Sábado, 14.01.12

Poema de Pedro Gonzaga

soneto

 

tormentoso desejo agora vivo

só por vos ter tão perto, doce amiga

conturba-se-me ardente o sangue à briga

que com malícia ergueu amor esquivo

 

encontro e logo perco meu juízo

quis razão evitar minha desdita

mas se ao vos ver um não sei quê se agita

sois perdição e incêndio e paraíso

 

encarnação da dádiva primeira

semideia que um árabe cantava

em vós respira a flor da laranjeira

 

primavera que esconde a verde fava

aniquilai-me a paz, feroz cegueira

toda nudez que vossa mão guardava 

 

 

© Pedro Gonzaga, 2012

publicado por ardotempo às 12:13 | Comentar | Adicionar
Domingo, 30.10.11

A boa literatura é uma erva daninha

 

 

A literatura e a banca do lado

(Pequena homenagem ao escritor Aldyr Garcia Schlee)

 

Paulo José Miranda

 

Há no Brasil, ao nível das artes em geral e da literatura e poesia em particular, um desfasamento enorme, quanto à chegada das mesmas ao público, entre aquilo que é produzido em São Paulo e aquilo que é produzido no resto dos estados do país. Isso deve-se em grande medida à dimensão continental do Brasil e a uma provinciana atitude, muito comum no humano, de viver num centro. Imaginemos a Europa, por um instante.

 

Se pensarmos no continente europeu em moldes antigos, em moldes pré-queda do muro de Berlim, podemos traçar um mapa de Portugal até à Alemanha, integrando ainda os países não continentais, o caso dos países escandinavos, como sejam a Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, e Islândia, e ainda os anglo-saxónicos do Reino Unido e Irlanda.

 

Por conseguinte, para além dos países citados, temos ainda a Espanha, a França, a Bélgica, a Holanda, a Áustria, a Itália e a Grécia. Este território é bem menor que o território do Brasil. Imagine-se agora que todo ele era um só país? Imaginemos também que um imaginário centro seria, por razões de geografia, Paris. A ser assim, como não seria difícil que as literaturas de países mais afastados do centro se tornassem conhecidas? Como não julgá-las, erradamente, como literaturas regionais?

 

Ora, é precisamente isto que acontece no Brasil. Erradamente se julga de literatura regional o que não é produzido em São Paulo. Por outro lado, São Paulo em relação ao mundo todo, não é ela mesma uma região e, assim, a sua literatura, uma literatura regional?

 

Do mesmo modo que respondemos não à última pergunta, teremos de dizer que a literatura feita no Rio Grande do Sul ou em Mato Grosso é uma literatura universal e não regional, se ela realmente for. O que define a universalidade de um texto é a escrita do mesmo e não o local de sua produção. Dublin, no início do século XX, era tão provinciana quanto a maioria das capitais de estado do Brasil hoje. E foi dai que surgiu James Joyce. E da provinciana Lisboa saiu Fernando Pessoa. E da provinciana Praga, do início do século XX, surgiu Kafka.

 

A boa literatura é uma erva daninha, cresce em qualquer lugar, onde menos espera e a despeito de todos os esforços para que isso não aconteça.

 

Julgo, humildemente, que a grande saída para uma melhoria na literatura brasileira seja a descentralização da mesma, isto é, a descentralização das editoras e revistas da especialidade. Nenhuma grande literatura se faz com grandes editoras. As grandes editoras não semeiam escritores, colhem aqueles que já existem. E fazer existir um escritor é uma tarefa árdua, difícil, demorada. Como não se faz um bom vinho de uma hora para outra. Num primeiro momento, demora ao autor o acto de ler, ler, ler e escrever; e depois demora ao editor o acto de editar, divulgar, divulgar, divulgar. A literatura não é novela. Uma editora não é a rede Globo. As mais prestigiadas editoras em Portugal, por exemplo, são pequenas, e são nelas que os grandes escritores se fizeram e ainda se fazem. Publicaram e ainda publicam.

 

O romance EXCELSO de Aldyr Garcia Schlee, Don Frutos, foi rejeitado por duas grandes editoras nacionais. Mas o mais importante que aqui temos a reflectir, neste caso, é a demora. A demora que levou a se decidirem a não publicar, que foram anos. Porquê? Porque as grandes editoras têm no seu corpo de decisão pessoas que não têm poder de decisão. Precisam do aval do departamento económico ou financeiro, para saber se podem ou não podem editar determinado livro. Depois, para além disso, muitas das vezes as pessoas responsáveis pela decisão literária, se o livro é bom ou não, deixam muito a desejar em termos de referências, em termos de leituras feitas da história da literatura universal e nacional. E, deste modo, deixam muito a desejar quanto ao seu gosto e aos seus juízos acerca do bom e do mau.

 

Assim, e como não podia deixar de ser, Don Frutos, livro de seiscentas páginas (600), denso, profundo, sem qualquer receita para o que devemos ou não fazer quando um celular toca durante um jantar, ou o que fazer quando o marido não elogia a mulher, é um livro condenado a não ser entendido pela lógica de uma multinacional ou, muito simplesmente, multiestadual. A literatura não é um negócio, ponto final. E enquanto não se entender isto e não se mostrar claramente isto aos leitores e potenciais leitores, não vamos passar da cepa torta, escritores e leitores. O que é um negócio é a venda de livros. Mas um livro pode ser uma coisa muito feia, desastrosa, entediante... em suma, um livro pode ser uma merda. E esta merda, sim, é um negócio. As centenas de títulos de livros de auto-ajuda que pululam o mercado, e outras coisas da mesma laia, não são literatura e não deveriam sequer ser vendidos no mesmo espaço que se vende literatura.

 

Nós não gostaríamos de ir no açougue (talho) e encontrar ao lado, na banca do lado, quantidades de estrume à venda, pois não? O estrume tem utilidade, claro, mais do que os livros de auto-ajuda, mas não vamos pôr o estrume ao lado da carne. Esta falta de coragem de clarificação, de distinguir o trigo do joio, de distinguir a literatura da merda, está a dar cabo da literatura, dos escritores e dos leitores.

 

O modo mais eficaz e rápido de repor a literatura nos seus eixos é, precisamente, conferir autoridade às pequenas editoras e aos diversos estados do país. Ou então assumam que não querem literatura, mas roteiros de novelas e de séries televisivas e livros de trocadilhos escritos por empregados de empresas de publicidade.

 

Felizmente tem ainda quem lute contra isto! A edições ardotempo pôde editar e fazer chegar até mim o livro Don Frutos, de um dos maiores escritores que li em minha vida: Aldyr Garcia Schlee. Bem haja!

 

Paulo José Miranda

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Sábado, 08.10.11

Um poema

(Um poema de Paulo José Miranda)

 

Porque o mundo não acaba
 Estender-se-á pelos dias longos e difíceis
 Transformar-se-á em areias invisíveis
 Realmente invisíveis
 Longínquas aos sentidos e entendimento
 Como sentimentos antigos que os humanos tiveram
 Porque a vida não acaba nunca
 Arrastar-se-á até que não se possa nada
 Não se possa nada senão ver e chorar
 Porque os sonhos que nos visitam nas noites do mundo não acabam
 Só o sono o sono só o sono
 Se acaba ao acordar
 
 
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Sábado, 17.09.11

A cultura da queda

Retóricas do 11-S

 

João Ventura

 

 

 

Foi há dez anos que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos», segundo a fórmula de Baudrillard.

 

O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11de Setembro de 2001. A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições foram acontecendo na única realidade do nosso tempo, a televisão.

 

Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercutir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil em construção no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro. Haverá, ainda, redenção possível depois de tanta ruína?

 

Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172]. Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade?

 

Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações» (Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999) ou «choque dos preconceitos» - como corrigiu Edward Said (Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos.

 

Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo. Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» (Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969), em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os pólos do bem e do mal.

 

E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, vários escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» - escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto (Quetzal, 2007).

 

Claro que mesmo nesta literatura estamos, ainda, diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraizadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado (Peter Sloterdijk, Alheamento do mundo)

 

João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

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Terça-feira, 13.09.11

Melo era uma festa

O dia em que o Papa foi a Melo

 

Iuri Müller

 

Foi uma pena, porque Melo era uma festa, antes da chegada do Papa. A gente notava nas caras das pessoas – nos gestos, nas atitudes – uma alegria sem necessidade de explicação, alguma coisa muito rica e muito viva que alguém chamaria equivocadamente de orgulho municipal ou de vaidade ufana, mas que era muito mais ou muito menos do que isso: era o júbilo dos deserdados, o regozijo dos esquecidos despertados repentinamente para um momento de confiança, para uma possibilidade de certeza.

 

Aldyr Garcia Schlee, Melo era uma festa

 

No dia oito de maio de 1988, um domingo de tempo feio, neblina e vento frio, a Negra Martiana, que não tinha nada, viu entrar pelo buraco do fogão duas galinhas e um galo, acontecimento estranho para quem vivia em um casebre, perto de terrenos baldios e de um arroio e muito longe de qualquer galinheiro. No dia oito de maio de 1988, o Papa João Paulo II esteve em Melo, na cidade do interior uruguaio onde vivia a Negra Martiana, mas ela não se lembra de ter pedido qualquer coisa ao Santo Padre. Ainda mais depois que os seus enteados percorreram meia cidade com bandeirolas e faixas brancas nos bolsos, todas elas com mensagens de boas-vindas ao Papa, e voltaram para casa sem ter vendido absolutamente nada. Mas ali estavam as duas galinhas e o galo, justamente na cozinha de quem não tinha nada, e logo no dia em que o Papa foi a Melo – dessa história, que pode ter acontecido em qualquer canto da capital do departamento de Cerro Largo, o escritor Aldyr Garcia Schlee fez um conto e o chamou, mesmo perguntando no rodapé da página se não seria muito, de “Milagre”.

 

Aldyr, nascido em 1934 na cidade de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, não esteve em Melo naquele dia; o Papa, sim. A ausência não impediu que três anos após a visita papal o escritor se fizesse presente, quase que magicamente, em todos os lados da cidadezinha que se preparou até como não podia para receber João Paulo II – em 1991, Schlee publicou “El día en que el Papa fue a Melo” nas Ediciones de La Banda Oriental. Oito anos mais tarde, o livro formado por dez contos cujo pano de fundo é sempre a presença – ou a enorme ausência – do Papa no interior uruguaio aparece no Brasil publicado pela editora Mercado Aberto com o título “O dia em que o Papa foi a Melo”.

 

O Milagre” que viveu a Negra Martiana, portanto, é só um dos causos de um dia que, por curioso ou trágico, não deve nunca escapar da memória de quem esteve em Melo naquele domingo.

 

Tudo porque os uruguaios esperavam um público de ao menos cinquenta mil pessoas e a chegada de gigantescas caravanas de católicos brasileiros – e há quem diga que não mais do que oito mil pessoas, a maioria de Melo, de fato foram ver o Papa.

 

Entre os personagens de Aldyr, no conto “Espelho partido” está o avô que completava 98 anos no dia em que a cidade estava impactada pela chegada do maior visitante que já havia recebido – e que, apesar das centenas de parentes e conhecidos que se aglomeravam na “grande casa alta de dezoito peças”, prefere não sair da cama de onde contemplava há horas a rachadura de um velho espelho.

 

Talvez relembrasse, em meio ao cansaço dos últimos anos de vida, as conquistas de “uma pobre e obscura republiquinha” que há tempos havia “suprimido o ensino religioso nas escolas públicas e logo se pôde diminuir para oito horas a jornada diária de trabalho, implantar as jubilaciones, criar as pensões de velhice, garantir a assistência pública e laica aos enfermos e assegurar a gratuidade da educação nos três níveis”. E que secularizou “os juramentos oficiais, deixando de mencionar Deus e os santos evangelhos”; que garantiu “a total liberdade de culto, separando a igreja do Estado – embora não tenhamos conseguido a aprovação da semana renga, com um dia de descanso a cada seis, para acabar com o feriado de domingo por sua significação religiosa”. E lá fora estava o Papa, orando para uma multidão que não chegou.

 


 

É no conto “Melo era uma festa”, narrado por um jornalista credenciado no evento, que se encontra uma descrição do desastre que foi a preparação dos habitantes de Melo para o grandioso acontecimento; embora ficcional, o texto de Aldyr não destoa de outros relatos sobre aquele domingo que, apenas para uns poucos, ainda é lembrado com alegria: “a verdade é que nada deu certo no dia em que o Papa foi a Melo – pelo menos para a pobre gente que mais esperava de sua visita. Foi tudo tão rápido e inesperado como um milagre, mas um milagre às avessas: quando se viu, o que se queria que acontecesse, o que tinha que acontecer, o que era certo que ia acontecer, não aconteceu; e em seguida não dava mais para acontecer. O Papa veio se foi; e pronto!

 

Quando recém o leitãozinho de estimação começava a pingar graxa no braseiro, quando os primeiros chouriços caseiros pegaram a dourar e a estalar, o homem já tinha ido embora e todo mundo se foi – se foi sem almoçar nem nada –, e ficou só a terra vermelha e pisoteada da esplanada coberta de lixo barato”.

 

Iuri Müller - Publicado em SUL 21

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Domingo, 11.09.11

Ler não é ler. Ler é viver.

Erros capitais da leitura

 

Paulo José Miranda

 

Julgamos que pelo fato de aprendermos a ler desde muito cedo, a juntar as letras, a formar palavras que juntamos a outras e a entender palavras e frases, que sabemos ler qualquer coisa. Pois nada mais errado. Para tudo é necessário uma preparação específica e a leitura não é menos do que tudo o resto.

 

Sempre fico fascinado quando qualquer pessoa julga que pode apreciar uma peça de teatro, um poema como qualquer outro, mas sabe que não pode correr a maratona e, ainda que a consiga correr, sabe que não a consegue correr com os melhores. Ou seja, quando se trata do corpo, aceitamos facilmente que outros podem ser melhores do que nós, porque se prepararam para isso, mas quando se trata de ler um texto, de apreciar uma obra de arte, não.

 

Há textos que oferecem ao leitor a mesma resistência que a maratona.

 

Por exemplo, a Crítica da Razão Pura, de Kant, a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, o Ser e Tempo, de Heidegger. O leitor aqui chegado a estas páginas, ou já fez muito treino, e treino específico, ou não vai conseguir ultrapassar a primeira página, quanto mais os 42 km de livro que tem pela frente. Mas não se julgue que é pelo fato de se tratar de textos filosóficos, de textos de filosofia, que o leitor encontra essa resistência e assume a sua incapacidade. Nem sequer de ser de filosofia alemã, pois o leitor assim que chega às páginas de Nietzsche, mesmo que nunca tenha corrido uma página de filosofia sequer, julga-se apto a lançar-se estrada a fora até ao fim do texto. O mesmo se passa com Platão, por exemplo. E também com o chamado segundo Wittgenstein.

 

Se isto é assim com os filósofos, por maioria de razão será com poetas e escritores. Esses, então, não oferecem resistência (com exceção de alguns casos raros). Assim, o leitor diante da maratona do poema ou do romance lança-se estrada fora e não admite que haja algum outro leitor mais preparado do que ele. Nem pensar! Aliás, é porque ele pensa, que não admite que outro pense melhor do que ele.

 

Depois abundam essas teorias de trazer pelos cafés e pelos bares: não há interpretações melhores, há interpretações. Lá está o iniciado na arte de pôr o pé na estrada a não admitir que alguém que já fez milhares de quilômetros possa correr melhor do que ele. Nem pensar! Evidentemente, o tempo de vôo não é garante de melhor leitura. Mas a falta de tempo de vôo deveria conferir mais humildade.

 

Para além do tempo de vôo, do tempo de preparação, dos muitos quilômetros percorridos, há ainda um outro fator que os leitores esquecem com freqüência: o talento. O talento, sim. Pois ninguém duvida que o Cristiano Ronaldo tem mais talento do que ele, sentado no sofá a assistir ao jogo. Aliás, mesmo 90% dos jogadores de futebol, que treinam tanto quanto Cristiano Ronaldo não têm o mesmo talento e nós admitimos “fácil”. Ora, cá estamos de novo diante do corpo. Desta feita do talento do corpo (e não só, mas é através do corpo). Mas quem é que aceita que o leitor ao seu lado ou à sua frente tenha mais talento para ler do que ele?

 

Quem é que diz: “cara, você é show de bola a interpretar um texto! Você é mesmo bom, gostava de ler como você.”

 

Esta fala nunca deve ter sequer existido e, se existiu, soou tão estranho que não deve ter sido repetida.

 

Que leva o humano a não aceitar que alguém leia melhor do que ele, quando facilmente aceita que alguém seja melhor do que ele a correr a maratona ou a jogar futebol? De onde vem esta idéia pré-concebida de que somos todos iguais na leitura?

 

Outro erro capital da leitura é julgar que, sendo capaz de ler bem uns determinados autores, somos capazes de ler bem todos os autores. Errado.

 

É como se num jogo de futebol Cristiano Ronaldo fosse igualmente fera defendendo as redes do gol (baliza) ou comandado a zaga (defesa).

 

Vocês julgam que um excelente leitor de Gabriel García Márquez será um bom leitor de Fernando Pessoa, por exemplo, e vice versa? A resposta só pode ser um redondo e verdadeiro não. Imaginemos um leitor de Cem Anos de Solidão e um leitor de Livro do Desassossego. Ambos lêem muito bem cada um dos seus livros, jogam muito bem a cada uma das suas posições no gramado, seriam igualmente feras se trocassem de livro, de posição?

 

Poderia até acontecer, mas seria tão improvável quanto encontrarmos um goleiro que jogasse na frente tão bem quanto o Cristiano Ronaldo. Porquê? Pela simples razão que se trata de galáxias distantes. Um e outro livros não são planetas diferentes, são galáxias diferentes. Não está aqui em causa a qualidade literária de cada um deles, que não discuto sequer. O que está em causa é a qualidade extra-literária, a qualidade para além da escrita (partindo do princípio que são ambos textos excelsos do ponto de vista literário). O humano que acede a uma exemplar leitura do livro de Fernando Pessoa muito dificilmente fará uma leitura igualmente exemplar do livro do escritor colombiano; e o contrário ainda será mais difícil.

 

A dificuldade está no universo que se abre diante do leitor. O texto implica a vida, num e noutro caso. Mas as vidas implicadas são diferentes. Eu não consigo imaginar um homem casado, com filhos, de bem com sua vida, chegando em casa depois de um dia de trabalho, ajudar os filhos, no jantar, falar com a mulher, eventualmente fazer amor com ela e, depois, pôr-se a ler Livro do Desassossego.

 

Desculpem, mas não consigo.

 

Não consigo imaginar este homem a entrar no texto do Pessoa e conseguir respirar, com tanta solidão, tanto solipsismo, tanto cinismo. Não é que não possa ler, mas não vai ler bem, seguramente; é pôr o Cristiano Ronaldo no centro da zaga, marcando o centro-avante.

 

Pelo contrário, já imagino esse mesmo homem a ler bem Cem Anos de Solidão. Não há aqui um diferencial de qualidade literária, repito, insisto, mas de mundividência. Quem é que já não sentiu, aos 18, 19, 20 anos, um medo inexplicável pela coluna acima ao ler esse livro do Pessoa? E porquê?

 

Porque usualmente nessas idades o humano ainda não está casado e com filhos, tem ainda as possibilidades todas em aberto, e ao confrontar-se com aquele texto sente dentro de si a possibilidade de isso vir a ser a sua vida. Isso assusta-o e fascina-o. Mas o homem, que vimos atrás, que chega a casa depois do trabalho para a mulher e filhos, não sente mais isso. Mas pode muito bem sentir e compreender o livro de Gabriel García Márquez, pois este livro, independentemente da sua qualidade literária, não choca de frente com a sua vida. Por outro lado, o homem que não está mais casado ou que nunca esteve, sente isso como aquilo em que foi parar a sua vida.

 

Ler não é ler. Ler é viver.

 

 

 

Paulo José Miranda

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Sábado, 03.09.11

Um dia, a beleza

 

Cidade séria

 

Paulo José Miranda

 

 

 

 

Demorei muito a chegar à idade que tenho. Demorei 41 anos e mais alguma coisa. Vivo em São Paulo e agrada-me muito viver aqui.

 

São Paulo é um cidade séria. Como quase todas as prostitutas, está disponível o tempo todo e longe de ser perfeita. A qualquer hora lhe peço o jornal, uma revista, um livro, uma cerveja, um sandwich, uma costela de boi ou que me aconchegue de amor, e nunca vi sombra de má vontade na mão que me estende.

 

E isto tudo num raio de cinquenta metros da porta de onde moro. Não vivo em Manhattan, nem em Beyoglu, não, vivo junto à Paulista. A morte acontece muito por aqui, é verdade, mas a morte acontece muito a quem anda na vida. São Paulo é profunda como os mistérios de Nietzsche. São Paulo está quase sempre a começar de novo. Arrasa tudo e dá de novo. São Paulo não preserva deuses antigos, constrói novos edifícios.

 

Tem muita poluição, dizem, e que isso prejudica a saúde como uma bomba ou uma guerra civil. A poluição mata em massa. Pode ser, não digo que não seja assim. Mas, ainda que possa não ter razão nenhuma, prefiro sentir no ar um inimigo do que não saber onde ir. Prefiro lutar contra o ar, lembrando o Dom Quixote delirando por terras de Castilha, do que morrer dia a dia de tédio, de cada vez que sair de mim e for até à rua. Em São Paulo, uma avenida vai até nunca mais.

 

Nunca vamos a nunca mais, isso também é verdade, mas a possibilidade de poder ir, ali, concreta diante dos olhos e dos passos, é uma sensação de futuro, uma sensação muito melhor do que passear no ar puro de uma montanha. A grandiosidade de um autor que, para além da excelência da sua escrita também escreveu muito, como Heidegger, por exemplo, não reside numa pretensa necessidade ou obrigatoriedade de nos fazer ler tudo, mas no facto concreto de sabermos que há muito mais do mesmo para ler. Este “muito mais” conforta-nos, ainda que não passemos da próxima esquina.

 

Mas confrontamo-nos constantemente com a miséria, dizem-me, só para me contrariar.

 

Melhor assim, respondo, lembra-nos duas coisas que não devemos esquecer ao longo da vida: humildade e convicção. Humildade para reconhecer naquele que está caído na rua o seu próprio corpo, o seu próprio rosto coberto; e convicção em não deixar que isso atrapalhe o que temos de fazer. São Paulo é profunda, filosófica, cresce alargando a noção de humanidade.

 

Em que cidade, logo pela manhã, me confrontaria eu com as perguntas que deve ter corroído Karl Marx, quando da sua tese de doutoramento acerca dos jardins de Epicuro, até aos Pirinéus da sua preocupação: será possível conciliar o prazer com a ética? Será possível ser justo e esteta? Será possível ter necessidades básicas e praticar a justiça? Será possível o deslumbramento e a igualdade?

 

Todo o mundo sabe que, em São Paulo, a realidade tem um caso com a verdade. E em mais nenhuma outra cidade do mundo isto acontece. Em mais nenhum outro lugar a realidade seduziu a verdade. Os paulistas, quando desencantados com a sua cidade, tão nietzschiana, sempre em construção, dizem: quando estiver pronta, São Paulo será bonita. E ter a beleza no futuro, caminhar na direcção de ser bela não é já uma das ideias contemporâneas mais belas da humanidade? São Paulo é séria como só uma puta séria consegue sê-lo, e eu demorei 41 anos para aqui chegar. Mas em que cidade faria mais sentido esta expressão da língua portuguesa: “mais vale tarde do que nunca”? Em São Paulo, tem sempre um lugar pra se chegar.

 

Paulo José Miranda

publicado por ardotempo às 23:04 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 30.08.11

A perda

 

 

Ausência do amigo, do autor, do visionário - Walmor Bergesch

 

 

 

Hoje, dia 29 de agosto de 2011, dia tempestuoso, frio e úmido em Porto Alegre RS Brasil, foi o dia da perda do grande amigo, do escritor e do criativo visionário que transformou a televisão contemporânea brasileira. 

 

O visionário que participou ativamente das equipes pioneiras que criaram três grandes emissoras de televisão, que revolucionou suas tecnologias, que introduziu as imagens em cores no Brasil, que imaginou e criou condições objetivas para a implantação de uma rede regional de televisão, que criou canais segmentados e comunitários de tevê, que estruturou a primeira grande rede nacional de televisão a cabo e escreveu o livro OS TELEVISIONÁRIOS contando a saga dos criativos profissionais (nomeando  e identificando a todos eles) e conjugando dessa maneira o seu livro sempre na primeira pessoa do plural.

Saudações e saudades, generoso e leal amigo.

 

Imagem do autor: Tania Meinerz 

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Sexta-feira, 19.08.11

O dia da rua e do livro

 

Dia 20 de agosto - Rua Uma terra só

 

 

 

Imagem: Marcelo Freda Soares

 

 

 

Lançamento do livro Uma terra só 

 

 

 

Imagem de capa: fotografia de Marcelo Freda Soares

 

Lançamento do livro Contos de Verdades

 

 

 

Imagem de capa: fotografia de Gilberto Perin

 

Livraria Contexto - Jaguarão - 17horas, (sábado) na Casa de Cultura de Jaguarão.

 

 

 

 

Em breve, durante o mês de setembro:

 

 

Lançamento da reedição do premiado livro Contos de futebol

 

 

 

 

 

 

 Imagem de capa: fotografia de Gilberto Perin

 

 

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Sábado, 13.08.11

O uso das palavras

Una criatura hecha de palabras

 

Alberto Manguel

 

Narrativa: A. S. Byatt 

 

Hay autores que imaginan el mundo en unas pocas líneas; otros requieren el espacio de varios volúmenes para explorar ampliamente la geografía elegida. A. S. Byatt es sin duda uno de estos últimos. A lo largo de cuatro fornidos tomos (dos de los cuales tienen más de 800 páginas cada uno), la saga de Federica Potter retrata con asombrosa lucidez la segunda mitad del siglo XX en Inglaterra. Pero decir que esta tetralogía (de la cual La Torre de Babel es el tercer volumen) es un estudio sociológico o psicológico a la manera de uno de aquellos grandes verborágicos, Romain Rolland o Anthony Trollope, sería una injusticia en el caso de Byatt. La saga entera, y sobre todo este tercer volumen, es una meditación literaria sobre el amor, las relaciones sexuales, la familia, la literatura, la amistad, la fidelidad (y la falta de fidelidad), el sentido de la historia y, más que otra cosa, sobre el lenguaje.

 

La Torre de Babel es el valiente intento de demostrar hasta qué punto somos el lenguaje que usamos y que recreamos. Federica Potter es muchas cosas, pero es, sobre todo, una criatura de palabras. Los lectores que conocieron a Federica en los dos primeros volúmenes (pero no es necesario haberlos leído para disfrutar de La Torre de Babel) se encontrarán aquí con la misma mujer inteligente y animada, quien, después de la atroz muerte de su hermana, piensa encontrar refugio del mundo casándose con un millonario conservador, el apuesto Nigel Reiver. Pero Reiver cree que tiene derecho a dominar todo, incluida su mujer, y cuando trata de imponer su voluntad por la violencia, Federica huye de su casa, llevándose consigo a su hijo de cuatro años, y se instala en Londres.

 

Estamos en los años sesenta: los Beatles, la liberación sexual, la política contestataria. Dos complejas narraciones paralelas dan su estructura a la novela: por un lado, los pormenores de dos juicios legales a los que Federica es sometida, el primero por su divorcio, el segundo para defender a un amigo acusado de publicar un texto obsceno; por el otro, la actividad literaria de Federica, reflejada en un libro de anotaciones que está compilando, La Torre de Blablablá, y en una serie de comentarios, críticas y clases magistrales sobre diversas obras literarias. De manera casi mágica, el lector descubre que la ficción que está leyendo está construida sobre las ficciones leídas por la protagonista, la vida como cuento.

 

La historia de Federica transcurre en una supuesta realidad documental, pero su contexto, su sentido, sus posibles interpretaciones y ramificaciones se encuentran en las páginas de Kafka, D. H. Lawrence y el marqués de Sade. En este sentido, la traducción de Susana Rodríguez - Vida es un triunfo, ya que consigue transmitir al lector español la compleja trama de diversos lenguajes - coloquiales, judiciales, amorosos, filosóficos, literarios - que hacen a esta novela.

 

La Torre de Babel está poblada de fantasmas, sea invisibles, salvo en la memoria, como la hermana muerta y como ciertos personajes del pasado de Federica, y visibles, como los diferentes hombres y mujeres que solo cobran realidad en la mirada de la protagonista: su amante John Ottokar, y su inquietante hermano gemelo, el escritor secreto Jude Mason, a quien defiende en el juicio; su prodigioso hijo Leo, de apenas cuatro años, y los hijos de su hermana, abandonados por su padre, incapaz de relacionarse con ellos.

 

La bíblica Torre de Babel fue erigida como un desafío a los cielos y fue castigada con la pluralidad de lenguajes. La novela de Byatt redime aquella antigua ambición para su protagonista, y convierte el castigo lingüístico en una bendición. Para que su ambición se realice, Federica debe encontrar en el lenguaje cotidiano la multiplicidad de Babel, no ya muchas lenguas del mundo, sino una sola múltiple, ambigua, rica en posibilidades, cotidiana y literaria, práctica y trascendente, para salir adelante y sobrevivir. Son su pasión y coraje los que llevan a Federica a su destino, pero es el lenguaje el que la salva. Pocas otras novelas contemporáneas demuestran, con tanto talento, la fe de su autor en el uso de la palabra.

 

Alberto Manguel - Publicado em Babelia

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Quinta-feira, 11.08.11

A lenda dos jaguarões

As grandes onças brabas

 

Aldyr Garcia Schlee

 

Dizem que ali, para lá daquela volta do Jaguarão, lá adiante, nas barrancas, viviam as grandes onças brabas – metade tigre, metade peixe – que deram nome ao rio. Eram como sereias, com os seios, o jeito, o encanto de mulher. Talvez ocultassem sob a água o mistério de suas escamas de prata e de suas caudas ondulantes; mas não tardavam em revelar, na agudeza das garras, a voracidade de suas entranhas de fera.

 

Conta-se que elas atraíam e seduziam a gente com tal fascínio e encantamento que jamais qualquer um de nós pôde perceber que fora arrastado até ali a ponto de perder o coração. Conta-se que as grandes onças brabas comiam só o coração de suas vítimas.


Nas esplêndidas noites de lua, nas preguiçosas tardes de mormaço, nas resplandecentes manhãs de garoa com sol – em épocas de jasmim e flor de laranjeira – aqueles jaguarões deslumbravam e enfeitiçavam as pessoas apenas para comer-lhes os corações; só o coração. Conta-se que nunca ninguém teve memória para lembrar que fora vítima das grandes onças brabas.

 

Os que um dia se sentiram chamados para o rio, que serenamente entraram pelas águas e inadvertidamente se entregaram às garras das feras, ofuscados pelo brilho das curvas e subjugados pelo encanto feminino daqueles seres fantásticos – os perdidos de amor – estes deixaram ali o coração sem se darem conta disso e de tudo o mais.

 

Há quem diga que a história dos jaguarões não passa de lenda, até porque não resta por aí uma só lembrança das grandes onças brabas; jamais alguém admitiu ter sido atacado por elas; nunca ninguém cometeu a loucura de pretender provar a existência desses entes extraordinários que viviam no rio. Houve quem dissesse que tal lenda teria sido inventada em outros tempos pelos jesuítas e divulgada e aceita por aqui como remate dos primitivos rituais de iniciação dos índios, ao simbolizar na perda do coração o fim da pureza do amor e, assim, o risco da tentação, da traição – de tudo que é proibido e pecaminoso.

 

Houve quem dissesse que lenda não há, nem nada. E que, desdobrando-se um rosário de prostíbulos à beira do rio, era fácil imaginar ali mesmo na praia, tentadoras e humanamente renascidas, as grandes onças brabas – com as quais deixávamos a inocência de nossos corações, descobrindo, nos perigos da noite e nos riscos da clandestinidade, o carinho comprado e a ausência de afeto.

 

Eu vos digo, em verdade, que nada sei de maravilhas embora trema ao falar de jaguarões. Talvez eu também seja daqueles que não tenham se dado conta de mistérios, que não guardem lembrança de milagres, que não se animem a comprovar magias. Mas, cada vez que venho aqui, sei que perco um pouco o coração; e que, no entanto, saio redivivo. Por tudo, prefiro contar histórias que me contaram como verdadeiras: os meus Contos de Verdades.

 


 

A.G.S. 

Ilustração: Xilogravura de Leandro Barrios

 

Contos de Verdades ©Aldyr Garcia Schlee, edições ardotempo 2011 

 

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Quarta-feira, 27.07.11

Gênios e sobredotados

Entrevista traduzida depois de imaginada

 

Paulo José Miranda

 

 

 

A minha entrevistada desta noite tem 32 anos e acaba de escrever um livro acerca da distinção entre pessoas sobredotadas e o génio. Ela mesma é uma pessoa sobredotada. Tem um doutoramento em física nuclear, pela universidade de Cambridge, e um doutoramento em literatura, pela universidade do Bósforo e tem ainda uma licenciatura em Filosofia, também pela universidade do Bósforo. Lê e fala 10 línguas. Tem ouvido absoluto, que implica reconhecer imediatamente o som que escuta, e estudou 9 anos de piano e toca Mozart, Chopin e Lizst na perfeição. Aos 16 anos o seu QI foi classificado de 190. Para que os nossos telespectadores possam ter uma noção mais precisa do que isto representa, acrescento que o QI de Einstein foi classificado de 180.

 

Entrevistadora: Boa noite! Espero que a minha apresentação não tenha esquecido nada. Julga-se um génio?

 

Mulher: Não, mas talvez seja aquela que está em melhor posição para reconhecer o génio. Eu sou aquilo que é designado pelas ciências da cognição como sobredotada.

 

E: O que é que a leva a fazer essa distinção? Porque, para a maioria das pessoas, uma pessoa como você é um génio.

 

M: O génio é aquele que faz o que nunca ainda tinha sido feito. O que ainda não tinha vindo ao mundo. O génio faz mundo. O sobredotado, como eu, faz muito bem feito uma quantidade enorme de coisas que já estão no mundo. Para usar uma metáfora da música, e que é verdade em mim, o sobredotado tem um ouvido absoluto para o mundo. O sobredotado faz, isto é, “imita” imediatamente o que há, quer seja a matemática, quer seja a música ou as línguas já criadas. Ele ouve e reproduz. Esta é a definição que melhor cabe para sobredotado: o reprodutor do mundo. O génio, pelo contrário, pode até ser surdo para o mundo, isto é, não conseguir aprender línguas com facilidade, ter sérias dificuldades para a matemática ou para a música, mas, depois, aquela que é a sua actividade, aquilo que faz, faz mundo. Contrariamente ao reprodutor de mundo, que é o sobredotado, o génio é o fazedor de mundo. O sobredotado “apanha” o mundo todo de ouvido, o génio não apanha nada. O génio joga, lança, faz mundo. É como se, o génio ao não saber quase nada, inventasse ele mesmo um saber, o seu saber.

 

E: Mas o génio pode também saber muito! Quando se trata de ciência, então, o génio sabe também sempre muito. Por exemplo, o caso de Einstein.

 

M: Sem dúvida! Mas ainda assim, Einstein não sabia mais matemática do que eu, e sabia menos física e matemática do que muitos cientistas ou professores do seu tempo. A questão é esta: o que faz a diferença entre Einstein e um professor do seu tempo não é o que ele sabe ou deixa de saber, mas de ir buscar o que ninguém sabe. E: Então porque é que o seu livro não faz de si um génio? M: Porque o meu livro faz apenas, ainda que possa ser brilhante, a distinção entre coisas que já há, entre o sobredotado e o génio. Não crio nem um, nem outro.

 

E: Mas julgo que cria essa distinção, que ainda não existia.

 

M: Não! A distinção já existia, não estava era muito clara. Eu apenas dei claridade à coisa. É muito diferente de criar a coisa. O facto de haver um livro, não identifica o seu autor com coisa nenhuma a priori. O que mais há no mundo são livros, e só muito poucos são de génio. E a maioria nem sequer são, asseguro-lhe, de pessoas sobredotadas.

 

E: O que é mesmo um sobredotado?

 

M: Um sobredotado é uma espécie de agente secreto dos filmes, uma espécie de James Bond, que consegue fazer tudo, mas não inventa nada, não cria nada. O James Bond é aquele que faz o que quer do mundo, mas não lhe acrescenta nada. E vamos ver uma coisa, inventar ou criar, não é uma questão modal, mas substancial. Ou seja, criar versos que não existem pode também ser não criar nada.

 

E: Porquê?

 

M: Porque se pode tratar de uma imitação, de uma reprodução de algo que é verdadeiramente bom. Também há livros que nós dizemos que são bons, mas não são de génio. São os livros a que eu chamo de sobredotados. Livros que imitam perfeitamente o génio, sem que se perceba. Mas não se trata aqui de um falsificador, como aqueles que imitam os quadros de pintores famosos, trata-se antes de alguém que escreve de um modo que já foi escrito. Píndaro inventa a escrita, Rimbaud inventa a escrita e Fernando Pessoa, poeta português do início do século passado, inventa a escrita, só para dar alguns exemplos, depois, os outros, quando são bons são sobredotados, isto é, imitam muito bem o mundo que esses, os génios, criaram. O problema, em relação à poesia, é que como as palavras e a ordem delas são diferentes de livro para livro, tem-se a ilusão de que são coisas diferentes, quando verdadeiramente não são. Aliás, o problema é comum a todas as artes. São variações do génio, alterações modais e não substanciais, isto é, não acrescentam mundo. A ciência já não tem este problema. Por exemplo, a Teoria da Relatividade não é imitada.

 

E: Mas pode ser ultrapassada, na sua tentativa de descrição do universo!

 

M: Isso pode! Na arte, o génio nunca é ultrapassado. O génio é sempre à mesma altura ou, para manter a metáfora anterior, o génio é inultrapassável, é sempre à mesma velocidade, a inultrapassável velocidade da luz.

 

Paulo José Miranda

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Sexta-feira, 24.06.11

As imagens contam

 

Livro de Arte Fotográfica de Gilberto Perin

 

 

 

  

 

 

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Quinta-feira, 23.06.11

O pior do presente é o futuro

Esperar trezentos anos

 

Enrique Vila-Matas

 

En el avión de regreso de Dublín, sustituyo las noticias de la prensa por las ideas de Flaubert (Razones y osadías, selección y prólogo de Jordi Llovet) y confirmo la capacidad de percepción de lo que estaba por venir que gobernó al autor de Bouvard et Pecuchet: "Lo que más me asombra es la feroz estupidez de los hombres. Estoy harto de tantos horrores y convencido de que estamos entrando en una época repugnante en la que no habrá lugar para la gente como nosotros. La gente será utilitarista y militar, ahorradora, mezquina, pusilánime, abyecta".

 

Esto lo escribió hace siglo y medio y creo que se quedó corto y que se llevaría un sobresalto si viera cómo es la gente ahora. En nuestras masas, por ejemplo, hay un lógico nivel de dudosa claridad intelectual, porque las masas, por definición, son número, son aglomeración. Pero si el vulgo no tiene claridad, menos aún parecen tenerla las clases dirigentes. Cuando se habla de la ignorancia de las masas, se habla en términos injustos e incompletos, porque a quien sería más urgente educar es a los poderosos. "Conclusión: hay que ilustrar a las clases ilustradas. Empezad por la cabeza, que es la parte más enferma; el resto seguirá", escribió Flaubert.

 

A los poderosos, al tiempo que se les educa, habría que recordarles que leer nos abre a un mundo ancho, es atreverse incluso con el sosegado Spencer, que proponía la abolición del Estado. Hasta no hace mucho, en los días en los que me dedicaba a buscar soluciones para el mundo, me lamentaba de que nuestros dirigentes estuvieran tan pérfidamente interesados en mantener a sus súbditos en un estado de absoluta ignorancia. Pero con el tiempo he comprendido que muchos de esos dirigentes carecen de las más elementales lecturas y sabiduría y ni siquiera son estrategas de la ignorancia de las masas y hoy en día solo son fracasados hombres de negocios, dominados por los famosos mercados; son los mismos que dejan que el mundo se hunda como una barca podrida y que la salvación del espíritu acabe pareciendo quimérica incluso a los más fuertes. Encapsulado en mi espacio mínimo del avión, caigo en la cuenta de que lo peor del presente es el futuro.

 

Ahí abajo me espera el mundo con su feroz estupidez y horrores y voy preguntándome qué sucederá el día en que, tal como resulta cada día más previsible, el mundo se convierta en algo frío y descarnado. ¿Y quién no percibe que ya se está volviendo así el mundo? Qué ocurrirá, creo recordar que se preguntaba Flaubert, el día en que la convivencia que alguna vez conocimos -que todos alguna vez hemos conocido- ya no exista. Y eso lo preguntaba cuando las cosas aún no tenían la extrema ferocidad actual. Pero ya entonces él deseaba apartarse. No creía en la felicidad, pero sí en la tranquilidad. Por eso, al final de su vida seguía la regla indeleble de apartarse de todo lo que le resultara enojoso.

 

Seguramente - me digo cuando busco soluciones - la tranquilidad es de los pocos derechos que aún podemos ejercer con calma, porque nos basta con no perder los nervios y cerrar los ojos y quedarnos con nosotros mismos y pensar, por ejemplo, en el tranquilo anarquismo de Spencer. Pero, bueno, quizás haríamos bien en no estar buscando tantas soluciones al mundo ni preocuparnos tanto y tanto por la verdad y sí, en cambio, buscar aquella verdad con la que, aun no siendo perfecta, al menos podamos vivir. Y es que quizás sea cierto que, como decía la vagabunda de la leyenda, todavía hay una gran diferencia entre tratar de sorber todo el océano o beber de los arroyos.

 

Le preguntaron un día a Borges si pensaba seriamente que el Estado que proponía Spencer era factible.

 

- Por supuesto. Pero eso sí, es cuestión de esperar doscientos o trescientos años.

 

-¿Y mientras tanto?

 

- Mientras tanto, jodernos.

 

Es duro, pero esta es una de esas verdades con la que precisamente podemos vivir.

 

Enrique Vila-Matas

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Quarta-feira, 15.06.11

CAMISA BRASILEIRA - 4 de julho - Porto Alegre - Livraria Cultura

 

Convite para o Lançamento do livro CAMISA BRASILEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 14.06.11

Dia para lembrar Jorge Luis Borges

Más allá de "El Sur", de Jorge Luis Borges

 

José Maria Del Rey Morató

 

Veinticinco años han pasado de la muerte del escritor, ocurrida el 14 de junio de 1986 en Suiza.

 

Esta vez lo recordamos con su cuento “El Sur” (Ficciones. 1944). La primera vez que leí “El Sur” me gustó mucho, aunque había cosas que se me escapaban. Más tarde, a medida que iba sabiendo algo más de ese cuento y de su autor, empecé a entender un poco más, como si las sucesivas capas de conocimientos de por aquí y de por allá me fueran aclarando el panorama.

 

Supe que el cuento mechaba cosas inventadas con otras que en efecto le habían sucedido Borges en su vida real. Supe de la convivencia del autor con una tensión interna que derivaba de ascendencias familiares que influían en su personalidad y que también está presente –esa influencia, como conflicto–, en gran parte de su obra literaria y en muchas de sus opiniones públicas sobre sus compatriotas, sus hábitos culturales, su idiosincrasia y demás. “El Sur”, en definitiva, me parece un gran cuento.

 

Su historia comienza en Buenos Aires en 1939. Una tercera persona del singular narra la acción: desembarcó, se llamaba, era, se sentía. El narrador sabe todo del protagonista y de los personajes. El tiempo verbal elegido por el autor es el pasado: tiene que ver con el peso de sus antepasados en su conciencia y en su identidad, con el mito del coraje que también viene del tiempo de antes y, por fin, con ese lugar –“el Sur”– que es el símbolo de esa memoria criolla tan fuerte. 

 

El protagonista es Juan Dahlmann, nieto de un pastor de la iglesia evangélica, Johanes Dahlmann, abuelo paterno que desembarcó en Buenos Aires en 1871. Juan Dahlmann “secretario de una biblioteca municipal en la calle Córdoba” representa al autor, cuyo abuelo materno es Francisco Flores, que murió en la frontera de Buenos Aires “lanceado por indios de Catriel”. El abuelo materno de Borges se llamaba William Haslam y era pastor metodista; y el abuelo paterno fue el coronel Francisco Isidro Borges, montevideano, que murió en combate.

 

Ahí están las dos ascendencias, los dos linajes, las dos fuertes tendencias que se agitan en la mente y el ánimo del autor: por una parte, la civilización, la cultura, el protestantismo, la raíz europea, los libros; y por la otra, el coraje, la violencia, las revoluciones, los militares, los indios, el puñal, el coraje: en otras palabras, la barbarie. Lo notable, en el caso de Borges, es que esa contradicción o dicotomía que se manifiesta como algo familiar y personal de un escritor, no es ajena a tendencias que laten, desde hace siglos, en el seno de las sociedades rioplatenses. Borges las recoge, las obliga a convivir bien o mal y las saca a caminar como se puede por los pagos que siempre quiso tanto.

 

El protagonista del cuento, Juan Dahlmann, es la máscara detrás de la cual está el autor, Jorge Luis Borges.

 

Teniendo presente al Borges real, puede entenderse que las cosas que le suceden a Dahlmann y sus propias decisiones individuales simbolizan algunos rasgos del destino de su país. Ante los dos caminos que sus antepasados le proponen, Dahlmann elige el de la cultura, la civilización, lo europeo, mientras que la circunstancia, el destino, su país le reclaman, le exigen, que se haga cargo también de lo criollo, la barbarie. Al final el protagonista acepta la eventualidad de su muerte trágica en una exhibición de violencia que admira aunque en verdad no le va: una pelea en la campaña, facón en mano, a la manera criolla.

 

No importa que la pelea no sea parte de la realidad de su viaje al Sur, sino en cambio y señaladamente una parte decisiva de su ensoñación, de su memoria, de la memoria de todos los que hacen posible la Argentina de ayer y de siempre. Estas cosas –una pelea criolla en un sueño– suceden, y cuando la responsabilidad de que ellas pasen en los cuentos es de Borges, esas cosas –más allá de «el Sur» de los sueños– siguen viviendo quizá para siempre.

 


 

José María del Rey Morató  - Uruguay

Publicado por Jornalista Vaz

Imagem: El Sur, Desenho de Joaquín Torres Garcia

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Terça-feira, 07.06.11

Sobre o escritor Aldyr Garcia Schlee

O escritor no pampa

 

Don Aldyr Garcia Schlee  é um dos escritores e romancistas mais importantes do Brasil na atualidade. Vive de sua literatura. Isolado, fronteiriço, mora num sítio no meio do pampa, quase na divisa com o Uruguai. Escreve metodicamente todos os dias, habita no interior de uma magnífica biblioteca e dali faz suas incursões e pesquisas pelas cidades e regiões do pampa – escuta seus habitantes, ouve as lendas, as verdades e as mentiras, observa as planuras no relógio das estações e no vôo pontual das aves migratórias. Inventou, delimitou e transita em seu próprio mundo literário. Escreve em português e no castelhano modulado da voz da fronteira. É o autor que nos traz as riquissimas histórias de suas personagens imbricadas numa linguagem ousada, contemporânea e transversal de um mundo paralelo à mimetização da linguagem das grandes metrópoles.

 

Autor de mais de 30 livros entre os quais Uma Terra Só, Linha Divisória, Contos de Verdades, Contos de Futebol, O dia em que o Papa foi a Melo, Camisa Brasileira, Os limites do Impossível – Contos Gardelianos e Don Frutos. É o tradutor premiado de Facundo – Civilização e Barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento (Prêmio Açorianos de Tradução, 1997); e o prestigiado autor da última edição crítica de Contos Gauchesco e Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto – publicada em 2006, com registro de variantes e estabelecimento do texto, além de estudo paratextual, análise textual, notas, glossário e cronologia. Tradutor de Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes em nova edição comentada e com elucidário de sua autoria, em publicação por edições ardotempo.

 

Foi o ganhador de duas Bienais Brasileiras Nestlé de Literatura (1992 e 1994), vencedor de quatro prêmios Açorianos (1997, 1998, 2001 e 2010) e consagrado com o Prêmio Fato Literário de 2010, no Rio Grande do Sul. Os limites do Impossível – Contos gardelianos foi considerado o Livro do Ano 2009 pelo jornal Zero Hora. Prêmio Açorianos de Literatura em 2010. Prêmio Fato Literário 2010 RBS

 

Don Frutos – O romance foi considerado o Livro do Ano 2010 pelo jornal Zero Hora.

 

É finalista do Prêmio Portugal Telecom 2011, com o romance Don Frutos.

 

O livro CAMISA BRASILEIRA será lançado no dia 1º de julho no Museu do Futebol – São Paulo.

 

Aldyr Garcia Schlee é o criador do uniforme canarinho da Seleção Brasileira de Futebol, escolhido em concurso nacional em 1953.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee - Retrato por Gilberto Perin (Jaguarão RS Brasil), 2011

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Sábado, 28.05.11

O leitor que não pára de ler

Um adolescente extraordinário

 

Juan Cruz

 

Alberto Manguel tiene 62 años, pero no sólo por eso es un adolescente extraordinario. A su edad, y después de una experiencia que lo ha llevado a muchos países y a numerosos libros, e incluso a la cárcel argentina cuando era un muchacho díscolo frente al poder militar, aún se pone rojo como un tomate cuando la timidez lo vence.

 

Esa es una facultad que se convierte en virtud cuando uno tiene 62 años. Y acaso es esa perpetuación de la adolescencia la que late debajo de este libro singular al que uno se enfrenta como si fuera a leer una conversación erudita y sale de él con la frescura de haber asistido a un divertidísimo recuento de las andanzas de un hombre al que uno imaginaba acechado por los libros, ajeno a la vida, un poco como Jorge Luis Borges, o como la mitología dice que fue el gran ciego de Buenos Aires.

 

El libro es Conversaciones con un amigo y es el conjunto de charlas, muy bien conducidas, que tuvo con Manguel el editor francés Claude Rouquet a lo largo de varias semanas. La edición de entrevistas es un arte, y conviene aprender de esta que emprendió Rouquet, pues en ningún momento se olvida uno de que es una conversación, porque en todo momento se sabe uno involucrado en ella, participando en una peripecia que el arte de la entrevista convierte en una buena experiencia propia. Aunque se habla de libros, sobre todo, se habla también de la vida, y de mucha vida, pues, como con Borges, que fue su amigo, y a quien leyó en un periodo singular de la vida, con Manguel hay un malentendido si uno cree que sólo está preocupado por lo que nace de la lectura, que por otra parte es su saludable obsesión perpetua.

 

Borges era un hombre risueño y bromista, no estaba todo el día rodeado de legajos; y a Manguel le pasa algo parecido: está rodeado de libros, esa es su geografía, pero hay mucho más en Manguel; la suya es una mirada distraída y minuciosa, mira como si escribiera, y se ríe o se enfada mirando, no es un ermitaño alojado en la torre húmeda de Montaigne. Este es, pues, un libro sobre la vida y se lee como si fuera una reflexión sobre el tiempo en función de los libros. Incluye el acontecer realmente singular de su padre diplomático, peronista y vagabundo, la expresión indignada del joven Manguel y la raíz de su pasión por la escritura, que es un ejercicio muy generoso en su caso, pues escribe de otros, obsesivamente escribe de otros, aunque también aborda la novela propia de la que la vida emerge.

 

Los libros son tan importantes que le sirven, incluso, para marcar su propio tiempo. Es muy emocionante leer esta confesión de Manguel que ya tiñe el recuerdo del libro: "No creo en el más allá, creo que me convertiré en un polvo que, espero, ayudará a que crezcan algunos zapallos. Lo que me importa es saber que todo esto va a terminar. El tiempo que pasa me permite medir lo que me queda por hacer". Cuando era adolescente se consideraba capaz de todo, de leerlo todo; ahora sabe que ya no es posible. "Me da lo mismo. Como cualquier lector, tuve la suerte de haber encontrado algunos textos interesantes". En el libro aparecen esos textos, desde policiales a la Divina Comedia, pasando por Kipling y Chesterton. Esta biblioteca, dice, es un autorretrato. Y el libro es un retrato en el que Manguel aparece como un adolescente extraordinario que no parará de leer.

 

 

 

Juan Cruz - Publicado em Babelia / El País

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Quinta-feira, 19.05.11

A rua do escritor

 

O nome da rua: Uma terra só

 

 

 

 

Uma magnifica homenagem ao livro premiado e à obra do escritor Aldyr Garcia Schlee.

 

A mensagem:

 

Caro Jornalista Luiz Carlos Vaz,

 

É com grande satisfação que informo que ocorreu nesta segunda-feira (16.05.2011), na Câmara dos Vereadores de Jaguarão, a aprovação do projeto que intitula a rua ao lado do Mercado Público de Jaguarão - Uma terra sóMerecida homenagem ao escritor Aldyr Garcia Schlee e sua obra.

 

Andréa Lima

Secretaria de Cultura e Turismo de Jaguarão

 

Enviado pelo Jornalista Vaz, de Luiz Carlos Vaz

 

 

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Quarta-feira, 18.05.11

Enrique Vila-Matas em São Paulo

HOJE - 18.05 -  Instituto Cervantes

 

Palestra de Enrique Vila-Matas, lançamento do livro “Dublinesca” e sessão de autógrafos

 

18 de maio de 2011 19:30 até 22:00

 

O Instituto Cervantes de São Paulo e a Editoria Cosac Naify, apresentam:

Conhecendo Vila-Matas. Lançamento Dublinesca

Apresentação do livro Dubilnesca

e sessão de autógrafos deste autor espanhol nascido em Barcelona.

 


 

 

Mais informações em www.enriquevilamatas.com

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Terça-feira, 17.05.11

A epifania amorosa

A paciência dos amantes

 

João Paulo Sousa

 

Para a interlocutora.

 

Por um desses acasos a que a humana vontade de conferir ordem ao mundo insiste em atribuir uma lógica ou uma razão, fui há pouco tempo confrontado com um verso de Shakespeare que começou por me parecer desconhecido e se revelou depois como pertencente a uma peça que eu já vira encenada. Se é certo que esta última circunstância não bastaria para que eu o tivesse memorizado, não se justificando, portanto, que me censurasse por não o ter identificado logo, a verdade é que a sua insistência em, por assim dizer, se colocar à minha frente me despertou um inusitado desejo de aprofundar o seu sentido, ainda por cima estimulado pela leitura que dele fizera quem, no decurso de uma conversa, o resgatara do meu esquecimento e o depusera diante de mim. O verso em questão, “Journeys end in lovers meeting” (que, numa tradução literal, equivale a algo como “A viagem acaba no encontro dos amantes”), número 41 da cena 3 do acto II de Noite de Reis (ou, para ser mais exacto, Twelfth Night, peça provavelmente escrita em 1601 ou 1602), é parte integrante da fala de um bobo, de uma dessas personagens a que o teatro conferiu a possibilidade de dizerem verdades incómodas com um desplante que raramente era conferido a outros intervenientes dos espectáculos, e é também uma antecipação do destino dos protagonistas, mas, como tantas frases em Shakespeare, guarda espaço para outras leituras; a da minha interlocutora – acreditando que faço jus às suas palavras – encarava a “viagem” do verso shakespeariano como o trajecto mental que antecipa o encontro erótico, como o percurso imaginário que cada um dos futuros amantes compõe até esse momento que, se a expressão não parecesse horrivelmente antiquada, poderíamos chamar a epifania amorosa.

 

Nesta leitura, a viagem terminaria aí porque também aí se fecharia a deriva imaginária, substituída pelo áspero combate com o real. Ao ouvir esta proposta de possessão do verso shakespeariano (interpretar um texto é apoderarmo-nos dele), perguntei-me se ela aguentaria submeter-se a um confronto com a literatura ao longo dos tempos, dada a frequente reiteração da ideia de que a arte não se faz com bons sentimentos e tendo em conta o facto de o amor ser habitualmente considerado um deles. Em suma, falará a literatura de amores imaginados – paralelamente configurados como viagens – que acabam por se consumar?

 

Experimentemos começar pelo início, não exactamente pelo primeiro livro da literatura ocidental, essa Ilíada tão sangrenta, mas pela sua quase gémea, pela Odisseia, pela viagem do mítico guerreiro Ulisses, que, forçado a combater em Tróia, demora no regresso a casa muito mais do que teria podido crer. Provavelmente escrita nos séculos VII ou VI antes da era cristã, a epopeia modelar de Homero (poeta de quem nada se sabe além do nome) distende-se por vinte e quatro cantos, para narrar em verso as lendárias peripécias que vão retendo o viajante e os seus companheiros no moroso retorno. Como é sobejamente sabido, Ulisses só irá reencontrar a mulher, Penélope, no final da obra, ou seja, no término de uma viagem pontuada por longas interrupções. Em todo o caso, se ele, retido na ilha da feiticeira Circe, chora diante do mar, atormentado pelo desejo de regressar aos braços da sua amada, também esta, por seu turno, pensa nele quando engana os pretendentes com o seu astucioso plano centrado na mortalha de Laertes: propunha-se escolher um homem para ocupar o lugar de Ulisses quando acabasse de tecer a mortalha, mas desfazia à noite o que fazia durante o dia. Assim desejado, o encontro dos amantes (trata-se de um reencontro, mas que, decorridos tantos anos, se configura mais como uma novidade) decorre numa noite que a deusa Atena prolonga, para que cada um conte ao outro as aventuras por que tinha passado: “Mas depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo / de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro”.(1)

 

É também num plano que poderíamos considerar fantástico, se o termo não fosse inadequado para a época em questão, que Dante Alighieri  situou a sua viagem. Publicada entre 1304 e 1321, a Commedia (posteriormente conhecida como La Divina Commedia) é um poema alegórico, dividido em três partes e cem cantos, que descreve a viagem de um homem pelo Inferno, passando pelo Purgatório, até chegar ao Paraíso, onde será recebido pela sua adorada Beatriz. Este homem, que, aos 35 anos, se considera no meio do caminho da vida, diz ter empreendido esta viagem singular entre a noite de quinta-feira santa (7 de Abril) da Páscoa do ano de 1300 e a quarta-feira seguinte (13 de Abril). Escrevendo em língua vulgar, pondo de parte o latim, ele tem a preocupação de contar tudo o que viu. Ao longo das duas primeiras etapas, é guiado pelo poeta latino Virgílio, mas o percurso no Paraíso faz-se ao lado de Beatriz, assim elevada a uma condição única para a época, que consistia em colocar uma mulher sem biografia de realce, nem especial aptidão para a santidade, como guia, não só dele próprio, mas de todos os crentes. Mesmo considerando as muito particulares características da viagem empreendida por Dante, merece destaque o facto de o encontro do poeta com a amada se concretizar à entrada do lugar que se pretendia descrever como o mais belo de entre todos os que eram conhecidos ou era possível imaginar. É a recompensa por um trajecto cuja aspereza se vai progressivamente atenuando, como se a caminhada pelos círculos infernais correspondesse afinal à dolorosa via crucis dos amantes que se desejam à distância, sem talvez saberem que o desejo é recíproco. O encontro não poderia, assim, deixar de vir marcado pelo espanto, pela perplexidade: “Olha-me bem! Sou bem, sou bem Beatriz”. (2)

 

 

A viagem imaginária também pode, no entanto, encontrar-se ancorada num espaço mais prosaico, como o demonstrou a obra do russo Fiódor Dostoievski, nomeadamente através do romance Crime e Castigo (Prestupleniye I Nakazaniye, 1866). O protagonista desta narrativa publicada originalmente por capítulos num jornal russo é Raskólnikov, um jovem estudante que vive em São Petersburgo com crescentes dificuldades financeiras, o que acaba por levá-lo a cometer um duplo homicídio (de uma velha usurária e da sua irmã, cuja inesperada irrupção na cena do crime a torna na segunda vítima).

 

Mais tarde, o herói (ou anti-herói, dada a sua fragilidade e o seu desenraizamento) começará a sentir remorsos e a necessidade de se redimir, o que apenas se tornará possível por intermédio de outra personagem igualmente situada num plano inferior da escala social; será Sónia, uma jovem prostituta, que o convencerá a entregar-se à justiça, para que, uma vez lavada a culpa, possam viver os dois juntos. Irá depois acompanhá-lo até à Sibéria, quando ele para aí for levado, para os trabalhos forçados, visitando-o sempre e nunca deixando de o apoiar. É num desses momentos em que, pelo facto de todos se terem habituado a vê-la por perto, já ninguém, nem o próprio guarda, lhes presta muita atenção, num desses instantes em que todos parecem tê-los esquecido e eles estão completamente entregues a si mesmos, que, invisível à superfície, ocorre uma transformação, uma profunda e radical modificação das perspectivas de ambos sobre as suas vidas, semelhante talvez ao avistamento de terra por parte dos marinheiros de uma viagem de longo curso, os quais ficam assim a saber que o destino não lhes foi demasiado cruel e lhes reserva ainda um porto de abrigo, mesmo que provisório, mesmo que capaz apenas de durar um breve lapso de tempo: "Nem ele próprio sabia como aquilo aconteceu, mas de repente parecia que alguma coisa o agarrava e o lançava aos pés dela. Chorava e abraçava-lhe os joelhos. No primeiro instante, Sónia ficou horrivelmente assustada, e o seu rosto ficou lívido de morte. Saltou do lugar e, a tremer, olhou para ele. Mas logo, nesse mesmo instante, compreendeu tudo. Nos seus olhos brilhou uma infinita felicidade; compreendeu, e para ela não havia já dúvida, que ele a amava, que a amava infinitamente e que esse momento chegava por fim".(3)

 

Dostoievski sabia, no entanto, que não podia terminar desse modo o romance, mergulhando as personagens numa suposta felicidade que não resistiria ao confronto com a prosa da vida, criando uma ilusão beatífica a que a sua obra é alheia; sabia também que apenas o estado de expectativa induz uma alegria nunca contrariada, porque sempre adiada, e, em sintonia com a leitura do verso shakespeariano ensaiada pela minha interlocutora, optou por encerrar Crime e Castigo pondo Sónia e Raskólnikov a sonharem com o tempo que haveria de chegar depois da libertação (“Sete anos, apenas sete anos!”), com esse tempo onde o ser humano consegue albergar intocável a felicidade – porque nunca até aí pode viajar –, que é o sempre irrealizável futuro.

 

 

(1) Homero, Odisseia (trad. de Frederico Lourenço), Lisboa, Livros Cotovia, 2003, p. 376.

(2) Dante Alighieri, A Divina Comédia (trad. de Vasco Graça Moura), Venda Nova, Bertrand, 1996, p. 563.

(3) Fiódor Dostoievski, Crime e Castigo (trad. de António Pescada), Lisboa, Relógio D'Água, 2009, p. 458.


 

© João Paulo Sousa 

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Terça-feira, 10.05.11

Duplos

Direção Brasil

 

Enrique Vila-Matas

 

Si bien ya había dado mi versión del extraño suceso de Burdeos, la de Álvaro Enrigue en El Universal, versión que en nada difiere de la mía, viene a confirmar que lo ocurrido, efectivamente, nos dejó a todos atónitos. Hace dos años, hubo un homenaje a Sergio Pitol en la Universidad de Burdeos, y hacia esa ciudad viajamos algunos de los conferenciantes.

 

Nada más llegar, consternados profesores y alumnos nos informaron de que Pitol ni estaba ni se le esperaba en las siguientes horas. Hacía ya dos días que tendría que haber llegado, pero había olvidado el pasaporte en su casa de Xalapa y en DF había tenido que dar vuelta atrás y, en fin, entre una cosa y otra, aún no había cruzado el Atlántico.

 

Álvaro Enrigue cuenta el extraño momento en el que recibimos una llamada en la recepción del hotel: era el secretario de Pitol desde Xalapa, diciendo que el avión del escritor acababa por fin de despegar del aeropuerto de Benito Juárez. Nada más colgar el teléfono, Pitol se asomó por las escaleras y nos pidió ayuda para abrir una maleta. "Nunca supimos", dice Enrigue, "si el Sergio Pitol real fue al que homenajeamos al día siguiente, o el que estaba subido a un avión".

 

Llevo horas volando hacia Brasil. Viajar solo, desoladoramente solo, conduce a la lectura, el sueño o la escritura, también a la locura. De vez en cuando, anoto historias, impresiones, como ahora, cuando ya queda poco para llegar a São Paulo. El recuerdo de aquel Pitol duplicado en Burdeos me remite a veces a La vida privada, relato de Henry James en el que alguien, con la lógica sorpresa, descubre en un hotel suizo que mientras Clare Wawdrey, escritor de éxito, hace vida social y discute brillantemente con otros artistas en el salón del hotel, su "doble" teclea como un loco en su habitación, inmerso en su novela.

 

Si quisiera construir un artículo virtuoso, hablaría ahora de la cantidad de conspiraciones - en forma de conferencias, coloquios, homenajes y presentaciones - que caen sobre algunos literatos asfixiándoles, impidiéndoles dedicarse a su verdadero trabajo, el de gabinete. Y si buscara que el artículo tuviera un matiz más perverso, denunciaría que hay escritores que, asfixiados por tantos compromisos públicos, han tenido a veces que enviar a sus dobles a los "bolos" a los que habían sido invitados.

 

Conozco a más de uno. Por eso de vez en cuando ustedes se encuentran con escritores raros que no saben responder a las preguntas más elementales: cuál es su horario habitual de trabajo, por ejemplo. Absorto en la cuestión de la duplicidad y de los mundos paralelos, miro por la ventanilla y, en lugar de luces brasileñas, me encuentro con la noche cerrada de un planeta ignorado. Después, noto el cansancio del día ya acumulado.

 

En 2666, la novela de Bolaño, encontramos a un Amalfitano que cree (o le gusta creer que cree) que cuando uno está en Barcelona aquellos que "están y son en Buenos Aires o el DF no existen". La diferencia horaria sería solo una máscara de la desaparición. De modo que "si uno viajaba de improviso a ciudades que en teoría no deberían existir o aún no poseían el tiempo apropiado para ponerse en pie y ensamblarse correctamente, se producía el fenómeno conocido como jet lag. No por el cansancio de uno, sino por el de aquellos que en aquel momento, si tú no hubieras viajado, deberían de estar dormidos". Me despido de Amalfitano y busco una trayectoria de fuga de mis propios pensamientos, quizás una vía por la que pudiera pasar como una flecha para desaparecer en el horizonte. Discurrir es como correr, decía Galileo. Quizás hemos ido demasiado deprisa. Rapidez, fulgor del momento, sorpresa en el destello último del aterrizaje. Fin de trayecto. Huiré en todas las direcciones si São Paulo está dormida.

 

Enrique Vila-Matas

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Sexta-feira, 06.05.11

Uma Viagem à Índia

 

À procura do Espírito

 

Mariana Ianelli

 

Quando Odysseus Elytis publicou seu longo poema Axíon Estí (Louvado Seja), em 1959, seu nome começou a popularizar-se na Grécia, alcançando reconhecimento internacional pouco tempo depois, com a versão musicada por Míkis Theodorákis, um espetáculo de canto e orquestra capaz do prodígio de comover multidões. Elytis acreditava ser possível um poeta moderno beber da tradição e, partindo de novas condicionantes, “conseguir erguer mais uma vez um edifício sólido”.

 

Foi assim que, de uma visão da Natureza, da História, das Leis e do Destino surgiu o longo poema de um homem sozinho em um mundo que, apesar do que foi feito dele, ainda é um mundo digno de louvor. Passado mais de meio século, surge Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares. À primeira vista, surpreende a criação de uma epopeia em pleno século 21. Sem dúvida existe aí uma obra invulgar e portentosa, porém se trata de um portento no âmbito da linguagem.

 

História, Natureza, Destino participam desse longo poema, mas já não promovem uma conversão positiva nem ascendem à dimensão de um canto congraçador, como é o caso do poema de Odysseus Elytis. Nessa epopeia de um único homem à procura do Espírito, toda a viagem se passa em uma jornada do pensamento atravessada por sensações, intuições e, sobretudo, pelo sopro desmistificador da ironia.

 

Dentro do rol das grandes aventuras literárias que pensam a própria linguagem, Uma Viagem à Índia se destaca como uma exuberante reflexão sobre questões de poética em um século versado em tecnologia, no individualismo e no aviltamento das relações humanas convertidas em transações comerciais. Com uma vasta obra que passeia pelos mais diversos gêneros, do teatro ao romance, do ensaio à poesia, Gonçalo M. Tavares é dono de uma vitalidade criadora que particulariza sua voz no campo da metaficção contemporânea, o que se faz notar pela copiosa lista de prêmios nacionais e internacionais que seus livros acumulam, o mais recente deles, Prêmio de Melhor Livro de Ficção Narrativa, da Sociedade Portuguesa de Autores, concedido a Uma Viagem à Índia. Embora circunscrito nos domínios da ficção narrativa, esse poema em dez cantos de Gonçalo se apresenta como o lugar para onde convergem e onde se adensam os temas e caracteres dos personagens literários que desde há muito lhe são caros, mas não apenas isso, senão que neste lugar de convergência dos aspectos fundamentais de sua obra o autor exercita longamente sua ética de admirar o mundo, uma disciplina da atenção que direciona seu olhar e esculpe a matéria deste e de outros poemas anteriores de sua trajetória.

 

Pelo menos três forças podem ser identificadas na arquitetura dessa epopeia. A primeira delas vem da série O Bairro, um segmento da obra de Gonçalo que reúne personagens da literatura e da filosofia ficcionalizados pelo autor. A ideia de escritores que se aproximam por habitarem o mesmo bairro intelectual, como Borges uma vez definiu seu parentesco com o escritor Ernesto Sabato, é uma ideia evidente na configuração do bairro literário de Gonçalo. Ali habitam inúmeros personagens, entre eles, Sr. Valéry, Sr. Cortázar, Sr. Borges, Sr. Calvino, Sr. Juarroz, Sr. Brecht, Sr. Eliot, Sr. Breton. Os traços definidores da personalidade de cada um deles e do modo como observam o mundo e a si mesmos parecem se valer do esboço da mesma “Quimera da mitologia intelectual” que inspirou Paul Valéry a criar seu Monsieur Teste. Também compõe tais personagens uma atmosfera lúdica e afetiva como a que envolve os cronópios e famas de Cortázar.

 

Em Uma Viagem à Índia, aquele que viaja para arejar o seu caminho e para ler nas variações da paisagem diferenças de linguagem, aquele que se move dentro da epopeia de cada dia em meio a elaborações teóricas, pressentimentos e vontades, chama-se Bloom. Esta é a criatura literária que empreende a longa odisseia interior do homem contemporâneo do Ocidente ao Oriente, transpondo, em suas deambulações mentais, fronteiras entre o desejável e a realidade. Em Bloom se concentra e explode em ação a energia que alimenta as especulações dos personagens da série O Bairro: os exercícios de atenção do Sr. Calvino, a originalidade dos raciocínios do Sr. Juarroz, os princípios de lógica do Sr. Valéry, as elucubrações do Sr. Eliot em suas conferências sobre poesia. A fonte dessa energia mental que entretém os habitantes do bairro de Gonçalo e que impele o herói de sua epopeia a se deslocar pelo mundo é uma segunda matemática, “a que se perdeu nos tempos”, como diz o Sr. Henri, a matemática “que deu origem, por caminhos e subcaminhos, à poesia”.

 

Pois é esta secreta inteligência, de uma matemática que pode já ter existido e ter sido subjugada pela força, derrotada em uma batalha arcana entre dois povos, é esta lógica sensível enquanto modo de perceber a realidade e de agir sobre ela que Gonçalo põe em prática na jornada de Bloom. “Se a álgebra é uma religião rigorosa, / a poesia será uma religião excessiva, religião entre / a embriaguez e um espaço onde / as mais belas músicas descansam/ antes de novamente conquistarem o ar.” (Canto II). Com essa embriaguez e um olhar ciente de imprevisibilidades, Bloom sai em busca de “uma alegria espiritual mas que exista”, pois aí está o propósito de sua viagem à Índia: a busca de um sistema poético de pensamento que possa converter-se não somente em lucidez mas também em júbilo, tal como o absinto para o Sr. Henri erige sua “teoria sobre o mundo”. Bloom é um especialista na “ciência das investigações privadas; a ciência em que um homem se experimenta”. Bloom sabe que “o tempo tornou-se material” e agora “exige atos e experiência”. Por isso Bloom é um homem que decide, um corpo em excitação constante, que se desloca e utiliza sua energia tanto para a guerra como para o amor.

 

A busca pelo Espírito que move esse personagem desassossegado e reflexivo a partir da velha Europa até a Índia das águas sagradas é uma problemática da poética dos novos tempos em que “as palavras exigem apoios místicos mas que estejam no chão como sapatos”; é também uma problemática para a estética de uma época em que “os homens são gênios do bem para o ouro, gênios do mal para a paisagem”; e ainda uma problemática para a língua de um país “que já nem se preocupa se fabrica ou não poetas”; todas elas questões que se colocam como tarefa para o pensamento em um século que descende do progresso tecnológico que viabilizou as grandes fábricas da morte e que portanto já não tolera sutilezas nem palavras delicadas. Uma segunda força na elaboração dessa epopeia, que compõe o cenário de peripécias vividas pelo herói, é o que reúne na Tetratologia de Gonçalo os romances Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica: o problema do mal.

 

A galeria de assassinos, prostitutas e miseráveis que nesses romances colabora para a criação de uma atmosfera verdadeiramente sombria, em Uma Viagem à Índia funciona como uma emanação dos pressentimentos de Bloom, configurações de uma realidade perversa sobre a qual o personagem medita enquanto viaja. Bloom vem, ele mesmo, de um passado violento e em sua viagem espera encontrar, além de sabedoria, esquecimento. Bloom sabe que “nem um segundo separa a educação da barbárie”, que “só não se mata por acasos do caminho” e que “não se enterra a maldade, / ela é apenas interrompida”.

 

Lenz, personagem de Aprender a rezar na era da técnica, vê uma maldade subterrânea na natureza, que está crescendo e um dia se tornará o grande inimigo do homem. Bloom sabe que “há uma guerra bem mais forte e bem mais alta, / porém os generais ainda não perceberam”, e essa guerra será contra a Natureza. O personagem Busbeck, de Jerusalém, empenha-se em construir um gráfico do horror na História, uma espécie de eletrocardiograma da maldade humana. Bloom, por sua vez, procura fazer do sofrimento um sistema e tem sua viagem mapeada em um plano cartesiano de ações, intenções e sentimentos que resultam em um itinerário da melancolia contemporânea. O personagem Klober, de A máquina de Joseph Walser, acredita que “o ódio é a grande marca do Homem”, e que em breve esta será a única razão para que dois corpos se aproximem. Para Bloom, o ódio entre os homens é uma lei da natureza e, se ainda lhe resta uma certeza, é a de que ninguém se aproximará dele para abraçá-lo. Em Um homem: Klaus Klump, o protagonista não sabe se voltará para casa com os dois braços com que saiu. Bloom, por sua vez, sabe que “estamos vivos, levantamos a cabeça: cortam-nos a cabeça”.

 

Percorrendo este mundo decomposto pela mesquinhez humana e pela crueldade, buscando espaço para o otimismo, dispondo de uma coragem tanto capaz de matar como de salvar e construir, o herói de Uma Viagem à Índia parece imbuído da determinação de esquecer não apenas o seu passado, mas “todo este atoleiro para se chegar a ser um homem e não uma máquina de incubar o ódio”, estas que são palavras de Albert Camus dedicadas ao poeta Alexandre Blok.

 

Eis aí a terceira força na epopeia de Gonçalo: a poesia propriamente dita, o amor enquanto sentimento central, a música que vem dos números, uma alegria que não tem preço no mercado das coisas consumíveis, a grande alegria que sustenta uma montanha e que se pode chamar de alma, as mensagens dos sonhos, mais próximas da verdade que da ciência, a crença no espírito: este é o país que o herói de Gonçalo procura. Energia e Ética, poema de uma coletânea do autor já publicada no Brasil em 2005, intitulada 1, serve como síntese da ação poética de Bloom em sua jornada: “qualquer pessoa dar um passo que seja / em direção ao que não aprecia, para insultar ou derrubar, / parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave / no órgão de admirar o mundo”. É assim que, pouco antes de chegar à Índia, Bloom decide admirar.

 

Depois de sobreviver à maldade dos homens e da natureza, depois de ter aprendido com o sofrimento, Bloom dirige sua energia para a admiração e a paciência. Porque apesar de o mundo ter perdido o Espírito, Bloom não perdeu o espírito: “O estômago existe, e tem fome./ (...) / Mas o espírito também existe, e tem fome”. Porque apesar de trazer consigo um inferno, Bloom também traz o indispensável para a alegria. Porque “os milagres recolheram há muito às cavalariças”, no entanto, “não é por ter entrado no século XXI que a alma perdeu a atualidade”.

 

A procura pela sabedoria de um país sagrado aqui se traduz na investigação de uma potência poética que seja realizável neste novo século, que possa salvar da bestialidade o homem contemporâneo, elevá-lo a um estado de atenção e a uma vontade de edificar, não pela força mas por uma “claridade súbita”, um discurso mágico enquanto experiência, uma experiência que exceda os domínios do literário. Sucede que, de seu longo périplo, o herói da epopeia de Gonçalo regressa desiludido. A possibilidade de iluminação permanece em estado de linguagem, simbolizada na edição rara do Mahabarata que Bloom carrega em sua mala. A derradeira estação desse itinerário da melancolia contemporânea não é sabedoria nem música, mas tédio.

 

Curiosamente, o ano de 2003, data em que se passa a narrativa da epopeia, marca também o ano de estreia de Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, uma espécie de documentário ficcional sobre uma professora de História e sua filha, que partem de Portugal até a Índia, refazendo nesse percurso o mesmo trajeto realizado por Vasco da Gama no século 15. E o que triunfa dessa visitação à memória de antigas civilizações, o que resta, ao final do filme, de toda essa aprendizagem minuciosa do olhar, que se detém com mesma surpresa sobre o mundo de ontem e o mundo de hoje, é a barbárie, a destruição, o terrorismo.

 

Fica, pois, como tarefa para depois dessa viagem histórica – uma viagem que, nessa epopeia, tal como em Os Lusíadas, invoca o auxílio das ninfas e das musas, sendo portanto uma jornada pela história da linguagem, entre outros pilares (ou ruínas) da civilização –, fica como tarefa, para além da literatura, repensar o que pode um poema quando libera sua energia e fortalece a vontade humana. Afinal, como declarava Odysseus Elytis em seu discurso na entrega do Prêmio Nobel, em 1979, “se a poesia contém uma garantia, e isto nestes tempos sombrios, é precisamente esta: que o nosso destino, apesar de tudo, está nas nossas mãos”.

 

Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho

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Sábado, 30.04.11

99 anos de vida

Ernesto Sábato

 

O escritor argentino Ernesto Sábato morreu esta madrugada na sua casa na cidade de Santos Lugares, Argentina. Um dos últimos grandes autores da língua castelhana, que conquistou o prémio Cervantes em 1984, morreu aos 99 anos depois de dias com problemas de saúde.

 

A morte foi anunciada pela sua companheira Elvira González Fraga. “Há quinze dias que teve uma bronquite”, disse citada pelo diário espanhol “El País”. O escritor nasceu em 1911, em Rojas, Buenos Aires. A 24 de Junho ia completar o centenário. O escritor estava há muito tempo recluso em casa devido à visão cada vez mais comprometida, mas iria amanhã ser homenageado na Feira do Livro, pelo Instituto Cultural da província de Buenos Aires.

 

Sábato não iniciou a sua vida profissional na literatura. Tirou o doutoramento em física, e trabalhou posteriormente no Laboratório Curie, em Paris. É aqui, durante as décadas de 1930 e 1940, a sua vida muda. Abandona o comunismo depois de ter conhecimento, em 1935, das perseguições estalinistas aos dissidentes do regime soviético. Mais tarde, conhece os surrealistas da capital francesa e, influenciado por eles, larga o trabalho da ciência para em 1945, já na Argentina e no final da segunda guerra mundial, passar a dedicar-se exclusivamente à literatura.

 

O existencialismo está patente no seu trabalho, através da exploração da crise do homem no nosso tempo. Há também nas suas obras uma reflexão sobre a própria literatura. Publica em 1948 o romance “O Túnel”, traduzido para português, que terá continuidade na trilogia, “Sobre héroes y tumbas”, de 1961, que lhe deu o reconhecimento internacional e em 1974, o terceiro volume, “Abaddón el exterminador”, que o consagrou. Em 1984 ganha o prémio Cervantes. Recebe ainda os prémios Gabriela Mistral em 1983, e Menéndez Pelayo, em 1997. Em 2007, a Sociedade de Autores e Editores de Espanha propõe-no como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, que não acontece.

 

Em 1985, presidiu à Comissão Nacional que publicou o relatório “Nunca Más” sobre a repressão dos governos militares na Argentina de 1976 a 1983. O último romance de Sábato, editado em 2004, chama-se “España en los diários de mi vejez”. Foi escrito depois das viagens que fez a Espanha em 2002, enquanto a Argentina estava presa a mais forte crise económica da sua História.

 

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Segunda-feira, 25.04.11

O terceiro homem

Las firmas son tímidas

 

Enrique Vila-Matas

 

1 Se cuenta que a la gran actriz francesa Sarah Bernhardt la detuvo una mañana un señor por la calle para preguntarle si era la ilustre Sarah Bernhardt.

 

- Sí, lo seré esta noche - dijo ella.

2  La impresión de que como escritor voy contra natura cuando aparezco en público y más cuando, a causa de la lógica perversa de la aparición misma, me veo de golpe haciendo teatro, transformado en otro, convertido en alguien distinto del que escribe y también distinto del que vive y que en mí al menos nunca se confunde con el que escribe, por mucho que algunos crean lo contrario.

 

La impresión de que en esas ocasiones aparece siempre "el tercer hombre", el actor que sabe que esas intervenciones en público nada tienen que ver con la actividad de escribir y sí en cambio con el reposo, son manifestaciones puras y duras de esa "sociedad del espectáculo" que Guy Debord diagnosticó con lucidez de primera hora. Vistas desde un ángulo nada piadoso, esos shows ligados aparentemente al mundo de los libros niegan nada menos que la actividad estricta de escribir y son capaces de convertir a un narrador o un poeta en una simple Sarah Bernhardt de noche. Eso no quita que en esos modernos espectáculos de la escritura puedan surgir de pronto ideas para aquel escritor que, a la caza de inéditos hilos narrativos, sepa utilizar el escenario como si estuviera de reposo en una playa, de vacaciones: en aparente descanso, pero anotando como un loco imágenes o ideas para cuando regrese a casa.

 

3 Dramático o no, el hecho es que para esas intervenciones en público he tenido con el tiempo que ir creándome un personaje tan distinto del que soy en mi vida corriente como del que soy cuando, en la soledad de mi gabinete, escribo. En esas apariciones me convierto en esa especie de "tercer hombre", y eso me ocurre tanto si subo a un escenario como si firmo tímidamente libros en la calle. Es una sensación rara porque, a diferencia del personaje que escribe en su casa y también a diferencia del personaje que vive su vida, ese tercer hombre es tímido de tanto teatro que hace o, al revés, hace tanto teatro porque es tímido. Cuando en el día de las firmas se acerca alguien y me pregunta si soy yo, no puedo evitarlo, quisiera decirle que lo seré más tarde. Esa respuesta es la esencia de mi pulsión tímida en cualquier Día del Libro en el que me encuentre por el mundo.

 

- He venido desde Bendinat para saludarle y para que me firme este libro.

 

Suele ocurrir que ante el bondadoso lector que se acerca con su inocencia de viajero llegado de lejos, el "tercer hombre" no pueda evitar sentirme un farsante antes ya de hablar, antes ya de preguntar con sincera cordialidad al viajero cómo se llama para así poder estampar su nombre en la dedicatoria. Ante cada nuevo lector bondadoso que se planta ante él, se pregunta enseguida el "tercer hombre" qué personaje piensa ahora representar, puede elegir entre una gran variedad de personalidades. "Mi nombre es Legión, porque somos muchos", se lee en la nada tímida Biblia.

 

4 Qué diferencia con el sentimiento de autenticidad que llega a tener uno cuando está en casa enfrentado a sus textos y no a merced de un público que, confundiéndole con el dependiente de unos grandes almacenes, pueda preguntarle el precio de la mesa en la que está firmando. Sé que a veces el escritor, tratando de huir de la gran comedia del día de las firmas, decide ser auténtico y parecerse al que escribe y dar algo de sí mismo, y opta entonces por confesarle al bondadoso lector de Bendinat que se siente "otro" siempre que se ve de repente ante seres humanos, y más en los últimos tiempos en los que lleva una vida retirada y una voluntad de alejarse del personaje literario que en otros días, sin pretenderlo, forjó fatalmente. Mire usted, acaba diciéndole al lector de Bendinat, debido a que hace años que paso hasta semanas enteras sin apenas contacto con el público, a veces sin contacto con ningún extraño a lo largo de mucho tiempo, me sucede que cuando aparezco de repente un día en un escenario como éste, me quedo flotando como en un sueño, tímido total, como un libro, o como una firma.

 

 

 

 

 

 5 Lo peor viene después de firmar, porque uno se queda con la impresión de haber decepcionado a la persona que viajó de tan lejos para verle y, además, con la mala conciencia de haberse explicado demasiado cuando lo mejor habría sido firmar y no darle tantas vueltas al asunto. Siempre después de firmar un libro, uno quiere volver a casa. O desea ir a ver a colegas para que le firmen su libro y pueda de este modo volver a ser él mismo y no el otro, el rufián, el tercer hombre, el actor, el personaje inventado, el no escritor, el tortuoso farsante, el odiador del mundo de las fiestas de los libros.

 

Libros que recomendé a los lectores que deseaban que les firmara un libro mío: Cosas que ya no existen (Cristina Fernández Cubas), Romance en París (Franz Hessel), Adéu a la universitat (Jordi Llovet) Memorias (Arthur Koestler), El día de mañana (Ignacio Martínez de Pisón), Constatación brutal del presente (Javier Avilés), La mujer de Rapallo (Sònia Hernández), El pozo y las ruinas (Jimena Néspolo) Los libros son tímidos (Giulia Alberico).

 

6 Poder volver a casa, solo eso desea al final del día de las firmas. Volver despacio mientras va pensando que en los primeros libros que escribió se liberó de sus obsesiones, pero solo con los primeros, porque después lo que fue creciendo en él fue el interés por el estilo, por la depuración de la forma y la palabra, por intentar que cada palabra lograda fuera una fiesta, todo eso que uno sabe perfectamente que solo lo puede hacer en casa, bien que imaginándose apocado bajo la lluvia, a la intemperie.

 

Enrique Vila-Matas

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Quarta-feira, 20.04.11

8h46 - Conto de José Mário Silva (Efeito Borboleta)

 

 

 

 

 

8h46

 

 

 

 

 

 

Enquanto espera pela hora da reunião, sentado numa cadeira Barcelona, Jonathan K. imagina a mão de Mies van der Rohe a desenhar com minúcia, há precisamente 74 anos, aquele prodígio de design. Tocando muito ao de leve no couro negro, pensa: "Isto sim é uma cadeira, não apenas um assento para corpos demasiado humanos."

 

A reunião, marcada para as oito e meia, vai começar mais tarde. O CEO comeu qualquer coisa esquisita ontem à noite (certamente um dos malditos hors d'oeuvre com que as galerias de Manhattan envenenam os seus clientes) e será substituído por um dos quadros superiores da empresa, infelizmente ainda a caminho, algures no trânsito caótico de Upper East Side. O encontro só começará por volta das nove horas, diz-lhe a secretária, sorridente. "OK", responde Jonathan, "eu espero". Um café? "Sim, obrigado, mas sem açúcar."

 

Na parede de tons claros, uma imitação tosca de Salvador Dali. Elefantes de patas gigantescas caminhando por entre os arranha-céus, uma mulher nua feita de gavetas, o silêncio espectral do deserto insinuando-se atrás da cidade de vidro. O quadro é horrível. Jonathan K. sente uma veia a pulsar no pescoço. "O que raio estou eu a fazer aqui?" Atrás de uma porta transparente, a secretária fala ao telefone e faz-lhe um sinal. Não se esqueceu do café. Continua a sorrir muito.

 

Jonathan revê mentalmente a sua vida nos últimos quatro meses. A queda na piscina do hotel de Miami. O som da cabeça a bater numa aresta de cimento. O túnel de luz (igualzinho ao do quadro de Hieronymus Bosch). A sala dos cuidados intensivos, vista do tecto, fora do corpo. As duas semanas em coma. O acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo. A demorada reaprendizagem dos gestos. A epifania daquela manhã de sábado em que decidiu, com a convicção dos profetas, emendar os muitos erros da sua existência.

 

A outra vida, a vida anterior, está envolta numa espécie de nevoeiro. Já quase não se lembra dos anos passados em África. O negócio das armas, o tráfico de influências, os muitos mortos que as suas decisões, os seus lucros, engendraram. A fortuna manchada de sangue vai sendo repartida por fundações, ONG's, empresas solidárias, causas filantrópicas. Foi também por isso que veio esta manhã até ao 53.º andar da Torre Norte do World Trade Center. "Serei algum dia capaz de salvar a minha alma?", pergunta-se.

 

A secretária sorridente traz-lhe o café. Jonathan K. bebe-o junto à janela. No Patek Philippe, os ponteiros marcam 8h46. Pelo seu rosto passa, súbita e absurda, a sombra de um avião.


 

© José Mário Silva - Efeito Borboleta e outras histórias, edições ardotempo, 2010

ISBN nº 978-85-62984-04-4

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Sábado, 09.04.11

Anonimato como estratégia para a fama

 

Sobre um escritor que fugiu mesmo da fama

 

José Mário Silva

 

Eis o texto que li na primeira mesa do FLM (Os escritores que fogem da fama), sem uma breve introdução que isolarei daqui a nada num outro post: Ainda em Lisboa, anotei no meu moleskine meia dúzia de ideias gerais sobre o tema desta mesa e pensava improvisar à volta delas até perfazer os 15 minutos da praxe e passar a palavra a outra pessoa da mesa. Acontece que ontem à tarde, depois da abertura solene do festival, fui abordado por uma jornalista de rádio que me pediu para explicar, em dois minutos, o que tinha para vos dizer aqui agora. Eu caí no erro de lhe fazer a vontade. E depois percebi que aquelas generalidades são isso mesmo, generalidades, factos ao alcance de quem tenha uma ligação wireless e a Wikipedia nos favoritos do browser.

 

À noite, quando voltei ao quarto, depois de uma poncha de maracujá bebida à porta de um bar no centro do Funchal, enquanto um professor de Filosofia me alertava para a importância de ouvir o «toque de caixa» das coisas essenciais da vida; depois de regressar ao quarto, debruçado na varanda a olhar de cima para a rosa dos ventos junto às águas e para o vulto escuro daquele rochedo que parece ter sido plantado ali, no meio do mar, para nosso deleite contemplativo, decidi ignorar as notas do moleskine e sentar-me ao computador a escrever este texto. E sobre o que haveria eu de vos falar, para fugir às generalidades wikipédicas? Pois bem, não sobre os escritores que fogem da fama, em abstracto, mas sobre um escritor em particular, talvez o único escritor que verdadeiramente fugiu da fama. Ele é madeirense, tem 80 anos e… não, não se chama Herberto Helder.

 

Chama-se Aurelino Sousa Gomes. E se nunca ouviram falar dele é porque, ao contrário de outros escritores que supostamente fogem da fama (como Herberto Helder), ele levou essa fuga mesmo a sério. Tão a sério que não correu riscos e preferiu não publicar nada de nada. Há quem não publique porque não consegue. Aurelino Sousa Gomes não publicou porque não quis.

 

Fonte segura garante-me que Enrique Vila-Matas tencionava falar dele na primeira versão de Bartleby & Companhia, esse hino aos escritores do Não, aos escritores que se recusam a escrever, mas Aurelino, ao saber das intenções de Vila-Matas, terá viajado no seu FIAT 600 de cor creme até Barcelona, onde, à porta de uma estação de Correios, ameaçou de porrada o escritor catalão. Embora Aurelino fosse um homem já com quase 70 anos, enxuto e vigoroso mas frágil de ossos e sujeito a ser derrubado com um simples empurrão, a ameaça parece ter resultado, porque no livro de Vila-Matas não há uma só referência a Sousa Gomes, embora não faltem histórias sobre outros membros da confraria bartlebiana, como Juan Rulfo, Robert Walser, Daniele Del Giudice, Joseph Joubert, J. D. Salinger ou Julien Gracq – tudo nomes, diga-se, que eu trouxera de Lisboa anotados no moleskine.

 

O que torna singular a figura de Aurelino Sousa Gomes não é a sua recusa em publicar, ou sequer a sua recusa em escrever uma única frase (há outros casos de escritores que nunca escreveram uma única frase). O que o torna singular é o facto de as frases que nunca escreveu, os textos que nunca publicou, os livros que nunca editou, serem todos sobre um único assunto: precisamente o da relação dos escritores com a fama e as estratégias para lidar com ela. Ou seja, o tema desta sessão. Devo explicar que conheço Aurelino Sousa Gomes desde sempre.

 

Ele foi um grande amigo do meu avô paterno, o meu avô Mário, que tinha uma fábrica de cortiça e apreciava viajar pela Europa, com amigos, atrás do Benfica de Eusébio e Coluna, apesar de ser do Belenenses e no fundo não gostar por aí além de futebol. Ele gostava era da viagem, do estar com aqueles amigos estrada fora, das noites de comezaina e das idas aos casinos que surgiam entre Lisboa e as cidades onde o SLB disputava finais europeias. O meu avô terá conhecido Sousa Gomes numa dessas viagens e o que os aproximou, suspeito, foi o absoluto desinteresse do meu avô pela literatura. Seja como for, recordo-me de ver Aurelino no escritório da fábrica de cortiça, evocando uma qualquer aventura rodoviária ou gastronómica nos arredores de Zurique. O meu avô era uns dez anos mais velho e, para picar Aurelino, chamava-lhe “O Escritor. Ele ficava todo indignado, enrubescia de raiva fingida, e depois íamos todos comer doses industriais de cozido à portuguesa, a que o meu avô sempre pedia para acrescentar, num pratinho, uma dose extra de chouriço preto.

 

Muitos anos mais tarde, quando eu já estava mergulhado em literatura e começava rabiscar os meus primeiros versos, fui com o meu avô ao hospital visitar Aurelino. Ele estava todo partido porque caíra numa ribanceira ou por umas escadas abaixo, já não sei bem, e o meu avô, que não tinha paciência nem conversa para estar tardes inteiras ao pé de um homem engessado, pediu-me que fosse duas vezes por semana falar com Aurelino. O meu avô oferecera-me há pouco tempo o meu primeiro carro, um 2CV branco que ainda hoje lembro com saudade, pelo que não fui capaz de lhe dizer que não. Durante dois meses, fui a principal visita de Aurelino e ouvi atentamente as suas ideias.

 

Segundo Sousa Gomes, os escritores que fogem da fama só o fazem por uma razão: para se tornarem famosos. A forma como se ocultam, como desaparecem de circulação, como escapam do escrutínio público, mais não é do que uma estratégia inteligentíssima para criar uma curiosidade que eles sabem que perdurará. São lendas? Claro, mas lendas criadas por eles mesmos. São mitos? Sim, mas mitos criados por eles próprios. Por natureza, a fama é efémera, cíclica, fugaz. Quem se dá a conhecer, dá-se a esquecer. A única fama que resiste é a fama que se recusa, a fama que se desdenha. Quando Greta Garbo disse "I want to be alone", no fundo sabia que nunca mais deixaria de estar acompanhada. Em suma, não há escritor que procure mais a fama do que o escritor que foge dela.

 

Era este o conceito central do livro que Sousa Gomes nunca escreveu, mas do qual me falou longamente durante aquela complicada convalescença. Passaram-se os anos e nunca mais ouvi falar de Sousa Gomes. Ontem à noite, na varanda, enquanto olhava para o vulto negro do rochedo que parece ter sido plantado ali, no meio do mar, para nosso deleite contemplativo, pensei que quem devia estar aqui a falar-vos disto tudo não era eu, era Sousa Gomes, o único escritor que fugiu mesmo da fama, sem segundas intenções. O único que fugiu tanto da fama que ninguém sabe quem é, ninguém sabe sequer se existe ou existiu. Infelizmente, não sei onde está Sousa Gomes, nem sei se ainda é vivo. A última vez que estive com ele, talvez em 2004, foi à saída do hospital, ele ainda meio trôpego e dobrado sobre si mesmo, impecavelmente bem vestido, o rosto vincado pela melancolia como o de um general romano depois de assistir à derrota das suas legiões.

 

Há pouco, no meio do público, julguei ver esse rosto tão nobre. Mas deve ter sido ilusão. Se não foi ilusão, por favor, não me deixem sozinho no fim desta mesa redonda, porque nesse caso tenho a certeza que Sousa Gomes deve estar lá fora, à minha espera, pronto a dar-me os socos e pontapés a que poupou, há cerca de dez anos, em Barcelona, um assustado Enrique Vila-Matas.

 

 

José Mário Silva - Publicado no blog Bibliotecário de Babel

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publicado por ardotempo às 13:46 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 05.04.11

O horror, todos os dias

 

 

 

É preciso matar em nós esta visão sincrética da existência humana.

É preciso matar Bach.

É preciso compor segundo o horror.

A música tem de aproximar-se da pintura e da poesia.

Tem que ser mais bárbara.

 

(Natureza morta - Paulo José Miranda, Edições Cotovia - Lisboa Portugal, 1998)

publicado por ardotempo às 14:45 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Terça-feira, 15.03.11

A sombra e o sol

Retrato do escritor Aldyr Garcia Schlee

 

 


 

Gilberto Perin - Retrato de Aldyr Garcia Schlee - Fotografia (Jaguarão RS Brasil), 2011

 

Aldyr Garcia Schlee é autor de notáveis livros: Os limites do impossível / Contos Gardelianos; Don Frutos; Uma terra só; Contos de verdades; O dia em que o Papa foi a Melo; Contos de futebol; Linha Divisória; e muitos outros.

publicado por ardotempo às 11:56 | Comentar | Adicionar
Domingo, 13.03.11

"Escrever não é difícil, difícil é não escrever"

O conselho de Tolstói

 

Ricardo Piglia 

 

Lunes

 

Últimamente han aparecido lo que podríamos llamar las utopías defensivas. ¿Cómo podríamos escapar del control?

 

Había dejado de tomar alcohol y tenía pequeñas perturbaciones que me producían efectos extraños. No lograba dormir y en las noches de insomnio salía a caminar por las calles vacías. El pueblo parecía deshabitado y yo me internaba en los barrios oscuros, como un espectro. Veía las casas en la claridad de la noche, los jardines iguales; oía el rumor del viento entre los árboles.

 

Martes

 

Salgo de esos estados medio encandilado como quien ha pasado demasiado tiempo mirando la luz de una lámpara. Me despierto con una rara sensación de lucidez, recuerdo vividamente algunos detalles aislados - una cadena rota en la vereda, un pájaro congelado en la nieve, la frase de un libro -.

 

Es lo contrario de la amnesia: las imágenes están fijas con la claridad de una fotografía. Sólo mi médico en Buenos Aires sabe lo que está pasando y, de hecho, en diciembre, me prohibió viajar. Imposible, voy a dar clase. Si me seguían los síntomas tenía que hacerme ver. Es un gran clínico y un hombre afable; siempre está sereno. Según él, yo padecía una rara dolencia llamada Cristalización arborecente. El cansancio acumulado y un leve disturbio neurológico me producían pequeñas alucinaciones.

 

Jueves

 

Hay un mendigo que pasa la noche en el estacionamiento del restaurant Blue Point, al fondo de Nassau Street. Tiene un cartel en el pecho que dice: "Soy de Orión" y viste un piloto blanco abotonado hasta el cuello. De lejos parece un enfermero o un científico en su laboratorio. Ayer, cuando volvía de una de mis caminatas nocturnas, me detuve a conversar con él. Ha escrito que es de Orión por si aparece alguien que también es de Orión. Necesita compañía, pero no cualquier compañía. "Sólo personas de Orión, Monsieur", me dice. Cree que soy francés y no lo he desmentido para no cambiar el curso de la conversación. Al rato se queda en silencio y después se recuesta en el alero y se duerme. Tiene un carrito de supermercado en el que lleva todas sus pertenencias.

 

Viernes

 

Cuando me siento encerrado voy a Nueva York y paso un par de días en medio de la multitud de la ciudad, sin llamar a nadie, sin hacerme ver, visitando lugares anónimos y evitando los bares. Paro en Leo House, una residencia católica, atendida por monjas. Fue creada como hospedaje para los familiares que visitaban a los enfermos de un hospital cercano pero ahora es un pequeño hotel abierto al público (aunque tienen prioridad los sacerdotes y los seminaristas).

 

En Chelsea, encontré un videoclub Films Noir especializado en películas policiales. El dueño es bastante simpático; lo llaman Dutch porque es hijo de holandeses. Tiene algunas joyas inhallables, por ejemplo Detour de Edgar Ulmer, una película extraordinaria, superserie B, filmada en una semana, casi sin plata; largos primeros planos de un viaje en auto, conversaciones en off, luces en la noche. Cuenta la historia de un hombre desesperado que hace autostop y se pierde en los desvíos del camino. Parece una versión psicótica de On the road de Kerouac. Todo lo que encuentra por azar en la ruta es destructivo y mortal. En realidad estoy buscando Sección: Desaparecidos del director francés Pierre Chenal, basada en la novela de David Goodis, y filmada en Buenos Aires en los años cuarenta. Un film mítico que nadie ha visto. El Holandés me aseguró que puede localizarlo pero tengo que darle tiempo, cree que hay una copia en uno de los sitios piratas del Perú, Polvos azules, donde se encuentran las réplicas de todas las películas que se han filmado en el mundo.

 

Lunes

 

Ayer cuando llegué de vuelta a casa era cerca de la medianoche. Encontré correspondencia atrasada en el buzón, pero nada importante, facturas sin pagar, folletos de publicidad. Miré un rato televisión, los Lakers vencían a los Celtics, Obama sonreía con su aire artificial y campechano, un auto se hundía en el mar en un aviso de Toyota, en un canal estaban proyectando Possessed de Curtis Bernhardt, una de mis películas favoritas. Joan Crawford aparece en medio de la noche en un barrio de Los Ángeles y deambula por las calles extrañamente iluminadas. Creo que me adormecí porque me despertó el teléfono y alguien que conocía mi nombre y me llamaba Profesor con demasiada insistencia, se ofreció a venderme cocaína. Al sonar el teléfono creí que era un amigo que me llamaba desde Buenos Aires y bajé el sonido del televisor. Cuando el dealer se dio a conocer, pensé que todo era tan insólito que seguro era cierto. Me negué y corté la comunicación. Podía ser un chistoso, un imbécil o un agente de la DEA que estaba controlando la vida privada de los académicos de las Ivy League. ¿Cómo conocía mi apellido?

 

En la pantalla las figuras silenciosas de Geraldine Brooks y de Van Heflin se abrazaban bajo la claridad pálida. Del otro lado de la ventana, vi la casa iluminada de mi vecino y, en la sala de abajo, una mujer con jogging que hacía ejercicios de Tai Chi, lentos y armoniosos, como si flotara en el aire.

 

Miércoles

 

Últimamente han aparecido lo que podríamos llamar las utopías defensivas. ¿Cómo podemos escapar del control? Una estrategia de huida imposible porque no hay lugar de llegada. Hace unos meses hicimos una antología en Buenos Aires y le pedimos a veinte narradores de distintas generaciones que escribieran un relato situado en el futuro. Los textos, más que apocalípticos, eran ficciones defensivas, definidas por la soledad y la fuga. Son utopías que tienden a la invisibilidad, intentan producir un sujeto fuera de control.

 

Sábado

 

Las mujeres que salen a fumar a los portales de los edificios de Nueva York tienen un aspecto furtivo, me dice ella, son inquietantes. Se ven pocos hombres, cada vez menos, fumando en la calle. Las mujeres salen de sus empleos y encienden un cigarrillo bajo el aire helado, determinadas por la urgencia y la gracia seductora de la adicción. Un vicio débil, si se puede llamar así. Los yonquis todavía se esconden. Siento haber dejado de fumar, al verlas, me dice. Luego, como si continuara lo que ha dicho antes, dice: En esta época, por primera vez en la historia, hay más escritores que lectores de literatura.

 

Jueves

 

Después de tantos años de escribir en estos cuadernos he empezado a preguntarme en qué tiempo de verbo hay que situar los acontecimientos. Un Diario registra los hechos mientras suceden, no los recuerda, ni los organiza narrativamente. Tiende al lenguaje privado, al ideolecto. Por eso cuando uno lee un Diario, encuentra bloques de existencia, siempre en presente, y sólo la lectura permite reconstruir la historia que se despliega invisible a lo largo de los años. Los Diarios aspiran al relato y en ese sentido están escritos para ser leídos (aunque nadie los lea).

 

Martes

 

Trabajo en el prólogo a una edición de los últimos relatos de Tolstói. Los escribía en secreto, escondido de sí mismo, y son, desde luego, excelentes, mucho mejores que los cuentos de Chéjov. Luego de la conversión que lo ha llevado a abandonar la literatura, Tolstói decide dedicar su vida a los campesinos, convertirse en otro, ser más puro y más sencillo. Renuncia a sus propiedades, quiere vivir del trabajo manual. Resuelve aprender a hacer zapatos, porque un par de botas bien hechas son, según dice, más útiles que Anna Karenina. El zapatero del pueblo le enseña - con temor ante las incomprensibles excentricidades del conde - su viejo oficio. Tolstói anotó en su diario. Escribir no es difícil, lo difícil es no escribir. Esa frase tendría que ser la consigna de la literatura contemporánea.

 

Ricardo Piglia 

publicado por ardotempo às 23:18 | Comentar | Adicionar

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