Domingo, 01.01.12

Para começar bem o ano

Mariana Ianelli - Entrevista

 

Poesia e mística: o silêncio como origem e destino.

 

Entrevista com Mariana Ianelli - IHU On-Line

 

“O tempo interior, de silêncio, paciência e meditação, tem sido cada vez mais preterido pelo imediatismo, que é a noção de um tempo dessacralizado. A mística e a poesia, contra essa engrenagem perversa, nos fazem lembrar de um amadurecimento lento das coisas, de um vazio para ser preenchido pelo que não é vontade nossa, e do quanto pode o nosso olhar quando atenta para uma leitura da realidade em níveis que transcendem o visível e o material. Porque, antes de tudo, o que a poesia e a mística despertam é a nossa faculdade de atenção”. O convite a essa “profunda disposição para o silêncio” nos é feito pela poeta paulista Mariana Ianelli, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

 

Esse silêncio, derivado de “um estado concentrado de atenção” ao qual somos levados pela poesia e também pela mística, torna-se, assim, “uma abertura, como que uma chave de acesso, para essa via secreta do Mistério, que de outro modo não seria percebida”.

 

O que acontece dentro desse espaço de atenção – afirma Mariana –, na abertura dessa passagem para o que se pode chamar de inefável, é o instante de uma configuração, quando uma verdade se dá a ver em uma figura”. A partir daí, “pensar em uma mística do feminino é também pensar nos mistérios do amor”.

 

Mariana Ianelli é poeta, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, autora dos livros Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva Alvorada (2010). Colabora para os jornais O Globo, caderno Prosa&Verso (RJ) e Rascunho (PR). Sua página na internet é www.uol.com.br/marianaianelli

 

IHU On-Line – Em sua opinião, como a poesia e a mística colaboram para aguçar a percepção sobre o Mistério? Que vínculos você percebe entre poesia e mística?

 

Mariana Ianelli – O que as torna tão próximas, a poesia e a mística, é uma profunda disposição para o silêncio, o silêncio de um estado concentrado de atenção que, justamente por estar preservado do ruído, encontra uma abertura, como que uma chave de acesso para essa via secreta do Mistério que, de outro modo, não seria percebida. E porque a palavra que vem dessa mirada, tanto poética como mística, não pretende, como faria a ciência, submeter ou reter nela mesma essa realidade mais profunda, sua expressão se dá musicalmente, na forma do canto e da prece, que são formas aladas, por assim dizer, também vinculadas entre si, que têm como origem e destino o silêncio, e são inapreensíveis no registro de uma linguagem instrumental. O que acontece dentro desse espaço de atenção, na abertura dessa passagem para o que se pode chamar de inefável, é o instante de uma configuração, quando uma verdade se dá a ver em uma figura. Os símbolos a que recorrem os poetas e os místicos são uma espécie de receptáculo dessa verdade que, se antes pediu um estado profundo de atenção para ser percebida, agora pedirá a atenção e o coração aberto de um outro que procure ver além da figura.

 

IHU On-Line – Um de seus ensaios está intitulado Por uma Poética do feminino, em que você afirma que “mito, história e corpo cantam quando canta uma mulher”. Como se dá a relação entre poesia e feminilidade?

 

Mariana Ianelli – Penso nos mistérios de Elêusis, nos séculos e séculos em que a mulher esteve obrigada à reclusão doméstica e ao mutismo, e em seu próprio corpo, em sua potência de gerar vida dentro de si, como diferentes marcas do feminino que convergem para essa intimidade com o oculto, com o que se elabora em segredo e tem por metáfora o duplo trabalho de Penélope , que é também sua arte e seu destino, de fiar e desfiar indefinidamente num exercício de esperança e sacrifício. Aí estão as figuras emblemáticas de Marta e Maria em uma só mulher, aquela que ao mesmo tempo comparece em um gesto eficaz diante do mundo, e esta que se guarda no seu olhar contemplativo. Isso, levado para a poesia, encarna a paciente gestação interna de um poema face o ímpeto da escrita, os maravilhosos encadeamentos de um processo intuitivo, às escuras, e a trama que daí se vai constituindo à luz do dia. São as duas respirações de que falava María Zambrano, a da vida e a do ser, esta, oculta no silêncio, que orienta o sentido do poema, engendra musicalidade e é “o hálito do ser depositado sobre as águas primeiras da Vida”, e aquela outra, que está justamente na superfície do viver e que sofre a ameaça de interromper-se não apenas por alguma razão fisiológica, mas sobretudo se falta a respiração do ser, que sustenta em silêncio a respiração da vida.

 

IHU On-Line – Amor, erotismo, segredo, ventre, criação... São diversos os símbolos relacionados ao feminino que fluem entre poesia e mística. A partir de um olhar poético-místico, o que é o feminino?

 

Mariana Ianelli – Vejo o feminino, sob essa perspectiva poética e mística, representado magnificamente na personagem bíblica de Judite. Uma mulher que, diante do cerco à cidade de Betúlia pelo exército de Nabucodonosor, quando os anciãos da cidade se reúnem para estabelecer um prazo para a manifestação de Deus, como se isso fosse possível, coberta de cinzas, faz sua oração mais fervorosa e pede a Deus para ser habitada por três forças: palavra, astúcia e ímpeto. Nessa prece, ela diz: “Tu é que fizeste o passado, / o que acontece agora e o que acontecerá depois. / O presente e o futuro foram estabelecidos por ti, / e o que pensaste aconteceu”. E então ela roga: “dá-me o ímpeto que pensei”, rogando, assim, pelo pensamento divino dentro dela, por um impulso em conformidade com uma vontade superior.

 

Depois da oração, Judite se despoja do seu luto, põe seu vestido de festa, perfuma-se e se adorna com todas as suas joias, enche um odre de vinho, uma bilha de água, um alforje de farinha e com sua serva atravessa os portões da cidade para ir ao encontro de Holofernes, chefe do exército inimigo. Já pelo caminho, Judite vai seduzindo pela sua beleza os soldados que encontra e, ao ter com Holofernes, Judite o seduz também por sua palavra, uma palavra ambígua e profética, que fala de Deus enquanto Holofernes julga que ela fala de Nabucodonosor. É assim que essa mulher permanece infiltrada entre 140 mil homens, durante quatro dias, nos quais, durante a madrugada, dirige-se ao pé da fonte da sua cidade para orar, para beber espiritualmente à fonte do pensamento divino. No quarto dia, quando Holofernes, em um banquete, pretende dormir com Judite, finalmente ela desempenha o gesto, aquele gesto preciso, movido por um ímpeto transcendente, por isso violento, de decapitá-lo com dois golpes de alfanje.

 

Acredito que essa narrativa, de uma mulher que afugenta um exército de milhares com a sedução da sua palavra ambígua, com a astúcia de um caminho que vai sendo urdido subterraneamente, sob o véu da beleza, e com o fervor, um fervor que se nutre da fé, e que transborda para a realidade num golpe mortal, acredito que esse episódio bíblico concentra de maneira emblemática, espiritual e poeticamente, em uma tríade perfeita, toda a potência que existe e está guardada sob a aparente delicadeza do feminino.

 

IHU On-Line – Por outro lado, em sua opinião, podemos também falar de uma “mística feminina” ou de uma “mística do feminino”? Quais seriam as contribuições do olhar feminino à percepção do âmbito místico da existência?

 

Mariana Ianelli – Creio que sim, que podemos pensar em uma mística do feminino sob muitos aspectos, um deles, a partir da visão para qual Maria Madalena é a escolhida, por amor, entre todos os discípulos, tornando-se ela a portadora de uma revelação secreta. Se lembramos das Moradas de Santa Teresa e das Visões de Hadewijch de Antuérpia, vemos o percurso de uma viagem interior, pródiga em figuras, que se vai delineando à vista dessas mulheres místicas e que nos remete ao relato visionário, de Maria Madalena em seu Evangelho, da ascensão da alma através dos céus até o silêncio e o repouso.

 

Não desconsidero com isso os místicos e poetas que também figuraram à sua maneira as jornadas da alma em suas etapas de purificação; apenas destaco a relevância desse vínculo intrínseco entre as viagens espirituais descritas por mulheres místicas e a visão de Maria Madalena, que provém de um conhecimento oculto cuja revelação ela, Maria, por ter sido a escolhida, tem o privilégio de transmitir aos outros homens. A partir daí, pensar em uma mística do feminino é também pensar nos mistérios do amor. Quanto à importância da figura, é inevitável sua relação com a poesia, e aqui vale mencionar a poeta Cristina Campo, que se dedicou a refletir intensamente sobre o valor de uma poesia hieroglífica, que sintetizaria de forma cifrada, na beleza da figura, a exemplo da sarça ardente, não a arbitrariedade da imaginação fantástica mas a verdade do real.

 

IHU On-Line – Na literatura ou na história, quais mulheres mais encarnam essa abertura místico-poética ao Mistério e à Realidade Última, em sua opinião? Por quê?

 

Mariana Ianelli – Cito mulheres que fazem parte do meu cotidiano de leitura, com as quais me identifico, e que transitam por esse espaço de poesia e mística. Cristina Campo, por ter se dedicado a pensar uma poesia que é refúgio do esplendor e que, semelhantemente aos ritos litúrgicos, celebra os mistérios divinos. Cristina Campo escreveu pouco mais de 30 de poemas, e dizia que gostaria de ter escrito menos, tal era o valor da paciência e do segredo que a palavra lhe impunha. No cenário dessacralizado do pós-guerra, Cristina teve a coragem de defender, em seus ensaios e poemas, a beleza, que ela considerava uma secreta virtude teologal e que parecia inadmissível em sua época porque aceitar a beleza, segunda ela, “é sempre aceitar a morte, o fim do velho homem e uma difícil vida nova”.

 

Outra figura marcante é Simone Weil, cuja obra, aliás, Cristina Campo foi uma das primeiras a estudar na Itália, em meados dos anos 1950, e com a qual dialoga em seus escritos. Simone Weil e Cristina Campo compartilham valores fundamentais: a atenção elevada ao grau de prece, a importância de um estado de vigília e a necessidade de amar aquele que está ausente, considerando aí toda a responsabilidade e o sofrimento que uma dedicação como essa implica, além da disciplina para compreender os símbolos através do olhar, uma disciplina que deveria levar a inteligência a se tornar contemplação. Uma poeta cujos textos me deslumbram, justamente porque transcendem os limites do literário, é Alda Merini, com os poemas de A Terra Santa e de Magnificat: Um encontro com Maria. Entre o seu livro de estreia, A presença de Orfeu, e A Terra Santa, Alda Merini passou cerca de vinte anos sem publicar, sete deles internada num hospital psiquiátrico. O que surge depois desse silêncio é uma transubstanciação da poesia em mística, especialmente no caso de Magnificat, um livro em que a autora dá voz à mãe de Cristo como aquela que se torna, ela mesma, a morada da Palavra, simbolizando aí a poesia quando se funde à mística: Maria como aquela que traz a boca unida à boca de Deus e o pensamento criador feito carne. Nesse longo poema que é o Magnificat, Maria é aquela que morre crucificada e ressuscita com o seu filho num “duro grão de amor”. O que alimenta a poesia de Alda Merini é a ancestralidade de um canto originário, que vem da natureza, e o que funda sua poética é o amor.

 

Outra poeta que passou um longo período em silêncio desde a publicação dos seus primeiros textos, e que mais tarde escreve sobre situações marianas, é María Victoria Atencia. Sua relação com a poesia envolve uma inspiração que independe da vontade e o momento subsequente da criação, que exige trabalho, esforço e técnica. María Victoria regressa à poesia depois de quinze anos com o livro Marta e Maria e, dez anos mais tarde, publica Transes de Nossa Senhora, poemas que vão pela mesma via do Mistério que Alda Merini percorreu, que falam do Verbo encarnado, da “prenhez gloriosa” de Maria, a que foi a escolhida e que por isso tem os seus sentidos incendiados. Uma escritora, filósofa e também poeta com quem María Victoria Atencia dialoga e que encarna perfeitamente essa abertura místico-poética é María Zambrano, por tratar dessa aventura iniciática de descida ao fundo do coração, de onde se pode emergir com uma prece ou com um poema que espelha, como obra de criação, o próprio poeta na sua dimensão de criatura. Dos escritos de María Zambrano, as ruínas como lugares simbólicos de ressurreição e esperança, a morte como promessa de amor, a existência de uma palavra que nunca é pronunciada nem humanamente concebida, que permanece oculta e por isso inviolada, abrindo o espaço do silêncio da revelação, são algumas dessas passagens para o Mistério e para o desvelamento do real. Em seu texto sobre São João da Cruz, que é belíssimo, María Zambrano se pergunta que religião é essa, do Monte Carmelo, que honra a Virgem Maria e faz dos seus santos poetas, a exemplo de São João da Cruz e Santa Teresa d’Ávila.

 

Essa pergunta nos leva a pensar em uma mística do feminino sob a perspectiva de Maria como a portadora da palavra encarnada e da sua relação com a poesia, uma relação que justamente inspira os livros de María Victoria Atencia e Alda Merini. Ainda pensando na Ordem do Carmo, temos esta outra mística, Edith Stein, que foi leitora fervorosa de Santa Teresa e uma figura emblemática da história, por ter sido conduzida, na trajetória da sua vida e da sua obra, ao extremo do silêncio interior, do amor e da expiação. Podemos dizer sem erro que Edith Stein encarnou o sentido espiritual do nome de Cristina Campo (cujo verdadeiro nome era Vittoria Guerrini): “a portadora de Cristo nos campos do III Reich”.

 

IHU On-Line – Em um de seus recentes poemas, Pietà, você diz: “Por delicadeza / Devia cada um resolver seu vestígio, / Não deixar o corpo a esmo, / Atravessado na passagem, / Sem desejo, sem enigma”. Como podemos compreender a relação entre o corpo, a nossa materialidade, e a expressão místico-poética pessoal?

 

Mariana Ianelli – Pensando na natureza como uma “metáfora do sobrenatural”, como diz Cristina Campo, o corpo é esse casulo que guarda a alma até ela estar pronta para o voo. É também uma espécie de receptáculo semelhante à palavra. Se há espaço nesse corpo para o que não é vontade própria nem vontade imposta por um outro, se há espaço para uma inexplicável intuição encher esse vaso até o limite, e mais: se pode essa intuição transbordar para a vida, acontece uma inversão na ordem das coisas. Passamos a atuar como que na voz passiva, em vez de mover sentimos como se fôssemos movidos. Essa é uma maneira de realizar que o corpo que dizemos nosso na verdade nos é dado, é a nossa casa e, como toda casa, um dia será abandonado.

 

O fato de irmos perdendo o controle sobre ele, de sermos traídos pela falta de vigor e de memória, por exemplo, isso também é uma lição que a vida impõe, em geral, para nós, a contragosto: de que esse corpo tão íntimo, tão pessoal, não é tudo ao que nos resumimos nem é sempre imediatamente reconhecível como nosso. Temos, materialmente falando, o mesmo destino da Abadia de Tintern que tanto encantou Wordsworth. E deixar esse vestígio para ser recolhido pelos outros é ainda uma lição. O poema continua: “Mas se me fica o teu corpo / Eu te arrepanho nos braços / Com a maternidade do ofício / E lavo os teus ombros / De quanto pesou sobre eles, / O teu sexo, que a nenhum afago responde, / Lavo os teus pés, o ato mais santo. / Eu te arremato, eu te limpo da vida, / Faço com que desapareças, / Que o teu equívoco me abasteça / Da razão dos humildes. / Fardo ensoalhado esse, / De amparar o meu próprio destino”. Porque o vestígio de alguém nos dá a ver a nossa própria morte e saber que vamos nos recolhendo uns aos outros ensina uma certa humildade e também um sentido maior de esperança. Ensina que, depois de um desastre, não importa o quão devastador ele seja, se depois a vida ressurge, então isso é a misericórdia.

 

A observação dessas coisas passa pela vivência, pelo olhar e pela intuição, e a poesia, servindo-se disso, paralelamente à mística, encontra à sua maneira uma via de acesso para leituras da realidade em um nível além imediato, do visível e do material.

 

IHU On-Line – A linguagem mística muitas vezes se manifesta de forma ousada e radical. Como essa gramática e semântica se relaciona com a gramática e a semântica poética? Que relações ou distanciamentos você constata entre essas duas linguagens?

 

Mariana Ianelli – Não existe pudor quando se trata de ir ao mais íntimo da palavra, quando a linguagem ronda o indizível chegando ao extremo de circundar aquilo que já não é palavra. Esse mais além do verbo é o que se guarda e permanece cifrado sob a figura em uma representação simbólica. A forma ousada com que a linguagem mística se expressa se dá pelo arrojo de uma voracidade amorosa, e não somente os símbolos aos quais essa linguagem recorre, mas sobretudo uma unidade na aproximação dos contrários, se relacionam com uma lógica poética, como quando Santa Teresa diz: “Vivo sem viver em mim / E de tão alta vida espero, / Que morro porque não morro”.

 

Desse paradoxo aparente, de um intermédio entre dois mundos, de uma palavra repleta de silêncio e um “contentamento descontente” também se faz a poesia. O enleio de perseguir e ao mesmo tempo ser perseguido é o que alimenta o fogo da linguagem mística numa espécie de rito entre amantes que se aproximam se afastando, num jogo análogo à natureza insaciável desse amor que só se pode consumar em uma outra vida. Aqui, a relação entre corpo e alma se manifesta num elo dos sentidos físicos com os sentidos sobrenaturais e, ao mesmo tempo, em uma tensão da matéria como uma espécie de cárcere que impede a plena conciliação amorosa. Esse fogo, esse hálito primeiro que impulsiona a criação, na linguagem poética, supõe um ponto de partida que é um estado de caos, de matéria informe anterior ao fiat lux da palavra. Nesse lugar intermediário entre o deserto e a vida, nesse espaço genesíaco entre noite e aurora, que remete à pré-história da poesia no seu parentesco com a palavra sagrada, o ato de criar materializa no poema aquela mariposa que devora a prisão do seu casulo para sobrevoar os vales e as montanhas com as asas de um canto.

 

Os distanciamentos que vejo em relação às duas linguagens, tal como os opostos de que ambas se alimentam para consagrar a beleza da unidade, são direções complementares de uma mesma seta, que tanto se lança para o alto como se crava no fundo do coração: a mística se servindo da figura para simbolizar o reino da outra vida neste mundo, ou relatar um itinerário espiritual, e a poesia estabelecendo, a partir da realidade sensível, uma senha mágica para ingressar nessa realidade sobrenatural, nesse instante do inefável.

 

IHU On-Line – Em entrevista à IHU On-Line, Faustino Teixeira afirma que você, em sua poesia, manifesta “a presença de um ‘céu absoluto’ que inspira os mais profundos enigmas. E também a busca de um Deus palpável”. Como você percebe a sua mística pessoal em sua vivência cotidiana e em sua obra de poetisa?

 

Mariana Ianelli – Desde os primeiros poemas já me atraía intuitivamente uma presença do sagrado. Em pelo menos dois poemas do primeiro livro (Trajetória de antes, 1999) posso reconhecer o começo dessa busca, Acalanto para Cassiana e Três vezes Cristo. Cassiana foi uma colega de escola, uma menina linda, que um dia fui obrigada a ver no meio de uma sala, deitada sobre um monte de flores. A morte dessa menina, que tinha a minha idade, me despertou para o sentido de muitas coisas, inclusive da poesia. Nos poemas de Passagens que vieram quatro anos depois, uma releitura poética das Lamentações bíblicas e do Livro de Jó me pôs em contato com esse conflito da fé que se ressente de uma sensação de injustiça diante de uma calamidade. Há também nesse livro um poema que surgiu de um caso particular, quando meu avô sofreu um AVC e durante algum tempo ficou sem identidade.

 

O poema diz assim: “Para honrar tua vontade, festejamos. / Esse amor rente à boca nos ensina / A crer no tempo da eternidade, / Num espaço em que a matéria é luz, enfim, / E onde o temor da morte se destrói. / Atravessamos a época de um verão que faz sofrer, / Uma serpente se levanta entre os cascalhos / E se põe contra quem vem pelo caminho. / Mas somos muitos, somos teus, e aguardamos. / Se coragem há que torne as horas mais tranquilas, / Nós não sabemos, / Apenas contamos com o retorno dos teus olhos / E ao poder da natureza suplicamos / Que recuperes a mesma identidade / Pela qual te reconhecíamos diariamente / Como o soberano autor de tua vida / E não este ser convulso que de nós se afasta / Para vagar numa esfera invernal / De mudez, alienação e indiferença. / Estamos em ti sempre que te ausentas”.

 

O livro que veio a seguir foi Fazer silêncio (2005), e nele o que existe é “uma paragem para ir à fonte”, como diz María Zambrano. E depois de um conflito pessoal inspirado pelo Livro de Jó, depois de realmente perceber a paciência que um poema exige, o que me aconteceu foi uma gratidão, um olhar para esse triunfo da vida, apesar dos desastres. Essa gratidão está em Almádena, um livro que foi escrito com o pensamento no Sermão de Quarta-Feira de Cinzas, de Antônio Vieira. Além de um canto de ofício, ter visto a casa dos meus avós se transformar em uma ruína, ter passado pelo fim de uma geração da minha família, e perceber que a vida continua existindo, absoluta, agora acrescida de todos esses que vão conosco, apesar de já não estarem vivos, isso me impôs uma das tarefas mais difíceis, a tarefa de encontrar vida onde parece não haver mais nada, e de entender que essa vida que surge depois de uma casa arruinada é a própria misericórdia. Simone Weil fala a esse respeito, mas para compreender o significado disso, o livro que precisei ler foi o da vida, e o sentimento de esperança que veio dessa leitura, eu o reconheço agora nos poemas de Treva Alvorada (2010).

 

IHU On-Line – Como mulher e poetisa, em nossa situação contemporânea, qual o papel e o valor da poesia e da mística? Quem seriam as principais místicas-poetisas (ou poetisas-místicas) de hoje, em sua opinião?

 

Mariana Ianelli – Vivemos em uma época de tirania da produtividade, de apologia do que é novo e eficaz e de um aparente benefício de tudo o que nos abrevia o sofrimento, o esforço e uma aprendizagem demorada. As coisas não amadurecem mais no seu próprio tempo, amadurecem à força, como uma planta de estufa. Vejo isso atingir as relações humanas e mesmo certa dimensão da criação literária que se ancora na linguagem, nos pressupostos do método e da técnica, e pouco abre espaço para uma inspiração que não pode ser instrumentalizada. O tempo interior, de silêncio, paciência e meditação, tem sido cada vez mais preterido pelo imediatismo, que é a noção de um tempo dessacralizado. A mística e a poesia, contra essa engrenagem perversa, nos fazem lembrar de um amadurecimento lento das coisas, de um vazio para ser preenchido pelo que não é vontade nossa, e do quanto pode o nosso olhar quando atenta para uma leitura da realidade em níveis que transcendem o visível e o material. Porque, antes de tudo, o que a poesia e a mística despertam é a nossa faculdade de atenção. E, como diz Cristina Campo, “pedir a um homem que nunca se distraia”, que não ceda “à preguiça do hábito, à hipnose do costume (...) é pedir-lhe uma coisa muito próxima da santidade numa época que parece procurar apenas, com cega fúria e arrepiante sucesso, o divórcio total da mente humana em relação à sua faculdade de atenção”.

 

Pensando nesse outro tempo, não no presente imediato, as “poetisas-místicas” que eu mencionaria são duas: Hilda Hilst e Maria Gabriela Llansol. A leitura da obra de Hilda Hilst, sob a perspectiva da mística associada ao lirismo, revela uma jornada interior real, profunda, extraliterária, para a qual temos como chave de acesso a beleza, no caso da sua poesia, a extravagância no caso da sua prosa. Sobre a tua grande face é um dos muitos livros de poesia de Hilda Hilst em que o “exercício da procura”, como ela mesma diz, se reveste de um esplendor de imagem e de musicalidade para invocar o “Obscuro”, o “Sem Nome”, o “Desejado”. Na sua prosa acontece a mesma procura. Em Qadós (“Kadosh”), o “Pacto que há de vir” com que Hilda inicia o texto é também onde começa “o delírio de perseguição” de que fala María Zambrano no livro O homem e o divino: o delírio de quem não sabe se persegue ou é perseguido até verbalizar esse conflito poeticamente e sair do delírio para o pacto. Quanto à Maria Gabriela Llansol, sua poética talvez esteja bem mais próxima da mística do que da literatura porque passa ao largo da intenção de um construto e deseja “entrar no real” através do texto, abrindo aí uma espécie de clareira onde um “mundo novo e fulgurante” pode ser sentido. Para Llansol, não existe o “como se”; para ela, “uma coisa é ou não é”, o que no texto se manifesta em um lugar de envolvimento afetivo com a beleza, a vida e o pensamento, um lugar que Llansol chama de “espaço edênico”. Nesse espaço, o que importa é a misericórdia, o princípio de bondade e a vontade de conhecer.

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

 

Mariana Ianelli – Já que o nosso ponto de chegada foi Hilda Hilst e Maria Gabriela Llansol, aproveito para transcrever um poema chamado Neste lugar, que foi escrito depois de uma visita que fiz à Casa do Sol, que é também o lugar de uma passagem, um portal, um espaço edênico onde “a coisa é”, por isso não se conforma a analogias ou comparações.

 

O poema diz: “Nenhum traço de delicadeza / Só palavras ávidas / E o tempo, / A devoração do tempo. / Um jardim entregue / Às chuvas e aos ventos. / O que para os cães / É febre de matança / E para um deus / Um dos seus inúmeros / Prazeres. / Caminho de sangue / Onde reina o amor primeiro. / Morada de súbita / Ausência do medo. / Um despenhadeiro, o céu / E uma queda / Sem alívio de esquecimento”.

 

Publicado em IHU-On-Line

publicado por ardotempo às 18:50 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sexta-feira, 29.04.11

O professor encontra com o escritor

 

Revelações de Aldyr Garcia Schlee

 

 

Abrindo a temporada do projeto itinerante de 2011, a caravana do Encontros com o Professor viajou - pela primeira vez - para Pelotas para a entrevista com o escritor e jornalista Aldyr Garcia Schlee.

 

O mais recente romance de Aldyr Schlee, Don Frutos, lançado em novembro do ano passado, foi o primeiro assunto da conversa entre Ostermann e o entrevistado diante do público que lotou o auditório do Instituto Simões Lopes Neto, em Pelotas. Segundo o autor, o livro foi rejeitado por duas das maiores editoras brasileiras antes de ser publicado pela edições ardotempo. "Meu orgulho é de quem tem a consciência de que os argumentos utilizados pela editoras eram mais do que falsos", declarou. Mas isso não foi motivo para desencorajá-lo. "Minha mulher acha que se o cara não escreve um romance, ele não é bom. Por isso que eu dediquei esse livro a ela. Mas continuo achando que o bom conto é mais difícil de fazer do que o romance", brincou.

 

A obra utiliza o linguajar fronteiriço e narra os derradeiros meses de vida do caudilho uruguaio Don Fructuoso Rivera. No livro, o personagem estacionado por meses em Jaguarão, em regresso à sua pátria depois de prisioneiro em duro exílio no Brasil, assume pela terceira vez o mandato de Presidente da República. "O meu mundo é muito pequeno, ele gira todo em torno de Jaguarão e da fronteira com o Uruguai".

 

Bem-humorado e ácido nas críticas, Schlee comentou as contradições que percebe no Movimento Tradicionalista Gaúcho que, segundo ele, baseia-se numa "tradição que não nasce, que tem que ser criada. O mate [chimarrão] é um traço rico e verdadeiro da cultura pampeana, mas ele não distingue, ele revela a identidade dos que vivem no pampa. Os descendentes os colonos que saíram do pampa e foram para Santa Catarina, Paraná e mesmo outras partes do Rio Grande do Sul, levam o mate e vão nos CTGs. O MTG extrapolou o espaço onde estava sendo desenvolvido e cultivado. O Paixão [Côrtes] e o Barbosa [Lessa] se atiraram como tigres em busca de outros traços além dos que dizem respeito ao pampa".

 

A conversa entre Ostermann, Schlee e o público ainda versou sobre a literatura gaúcha, a camiseta canarinho da Seleção Brasileira de Futebol - da qual Schlee é o criador -, João Simões Lopes Neto, Nelson Rodrigues e sobre as vivências jornalísticas de Schlee nas décadas de 1960 e 1970 . Encerrando o evento, entrevistado e entrevistador tiraram fotos com o público e distribuíram autógrafos.

 

 

 

 

Publicado pelo blog Encontros com o Professor -

Imagem: Divulgacão Album Encontros com o Professor  - Ruy Carlos Ostermann, Marlene R. Schlee e Aldyr G. Schlee

 

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 23:25 | Comentar | Ler Comentários (2) | Adicionar
Domingo, 17.04.11

“É como sacrificar injustificadamente o seu cão ou o seu gato”

 

Um escritor contra os hambúrgueres

 

Jonathan Safran Foer - Entrevista a Eduardo Lago (El País)

 

 

La publicación de Todo está iluminado (2002) y Tan cerca, tan fuerte (2005), señalaron la aparición en el panorama literario estadounidense de alguien que no estaba demasiado satisfecho con el estado de la cuestión en el ámbito de la narrativa. Los dos libros alcanzaron un éxito extraordinario entre el gran público (en el primer caso, gracias también a la adaptación cinematográfica del mismo título), pero la crítica, sus colegas de oficio y numerosos lectores se mostraron fuertemente divididos.

 

Para muchos, hay algo de falsedad y oportunismo en el tratamiento de los temas que aborda (las secuelas del Holocausto en Todo está iluminado, la herida abierta por el ataque contra las Torres Gemelas en Tan cerca, tan fuerte). La conversación con él despeja cualquier duda: Jonathan Safran Foer (Washington, 1977) es un hombre que cree firmemente en lo que hace. Transpira simpatía, inteligencia y autenticidad.

 

Con su tercer libro, Comer animales (2009), que acaba de publicar en España Seix Barral, volvió a descolocar a propios y ajenos, al hacer una descripción escalofriante de la suerte que corren los animales que acaban servidos en las mesas de nuestras casas y restaurantes. La entrevista tiene lugar en una pastelería de Park Slope, en Brooklyn, una mañana de sol espléndido. Allí, lejos de cualquier rastro cárnico, Safran Foer explica que desde niño le atormenta que los seres humanos comamos animales. "Y nunca he sabido resolverlo, prefería mirar hacia otro lado, pero cuando mi mujer se quedó embarazada me di cuenta de que tenía que afrontar el problema por mi hijo, lo cual me llevó a investigar el fondo ético del tema. Me pasé dos años leyendo y viajando por todo Estados Unidos, visitando furtivamente granjas de animales y mataderos. Cuando comemos carne nadie se plantea qué hay detrás de un acto así, qué ocurre antes de que lo que comemos llegue al plato".

 

-¿Cree que las industrias de carne someten a los animales a un sufrimiento innecesario?

 

-Si de lo que se trata es de vender hamburguesas a un dólar, tienen que actuar necesariamente como lo hacen. Tolstói decía que si no hubiera mataderos habría campos de batalla, pero yo no estoy de acuerdo. En cuanto a la cuestión del sufrimiento animal, es difícil saber a qué atenerse. Mucha gente piensa que preocuparse de algo así es una actitud sentimental. Si te importa el sufrimiento de los animales eres un tipo blando. Obviamente hay una inteligencia y una sensibilidad animales, aunque no sepamos cómo representárnosla. Para mí la cuestión no es tanto que se deje de comer carne radicalmente, sino que haya una conciencia pública de cómo opera la industria de carne y saber qué consecuencias tiene en innumerables ámbitos, desde la salud al medio ambiente. Hay que cambiar de manera dramática nuestros hábitos de consumo. Lo que hacemos es atroz.

 

 


 

 

Después de Comer animales, Safran Foer publicó en EE UU un libro verdaderamente inclasificable, A Tree of Codes, un libro-objeto que juega con vacíos físicos, con palabras y frases recortadas de las páginas. Se tiraron poquísimos ejemplares y está agotado. Su historia es muy curiosa: "Un día recibí un correo electrónico de una chica que acababa de lanzar una editorial diciéndome que no podía pagarme, pero que publicaría cualquier libro que se me ocurriera. Siempre había tenido en la cabeza la idea de coger un libro e ir eliminando frases para sacar a la luz un segundo libro oculto en el texto. El texto base es La calle de los cocodrilos, de Bruno Schulz, un libro genial. Arranqué frases y palabras una a una, como quien talla una madera. Es un objeto artístico, mitad libro, mitad escultura. En Internet cuesta una fortuna".

 

Casado con Nicole Krauss, una escritora de gran éxito, Safran Foer tiene su receta para convivir con alguien que hace lo mismo. "Nos vamos de casa temprano cada uno por su lado, nos pasamos todo el día escribiendo y cuando volvemos al final del día hablamos de todo menos de nuestros libros".

 

-¿Cree que la ficción está dando síntomas de asfixia?

 

-Actualmente se está rodando una película basada en Tan cerca, tan fuerte, mi segunda novela. El otro día me llamó el director para preguntarme si podía cambiar el guión, haciendo que un personaje entrara en Google, y entonces caí en la cuenta de que cuando escribí el libro, hace ocho años, Google no existía. Hoy es impensable vivir sin Google. La novela se ha quedado a años luz de esos cambios. Y no es cuestión solo de la revolución tecnológica. De todas las formas de expresión artística, la que menos ha evolucionado en los últimos siglos es la literatura. Piense en lo que ha evolucionado la música desde Beethoven hasta Eminem, por decir alguien, o en la pintura, desde Botticelli hasta Andy Warhol, y todo lo que sucede en el mundo del arte, que es inatrapable. Por el contrario, desde Don Quijote hasta Las correcciones, de Jonathan Franzen, las cosas han cambiado poco, pese a figuras como Joyce. La literatura está anclada en el pasado.


 

Jonathan Safran Foer - Entrevista a Eduardo Lago (Publicado em El País)

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Segunda-feira, 07.03.11

Escrever e pintar

"La pintura, como Drácula, nunca muere"

 

Miquel Barceló e Alberto Manguel

 

Entrevista a Javier Rodríguez Marcos 

 

"¿Me visto de civil?". Miquel Barceló saluda con un abrazo a Alberto Manguel y, al ver al fotógrafo, pregunta si se quita la ropa de trabajo, salpicada de pintura. En la antesala de su estudio parisiense, una cabeza de rinoceronte convive con varios ordenadores, una mesa repleta de libros y una butaca de cuero en la que, como en el sillón de un director de cine, alguien ha escrito: Masaccio. Barceló (Felanitx, Mallorca, 1957) se mueve y habla a toda velocidad, pero no parece tener la menor prisa.

 

Se demora, por ejemplo, en la cocina en la que manipula los pigmentos. "Parece el atelier de un alquimista", apunta el escritor Manguel (Buenos Aires, 1948). "Algunos son muy venenosos", añade el pintor. Ahora trabaja en una serie de retratos - de Patrick Modiano, Pere Gimferrer, Alberto García-Alix...- pintados con lejía sobre lienzo negro, en negativo: "Como la lejía actúa lentamente, no veo lo que pinto: tengo la fe, no la certidumbre". Habitaciones, escaleras, libros, discos y, por fin, el estudio mayor, un espacio de triple altura en el que guarda dos retratos de Manguel: "¿Te reconoces?".

 

Allí señala las manchas que han ido colonizando el pavimento: "un cuadro nunca será mejor que el suelo. Hay que resignarse". Manguel lleva en la mano el cuaderno africano de Barceló. "Es un gran escritor. Y lee más que yo", apunta el autor de Una historia de la lectura, que bromea con el relato de las enfermedades del artista. "¡Es que solo escribo cuando estoy enfermo, cuando estoy sano pinto!", responde este. "En África la muerte está muy cerca y el remedio, muy lejos. Lo contrario que aquí. En Europa pintas porque la vida no basta. En África sí basta, por eso te preguntas qué sentido tiene pintar". De vuelta en el estudio pequeño, Miquel Barceló repasa el último número de la revista Matador, en el que ha hecho de director. No incluye ninguna obra suya, pero es una "galaxia Barceló" con colaboraciones de Rafael Sánchez Ferlosio, Jonathan Franzen, Rodrigo Rey Rosa o el propio Manguel.

 

Pregunta. Ustedes representan dos disciplinas, la pintura y los libros, cuya pervivencia parece siempre amenazada.

 

Miquel Barceló. La muerte de la pintura se decretó hace más de 200 años. La pintura es como Drácula, nunca muere. La invención de la fotografía iba a matar la pintura, y ahora es una técnica pictórica más. Ha dejado de ser un documento de lo real.

 

Alberto Manguel. Tus nuevos retratos tienen algo de fotográfico.

 

M. B. Cuando se ponía una pintura sobre un cadáver era como hacer que no estuviera muerto de verdad.

 

A. M. Porque exorciza la muerte.

 

M. B. Y funciona. Cuando vas al Prado nunca piensas: esta gente está muerta. En cambio, como dice Susan Sontag, ante una fotografía es imposible no pensar en que el retratado está muerto, o que lo estará.

 

A. M. En tu pintura siempre está presente el tiempo. A veces actúan sobre ella las termitas, las goteras...

 

M. B. El tiempo también pinta, decía Goya. Intento pensar cómo serán los cuadros dentro de 10, 100 o 1.000 años. Me gusta la idea geológica de la pintura.

 

P. ¿Se debe restaurar una obra que ha nacido así?

 

M. B. No. El tiempo forma parte de la obra. Yo huyo de los restauradores. Hay que restaurar las cosas que se han añadido independientemente de la voluntad del artista. Durante un tiempo se puso de moda limpiar los cuadros y quitarles los barnices, y terminaron quitándoles las veladuras del pintor. Dejaron secos los murillos. ¿Quién sabe dónde acaba la suciedad y empieza la veladura?

 

A. M. Joyce hablaba de dejar que el azar colaborase. Una vez estaba dictándole a Beckett y alguien llamó a la puerta. Él dijo: "entre" y Beckett lo anotó. Joyce le dijo que lo dejara. P. El ejemplo clásico es el burro de Sancho, que desaparece en el Quijote y Cervantes lo olvida.

 

M. B. Todo estaba ya en el Quijote. Como en Velázquez. Me pasa ahora con las pinturas de Chauvet. Todo está en Chauvet, incluso Velázquez. Lo extraordinario allí no es solo la técnica, sino que se acercasen tanto a los animales como para pintar una leona con ese detalle. Animales peligrosos que nosotros hemos visto de cerca por los documentales de la BBC.

 

P. ¿Ha estado en la cueva?

 

M. B. Varias veces. Está cerrada al público y es una gran suerte, porque no está enferma.

 

A. M. ¿Qué sentido tienen esas pinturas? ¿Se sabe?

 

M. B. Yo no teorizo, pero las imágenes de animales tienen más importancia que las humanas (solo hay una, de mujer). Me he preguntado por qué pinto tantos animales y veo que en mi vida la jerarquía animal ha ido modificándose. Ya no pongo al hombre arriba del todo. Lo mismo pasa en Chauvet. Los animales no son dioses, como en Egipto, pero tampoco víctimas, ni comida. Tal vez no seamos capaces de percibir su relación.

 

P. ¿Enseguida convertimos a los animales en símbolos?

 

A. M. Las explicaciones vienen siempre después. Como si dentro de miles de años alguien entrara en el atelier de Miquel y dijera: "Esto debió ser un lugar de culto".

 

P. ¿La pintura sigue más cerca de su origen que la literatura?

 

A. M. La palabra viene mucho después, claro. Quizás sea porque la imaginación se debilita con el tiempo. Cuando las imágenes no bastan necesitamos aclararlas a través del lenguaje, que en el fondo es un instrumento muchísimo más débil. Al tratar de ser más preciso es menos ambiguo y, por tanto, menos rico. Se reduce lo que podemos ver porque tenemos el ansia de la interpretación. No podemos simplemente mirar una pintura, inmediatamente tenemos que contarle una historia. Por eso me gusta que Miquel quiera pintar algo donde hay un eco de Chauvet. Con un pequeño intervalo de 32.000 años. M. B. En pintura, 32.000 años no son nada. A. M. Desde la eternidad serán contemporáneos.

 

M. B. Toda pintura es contemporánea. Y al leer el Quijote ves que toda la literatura también lo es. Las diferencias de lenguaje son menos importantes que aquello que tenemos en común. En 32.000 años nadie ha inventado nada mejor que el carbón para dibujar.

 

P. ¿La modernidad va contra eso?

 

A. M. Siempre está presente la amenaza de una tecnología que va a matar a la precedente, cuando lo que hace es tomar su lenguaje para transformarlo.

 

M. B. Yo acabo de viajar por el Himalaya con un iPad lleno de libros. Emite su propia luz, es perfecto en lugares donde no hay electricidad.

 

Entrevista a Javier Rodríguez Marcos - Publicada em El País

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Quarta-feira, 26.01.11

Literatura, democracia e preconceitos

 

LUIZ RUFFATO - O escritor de um novo mundo

 

Entrevista concedida a Nahima Maciel - Correio Braziliense


Nahima Maciel – Você diz que um escritor precisa se posicionar politicamente. Gostou do resultado das eleições?

 

Luiz Ruffato – Você não pode deixar de concordar que o país mudou radicalmente, economicamente e socialmente. Foi uma mudança revolucionária. Isso não significa que resolvemos os problemas. Muito pelo contrário. Temos problemas gravíssimos que ainda não foram enfrentados. São apenas 25 anos, no entanto, é o maior período de democracia em toda a história do país e mostra que o único caminho possível é esse. É hora de alimentar a democracia e dar continuidade aos projetos que foram iniciados e, quem sabe, em 30 ou 40 anos, vamos ter um país absolutamente diferente.

 

Acredito nisso, estamos muito melhor e acho que esse processo eleitoral, embora muito desgastante, foi extremamente importante para pensar a respeito do que nós queremos para nosso país. Fiquei muito feliz com o resultado. Sem dúvida.

 

NM – Você encara o diálogo com a sociedade como algo importante porque a literatura pode mudar a cabeça de uma pessoa. Como faz isso?

 

LR – Tento fazer uma literatura na qual o leitor realmente se sinta desconfortável e se proponha a pensar a respeito das questões que estão sendo colocadas. Não é concordar ou discordar, mas refletir sobre isso. Existe o papel público do escritor. Nós, durante muito tempo, renunciamos a esse papel que agora voltamos a ter e que eu gosto muito de exercer. Vou muito a escolas públicas, mesmo quando não tem nada a ver com meu trabalho. Gosto de pensar na ideia de que minha biografia pode despertar outras crianças e jovens que nasceram na mesma classe social que eu e mostrar que é possível descobrir um mundo novo. Esse seria o desdobramento do meu papel público. E insisto nisso. Não me furto de discutir qualquer assunto. Quero me posicionar a respeito de qualquer assunto. Mesmo que depois eu venha a repensar minha posição, mesmo que descubra estar errado. Mas acho importante que eu me posicione.

 

NM – Durante uma palestra, você avisou o público que não é um cara de verdades definitivas. Isso é fruto de uma liberdade que lhe permite, inclusive, a incoerência?

 

LR – Acho que é ser coerente, mas é uma coerência dentro da humildade de saber que você é falível. Coisas que vim aprendendo ao longo da vida foram me modificando como ser humano e, portanto, modificando minhas verdades. Isso não significa incoerência, de forma alguma. Isso significa você ter a humildade de saber que está no mundo para aprender e que existem no mundo pessoas que podem oferecer a você outras reflexões e que elas podem alterar profundamente suas verdades. Gosto muito de pensar nisso. Não vejo como incoerência, mas sim como desdobramento de experiências.

 

NM – Sua própria história pode ser encarada como fruto desse Brasil que está amadurecendo, crescendo?

 

LR – Parece pretensão, mas me vejo exatamente assim. É como se eu fosse a encarnação desse momento. Minha história pessoal é exatamente a história de alguém que não tinha nenhuma perspectiva, ou tinha pouca perspectiva. O máximo de pretensão que teria tido na vida era, saindo da minha situação de filho de uma mãe analfabeta e lavadeira e de um pai semianalfabeto pipoqueiro, ser um torneiro mecânico. No entanto, quando me formei, o ABC já estava entrando em decadência e nem torneiro mecânico era uma profissão importante. Mesmo assim, fiz carreira profissional como jornalista e escritor. É a ascensão objetiva das classes C e D. Eu sou a encarnação desse conceito que hoje está muito presente na nossa sociedade.

 

NM – Acha que um dia chegaremos ao ponto de a educação ser um mecanismo efetivo de ascensão social?

 

LR – Me irrita profundamente a visão passadista de que antes a educação no Brasil era muito boa e hoje é muito ruim. A educação pública no Brasil, antigamente, era muito boa para meia dúzia de pessoas. A maioria da população nem sequer tinha acesso à educação. A ditadura destruiu o pouco de ensino público que havia no país e nossa democracia pegou uma educação absolutamente desarticulada, mas pelo menos conseguimos universalizar o acesso à educação. Está sendo feito um esforço imenso para resolver essas questões básicas. Parece que estou fazendo propaganda política, mas não é isso.

 

Esse governo triplicou o número de vagas no ensino público federal e ampliou enormemente o número de escolas técnicas. Estamos dando os primeiros passos. Não tenho nenhuma dúvida. A única maneira de ascensão social no Brasil vai ser por meio da educação. E não tenho dúvida de que se houver um esforço no sentido de melhorar a educação vamos gerar uma espécie de primeiro mundo tropical, que é o que todos desejamos.

 

NM – Por que você diz que sente inveja do Paulo Coelho?

 

LR – Brinco sempre que queria vender como ele, mas não escrever como ele. Existe muito preconceito, não gosto dessa ideia da literatura como uma coisa intocável, o escritor como um ser privilegiado. Não é nada disso. Eu escrevo, faço literatura, estou dentro do sistema literário e não vejo problema nisso. Vivo de literatura. Tenho maior orgulho disso. Agora, é evidente que nunca vou conseguir vender como Paulo Coelho porque minha literatura não é facilitada. Mas sempre faço essa brincadeira porque, para mim, é muito concreto. Vender como Paulo Coelho sim, não tenho nenhum problema com o mercado, mas escrever como ele, não.

 

NM – Fala-se muito da ligação da Geração 90 com o universo urbano, até porque ela nasceu em São Paulo. Você se sente ligado a isso ou isso não importa? O que é essa temática para você?

 

LR – É inegável. Hoje, pelas últimas estatísticas do IBGE, 80% da população brasileira vive na cidade, então é quase natural que a literatura que reflete um pouco a sociedade vá falar das questões urbanas. O que mudou na minha opinião é que, antigamente, quando se falava em literatura urbana, era São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje você tem literatura urbana em um monte de lugares no Brasil e essa diluição permite que existam várias visões absolutamente diferentes e complementares dessas várias literaturas urbanas.

 

Não acho que a Geração 90 seja marcada por uma literatura urbana, mas por literaturas urbanas. E que dialogam de alguma maneira com o que resta de não urbano no Brasil, inclusive porque uma das marcas que se diz que a Geração 90 tem, que é a questão da violência, está presente em qualquer cidade do interior hoje.

 

NM – Você tem medo da globalização?

 

LR – Não acredito em globalização. A globalização só existe em função de mercadorias, mas não de pessoas. Na Europa, a gente passa nas alfândegas porque é brasileiro. Quando se falava em globalização, falava-se em um mundo homogeneizado, em que as pessoas fossem pensar mais ou menos a mesma coisa e isso não aconteceu e não vai acontecer porque, pelo contrário, cada vez mais você percebe movimentos de legitimação dos entornos.

Não dá para falar em globalização quando temos uma divisão clara, hoje, entre o mundo cristão e o muçulmano. Que globalização é essa? É uma invenção no sentido de mercadoria. De comércio. Mas nunca foi no sentido cultural.

 

NM – Você é místico, mítico ou religioso?

 

LR – Religião não é uma preocupação minha. Não é algo que faça parte do meu cotidiano pensar a respeito disso. Mas é evidente que existe uma base que me interessa muito, que é a questão da ética. Sem ela as coisas ficam muito complicadas. Por exemplo, a ética básica de não fazer ao outro o que você não quer que façam a você. É a base, de alguma maneira, do cristianismo e levo com absoluto rigor. Agora, acreditar em Deus, frequentar cultos, essas coisas não me preocupam, embora tenha profundo respeito por todas as manifestações religiosas, inclusive pelos pastores que ficam pregando na televisão, porque essa visão do pentecostalismo que existe no Brasil é extremamente preconceituosa e vem dos católicos brancos e da elite brasileira. O que é a Igreja Católica senão exatamente a mesma coisa? Explora a fé do mesmo jeito que os pastores exploram.

 

NM – Você costuma citar temas que deviam ser tratados na literatura, mas não são, como a violência c ontra a criança. Como esses temas deveriam ser tratados?

 

LR – É uma preocupação que tenho com as minorias ou com questões que não são discutidas normalmente na literatura. Por exemplo, a questão da homossexualidade, que embora aparentemente seja uma coisa que hoje está tudo bem. São Paulo tem a maior parada gay do mundo e, no entanto, houve aqueles ataques contra pessoas que estavam na rua por que os agressores cismaram que eram gays. Esse problema não está resolvido, e é muito sério. É uma questão de como a nossa sociedade encara a questão do racismo. A discussão sobre cotas na universidade, por exemplo, foi importante também por causa disso. As manifestações racistas vieram à tona e a sociedade foi obrigada a discutir isso. Existem temas que fascinam pelo poder de mobilização de reflexão. Eu não me pauto por isso, mas gosto de enfrentar esse tipo de problema. Seria capaz e acharia interessante, se me fosse proposto, escrever coisas sobre determinados temas.

 

NM – Você é otimista?

 

LR – Absolutamente otimista. Tão otimista que às vezes sou também bobo. Vejo minha infância e vejo onde cheguei, vejo o Brasil da minha infância e onde estamos hoje, não tem como não ser otimista. Demos passos largos e m direção a uma coisa muito melhor, mas acho que sou mais otimista ainda no sentido de que a única coisa que nós, seres humanos, temos que buscar na vida é a felicidade. Nascemos para morrer. Se nesse intervalo entre nascer e morrer você não tiver como objetivo na vida ser feliz, não consigo compreender para que alguém vive.

 

Entrevista indicada e recomendada por Celso Kaufman (Brasília) - Publicada no Correio Braziliense

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Domingo, 24.10.10

Prêmio Fato Literário - 2010

3 perguntas para Aldyr Garcia Schlee


Entrevista de Daniel Feix


ZHOs Limites do Impossível – Contos Gardelianos é um romance. Você o vê assim ou prefere classificá-lo como um livro de contos? E em algum momento pensa em escrever um texto ficcional longo?


Aldyr Schlee – Chamei Os Limites do Impossível subsidiariamente de Contos Gardelianos porque como tais os imaginei e os construí; mas sempre percebendo que podia (e até devia) levar o leitor a admitir que a trama ficcional urdida em cada história imbricava-se na de outra história e na de outra e outra... De modo que, tendo a ver todas as histórias entre si, resultava tudo numa só. Sempre estive consciente de que não queria estruturar um romance convencional. Estava apenas no exercício de meu ofício, que é duro e sério – de dizer, redizer, desdizer, contradizer o que seja, sempre bem e da melhor maneira; mas é também ofício divertido – de fazer de conta, imaginar, admitir que tudo é verdade e que não se está mentindo nem inventando; e que é, enfim, um ofício mágico – de recriar o mundo, ordenar e desordenar vidas, interferir na realidade e irrealidade. A propósito: antes de Os Limites do Impossível, eu havia escrito um romance – que será lançado agora, na Feira. Ele se chama Don Frutos e é uma longa narrativa ficcional de 500 páginas a partir da vida de Don Fructuoso Rivera, caudilho pampeano e primeiro presidente constitucional do Uruguai, que passou os últimos meses de sua vida em Jaguarão (RS).


ZH A formação de artista gráfico o ajuda no processo de escrita, especialmente na construção de cenas literárias?


Schlee – Não exatamente: o cinema me ajuda mais. Sempre, entretanto, com a certeza de que o texto, como forma de concretização da criação literária, deve se impor entre a invenção do autor e a imaginação do leitor – entre aquilo que talvez pudesse ter sido e aquilo que bem poderia ser. Aí, sobressaindo a palavra: a palavra precisa ser posta a serviço do texto como mediadora entre o inventar e o imaginar, impondo-se e valorizando-se também pela sonoridade que oferece e pela imagem que ajuda a construir.


ZH Você se considera mais brasileiro, uruguaio ou gaúcho?


Schlee – Eu sou um brasileiro sul-rio-grandense que, como escritor fronteiriço, sente-se quase uruguaio. Aqui, sobre a fronteira uruguaio-brasileira, tenho a gostosa e permanente ilusão de estar com meus leitores e personagens dentro de um particularíssimo mundo ficcional – fiel a mim mesmo e a eles –, com a sempre renovada certeza de que assim posso melhor me dedicar honesta e autenticamente à execução de meu projeto literário.


Publicado em Zero Hora RS - Brasil (23. outubro. 2010)

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Domingo, 15.08.10

Entrevista de Mariana Ianelli

Pronúncia da alma


Entrevista - Mariana Ianelli, concedida a Denise Godinho, de OffLine

 

 



Denise Godinho: Que aspectos de sua literatura você considera que a inscrevem em nosso tempo? Há similitudes entre sua literatura e a produção de outros autores da mesma geração que a sua capazes de configurar alguma proximidade ou diálogo?


Mariana Ianelli: Acho que somos todos herdeiros daquele “crepúsculo ontológico” sobre o qual falava George Steiner, referindo-se ao clima espiritual do século 20. A literatura do início do novo século responde a esse legado de diversas maneiras, absorvendo para a linguagem a violência, o acaso, o ceticismo, e também, em alguns casos, ousando um novo pacto de fé, mesmo que hoje um senso de comunidade geralmente desperte à força de uma tragédia em larga escala. É a esse princípio de fé que me alio, e que de algum modo inscreve meu trabalho na atualidade, por um aspecto humano básico de sede de sentido e de beleza. Percebo sinais de um renascimento do lirismo, de uma revalorização do primordial e do inefável na poesia, malgrado certa ânsia de desmistificação do trabalho criativo. Exemplo disso é o poema infinito de Marcelo Ariel e o trabalho de Gilberto Tadeu Nable, autores que me emocionam por uma afinidade de sentimento poético.


DG:A exemplo do que alguns críticos chamaram de geração 90 e de outras escolas do passado, você acredita que faça parte de algo como uma geração 2000 ou de um trabalho literário que tenha, além de suas singularidades marcantes, também algo de coletivo ou transversal? Se isso existe, como se deveria denominar a sua geração?


MI:Existem algumas linhas de força, sem dúvida, embora seja difícil caracterizá-las como definidoras de uma geração. Talvez um ponto de convergência entre essas diferentes tendências de criação e expressão verbal esteja na experiência do pensamento poético ela mesma, a experiência do pensamento em suas possibilidades de linguagem, presumivelmente um desdobramento da autoconsciência e da autocrítica características dos poetas da modernidade. Fato é que a aparente liberdade formal e expressiva não nos desobriga de um dever para com a linguagem, muito ao contrário, esse dever, ou ainda, essa lealdade se manifesta tanto em uma instância conceitual como na dimensão do imponderável, do caráter, digamos, sagrado da palavra. Daí que tão diferentes poéticas possam em algum ponto se encontrar.

Como denominar nossa geração? Não saberia dizer, mas o poeta Alberto Pucheu, que propõe em seu trabalho poético um intercurso entre o literário e o filosófico, fala em uma poética do pensamento, em uma “literaturavida”, essa encruzilhada em que a palavra e o silêncio, a criação e a vida se procuram na linguagem.


DG: Muitos sectários, incluindo críticos e jornalistas, ficaram congelados nos autores pré-anos 60, especialmente no que se convencionou chamar de modernismo, e afirmaram não encontrar nada de novo no que se produziu nas décadas subsequentes. No entanto, muita coisa inegavelmente surgiu de lá pra cá. Quais são as principais características dessa nova literatura contemporânea brasileira? O que há de peculiar nela? Em sua análise, que autores renovaram, de alguma forma, a literatura brasileira nos últimos 20 anos? Quem está renovando agora?


MI: Por um lado, vejo uma poesia autoreferencial, metalinguística, e, mais do que isso, um pensamento poético pensando a si próprio, como queria Alain Badiou. Vejo também uma poesia que recupera o prestígio do verso, sem por isso deixar de estar profundamente inserida no contexto atual, por seu caráter reflexivo, suas camadas de significado. A meu ver, a trilogia de poemas em prosa de Juliano Garcia Pessanha (Sabedoria do Nunca; Ignorância do Sempre; Certeza do Agora – livros publicados entre 1999 e 2002) revitaliza o valor do conhecimento poético no seu impacto existencial. A obra poética de Paulo Henriques Britto também me parece ocupar um lugar importante na literatura em termos de renovação, pois conjuga de modo singularíssimo o coloquial e a forma clássica, além de dar novo frescor ao tema já exaustivamente perscrutado da metalinguagem. A poesia de Claudia Ahimsa é também renovadora, uma poesia de “pensamentos revolutivos”, como ela mesma diz, que revela uma mundividência, uma presença mítica e histórica do passado no mundo de hoje. Quem está renovando agora, eu diria, é Marcos Siscar, que acaba de lançar “Interior Via Satélite”, bela coletânea de poemas em prosa que, nos seus mais variados temas, põe a linguagem a refletir, em sua sintaxe, as nuances do próprio pensamento poético.


DG: Em suas descobertas como leitor e autor, quem são os autores estreantes que mais vem lhe chamaram a atenção recentemente, mesmo que sejam promessas?Você poderia nos indicar alguns nomes entre primeiros livros, blogueiros ou contatos diretos com jovens talentos? Há algo vindo das universidades?


MI: Eu destacaria o trabalho de Álvaro Miranda, com seu livro “A casa toda nave cega voa”, um conjunto de sonetos de grande apuro rítmico e concentração imagética que divagam poeticamente pelo tema da casa. O trabalho de Henrique Rodrigues, formado em Letras e mestre em Literatura, autor de “A musa diluída”, também merece destaque. Seus poemas renovam o verso clássico, têm densidade reflexiva. Outro belo livro é “Pássaro de Vidro”, estreia de Carlos Machado na poesia. Aliás, Carlos Machado é também criador do boletim poesia.net [www.algumapoesia.com.br], que traz quinzenalmente algum poeta da literatura brasileira ou estrangeira, clássico ou contemporâneo, o que nos oferece um riquíssimo panorama crítico-apresentativo, um trabalho ao qual o autor se dedica já há 7 anos.


DG: De alguma forma você acha que os nomes mais estabelecidos devem ajudar a iniciar ou descobrir esses potenciais novos autores?


MI: Acho importante que os veteranos estejam atentos aos novos e, na medida do possível, que colaborem com algum estímulo, sim. Mas acredito também que na iniciação de um poeta há sutilezas que não se ensinam, que escapam às questões de domínio técnico, um determinado nível de iniciação que precisa ser vivido solitária e individualmente, sem auxílio, e aqui me refiro à busca de uma voz própria, o que chamamos de estilo e Cristina Campo chamava de “pronúncia da alma”.


DG: Em que medida as plataformas digitais e a Internet afetaram a produção literária? Confundem-se, nas discussões, as questões o futuro da literatura e o futuro do livro, como objeto material. O que você pensa sobre esses temas?


MI: A internet proporcionou uma verdadeira avalanche de textos. Em termos de divulgação de novos escritores, a rede virtual funciona excelentemente, mas claro que há no meio disso um sem número de textos de qualidade duvidosa.Penso que em certa medida a ânsia de produtividade e auto-exposição também subtraem do processo criativo algo dessa condição fundamental de silêncio e paciência que contribui para o amadurecimento de um escritor. Quanto ao futuro do livro, não acredito absolutamente que as plataformas digitais venham a concorrer com o objeto material, acho que se trata apenas de um novo suporte. O livro terá sempre seus atrativos insubstituíveis, seu peso, sua textura, seu cheiro, tudo isso que desperta o prazer dos sentidos e faz tão íntimo o momento da leitura. A plataforma digital tem outras vantagens, de ordem prática, utilitária.

 

© Mariana Ianelli - Entrevista concedida a Denise Godinho, para o site Offline

publicado por ardotempo às 20:28 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 26.03.10

"A televisão é o futuro"

O visionário da tevê 

 

Entrevista com Walmor Bergesch - por Tatiana Tavares (Zero Hora)

 

Zero Hora – No livro Os Televisionários, o senhor mesclou o passado com o futuro e ainda enriqueceu esse conteúdo com textos de escritores como Luis Fernando Verissimo e Luís Augusto Fischer, que introduzem os capítulos. Como surgiu essa ideia?


Walmor Bergesch – Queríamos iniciar cada capítulo com o ponto de vista do lado de fora, do telespectador. Assim, convidamos contistas e cronistas para escrever uma história ficcional ou não, que tivesse correlação com o que seria falado a seguir. E conseguimos reunir este belo time (Sergius Gonzaga, Luis Fernando Verissimo, Aldyr Garcia Schlee, Claudia Tajes, Fabrício Carpinejar, Luís Augusto Fischer, Monique Revillion, Ignácio de Loyola Brandão, Gilberto Perin e Charles Kiefer).


ZH – Em 1961, o videoteipe foi responsável por transformar o modo como se fazia televisão naquela época. É possível fazer uma comparação entre a revolução protagonizada pelo videoteipe e a que deve ser desencadeada pela TV de alta definição?


WB – A primeira grande revolução foi realmente o videoteipe. Depois, a grande novidade foi a cor, a maior de todas para mim até agora. Em seguida, foi o desenvolvimento das microondas, para se estabelecer redes terrestres de televisão. Inicialmente, entre Rio e São Paulo. Em 1969, as redes começaram a se consagrar com o Jornal Nacional. Foi uma coisa maravilhosa, era o carro-chefe da formação de uma rede. Estabeleceram-se as afiliações das emissoras de forma mais forte. O grande marco que surgiu depois foi a TV de alta definição. A primeira vez que eu vi essa tecnologia foi na exposição da NAB em 1983, em Las Vegas. Depois, a tecnologia digital viabilizou a TV de alta definição.


ZHE qual é a revolução que a TV digital desencadeia?

 
WB – A revolução que ela vai provocar não é aquilo que estamos vendo hoje – que é maravilhoso para quem assiste a um bom filme ou boa novela bem produzida em casa ou qualquer tipo de conteúdo bem produzido em todas as etapas –, mas a evolução da tecnologia da televisão, do vídeo. Por exemplo, 3D já é uma evolução graças à tecnologia digital, porque antes ela não era viável para a televisão.


ZHPodemos fazer alguma previsão do que o futuro da televisão irá nos oferecer?

 
WB – Não temos como imaginar o que acontecerá nos próximos 15 anos. Mas já existem estudos adiantados em holografia. Centros de desenvolvimento eletrônico já estão com essa tecnologia em alguns protótipos. Algumas coisas já foram feitas experimentalmente, mas não funcionam na prática. Imagine, então, os recursos que teremos ao reunir a TV digital, o 3D e a holografia.


ZH A holografia vai permitir que, quando assistirmos uma novela, possamos visualizar a atriz ao nosso lado. Correto?


WB – Exatamente. É algo extraordinário, e acho que poderemos ver isso nos próximos 10 anos. É uma revolução extraordinária que vem aí.

 

 

 

 

Fotografia do autor: Tânia Meinertz (Divulgação/ ARdoTEmpo)

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Sábado, 17.10.09

"A morte é a inventora de Deus"

"La muerte es la inventora de Dios"
 
Francesc Relea, entrevista José Saramago
 
"Hay quien me niega el derecho de hablar de Dios, porque no creo. Y yo digo que tengo todo el derecho del mundo. Quiero hablar de Dios porque es un problema que afecta a toda la humanidad".
 
José Saramago (Azinhaga, 1922) ha vuelto a escribir de un tema que le inquieta. Lo ha hecho esta vez a través de una figura bíblica con mala prensa. Caín (Alfaguara), última novela del premio Nobel de Literatura de 1998, tiene grandes posibilidades de levantar las iras de algunos sectores católicos. Nada nuevo para el escritor portugués, que en 1991 generó una polémica mayúscula con El Evangelio según Jesucristo. En aquella ocasión, el Gobierno luso se sumó a la campaña contra Saramago, al vetar su nombre como candidato al Premio Literario Europeo. El primer ministro era el conservador Aníbal Cavaco Silva. Hoy es el presidente de la República. El veto indignó al escritor, que decidió autoexiliarse en Lanzarote, donde reside con su esposa, Pilar del Río, desde entonces.
 
¿Se puede repetir la historia ahora con Caín? "No. Ya metieron una vez la pata. No repetirán la experiencia, a no ser que quieran caer en el ridículo", dice Saramago, con aparente convicción. La entrevista tiene lugar en su casa lanzaroteña, refugio del escritor, a la que acuden amigos de todos los rincones. Dentro de unas horas tiene prevista la llegada de Mario Vargas Llosa. "El Evangelio... provocó las reacciones más violentas en sectores católicos de Italia. Me llamaron provocador", explica.
 
"En mi opinión, los católicos no tienen motivos para enojarse con Caín, porque no tiene nada que ver con ellos. El libro habla del Antiguo Testamento, y me parece que los católicos no leen la Biblia ni el Antiguo Testamento. Tienen el Nuevo Testamento, que es un texto simpático con parábolas bonitas. Creo que Caín sentará mal a los judíos, porque la Torá es su libro. Me llamarán de nuevo antisemita. No me importa. He escrito el libro que quería y creo que es una buena obra literaria". Una obra que reescribe libremente una historia, la Biblia, que según el autor no ocurrió. Y para ello usa elementos de esta historia, Babel, Jericó, Sodoma y Gomorra, Moisés en el Sinaí. Entonces ¿qué ha escrito? ¿Una fantasía? "Sí, pero en mis fantasías hay mucha lógica, y esto ocurre en muchos de mis libros. Le propongo al lector un punto de partida que puede parecer absurdo. Pero después, el desarrollo es siempre de una lógica impecable". Acaso pretende hacerle la competencia a la Biblia. "De ninguna manera. No pretendo que el lector crea haber visto la luz después de leer el libro. Sólo propongo que piense en sus propias creencias y qué espera de ellas. ¿La vida eterna? ¿La condena al infierno?".
 
En la controvertida novela del Evangelio, Saramago humanizó la figura de Jesucristo. Algunos lectores de su último libro apuntan que ahora humaniza la figura de Caín. Pone cara de póquer, medita un instante y hace la siguiente reflexión: "Lo que pasa es que Jesús humaniza la figura de Dios. Jesús suavizó y matizó el Dios del Antiguo Testamento. Nunca tuve la conciencia de que estaba humanizando a Caín, pero, claro, es el fratricida, el asesino de su hermano Abel. En castellano hay la palabra cainita, que habla por sí sola. Siempre he pensado que la historia de Caín es una historia que ha sido mal contada en la Biblia. Como la de David y Goliat. Goliat nunca ha podido acercarse a David, David venció porque tenía una onda, que era la pistola de la época".
 
De dónde viene esa obsesión por escribir de Dios, pregunto, porque el tema de fondo es Dios, aunque ahora sea a través de la figura de Caín. "Puede parecer extraño", dice. "Nunca tuve educación religiosa. Ni en el colegio, ni en casa. No tuve crisis religiosas en la adolescencia ni cuando uno empieza a preguntarse sobre la muerte. Sinceramente, creo que la muerte es la inventora de Dios. Si fuéramos inmortales no tendríamos ningún motivo para inventar un Dios. Para qué. Nunca lo conoceríamos". El ateísmo del autor tiene sus matices. "Ateo es sólo una palabra. En el fondo, estoy empapado de valores cristianos, y es verdad que algunos de estos valores coinciden con valores de humanismo. Los acepto. Ahora bien, todo lo que tiene que ver con la creencia en un Dios superior y eterno, que un día me condenará, me parece una chorrada".
 
Las páginas de Caín son implacables con Dios. "No", replica. "Soy implacable con la especie humana, que ha inventado el Señor". Bueno, pero el libro dice, entre otras cosas, que Dios no es de fiar, que es capaz de pactar con Satán, que está rematadamente loco. Le trata de rencoroso, maligno, corrupto... Le acusa de despreciar la Justicia. Y así hasta el final, donde afirma que Dios acaba por arrepentirse de haber creado el hombre. "Sí, por eso, según la Biblia, ordenó el diluvio y exterminó a la humanidad, a excepción de Noé y su familia. El libro es una lucha entre el hombre y Dios. Con Caín, que no era precisamente un santo sino todo lo contrario, pero en el fondo más limpio de mente y más transparente".
 
Mientras escribía, Saramago tropezó con un problema narrativo que parecía no tener solución: el paso de Caín por el tiempo. ¿Qué hacer? "Inventé, no el futuro ni el pasado, sino lo que llamo otro presente. De repente, Caín se encuentra en otro presente, no importa que sea pasado o futuro. Creo que conseguí conservar el humor en un tema tan complicado. El libro es divertido y profundamente serio". No es una ironía premeditada, asegura. Nunca premedita nada. La historia marca el camino de cómo tiene que ser narrada. "Soy una mano obediente que intenta no hacer nada en contra de la lógica y de lo que estoy escribiendo. Que acepta lo que quiere la propia historia. La ironía es una constante en todos mis libros. El humor aparece por primera vez en El viaje del elefante, y se repite en Caín. No fue una decisión consciente, simplemente ocurrió así".
 
La novela termina con una discusión, cargada de reproches mutuos, en el umbral de la gran puerta del arca de Noé, entre Dios y Caín: "Caín eres el malvado, el infame asesino de su propio hermano. No tan malvado e infame como tú, acuérdate de los niños de Sodoma". Es la eterna discusión entre el hombre y Dios, precisa el escritor. Una discusión sin salida. "Ni él nos entiende a nosotros, ni nosotros le entendemos a él. Son dos entidades que no se han entendido, no se están entendiendo y no se entenderán".
 
Saramago lo escribió en cuatro meses, la mitad del tiempo invertido en su anterior libro, El viaje del elefante. En ambos casos, reconoce, tenía prisa por escribir, en una carrera contra el tiempo. No podía bajar el ritmo. "Ahora ya puedo darme el lujo de reducir la velocidad. Cumpliré pronto 87 años. La vida es como una vela que va ardiendo, cuando llega al final lanza una llama más fuerte antes de extinguirse. Creo que estoy en el periodo de la última llamarada, antes de la extinción. Lo digo sin dramatismo. Tengo muy claro que no voy a vivir mucho más. Ahora estoy en una fase en la que sí creo que puedo hacer un trabajo y lo puedo hacer bien, quiero hacerlo. Después acabará todo y quedarán mis libros, que pienso seguirán siendo leídos. Espero, si la salud aguanta, terminar la novela que tengo entre manos". No revelará nada del próximo libro. Tan sólo un detalle: ya tiene decidida la última frase. No habrá sorpresas ni cambios sobre la marcha. No suele haberlos en su escritura. "Creo que soy un escritor lógico".
 
Pilar del Río va y viene por la casa, como siguiendo en la distancia la conversación. Saramago habla con cierta parsimonia, pero no da muestras de cansancio. Pasamos de la literatura a la política, su otra gran pasión. Le gusta hablar de política. Toma carrerilla y no para. Las primeras críticas son para el Partido Socialista (PS), que ha gobernado en Portugal los últimos cuatro años y medio con mayoría absoluta, y que seguirá en el poder después de ganar las elecciones del pasado 27 de septiembre. "El Gobierno socialista ha hecho políticas de derecha y el problema es que no hay ningún palacio de invierno para asaltar. Lo peor de todo, y esta crisis lo ha demostrado, es que la izquierda no tiene ideas. Ningún partido de izquierda, más o menos roja, más o menos rosa, ha presentado una sola idea para combatir la crisis. Y con los sindicatos ha ocurrido lo mismo. Su fuerza está dormida, domesticada. Me parece que Marx nunca ha tenido tanta razón como ahora. Pero eso no es suficiente. Haría falta una reflexión profunda, partiendo de Marx".
 
Es sabido que el premio Nobel portugués es militante del Partido Comunista desde los años sesenta. Un PC que no tiene parangón en la Unión Europea, de larga tradición estalinista, que sigue llamándose comunista, que conserva la iconografía bolchevique, hoz y martillo, bandera roja, que sigue soñando en épocas pasadas, probablemente más próximas a lo que representaba la antigua Unión Soviética, y que, contra viento y marea, tiene un electorado inquebrantable de medio millón de votos, que representa alrededor del 8%. El escritor admite que "es muy posible" que el PCP viva anclado en el pasado. "Lo que pasa es que tenemos una herencia, de la que no puedo despegarme. Y es posible que esta herencia no tenga mucho que ver con la realidad actual. Pero ¿por qué la realidad actual tiene razón?". Su militancia comunista tiene, probablemente, más de sentimentalismo que de convicción. "Los sentimientos cuentan. No me reconocería en ningún otro partido. Puede que sea mi culpa, y que esté enquistado en ideas del pasado, pero yo también tengo mi propio pasado.
 
Francamente, no sabría convivir en otro partido si mañana dejara el PCP. No me pasa por la cabeza". Entonces ¿por qué sigue en el Partido? "Por respeto a mí mismo. He sido muy crítico con mi partido. Dije en una ocasión que nunca dejaría el partido, con una condición: que el partido no me deje a mí. Dejarme a mí sería un cambio radical de rumbo. No creo que eso ocurra". Tuvo una incursión, fugaz, en la política activa, cuando fue presidente de la asamblea municipal del Ayuntamiento de Lisboa. Duró cuatro meses y acabó enojado hasta con su propio partido. No le quedaron ganas de repetir la experiencia, aunque en alguna ocasión aceptó ir en las listas electorales en lugares no elegibles. "Creo que sería un diputado muy bueno", dice sin cortarse. "Siempre he dicho lo que he querido, y también es cierto que la dirección del partido nunca ha hecho nada para impedírmelo".
 
Saramago hace tiempo que no sube a su escritorio, en el piso superior de la casa, porque la estrecha escalera entraña un riesgo demasiado alto. El estudio tiene una hermosa vista con el Atlántico al fondo, la mesa de trabajo, anaqueles con los libros más queridos, pinturas, recuerdos. Ahora escribe en la biblioteca construida en un edificio anexo a la casa, que alberga su colección particular, convenientemente catalogada, a la espera de su traslado a la Casa dos Bicos, un edificio emblemático del gótico lisboeta, construido en 1523, que será la sede de la Fundación José Saramago, gracias a la colaboración del Ayuntamiento de la capital. "La fundación es cosa de Pilar", dice el escritor. La compañera inseparable, traductora de sus últimos libros, es el motor del engranaje. "No sólo el motor, también las ruedas". En la recta final de su vida, contempla una vuelta, tal vez parcial, a su querida Lisboa, donde tiene una casa. "Ahora nos vamos a Italia y luego nos quedaremos unas semanas en Lisboa. Allí siento que estoy en casa. Nunca pensé que viviría en una isla en medio del Atlántico, a 100 kilómetros de la costa africana". Todo parece a punto para el regreso.
 

Francesc Relea - Publicado em Babelia - El País 

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Quarta-feira, 07.10.09

"O que sonha por aqueles que já não sonham..."

Entrevista de Mariana Ianelli - TV Cultura São Paulo

 

 

 

Veja o vídeo:

 

 http://www.tvcultura.com.br/nossalingua/player.php?id=4446

 

Veja o site da TV Cultura - Programa Nossa Língua

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Terça-feira, 19.05.09

John Le Carré

Le Carré ante el fin de una era
 
Guillermo Altares - El País / Babelia 
 
El autor británico vive al sur de Inglaterra, aislado y a la vez pendiente de todo lo que acontece en un mundo dominado por el miedo y una crisis "tan drástica e irreversible como la caída del muro de Berlín". El hombre más buscado es su nueva novela.
 
La vida y la obra de John Le Carré giran en torno a un gran tema: la lucha de un hombre por permanecer moral en un mundo amoral. Y como ocurre con Albert Camus o George Orwell, la mezcla de talento con una visión política del mundo, la unión del compromiso y la experiencia, han producido una literatura gigantesca, pero también un referente moral más allá de las letras.
 
Basta con pasar la primera media hora con él en su casa de Cornualles para darse cuenta de que Le Carré, seudónimo de David Cornwell, está incluso por encima de su leyenda. Es un hombre sabio, generoso, divertido, afable, que mira la vida desde la constante preocupación por el otro. Vive aislado, a pocos kilómetros del Land's End del suroeste de Inglaterra, el fin del mundo, en un lugar llamado Tregiffian, que quiere decir algo así como "un refugio junto al mar". Pero el aislamiento es sólo físico: está perfectamente informado, pregunta por Zapatero, Aznar y la situación en el País Vasco. Tiene el estudio lleno de novedades literarias, desde el Larsson, que todavía no ha leído, hasta McMafia, de Misha Glenny.
 
Su último libro, El hombre más buscado, es buena prueba de ello. Es una gran novela sobre el mundo posterior al 11-S, ambientada en Hamburgo. Es un puro Le Carré: hay espías, muchos, de varios países y agencias; víctimas del sistema; inmigración ilegal, Chechenia; banqueros con las cuentas poco claras, héroes cansados que seguramente ni siquiera lo sean y, cómo no, personas que tratan de sobrevivir a todo esto sin vender su alma.
 
Le Carré (Poole, Dorset, 1931) concede a los visitantes todo el tiempo que necesiten. Tras cinco horas de encuentro, uno abandona Tregiffian con la certidumbre de haber conocido a uno de los hombres del siglo, de éste y del pasado, con la extraña sensación de que a veces, sólo a veces, la palabra, la literatura, tienen la fuerza y la estatura moral que queremos concederles.
 
 
 
Guillermo Altares / Babelia:  La inmensa avaricia de las grandes corporaciones y de los bancos ha sido uno de los temas centrales de sus últimos libros, incluido El hombre más buscado. ¿Ha sido ésa la causa de la crisis que padecemos?
 
John Le Carré:  Es un sistema imposible de mantener... Hay grandes corporaciones cuyos presupuestos son superiores a los de algunos países, y tienen una influencia enorme. Una parte de la globalización consistía en dar a la industria y al comercio un gran poder. La idea era que podría haber un crecimiento ilimitado en un mundo ilimitado y que eso sería sostenible desde el punto de vista ecológico y financiero. Traería lo que mucha gente creía que era prosperidad y felicidad. Allí donde he viajado del mundo en desarrollo, he visto que los efectos de la globalización no eran precisamente ni la felicidad ni la prosperidad universal.
 
GA: Pero supongo que nunca intuyó que contemplaría el final del sistema bancario tal y como lo conocemos.
 
Le Carré. Es casi como un movimiento popular. Y es tan drástico y tan irreversible como la caída del muro de Berlín. No paro de decirles a mis nietos que tienen mucha suerte de estar vivos en un momento como éste. Creo que es mucho más que la revisión de la historia económica. Esto es radical y revolucionario. Y es muy posible que los resultados sean positivos. En los últimos años, he tratado de escribir sobre cuáles fueron las disciplinas que han reemplazado a las que nos fueron impuestas durante la guerra contra el comunismo. Hubo un vacío, necesitábamos un nuevo enemigo, lo encontramos en el islam, necesitábamos una nueva excusa. Puede ser que estemos ante un momento revisionista, no creo que todos nos convirtamos en socialistas de la noche a la mañana, pero sí que se inventará una nueva forma de respeto mutuo.
 
GA:. ¿Y no cree que en cierta medida el socialismo está regresando?
 
Le Carré. Ha vuelto la era de los Gobiernos fuertes. Durante muchos años el Gobierno era el enemigo, en la época del capitalismo ilimitado, en la era de Bush. Se ha demostrado que eso era un tremendo error. El futuro es imposible de prever, puede funcionar o puede que no. Pero no creo que sea un futuro negro. Puede ser, insisto, en mi país, positivo. En mi caso, la literatura me ha convertido en un hombre rico, pero la distancia entre los ricos y los pobres es terrible y en este momento estamos divididos entre los que están afectados por la recesión y aquellos que simplemente la observan. Pero el acto final de todo esto será mucho más igualitario.
 
GA:. Otro de los temas centrales de su último libro es la inmigración y la integración de las minorías musulmanas en Europa. ¿Es uno de los mayores problemas a los que nos enfrentamos?
 
Le Carré. En los británicos hay dos almas: aquellos que creen que nuestro pasado imperial nos ha hecho responsables de la inmigración y que, como explotamos sus países, ellos pueden venir aquí. Pero está la otra rama, nacionalista e insular, que es totalmente extraña a aceptar a otra gente. Pero ahora uno de cada cinco ciudadanos británicos es de raza mixta, lo que quiere decir que algo está pasando. Quizá hacen falta más generaciones. La experiencia de Rushdie y la declaración de una guerra cultural contra el islam ayudaron a esta polarización. Tras el 11-S no era seguro tener un tipo de piel en áreas urbanas y toda la retórica fácil sobre el islam ayudó a demonizar a esta gente.
 
Lo que más me preocupa de la reacción tras el 11-S, y creo que es la ansiedad que he expresado en El hombre más buscado, es lo que eso nos hace a nosotros, mucho más de lo que les hace a ellos. Nos hace peores. Nos olvidamos de lo cerca que estamos en las sociedades occidentales de la tortura: la practicamos, a escondidas, o invitamos a otra gente a hacerla por nosotros. Haber organizado Guantánamo, tener cerca de 27.000 prisioneros secretos, porque Guantánamo sólo es la punta del iceberg, el efecto es tan degradante hacia nuestras propias normas de comportamiento que no puedo pensar que no vaya a tener repercusiones sobre nosotros.
 
GA:. ¿Cree que Barack Obama va a ser capaz de arreglarlo?
 
Le Carré. Los que protestamos contra Guantánamo, contra la violación del hábeas corpus y de los derechos humanos pensamos que Obama sería capaz de parar todo esto. Tenemos que esperar y ver hasta qué punto este Gobierno es liberal en la realidad, hasta qué punto se puede permitir serlo porque su primera preocupación es la economía. Tiene que seleccionar prioridades. No puede luchar contra todo a la vez.
 
GA. La guerra fría estuvo marcada por la paranoia, pero el mundo posterior al 11-S también. ¿Qué periodo es peor?
 
Le Carré. Eso es lo que nos estamos haciendo a nosotros mismos. Ha vuelto, nos hemos vuelto a encarcelar a nosotros mismos. Es como si tuviésemos que alimentar un apetito, una adicción a la paranoia. Hemos olvidado que durante la guerra fría éramos constantemente conscientes de la amenaza nuclear, pasamos por crisis como el muro de Berlín o los misiles en Cuba, y siempre pensamos que estábamos a un paso de la destrucción nuclear. No sé si tenemos más miedo ahora o entonces, porque ahora nos dicen que tengamos miedo.
 
GA. ¿Entonces cree usted que es un miedo fomentado desde el poder?
 
Le Carré. Estuve entre los muchos británicos que estaban en contra de la guerra de Irak y entre los que habían votado a Blair y se avergonzaban de haberlo hecho. Supongo que recordará cómo durante una alarma en el aeropuerto de Heathrow rodearon la zona con tanques, era una forma de decir que tengamos miedo. Es verdad que padecimos el terrible 7-J y ustedes el todavía peor 11-M y que esas cosas ocurren, y nos ocurrieron una y otra vez en los tiempos del IRA. Pero en esa época nunca alcanzamos este grado de paranoia y nos decíamos a nosotros mismos: éste es el precio que pagamos por ser una sociedad libre, y nuestra principal defensa ante estos ataques es ser una sociedad abierta y democrática, atractiva para los demás, la mejor que podamos.
 
La consecuencia del caso Rushdie fue que podíamos acabar con toda la tolerancia hacia el islam. Era muy fácil en esos tiempos ser un héroe cultural si te sumabas a la cruzada contra el islam, y usted lo sabe mejor que yo viviendo en un país católico, hasta qué punto Aznar tenía motivos religiosos. Y eso da mucho miedo: que Bush y Blair fuesen en el fondo tan cristianos, y no me refiero a la religión. Si vas a Dios para justificar tus acciones, eso no es fe... Se está reproduciendo el esquema de la guerra fría: la gente inventa enemigos a la medida de su imaginación, es una guerra entre fantasmas. De acuerdo, hay unos cuantos miles de personas que forman Al Qaeda y hay una parte de la sociedad islámica que les apoya, es verdad, eso es la realidad, pero imaginar que Amaniyedad es Hitler...
 
GA. ¿Y otro fantasma de la guerra fría no cree que es el poder que está alcanzando el antiguo KGB en Rusia?
 
Le Carré. No podemos pensar que por un lado está el Kremlin, por otro el nuevo KGB, por otro el crimen y por otro los oligarcas. Todo forma parte de la misma pieza. Sería imposible distinguir el crimen de la riqueza soviética, a los oligarcas de la Mafia. Tenemos que ver a Putin como el oligarca en jefe y como alguien que quiere acumular tanta riqueza y poder como sea posible para controlar Rusia desde cualquier posición, ése es el punto de partida en el que está. Creo que acumula poder para el futuro. Y cuando elimina a oligarcas como Jodorkovski, son realmente guerras entre facciones del poder.
 
GA. ¿Está usted trabajando ahora en algo relacionado con los oligarcas?
 
Le Carré. Bueno, interpretan un papel. Estoy escribiendo una novela y aparecen en un rincón.
 
GA. Creo que si hay un gran tema en sus 21 libros, es que relatan la historia de hombres morales que tratan de sobrevivir en un mundo inmoral. ¿Está de acuerdo?
 
Le Carré. Sí, es así, y además tiene que ver con lo que estoy escribiendo ahora mismo. No es suficiente, además hay que organizar una trama; pero creo que es el momento en que los lectores se identifican con la historia porque la mayoría de la gente quiere tomar el camino decente. Y el problema es cómo tomar la opción decente en una situación compleja. Naturalmente, el patriotismo y la idea del patriotismo son muy cuestionables para cualquier persona porque están muy cerca del racismo. La opción decente es algo que también marca mi propia vida. En primera instancia sobre qué hacer con mi padre cuando me di cuenta de que era un estafador. ¿Qué hacía? ¿Avisar a la gente de que no tratase con él? Mi solución fue escapar a Suiza a los 16 años. Y luego entré muy rápidamente en la experiencia de la guerra fría. Me empezaron a decir desde muy joven: "Éste es un trabajo sucio, David, pero alguien tiene que hacerlo, y porque hacemos el trabajo sucio somos héroes". Ésa es otra asunción muy peligrosa. Detesto que midamos la fuerza de un país por la fuerza de sus servicios secretos, es totalmente antidemocrático.
 
GA. He visto que tenía en su despacho Legado de cenizas, el libro de Tim Weiner en el que afirma que todo lo que hizo la CIA fue un tremendo desastre. ¿Está de acuerdo con él?
 
Le Carré. Es un libro muy bueno y muy útil, fracasaron en muchas de las cosas que hicieron y nosotros también la fastidiamos en la mayoría de las cosas que hacemos. El problema es que el acierto ocasional lo justifica todo, como en el periodismo. Hay cuestiones que analiza muy bien. Por ejemplo, en mi país no podemos organizar de manera eficaz un servicio de salud, los bancos están hechos pedazos, mi Gobierno no sabe si es de izquierdas o de derechas, nuestra policía está corrupta. ¿Por qué tengo que creer que nuestro servicio secreto es brillante, cómo puede existir este Rolls Royce en ese mundo tan caótico?
 
GA. Y hubo momentos surrealistas durante la guerra fría, como que el amigo íntimo de Angleton, el hombre más poderoso de la CIA, fuese Philby y ni siquiera se diese cuenta de que era un agente de Moscú. Supongo que si usted pone algo así en una de sus novelas, nadie le hubiese creído.
 
Le Carré. Lo sé, es totalmente delirante. Angleton se volvió loco después y fue el mayor creador de teorías de la conspiración. Cuando estaba en el servicio secreto, su gente venía constantemente a Inglaterra para decirnos que cada parte de nuestra Administración estaba horadada por los comunistas y fastidiaron muchas operaciones. La atmósfera creada por el macartismo en Estados Unidos tuvo unas enormes consecuencias sobre nosotros. E incluso, más que la guerra contra el terror, nos puso en una posición de estás con nosotros o contra nosotros. Existen ecos muy curiosos entre el macartismo y la guerra contra el terror. Lo que sí es cierto es que (y se ríe) Moscú tenía muy buenos espías... Acertó, pero por las razones equivocadas.
 
GA. ¿Y ve el servicio secreto, el mundo de los espías, en su literatura como un gran teatro del mundo, como una metáfora de la vida?
 
Le Carré. Creo que hay universalidad en esas organizaciones, intento que el mundo secreto hable por el mundo que no es secreto, hace que los problemas sean más interesantes y más visibles para la gente. Puedo contar una historia de amor siempre que alguno de los dos sea un espía.
 
GA. Uno de los momentos que mejor definen sus novelas es cuando a Smiley le dicen que ha ganado y él responde con infinita tristeza: "¿Sí? Seguramente...". ¿Tuvo esa impresión cuando terminó la guerra fría?
 
Le Carré. Smiley sabía que había utilizado los métodos del absolutismo para derrotar a Karla y sintió que había sacrificado su propia humanidad, que se había traicionado a sí mismo. No fui capaz de celebrar con intensidad el final de la guerra fría.
 
Naturalmente fue maravilloso que el comunismo se acabase, pero no tenía muy buenas corazonadas sobre el futuro. El comunismo se destruyó a sí mismo, no a causa de los espías, sino por la imposibilidad de gobernar una sociedad cerrada en un mundo que se estaba abriendo a gran velocidad. Pero ahora no tenemos la más mínima idea de cómo controlar el capitalismo.
 
GA. ¿Y no tiene la tentación de volver a escribir sobre aquellos viejos tiempos, aunque sólo sea para que sus nietos lleguen a entender cómo fue todo aquel mundo?
 
Le Carré. Es la única cosa que me tienta para escribir una autobiografía. Vistos desde ahora, fueron unos tiempos completamente locos. Era una comedia de los hermanos Marx. ¿Ha leído En la corte del zar rojo, de Sebag Montifiore? Es un libro terrorífico sobre la vida bajo Stalin. Molotov estaba casado con una mujer de origen judío, que hablaba demasiado y que molestaba mucho a Stalin. Y un día no estaba allí: la había mandado a los campos. Toda la época en que Molotov fue ministro de Exteriores soviético su mujer estaba en Siberia y Krutchev, tras la conferencia del partido de 1956, trajo a esta anciana y se la devolvió a Molotov. Es increíble.
 
 
Entrevista a Guillermo Altares - Publicado em Babelia / El País
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Quarta-feira, 15.04.09

León Ferrari

Entrevista de León Ferrari
 
"Parte de mi obra va en contra de la idea del infierno"
 
José Luiz Estéves
 
Irreverente, rebelde y persistentemente anticlerical, León Ferrari mantiene su espíritu contestatario aún hoy con 88 años. Considerado uno de los cinco creadores más relevantes de América Latina, el veterano artista argentino acaba de inaugurar una amplia exposición antológica en el MOMA de Nueva York junto a la brasileña Mira Schendel.
 
A sus 88 años León Ferrari (Buenos Aires, 1920) mantiene las firmes convicciones que le han llevado a ser uno de los artistas más polémicos de América Latina. El MOMA de Nueva York inauguró la pasada semana una exposición antológica en la que se pueden ver algunas de sus obras más significativas junto a piezas de otra de las artistas más destacadas de la segunda mitad del siglo XX en Latinoamérica, la brasileña Mira Schendel. La obsesión de Ferrari por atacar a la Iglesia católica desde todos los ángulos no ha menguado con los años y en la última década dos exposiciones suyas en Buenos Aires se convirtieron en grandes escándalos por incluir piezas en las que se cuestionaban los valores del catolicismo.
 
Pese a las amenazas de todo tipo que tuvo que soportar, Ferrari apunta - en esta entrevista, realizada en Buenos Aires (El País) - que seguirá denunciando a los que considera grandes responsables de muchos de los desastres que han sucedido en el mundo. Su trayectoria es la de un artista autodidacta que ha dedicado buena parte de su vida a hacer visibles a través de sus obras las funestas consecuencias de la dictadura, la intolerancia y la guerra. El reconocimiento alcanzado con el premio en la última Bienal de Venecia en 2007 le ha dado la visibilidad internacional que le faltaba a un artista que alterna piezas sin aparente contenido conceptual con otras de evidente carga política, social y religiosa.
 
 
 
 
El Pais - José Luiz Esteves: ¿Qué tipo de obras va a presentar en la exposición del MOMA?
 
León Ferrari: Habrá piezas muy diversas, desde cerámicas que realicé en Roma a mediados de los años cincuenta y que suponen mi primera incursión en el mundo del arte hasta obras con poliuretano que he concebido hace poco tiempo. También podrán verse muchos dibujos, esculturas de alambre y una reproducción del Juicio Final de Miguel Ángel con excrementos de pájaros por encima. Más que una retrospectiva es una exposición antológica. Conocí a Mira Schendel cuando viví en Brasil y coincidimos en una exposición donde la idea era elevar las fotocopias a la categoría de grabados. Allí los artistas intercambiábamos nuestros trabajos y tengo una colección completa de aquella época con algunas obras de ella.
 
El Pais - José Luiz Esteves: Su trayectoria siempre ha sido polémica y en los últimos años dos exposiciones suyas han terminado en escándalo. ¿De dónde viene su obsesión por atacar a la religión católica?
 
León Ferrari: Soy un crítico de esa religión porque considero que la idea de que hay que castigar al que piensa distinto es la más grande de las intolerancias. La idea del infierno se ha convertido en real para miles de millones de personas que piensan que aquel que no piensa de una manera determinada será castigado. Creo que esa intolerancia es el origen de una gran cantidad de conflictos y exterminios que se han llevado a cabo en Occidente. Por ejemplo, aquí en América cuando vinieron los españoles creían que los aborígenes no tenían alma y por eso los mataban sin contemplaciones. Algo similar ocurrió con los esclavos en África, con las brujas, con los homosexuales. El problema es que toda nuestra cultura está impregnada de esta religión y de su intolerancia. Gran parte de mi obra va en contra de esta idea del infierno difundida por la religión católica.
 
El Pais - José Luiz Esteves: Esto le ha llevado a tener que soportar duras críticas y ataques en su propio país.
 
León Ferrari: Sí, en la muestra que presenté en el año 2000 en el Centro Cultural de España llegaron a tirar una granada con gases lacrimógenos en el interior y la gente tuvo que salir huyendo. Allí lo que hacía era crear nuevos infiernos donde los protagonistas eran los santos en lugar de la gente común. En la exposición que abrí en el Centro Cultural Recoleta en 2004 - también en Buenos Aires - había todo tipo de obras porque era una retrospectiva pero la Iglesia también se sintió atacada y el cardenal Bergoglio llegó a condenarme. De todas formas la polémica sirvió para que mucha gente viniese a ver la muestra, aunque hubo que cerrarla antes de lo previsto debido a las amenazas, porque no quería cargar con la responsabilidad de que sucediese algo malo a la gente que fue a visitarla. Creo que la exposición sirvió para que muchas personas se diesen cuenta de algunas cosas porque hay pocos que se metan con la religión. Hace poco salió una encuesta que decía que un gran porcentaje de la población se cree cosas como lo que ha dicho ahora el Papa sobre los preservativos y el sida.
 
El Pais - José Luiz Esteves: Su toma de posición tan clara no es frecuente en el arte contemporáneo.
 
León Ferrari: Aquí en Argentina hay algunos grupos de artistas que sí han teñido sus acciones de componente político como el grupo Etcétera, pero en los últimos años parece que están más callados. Siempre he tenido contacto con artistas jóvenes como los de este grupo. De todas formas creo que los políticos no se ocupan mucho del mundo del arte, aunque el Gobierno actual en Argentina tiene interés por estas cuestiones y se han programado algunas exposiciones importantes.
 
El Pais - José Luiz Esteves: Usted nunca mostró un gran interés por el mercado, sin embargo ahora parece que los artistas sólo valen lo que pagan por sus obras en las subastas.
 
León Ferrari: Creo que lo que sucede es que el arte está muy vinculado a los medios de comunicación y a éstos les atraen las cosas extrañas. Por eso despiertan tanta atención fenómenos como la venta por miles de millones de ese tiburón metido en una urna. Siempre he trabajado de forma independiente del mercado y por eso aconsejo a los artistas jóvenes que traten de ganarse la vida de otra forma y que se dediquen al arte sin tener en cuenta el mercado. Yo lo hice durante años y ahora veo que algunas de mis obras son reconocidas.
 
El Pais - José Luiz Esteves: ¿Qué le inspira ahora para seguir trabajando?
 
León Ferrari: Por una parte me inspira la realidad y por otra la religión. Sigo haciendo infiernos con los santos y también trabajo en un proyecto para convertir un inmueble que poseo en Buenos Aires en un pequeño museo donde pueda verse parte de mi obra y la de mi padre, Augusto C. Ferrari. Veo esperanza en personas como Obama que ha sido capaz de hablar de las personas que no tienen creencias en un país como Estados Unidos donde la religión tiene tanta fuerza.
 
Publicado em El País - Babelia 
Entrevista de León Ferrari, concedida a José Luiz Estéves
Escultura suspensa, confeccionada em arames de aço inoxidável - León Ferrari
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Terça-feira, 03.02.09

Entrevista: Pierre Yves Refalo

Fotografia...alguém ainda está fazendo
 
 
 
 
 
 
 
Pierre Yves Refalo é fotógrafo profissional, autor de livros de arte de fotografia, fotógrafo oficial do Programa Sr. Brasil - Rolando Boldrin, na TV Cultura - São Paulo, e fotógrafo-autor das Séries Olivério Girondo, Deserto e Carandirú (fotografias) 
 
 
 
ARdoTEmpo: Pierre Yves Refalo, fala-se que este é o século da imagem, o século XXI - como você vê o papel do fotógrafo hoje? 
 
Pierre Yves Refalo: Para começar , eu não acho que o século XXI seja o século da imagem, o século XX foi o século da imagem, o século XXI é o século da morte da imagem...é o século da manipulação, da imagem fabricada, acabou o espontâneo, o real, é tudo fake...
 
ARdoTEmpo: Mas a fotografia é o motor das mídias mais contemporâneas, a internet, a TV digital, o cinema, a própria fotografia como linguagem,... a arte atual, a arte contemporânea, é a fotografia e o artista, contemporâneo, é o fotografo?
 
Pierre Yves Refalo: Não, sobraram poucos fotógrafos de verdade, entre os quais nem creio que eu posso estar relacionado - a fotografia hoje é a apenas a matéria-prima, a partir da qual se faz todo tipo de manipulação para qualquer finalidade, porisso eu acho que a fotografia morreu, ela se tornou uma espécie de commoditie, uma matéria-prima para ser manipulada posteriormente...
 
ARdoTEmpo: Mas o que você quer dizer com “manipulação posterior”? A manipulação técnica faz parte da proposta da nova fotografia ...por exemplo, do universo da fotografia digital...
 
Pierre Yves Refalo: É que com as novas tecnologias contemporâneas disponíveis, com os novos programas de computador e com um pouco de conhecimento dos programas, você pode salvar a pior fotografia, ela pode ser transformada, pode ser embelezada, é uma mudança do métier, do saber como fazer, eu não me sinto mais fotógrafo, eu me sinto agora um técnico em informática...
 
ARdoTEmpo: É, mas isso não é necessariamente verdadeiro quando se observa as fotos de autoria feitas por você, as fotos do inverno em Paris, as fotos na Toscana, a foto dos ciclistas em Florença, ali sempre existe uma escolha de momento e isso passa por um componente de sensibilidade pessoal.
 
Pierre Yves Refalo: Sempre há uma manipulação. Mesmo quando eu faço uma foto dessas que você chama de fotos de autor, e eu faço pouco essas fotos, faço essas fotografias quando viajo... eu não vivo com uma câmera na mão, quando eu tenho uma câmera eu sinto a necessidade de fotografar alguma coisa, mas eu não vivo com a câmera na mão como certos fotógrafos...mas depois sempre há uma passagem obrigatória pelo computador, atualmente eu trabalho apenas com câmeras digitais... têm-se que revelar a foto como antigamente revelava-se o filme, mas quando se revelava o filme, antes, estava-se ali sem poder nenhum frente ao negativo...só se podia passar ao papel fotográfico, com os artifícios do laboratório também, mas isso era super limitado com relação ao que se pode fazer  hoje na frente de um computador.
 
ARdoTEmpo: Então a situação hoje é mais favorável ao fotógrafo...
 
Pierre Yves Refalo: Não, a situação hoje resulta mais favorável a manipular a foto... mas se a foto é definida por um clique, que passa depois por um computador que a transforma completamente, então... sei lá o que se pode chamar isso hoje...
 
ARdoTEmpo: Mas é a mesma coisa... Man Ray, por exemplo, fazia interferências sobre as imagens...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, sempre existiu a interferência nas imagens pelo fotógrafo, a fotografia sempre teve interferências. Mas hoje a base da criação fotográfica não é mais o olho, atualmente a base da criação fotográfica é o computador.
 
ARdoTEmpo: Num determinado momento nos anos 80, na Série Olivério Girondo (ensaio fotográfico artístico de 50 imagens em película, em gelatina, ampliadas em grande formato sobre papel, num minucioso trabalho de interferências em laboratório, de grande sucesso em exposições em museus) de sua autoria, um trabalho de características super contemporâneas que antecedeu ao trabalho de manipulação digitalizada...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, sem dúvida, mas era numa época romântica, do século XX, em que o fotógrafo era obrigado a encontrar soluções para chegar aos resultados vislumbrados, aos projetos que imaginava...para chegar, por acaso, a um resultado satisfatório... mas hoje em dia, não há mais essa pesquisa porque na medida em que alguém domina o programa de computador, ele pode fazer absolutamente tudo com as imagens...
 
ARdoTEmpo: O que significaria que os limites da fotografia foram expandidos, como linguagem?
 
Pierre Yves Refalo: Não, ao contrário, significa que agora tudo está mais limitado... porque todo mundo pode ser fotógrafo ou acha que pode ser fotógrafo. O que não é verdade.
 
ARdoTEmpo: Sim, não é verdade.
 
Pierre Yves Refalo: ... ainda há um fotógrafo atrás da máquina, mas um fotógrafo atrás de uma máquina fotográfica digital não é nada, porque não há nenhuma fotografia, nenhuma, afirmo, que saia de uma digital que possa ser utilizável (sem o trabalho de refinamento no programa de computador). Não existe.
 
ARdoTEmpo: Quais são seus planos futuros para sua fotografia de autoria?
 
Pierre Yves Refalo: Não tenho nenhum plano, continuarei a fotografar o que vir à minha frente quando tiver uma câmera na mão, o que não é muito freqüente, para ter uma matéria-prima que eu possa manipular depois.
 
ARdoTEmpo: Mas você tem uma série de imagens, ou de conjuntos de fotografias que podem ser vistos como séries, como a Série Olivério Girondo, a Série do Deserto, a Série Carandiru, séries impressionantes que são inéditas, que ainda não foram vistas em sua essência...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, sempre haverá possibilidade de mostras de fotografias feitas antes da explosão da informática...
 
ARdoTEmpo: E depois da explosão da informática também, porque você continua fotografando...
 
Pierre Yves Refalo: Sim, mas você me perguntou da fotografia atual, eu falei que a fotografia real, concreta, era a do século passado e que estamos no século da imagem pelo computador... eu nem tenho saudades daquele tempo, eu nunca mais comprei um filme, essa situação do digital e do computador me convém, até por preguiça, mas a fotografia real era aquela dos filmes, da gelatina, da química, das ampliações em laboratório... alguém ainda está fazendo.

 

Entrevista concedida por Pierre Yves Refalo ao ARdoTEmpo - Janeiro 2009

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Terça-feira, 06.01.09

Entrevista: Henrique Chagas - Verdes Trigos

Entrevista ao Blog Papo em Comunidade

 

PIT - Olá Henrique, bem vindo ao Papo em Comunidade.
 
Henrique Chagas - É uma honra me apresentar à comunidade judaica, e de falar sobre literatura e sobre o site Verdes Trigos neste seu precioso espaço. Obrigado pela oportunidade que me concede.
 
 
PIT - Você é advogado, mas se dedica à literatura. Como se deu este interesse?
 
HC - Muito antes de me tornar advogado já tinha vontade de ser escritor. Na verdade sempre tive interesse pela leitura. Cresci vendo meu pai ler, ele lia muito e de tudo, tive o privilégio de aprender a ler com ele. Ensinou-me que somente o conhecimento poderia dar-nos um destino e uma vida melhor. Ainda adolescente, minhas veias literárias já saltavam através de poemas, de crônicas e de um pequeno romance inacabado. Para mim o livro mantém uma carga simbólica enorme. Foram os livros que despertaram em mim, ainda estudante, o desejo vulcânico de mudar o mundo sem armas, apenas com palavras, com letras e rimas, mesmo arriscando às atrozes conseqüências advindas do regime daqueles anos de chumbo. Queria mudar o mundo com uma prosa diferente, com palavras transformadoras, que alterassem o rumo das coisas. Por isso, independentemente da profissão que exerço o livro e a literatura tem lugar especial no meu viver.
 
PIT - Há muito tempo você criou o site Verdes Trigos. O que te levou a criá-lo?
 
HC - Foi em novembro de 1998, quando os blógues ainda não existiam. Imaginava escrever um livro “on line” com a participação do leitor, todavia desisti da idéia, pois o processo de criação é algo solitário. O que eu pretendia era escancarar o processo criativo com a interação dos leitores. Sequer existiam os conceitos da web 2.0, mas surgia, ali, um embrião do blógue, com meus comentários sobre os livros que lia e que davam fundamentação ao meu pensar. Preferi continuar o livro off line e dei seguimento à publicação de resenhas e ensaios literários. Assim nasceu o site Verdes Trigos.
 
PIT - Por que o nome Verdes Trigos?
 
HC - O escritor israelense Amós Oz afirmou que costuma, às manhãs, caminhar pelo deserto para captar suas vozes. Diz ele que as vozes do deserto são regalos para a sua escrita. Faz sentido porque desde menino eu ouço as vozes do vento, aprecio dias de ventania, pois o vento carrega com ele o som do primeiro dia da existência. Aquele mesmo vento, após bilhões de anos, ainda ecoa sobre nós. Desde pequeno aprendi a ouvir a voz do vento, quando criança passava horas admirando o balançar das espigas do trigo e captando o ruach criador. Diz o texto sagrado que, após a criação do mundo, o vento do Senhor pairava sobre as águas; é este o vento que me inspira a escrever.
 
Ao dar nome ao meu site cultural e literário, busquei inspiração no vento que balança as espigas do trigo, uma cena que carrego comigo. Como aprecio a arte de Van Gogh, associei a sua arte aos verdes trigos da minha infância, e à marca Verdes Trigos atribui conceito filosófico, que representa a esperança de um mundo melhor, que se conquista pela solidariedade, tolerância e pelo repartir do conhecimento.
 
PIT - Você recebe muitos livros. Você consegue ler todos?
 
HC - Por conta do site Verdes Trigos  http://www.verdestrigos.org/  recebo muitos livros, seja dos seus autores ou das editoras. Recebo-os, em sua maioria, acompanhados por resenhas e apresentação para que sejam incluídos no site. Por uma questão de tempo, não consigo lê-los todos como também não divulgo todos. Entretanto, dependendo do conteúdo, da abordagem, eu procuro lê-los e, se for o caso, fazer uma nota para site ou publicar uma resenha. Muitas vezes compro determinado livro, leio e o divulgo quando julgo interessante. O livro que me interessa é aquele que, além de uma ficção ou não-ficção, possui algo de perene a dizer. Livros que não dizem “nada” não me interessam. E o “nada” é a ausência de harmonia com a criação.
 
PIT - Qual o seu critério para divulgá-los no site?
 
HC - O livro para ser divulgado no site Verdes Trigos, além de bom – na forma e no seu conteúdo - deve atender à nossa filosofia de trabalho e aos aspectos culturais que envolvem o site. Cremos que as boas idéias, bons pensamentos e os bens culturais devem ser disponibilizados socialmente, até mesmo como forma de entretenimento; é por isso que invisto tempo e dinheiro no site Verdes Trigos, cujo retorno cultural me é altamente satisfatório. Como já dito, advogo uma causa que me é muito particular: que a maior riqueza está no conhecimento, no aprendizado, na grande herança que recebi de meu pai (o desejo de sempre aprender). A mudança não acontece apenas porque achamos que é possível, mas especialmente porque nos preparamos para o futuro. No site aceitamos e instigamos a polêmica, entretanto jamais aceitamos idéias intolerantes, racistas ou desagregadoras. Essa é a nossa política. Os textos publicados devem trazer em seu bojo a busca pela completude humana, a busca pelo entendimento, pela harmonia e por um futuro melhor.
 
PIT - Qual o seu gênero literário e escritor preferidos?
 
HC - Procuro ler um pouco de tudo, mas gosto mesmo é da literatura ficcional, com forte conteúdo histórico, sócio-político ou filosófico, seja romance ou conto. Meu autor predileto é Amós Oz, que permanece na fila de um Prêmio Nobel. Sou fã dele, cito-o constantemente. Na seqüência, não posso deixar de citar o albanês Ismail Kadaré e o contista Nathan Englander que muito me impressionou com o seu "Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis", um livro que me foi presenteado pela escritora Noga Lubicz Sklar. Dos meus escritores brasileiros preferidos no momento peço licença para citar os gaúchos Moacyr Scliar e Alfredo Aquino.
 
PIT - Qual o seu livro de cabeceira?
 
HC - Como leio muito, e em todo lugar, metaforicamente “na cabeceira” está hoje o livro “Tirando os sapatos”, de Nilton Bonder. E claro, desde que aprendi a ler, eu costumeiramente leio a Bíblia. Possuo várias; a última que comprei foi a “Bíblia Hebraica”, da Editora Sefer, de São Paulo.
 
 
PIT - Que livro você indicaria atualmente?
 
HC - Indico os livros do Nathan Englander, os dois livros publicados no Brasil. Indico também um livro corajoso, “Carassotaque”, do gaúcho Alfredo Aquino. Estou lendo este último, é simplesmente ótimo, ele descreve as relações de poder e medo.
 
PIT - Qual o seu maior sonho?
 
HC - Meu maior sonho é terminar de escrever e publicar um romance, cuja temática é uma reflexão sobre o sentido da existência humana, muito mais profundo que nosso sentido meramente filosófico, ao contrário, projeto nas personagens as nossas dificuldades de compreensão do sagrado e do profano. Não existem coisas sagradas e coisas profanas. Tudo é sagrado, como já dizia Djavan. Nessa busca por uma identidade, por um lugar no mundo, os personagens se esbarram com a sua inexorável pequenez frente ao universo, ao aquecimento global, à escassez de água que já se avista, embora neste mundo pós-moderno tudo seja facilitado pela tecnologia de ponta. Já adianto que o enredo passa por uma busca de identidade pessoal, que perpassa pelas ruas de Tel Aviv, pelas planícies da Galiléia e desemboca no Pontal do Paranapanema [local conflituoso], onde uma empresa israelense de exploração de água se instala. Em meio ao comércio de águas para irrigação e exportação, nossos personagens constroem o futuro. O resto é suspense.
 
PIT - Qual a sua relação com o Judaísmo?
 
HC - Descobri que tenho raízes na cultura judaica. Meus avós são descendentes de marranos perseguidos pela inquisição portuguesa. Judeus que se converteram na marra ao catolicismo. Meu avô mudou de sobrenome em razão da perseguição. Depois desta descoberta, fui a Israel. Encantei-me com Jerusalém, senti-me como se tivesse voltado à terra dos meus ancestrais. Passei, então, a estudar o judaísmo, um judaísmo nada ortodoxo. Comecei também a estudar a língua hebraica. Assim, creio que não sou nada religioso no sentido comum, mas sou extremamente religioso no sentido ontológico da palavra. Busco sempre identificar-me com Aquele cujo nome é impronunciável, inclusive quando escrevo. Posso afirmar que minha relação com o Judaísmo é de total encantamento, não somente por acreditar que está no sangue, mas especialmente por acreditar que é possível ter uma relação de temor e amor com o Criador; que é possível viver os valores intrínsecos à cultura e religiosidade dos nossos ancestrais.
 
PIT - Henrique, obrigada por sua entrevista e deixe aqui o seu recado.
 
HC - Obrigado pela oportunidade de estar no seu espaço, por sua generosidade.
Serei eternamente grato. Aos leitores desta entrevista, agradeço de coração e convido-os a nos acompanhar navegando em verdes trigais:
 
Verdes Trigos  -  http://www.verdestrigos.org/
 
Que todos nós sejamos abençoados. Obrigado!
 
Publicado no blog Papo em Comunidade

 

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Domingo, 21.12.08

Walmor Bergesch - Visionário da TV

Um protagonista do telejornalismo

Entrevista concedida à Coletiva.net

O jornalista, radialista e empresário Walmor Bergesch é uma personagem que faz parte da história da televisão no Estado RS e no Brasil, desde o seu início. Muito jovem, recém-chegado do Interior, foi um dos profissionais que atuou na instalação e na inauguração das três primeiras emissoras de TV de Porto Alegre, além de ter participado da primeira transmissão a cores do Brasil. “Este impacto foi imensurável”, avalia, sobre o surgimento da nova mídia, na época.

 

Autodidata, sempre estudou muito sobre TV: assinava exatamente 40 revistas, americanas e européias. “Eu sempre busquei o conhecimento, onde ele estivesse”, destaca.

 

Nasceu na cidade de Estrela, em 10 de abril de 1938, e 16 anos depois estava atuando na emissora local, a Rádio Alto Taquari. O adolescente, que todos os domingos freqüentava o programa de auditório, foi convidado para se apresentar e demonstrar sua habilidade musical: tocar gaita de boca. Logo, surgiu a oportunidade de fazer um teste para locutor e redator de notícias. Assim, começava a traçar sua trajetória profissional.

Era início de 1955 quando Walmor veio para Porto Alegre, morar em pensão, e foi até a emissora para falar com o diretor geral da Rádio, Dinarte Armando. O jovem fez teste para locutor com José Salimen Junior, que já trabalhava lá, e foi aprovado. “Daí começou uma amizade que vai até hoje”, relembra.

Depois disso, o diretor musical ainda descobriu que o jornalista sabia tocar gaita (harmônica) de boca. Acabou ganhando outro contrato na Farroupilha, o de solista. E conforme Walmor foi aprimorando seu desempenho na locução, foi crescendo e ganhando mais espaço. Passou a atuar, também, na redação de notícias e a fazer reportagens. Na emissora ele ficou até surgir a televisão, em 1959. Neste ano, foi um dos 16 selecionados, entre os profissionais do Diário de Notícias, Farroupilha e Difusora, a pedido de Chateaubriand, diretor dos Diários e Emissoras Associados, para ir ao Rio de Janeiro fazer um curso sobre televisão. 

Na volta, com o conhecimento adquirido, integrou a equipe que instalou e inaugurou a TV Piratini em dezembro de 1959. Walmor produzia três programas e apresentava dois deles. “A TV Piratini foi a grande formadora de profissionais de televisão na década de 60, quando surgiram os três primeiros canais no Estado”, lembra, referindo-se à TV Gaúcha e TV Difusora, que surgiriam na seqüência. 

No final de 1961, produziu e gravou, juntamente com Paulo Ruschel, o primeiro VT do Rio Grande do Sul. A TV Piratini já havia recebido o equipamento, mas só usaria em janeiro do próximo ano. Walmor se prontificou a estrear a tecnologia. O jornalista reuniu todos os amigos em casa para o tão esperado momento, mas ninguém conseguiu assistir. Descobriu que graças às configurações feitas pelo inexperiente técnico no estúdio, a exibição foi um fracasso.  “Depois a gente ria... mas o pioneirismo tem disso”, avalia o jornalista. Antes disso, tudo era feito ao vivo.

Em 1962, a TV Gaúcha estava se preparando pra entrar no ar. A convite de Maurício Sirotsky, o fundador do Grupo RBS, o profissional foi chamado para atuar na inauguração da emissora como chefe de programação. “Foram momentos de grandes inovações. Nós recrutamos os melhores profissionais. Foi uma experiência muito boa”, considera. Em 1967, viajou para os Estados Unidos para conhecer emissoras e aprender tudo o que faltava sobre televisão.

Em 1969 aceitou proposta para trabalhar na inauguração do terceiro canal de Porto Alegre: a TV Difusora. “Era irrecusável”, explica. Assumiu como superintendente geral da emissora, tratando das áreas de operação, produção e programação, ao lado de Salimen, que era responsável pela parte de mercado, administrativo e financeiro. “Mais uma vez, montamos uma equipe espetacular”, conta. Em 1972, participou da primeira transmissão a cores do Brasil, durante a Festa da Uva, em Caxias do Sul. 

Após 1975 fez estágios em várias emissoras de TV nos Estados Unidos.

Nesta mesma época, em que era crescente a produção de vídeos independentes nos EUA, fez um projeto para instalação, em São Paulo, da primeira produtora independente de vídeos no Brasil. Mais uma vez em parceria com Salimen, passou a buscar recursos e apresentar a idéia a investidores.

Até que Nelson e Maurício Sirotsky tomaram conhecimento do projeto e, neste meio tempo, enquanto não se consolidavam os apoios, Walmor foi convidado a retornar ao Grupo RBS. 

Treze anos depois, o bom filho à casa torna”, considera o jornalista.

De volta à empresa, criou a diretoria de Marketing, que teve como primeiro grande projeto mudar a marca Rede Brasil Sul de Comunicação para RBS. Depois, à medida em que foram desenvolvendo a marca, foi a vez das emissoras de televisão terem suas nomenclaturas simplificadas. 

Em 1987, com uma grande reestruturação, passou a ser diretor da RBS TV para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina e, logo em seguida, superintendente de Mídia Eletrônica – Rádio e TV. Em 1990, criou a área de Novos Negócios que, a partir de projeto de televisão por assinatura, em parceria com a Globo, deu origem à Net. Assim, em 1995, através dele, surgiu a idéia da TVCom e, no ano seguinte, do Canal Rural. Em 2000 e 2001, Walmor ainda participou do projeto, com sede em São Paulo, de implantação e operacionalização da TV a cabo, com fundos americanos e sócios brasileiros, no Nordeste.

 

Na RBS ficou até 2000 exercendo o cargo de vice-presidente da área de TV por assinatura. Hoje, acompanha de perto seu mais recente projeto, a obra “Os Televisionários Gaúchos – 50 Anos de TV no Sul”. O livro, que vai trazer o depoimento de mais de 100 protagonistas da televisão no Estado, discorrerá sobre o passado, o presente e o futuro da área, além de trazer muitas fotos de todas as épocas. A intenção do autor é lançá-lo no segundo semestre de 2009.

Atualmente, também está à frente de outro projeto, desta vez ligado à inclusão digital através de uma rede nacional de outernet. São quiosques multiuso com telefonia e Internet de fácil acesso. Sem poder falar muito, adianta que o pré-lançamento será no primeiro trimestre de 2009, numa cidade do Interior de São Paulo. Durante seis meses, a idéia será testada em 250 terminais.

É casado há 10 anos com Marilene Bittencourt, 43 anos, empresária de design de móveis. Do primeiro casamento, Walmor tem três filhos: Mylene, de 46 anos, César, 45, e Fernando, 40. Todos são empresários e moram em Santa Catarina.Tem cinco netos, com idades entre 21 e dois anos. Em casa, duas vezes ao ano, realiza saraus musicais beneficentes. Cada convidado leva alguns quilos de alimentos não perecíveis, destinado a instituição beneficiente específica.

Não cozinha, mas aprecia degustar um bom vinho. Tem preferência pelos franceses e italianos, chilenos e argentinos. “Fora estes, somente o excelente Vila Bari, da Vinícola Barichello, do meu amigo Luiz Alberto Barichello”, brinca. 

Obviamente, gosta de ler. “Eu leio muito, eu leio muito mesmo. Sobre TV, comunicação, mídia e até psicologia”, detalha. Seu projeto para o futuro é cursar Filosofia. Também pretende viajar muito mais, para conhecer lugares como a China e a Índia. Ainda quer conhecer melhor seu país de origem, a Alemanha. Portugal é um país que gostaria de, quem sabe, morar. Os lugares que conheceu, mais gostou e sempre acaba voltando são Los Angeles, Nova Iorque, Londres e Itália. “Não vou a lugares que não tenho certeza que eu vá gostar.”

Pelo menos quatro vezes por semana, Walmor pratica exercícios físicos. Para isso, tem uma academia completa em casa. Também faz corrida três vezes por semana. Gosta muito de viajar e passear com a esposa na Serra e no litoral catarinense, para visitar os filhos.

Já há alguns anos, Walmor faz meditação, acupuntura e lê muito sobre Buda. E esta é a sua filosofia de vida. “Não que eu seja budista, mas sigo muito os conceitos de tranqüilidade... viver o agora, o hoje, estar bem com a família e amigos, sempre em busca da qualidade de vida”, explica. E acrescenta que, para ele, o segredo do sucesso está em sonhar e planejar com persistência e disciplina, além de muita comunicação.

“Eu quero fazer muito mais coisas. Não me sinto realizado, mas sou muito feliz. Tenho amigos, uma família e um trabalho maravilhosos! Só faço aquilo que me desperta paixão”, afirma. “Quando fiz 60 anos, renovei meu contrato com o 'velhinho' por mais 60... ele que se vire”, conta brincando, ao mesmo tempo em que demonstra a alegria de viver e a satisfação em fazer o que gosta. 

 

Publicado no Coletiva.net

Fotografia atual do autor por Tânia Meinerz

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Quarta-feira, 10.12.08

Entrevista: Tânia Rösing

"Para questões de cultura, nunca houve tempo de fartura."
 
 
 
 
 
 
Tânia Rösing - Professora, Doutora em Teoria Literária, idealizadora e organizadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo RS - Brasil
 
ARdoTEmpo: Tânia, você é a idealizadora e a Coordenadora do mais significativo e importante Encontro de Literatura em Língua Portuguesa, que ocorre no Brasil - como será agora em 2009? O que sua equipe está programando?
 
Tânia Rösing:  Todos nós, os integrantes da equipe organizadora, estamos trabalhando em função da seleção do tema geral, programando os subtemas dos palcos de debates e das conferências. É a fase dos contatos com as editoras e da seleção dos nomes dos autores, tanto da Jornada quanto da Jornadinha em função do tema que abrigará os debates.
 
Estamos formatando o 8º Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural, o 3º Encontro Nacional da Academia Brasileira de Letras, o 2º Encontro Estadual de Escritores e o Seminário Internacional de Contadores de histórias, ao lado da programação de 13 cursos.  
 
ARdoTempo: Qual a interferência da prevista crise econômico-financeira sobre a Jornada de 2009? Muitos eventos culturais já estão sofrendo, a própria Feira do Livro de Porto Alegre resultou muito menor neste ano de 2008 e com limitações estruturais bem evidentes... O que acontecerá com a Jornada - será menor, menos ambiciosa que o fato extraordinário de 2007?
 
Tânia Rösing: Para questões de cultura, nunca houve tempo de fartura. Há que se lutar muito, a cada edição das Jornadas Literárias, uma vez que não existe disposição em diferentes instâncias de prever a designação de verbas vultosas para ações educacionais sintonizadas com ações culturais no Brasil.
 
Desde 1981, lutamos para conseguir os apoios financeiros necessários. Se fôssemos levar em conta essa batalha, esses desgaste físico e psicológico para convencer instituições governamentais, apoiadores financeiros, já teríamos desistido. Como o mais importante é o objetivo que perseguimos – formar leitores – o que já nos rendeu o título de Capital Nacional da Literatura e a constatação por intermédio de pesquisa feita pelo IBOPE de que, no momento, Passo Fundo é a cidade brasileira onde mais se lê no país:  6,5 livros por pessoa-ano, continuamos a executar nossas idéias do tamanho que elas são e com a complexidade que elas implicam.
 
É importante salientar que a Feira do Livro de Porto Alegre não resultou menor em função de crise financeira mundial. Outros motivos que não nos interessam explicitar, causaram o transtorno responsável pela decisão de fazê-la menor em 2008.
 
Há que se aprovar o projeto na Lei Rouanet – Mecenato e na LIC Estadual para desencadear o processo de captação de recursos.
 
ARdoTEmpo: Temos algum nome já confirmado entre os grandes escritores que poderiam estar conosco, em Passo Fundo?
 
Tânia Rösing: A homenagem da 13ª Jornada Nacional de Literatura e da 5ª Jornadinha Nacional de Literatura será feita ao escritor Pedro Bandeira.
 
Entre os demais grandes escritores já convidados, confirmou presença António Lobo Antunes, uma das maiores expressões literárias de língua portuguesa na atualidade. Os demais nomes serão divulgados, no momento oportuno, por intermédio de nosso site. 
 
 
ARdoTEmpo: Poderemos contar novamente com o brilho e o entusiasmo dos "três tenores" - os brilhantes Ignácio de Loyola Brandão, Alcione Araújo e Júlio Dinis na coordenação dos debates no Circo da Cultura - o grande palco da Literatura no País? E o Luís Augusto Fischer, que tão bem coordenou o Encontro de Escritores Gaúchos, repetirá o seu projeto?
 
Tânia Rösing: As ações das Jornadas, no âmbito da movimentação cultural em que se constituem, têm a mesma importância e os coordenadores dos debates, dos seminários e encontros de escritores nacionais e estaduais, dos palcos de debates, das conferências, dos cursos, todos fazem parte da programação complexa que elas representam. 
 
Contaremos sim, com a participação já tradicional de Alcione Araújo, Ignácio de Loyola Brandão, de Júlio Dinis; convidamos Luís Augusto Fischer para continuar coordenando o Encontro Estadual de Escritores; Miguel Rettenmaier coordenará o Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural juntamente com Fabiane Verardi Burlamaque; Eliana Teixeira e Paulo Becker coordenarão a Jornadinha; Celso Sisto e Eladio Weschenfelder, o Seminário Internacional de Contadores de histórias, a Pré-Jornada e a Pré-Jornadinha serão desenvolvidas por Solange Lopes Brezolin, Eliana Teixeira, Liana Lângaro Branco e as demais atividades, cada uma terá o seu coordenador cuja responsabilidade exigem talento, liderança, comprometimento. Sempre tivemos o apoio ímpar de profissionais sintonizados com os grandes objetivos que sustentam nosso movimento.
 
ARdoTEmpo: A Jornada Literária de Passo Fundo, é, sem dúvida, o fato literário superlativo nacional no ano em que ocorre, isso se consagra a cada grande evento realizado - como você vê o futuro da Jornada e qual a sua importância para a Universidade de Passo Fundo, para comunidade da região onde acontece e para o universo literário do País? 
 

Tânia Rösing: As Jornadas Literárias de Passo Fundo são um caminho importante no processo de formação de leitores literários e, ao mesmo tempo, de leitores que possam entender e apreciar as linguagens de distintas manifestações culturais. Não são um evento, mas o ápice bienal de uma movimentação cultural permanente, com muitos desdobramentos.

 

Sendo seu único objetivo formar leitores, cada vez mais reunimos pessoas que desejam contribuir com a sua continuidade, com a sua ampliação, com a consolidação cada vez maior de toda essa movimentação, considerando a importância que assumiu não apenas no Rio Grande do Sul, mas no Brasil, com reconhecimento internacional. Enquanto houver disposição de trabalho, vontade política desse grupo interinstitucional que integra a comissão organizadora, bem como o apoio de escritores, de editores, de livreiros, a presença das Leis de Incentivo à Cultura e apoio de empresas estatais e de empresas privadas, continuaremos a nossa luta, que não é pequena mas que vale a pena, pois busca a transformação das pessoas, a ampliação do número de leitores críticos e emancipados. 

 

Entrevista concedida por Tânia Rösing ao Blog ARdoTEmpo - dezembro de 2008

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Terça-feira, 11.11.08

Três Perguntas

Daniel Feix - Zero Hora

 


  

A experiência do artista plástico Alfredo Aquino como autor de livros vem de longe – além de escrever e editar títulos de arte, seus desenhos já ilustraram por exemplo o volume de contos Cartas (2004), de Ignácio Loyola Brandão. Mas sua estréia como ficcionista se deu apenas em 2007, com A Fenda, também este um livro de contos. Carassotaque (2008), que ele autografa hoje, às 18h30min, na Praça de Autógrafos - 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, é seu primeiro romance.



 

ZH – Você é um artista visual, escreve sistematicamente em blog, já publicou contos... O que o levou ao romance? Foi a complexidade do tema – as identidades culturais?



 

Alfredo Aquino – O livro fala muito do medo, tema universal que toca a todos, que faz parte do nosso cotidiano. Ele tem a haver com a arte contemporânea em geral. Essa questão da identidade é crucial também: ser percebido, ser reconhecido e harmonizar seus valores democraticamente, saber ouvir e também conseguir ser ouvido. Mas, se isso vale para uma pintura, também vale para a literatura.

 

Escrever é apenas outro modo de expressão, de inventar um mundo de fantasia em que nos identifiquemos, autor e leitor, numa espécie de vertigem. A interpretação que quem lê o livro faz, as identificações multiplicadas, isso é muito rico. Mas acontece também na pintura, nos desenhos...



 

ZH – Carassotaque tem como protagonista um fotógrafo, ou seja, um artista visual, que vive longe de suas origens. O quanto ele tem da sua experiência e da sua visão de mundo?



 

Aquino – Alguma coisa. Na verdade, o protagonista é o outro, o que nos chama atenção, o que nos ensina a ver com seu olhar diferente do nosso – diferente do meu próprio olhar. O estrangeiro faz perguntas porque tenta entender o que para ele não faz sentido – aquilo a que nós já estamos acostumados ou até resignados.

 

Existem situações imaginárias que são de um coletivo, fazem parte do imaginário de muitos de nós. Ocorreu uma publicação de um pequeno trecho de Carassotaque em Portugal, e lá os portugueses se identificaram, então isso mostra a dimensão dessa fantasia coletiva que não é localizada. Nesse universo sugerido, que é um tanto visual também, fica proposto um olhar de imagens, que é onírico, é o dos nossos sonhos, podemos nós mesmos imaginar os cenários, acompanhar os diálogos, nos posicionarmos. Esse livro se escreveu quase sozinho, em muitos momentos eu escrevia como se estivesse lendo, para saber o que iria acontecer. Eu também queria saber para que lado aquela história se conduzia.



 

ZH – Em que medida as artes visuais influenciam sua literatura?



 

Aquino – As linguagens são diferentes, mas acontece a mesma coisa, os procedimentos são semelhantes: tento sempre experimentar, inventar um jeito novo de expressar, busco correr riscos, fugir da fórmula conhecida e confortável. É isso o que vale na Arte verdadeira, seja ela a visual ou a literária. Porque fazer o que outros já fizeram? Não faz sentido ser cubista hoje, não faz sentido fazer pastiches de Marcel Duchamp hoje – um grande artista que teve seu apogeu em 1920, 1930, no século passado, quase cem anos atrás... É importante buscar caminhos, ver o que os outros estão fazendo, não para fazer igual, mas justamente tentar um vôo diferente. Sempre existem jeitos e motivações para isso. A literatura é um desafio assombroso...

 

Publicado em Zero Hora - RS 

 

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Quarta-feira, 24.09.08

Entrevista: Rolando Boldrin

Rolando Boldrin - Ator, apresentador, escritor e músico-compositor

 


 

 

 

Rolando Boldrin é o Sr. Brasil, criador, apresentador e animador cultural do mais importante programa de cultura popular em TV no Brasil.

TV Cultura – Prêmio ABCA Melhor Programa de TV

 

O Plantador de Mangueira

 

 

ARdoTempo: Rolando Boldrin, você é a própria imagem da brasilidade na TV, Fale um pouco desse Brasil de raiz que você criou, ou revelou a todos…

 

Rolando Boldrin: Bom,… eu nem costumo usar a palavra raiz porque se usar a palavra raiz, tudo é raiz – quando eu vejo um programa de televisão que enfoca a música sertaneja… ali eles falam em raiz, eu percebo que eles sempre dizem isso – não é o meu caso,– eu trabalho com o Brasil… não a raiz – eu trabalho o Brasil, o Brasil moderno, o Brasil de hoje, o Brasil de ontem, o Brasil de anteontem, eu misturo tudo…

 

Os meus programas não usam datas – eu não costumo me apegar a datas, não faço um especial para alguma data comemorativa, não faço programa de Natal, nem de Dia das Mães…

 

E não faço porque? Porque o programa é atemporal…

 

A mesma coisa é a idéia – Brasil é muita coisa, a música, a literatura, eu não vou ficar só pensando no Guimarães Rosa, eu vou pensar no cara que escreve hoje, que faz um livro, que conta histórias… a palavra raiz eu não falo; e eu gosto da palavra mas eu gosto de usar a palavra como raiz de planta… como raiz de pé no chão…

 

ARdoTEmpo: O seu programa, que muitos assistem no Brasil todo, não se limita a artistas já consagrados, eles estão lá, mas há outros, o programa busca e revela novos valores de todo canto do País, como você faz essa pesquisa ou eles chegam espontaneamente ao programa?

 

Rolando Boldrin: Há muito tempo atrás, quando eu iniciei o processo desse programa na (Rede) Globo – que se chamava Som Brasil; o programa começou a ser feito pelo meu conhecimento dos artistas que eu achava que representavam essa cultura que eu queria mostrar.

 

O tempo, é claro, foi fortalecendo essa idéia, o programa foi tomando corpo em material de divulgação e aí começou a virar uma bola de neve…

 

Os artistas, eles mesmo, começam a aparecer, outros mostram seus trabalhos, outros artistas indicam talentos que eles conhecem, e aí virou uma bola de neve… A coisa cresceu…

 

Hoje eu tenho um material que daria para fazer, sem sombra de dúvida, uns cinco programas, segmentados, mas semelhantes ao meu… o Brasil é muito rico, culturalmente, basta olhar em volta…

 

 

ARdoTEmpo: Falando em Brasil, você carrega o título de SR. BRASIL – quanto custa isso para você?... pode parecer que é só benefício, mas não pode conter também uma certa carga de preconceito?

 

Rolando Boldrin: Eu não sinto peso nenhum. Não sinto carga nenhuma porque o meu País é tão rico… e tão puro, tão maravilhoso, possui tanta diversidade, que ninguém vai me cobrar nada…

 

O que eu falo, o que eu canto é o que existe, então não tenho qualquer problema desse tipo, de ser discriminado…

 

É duro falar sobre isso? Eu vou sozinho falar sobre isso? Não, eu não estou sozinho, eu tenho uma legião junto comigo.

 

É claro que existe a mídia, mas a gente não conta com a mídia, esse tipo de trabalho que eu desenvolvo no meu projeto, ele não conta com a mídia… a mídia maior, eu quero dizer. A única diferença é essa.

 

Se você gravar um disco pelo meu jeito de lançar no mercado, ele não vai vender um milhão de cópias mas ele vai vender, por exemplo, cem mil cópias a quem realmente interessa essas cem mil cópias…

 

 

 

ARdoTEmpo: Percebe-se ao assistir o programa uma grande sinergia – a música, a poesia, a literatura, o artesanato popular – o filtro é o SR. BRASIL?

 

Rolando Boldrin: É… ali só tem SR. BRASIL. O grande achado para esse projeto que encabeço é a emoção. Eu trabalho com a emoção, eu estou falando aqui com você e logo fico emocionado.

 

Eu falo do meu país com emoção, eu falo com carinho. Quando me proponho no programa a mostrar, a cantar a minha terra, sempre faço com amor, com muita emoção. E essa emoção passa para os artistas no desenrolar do programa. Já aconteceu com muitos artistas que nem imaginavam que suas apresentações no SR. BRASIL fossem acontecer de maneira tão emocional, que tivessem tanta energia…

 

Eu costumo dizer no inicio da gravação de cada programa, eu falo isso em off, quando a gravação ainda não está acontecendo… eu converso um pouquinho com o público e falo que ali há uma energia que vem dos grandes artistas que já “embarcaram fora do combinado”, que “viajaram fora do combinado” e que fizeram a história dessa cultura popular, seja num disco, seja num livro…

 

A cenógrafa do programa SR. BRASIL que é a Patrícia Maia, fez um conjunto de retratos desses artistas e colocou-os ao lado da platéia, nas paredes laterais da platéia, deve ter ali uns setenta artistas representados – ali estão desde escritores como Guimarães Rosa até o sambista Noel Rosa. É esse tipo de energia que a gente capta.

 

Eu digo ao público que o que será feito no palco foi esse pessoal que plantou, a tal raiz está aí – é o Brasil inteiro e essa emoção passa isso.

 

ARdoTEmpo: Você é muito percebido pela música, a gente vê isso pela história da Gaveta (conjunto de 8 CDs de música brasileira colocados numa caixa-gaveta), pelos CDs de música gravados, mas você é… um artista, um músico, um cantor, um escritor, um apresentador ou um pesquisador cultural? Quem é você, Rolando Boldrin?

 

Rolando Boldrin: Eu não sou nada disso que você falou…

Eu sou um ator, que canta um pouco, mas não sou um cantor, eu digo que sou um cantador, eu sou um ator que compõe (mas também não sou nenhum Chico Buarque); sou um ator que faz cinema (não sou nenhum Grande Otelo), mas já com vários filmes realizados e muitos prêmios como ator; já fui um ator de telenovelas da grande mídia de telenovelas; então eu faço um pouquinho de cada coisa; escrevi quatro livros…

 

Eu costumo dizer que tenho uma filha, três netos, dois bisnetos e já plantei uma árvore, uma mangueira, no caroço…

 

Um dia eu chupei uma manga, sequei o caroço, plantei numa latinha com adubo, ela germinou, eu a tirei da latinha e plantei na terra, num pequeno sítio que eu tinha, ela cresceu, eu vendi esse sítio e lá deixei tudo, menos essa mangueira que eu tinha plantado… eu a levei para uma nova casa, replantei no quintal e ela deu os primeiros frutos…

 

Eu chupei de novo a mesma manga que eu plantara, na sombra da mangueira, aos prantos…

 

Eu plantei tudo isso… Eu faço um pouquinho de cada coisa. Eu sou apenas um plantador de mangueira.

 

 

Entrevista concedida por Rolando Boldrin ao blog ARdoTEmpo 

Fotos de Pierre Yves Refalo / © Sr. Brasil

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Quarta-feira, 25.06.08

Entrevista: Aldyr Garcia Schlee

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee - Escritor

 

Aldyr Garcia Schlee é um dos escritores mais importantes do Rio Grande do Sul e do Brasil. Romancista e contista de fôlego, várias vezes premiado, escreve em português e em espanhol, mora bem ao ao sul do País, em local bastante próximo à fronteira com o Uruguai (Capão do Leão) e transformou tudo isso (vivência, cenários originais e diversidade cultural) em rica matéria-prima para sua literatura. É o designer criador do mítico uniforme da seleção brasileira de futebol (1953). 

 

ARdoTEmpo:  Caro Aldyr Garcia Schlee: você não está morando no eixo Rio-São Paulo, que é o mais influente na esfera cultural e econômica, no país. Como isso está sendo possível e qual a relevância desse fato para sua criação literária?

Aldyr Garcia Schlee
:  Longe do eixo Rio−São Paulo, um pouco longe até mesmo de Porto Alegre e de Montevidéu, eu me sinto, de certa forma, preservado (como uma múmia − dirá um gaiato).

 

Aqui, não corro o risco de envolver-me na chamada vida literária; não tenho que arranjar desculpas educadas para excluir-me de lances de marqueteleria. Mas, evidentemente, não fujo do diálogo; nem da briga.

 

Estou quieto, no meu canto − onde entendo que possa produzir mais e melhor.


Morar como escritor no Capão do Leão não só é possível como é preferível, porque é o lugar que descobri e escolhi para escrever. Já vivi como desenhista no Rio de Janeiro e como jornalista em Porto Alegre; e nessas duas cidades aprendi que, por mais que elas me atraíssem, por mais amigos que nelas fizesse, por mais experiência e realização profissional que elas me oferecessem, eu não podia viver longe de Jaguarão e sem estar às voltas com o Uruguai. No Capão do Leão, perto de Jaguarão, a um passo da fronteira, eu pude encontrar e me dedicar a construir, enfim, o meu mundo literário.

 



AT:  Então, estar no Capão do Leão, nas proximidades da fronteira meridional do Brasil, junto ao Uruguai, significa algo especial para o autor que você é. Como explica isso? É verdade que você escreve tanto em português como em espanhol, com igual fluência?

AGS : Aqui, no sul do Sul, quase sobre a fronteira uruguaio-brasileira, tenho a gostosa e permanente ilusão de estar com meus leitores e personagens dentro de um particularíssimo mundo ficcional − fiel a mim mesmo e a eles −, com a sempre renovada certeza de que assim posso melhor me dedicar honesta e autenticamente à execução de meu projeto literário, atento ao que de melhor se faz por aí afora, mas sempre com a disposição de não querer competir com ninguém.


É verdade que eu também escrevo em espanhol, com muito gosto e aparente facilidade (mas com alguma “desprolijidad” − como dizem meus editores uruguaios). Três de meus livros de contos (El día en que el Papa fue a Melo, Cuentos de Fútbol, Cuentos de Verdades) foram escritos originalmente em espanhol; os dois primeiros, publicados no Uruguai antes de serem editados no Brasil, em português. Don Frutos, o romance, eu o concluí em português; mas já tenho adiantado o seu texto em espanhol (até por razões editoriais, pois é mais fácil, para mim, publicar no Uruguai − onde conto, proporcionalmente, com muito mais leitores).

AT:. Existe uma expectativa grande acerca desse seu último livro, o romance "Don Frutos". O que você pode nos dizer a respeito?


AGS: O romance DON FRUTOS é uma longa e apaixonada narrativa de quase seiscentas páginas, cujo conteúdo vinha me encantando e cuja forma fui tornando possível desde que soube e pude comprovar que o Brigadeiro General Don Fructuoso Rivera, inexcedível caudilho pampeano e primeiro Presidente constitucional do Uruguai, passara os últimos meses de sua vida em Jaguarão, ao regressar para nunca mais ao seu país, na ilusão de uma terceira presidência, depois de um longo desterro no Rio de Janeiro.


Não se trata, evidentemente, de uma biografia de Rivera, mas da tentativa de envolver o leitor numa trama ficcional tão real quanto suficiente para corresponder ao que tenham sido as andanças, as idéias e os tempos de Don Frutos, na recriação de um protagonista verdadeiramente literário, cuja memória possa ser recuperada, recomposta e, talvez, preservada pelo leitor.


A história da edição desse romance já está quase tão comprida quanto a de sua feitura. DON FRUTOS inicialmente ficou encalhado numa grande editora brasileira que, depois de uma eternidade, optou por não publicá-lo − apesar de admitir que “livros como esse são cada vez mais raros no atual panorama da literatura brasileira”; e de reconhecer que o romance impressiona pela qualidade do texto, pelo fôlego do autor, pela reconstituição histórica e pela construção de uma estrutura narrativa consistente.


Que fazer? Agora, o livro aguarda publicação em outra editora do eixo Rio-São Paulo; enquanto a Editora Banda Oriental, do Uruguai, dispõe-se a editá-lo tão logo eu conclua sua versão para o espanhol (que já tem quase 300 das 594 páginas totais).

AT: Você tem outros planos literários imediatos? Existe algum projeto em desenvolvimento? Você pode antecipar algo a respeito ou seria prematuro neste instante?

AGS: Neste instante meus planos literários passam por três livros de contos em execução, o que pode parecer um exagero, mas decorre de um desafio que me impus, depois parar um pouco com o conto e de trabalhar por quatro anos, paralelamente, na feitura de DON FRUTOS e na preparação de minha edição crítica de CONTOS GAUCHESCOS e LENDAS DO SUL, de Simões Lopes Neto.


Estou com um livro de contos quase pronto − que comecei a escrever em português, mas que já está e será concluído em espanhol, pois há alguma pressa, no Uruguai em conhecê-lo. Ainda está sem título e reúne um punhado de histórias escabrosas sobre o pretendido nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó, fruto de estupro e incesto. Por isso, esses eu estou chamando por enquanto de “contos gardelianos”.


Outros dois livros também estão em andamento. Um, mais adiantado, constrói-se em cima de situações, objetos, atividades, ocupações que perderam o sentido e a razão de ser, devido à passagem do tempo, às mudanças sociais e o desenvolvimento tecnológico. O último, que foi o primeiro a ser imaginado e projetado, centra sua atenção em episódios relacionados com o tráfico de mulheres, a prostituição de encomenda e o aparecimento de fulgurantes cabarés e rasteiros puterios ao longo de nossa fronteira. 

AT: Você tem uma história pessoal que às vezes se aproxima da legenda constitutiva de uma personagem literária − incluindo a própria história de sua família, nos anos 30; a criação da “camiseta canarinho”, nos anos 50; a posição destemida que teve ao enfrentar a ditadura militar, nos anos 60; a defesa de sua tese de doutoramento, em 1977, doze anos depois de ela ter sido apreendida e recolhida a um quartel. Mas o que mais impressiona quem toma conhecimento de sua biografia é saber que você é um colecionador de importantes prêmios nacionais, seja como desenhista (o Prêmio para a escolha do uniforme da seleção brasileira de futebol), como jornalista (o Prêmio Esso de Jornalismo) e como escritor (pelo menos os Prêmios de duas Bienais de Literatura Brasileira). O que pode contar e explicar dessas suas experiências tão peculiares?

AGS: Não há muito que contar; nem muito do que me orgulhar (talvez haja mais o que justificar). Ganhei meus primeiros prêmios literários − os da Bienal − quando concorrer a prêmios era a tentativa de ser editado que mais se adequava a minha maneira de ser. Ganhando um prêmio, a edição estava praticamente assegurada; sem prêmio, seria preciso oferecer o livro a um editor − coisa que até hoje prefiro não fazer, porque me constrange muito. Hoje, prefiro o constrangimento de negociar com editores ao constrangimento de receber prêmios, muitas vezes de valor e de escolha duvidosos.Por isso, não concorro mais; pelo menos, no Brasil.


Quanto aos prêmios que ganhei como jornalista e como desenhista são coisas do passado; e me fazem rir um pouco.


 Vê só: ganhei o prêmio Esso com uma longa reportagem-campanha propondo o aproveitamento do xisto-betuminoso do Rio Grande do Sul como combustível. Houve tal entusiasmo com o assunto que o presidente Jango (que entrevistei, na ocasião), mandou iniciar imediatamente a prospecção do minério; mas imagina que o engenheiro encarregado de iniciar os trabalhos veio para cá, apaixonou-se pela filha do fazendeiro dono das terras; e fim de papo (até hoje há quem me pergunte se tudo não terá passado de uma ironia).


A verdade é que, ironias à parte, do prêmio que ganhei como desenhista restou a famigerada “camiseta canarinho” − tão bonita e tão vilipendiada − que, além de vestir nossa discutível e muitas vezes vitoriosa seleção de futebol, foi transformada em símbolo nacional brasileiro: hoje habita e povoa todos os cantos do planeta, remetendo-nos a uma necessidade de manifestação de “patriotismo” que me desagrada e com a qual não posso concordar.   

AT: Você se dedicou por quase cinqüenta anos ao ensino da literatura, tendo atuado até recentemente como professor convidado do Curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS e como pesquisador do CNPQ. Que importância teve essa experiência na sua carreira literária?

AGS: Mais que professor ou pesquisador − e antes e sempre − eu fui e sou um leitor, um leitor apaixonado pela literatura. Nunca fiz curso de Letras; e só cheguei ao magistério através de um raro e gostosíssimo "exame de suficiência" , na Universidade do Rio Grande do Sul. Minha longa experiência didática, eu a tenho na conta de algo inesquecível e valioso, que talvez tenha me ensinado mais do que eu cheguei a ensinar; e que me deixou uma certeza: é o leitor que faz o escritor.


Penso que, independentemente do conhecimento da literatura, o que importa é o leitor/escritor passar consciente e competentemente da leitura para a escritura, no pleno domínio da palavra − para que possa usar a palavra como uma forma de tocar o leitor/leitor, de fazê-lo sentir, de induzi-lo a imaginar, de ajudá-lo a pensar e recriar o mundo.


Por isso que a literatura não é para diletantes. É para quem tem e sabe o que dizer, tem e sabe por que dizer, tem e sabe quando dizer, tem e sabe para quem dizer. Mas tudo não se esgota num simples processo de comunicação, pois literariamente não basta contar: é preciso mostrar, fazer ver; ou seja: o texto, como forma de concretização da criação literária, deve se impor entre a invenção do autor e a imaginação do leitor − entre aquilo que talvez pudesse ter sido e aquilo que bem poderia ser. Aí, a palavra precisa ser posta a serviço do texto como mediadora entre o inventar e o imaginar, impondo-se e valorizando-se também pela sonoridade que possa oferecer e pela imagem que ajude a construir.


Parece simples: afinal, a literatura se faz com palavras; mas, lidar literariamente com palavras não é coisa vã (como brincava o poeta): é ofício duro e sério − de se dizer, de se redizer, de se desdizer, de se contradizer o que seja, sempre bem e da melhor maneira; é ofício alegre e divertido − de se fazer de conta, de se imaginar, de se admitir que tudo é verdade e que não se está mentindo nem inventando; é ofício apaixonante e mágico − de se recriar o mundo, de se ordenar e desordenar vidas, de se interferir na realidade e na irrealidade.

 

 

Entrevista concedida por Aldyr Garcia Schlee a ARdoTEmpo em junho 2008.

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Terça-feira, 24.06.08

"Desde Havana" - Yoani Sánchez

© Museu da Pessoa- Entrevista concedida por Yoani Sánchez , desde Havana, ao jornalista Mauro Malin do Museu da Pessoa (escute a íntegra em áudio, gravado em espanhol)

 

"CUBA ME DÓI" - Yoani Sánchez

 

Família humilde num bairro popular

 

Museu da PessoaFale-nos de seu nascimento, por favor.

Yoani Sánchez – Me chamo Yoani Sánchez, tenho 32 anos, nasci na cidade de Havana de uma família muito humilde. Meu pai se chama Willy e é ferroviário. Foi maquinista em estrada de ferro até a crise econômica dos anos 90, quando todo o sistema ferroviário em Cuba entrou em colapso, e agora ele conserta bicicletas. Minha mãe, Maria, também trabalha nos transportes, táxis. Tenho uma família pequena, com uma irmã um ano mais velha.

MP Os seus pais têm irmãos?

YS – Não. Minha família é muito pequena, porque meus avós são imigrantes da Espanha, das Ilhas Canárias e de Astúrias, chegaram a Cuba no início do século XX. Não tenho uma família grande em Cuba. Também não tenho contato com minha família na Espanha. Em Cuba, a família está muito espalhada e não temos contato.


Nasci num bairro de Havana que se chama Centro Havana. Um bairro que não é turístico, é um bairro muito popular. É a zona de Cuba com mais habitantes por quilômetro quadrado. E nesse bairro muito humilde, com uma mistura de marginalidade e gente do povo, cresci até os 15 anos.


Meus pais são pessoas muito jovens. Minha mãe nasceu em 1957, tem 51 anos. E meu pai tem 54 anos.

MPNasceram, portanto, já quase chegando o momento da mudança de regime em Cuba.

YS – Meus pais pertencem à geração das pessoas que eram muito crianças ou que nasceram depois do triunfo da revolução e, de alguma maneira, deram seus melhores anos, seu tempo e sua energia para a construção de um projeto social que nunca chegou a se concretizar tal como o haviam imaginado.


Sempre, desde pequena, gostei muito de literatura. Ler, procurar e colecionar livros. Foi um hobby que herdei de meu pai. Meu pai não tem uma formação universitária, mas é muito bom leitor.


Quando terminei o ensino médio, quis estudar jornalismo. Mas não foi possível. Então, fui para o Instituto Pedagógico e aí estudei dois anos para ser professora de espanhol e literatura. Mas a pedagogia não era meu mundo. Preferia a literatura. E assim, em 1995, mudei para outra especialidade, a de filologia hispânica.


Nesse momento tive meu filho, que agora tem 12 anos e se chama Teo. Me graduei na universidade em 2000, com uma tese chamada “Palabras bajo opressión – Un estudio sobre la literatura de la dictadura en Latino América”. Essa tese me trouxe muitos problemas na universidade e na minha subseqüente vida profissional.

Leitura, de pai para filha

MPQual foi sua escola primária?

YS – Eu estudei numa escola primária, regular, normal, que se chamava República Popular Chinesa, num bairro relativamente marginal. Mas fui feliz. No meu primário tive muitos amigos e bons professores. Depois passei a uma escola secundária que se chama Protesta (Protesto) de Baragua(á). O nome vem de uma data histórica importante da Guerra de Independência de Cuba. Depois fiz o pré-universitário numa escola chamada Romênia, num momento em que a Romênia já não era uma república socialista.

MPA escola deu a você uma base de alfabetização e de interesse pela leitura?

YS – O gosto pela leitura me vem fundamentalmente de meu pai. Na escola aprendi muitas coisas, mas creio que em geral a educação em Cuba é um pouco mais passiva. As pessoas tomam o conhecimento dos livros que o professor dá, mas tem muita importância a orientação que os pais dão em casa. E graças a meu pai, que me interessou muito no mundo na literatura, li muito em menina. Isso me ajudou também a passar longas horas de aborrecimento na infância. A literatura me ajudou a sair desse aborrecimento.

MPPor que seu pai gosta tanto de ler?

YS – Penso que meu pai gostava de ler também por uma questão de trabalho. Tinha que ficar muito tempo fora de casa, quando trabalhava na ferrovia, talvez longas horas esperando dentro da locomotiva para partir em viagem, e adotou a literatura como divertimento, como compensação para as horas de espera de sua profissão. E tinha uma boa coleção de livros em casa, sobretudo muitos clássicos. Minha literatura da infância não era uma literatura moderna. Era a literatura dos clássicos – Dostoiévski, Vitor Hugo, os clássicos gregos. E era uma época em que a produção de livros em Cuba era maciça. Imprimiam-se muitos exemplares de cada título e também se traziam muitos títulos impressos na União Soviética. Isso fazia com que o preço dos livros fosse acessível para qualquer pessoa. Não é mais assim. Agora os livros são bastante caros, e as pessoas talvez não comprem tantos livros como nos anos 70 e 80.

Adolescência com gosto de privação

MPComo foi sua adolescência?

YS – Tive uma adolescência feliz, tranqüila. Vivi em Havana, nessa época. Mas o fundamental de minha adolescência foram as aflições materiais, produto da crise econômica cubana. Em 1990 eu tinha 15 anos. Um ano antes havia caído o Muro de Berlim e uns meses depois se desmembrava a União Soviética. E isso marcou toda a minha geração. A mim, particularmente, porque me marcou muito materialmente.

 

Meu pai perdeu seu trabalho. O trabalho de minha mãe, que era vinculado ao transporte, também sofreu muito devido à questão do petróleo e da ausência de gasolina. Assim, recordo minha adolescência mesclada com as limitações materiais. Saber que não havia muitas coisas, justo no momento em que um adolescente quer começar a exibir a moda, a música, os penteados. As pessoas de minha geração passamos por momentos muito extremos de carestia e de ausência de produtos.

MP Você teve festa de 15 anos?

YS – Não tive. Em Cuba é uma tradição celebrar a festa de 15 anos, mas na época em que me coube, em 1990, a crise era tamanha, e meus pais não tinham recursos, me disseram que em outro momento se faria a festa, e nunca se fez. Para mim, pessoalmente, não foi um problema, porque as festas de 15 anos em Cuba normalmente são muito kitsch, as adolescentes fazem fotos com roupas, com unhas de plástico, muita maquiagem, e eu nunca gostei disso. Senti, na verdade, um alívio ao saber que não havia festa de 15 anos...


Mãe aos 20 anos, na faculdade

MPComo foi a sua faculdade?

YS – Foi um período ao mesmo tempo difícil e lindo. Aos 17 anos conheci aquele que até hoje é meu marido, o jornalista Reinaldo Escobar, e comecei na faculdade de pedagogia para ser professora de literatura, mas não gostei do método de estudo: pedagogia em excesso e muito pouco de espanhol e literatura. Então decidi mudar para a especialidade de filologia. E bem nesse momento fui mãe, o que complicou muito as coisas, porque a crise econômica em Cuba permanecia forte, eu tinha um bebê, e tive que fazer um pouco de mágica para poder estudar na universidade e criar meu filho.

MPEu queria que você falasse um pouco da maternidade.

YS – Sou uma mãe muito feliz com meu filho. Ele se chama Teo, é um garoto muito esperto, gosta muito de ler, como eu. Herdou o vício da leitura de sua mãe e de seu pai. Sempre encarei a maternidade com muita alegria. Mesmo nos momentos mais difíceis na universidade, quando estava totalmente em desvantagem em relação a meus colegas, que não tinham filhos, de todo modo eu era muito feliz por ser mãe. E agora estou muito mais feliz porque já tenho um filho de 12 anos com quem posso conversar, com quem posso entender-me perfeitamente. Agora que minhas amigas que esperaram tantos anos se decidiram a ser mães, já sou mãe de um filho adolescente. Tenho um filho muito lindo, que parece um taíno cubano – taíno é o nome dos indígenas cubanos que viviam aqui antes da chegada de Colombo...

MPOs taínos foram praticamente exterminados...

YS – Sim, mas sobraram alguns. Meu marido é descendente de índios cubanos e meu filho parece um taíno, é um taíno típico... muito taíno.

MP Onde ele estuda?

YS – No secundário. Em alguns dias vai terminar o sétimo grau e ainda não sabe que profissão quer seguir. Gosta muito de literatura, mas também de informática. Quem sabe termina sendo blogueiro, como sua mãe...


Para voltar a morar em Cuba, passaporte destruído

MP Fale de suas viagens dentro e fora de Cuba.

YS – Gosto muito de viajar dentro de Cuba, mas nós, cubanos, temos muitas limitações para viajar dentro do nosso país. Primeiro porque viajar dentro de Cuba implica longas filas para comprar passagem de ônibus, avião ou trem. O transporte em Cuba está atualmente num estado catastrófico e passou por anos muito difíceis. Por isso viajamos pouco dentro do nosso país, devido a todas essas limitações de transporte. De todo modo, tenho amigos no Oeste, em Pinar del Río, onde vou freqüentemente. Também gosto muito do Centro da Ilha, as montanhas de Escambray, acampei aí com amigos. Em geral, gosto muito da natureza do meu país, das pessoas.


Para fora de Cuba viajei em 2000, para a Alemanha. Tenho muitos amigos na Alemanha, porque sempre gostei da língua alemã, graças a minhas leituras de adolescência, quando li Thomas Mann, Hermann Hesse. Me veio daí muito prazer com o alemão e continuei estudando alemão. Isso fez com que eu tenha muitos amigos em países de língua alemã, como Alemanha, Suíça e Áustria.


Meus amigos, quando terminei a universidade, em 2000, me convidaram para um mês de férias na Alemanha. Foi uma viagem muito importante para minha vida. Estive também na França.

MP Em que cidades?

YS – Na Alemanha, muitas cidades. Berlim, Frankfurt, Hamburgo, Heidelberg. Na França, Paris.


Em 2002, a asfixia econômica em Cuba e também a sensação de asfixia pela falta de liberdade me levaram a emigrar para a Suíça, graças, igualmente, a amigos que me ajudaram nesse projeto. Lá vivi dois anos. No último ano, com meu filho, que pude levar comigo. Mas depois de dois anos, por problemas familiares, tive que regressar a Cuba.


Voltei em 2004 de uma maneira muito louca. Quando nós, cubanos, vivemos mais de onze meses fora do país, já não podemos voltar a residir em nosso próprio país. Por isso, em 2004, tive que entrar como turista em Cuba e destruir meu passaporte para poder ficar. É algo muito raro. Não conheço muitos casos em que se tenha feito algo similar. Normalmente os cubanos fazem ações desse tipo para emigrar, não para imigrar.


Mas não estou arrependida do que fiz. Aqui tenho meus amigos, minha pequena família e muitos projetos. Então, no momento, sou feliz aqui. Queria viajar em maio, à Espanha, para receber o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo, mas não me deram a permissão para sair. Para viajar para fora de Cuba, nós, cubanos, necessitamos de uma carta que nos autoriza a viajar, e o governo cubano negou essa solicitação de viagem.

MP Seu marido viajou com você?

YS – Meu marido também viajou à Alemanha, mas não viajamos juntos.

MP Em que cidade da Suíça você ficou?

YS – Vivi dois anos em Zurique, que fica na parte alemã.

Universidade da tolerância
 
MP Você pode falar um pouco de sua filosofia de vida?

YS – Eu me considero uma pessoa feliz. Tenho uma família creio que muito harmônica. Não gosto muito dos paradigmas, isto é, na minha vida não tenho grandes paradigmas de pessoas importantes ou gente famosa. Ao contrário, sou permanentemente influenciada pelas pequenas pessoas – meus amigos, alguém que compõe uma canção, alguém que me conta algo na rua –, não a influência dos grandes nomes da história ou da literatura, mas a das pessoas anônimas. Essas me influenciam muito mais.


E tenho também algumas premissas na minha vida. Uma delas é cada dia avançar um pouco mais na tolerância. Creio que a sociedade cubana necessita que os indivíduos aprendam a tolerar a diferença, as opiniões que não são similares às suas. Estou nesse aprendizado. Estou agora na universidade da tolerância. É um longo caminho, longo caminho de respeitar o que diz o outro, e acho que falta muito para que me forme e tenha um diploma... (riso). Acho que pelo menos estou no caminho.


A filosofia da minha vida é sobretudo tratar de ser feliz cada dia, com harmonia, com tolerância. Rir. Rio muito. Minha família é muito importante para mim, mas também meu país.
Não me agradam os apáticos e os indolentes. Meu país me dói. Tudo que acontece me dói, e creio que esse é também o combustível para fazer meu blogue. Se nada me importasse, se eu me alienasse de minha realidade, não escreveria as coisas que escrevo. Eu as escrevo precisamente porque Cuba me importa. E me importa porque quero que meu filho e meus netos não tenham que emigrar para poder realizar seus sonhos, ou para realizar seus projetos profissionais e pessoais.


Nessa direção emprego minha energia. Em fazer de Cuba um país onde se possam realizar os sonhos.

Ideologia e política

MPO que você me diz de ideologia?

YS – Nunca militei numa organização política, nunca, e não creio ter uma direção, uma linha política clara. Isso é algo que a pós-modernidade trouxe, também. Antes, era muito fácil definir as pessoas, os processos, como de esquerda ou de direita. Hoje, já não está tão claro.


Acho que uma das características deste momento é que já não é tão fácil dizer se alguém é de esquerda ou de direita. Eu, pessoalmente, não defino politicamente a mim mesma. Creio ter muita tendência para a questão social, mas fundamentalmente me considero uma cidadã, que emite opiniões, que faz perguntas, que questiona ou reivindica. Mas eu mesma não me defino com uma coloração política.


De todo modo, os temas sociais, a questão das minorias, dos mais discriminados, me interessam sempre muito. Mas a direita e a esquerda já não estão tão claras, já não é tão fácil defini-las. Penso que sou tão pós-moderna como a situação atual.

MPE a política? Ideologia é uma coisa, filosofia é outra coisa. Mesmo sem ser militante, existe política na sua vida.

YS Em Cuba, ninguém pode se manter à margem da política. Respiramos política, comemos política. Por quê? Porque a sociedade cubana está muito politizada. Eu nunca pertenci a uma organização política, mas isso não significa que não tenha uma projeção política. Muito bem. Essa projeção política não implica ter uma posição alinhada com o governo, ou contra o governo. Eu me considero – e nisso me defino como um elétron livre – uma pessoa que é da sociedade civil, tratando de descrever como vive e tratando de conectar-se com outras pessoas da sociedade civil.


Claro, para o governo isso é oposição. Mas eu mesma não me defino como uma opositora.
O que acontece é que o espectro de classificação que o governo usa para as pessoas independentes, alternativas, cidadãos com voz própria, ou com critérios próprios, como eu, é muito esquemático. Tudo é branco ou preto. E, para o governo, as pessoas que não aplaudem são opositoras.


Penso que essa saturação política da sociedade cubana, sobretudo nos meios de imprensa, de informação, criou nas pessoas o efeito contrário. Criou apatia, desinteresse. Fez com que muitas pessoas se fechem numa bolha, em suas casas, e não queiram ter contato com o mundo exterior, de tão politizado que está.


Ainda que eu me sinta uma pessoa com muito envolvimento político – gosto de ler as notícias, estar a par do que acontece –, creio que também tenho minhas zonas pessoais onde a política não entra, onde me refugio desse mundo político que normalmente se torna tão incompreensível para o cidadão. E essas grandes zonas onde me refugio da política são a literatura, minha família, meu lar, meus hobbies – a botânica, a jardinagem –, e assim me desligo dessa realidade tão excessivamente politizada.

A mágica de botar comida na mesa

MPO tema agora é alimentos.

YP – Esse capítulo, em Cuba, repousa fundamentalmente sobre os ombros das mulheres. Depois de 50 anos de projeto de emancipação feminina, na realidade em Cuba continuamos tendo uma estrutura machista da família e da sociedade. Então, as mulheres cubanas têm que fazer cada dia muita mágica, são umas verdadeiras magas, para poder colocar um prato de comida para os filhos, para os maridos, para a família.


No meu caso particular não é assim, porque tenho um marido muito emancipado (riso). Fazemos juntos todas as coisas da casa. Mas muitas mulheres têm uma verdadeira dupla jornada de trabalho. Uma fora de casa, em sua profissão, e outra quando chegam em casa.
A questão da comida é, no momento, uma preocupação geral dos cubanos. Primeiro, porque a maioria dos alimentos necessários para sobreviver não tem um preço correspondente aos salários. Os salários são em pesos cubanos; a maioria dos produtos que se vendem é em pesos conversíveis [pesos conversíveis valem 27 vezes mais do que pesos cubanos]. Essa esquizofrenia econômica, essa contradição monetária faz com que, para as mulheres, seja uma verdadeira angústia diária achar o que colocar na mesa.


Eu não me considero uma pessoa consumista. A crise econômica dos 90 me fez saber que posso viver com muito pouco. Isso é importante. Porque me parece que essa mesma crise econômica criou em muitas outras pessoas um apetite voraz, uma falta de medida na hora de consumir. No meu caso particular, criou o efeito contrário: saber que necessito de muito pouco para sobreviver. Meu marido brinca comigo e diz que eu tenho “alma de faquir”, porque sou uma pessoa que, se tem comida, perfeito, se não tem, não importa, tenho outras coisas que também me dão gosto e me divertem, entretêm.


Mas acho que a angústia principal que passo a cada dia é alimentar meu filho. Acredito que isto gera muita tensão para as mães: ter um filho adolescente, que precisa alimentar-se, porque é magro e pequeno, e saber que materialmente não conseguimos lhe dar tudo de que necessita. De toda forma, como aprendi essa mágica, como todas as mulheres cubanas, quase todo dia posso resolver a questão alimentar com muita, muita criatividade, muita imaginação e muito tempo fazendo fila, muito tempo inventando, muito tempo preparando os alimentos.


Tênue fronteira da legalidade

 

MP Você nunca teve a tentação de fazer alguma coisa ilegal?

YSNós, cubanos, necessitamos cada dia fazer muitas coisas ilegais para sobreviver. Quase a cada minuto temos que transpor a linha entre a legalidade e a ilegalidade, para tudo. Porque em Cuba o mercado negro é muito importante para sobreviver. Sem o mercado negro, sem os produtos que nos são trazidos à porta de casa, sem os vendedores ilegais, muitas famílias estariam muito mal. Por isso acredito que faço, sim, coisas ilegais, como 99% dos cubanos têm que fazer para sobreviver.

MPVocê nunca teve vontade de ser, vamos dizer, mais rica do que seus vizinhos, ou com a vida melhor, fazendo permanentemente uma atividade ilegal?

YS – O que acontece é que em Cuba há muitas coisas proibidas. Por exemplo, talvez a maioria pense que fazer um blogue, escrever opiniões na internet, pode ser proibido. Portanto, pode ser que sim, que eu faça coisas proibidas e ilegais. Mas não me dedico a nenhuma atividade ilegal que fira minha consciência. Todas as vezes que passo a linha da ilegalidade é para sobreviver, para alimentar minha família. Não estou vinculada a nenhum tipo de negócio ilegal. Acho que me considero impedida de fazer essas coisas também por uma questão de educação e de ética.


De todo modo, na sociedade cubana todas as limitações legais e as proibições fomentam muito a ilegalidade. Por isso, de alguma maneira todos somos um pouco delinqüentes.

Estantes solidárias
 
MP E os alimentos para a mente? Quando eu estive em Havana, não tinha muito livro para comprar, era difícil.

YS – Eu tenho uma magnífica coleção de livros em casa, uma biblioteca muito boa. Em parte são livros meus que arrasto desde a infância e outros são livros de meu marido, que também foi acumulando muita literatura em toda a sua vida.


Mas paralelamente a isso há uma espécie de rede de distribuição de livros entre amigos. Decidi há anos que o mais importante para mim é ler os livros. E, uma vez lidos, já não me importa tanto conservá-los. Por isso leio os livros e os passo a outras pessoas.


E assim acontece com muita literatura que em Cuba não é vendida em lugar nenhum ou está proibida. Penso, por exemplo, nos romances de Milan Kundera, que jamais foram vendidos em Cuba. Penso nessa literatura de exilados cubanos pelo mundo, Cabrera Infante, Jesus Diaz, Eliseo Alberto Diego, que nunca se vendem nas livrarias cubanas – e posso ter um problema, ficar malvista se tiver um livro desses na mão e alguém me vir.


Mas graças aos amigos, a essa rede alternativa e subterrânea que muitas pessoas se dispõem a fazer, trocando livros, estou muito atualizada em matéria de literatura internacional. Funciona assim. Os alimentos para a alma também implicam transpor a linha da legalidade.

Informática abafou a lingüística

MP – O que diz da tecnologia? Você disse que montou seu próprio computador.

YS – A informática e a computação são hobbies meus há mais de 14 anos. É um hobby que pouco a pouco foi deslocando minha profissão de filóloga. Hoje me considero mais informática do que filóloga, porque passo mais tempo programando, desenhando páginas web, consertando códigos HTML do que fazendo um trabalho de lingüística.


Faz 14 anos, tive meu primeiro computador, montado com peças do mercado negro, e a partir de então eu, e muitos jovens como eu, soubemos substituir com peças do mercado negro, com invenções, com verdadeiros Frankensteins a ausência dessa tecnologia nas lojas e a impossibilidade material de ter acesso a um computador novo, legal, com nota de compra.
Isso caminhou assim até mais um menos dois meses atrás, quando o governo de Raúl Castro autorizou a venda de computadores legalmente.


Graças a essa inventiva, a essa criatividade, e à ousadia que nós, cubanos, temos para fabricar engenhos tecnológicos, pude desenvolver essa segunda profissão, que é a informática.

Anonimato e protagonismo

 

MP Fale-me agora de duas coisas contraditórias: o anonimato e o protagonismo. Primeiro, o anonimato. Você é anônima para os seus vizinhos, você anda no seu bairro pelas ruas e ninguém sabe direito quem você é?

YS – O processo de passar do anonimato em que eu vivia para estar no centro dos meios de imprensa de muitas partes do mundo foi muito rápido para mim. Eu, particularmente, sempre fui alguém que gostava da privacidade, da intimidade e do anonimato. Acho que não há adjetivo que um cidadão receba com mais felicidade do que o ser anônimo. Um cidadão normalmente é anônimo, desconhecido, pequeno.


Essa questão do estrelato, de estar nos jornais e na televisão de quase todo o mundo trouxe algumas mudanças para minha vida. Os jornalistas me perguntam mais, recebo mais telefonemas. Mas creio que na essência sigo mantendo um mundo privado, íntimo, muito fechado.


Eu prefiro o anonimato. O anonimato me permite criar com mais tranqüilidade, observar com mais objetividade. E penso que se os políticos tivessem a intenção de ser mais anônimos, menos espetaculares, os problemas que temos se resolveriam melhor. Quando a política deixar de ser um palco onde se procura brilhar e exibir-se e se converter num grupo de pessoas anônimas que tentam resolver os problemas e administrar um país, acho que muitos dos problemas que temos agora começarão a ser solucionados.


Diante da dicotomia entre anonimato e estrelato ou publicidade, fico com o anonimato, que é sempre muito mais real, mais autêntico, mais espontâneo. E mais duradouro. Porque os palcos, a imprensa, tudo isso passa, e no final cada pessoa fica com si mesma, e ela mesma é o ente mais privado, mais íntimo que possa encontrar.

Sonho: viver numa Cuba plural
 
MPQuais são seus sonhos?

YS – Tenho muitos sonhos. Acho que se alguma coisa me caracteriza é que estou constantemente sonhando. Tenho sonhos de viver numa Cuba plural, inclusiva, onde caibamos todos.


Tenho o sonho de escrever um livro, publicá-lo, ver meu nome na capa, isso me agrada muito. Como toda filóloga, toda apaixonada pela literatura, creio que a máxima realização seria começar a publicar meus textos, a escrever, e que os outros leiam o que escrevo.


E os sonhos têm relação, sobretudo, com meu filho. Quero que meu filho encontre um espaço nesta Cuba onde hoje tantos jovens emigram, que ele não tenha que emigrar para ter uma profissão, para poder ter um teto próprio, para poder manter sua família.


E também seguir junto a meu marido e ao grupo com que trabalho no portal Desde Cuba (www.desdecuba.com), fomentando e alimentando a sociedade civil cubana. Sonho que essa sociedade civil desperte, que não se deixe guiar por ideologias nem por líderes carismáticos, e que sinta que o país pertence à sociedade civil, que somos nós os responsáveis pelo que aqui se passa.

 

Entrevista por Mauro Malin - © Publicado pelo Museu da Pessoa

  

publicado por ardotempo às 17:14 | Comentar | Ler Comentários (2) | Adicionar
Sábado, 14.06.08

As Negas Malucas de Mia Couto

Entrevista de Mia Couto

Os moradores da Vila Cacimba, onde se passa o novo romance do escritor moçambicano Mia CoutoVenenos de Deus, remédios do Diabo – poderiam viver parede e meia com os da Vila do Meio-Dia, do lendário musical Gota d'água, de Paulo Pontes e Chico Buarque. Poderiam até ter organizado protestos em grupo. Fosse Atlântico o oceano que banha o lado da África onde fica Maputo, Deolinda, a mulata do romance africano, poderia até ter trocado segredos com Esmeralda, a mulata de Mar morto, de Jorge Amado. A familiaridade das histórias contadas pelo escritor, em que um médico, Sidónio Rosa, apaixona-se pela bela Deolinda, em meio à sua conturbada ausência, é instantânea. Faz lembrar a proximidade que há entre Brasil e os países lusófonos, não só pela língua – agora ainda mais, pelo acordo ortográfico – mas também pelos temas. Mia Couto venceu a guerra civil moçambicana e evolui em uma trama repleta de universalidade: incesto, política, religião, dores de saudades.

 

JB: De onde vieram Bartolomeu, Munda, Sidónio Rosa, Deolinda... Como as histórias sopraram-lhe o ouvido?

Mia CoutoNunca sabemos onde se localizam os personagens que criamos. São vozes, são ecos que moram no fundo de nós, moram na fronteira entre sonho e a realidade. No meu caso, estes personagens corporizam alguns fantasmas relacionados com o sentimento do tempo e o facto de, pela primeira, tropeçar naquilo que se chama "idade".

 

JB: A aproximação com a oralidade, neste Venenos de Deus, remédios do Diabo, é o traço mais forte da sua literatura, hoje?

Mia CoutoA oralidade é dominante na sociedade moçambicana. Mas não é o território da oralidade, em si mesmo, que me interessa. È a zona de fronteira entre o universo da escrita e a lógica da oralidade. Essa margem de trocas é que é rica.

 

JB: Você diz que já é mais velho que o próprio país independente. Neste romance, o tema colonial é o pano de fundo das "incuráveis vidas da Vila Cacimba". A colônia deixou de ser personagem?

Mia CoutoA colônia nunca foi personagem. Eu creio que, não apenas na literatura, mas no imaginário dos moçambicanos, esse passado colonial foi bem resolvido. É preciso pensar que a independência de Moçambique se deu como resultado de uma luta armada que criou rupturas de cultura bem sedimentadas.

 

JB: O tema da guerra civil esgotou-se? (Não é uma cobrança, só uma provocação...)

Mia CoutoJá antes a guerra civil se havia esgotado. No O Outro pé da sereia ele já surge.

 

JB: No fundo, você sempre escreve sobre o mesmo tema?

Mia CoutoEscrevi 23 livros, todos tratam de temas diversos. Existe, sim, uma preocupação central em toda a minha escrita: é a negação de uma identidade pura e única, a aposta na procura de diversidades interiores e a afirmação de identidades plurais e mestiçadas.

 

JB: De que maneira percebe o ranço colonial na literatura dos países lusófonos?

Mia CoutoNão há ranço. O passado está bem resolvido.

 

JB: O romancista é o historiador do seu tempo?

Mia CoutoEm certos momentos, sim. Por exemplo, depois da guerra civil os moçambicanos tiveram um esquecimento colectivo, uma espécie de amnésia que anulava os demônios da violência. Os escritores visitaram esse passo e resgataram esse tempo, permitindo que todos tivéssemos acesso e nos reconciliássemos com esse passado.

 

JB: "As formas de expressão usam-se quando se tem medo de dizer a verdade", diz a sabedoria bruta de Munda, personagem do livro. O escritor diz a verdade?

Mia CoutoO escritor é um mentiroso que apenas diz a verdade. Porque ele anuncia como uma falsidade aquilo que é a sua obra.

 

JB: Um brasileiro, ao ler um romance de Moçambique, ganha riquezas sobretudo de linguagem. Você acha que a língua portuguesa tem a perder com o acordo ortográfico?

Mia CoutoAs línguas nunca perdem. Os acordos apenas tocam numa camada epidérmica, num lado convencional que não é o coração do idioma.

 

Entrevista de Mia Couto concedida a Mariana Filgueiras - publicado no JB Online - 14.06.2008

publicado por ardotempo às 21:23 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Terça-feira, 03.06.08

Entrevista: Luiz Ruffato

 

 

 

Luiz Ruffato - Escritor

 

Luiz Ruffato é um dos escritores brasileiros da nova geração de maior brilho e reconhecimento entre os aficcionados de literatura de alta qualidade, sendo bastante conceituado entre os escritores, os editores, os jornalistas de literatura e o público leitor.

 

 

ARdoTempo : Caro Luiz Ruffato: você é um escritor de uma nova geração e já alcança um significativo reconhecimento nacional e até internacional, é evidente que isso é fruto de trabalho e dedicação ao ofício - a pergunta é sobre essa viabilidade e sobre uma certa organização da carreira de escritor - é fácil ser escritor no Brasil?


Luiz Ruffato: Não, é extremamente difícil ser escritor no Brasil, basicamente por não haver ainda um mercado profissional no país. Um mercado faz-se por meio de vários atores: o editor, o escritor, o distribuidor, o livreiro, o jornalista, o leitor. Temos problemas sérios em todas essas pontas. São poucos os pontos de venda, são raros os livreiros (e os vendedores) que conhecem o produto com o qual lidam, a distribuição é precária, o espaço em jornais e revistas para a reflexão sobre o livro é pequeno, os editores (com raras e honrosas exceções) são amadores, o leitor inexiste.

 

E subsiste a questão do escritor. No Brasil, ainda há uma aura de que quem escreve não pode viver de seu trabalho. Temos uma grande maioria de diletantes, que, por ganharem a vida em outras profissões, mantêm uma relação amadora com o mercado, prejudicando vivamente o seu desenvolvimento. Ainda há, claro, o maior de todos os problemas: a educação formal de qualidade nunca foi uma prioridade dos governantes nacionais. Sem educação, não há qualquer possibilidade de mudança desse quadro.
 
AT: Fala-se sempre dos escritores de muita mídia e muita venda, alguns que têm colunas em jornais e páginas em semanários, são os escritores "blockbusters" e isso é uma realidade visível, é necessário trilhar esse caminho para ter o reconhecimento literário e de público?


LR: Vivemos na sociedade do espetáculo, onde a palavra de ordem é "visibilidade". É claro que quem tem "visibilidade" tem muito mais chances de fazer sucesso de público. Quanto ao reconhecimento literário, penso que esta assertiva não se aplica. A qualidade literária não depende do julgamento de uma época, mas de sua perenidade no tempo.
 
AT: A palavra é a sua ferramenta. Agora o mundo literário de língua portuguesa se agita um pouco em razão do Acordo Ortográfico (bem mais em Portugal, é verdade) mas o que você tem dizer a esse respeito uma vez que se trata da matéria-prima com a qual você trabalha?
 
LR: O Acordo Ortográfico, fruto de uma decisão autoritária, sem qualquer discussão, não muda uma linha nas relações entre os países ditos lusófonos. Nosso distanciamento se dá por conta de não haver nenhuma política pública efetiva de aproximação. Nós desconhecemos totalmente o que hoje se produz culturalmente em Portugal e nos países africanos – e estou dizendo em termos de literatura, música, teatro, artes plásticas etc. Eles ainda conhecem um pouco mais de nós, muito por conta da exportação das novelas e da música brasileiras. O que necessitávamos seria a discussão desapaixonada de uma ação conjunta, que pudesse despertar, efetivamente, o interesse no mundo pela língua e cultura lusófonas.
 
AT: Você tem transitado pelo Brasil e esteve presente, com grande destaque, na Jornada Literária de Passo Fundo, uma iniciativa que valoriza intensamente a literatura brasileira e o autor nacional de qualidade... O que você comentaria a respeito da Jornada?


LR: A Jornada Literária de Passo Fundo é, sem dúvida alguma, o mais importante acontecimento literário brasileiro, por sua especificidade. Os festivais literários visam o encontro do escritor com o público e as bienais e feiras do livro promovem a comercialização do livro.

 

A Jornada, além de abranger esses dois tópicos, possui um caráter mais nobre e politicamente mais efetivo, por preocupar-se antes de mais nada com a formação do leitor. E formar o leitor é cuidar da educação formal, é pensar no professor como agente de mudança. É saber que não há possibilidade de existência do escritor e portanto do livro, se não houver antes o leitor. Por isso, a festa de congraçamento entre leitor, escritor e livro, que ocorre em alguns dias, é apenas o coroamento do trabalho que leva anos. Não é à toa que a cidade e a região de Passo Fundo, após 25 anos de atividades, ostenta um dos índices mais altos de leitura do país.
 
ATNesse momento preciso, há uma forte intermediação dos meios de internet na difusão literária - sites, blogs, revistas virtuais - como você vê o futuro do livro, os mecanismos de difusão do livro-papel frente às novas proposições, que aparentemente são múltiplas experimentações ainda não muito bem definidas?


LR: Acho que a internet vai se transformar num grande estimulador da sobre-existência do livro. As pessoas, que por conta do telefone, haviam se desinteressado da escrita, agora voltam a enfrentar as palavras. E, se é verdade que muita forma de literatura pode ser transportada com ganhos para as páginas virtuais da internet (principalmente aquelas ligadas à divulgação e vulgarização do conhecimento), o livro destinado à leitura reflexiva vem ampliando mercado. As pessoas sabem que a virtualidade é efêmera e querem a eternidade. E a eternidade - ainda que transitória... - consegue-se com o livro-papel... 
 
ATNo processo de urbanização, de pós-industrialização e nas mudanças avassaladoras de comportamento mais recentes, objetos e profissões simplesmente evaporaram (exemplos: a máquina de escrever e a datilografia com método) - como você vê o futuro da profissão de escritor?


LR: Acho que a tendência é, à medida em que conseguirmos formular uma política pública de educação formal de qualidade, ampliarmos o espaço destinado à reflexão. E o papel do escritor deve se fortalecer e a possibilidade de profissionalização deve ser solidificada.

 

Entrevista concedida por Luiz Ruffato a ARdoTEmpo em junho 2008.

publicado por ardotempo às 23:43 | Comentar | Ler Comentários (5) | Adicionar
Terça-feira, 20.05.08

Entrevista: Emmanuel Tugny

 

 

Emmanuel Tugny  –  Escritor e músico

Autor de literatura contemporânea francesa e músico nascido em 1968, atualmente editado por Éditions Léo Scheer, de Paris, publicou entre outros livros (sobretudo romances) Rheu, Les Trente, La Vie Scolaire, Choro, Mademoiselle de Biche e mais recentemente, Corbiére Le Crevant, além de vários CDs de música como autor, compositor e intérprete. Recentemente traduziu para as Éditions Léo Scheer, de Paris, o romance Panamerica, do paulista José Agrippino de Paula. Vive e trabalha em Porto Alegre, Brasil, depois de ter morado por alguns anos em Paris, São Paulo e Veneza.

ARdoTEmpo: Caro Emmanuel Tugny, você é um jovem autor de prestígio na França, como uma linguagem de vanguarda, de pesquisa, bem pouco convencional e fora dos padrões conservadores. Como isso foi possível e como uma editora de tanta relevância recebeu os seus livros com esse entusiasmo?

Emmanuel Tugny: Essa questão é difícil de responder...primeiramente, é necessário
dizer que eu não creio nem me proponho a ser um autor "de vanguarda" no sentido estrito da História Literária...eu me considero principalmente como um autor formado em Letras (Literaturas,  Filosofia, História) em todas as suas disciplinas e a elas dedicado em tempo integral, não com a intenção de construir ou de pensar o presente e o futuro literários e sim para fazer, simplesmente, os meus livros ao jeito da própria mão...

Eu faço a experîência recorrente quase passiva da apropriação da língua na atividade narrativa, o que é uma experiência estética sem ancoragem histórica: eu não sou movido mais que pelas preocupações estéticas, eu não tenho a ambição de  "prescrever o tempo". Não basta a apropriação da literatura para ser de vanguarda, seria necessário promover um "manifesto" sobre tal ato e eu jamais tenho algo a manifestar.


Mas eu retomo a sua pergunta : sobre as motivações do interesse que foi atribuído aos meus livros por meu editor. A essa questão, na realidade, eu não poderia responder por ele e sim apenas acrescentar que estou sendo publicado atualmente entre um conjunto de autores contemporâneos e a sua diretora de edições (Laure Limongi) poderia com maior precisão definir a intenção de sua proposta editorial, mais precisamente do que eu poderia fazê-lo.

ATConte como foi a recepção de seu público e como ele se formou… Como o livro foi recebido pela crítica literária e pela mídia na França?

ET: Na verdade, eu não conheço realmente o meu público, eu recebo aqui e ali algumas notícias. Como essas notícias não são muito numerosas, norrmalmente elas são notícias positivas. Atacar o meu trabalho na realidade não faz muito sentido, seria desejar demolir algo muito frágil, que resulta em algo inócuo – o ser humano é um maldoso relativo.


Eu vou cada vez menos ao encontro dos leitores, eu fui a muitas leituras públicas e até participei de algumas conferências enquanto universitário e jamais como crítico literário pelas razões que evoquei anteriormente. Eu sou da velha escola, a anterior à "vanguarda" : eu acredito nos livros, eu não acredito na "autenticação" conferida pela presença do corpo argumentativo do autor.

Mas eu posso relembrar a recepção de meu romance mais recente pelas publicações especializadas em literatura e pelos jornais. Eu percebi nessa recepção duas características precisas : um entendimento em ser essencialmente "provincial", - o que muito me alegrou uma vez que eu detesto Paris (e sua arrogante auto-atribuição de grande capital) - e o fato de me considerarem "estranho". O que me satisfaz plenamente uma vez que em meu livro eu buscava deliberadamente ser o portador da palavra de uma humanidade estranha.
Corbiére não é essencialmente um "estranho escritor provincial" ? Eu gostaria muito de ser considerado dessa mesma forma.

AT: Fale um pouco de seu tema escolhido, Corbiére (que é um ícone de autor maldito) e como você desenvolveu a sua linguagem, em pertinência ao tema. Você não teme tornar-se também uma espécie de autor maldito?

ET: Serei bastante breve, pois não gosto de falar sobre meus livros, na verdade... Eu escrevi sobre Corbiére porque essa personagem e sua obra me parecem ser os sustentáculos ideais de uma reflexão teleológica, uma reflexão sobre a morte como uma "oferenda de amor", o que significa afirmar acerca da morte como a ocasião concedida como a inclusão absoluta no mundo, uma espécie de "comunhão" com o mundo, numa participação final e verdadeiramente unificada (o que para mim parece sempre faltar à Arte) com a matéria.

Corbiére é o álibi de um trabalho sobre a procura e a descoberta essenciais, a meu ver, do "ser-matéria".

AT: Você também desenvolve uma intensa atuação como compositor e como músico, sendo líder de uma banda de música, de rock- contemporâneo, Molypop, na França – como você encara esse trabalho de criação tão multi-mediático quanto abrangente (coletivo na música e individual na literatura), na sua produção?

ET: Existem variados aspectos infinitamente felizes na atividade de "cantor de rock "  ou de roqueiro. O primeiro deles é a de sua natureza coletiva nessa atuação criativa o que me alegra, a mim que sou adaptado forçado às atividades coletivas. A segunda é a redução e síntese do poema à canção, o que para mim é e sempre será uma operação de desenvolvimento essencial. A terceira é a dimensão marcadamente física e extremamente intelectual da interpretação musical que faz uma ligação (e se assemelha) à escritura romanesca e à pintura, essa última que foi uma de minhas atividades durante um longo tempo de minha vida. A quarta é a perpetuação de uma lógica adolescente ao longo de toda a
vida : ser roqueiro aos quarenta anos é ser um pouco Dorian Gray !

AT: Quais são os seus projetos atuais e imediatos em literatura e também na música?

ET: Eu trabalho neste momento num novo romance um pouco bizarro, Le Silure,  num segundo álbum CD de música do grupo Molypop enquanto o primeiro, Sous la barque (Quand on creuse) sairá  no outono  parisiense, num outro álbum musical solo, e numa espécie de ópera que estou desenvolvendo com o compositor inglês John Greaves, intiltulada Nemeton.

publicado por ardotempo às 20:21 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Segunda-feira, 05.05.08

Erico Verissimo - por Luis Augusto Fischer

Luís Augusto Fischer e a exceção Erico Verissimo

Entrevista por Miguel Conde (Prosa OnLine)

Toda segunda-feira, o blog publica uma entrevista com
um escritor, editor, acadêmico ou outra figura do universo literário. Hoje, o crítico e professor da UFRGS Luís Augusto Fischer (em foto ao lado) fala sobre o relançamento do romance "O prisioneiro" (Companhia das Letras), de Erico Verissimo. Definido por seu autor como uma alegoria
sobre a estupidez humana, "O prisioneiro" é daquelas exceções que não apenas confirmam a regra, mas também
a tornam mais evidente. No caso, a regra é a timidez da literatura brasileira em tematizar grandes eventos históricos. O relançamento desse romance em que
Verissimo narra o combate de grupos rebeldes contra uma potência invasora no Sudeste Asiático serve de mote para que Fischer reflita sobre a questão. Autor do prefácio da nova edição do livro, ele tenta entender as circunscrições temáticas dos prosadores brasileiros, e os motivos que fizeram de Erico Verissimo uma exceção.


Como você destaca no prefácio, é incomum que um escritor brasileiro trate em sua ficção de situações e assuntos que estejam além das nossas fronteiras. Em sua opinião, por que isso ocorre, e o que fez de Erico Verissimo uma exceção? Na abordagem dele percebe-se algo de um olhar periférico, ou ele realmente escreve como se fosse um escritor "do centro", dos países desenvolvidos?

É algo de excepcional, na geração dele ao menos, por vários e interessantes motivos. Um deles é o complexo de inferioridade que o Brasil tem, no plano letrado, relativamente aos centros intelectuais de prestígio; outro deve ter a ver com o fato de escrevermos numa língua que não circula fora de um mercado muito restrito, acrescido pelo fato de que nossa ex-metrópole é um país muito secundário na Europa, hoje como ontem; outro ainda, conexo com esse, é que a gente pensa pouco sobre o mundo fora do país, em parte pelo nosso entranhado nacionalismo, que tem a ver com o padrão de identidade nacional forjado após a Independência (esse pensar pouco se vê nos jornais, por exemplo). Enfim, vamos longe com o tema. Erico foi uma exceção talvez por duas ordens de motivos: uma de formação pessoal, que para ele o inglês era a língua e a cultura de referência, e nós sabemos que o mundo francês é muito localista, muito mais que o inglês, ao menos; nesse campo, ainda tem o fato de que ele viveu nos EUA por mais de uma temporada, sempre com grande proveito. Para dar uma idéia: entre 44 e 45, ele -- que não tinha nem o curso secundário... -- trabalhou como professor visitante em Berkeley, e aproveitou essa estada para escrever nada menos que uma hístória da literatura brasileria, em inglês, lá publicada em 1945 (no Brasil, foi traduzida em ... 1995!!!). Me diz se há caso passível de analogia no Brasil. Aqui, ele não entraria na Universidade, a não ser para serviços subalternos; lá ele pôde exercitar, como nenhum outro ficcionista de sua geração uma veia crítica cosmopolita. Bem, e tem a segunda ordem de motivos, profissional: ele traduzia profissionalmente do inglês, para a Globo, que era uma grande editora. Encerrando: acho que ele não chega a desenvolver um olhar de tipo periférico, em sentido digamos terceiromundista, mas é certo que não se trata de um escritor que tenha naturalizado o problema, que o tenha esquecido, porque para ele existia sim a questão. Talvez ele tenha se sentido tão à vontade no mundo de língua inglesa que para ele se tornou como que natural pensar as coisas em outra escala, não-nacionalista, como um Graham Greene, como um Joseph Conrad. guardadas as várias diferenças.

Com este livro, Erico Verissimo intervinha num debate político crucial do seu tempo. Como esse engajamento internacional pode ser confrontado com sua participação na vida brasileira?

Creio que os dois níveis estão ligados indissoluvelmente: ele foi tão envolvido em defender a liberdade no Brasil quanto em criticar a falta de liberdade fora daqui. Erico foi uma exceção também neste sentido, em sua geração: não era católico, nem era comunista, quando essas duas posições eram amplamente dominantes no cenário brasileiro (dominantes, se é que não eram as únicas mesmo). Ora, não sendo católico tinha a liberdade de pensar as questões morais com mais amplitude que os católicos; e não sendo comunista pôde discutir a falta de liberdade no Brasil e em toda parte, incluindo os países do Leste europeu. Por isso mesmo ele foi acusado (e acho que boicotado) pelos comunistas de ser americanófilo, foi xingado de liberal; ele se dizia socialista, e creio que nos termos da Europa ele seria um socialdemocrata à moda alemã, ou seria a esquerda da socialdemocracia alemã, ou seria um verde alemão, por aí.

Os méritos que você atribui ao livro em seu texto são principalmente temáticos. Como você qualificaria o livro em si, sua forma, em relação à obra de Erico Verissimo? É um ponto alto, baixo, e por quê?

Eu acho que cheguei e mencionar uma limitação de linguagem narrativa, é a relativa esquematização dos personagens, que de fato existe; mas mesmo isso me parece que tem um ganho no relato, a objetividade (para o leitor não-norte-americano em particular) e a velocidade. "O prisioneiro" não é uma obra-prima, nem é a obra-prima do autor (que é, sem disputa, "O continente", primeira parte de "O tempo e o vento"), mas é um romance correto, do ponto de vista formal, e perfeitamente legível agora, tantos anos depois de ser editado. Talvez uma analogia funcione aqui: é o tipo do romance médio que poderia render um ótimo filme de indagação psicológica, mas deveria ser feito em Hollywood, não na França.

Publicado em Prosa OnLine - O GLOBO - em 05.05.2008
publicado por ardotempo às 19:44 | Comentar | Adicionar
Sábado, 19.04.08

Entrevista: LAURE LIMONGI





Laure Limongi - Escritora e Editora

A escritora francesa Laure Limongi está no Brasil e fala a ARdoTEmpo sobre o  cenário atual da literatura francesa, enfocando as relações da arte literária com as novas mídias. Poeta, crítica literária, editora, música e cantora, Laure Limongi participa ativamente da atual cena cultural francesa.

Ela tem vários livros publicados e atua como editora de
uma das coleções de literatura contemporânea da
Éditions Léo Scheer, Paris.


ArdoTempo: Laure Limongi, você é bastante atuante e envolvida com a produção literária contemporânea, como autora e como editora. O que você pode dizer sobre o cenário atual francês, sobre os autores e
sobre o público para estes novos livros?

Laure Limongi : Na França, fala-se todo o tempo que a literatura e a edição de livros vão mal. Economicamente, isso não é falso. Mas eu observo sobretudo, sendo como você mesmo disse, atriz nesse cenário e uma trabalhadora no ofício da literatura, que existe a energia e a diversidade das publicações.

De numerosos jovens autores desenvolvendo uma obra audaciosa. Não podendo citar a todos aqui, eu penso em alguns nomes como Céline Minard, Emmanuel Tugny, Emmanuel Rabu, Claro, Daniel Foucard, Nathalie Quintane, Olivia Rosenthal...

Dos editores e das coleções que trabalham duro para defender a divulgação de seus textos, indico: POL, a coleção Fiction & Cie, a Seuil, Quidam Éditeur, Allia, Verticales, L’Olivier, a minha coleção, Laureli, em Éditions Léo Scheer...

O público para essa literatura dita "exigente"  – este é um termo que se emprega para designar uma simples classificação formal – não é, certamente, gigantesco nem crescente mas é um público apaixonado que acompanha rigorosamente a seqüência das publicações. O universo dos blogs literários funciona esplendidamente na comunicação da existência desses novos livros. As livrarias, igualmente, fornecem um apoio fundamental : são essas livrarias independentes, muito particularmente, que lutam com todas as suas forças contra o consumo literário dirigido pelos  "block-busters" (as grandes redes megastores) e organizam numerosos saraus e leituras com a presença de autores para aproximá-los e fazê-los conhecidos aos seus leitores.    

AT : Como se desenvolve a linguagem contemporânea, e se o público reage,
positivamente, a isso?

LL : De múltiplas maneiras ! É como a capa de um Arlequim, com uma infinidade de cores. Seria impossível fazer uma descrição exaustiva…

Poderia falar da poesia contemporânea, muito em particular da poesia sonora e de « ação », quando se escolhe o poema de uma página para se " jogar", fazer a performance frente ao público.
 
Aqui eu penso em Bernard Heidsieck, Anne-James Chaton, Thomas Braichet...
Percebe-se antes de tudo, uma preocupação com a recepção pelo público, a recusa ao elitismo é, sinalizada por essa postura, bastante evidente.

Pelo lado do romance há igualmente numerosas correntes. Céline Minard, a quem já citei, dedica-se a formas longas e épicas que suscitam um verdadeiro prazer de leitura. Isso também acontece através da leitura de Emmanuel Tugny, que mescla ao mesmo tempo cultura erudita, eficácia narrativa e senso de humor onipresente – notadamente em Mademoiselle de Biche, Corbière le crevant...

Emmanuel Rabu, em seu último livro Tryphon Tournesol & Isidore Isou, incrustra referências muito sérias e experimentais (Isidore Isou, o pai do movimento Lettriste) e a cultura popular (os quadrinhos de Hergé). Daniel Foucard em seu livro mais recente, CIVIL, imita a linguagem dos policiais para propor uma reflexão sobre a noção de direito. Não se trata de confrontar e chocar o leitor, bem ao contrário, é situá-lo no plano da consciência. O que significa pesquisa formal e implica evidentemente no desejo de se deixar desestabilizar e enveredar por um universo inédito. É essa, para mim, a definição da leitura. Nós temos bastante indústria agro-alimentar para livrar-nos dos produtos estandartizados.

AT : Seu romance Fonction Elvis, apresenta uma linguagem muito inovadora,
uma seqüência dinâmica e frenética de links, em capítulos muito
curtos, em fade-in e fade-out, que vão construindo uma história
caleidoscópica como num mosaico em progresso, mas algo giratória,
circular em si, que sempre vai rodando sobre um mesmo ponto… O que você pode
falar sobre a construção dessa nova linguagem?

LL : A forma se impôs por ela mesma. Eu queria "dissecar" a figura excessiva e pegajosa de Elvis Presley. Dediquei-me a esse colosso de todas as maneiras, investigando sua vida em todas as minúcias. Daí a concisão do texto. Também pensei numa escritura musical pelo ritmo e pela repetição dos motivos. Este é um elemento essencial de minha maneira de escrever, a aproximação da musicalidade à linguagem. Eu já procedido assim, com uma forma diferente, em outro livro : Je ne sais rien d’un homme quand je sais qu’il s’appelle Jacques.

AT: E sobre o tema (ELVIS), como e porque você o escolheu?

LL : É preciso salientar que nunca fui uma fã de Elvis e que conhecia muito pouco as suas canções, apenas aquilo que tocava de vez em quando nas rádios. O que realmente me interessou foi o que Elvis representa como herói trágico, um herói trágico literário ideal. Foi por esse motivo que eu evoquei Jessie Garon Presley, o irmão gêmeo nati-morto de Elvis, a sua parte sombria. O seu duplo. E depois a sua aparência warholiana, o fato que ele encarna a inauguração do rock e a reprodutibilidade da imagem. A redução do indivíduo à imagem.

Eu ressalto ainda que o projeto se iniciou num formato de díptico literário : Fonction Elvis/Dimension Gould. Duas figuras aparentemente opostas, vistas assim, o rei do rock e um pianista clássico, Glenn Gould, que revolucionou totalmente a interpretação e as técnicas de registro das gravações. Uma estrela de espontânea simplicidade finalmente bastante melancólica e um pianista de gala extremamente burlesco e extravagante. Resultará num díptico um pouco tardio – Dimension Gould ainda está sendo escrito.
 
AT : Além de editora e escritora você também é música e cantora,
participando de um grupo de rock contemporâneo francês, o que você tem
a contar sobre isso?

LL : Tive a sorte, de fato, de tornar-me participante da banda Molypop ,

que conta também com Emmanuel Tugny, Jacques El, Yann Linaar, Christophe Boissière, Otavio Moura e outros músicos, de acordo com cada um de seus projetos. Graças a esse convite por parte dos integrantes da banda, eu pude me recolocar no universo musical – eu tinha sido pianista clássica e cantora, quando ainda bastante jovem – o que me fazia imensa falta.

Escrever é um exercício solitário. Com a banda e a música acontecem coisas extraordinárias, do ponto de vista da criação, pois se trata de um trabalho em grupo. A dimensão do prazer e da parceria é intensa. Além disso, o formato musical permite tocar diferentemente o público. As emoções despertadas pela música são um dos componentes essenciais da vida, no meu ponto de vista.

Molypop vai lançar o seu primeiro álbum, Sous la barque (quand on creuse) muito em breve. Inclusive já estamos trabalhando atualmente no segundo CD. Eu posso informar que no próximo dia 05 de maio será lançado em Paris, um livro / disco CD, chamado RALBUM por Éditions Laureli / Léo Scheer, com a participação dos integrantes da banda Molypop .
 
AT : No cenário histórico e cultural de seu país, que sempre influenciou com intensidade a cultura ocidental há mais de 250 anos, aparentemente pela primeira vez está ali colocado um presidente que não se importa tanto com isso, que faz questão de não falar de cultura e de passar ao largo dos assuntos culturais, muito mais voltado a um imediatismo mediático, a uma frivolidade de modelo mais "norte-americano"; como você analisa essa novidade junto ao cenário cultural no qual você está imersa, em suas múltiplas atividades?

LL : Analiso essa situação como uma catástrofe total para a cultura e isso me deixa muito entristecida, até mesmo ferida. Com uma nuance de revolta, inclusive. Um sentimento de desconforto pelo fato das forças da esquerda francesa não terem demonstrado ânimo e unidade para defender os valores de nosso país.

A política atual articula uma simplificação demolidora da cultura com potentes discursos demagógicos. É necessário não deixar subsistir que ações impostas ao público venham a resultar no desaparecimento da diversidade da criação. Mas estou convencida que a França ainda possui um povo obstinado, exaltado, que terminará por confrontar e fazer cessar essa inclinação deletéria. Eu tenho confiança na esquerda, nos franceses, em respeitar a nossa herança cultural e reverter essa situação, por uma revalorização. Jamais deixaremos de resistir.


Entrevista concedida por Laure Limongi a ARdoTEmpo – abril 2008
publicado por ardotempo às 11:54 | Comentar | Adicionar
Domingo, 06.04.08

"Idéias estragam a pintura"


Entrevista com Ángel Gonzalez García – Crítico e Historiador de Arte
Fietta Jarque – El País, Madrid – 05.04.2008


Pintar sin tener ni idea
aparenta ser um título heterodoxo para o livro de um crítico e historiador da arte. Mas se ajusta perfeitamente a postura de Ángel González, um pensador ponderado e apaixonado em partes iguais, lúcido e polêmico. Um amante da arte em estado puro que não confere demasiada
importância às alternativas atuais de uma indústria da arte e de um sistema que lhe parecem inúteis.

Fietta Jarque: Uma pessoa que sente o impulso irrefreável de criar formas com as mãos está fazendo Arte?

Ángel González Garcia: No livro escrevo, pelo menos duas vezes, sobre o maravilhoso espetáculo em que se transformam as “sobremesas” dos almoços ou jantares prolongados entre amigos. Quando invariavelmente alguns começam a manipular com os resquícios da refeição. As cascas refiladas das laranjas, os pedacinhos de pão, as sementes, os arames das rolhas de champanhes. Parece que uma das características do ser humano é não poder manter as mãos quietas. Esse irrefreável desejo de dar forma às coisas.

Salvador Dali publicou nos anos 60 um artigo na revista Minotaure, que intitulou “Esculturas Involuntárias”, no qual reproduziu bilhetes de metrô retorcidos, pedacinhos de sabão, figurinhas feitas com miolo de pão. Que isto seja do espaço artístico? Não sei. Não pretendo reivindicar acerca do que fazem esses presumidos artistas espontâneos, a minha reivindicação é outra; uma apaixonada e até certo ponto insistente e violenta reivindicação pelo trabalho. Pelo fazer. E pelo fazer com as mãos, acima de tudo.
 
No livro reproduzo um detalhe de um maravilhoso vestido de noiva que uma louca francesa fabricou com todo tipo de recorte ou pedaço de tecido, de trama, de tela, de fios ou de trapos, que encontrou. Essa imagem sempre me pareceu algo comovedor e emocionante. Resultou em algo orgânico, que se parece com os ninhos dos pássaros. Num dos ensaios que está dedicado aos artistas videntes, penso nas mulheres que tecem. No trabalho da tapeçaria, de tecer. É muito significativo que a segunda acepção da palavra “labor”, em Maria Moliner, seja o dos labores femininos, o que para mim se constitui no paradigma do trabalho.

Entre outras coisas porque contém o veículo alucinatório, uma vez que essas tarefas repetitivas, muito monótonas, produzem estados de alteração da consciência. É um dos temas sobre os quais falo com freqüência, o da arte associada aos estados alterados da mente.

FJ: Como ponto de partida?

AGG: Eu não tenho dúvidas que a Arte em sua origem esteve associada à alucinação, aos estados de transe. Tudo isso que a arte profissional se esqueceu, que disfarçou, que procurou ocultar por muitas outras coisas: o sistema de aprendizagem do ofício, as ideologias, as estratégias de toda a espécie que mediatizam o trabalho artístico. Digo isso sem nenhuma malícia. Somente nos artistas espontâneos ainda encontro esse estado original do transe.
 
FJ: O sr. escreve: “As idéias sobram em pintura, sempre resultam excessivas.”

AGG: Quando digo digo “Pintar sin tener ni idea”, coloco isso também como uma segunda leitura. E acredito que se deva pintar sem idéias pré-concebidas. As idéias estragam a pintura. Idéias e pinturas não se juntam bem e se o fazem, produzem obras abjetas ou sinistras. Porque, no final do  processo, os pintores de idéias costumam pintar as idéias dos que mandam. A pintura se ocupa de nossas sensações físicas, corporais. Para expressar as idéias já temos os outros meios, um deles, extraordinário, é a filosofia. A Arte recria as sensações de estar fisicamente no mundo. Trata-se de algo da hieraquia fisiológica.

FJ: Expressar sensações, talvez se faça mais claramente com a pintura abstrata?

AGG: Acredito que a pintura abstrata aponte mais ao espírito e ao ideal. De fato, as circunstâncias do surgimento da pintura abstrata na Europa são inequívocas: ela aparece dentro de um conceito espiritual (os Nabis, Kandinsky...). O Museu Guggenheim de Nova York, que foi o grande templo da pintura abstrata, foi fundado e financiado com o objetivo de apoiar, defender e demonstrar a espiritualidade da arte. Aquele espaço tem mais de igreja do que de qualquer outra coisa. E aqui nos encontramos com outro problema: a arte e a religião não tem absolutamente nada a ver uma com a outra. Não é que não devam ter nada a ver ou que a mim me pareça desse modo, é que é assim que é! 

FJ: Mas parte da pintura ocidental nasceu sob a proteção da Igreja…

AGG: Sim, não há dúvidas sobre isso, mas a arte que passa por religiosa não parece que satisfaça de fato os interesses da religião.
Se pensarmos um pouco nisso, veremos que as grande obras religiosas não resultaram nem um pouco eficazes. Não se sabe de nenhum grande quadro que tenha produzido algum milagre, por exemplo. As virgens de Rafael jamais devolveram a visão aos cegos ou fizeram andar os paralíticos.
Você viu alguma vez alguém ajoelhado diante de uma tela, dentro de um Museu?
 
FJ: O sr. se refere a “esse artifício chamado História da Arte”. Em que sentido diz isso?

AGG: Talvez o tenha dito num sentido mais inocente do que aparenta. Acredito que a arte transcende, afortunadamente, à História. A Arte nos permite nos afastarmos um pouco da História. Sánchez Ferlosio disse sempre que a História nada mais ee que o cenário de todos os crimes. Nessa medida. Penso que a experiência artística é ahistórica, transistórica. Seguramente os homens que tiveram as primeiras sensações artísticas eram iguais a nós.

FJ: A crítica de arte desempenha hoje algum papel relevante?

AGG: Devemos ter sempre em conta que a crítica de arte aparece na França, no século XVIII, com a pretensão de proteger o público dos artistas.  Críticos como o próprio Diderot diziam que era necessário baixar as aspirações dos artistas, que se colocavam como os árbitros definitivos em matéria de arte e que o público também tinha o direito de opinar. Com o passar do tempo a coisa inverteu-se e os críticos tiveram que começar a defender os artistas. Agora não sei muito bem o que os críticos fazem no cenário das artes.

FJ: O sr. se diz tão indignado com o que vê quanto uma pessoa que não tem um maior conhecimento sobre a arte contemporânea?

AGG: As pessoas normais, o público está verdadeiramente derrotado. Foram silenciadas porque lhes foi imposto que rir-se de certas obras contemporâneas é um delito. Que há uma obrigação, um imperativo moral, político e social de ser uma pessoa de seu tempo. Porque alguém deveria obrigatoriamente gostar da arte do seu tempo?

As pessoas, simples e normais, a quem estava destinada a arte – porque se a arte é algo, ela é de todos, é a casa dos pobres – foram anuladas. Já não se escutam risadas nas exposições.  As últimas risadas que escutei numa exposição aconteceram numa mostra de Bruce Nauman no Museu Reina Sofia, em Madrid, onde havia um vídeo que repassava as desventuras de um palhaço num banheiro. O mediador fez calar com severidade um casal que estava rindo de algo evidentemente cômico! A arte converteu-se numa palhaçada monumental. Uma palhaçada para a qual não deveríamos contribuir.

Não sei se nao deveríamos reivindicar uma espécie de greve contra os museus contemporâneos ou contra os museus em geral. Porque não?

Isso tudo nada tem a ver com a Arte e sim com uma indústria de imagens.

É uma pena que a arte, que foi imaginada para tornar mais gratificante a passagem do ser humano sobre o planeta, tenha se convertido em algo que é simplesmente uma fonte de obsessões, de preocupações e de manias.

Ángel Gonzalez García – Historiador de Arte
Entrevista a Fietta Jarque – El País, Madrid – 05.04.2008


publicado por ardotempo às 22:45 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 31.03.08

Entrevista: IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO





Ignácio de Loyola Brandão - Escritor

ARdoTEmpo
: – Ignácio, você é um escritor reconhecido no Brasil e no Exterior, que vive do que escreve - o que você comentaria sobre a recente entrevista de Tom Wolfe ao Clarin, de Buenos Aires, na qual, para divulgar o lançamento de seu novo romance, ele declara que
o romance morreu”?


Ignácio de Loyola Brandão : Aquino, de tempos em tempos, o romance morre. Surge um babaca qualquer que nem é um ensaista nem um historiador e declara que o romance morreu. Só se for o dele.
 
AT: Seu romance, Não Verás País Nenhum, sombrio e premonitório, há 25 anos lançou uma advertência grave ao futuro, sobre questões ambientais e humanas. Como você vê o cenário ao seu redor, hoje?

ILB: Nunca pensei que o Não Verás começasse a acontecer tão rapidamente. Nem se passaram 30 anos e aquele livro parece um documentário dos dias de hoje.
Claro que não me alegro por estarem as coisas como estão.
Claro que me alegro pelo fato da arte andar na frente da vida.
Também, com essas elites mundiais e nacionais de hoje...
 
AT: O que você está escrevendo no momento? Quais são os seus planos?

ILB: Acabei de escrever dois livros infantis. Seriam infantis?
Um é Os Escorpiões no Circulo de Fogo e o outro Os Olhos dos Cavalos Loucos. Este é mais longo. Ambos memórias de infância.
Mas o que posso fazer se a minha infância foi vivida como ficção?
Veja o caso de O menino que vendia palavras, que não passa de uma lembrança a qual dei um trato. Editado pela Objetiva no ano passado, ganhou o Prêmio Melhor Infantil de 2007 pela Fundação Biblioteca Nacional.
 
AT: Existe um evento no sul do Brasil, a Jornada Literária de Passo Fundo, que talvez seja o mais importante evento literário no País – pelos seus desdobramentos, a reunião de escritores, os debates e seminários sobre literatura, as palestras de autores nacionais e internacionais, e principalmente, pela maciça presença e o intercâmbio com os leitores – sistematizado e apoiado por uma Universidade.
Como você vê a Jornada?


ILB: É a coisa mais importante do setor no Brasil.
Mais importante que a badalada Flip. Diferente e mais abrangente que as feiras e bienais de livros que ocorrem pelo Brasil. Pena que o próprio Rio Grande do Sul não tenha entendido o alcance da Jornada, a sua extensão e profundidade. Tanto que não deu verba para o evento devido ao relatório de uma pessoa invejosa e frustrada. Isso mesmo, frustrada, um sub-escritor com um pequeno poder na mão.
 
AT: O que você propõe como autor, para o futuro da Jornada, que tem sido uma pioneira na criação de novas metodologias e na formação de leitores?

ILB: Proponho que ela se sustente, seja como for, que se mantenha, que prossiga, que procure financiamento fora. Porque hoje ela é brasileira, não mais apenas gaúcha, regional, limitada.
 
AT: O que você teria a dizer a um jovem (de qualquer parte do mundo) que estivesse descobrindo o prazer da leitura e, olhando as coisas que acontecem ao seu redor, pensasse por uns instantes na idéia de se tornar um escritor?

ILB:  Ora, que sente e escreva. Escreva. Escreva. Não pensando em glórias, fama, prêmios. Simplesmente escrevendo, escrevendo.


Entrevista concedida por Ignácio de Loyola Brandão a ARdoTEmpo – março 2008
Foto de Lisette Guerra
publicado por ardotempo às 17:56 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 25.03.08

Entrevista: MARCOS MAGALDI





Marcos Magaldi – Fotógrafo                             

ARdoTEmpo: Marcos Magaldi, você que é um erudito, um pensador e um fotógrafo sofisticado, de uma época pré-digitalização, com grande experiência de laboratório
e agora um fotógrafo já adaptado às novas tecnologias,

como vê o seu trabalho atual, algo se modificou ou é a mesma coisa?

Marcos Magaldi:  Com a mudança do padrão no registro da luz, a fotografia, que antes dependia de uma certa expertise para ser bem executada, passou por um
processo de democratização bastante amplo, com o deslocamento do fotógrafo profissional para nichos muito reduzidos de mercado. A automação, aliada à digitalização dos processos fotográficos, incorporou à profissão mão de
obra com reduzida capacitação técnica e intelectual, causando com isto um relativo abastardamento da atividade profissional.

AT: Nesse cenário, em que aparentemente toda a atenção mediática está
voltada para a imagem – os jornais e revistas valorizam a imagem, a TV
e o cinema são imagem, a internet também se apoia intensamente na
imagem, o fotógrafo (que produz as imagens) está vivendo o seu
paraíso, o seu momento de glória?

MM: Infelizmente isto não é verdade. Como parte considerável da produção
fotográfica é feita sob encomenda, as relações de mercado entre as grandes corporações, tanto jornalísticas quanto publicitárias, com o profissional de fotografia se dão normalmente sob a égide da exploração pura e simples, com preços muitas vezes aviltados e contratos leoninos impostos pelos prepostos destas organizações.

AT: No campo da Arte Contemporânea, o curador de um dos mais importantes museus de São Paulo escreveu que a pintura, a  gravura e a escultura são expressões artísticas vinculadas ao século passado, que este é o momento da fotografia, na abertura do terceiro milênio… o que você acha dessa afirmativa?

MM: Uma bobagem sem fim....
Quem é bom e tem alguma coisa para dizer será notado, não importando o
suporte que use para a sua comunicação.

AT: Como você vê o papel do fotógrafo nos dias atuais e qual será o seu futuro?

MM:  Como disse no catálogo da minha última exposição, devemos a alguns fotógrafos uma enorme ampliação do nosso universo cognitivo, já que não temos o dom de podermos estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O que seria da nossa vida sem as imagens que nos informam o que acontece no mundo??? O fotógrafo é, portanto, uma espécie de "olho" da sociedade. Um responsável pelo registro de acontecimentos e da memória de um grupo de pessoas.

AT: Você é um usuário da biblioteca borgeana, um leitor de livros, um colecionador de livros de fotografia, um artista premiado da fotografia de autor, como vê este triângulo no cenário contemporâneo: os livros, a fotografia e a internet?

MM: O livro, a fotografia e a internet são algumas das formas que encontramos para ampliarmos de maneira considerável nosso conhecimento do mundo. São ferramentas que tornam nosso cotidiano muito mais rico e variado, já que nossas vivências imediatas são naturalmente limitadas pelo nosso espaço físico e pelo tempo de vida de cada um.

Entrevista concedida por Marcos Magaldi a ArdoTEmpo – março 2008
publicado por ardotempo às 19:33 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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