecido físico con Heminway"."
 
 
 
© Enrique Vila-Matas (Paris não tem fim / Cosac Naify, Brasil 2007)
publicado por ardotempo às 19:51 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 25.12.09

Estrelas feitas de letras

A língua única de Schlee e suas múltiplas vozes
 
Joana Bosak de Figueiredo
 
Leio Os limites do impossível – Contos gardelianos, de Aldyr Garcia
Schlee. Com suas doze mulheres, que nos falam ou são faladas, Schlee
converte-se num escritor que entende plenamente o feminino. Sentimos o
que elas sentem e mesmo o que há de mais íntimo aparece na escritura
desse autor múltiplo.
 
Regionalista. Não. É pouco. Fronteiriço. Com certeza. Acima de tudo, universal.
 
Universal porque conversa e converge com o mundo e as vidas pequenas e
a escrita enorme e vigorosa de um registro único, de um autor idem.
Narrativa na fronteira, escritura no mundo. Quiçá a fronteira seja realmente o único lugar possível para estar no limite do impossível do universo que Schlee propõe.
 
Superamos a barreira limite. Superamos mesmo o entre lugar. A
fronteira é o lugar. O lugar onde se pode escrever numa língua única,
a língua de Schlee, que doma, alumbra e alambra aquilo que não pode
ser cerc(e)ado: uma identidade, uma maneira una, porém múltipla de ser
e estar nesse mundo tão homogeneizado por uma cultura de massa, mas ao
mesmo tempo, tão sedento de representações próprias de seu próprio
teto – ainda mais quando o teto são estrelas feitas de letras.
 
Ao ler Schlee se me escorrem as certezas e as tipificações acerca da
literatura regional, pois ela repete as pátrias pequenas de todos os
lugares, e isso a torna muito maior. Schlee bebe num tempo perdido que
parece que ficou pra trás, mas que nunca nos abandona – os Oitocentos,
tão únicos e tão fundadores de nossa cultura -, mas, ao mesmo tempo,
projeta o presente e o futuro numa linguagem que ziguezagueia entre o
ocorrido e o devir, como se o tempo passado continuasse sendo narrado
ad infinitum até virar o agora – e o que resta é o que somos hoje. E
aí somos brindados por “documentos” que atestam a existência “real
dos fatos em questão, como se estivéssemos lendo a correspondência
ativa de alguma personalidade do século XIX cuja voz só apareceu hoje.
Essa é uma narrativa intemporal, coloca-se, parece, no passado, mas
flerta como se fosse hoje, o tempo inteiro.
 
 
Nessa costura narrativa, Schlee não perde o fio da meada e o que
parecem ser contos interligados converte-se em um romance polifônico,
onde cada voz representa uma protagonista feminina que reveste de
significados próprios uma história coletiva com interpretações
pessoais de rara beleza e força marcantes. Todas elas têm razão. Todas
elas têm as suas razões. Todos os contos são delas e de quem mais for
narrando. E o perverso justifica-se; não fosse ele não existiriam doze
mulheres que contam e que são contadas, não haveria Gardel, não
haveria esse livro mágico de Schlee.
 
As múltiplas vozes de Schlee são proferidas por mulheres da vida, no
sentido de que são absolutamente verossímeis: elas estão – ou melhor,
estavam – nas fazendas, nos arrabaldes, no limite do urbano, nas
cidadezinhas de uma enorme fronteira que se alarga cada vez mais em
nosso imaginário: os limites entre o mundo hispânico e o luso no sul
da América do Sul e mais ainda: nos limites de um mundo real e de
outro inventado, onde as barreiras são tão tênues que impossíveis de
serem visualizadas. O que fica é a impressão de que tudo é possível
dentro dessa pretensa impossibilidade porque absolutamente visível nas
imagens e paisagens interiores dessas mulheres. A vida doméstica, a
alcova, os segredos, tudo aquilo que se sabe e que se oculta, tudo
sobre o que se deve calar está lá. Schlee não esconde toda a
devassidão de homens e mulheres, incesto, estupro, gozo, prazer. É nas
margens que tudo acontece. É na fronteira do impossível que vivemos e
escrevemos nossas vidas permanentemente.
 
Há espaço pra tudo na prosa de Schlee: para homens sedentos de sexo,
para mulheres que não abrem mão de seu prazer – por inusitado ou
amoral que seja -, para mucamas que vêem mais do que deveriam, para
chinas que não se contentam em ser chinas, para filhas que não são
apenas filhas, mas cúmplices, amantes, mães.
 
E essa é nossa América profunda. O sul, ao qual volvemos sempre, não
se olvida. E é no cruzamento – e não no entrechoque – dessa língua
particular que Schlee, tradutor, escritor e fronteiriço escreve. É uma
língua toda sua, o teto sob o qual se abriga. Sob o qual abriga as
raízes de sua cultura. Mas se as abriga, não as esconde, porque o trunfo
desses contos gardelianos é justamente uma realidade ficcional
verossímil completamente exposta.
 
Dói. Schlee não alivia. Mas um tango, para ser bem cantado, precisa
dessa dor. E se Gardel precisava de uma pré-história para existir ainda
mais completamente, ela já foi contada. E quem não acreditar que
invente um causo melhor. Depois de Schlee, há que ser muito bagual para
conseguir.
 
©Joana Bosak de Figueiredo

Os limites do impossível – Contos gardelianos. Aldyr Garcia Schlee.
Edições ARdoTEmpo - 2009   -  ISBN nº  978-85-62984-00-6
 
ardotempo@gmail.com
 
Imagem: Leonid Streliaev - "Uma fazenda decadente no meio do pampa"
- Fotografia (Fronteira Sul Rio Grande do Sul RS Brasil)
publicado por ardotempo às 14:11 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Quarta-feira, 23.12.09

Jogo de espelhos e de simulacros

Dom Carlos, verdades e mentiras de Gardel

 
 
Jogo de espelhos e de simulacros, narrativa que se declara ficção quando se quer realidade, conjunto de contos que na sua essência compõe um romance, polifonia de desgarradas vozes femininas – todas prisioneiras da obsessão de confessar o que em suas vidas são desejos proibidos, transgressões ilimitadas e sombras –, universo monstruoso e, paradoxalmente, lírico, de onde emerge a figura impenitente do fazendeiro Dom Carlos que, como um demônio do pampa, atrai, seduz e desgraça para sempre os corpos e as almas de suas vítimas. Ele, o que recebeu a maldição do sexo sem peias. Ele, o pai de Carlos Gardel.
 
Nesta realidade movediça, próxima da alucinação e da impostura, em que tudo é e não é, neste mundo movente transcorrem os acontecimentos do romance Os Limites do Impossível, de Aldyr Garcia Schlee, cujo subtítulo – Contos Gardelianos – já aponta para a natureza aberta da obra. Falsos contos, como falso talvez seja o Gardel que se origina dos amores interditos?
 
Além de renovar as possibilidades do relato histórico, tanto na estrutura quanto na linguagem, o texto de Aldyr (que vive isolado numa fazenda decadente em Capão do Leão), com seu toque de irrealidade, suas lacunas intencionais, sua atmosfera opressiva, suas paixões loucas, produz no leitor uma experiência de arrebatamento. Não lembro de ter lido na ficção brasileira da última década algo que me causasse tão fortemente a impressão de beleza pungente e de inventividade.

Sergius Gonzaga -  Professor de Literatura e Secretário Municipal da Cultura de Porto Alegre - RS Brasil
Publicado em Zero Hora (23.12.2009)
publicado por ardotempo às 12:16 | Comentar | Adicionar

Mulheres de Gardel

Gardelianas
 
 
 
 
Em novo livro - Os limites do impossível -, Aldyr Garcia Schlee faz ficção a partir de relatos de mulheres envolvidas com as origens do cantor Carlos Gardel
 
Você certamente já ouviu falar da controvérsia em torno das origens de Carlos Gardel – el morocho, el mago, o cantor de tango cuja voz se confunde com o gênero musical que representa teria nascido em Toulouse, na França, ou Tacuarembó, no Uruguai? A polêmica não existe, garante Aldyr Garcia Schlee.
 
O escritor, que nasceu em Jaguarão, sempre viveu entre o Rio Grande do Sul e cidades uruguaias como Melo e Treinta y Tres e hoje mora em Capão do Leão, zona sul do Estado, dedicou anos de pesquisa à vida de Gardel. Concluiu que sua alegada origem francesa foi um golpe “dedicado a tomar a sua herança”. Mais: fascinado pelo contexto ao mesmo tempo bucólico e sórdido em que o intérprete nasceu, escreveu um romance sobre o tema. Chama-se Os Limites do Impossível – Contos Gardelianos. E é um livro notável.
 
São 12 contos, cada um dando voz a uma mulher daquele contexto. Contos ou um romance?
 
Não sei – responde Schlee. – Minha ideia sempre foi contar uma história única, porém dividida em fragmentos que representam diferentes pontos de vista dos acontecimentos.
 
E que acontecimentos. Clara, título do primeiro desses fragmentos, vive numa morada rural em La Fructuosa, Tacuarembó. É apaixonada pelo filho do leiteiro, um amor platônico, doce, dotado de uma ingenuidade que combina com aquele ambiente mas que é quebrada quando ela se vê forçada a casar com outro homem. A partir daí, primeiro pelos olhos da mucama Felicia, depois da senhora Juana, o cenário que se revela é dos mais abjetos, com paixões incontidas, mentiras, traições em âmbito familiar, incesto. Tudo levando à figura – ou partindo dela – do Coronel Carlos Escayola, o pai de Gardel, e culminando com o nascimento do cantor de Mano a Mano.
 
Admito que há uma certa fabulação, por exemplo, na construção da personagem Mulata-Flor. Mas ela existiu. Tudo ali existiu – afirma o autor. – Há tanta verdade na história que, lá pelas tantas, decidi não mais ir a Tacuarembó. A casa onde Gardel nasceu está lá, o lugar permanece com as mesmas características. Como digo no livro, a semelhança entre o que é narrado e o que aconteceu não é só uma coincidência, mas a prova de que a realidade, como a ficção, também é feita do improvável, do inacreditável.
 
Os Limites do Impossível é um lançamento da nova editora porto-alegrense ARdoTEmpo. Está à venda com duas opções de capa.
 
ardotempo@gmail.com
 
 
Daniel Feix - Publicado em Zero Hora (23.12.2009)
Imagem: Gardeliana, desenho a tinta china e aguadas por Aldyr Garcia Schlee 
 
O mito
 
Carlos Gardel nasceu no dia 11 de dezembro. As referências biográficas mais recorrentes dão conta de que teria sido em 1884 ou 1887, em Tacuarembó, ou 1890, em Toulouse. Ele chegou a dizer que nascera no Uruguai, mas, depois de sua morte, um testamento que teria sido escrito pelo cantor dava conta de sua origem francesa.
 
Radicado em Buenos Aires, foi o criador do tango-canção, no final da década de 1910, que revolucionou e ajudou a popularizar o gênero. Lançou sete longas e dezenas de discos antes de morrer em um acidente de avião, em Medellin (Colômbia), em 1935.
 
O autor
 
O escritor Aldyr Garcia Schlee tem 75 anos e também é conhecido por seu trabalho como designer. É ele o criador da clássica combinação verde-amarela do uniforme da seleção brasileira, escolhida em concurso público nos anos 1950 – antes o Brasil jogava de branco ou azul.
 
Natural de Jaguarão, tem livros de contos publicados tanto no Brasil quanto no Uruguai. Entre eles, Linha Divisória, Uma Terra Só, Contos de Futebol e O Dia em que o Papa Foi a Melo, sobre o mesmo episódio retratado no filme O Banheiro do Papa (2007).

 

publicado por ardotempo às 10:39 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 07.12.09

O livro lido

Aldyr Schlee e o impossível

 
Pablo Rodrigues
 
Transito com cautela por estas linhas. E já começo o texto tendo que resistir a mim mesmo, tendo que resistir à vontade de largar tudo para reler Os limites do impossível - Contos gardelianos, sétimo livro de contos do escritor jaguarense Aldyr Garcia Schlee. Na verdade, este comentário que inicio é, no fundo, um atrevimento. Sim, porque diante de uma obra como a que acabo de ler o não dito sempre falará mais. E melhor. Atiro-me, portanto, ao não-sei-onde.
 
Em 12 contos narrados a partir da história de 12 mulheres, o leitor caminha sutilmente pelo que há de mais belo e também de mais terrível no espírito humano: amores, traições, melancolias, desejos, violações e muitos disparates. No primeiro conto, intitulado Clara e por Clara narrado, a tristeza da menina feia apaixonada pelo filho do tambeiro e obrigada a casar com outro angustia o leitor. Angustia sobretudo pela forma como Clara se mantinha presa àquele mísero momento de quase-alegria, e sempre repetia para si mesma, como se estivesse condenada eternamente a andar em círculos: “... eu corria todos os dias de manhã cedo a receber-te na porta e tu me dizias ola e eu te respondia ola.” 
 
Em Felicia, segundo texto do livro, a história da mucama - contada por um narrador onisciente - começa a revelar a interdependência dos contos. A partir de Felicia, o leitor entrevê - um tanto abismado e a se perguntar: “Como ele faz isso?” - a grandeza do escritor. Ao longo de Os limites do impossível, o encanto se descortina gradualmente. De pequenos contos com histórias próprias e isoladamente repletas de sentido, o autor tece uma supra-história - e cria um romance. Talvez neste ponto resida o verdadeiro encanto estrutural da obra. Algo sem igual na literatura brasileira. 
 
“E Vidas secas?”, alguém dirá. Pois respondo: as diferenças são enormes. O livro de Graciliano Ramos é linear. E por vezes óbvio. O livro de Schlee, ao contrário, se desenvolve em narrativas labirínticas - ao melhor estilo borgiano - e misturadas, como a vida. Arrisco-me a dizer e me sujeito às pedras: Os limites do impossível (com toda a enorme carga de imaginação e invenção nele contido) soa mais real que Vidas secas (com todo o realismo que nele se pretendeu imprimir).  
 
“E onde entra Carlos Gardel nesta história?”, outro perguntará. Em tudo. E em muito pouco. Neste ponto reside mais um encanto do livro: Gardel não é citado. Fica como uma espécie de promessa. De porvir. Até nasce, na história de Manuela (“... um machito de quase dois palmos e cara mui redonda”), rebento do estupro e do incesto. A obra, porém, se ocupa em tratar profundamente do antes de Gardel. De como as coisas rumaram até ele. A figura central no livro é Carlos Escayola, pai do futuro tangueiro e de tantas outras crianças. Homem sedutor e mulherengo, capaz das maiores crueldades. Não entrarei em detalhes sobre ele, para não tirar do leitor o gosto - algumas vezes doce, mas em maioria amargo - da descoberta. 
 
De personagens reais (quase todos, ao menos), as histórias imaginadas ganham contornos que a realidade muito bem poderia ter dado. O cenário principal, onde se desenrola grande parte dos fatos, é a vila uruguaia de San Fructuoso, fundada em 1832 e que viria a se chamar Tacuarembó (sim, essa terra mítica onde, sim, também no livro nasceu Gardel). Em muitos trechos de Os limites do impossível  tem-se a nítida impressão de que o texto, pela construção das frases, foi pensado em espanhol. Nada mais coerente. 
  
Por enquanto, falta-me tempo à segunda leitura. Falta-me tempo para pensar melhor sobre pontos que ficaram insinuados e mereceriam mais atenção, como a estratificação social bem delineada dos personagens e a profunda oralidade presente nos diferentes estilos de narrar utilizados com maestria por Schlee; os não-dizeres de La Niña, por exemplo.
 
De certo, tenho que - pelo número de pormenores e peculiaridades narrativas - estamos diante de uma obra incomparável. De certo, tenho que cada linha, cada quebra de parágrafo e cada palavra valem o esforço do leitor. O livro vale ainda pelo muito que nele não coube, mas ficou indicado: inúmeras outras possibilidades. 
 
Schlee é homem da fronteira. E talvez isso diga tudo.

Pablo Rodrigues - Publicado no Diário Popular (Pelotas)
publicado por ardotempo às 01:41 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 04.12.09

Feito do mesmo barro

A humanidade segundo José Saramago
 
Mariana Ianelli
 
Há muito tempo não se via um lançamento despertar tanta polêmica, sobretudo de ordem extraliterária. É assim que Saramago assiste à repercussão do seu novo livro, Caim, cuja controvérsia lembra os efeitos provocados por seu Evangelho segundo Jesus Cristo, dezoito anos atrás. Na época, a resposta do governo português foi a interdição da candidatura do escritor ao Prêmio Literário Europeu. Agora, com o surgimento de Caim, as reações novamente se inflamam, chegando ao disparate de um eurodeputado exortar Saramago à renúncia de sua cidadania. Às declarações políticas, somam-se as admoestações religiosas, que são muitas e talvez mais interessantes. 
 
Se antes o autor se detivera no Novo Testamento para escrever seu Evangelho, agora sua atenção se volta ao princípio dos tempos, em uma jornada do pensamento e, por que não dizer do espírito, por algumas das mais célebres passagens do Antigo Testamento. É a figura estigmatizada de Caim que protagoniza essa história, na qual Saramago mescla episódios de diferentes tempos bíblicos sob a perspectiva de diferentes presentes no tempo da narrativa. Em cada um desses “presentes”, visitados pelo personagem em seu destino errante, uma “vítima de deus” se apresenta, seja no sacrifício de Isaac, no sofrimento de Jó ou na destruição de Sodoma.
 
Saramago se propõe a ler a Bíblia à letra, daí a censura que os católicos lhe fazem: desconsiderar uma leitura simbólica. Quantas sejam as interpretações possíveis, para o autor de Caim interessa que o texto bíblico, tal como está escrito, não seja suprimido ou mascarado. Em conversa com o teólogo José Tolentino Mendonça, em outubro deste ano, na ilha de Lanzarote, o escritor chegou a afirmar que, ao menos no seu “estado de espírito presente”, considera este recente trabalho o seu melhor livro. Tolentino, porém, acredita que a narrativa não possui a complexidade de seus outros romances. Entre um extremo e outro, vale ressaltar a prodigiosa fluidez e o humor que há nas páginas de Caim.
 
Grafado em letras minúsculas, como todos os personagens do romance, deus aparece na narrativa feito do mesmo barro da sua criatura, à imagem e semelhança dos homens. Vaidoso, irônico, temperamental, faz que governa o mundo mas quase sempre está ausente, é um deus que se equivoca, que promete e não cumpre, que promove acordos tácitos e, quando se trata da disputa de poder, não hesita em pôr seus filhos à prova. Por meio deste personagem muitas vezes jocoso, absurdo, repleto de vícios mundanos, Saramago, valendo-se da mordacidade que lhe é peculiar, coloca em ação seu testemunho da violência, do terrorismo fundamentalista, da hipocrisia humana. Quanto aos mistérios da fé e aos desígnios do coração, neles o escritor não toca, nem é para isto que se lhe dá a palavra: “o inefável, como sabemos, é precisamente o que está para lá de qualquer possibilidade de expressão”.
 
É, pois, com este deus de tantos caprichos e impulsos que Caim divide a culpa pela morte de seu irmão Abel. Culpado Caim por ter escolhido matar, culpado deus por ter preferido um filho a outro. Começa aí a odisseia do protagonista, vítima do menosprezo divino, condenado a vagar indefinidamente pela terra, ao longo da história do passado e do futuro, em meio a “batalhas de uma guerra infinita” em que o sangue de Abel se perde no sangue de centenas de milhares de vítimas. Caim serve ao exército de Josué, trabalha nas propriedades de Jó, acompanha Abraão e os anjos do senhor até Sodoma, e em cada um desses episódios bíblicos vê multiplicarem-se as mortes, as súplicas, o saldo da humilhação e da injustiça.
 
Saramago transplanta o filho fratricida de Adão e Eva para gerações pós-diluvianas, e a humanidade que se devia supor renovada, limpa da crueldade da descendência de Caim, ao contrário, revela-se igualmente sanguinária. Por tudo o que vê nessas incursões pelo “presente-futuro”, o protagonista vai nutrindo seu pessimismo e sua revolta: “Alegria, perguntou a si mesmo, para caim nunca haverá alegria, caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus”.
 
Entre idas e vindas no tempo, já cansado das “costumadas destruições e dos costumadíssimos incêndios”, Caim retorna à terra de Enoch e tem-se aí o capítulo mais belo do livro. Permutando os mitos pela Bíblia, o autor encena, no reencontro dos amantes Lilith e Caim, o reencontro de Penélope e Ulisses. Os movimentos sucedem-se como num jogo de espelhos. Vale a pena citá-los aqui, lado a lado: “(...) depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo/ de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro. / (...) / Ele começou por contar como primeiro venceu os Cícones / e chegou depois à terra fértil dos Lotófagos. / Também tudo o que fez o Ciclope (...)” (Odisseia, Canto XXIII). Em Caim: “Tranquilizados os espíritos, compensados da longa separação dos corpos com juros altíssimos, chegou o momento de pôr o passado em ordem. (...) Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu (...)”.  
 
O ar de gravidade que uma releitura do Antigo Testamento poderia implicar, Saramago subverte-o pelo humor, ou ainda, com um sarcasmo que rompe toda espécie de servilismo diante dos limites do sofrimento humano. Na voz da mulher de Jó, o escritor ataca: “o mais certo é que satã não seja mais que um instrumento do senhor, o encarregado de levar a cabo os trabalhos sujos que deus não pode assinar com seu nome”. Também beiram a caricatura as aparições do senhor na terra, com cetro em punho “como um cacete”, ou “em fato de trabalho”, manifestando-se “em meio de um trovão ensurdecedor e dos correspondentes relâmpagos pirotécnicos”. Impossível evitar o riso no episódio da construção da Arca de Noé, quando Caim aponta um erro nos cálculos de deus usando o princípio de Arquimedes.
 
Fim da viagem pela história dos tempos, no dilúvio se dá a grande revanche de Caim. Não podendo matar a deus, o filho desprezado, como antes assassinou Abel por despeito, agora boicota o projeto de uma nova humanidade. Aquele que havia sido o senhor das guerras, o causador de tantas vítimas, é ele mesmo vitimado, condenado ao abandono, um criador sem criatura que lhe obedeça ou o glorifique, em outras palavras, um deus destituído da violência que os homens costumam imputar à sua vontade.
 
Ninguém percebe que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino?”, questionava Saramago, três anos atrás, em entrevista ao jornalista Edney Silvestre. Esta mesma pergunta continua soando, irrequieta, nas páginas de Caim. Ateu convicto e, no entanto, constantemente aferrado à ideia de Deus, Saramago admite ter como uma de suas grandes influências o padre Antonio Vieira, cujo Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma bem poderia ter lhe servido de centelha para o Ensaio sobre a cegueira. Sob esse aspecto, o cenário cataclísmico desse romance mostra do que é capaz a espécie humana finalmente livre do imperativo do Decálogo. O próprio escritor, que se diz “empapado de valores cristãos”, assegura que “para fazer um ateu como ele, é necessário um alto grau de religiosidade”. Mas, à parte as vinculações e desavenças do escritor com a religião, que acendem aqui e ali a fogueira dos debates, por vezes ofuscando a própria literatura, cabe pensar no homem, e no entorno que ele modifica à sua passagem, a partir da obra de Saramago. 
 
Outra questão que mereceria um olhar mais aprofundado, tanto da crítica, como do público leitor, consiste não apenas na vasta incidência de temas bíblicos na literatura moderna e contemporânea, mas, em especial, na reincidência da figura de Caim, agora com o relançamento de O Deus de Caim, de Guilherme Dicke, pela editora Letra Selvagem, e As vozes do sótão (ed. Cosac&Naify), de Paulo Rodrigues, que também traz à tona as memórias de um personagem enjeitado, oprimido, moralmente devastado pela falta de amor. Que esse fenômeno propicie uma reflexão sobre o contexto em que tais livros aparecem, hoje, à cena literária, para se avaliar mais suas “significações terrestres” do que suas implicações teológicas. Assim, é provável que a discussão suscitada por Caim, de Saramago, inverta a contento o pressuposto da “provocação pela provocação” e comece a ser considerada sob aquela outra perspectiva que o escritor já assinalava em A viagem do elefante, seu romance anterior: “Quem diria que a moral nem sempre é o que parece e que pode ser moral tanto mais efetiva quanto mais contrária a si mesma se manifeste”.  
 
Mariana Ianelli 
publicado por ardotempo às 00:43 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Quarta-feira, 04.11.09

CAIM é bom

 
O romance CAIM de José Saramago é boa literatura e, simplesmente, como uma obra de literatura, é que deve ser lido. Não como um tratado teológico ou uma bula de atentatória interpretação eclesiástica. Como tudo é inventado, biblia e romance, Saramango tem o direito de criar literariamente o que quiser. Nem estará mentindo ou profanando o quer que seja. Estará estimulando muitas perguntas, multiplicadas reflexões e a imaginação liberta, num exercício maravilhoso de inventividade. O seu texto, de luminosidade contemporânea, é pleno de remissões de hiper-texto em linguagem web, magistralmente incrustradas em barroco e resulta cinematograficamente fascinante em sua esgrima de inflexões passado/futuro, sempre o seu presente metafórico.
 
A construção do entrecho circula em volutas que visualmente resultam em puro cinema: há flash-backs, passagens de tempo, verduras luxuriantes, desertos monocromáticos, salteadores obscuros submetidos a efeitos especiais em que as espadas transformam-se magicamente em serpentes coruscantes a escalarem com agilidade braços petrificados, sexo, muito sexo em contraplanos de secretas luzes filtradas, serial-killers em disputas celestiais, querubins disfarçados sob rústicos tecidos encardidos, uma epifania. Um arraso.

Vale a pena. Leia o livro. Você vai se divertir muito.

publicado por ardotempo às 16:17 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

Pesquisar

 

Fevereiro 2012

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29

Posts recentes

Arquivos

tags

Links

Vale a pena visitar


Verdes Trigos Cultural

Visitantes

Tradutor Torto

PageRank
eXTReMe Tracker