Sábado, 14.01.12

Poema de Pedro Gonzaga

soneto

 

tormentoso desejo agora vivo

só por vos ter tão perto, doce amiga

conturba-se-me ardente o sangue à briga

que com malícia ergueu amor esquivo

 

encontro e logo perco meu juízo

quis razão evitar minha desdita

mas se ao vos ver um não sei quê se agita

sois perdição e incêndio e paraíso

 

encarnação da dádiva primeira

semideia que um árabe cantava

em vós respira a flor da laranjeira

 

primavera que esconde a verde fava

aniquilai-me a paz, feroz cegueira

toda nudez que vossa mão guardava 

 

 

© Pedro Gonzaga, 2012

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Quarta-feira, 21.12.11

Para lembrar, ler, sentir, chorar e viver

 

 

 

 

Mostra-te.

 

És pela última vez

A região que nos orientou para a vida.

As tropas se apoderam da tua antiga superfície,

Um povo inumerável voltou

Para reconquistar a terra da família.

 

O trabalho é surdo e vagaroso:

Rebentar os rios, chamar a correnteza,

Vencer montanhas inimigas

Até que tudo novamente ressuscite

No deserto de um mundo indivisível.

 

Abre-te, mas não como antes

Para a nossa gente te abrias:

Tens de parecer generosa

Com quem assume tua hegemonia.

 

As paredes rangem: é o teu grito de partida.

E todo o resto que desaba contigo:

O caleidoscópio imaginário,

A esperança fraturada em mil antíteses,

Os espetáculos do meio-dia,

Quando represávamos um pouco mais

A nossa eterna angústia feminina.

 

Lembra que antes de nós nada havia

Que não fosse uma ausência tranquila,

O firmamento aprisionado

Dentro de um continente movediço...

 

Realizamos em ti a história dos nossos nomes

E, num surto de abstração, certo dia,

Levitamos sobre o jardim que te acolhia.

 

Hoje, um outro incendeia a torre

E põe abaixo a genealogia das tuas filhas.

Imita a nossa queda desmaiada,

Que surtirá numa implosão,

E juntas teremos submergido.

 

Age naturalmente:

entrega-te humilde,

Não te agarres a nada,

não resistas.

 

Nua, de braços abertos,

És pela última vez a deslumbrante cortesã,

Fonte da nossa mitologia.

 

Agora morre.

 

 

© Mariana Ianelli, 2011

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Quinta-feira, 20.10.11

Um presente da poeta

Um poema inédito de Mariana Ianelli

 

 

 

 

 

ARCA DA LEMBRANÇA

 

 

 

 

Um sol de opala se uma tarde é pasto da memória,

Uma luz de chá dourando o canto cego de uma sala

E sobre a mesa, o espelho d'água

 

A ocasião do ato secreto

 

De repovoar veredas, antros, mirantes do passado,

Saudade que vai juncando de ramos, conchas e corais

Todo o imenso dorso de um barco naufragado.

 

 

 

 

© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2011

 

 

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Sábado, 08.10.11

Um poema

(Um poema de Paulo José Miranda)

 

Porque o mundo não acaba
 Estender-se-á pelos dias longos e difíceis
 Transformar-se-á em areias invisíveis
 Realmente invisíveis
 Longínquas aos sentidos e entendimento
 Como sentimentos antigos que os humanos tiveram
 Porque a vida não acaba nunca
 Arrastar-se-á até que não se possa nada
 Não se possa nada senão ver e chorar
 Porque os sonhos que nos visitam nas noites do mundo não acabam
 Só o sono o sono só o sono
 Se acaba ao acordar
 
 
publicado por ardotempo às 14:11 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 19.08.11

Noção imprecisa

Barafunda

 

Um magnífico samba e poema de Chico Burque sobre uma certa imprecisão, algo sobre a perda da memória, a dificuldade das lembranças, dos fatos e dos nomes.

 

 

 

" ... antes que oesqui...

o esquecimento baixe o seu o manto,

seu manto cinzento..."

 

 

 

 

Fotografia de Mauro Holanda

publicado por ardotempo às 17:49 | Comentar | Adicionar
Sábado, 25.06.11

Mar, areia, pedra


Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen

 
 

 

Em todos os jardins hei-de florir,

Em todos beberei a lua cheia,

Quando enfim no meu fim eu possuir

Todas as praias onde o mar ondeia.

 

Um dia serei eu o mar e a areia,

A tudo quanto existe me hei-de unir,

E o meu sangue arrasta em cada veia

Esse abraço que um dia se há-de abrir.

 

Então receberei no meu desejo

Todo o fogo que habita na floresta

Conhecido por mim como num beijo.

 

Então serei o ritmo das paisagens,

A secreta abundância dessa festa

Que eu via prometida nas imagens.

 

 

 

© Sophia de Mello Breyner Andresen


Enviado por Mariana Ianelli

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Quinta-feira, 28.04.11

Fragmentos visuais de um poema - I

 

As vozes, de novo, as vozes

 

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 16:19 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - II

 

Haja fome, haja fúria!

 

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 16:16 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - III

 

 

Esposas entrelaçadas, virgínias

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 12:37 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - IV

 

Venham pequenos e grandes,

venham graves e agudos

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 12:25 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - V

 

Dentes e membros e fendas e cicatrizes

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 12:15 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - VI

 

Cantem por medo e sorriam

 

 

 


 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 12:06 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - VII

 

 

Cubram-se de moedas, esquartejem a música!

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 05:29 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - VIII

 

 

Seda, escarlate, marfim e ouro, muito ouro

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 05:05 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - IX

 

 

Dissimulem qualquer resquício de alma

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 05:01 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - X

 

 

Não se sintam culpados

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 01:20 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - XI

 

 

Não chorem

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

 

publicado por ardotempo às 01:08 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - XII

 

 

Dói a falta de recato?

 

 

 

 


 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 00:54 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - XIII

 

 

Vai subindo a fumaça do riso

 

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 00:51 | Comentar | Adicionar

Fragmentos visuais de um poema - XIV

 

 

As vozes, de novo, as vozes

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli,  2006

publicado por ardotempo às 00:49 | Comentar | Adicionar
Sábado, 16.04.11

Poema inédito de Mariana Ianelli

 

 

Legião

 


 

As estátuas cobertas de hera

Os casulos debaixo da escada

O chão traidor, esverdeado

 

Mas ninguém se lembra

Que em outros tempos

Coisas minúsculas se agarravam

E cresciam atrás dos reposteiros

 

Toda uma orgia assim igual a essa,

De trepadeiras e crisálidas,

Um miasma de verdades escondidas

Que a seu tempo conquistaria tudo

Sob este sol das três da tarde

Rebentando, arremetendo

Sem mais fazer sombra pela casa.


 

 

 

© Mariana Ianelli, Legião, 2011 (Iluminuras)

 


 

 


 

publicado por ardotempo às 14:39 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 07.04.11

Dois poemas de Mariano Shifman

Aguas corrientes

 

Sin ellas, no sabríamos de Tales,

de la balsa del dios Marduk,

de Noé, los pecados y el diluvio


de los hombres que ellas fustigaron

por ser males de tierra y agua, barro.

 

Semilla y transporte de todo lo que vive,

origen del velado origen:

sin ellas hay sequía, sed y muerte;

sin ellas nunca jamás

no habría muerte, sequía ni sed.

 

Nada se da sin algo a cambio.

 

La espuma de vivir fluye incesante

aguas arriba, aguas abajo,

amigo Heráclito:

con ritmos y colores según suerte

 

por márgenes urdidas de antemano.

 

© Mariano Shifman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

_____________________________


Peter Pan
 

Decir No

es huir felizmente

de los puntos de arribo,

atreverse a ignorar tierra firme.

 

Agua y aire quiero, y maravillas

que me aparten de cualquier destino.

 

Nunca regresaré del buen jamás:

pulvericé las piedras del obligado.

Y si la realidad insiste

convoco a las sirenas y al olvido.

 

No más palabras, sólo recreo;

quiero colores, tesoros a mano

y tiempo de hadas para mí

 

doce años toda la vida.

 

 

© Mariano Shifman

 

 


 

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Sexta-feira, 25.03.11

Limerique

Sobre o limerique

 

Cleonice Bourscheid

 

Limerick é um poema de cinco versos.

Tem sua origem na Irlanda, mais precisamente na cidade de Limerick, que lhe emprestou o nome.

Sua estrutura é formada por dois versos maiores seguidos de dois menores e um do tamanho dos primeiros.

Geralmente se utilizam 7 sílabas nos versos maiores e 5 nos menores.

Ou as maiores podem ter 10 a 12 sílabas e as menores, 7 a 8.

Os versos maiores rimam entre si, o mesmo acontecendo com os menores.

O tema é amplo, mas o estilo original do Limerick é a crítica, a ironia, a galhofa.

 

O primeiro verso tradicionalmente introduz uma pessoa e um lugar,

o lugar aparecendo no final do primeiro verso estabelecendo uma rima para o segundo e o quinto.

Nos limericks originais, o último verso era essencialmente uma repetição do primeiro,

embora hoje em dia não seja mais usual.

 

A referência mais antiga encontrada é um poema de São Tomás de Aquino (1225-1274),

que se encaixa no padrão métrico.

 

Sit vitiorum meorum evacuatio

Concupiscentae et libidinis exterminatio,

Caritatis et patientiae,

Humilitatis et obedientiae,

Omniumque virtutum augmentatio.

 

Tradução:

 

Que meus vícios sejam esvaziados

O desejo e a luxúria banidos

Caridade e paciência

Humildade e obediência

E todas as virtudes aumentadas.

 

Let my viciousness be emptied,

Desire and lust banished,

Charity and patience,

Humility and obedience,

And all the virtues increased.

 

Esta forma foi popularizada por Edward Lear (1812-1888) no seu Book of Nonsense.

Era muito respeitado como artista e chegou a dar aulas de desenho para a rainha Vitória.

 

There was an Old Man with a nose,

Who said, "If you choose to suppose,

That my nose is too long, 

You are certainly wrong!"

That remarkable Man with a nose.

 

Um certo velhote narigudo

Xingava: Não diga, seu posudo,

Que meu nariz é comprido

Você é doido varrido

E coçava o nariz com dedo e tudo.

 

A avezinha caiu na panela

Vovó cozinhou com canela

Na hora do almoço

Foi aquele alvoroço

Vovô tropeçou na panela.

 

Romilda a velha birrenta

Toma café com pimenta

O velho curioso pergunta:

Isto alimenta?

Que lhe importa? retruca a birrenta. 


 

Cleonice Bourscheid

publicado por ardotempo às 02:27 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 15.02.11

Homenagem ao poeta e músico

Sax-O-Phone

 

 

 

Homenagem ao mestre Pedro Gonzaga, escritor, poeta e músico.

 

o aprendizado


Pedro Gonzaga


ainda estava no colégio

quando comecei a tocar saxofone.

depois que as aulas terminavam

eu ficava na imensidão da sala

em meio as tias da limpeza

maltratando o sax weril

que meu pai comprara usado

com dois vazamentos

e três amassões.

então não conhecia coltrane

sonny rollins e gato barbieri

não conhecia paul desmond

charlie parker e cannonball

pouco sabia sobre

boquilhas

palhetas

técnicas de digitação.

eu soprava com a força

destemor

e destempero

tinha no peito

colunas e colunas de ar

para desperdiçar.

pobres tias da limpeza

penso em vocês agora,

que nunca ouviram

minha evolução.

esta melodia de agora

é para vocês,

nobres tias

por nunca reclamarem

do som de pato

enquanto levavam a faxina

depois do trabalho de um dia inteiro.

onde quer que estejam,

benditas tias

quero que saibam que foram

meu melhor público,

o mais gentil,

pois nunca mais encontrei

tamanha tolerância

para a imperfeição.


© Pedro Gonzaga

publicado por ardotempo às 22:40 | Comentar | Adicionar
Domingo, 13.02.11

Pássaro das águas

 

Taim

 

Cleonice Bourscheid

 

Suave plana a ave,

grande e cinzenta,

anunciando a manhã:

Taim, taim,taim

 

Sob o céu do banhado

ao entardecer entoa

seu sagrado canto:

Taim, taim, taim


O Tachã no afã

de proteger o ninho

emite estridente grito:

Taim, taim, taim


Por vezes aflito

chama o próprio nome:

Tachã, tachã, tachã.


Um santuário escondido

no Rio Grande de São Pedro:

Taim, taim, taim

 

 

Taim


Swiftly flows the bird,

big and grey,

announcing sunrise:

Taim, taim, taim

 

Under the sky

of the marsh

at sunset sings

its sacred cry:

Taim, taim, taim

 

Willing to protect its nest

Tachã readily cries:

Taim, taim, taim


At times worried

calls for its own name:

Tachã, tachã, tachã


A hidden sanctuary

in Rio Grande de São Pedro:

Taim, Taim, Taim


© Cleonice Bourscheid - Taim, 2011

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publicado por ardotempo às 22:57 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 25.01.11

Cadernos antigos

Cadernos da memória

 

 

 

Caderno antigo

 

Escrevi o poema

no caderno antigo

as folhas restaram

amarelas

 

Refiz o poema

revolvi fonemas

rimas e versos

brancos

 

Risquei nomes

rasguei ausências

fantasmas,

palavras

doídas

 

(na dúvida,

despi-me

de todas elas)

 

Incerta,

a traça

(indiscreta)

devora na hora

(voraz)

letra, lira e rima

 

(o que era

poema

transformou-se

no instante)

 

 

©Cleonice Bourscheid

 

Imagem publicada por Jornalista Vaz

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Quinta-feira, 13.01.11

Ilusão adamantina

 

 

Imperativo


Pedro Gonzaga

 

 

Se puderes pedir uma coisa

a Júpiter

pede uma ilusão adamantina

não a verdade.

Somente filósofos e tolos,

inquisidores

e síndicos

estão atrás da verdade.

 

Se puderes fechar os olhos para o real

fecha agora.

Não te preocupes,

antes,

aproveita.

Hão de acordar-te os credores

a dor no ciático

o fingimento da mulher

que nunca se entrega

e que julgas siderar

com tuas carícias de manual,

enquanto ela organiza no teto

uma lista de afazeres vitais.

 

Percebes?

Somente em sonhos

podes ser quem imaginas

apenas em tua memória

seletiva

tuas ações recebem

a devida camada

de nobre pátina.

Por isso, nega as fotos

foge dos amigos

sentimentais

e nostálgicos

evita as reuniões de

dez

de quinze

de vinte anos

da formatura do colégio.

 

Investiga menos,

questiona menos,

de que te serve

a dúvida e

o relativismo

vetusto

dos pós-modernos?

Não há fatos,

só versões, dizem.

Ora, deixa que guardem para si

tais patacoadas,

elas não podem te salvar.


Se puderes pedir uma coisa

a Júpiter

pede uma ilusão adamantina

não a verdade.

Porque somente filósofos e tolos,

inquisidores

e síndicos

estão atrás da verdade.

 

 

 

 

 

Pedro Gonzaga - Escritor e poeta

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publicado por ardotempo às 15:27 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 10.01.11

Foi num café do Centro

 

 

Foi num café do Centro

 

Pedro Gonzaga

 

foi num café do centro

há muito passara a primeira juventude

e pesava sobre os dois

o silêncio das palavras não ditas

 

já não era ela aquela jovem

já não era ele aquele inapto,

e por isso,

porque certa doçura

só se colhe na alvorada

 

havia aspereza no reencontro

aos poucos,

ela passou a falar de suas conquistas profissionais

do primeiro casamento desastroso

do segundo casamento recém-encerrado

 

ele tinha menos feitos a oferecer

o divórcio ainda vivo

e um filho

o único emprego público e insosso

que tomara depois da faculdade

 

neste café do centro,

que ameaça fechar as portas

ambos têm a sensação de que a vida

é um veloz desperdiçar de tudo

 

onde fora parar o desejo que os animara?

quão ridícula lhes parece agora

a esperança de um beijo

de um encontro furtivo ao fim da tarde

 

o garçom volta a surgir

pergunta

sem esconder o enfado

se ainda querem alguma coisa,

comunica que a cozinha

está por fechar

 

os dois se olham e se desolham

se pudessem ainda pedir alguma coisa

seria uma nova tarde aos 17 anos

mas o que poderiam pedir agora?

 

o que se pode pedir quando o café já vai fechar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Gonzaga

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publicado por ardotempo às 12:23 | Comentar | Adicionar
Domingo, 26.12.10

O exíguo livro de versos

Formigas do Colorado


Pedro Gonzaga

 

 

 


À luz de um sol branco

- dezembro arde em Porto Alegre -

busco abrigo às cegas

na fachada do antigo sebo

tantas vezes percorrida

em horas mais cálidas.

 

Mergulho na penumbra,

e um cheiro doce

que sabe a mofo

brota dos cadáveres,

silenciosos e encadernados faraós

desprovidos de pirâmides.


Enquanto meus olhos

se acostumam à noite ali dentro

meus dedos percorremcom vaga cautela

as estantes empenadas em que

livros de fantasiosas ciências,

roucos,

apelam da escuridão:

um compêndio de biologia,

um tratado de química orgânica em espanhol

que cansou de dizer a realidade em 1940,

tantos carbonos e hidrogênios

inutilmente

desperdiçados.


Pouco depois,

uma grossa lombada diz

em inglês

Fomigas do Colorado.


Assusta-me o fato de que um homem

perdido entre longínquas montanhas

tenha dedicado sua vida às

formigas do Colorado.


Que promessa de felicidade terrena

ou eterna

pode levar alguém

a dedicar a força de seus membros

a usina de seu cérebro

o combustível limitado das gônadas

às formigas do Colorado?


Quase posso vê-lo,

senhor das formigas,

circunspecto

lustroso de autoridade,

garboso na sala decorada com esmero

madeiras escuras

e envernizadas

o feltro verde sob o tampo

o digno gabinete

do digno autor de

Formigas do Colorado.


Você não tem seriedade,

mr. Gonzaga,

você se farta na galhofa.

Onde está sua obra,

mr. Gonzaga,

onde está o seu legado?


A custo

penso nos dois volumes de contos

e no exíguo livro de versos

à espera de publicação.


Uma coisa, no entanto, me consola,

senhor Formigas do Colorado,

e a você dedico este semi-sorriso frouxo

que meus lábios não labutam para manter:

eu estou aqui,

vivo,

meu sangue ferve,

posso ser fera esta noite,

meus músculos vibram

e tenho uma mulher

que me espera.


Tudo isso passa, eu sei,

mas, ah,

que se fodam

as formigas do Colorado.

 

 

 


Pedro Gonzaga

publicado por ardotempo às 17:44 | Comentar | Adicionar

Dois

Metade


Dividi em dois o que era inteiro,

escolhi uma das partes,

a outra joguei fora.


Quitei dívidas, virei metade,

com a verdade de quem

pega o melhor.


Como quem não tem certezas,

agora procuro o pedaço,

que de mim quer inteira.

 

 

 

 

 

 


Isolde Bosak

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publicado por ardotempo às 17:12 | Comentar | Adicionar

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