Quarta-feira, 15.06.11

CAMISA BRASILEIRA - 4 de julho - Porto Alegre - Livraria Cultura

 

Convite para o Lançamento do livro CAMISA BRASILEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 02:13 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 08.06.11

CAMISA BRASILEIRA - 1º de julho - São Paulo - Lançamento de livro

 

Museu do Futebol - São Paulo - 1º de Julho - 19h

 

 

 

 

 

Lançamento do Livro de fotografias sobre os bastidores do futebol, de Gilberto Perin - Textos de Aldyr Garcia Schlee e João Gilberto Noll

No evento de lançamento, um encontro e uma conversa entre Gilberto Perin e Aldyr Garcia Schlee, no Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo - 1º de julho de 2011 (sexta-feira) - 19 horas / edições ardotempo

 

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 23:57 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 07.06.11

Sobre o escritor Aldyr Garcia Schlee

O escritor no pampa

 

Don Aldyr Garcia Schlee  é um dos escritores e romancistas mais importantes do Brasil na atualidade. Vive de sua literatura. Isolado, fronteiriço, mora num sítio no meio do pampa, quase na divisa com o Uruguai. Escreve metodicamente todos os dias, habita no interior de uma magnífica biblioteca e dali faz suas incursões e pesquisas pelas cidades e regiões do pampa – escuta seus habitantes, ouve as lendas, as verdades e as mentiras, observa as planuras no relógio das estações e no vôo pontual das aves migratórias. Inventou, delimitou e transita em seu próprio mundo literário. Escreve em português e no castelhano modulado da voz da fronteira. É o autor que nos traz as riquissimas histórias de suas personagens imbricadas numa linguagem ousada, contemporânea e transversal de um mundo paralelo à mimetização da linguagem das grandes metrópoles.

 

Autor de mais de 30 livros entre os quais Uma Terra Só, Linha Divisória, Contos de Verdades, Contos de Futebol, O dia em que o Papa foi a Melo, Camisa Brasileira, Os limites do Impossível – Contos Gardelianos e Don Frutos. É o tradutor premiado de Facundo – Civilização e Barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento (Prêmio Açorianos de Tradução, 1997); e o prestigiado autor da última edição crítica de Contos Gauchesco e Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto – publicada em 2006, com registro de variantes e estabelecimento do texto, além de estudo paratextual, análise textual, notas, glossário e cronologia. Tradutor de Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes em nova edição comentada e com elucidário de sua autoria, em publicação por edições ardotempo.

 

Foi o ganhador de duas Bienais Brasileiras Nestlé de Literatura (1992 e 1994), vencedor de quatro prêmios Açorianos (1997, 1998, 2001 e 2010) e consagrado com o Prêmio Fato Literário de 2010, no Rio Grande do Sul. Os limites do Impossível – Contos gardelianos foi considerado o Livro do Ano 2009 pelo jornal Zero Hora. Prêmio Açorianos de Literatura em 2010. Prêmio Fato Literário 2010 RBS

 

Don Frutos – O romance foi considerado o Livro do Ano 2010 pelo jornal Zero Hora.

 

É finalista do Prêmio Portugal Telecom 2011, com o romance Don Frutos.

 

O livro CAMISA BRASILEIRA será lançado no dia 1º de julho no Museu do Futebol – São Paulo.

 

Aldyr Garcia Schlee é o criador do uniforme canarinho da Seleção Brasileira de Futebol, escolhido em concurso nacional em 1953.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aldyr Garcia Schlee - Retrato por Gilberto Perin (Jaguarão RS Brasil), 2011

publicado por ardotempo às 18:20 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 19.05.11

A rua do escritor

 

O nome da rua: Uma terra só

 

 

 

 

Uma magnifica homenagem ao livro premiado e à obra do escritor Aldyr Garcia Schlee.

 

A mensagem:

 

Caro Jornalista Luiz Carlos Vaz,

 

É com grande satisfação que informo que ocorreu nesta segunda-feira (16.05.2011), na Câmara dos Vereadores de Jaguarão, a aprovação do projeto que intitula a rua ao lado do Mercado Público de Jaguarão - Uma terra sóMerecida homenagem ao escritor Aldyr Garcia Schlee e sua obra.

 

Andréa Lima

Secretaria de Cultura e Turismo de Jaguarão

 

Enviado pelo Jornalista Vaz, de Luiz Carlos Vaz

 

 

publicado por ardotempo às 00:48 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 18.05.11

Enrique Vila-Matas em São Paulo

HOJE - 18.05 -  Instituto Cervantes

 

Palestra de Enrique Vila-Matas, lançamento do livro “Dublinesca” e sessão de autógrafos

 

18 de maio de 2011 19:30 até 22:00

 

O Instituto Cervantes de São Paulo e a Editoria Cosac Naify, apresentam:

Conhecendo Vila-Matas. Lançamento Dublinesca

Apresentação do livro Dubilnesca

e sessão de autógrafos deste autor espanhol nascido em Barcelona.

 


 

 

Mais informações em www.enriquevilamatas.com

publicado por ardotempo às 15:42 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 06.05.11

Uma Viagem à Índia

 

À procura do Espírito

 

Mariana Ianelli

 

Quando Odysseus Elytis publicou seu longo poema Axíon Estí (Louvado Seja), em 1959, seu nome começou a popularizar-se na Grécia, alcançando reconhecimento internacional pouco tempo depois, com a versão musicada por Míkis Theodorákis, um espetáculo de canto e orquestra capaz do prodígio de comover multidões. Elytis acreditava ser possível um poeta moderno beber da tradição e, partindo de novas condicionantes, “conseguir erguer mais uma vez um edifício sólido”.

 

Foi assim que, de uma visão da Natureza, da História, das Leis e do Destino surgiu o longo poema de um homem sozinho em um mundo que, apesar do que foi feito dele, ainda é um mundo digno de louvor. Passado mais de meio século, surge Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares. À primeira vista, surpreende a criação de uma epopeia em pleno século 21. Sem dúvida existe aí uma obra invulgar e portentosa, porém se trata de um portento no âmbito da linguagem.

 

História, Natureza, Destino participam desse longo poema, mas já não promovem uma conversão positiva nem ascendem à dimensão de um canto congraçador, como é o caso do poema de Odysseus Elytis. Nessa epopeia de um único homem à procura do Espírito, toda a viagem se passa em uma jornada do pensamento atravessada por sensações, intuições e, sobretudo, pelo sopro desmistificador da ironia.

 

Dentro do rol das grandes aventuras literárias que pensam a própria linguagem, Uma Viagem à Índia se destaca como uma exuberante reflexão sobre questões de poética em um século versado em tecnologia, no individualismo e no aviltamento das relações humanas convertidas em transações comerciais. Com uma vasta obra que passeia pelos mais diversos gêneros, do teatro ao romance, do ensaio à poesia, Gonçalo M. Tavares é dono de uma vitalidade criadora que particulariza sua voz no campo da metaficção contemporânea, o que se faz notar pela copiosa lista de prêmios nacionais e internacionais que seus livros acumulam, o mais recente deles, Prêmio de Melhor Livro de Ficção Narrativa, da Sociedade Portuguesa de Autores, concedido a Uma Viagem à Índia. Embora circunscrito nos domínios da ficção narrativa, esse poema em dez cantos de Gonçalo se apresenta como o lugar para onde convergem e onde se adensam os temas e caracteres dos personagens literários que desde há muito lhe são caros, mas não apenas isso, senão que neste lugar de convergência dos aspectos fundamentais de sua obra o autor exercita longamente sua ética de admirar o mundo, uma disciplina da atenção que direciona seu olhar e esculpe a matéria deste e de outros poemas anteriores de sua trajetória.

 

Pelo menos três forças podem ser identificadas na arquitetura dessa epopeia. A primeira delas vem da série O Bairro, um segmento da obra de Gonçalo que reúne personagens da literatura e da filosofia ficcionalizados pelo autor. A ideia de escritores que se aproximam por habitarem o mesmo bairro intelectual, como Borges uma vez definiu seu parentesco com o escritor Ernesto Sabato, é uma ideia evidente na configuração do bairro literário de Gonçalo. Ali habitam inúmeros personagens, entre eles, Sr. Valéry, Sr. Cortázar, Sr. Borges, Sr. Calvino, Sr. Juarroz, Sr. Brecht, Sr. Eliot, Sr. Breton. Os traços definidores da personalidade de cada um deles e do modo como observam o mundo e a si mesmos parecem se valer do esboço da mesma “Quimera da mitologia intelectual” que inspirou Paul Valéry a criar seu Monsieur Teste. Também compõe tais personagens uma atmosfera lúdica e afetiva como a que envolve os cronópios e famas de Cortázar.

 

Em Uma Viagem à Índia, aquele que viaja para arejar o seu caminho e para ler nas variações da paisagem diferenças de linguagem, aquele que se move dentro da epopeia de cada dia em meio a elaborações teóricas, pressentimentos e vontades, chama-se Bloom. Esta é a criatura literária que empreende a longa odisseia interior do homem contemporâneo do Ocidente ao Oriente, transpondo, em suas deambulações mentais, fronteiras entre o desejável e a realidade. Em Bloom se concentra e explode em ação a energia que alimenta as especulações dos personagens da série O Bairro: os exercícios de atenção do Sr. Calvino, a originalidade dos raciocínios do Sr. Juarroz, os princípios de lógica do Sr. Valéry, as elucubrações do Sr. Eliot em suas conferências sobre poesia. A fonte dessa energia mental que entretém os habitantes do bairro de Gonçalo e que impele o herói de sua epopeia a se deslocar pelo mundo é uma segunda matemática, “a que se perdeu nos tempos”, como diz o Sr. Henri, a matemática “que deu origem, por caminhos e subcaminhos, à poesia”.

 

Pois é esta secreta inteligência, de uma matemática que pode já ter existido e ter sido subjugada pela força, derrotada em uma batalha arcana entre dois povos, é esta lógica sensível enquanto modo de perceber a realidade e de agir sobre ela que Gonçalo põe em prática na jornada de Bloom. “Se a álgebra é uma religião rigorosa, / a poesia será uma religião excessiva, religião entre / a embriaguez e um espaço onde / as mais belas músicas descansam/ antes de novamente conquistarem o ar.” (Canto II). Com essa embriaguez e um olhar ciente de imprevisibilidades, Bloom sai em busca de “uma alegria espiritual mas que exista”, pois aí está o propósito de sua viagem à Índia: a busca de um sistema poético de pensamento que possa converter-se não somente em lucidez mas também em júbilo, tal como o absinto para o Sr. Henri erige sua “teoria sobre o mundo”. Bloom é um especialista na “ciência das investigações privadas; a ciência em que um homem se experimenta”. Bloom sabe que “o tempo tornou-se material” e agora “exige atos e experiência”. Por isso Bloom é um homem que decide, um corpo em excitação constante, que se desloca e utiliza sua energia tanto para a guerra como para o amor.

 

A busca pelo Espírito que move esse personagem desassossegado e reflexivo a partir da velha Europa até a Índia das águas sagradas é uma problemática da poética dos novos tempos em que “as palavras exigem apoios místicos mas que estejam no chão como sapatos”; é também uma problemática para a estética de uma época em que “os homens são gênios do bem para o ouro, gênios do mal para a paisagem”; e ainda uma problemática para a língua de um país “que já nem se preocupa se fabrica ou não poetas”; todas elas questões que se colocam como tarefa para o pensamento em um século que descende do progresso tecnológico que viabilizou as grandes fábricas da morte e que portanto já não tolera sutilezas nem palavras delicadas. Uma segunda força na elaboração dessa epopeia, que compõe o cenário de peripécias vividas pelo herói, é o que reúne na Tetratologia de Gonçalo os romances Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica: o problema do mal.

 

A galeria de assassinos, prostitutas e miseráveis que nesses romances colabora para a criação de uma atmosfera verdadeiramente sombria, em Uma Viagem à Índia funciona como uma emanação dos pressentimentos de Bloom, configurações de uma realidade perversa sobre a qual o personagem medita enquanto viaja. Bloom vem, ele mesmo, de um passado violento e em sua viagem espera encontrar, além de sabedoria, esquecimento. Bloom sabe que “nem um segundo separa a educação da barbárie”, que “só não se mata por acasos do caminho” e que “não se enterra a maldade, / ela é apenas interrompida”.

 

Lenz, personagem de Aprender a rezar na era da técnica, vê uma maldade subterrânea na natureza, que está crescendo e um dia se tornará o grande inimigo do homem. Bloom sabe que “há uma guerra bem mais forte e bem mais alta, / porém os generais ainda não perceberam”, e essa guerra será contra a Natureza. O personagem Busbeck, de Jerusalém, empenha-se em construir um gráfico do horror na História, uma espécie de eletrocardiograma da maldade humana. Bloom, por sua vez, procura fazer do sofrimento um sistema e tem sua viagem mapeada em um plano cartesiano de ações, intenções e sentimentos que resultam em um itinerário da melancolia contemporânea. O personagem Klober, de A máquina de Joseph Walser, acredita que “o ódio é a grande marca do Homem”, e que em breve esta será a única razão para que dois corpos se aproximem. Para Bloom, o ódio entre os homens é uma lei da natureza e, se ainda lhe resta uma certeza, é a de que ninguém se aproximará dele para abraçá-lo. Em Um homem: Klaus Klump, o protagonista não sabe se voltará para casa com os dois braços com que saiu. Bloom, por sua vez, sabe que “estamos vivos, levantamos a cabeça: cortam-nos a cabeça”.

 

Percorrendo este mundo decomposto pela mesquinhez humana e pela crueldade, buscando espaço para o otimismo, dispondo de uma coragem tanto capaz de matar como de salvar e construir, o herói de Uma Viagem à Índia parece imbuído da determinação de esquecer não apenas o seu passado, mas “todo este atoleiro para se chegar a ser um homem e não uma máquina de incubar o ódio”, estas que são palavras de Albert Camus dedicadas ao poeta Alexandre Blok.

 

Eis aí a terceira força na epopeia de Gonçalo: a poesia propriamente dita, o amor enquanto sentimento central, a música que vem dos números, uma alegria que não tem preço no mercado das coisas consumíveis, a grande alegria que sustenta uma montanha e que se pode chamar de alma, as mensagens dos sonhos, mais próximas da verdade que da ciência, a crença no espírito: este é o país que o herói de Gonçalo procura. Energia e Ética, poema de uma coletânea do autor já publicada no Brasil em 2005, intitulada 1, serve como síntese da ação poética de Bloom em sua jornada: “qualquer pessoa dar um passo que seja / em direção ao que não aprecia, para insultar ou derrubar, / parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave / no órgão de admirar o mundo”. É assim que, pouco antes de chegar à Índia, Bloom decide admirar.

 

Depois de sobreviver à maldade dos homens e da natureza, depois de ter aprendido com o sofrimento, Bloom dirige sua energia para a admiração e a paciência. Porque apesar de o mundo ter perdido o Espírito, Bloom não perdeu o espírito: “O estômago existe, e tem fome./ (...) / Mas o espírito também existe, e tem fome”. Porque apesar de trazer consigo um inferno, Bloom também traz o indispensável para a alegria. Porque “os milagres recolheram há muito às cavalariças”, no entanto, “não é por ter entrado no século XXI que a alma perdeu a atualidade”.

 

A procura pela sabedoria de um país sagrado aqui se traduz na investigação de uma potência poética que seja realizável neste novo século, que possa salvar da bestialidade o homem contemporâneo, elevá-lo a um estado de atenção e a uma vontade de edificar, não pela força mas por uma “claridade súbita”, um discurso mágico enquanto experiência, uma experiência que exceda os domínios do literário. Sucede que, de seu longo périplo, o herói da epopeia de Gonçalo regressa desiludido. A possibilidade de iluminação permanece em estado de linguagem, simbolizada na edição rara do Mahabarata que Bloom carrega em sua mala. A derradeira estação desse itinerário da melancolia contemporânea não é sabedoria nem música, mas tédio.

 

Curiosamente, o ano de 2003, data em que se passa a narrativa da epopeia, marca também o ano de estreia de Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, uma espécie de documentário ficcional sobre uma professora de História e sua filha, que partem de Portugal até a Índia, refazendo nesse percurso o mesmo trajeto realizado por Vasco da Gama no século 15. E o que triunfa dessa visitação à memória de antigas civilizações, o que resta, ao final do filme, de toda essa aprendizagem minuciosa do olhar, que se detém com mesma surpresa sobre o mundo de ontem e o mundo de hoje, é a barbárie, a destruição, o terrorismo.

 

Fica, pois, como tarefa para depois dessa viagem histórica – uma viagem que, nessa epopeia, tal como em Os Lusíadas, invoca o auxílio das ninfas e das musas, sendo portanto uma jornada pela história da linguagem, entre outros pilares (ou ruínas) da civilização –, fica como tarefa, para além da literatura, repensar o que pode um poema quando libera sua energia e fortalece a vontade humana. Afinal, como declarava Odysseus Elytis em seu discurso na entrega do Prêmio Nobel, em 1979, “se a poesia contém uma garantia, e isto nestes tempos sombrios, é precisamente esta: que o nosso destino, apesar de tudo, está nas nossas mãos”.

 

Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho

publicado por ardotempo às 06:50 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sábado, 30.04.11

Uma ideia incomum, um livro luxuoso

 

Imagens desveladas, embebidas de vida

 

 

 

 

 

 O fotógrafo Gilberto Perin, numa de suas jornadas solitárias, com sua máquina fotográfica peregrina, cruzando as estradas do Brasil teve uma ideia extraordinária. Ele pesquisou e localizou uma foto antiga, do início dos anos sessenta e constatou um fenômeno de presente impossibilidade.

 

A imagem, em preto e branco envelhecido, mostra dois jogadores de futebol célebres no passado, dentro de um vestiário, nus e ensaboados, com um sorriso levemente divertido, sendo abraçados por um torcedor em estado de êxtase, de risada aberta em euforia, com óculos de grandes lentes, vestido em terno e gravata, sob a água corrente de um chuveiro a encharcar os três protagonistas. Na fotografia sente-se a presença da quarta personagem, invisível, o fotógrafo que captou aquela imagem. No pensamento de Perin, hoje essa fotografia já não pode ser obtida, pela ausência de dois de seus atores naquele cenário: o torcedor infiltrado no vestiário e o fotógrafo, cuja presença está ali interditada por regras que determinam o comportamento dos jogadores e as rotinas de suas atividades.

 

Gilberto Perin realizou sua ideia. Fotografar apenas os bastidores dos estádios de futebol, os vestiários e seus segredos, os dramas ocultos, individuais e coletivos e expor os seus se-gredos. Nada do jogo, nenhuma notícia visual do campo de futebol, do palco do espetáculo. Apenas os segredos dos bastidores, desglamurizados. Resgatou os fantasmas, a aura, o sopro de vida, de esperança e efemeridade, a energia vital que reveste os espaços que também são os de uma paixão coletiva. O universo do futebol que ninguém mais vê, fora os próprios jogadores, os funcionários envolvidos e os dirigentes do clubes. Esse é o conjunto de imagens originais que fotógrafo Gilberto Perin capturou ao acompanhar o Grêmio Esportivo Brasil ao longo de meses, em jogos oficiais. Uma parte dele está presente neste livro.

 

 

 

 

 

 Para conquistar a sua invisibilidade naquele teatro, o fotógrafo propôs exatamente isso a seus fotografados, a sua transformação na impessoalidade da lente da câmera, a sua mimetização ao objeto, a sua não presença como ser humano, o seu não engajamento de amizade. Ele propôs ser apenas um instrumento silencioso que não lhes dirigiria a palavra, nem solicitaria uma pose ou um enquadramento especial. Propôs aos jogadores uma ausência e eles aceitaram o fato e o seu silêncio, convertendo-o em invisível dentro dos vestiários.

 

Dessa maneira Gilberto Perin pôde apreendê-los em sua essência, na profundidade de seus dramas, na dinâmica de sua atividade fora dos gramados. Praticamente não se vê a bola nesse jogo da bola, em que o que está presente é a intensidade da vida, suas estranhezas e seus desvelamentos. Nessas imagens permeiam as transcendências especulares em que os reflexos não são os das coisas e sim o que permanece intangível e secreto – como na fotografia do grito no espelho, na lassidão abandonada do cansaço pós-competição ou na passagem fantasmagórica de uma inesperada máscara ritual africana, de passado imemorial.

 

A letra que nos conta a verdadeira história das verdades que aqui vemos é de Aldyr Garcia Schlee, o grande escritor que além de torcedor apaixonado do Grêmio Esportivo Brasil, foi também um dia o criador do mítico uniforme da seleção brasileira de futebol. E é também a palavra reveladora das penumbras da alma humana, de João Gilberto Noll. O que vemos neste livro está antes do apito inicial e logo após o apito final, ou seja, sem a competição, sem a luta e sem o lúdico, porém intensamente embebido de vida.

 

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 19:28 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 29.04.11

O professor encontra com o escritor

 

Revelações de Aldyr Garcia Schlee

 

 

Abrindo a temporada do projeto itinerante de 2011, a caravana do Encontros com o Professor viajou - pela primeira vez - para Pelotas para a entrevista com o escritor e jornalista Aldyr Garcia Schlee.

 

O mais recente romance de Aldyr Schlee, Don Frutos, lançado em novembro do ano passado, foi o primeiro assunto da conversa entre Ostermann e o entrevistado diante do público que lotou o auditório do Instituto Simões Lopes Neto, em Pelotas. Segundo o autor, o livro foi rejeitado por duas das maiores editoras brasileiras antes de ser publicado pela edições ardotempo. "Meu orgulho é de quem tem a consciência de que os argumentos utilizados pela editoras eram mais do que falsos", declarou. Mas isso não foi motivo para desencorajá-lo. "Minha mulher acha que se o cara não escreve um romance, ele não é bom. Por isso que eu dediquei esse livro a ela. Mas continuo achando que o bom conto é mais difícil de fazer do que o romance", brincou.

 

A obra utiliza o linguajar fronteiriço e narra os derradeiros meses de vida do caudilho uruguaio Don Fructuoso Rivera. No livro, o personagem estacionado por meses em Jaguarão, em regresso à sua pátria depois de prisioneiro em duro exílio no Brasil, assume pela terceira vez o mandato de Presidente da República. "O meu mundo é muito pequeno, ele gira todo em torno de Jaguarão e da fronteira com o Uruguai".

 

Bem-humorado e ácido nas críticas, Schlee comentou as contradições que percebe no Movimento Tradicionalista Gaúcho que, segundo ele, baseia-se numa "tradição que não nasce, que tem que ser criada. O mate [chimarrão] é um traço rico e verdadeiro da cultura pampeana, mas ele não distingue, ele revela a identidade dos que vivem no pampa. Os descendentes os colonos que saíram do pampa e foram para Santa Catarina, Paraná e mesmo outras partes do Rio Grande do Sul, levam o mate e vão nos CTGs. O MTG extrapolou o espaço onde estava sendo desenvolvido e cultivado. O Paixão [Côrtes] e o Barbosa [Lessa] se atiraram como tigres em busca de outros traços além dos que dizem respeito ao pampa".

 

A conversa entre Ostermann, Schlee e o público ainda versou sobre a literatura gaúcha, a camiseta canarinho da Seleção Brasileira de Futebol - da qual Schlee é o criador -, João Simões Lopes Neto, Nelson Rodrigues e sobre as vivências jornalísticas de Schlee nas décadas de 1960 e 1970 . Encerrando o evento, entrevistado e entrevistador tiraram fotos com o público e distribuíram autógrafos.

 

 

 

 

Publicado pelo blog Encontros com o Professor -

Imagem: Divulgacão Album Encontros com o Professor  - Ruy Carlos Ostermann, Marlene R. Schlee e Aldyr G. Schlee

 

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 23:25 | Comentar | Ler Comentários (2) | Adicionar
Quarta-feira, 27.04.11

A mostra e o livro

Camisa Brasileira estreia na França

 

A mostra do ensaio fotográfico vai inaugurar no dia 6 de maio, no Hôtel des Isles, em Barneville-Carteret, Normandia, França, balneário localizado perto de Cherbourg, na costa da Mancha que faz frente à ilha de Jersey, já no percurso em direçãao ao Mont Saint-Michel. Ali também ocorrerá o primeiro lançamento do livro Camisa Brasileira, de Gilberto Perin (fotografias) e Aldyr Garcia Schlee (texto).

 

 

 

© Gilberto Perin/ Aldyr Garcia Schlee - Camisa Brasileira, edições ardotempo, 2011

 

publicado por ardotempo às 22:53 | Comentar | Adicionar
Domingo, 24.04.11

O livro das imagens de futebol que ninguém vê

Camisa Brasileira

 

 

 

 

 

Trata-se de um livro de arte, de fotografias de autoria de Gilberto Perin, com o texto de Aldyr Garcia Schlee (e de João Gilberto Noll) – um majestoso ensaio fotográfico sobre um universo pouco conhecido acerca das atividades e do comportamento dos milhares de trabalhadores do futebol, os que jogam e os que os apóiam. Não é o do espaço dos astros televisivos do super-espetáculo regido pelo rico mercado dos clubes-empresas, dos formidáveis anunciantes, dos empresários e dos artistas a quem a fortuna sorriu. É outra gente, mais numerosa, mais frágil, para quem os dramas humanos estão evidenciados e que são capazes de nos emocionar e comover com a sua humildade e de sua humanidade. É outro espaço, é outro o tempo, são grandes as carências, as limitações materiais – mas talvez seja mais genuína a paixão que o esporte, distanciado dos holofotes do negócio-futebol, desperte em torcedores desses times e clubes espalhados pelo Brasil inteiro.

 

 

 

 

 

Projeto Camisa Brasileira - 2011

 

GILBERTO PERIN

ALDYR GARCIA SCHLEE

JOÃO GILBERTO NOLL

 

Livro de Arte de Fotografias,

Textos de Autoria e Exposição de Fotografias

110 imagens, em cores e p&b a quatro cores

Formato: 22 cm x 28 cm

Capa dura com sobrecapa debruada - Miolo em Couchê Fosco 170g

Edição bilíngue - Português / Inglês

Apoio Cultural: Construtora Ricardo Ramos

 

ISBN nº 978-85-62984-08-2

 

 

 

Copyright © 2011 Gilberto Perin - Fotografias © 2011 Aldyr Garcia Schlee

 

edições ardotempo ardotempo@gmail.com

publicado por ardotempo às 19:32 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sexta-feira, 22.04.11

Telúrica

 

Força contemporânea e de sangue primevo, sagrado, de sacrifício ancestral


 

 

 

 

Esboços aquarelados, do natural - as cabeças dos animais, os cortes da carne e o sangue - desenhos espontâneos, com anotações descritivas em apontamentos velozes, em caderno de trabalho/desenho, aquarelados, da preparação da Série Charqueadas - por Danúbio Gonçalves (cadernos de esboços - aquarelas) - Pelotas, 1953 

Aquarelas originais reproduzidas no livro Sitio Charqueador Pelotense, Pelotas 2011

 

publicado por ardotempo às 18:20 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 20.04.11

8h46 - Conto de José Mário Silva (Efeito Borboleta)

 

 

 

 

 

8h46

 

 

 

 

 

 

Enquanto espera pela hora da reunião, sentado numa cadeira Barcelona, Jonathan K. imagina a mão de Mies van der Rohe a desenhar com minúcia, há precisamente 74 anos, aquele prodígio de design. Tocando muito ao de leve no couro negro, pensa: "Isto sim é uma cadeira, não apenas um assento para corpos demasiado humanos."

 

A reunião, marcada para as oito e meia, vai começar mais tarde. O CEO comeu qualquer coisa esquisita ontem à noite (certamente um dos malditos hors d'oeuvre com que as galerias de Manhattan envenenam os seus clientes) e será substituído por um dos quadros superiores da empresa, infelizmente ainda a caminho, algures no trânsito caótico de Upper East Side. O encontro só começará por volta das nove horas, diz-lhe a secretária, sorridente. "OK", responde Jonathan, "eu espero". Um café? "Sim, obrigado, mas sem açúcar."

 

Na parede de tons claros, uma imitação tosca de Salvador Dali. Elefantes de patas gigantescas caminhando por entre os arranha-céus, uma mulher nua feita de gavetas, o silêncio espectral do deserto insinuando-se atrás da cidade de vidro. O quadro é horrível. Jonathan K. sente uma veia a pulsar no pescoço. "O que raio estou eu a fazer aqui?" Atrás de uma porta transparente, a secretária fala ao telefone e faz-lhe um sinal. Não se esqueceu do café. Continua a sorrir muito.

 

Jonathan revê mentalmente a sua vida nos últimos quatro meses. A queda na piscina do hotel de Miami. O som da cabeça a bater numa aresta de cimento. O túnel de luz (igualzinho ao do quadro de Hieronymus Bosch). A sala dos cuidados intensivos, vista do tecto, fora do corpo. As duas semanas em coma. O acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo. A demorada reaprendizagem dos gestos. A epifania daquela manhã de sábado em que decidiu, com a convicção dos profetas, emendar os muitos erros da sua existência.

 

A outra vida, a vida anterior, está envolta numa espécie de nevoeiro. Já quase não se lembra dos anos passados em África. O negócio das armas, o tráfico de influências, os muitos mortos que as suas decisões, os seus lucros, engendraram. A fortuna manchada de sangue vai sendo repartida por fundações, ONG's, empresas solidárias, causas filantrópicas. Foi também por isso que veio esta manhã até ao 53.º andar da Torre Norte do World Trade Center. "Serei algum dia capaz de salvar a minha alma?", pergunta-se.

 

A secretária sorridente traz-lhe o café. Jonathan K. bebe-o junto à janela. No Patek Philippe, os ponteiros marcam 8h46. Pelo seu rosto passa, súbita e absurda, a sombra de um avião.


 

© José Mário Silva - Efeito Borboleta e outras histórias, edições ardotempo, 2010

ISBN nº 978-85-62984-04-4

tags: , ,
publicado por ardotempo às 15:10 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 18.04.11

Alex no País dos Números

O negócio dele é números

 

Escritor e jornalista britânico Alex Bellos lança livro sobre paixão pela matemática.

 

Depois de morar cinco anos no Rio de Janeiro como correspondente do jornal The Guardian no Brasil, o jornalista inglês Alex Bellos voltou a seu país natal e tentou, sem muito sucesso, como costuma acontecer com muitos jornalistas, lançar-se em uma vida de empreendedor: "Vendi camisetas de jogadores de futebol brasileiros, comecei um blog, acalentei o plano de importar frutas tropicais", escreve ele no prefácio de seu livro mais recente. No fim, Bellos protagonizou uma dupla volta ao passado.

 

Nos anos 1990, antes de ingressar no jornalismo, ele havia se formado em filosofia e matemática. Juntando essa formação à experiência de correspondente, e após uma temporada de pesquisas e estudos para retomar contato com a matemática da qual estivera distante nos últimos anos, Bellos, 41 anos, agora apresenta-se no livro Alex no País dos Números como um correspondente no mundo da Matemática.

 

 

 

 

Bellos estará na terça-feira (19/04), às 9h, em Porto Alegre, para um bate-papo no Salão de Atos da UFRGS (Avenida Paulo Gama, 110) com o professor Ruy Carlos Ostermann que inaugura a série de ações paralelas do Fronteiras do Pensamento 2011: o Fronteiras Educação – Diálogos com Professores.

 

O encontro é voltado para professores e estudantes de cursos de licenciatura, com entrada franca, e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail convite@fronteirasdopensamento.com.br ou pelo telefone (51) 3012-2621 – a atividade é um complemento ao Fronteiras Educação – Diálogos com a Geração Z, voltado para estudantes. Na pauta da conversa, as estratégias para tornar o ensino da matemática mais eficiente, as formas de transmitir aos estudantes o fascínio pela magia lógica dos números e os motivos pelos quais uma ciência de bases tão consolidadas tem dificuldades históricas de ser transmitida nos bancos escolares.

 

Alex no País dos Números é um livro de divulgação científica que honra seu gênero – porque divulga mas não vulgariza.

 

Escrito com a prosa leve e ágil que Bellos desenvolveu em seus anos como jornalista, mas com a familiaridade natural com números que boa parte da profissão não tem, o livro é um passeio curioso pela onipresença da matemática como um sinal evidente da civilização. Bellos começa falando com um linguista francês, ex-aluno de Noam Chomsky, que passa meses por ano no Brasil estudando o idioma de uma tribo mundurucu, que desconhece números acima de cinco – na vida comunal dos indígenas, em que tudo é de todos e todas as crianças são responsabilidade coletiva, não faz sentido contar além dos dedos da mão nem mesmo os próprios filhos.

 

Bellos é também o autor de Futebol: O Brasil em Campo (Jorge Zahar, 2002), livro que o jornalista escreveu durante seu período de residência no Brasil, e que incluía viagens e grandes deslocamentos atrás dos aspectos mais pitorescos de o quanto a paixão pelo futebol estava entranhada na mentalidade brasileira. Alex no País dos Números vale-se de expediente semelhante. Ao longo dos 12 capítulos do livro – o primeiro é identificado com o número 0, conquista matemática dos indianos que o escritor define como "uma das maiores realizações intelectuais da história da humanidade" –, Bellos viaja não apenas pelo mundo físico (da Alemanha ao Japão, da Índia ao Estado americano de Oklahoma), mas pelas diversas províncias do universo matemático: as análises combinatórias, a aritmética, a álgebra, a geometria, a etnomatemática (o "estudo de como diferentes culturas abordam a matemática), a estatística.

 

Carlos André Moreira - Publicado em Zero Hora

publicado por ardotempo às 12:55 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 13.04.11

Don Aldyr Garcia Schlee

Contos Gardelianos

 

Geraldo Hasse

 

 

 

 

Os ditos “contos gardelianos” de Aldyr Garcia Schlee (Os limites do impossível, edições ardotempo, 2009) são na realidade um romance construído a partir da circularidade de uma dezena de narrativas sobre mulheres que participaram direta ou indiretamente de um acontecimento real – o nascimento em 1884 em Tacuarembó, no Uruguai, de Carlos Gardel, o ídolo do tango argentino falecido em acidente aéreo em Medellín em 1935.

 

É uma história alinhada com o que a literatura sulamericana tem de melhor. Não admira que tenha sido escrita por um nativo de Jaguarão, lugar onde se aprende portunhol no berço. Mesclando uma narrativa histórica com lances do mais criativo realismo literário, Schlee constrói uma carreata fabulosa. A leitura é tão saborosa que não temos a menor dificuldade em colocá-lo ao lado de mestres latino-americanos como Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Márquez e Juan Rulfo. Ele também fica de pé fácil se colocado na estante ao lado de Domingos Pellegrini, Lourenço Cazarré e Miguel Sanches Neto, para citar apenas contistas do Sul do Brasil.

 

O livro tem uma personagem central, D. Carlos Escayola, “mandamais” de San Fructuoso, nome ficcional de Rivera, a cidade gêmea de Santana do Livramento. Além de ser o cacique local, D. Carlos é acidentalmente cunhado do general farrapo Antonio de Souza Netto e tem o dom extraordinário de seduzir todas – todas – as mulheres do enredo.

 

Garanhão inveterado, ele começa desposando uma moça que o despreza, casa com a cunhada após enviuvar e emprenha a sogra enlouquecida de amor por ele. Perto do auge da história, o herói-canalha estupra e engravida a própria filha, uma vingencita de 13 anos, que vai ter o bebê numa fazenda no interior de Tacuarembó, assistida por uma parteira que eventualmente trabalha também como despenadeira, isto é, a pessoa que ajuda os moribundos a desencarnar – segundo o autor, esse tipo de pessoa foi comum na época das guerras e revoluções do Cone Sul.

 

Levada para Buenos Aires por uma ex-corista francesa paga para “desaparecer” com a encomenda, a criança vinga espetacularmente na Argentina, dando sentido a uma antiga e misteriosa declaração de Carlos Gardel: “Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade...” No entanto, no seu passaporte resgatado em Medellín das cinzas do avião acidentado em 1935 estava escrito: “Nascido em Tacuarembó”.

 

Desfez-se assim também a lenda de que o ás do tango teria nascido no interior da França. Se não é verdadeira, a história é muito bem montada com todos os ardis possíveis da literatura. Artista plástico, jornalista e professor de literatura, Schlee construiu uma obra que segue magistralmente pela trilha do realismo fantástico. Há indícios de pesquisa histórica por trás de tantos contos encadeados, mas a criação literária parece ser ainda maior.

 

Daí o clima de contido exagero que permeia a narrativa, pontilhada de palavras e expressões corriqueiras na fronteira do espanhol e do português. Fora a genial remexida na história pessoal do ídolo mercosulino (há muito Gardel não é somente argentino), a invencionice da linguagem é a maior qualidade desta história editada em 2009 por uma editora de Porto Alegre e premiada no final de 2010 com o Açorianos pela Prefeitura de Porto Alegre.

 

Em quase todas as páginas do livro se encontram ditos saborosos que fazem parte da linguagem oral do pampa mas que até agora não haviam sido incorporados à literatura. No correr da história, sem qualquer esforço ou rebuscamento, o jornalista jaguarense nos regala com um palavreado inolvidável. Nesse aspecto, promove um resgate semelhante ao de Simões Lopes Neto quando este jornalista pelotense fixou há 100 anos nos seus contos gauchescos e lenda do Sul o modo de falar do gaúcho da campanha. É muito bom para a Metade Sul que esse livro brilhante seja fructo de um trabalhador intelectual que vive em Capão do Leão, a menor cidade entre Jaguarão e Pelotas, polos de origem e afirmação de Don Aldyr Garcia Schlee.

 

 

Geraldo Hasse

Imagem: Mario Castello - Fotografia de porta colonial espanhola (detalhe). Cartagena de Indias. Colômbia


publicado por ardotempo às 20:05 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 30.03.11

EM BREVE – Lançamento

CAMISA BRASILEIRA

 

 


 

 

Projeto BRASIL - Camisa Brasileira - 2011

GILBERTO PERIN

ALDYR GARCIA SCHLEE

JOÃO GILBERTO NOLL

Livro de Arte de Fotografias, Textos de Autoria e Exposição de Fotografias

Formato: 22 cm x 28 cm

Capa dura com sobrecapa debruada - Miolo em Couchê Fosco 170g

Edição bilíngue - Português / Inglês


 

ISBN nº 978-85-62984-08-2

 

Copyright © 2011 Gilberto Perin - Fotografias

© 2011 Aldyr Garcia Schlee

edições ardotempo

 

ardotempo@gmail.com

publicado por ardotempo às 21:38 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 21.03.11

Dia Mundial da Poesia

Aula de Poesia

 

Estou lendo o livro AULA DE POESIA, de Eduardo Pitta. O livro é rico, rigoroso, abrangente e elucidativo sobre os caminhos da poesia, seus livros e os poetas do século XX, em língua portuguesa (Brasil, incluído) - Quetzal Editores . Será urgente e fundamental que se faça um edição deste excelente livro no Brasil.

 

 

 

 

 

Hoje, 21 de março, Dia Mundial da Poesia, o blog ardotempo estará dedicado a homenagear os poetas e publicar poesia.

tags: ,
publicado por ardotempo às 12:28 | Comentar | Adicionar
Domingo, 20.03.11

O futebol que ninguém mais vê

Imagens desveladas, embebidas de vida

 

O fotógrafo Gilberto Perin, numa de suas jornadas solitárias, com sua máquina fotográfica peregrina, cruzando as estradas do Brasil teve uma ideia extraordinária. Ele pesquisou e localizou uma foto antiga, do início dos anos sessenta e constatou um fenômeno de presente impossibilidade. A imagem, em preto e branco envelhecido, mostra dois jogadores de futebol célebres no passado, dentro de um vestiário, nus e ensaboados, com um sorriso levemente divertido, sendo abraçados por um torcedor em estado de êxtase, de risada aberta em euforia, com óculos de grandes lentes, vestido em terno e gravata, sob a água corrente de um chuveiro a encharcar os três protagonistas.

 

Na fotografia sente-se a presença da quarta personagem, invisível, o fotógrafo que captou aquela imagem. No pensamento de Perin, hoje essa fotografia já não pode ser obtida, pela ausência de dois de seus atores naquele cenário: o torcedor infiltrado no vestiário e o fotógrafo, cuja presença está ali interditada por regras que determinam o comportamento dos jogadores e as rotinas de suas atividades.

 

Gilberto Perin realizou sua ideia. Fotografar apenas os bastidores dos estádios de futebol, os vestiários e seus segredos, os dramas ocultos, individuais e coletivos e expor os seus segredos. Nada do jogo, nenhuma notícia visual do campo de futebol, do palco do espetáculo. Apenas os segredos dos bastidores, desglamurizados. Resgatou os fantasmas, a aura, o sopro de vida, de esperança e efemeridade, a energia vital que reveste os espaços que também são os de uma paixão coletiva.

 

O universo do futebol que ninguém mais vê, fora os próprios jogadores, os funcionários envolvidos e os dirigentes do clubes. Esse é o conjunto de imagens originais que fotógrafo Gilberto Perin capturou ao acompanhar o Grêmio Esportivo Brasil ao longo de meses, em jogos oficiais. Uma parte dele está presente neste livro.

 

 

 

 

Para conquistar a sua invisibilidade naquele teatro, o fotógrafo propôs exatamente isso a seus fotografados, a sua transformação na impessoalidade da lente da câmera, a sua mimetização ao objeto, a sua não presença como ser humano, o seu não engajamento de amizade. Ele propôs ser apenas um instrumento silencioso que não lhes dirigiria a palavra, nem solicitaria uma pose ou um enquadramento especial. Propôs aos jogadores uma ausência e eles aceitaram o fato e o seu silêncio, convertendo-o em invisível dentro dos vestiários.

 

Dessa maneira Gilberto Perin pôde apreendê-los em sua essência, na profundidade de seus dramas, na dinâmica de sua atividade fora dos gramados. Praticamente não se vê a bola nesse jogo da bola, em que o que está presente é a intensidade da vida, suas estranhezas e seus desvelamentos. Nessas imagens permeiam as transcendências especulares em que os reflexos não são os das coisas e sim o que permanece intangível e secreto – como na fotografia do grito no espelho, na lassidão abandonada do cansaço pós-competição ou na passagem fantasmagórica de uma inesperada máscara ritual africana, de passado imemorial.

 

A letra que nos conta a verdadeira história das verdades que aqui vemos é de Aldyr Garcia Schlee, o grande escritor que, além de torcedor apaixonado do Grêmio Esportivo Brasil, foi também um dia o criador do mítico uniforme da seleção brasileira de futebol. E é também a palavra reveladora das penumbras da alma humana, de João Gilberto Noll.

 

O que vemos neste livro está antes do apito inicial e logo após o apito final, ou seja, sem a competição, sem a luta e sem o lúdico, porém intensamente embebido de vida.

 


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Projeto BRASIL - Camisa Brasileira - 2011

GILBERTO PERIN

ALDYR GARCIA SCHLEE

JOÃO GILBERTO NOLL

Livro de Arte de Fotografias, Textos de Autoria e Exposição de Fotografias

 

ISBN nº 978-85-62984-08-2

 

Copyright © 2011 Gilberto Perin - Fotografias

© 2011 Aldyr Garcia Schlee

edições ardotempo

publicado por ardotempo às 13:39 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 15.03.11

Sítio Charqueador Pelotense

Lançamento de livro, com fotografias e desenhos - 24 de março

 

 

 

 

Desenhos, esboços de época aquarelados e xilogravuras de As Charqueadas, de Danúbio Gonçalves - com a presença e autógrafos do artista

 

Instituto João Simões Lopes Neto - Realização ATO Produção Cultural

 

publicado por ardotempo às 15:36 | Comentar | Adicionar
Domingo, 27.02.11

As verdades do sofrimento

Una lección sobre el arte de la ficción
 
Alberto Manguel
        
 
Quizás hay ciertas formas narrativas que corresponden al espíritu de una época: la novela epistolar al siglo XVII, la saga balzaciana al XIX, la ficción que requiere la complicidad del lector, al XX. Si es así, sugiero que una de las formas elegidas por los escritores del siglo XXI para dar voz a nuestra época es la novela fragmentaria en la que, bajo la forma de cuentos individuales, los mismos personajes juegan, de fragmento en fragmento, roles mayores o menores. En los últimos años, La novia de Odessa de Edgardo Cozarinsky, Fama de Daniel Kehlmann y ahora Amor y obstáculos de Aleksandar Hemon son espléndidos ejemplos de este género.
 
Amor y obstáculos es la historia, en ocho cuentos, de un joven bosnio cuyo nombre va cambiando según los apodos que le dan los distintos personajes con los que se encuentra (Trabuquillo, Dirigent, Comando), sea en Kinshasa, en Sarajevo, en Hamilton, en Chicago. De historia en historia, van apareciendo sus rasgos: es un adolescente perdido en la noche africana; es un joven que escribe poesía y cuentos; es un muchachito que escucha a Led Zeppelin y lee a Rimbaud; es un vendedor ambulante de revistas norteamericanas que anhela un paraíso de mediocridad; es un inmigrante más de la comunidad exyugoslava en exilio, viviendo entre estafadores y mafiosos; es una nueva estrella literaria que llega a publicar en The New Yorker; es un estudiante de inglés en Chicago, cuyos padres están en Sarajevo y, en ciertos otros momentos, en Zaire y en Canadá; es un literato que se encuentra con escritores mayores y famosos, tanto bosnios como norteamericanos; es un jovencito inocente y también un hombre de mediana edad carcomido por la experiencia.
 
El proteico bosnio es como una suerte de testigo crítico de nuestro tiempo.
 
En el fondo de todos estos relatos está siempre la guerra, o el recuerdo de la guerra, evocada de cierta manera como un arquetipo literario, a través de anécdotas al parecer triviales, y por lo tanto más espantosas, o por medio de testimonios tergiversados, reconstruidos como ficción o como sueño. La guerra (de la ex-Yugoslavia o de Vietnam, por darle dos de sus nombres más recientes) aparece en la obra de Aleksandar Hemon como horriblemente presente y a la vez intemporal, como una encarnación de Troya, la guerra que es el trasfondo de todas nuestras vidas, tanto en Sarajevo destruida y rehabilitada como en América indiferente y codiciosa. Hay en la escritura de Hemon una furia apenas disimulada contra la imbecilidad y la fuerza bruta de todas nuestras sociedades, un sarcasmo a flor de piel que oculta una majestuosa indignación, similar a aquella que en la Edad Media se llamaba cólera justa.
 
Lo más extraordinario de este libro extraordinario es la habilidad y precisión con la que todo esto se enlaza, y que la prolija traducción de Damià Alou deja entrever. Hay una disimulada virtuosidad en la manera en la que Hemon teje y desteje su biografía ficticia con elementos (nos asegura la solapa) que corresponden a los de la vida del autor y otros muchos que pueden ser o no parte de su propio recorrido. El último cuento o capítulo, 'Las nobles verdades del sufrimiento', glorifica y denigra el valor de la experiencia vivida. 
 
El joven bosnio, que ya se ha hecho estadounidense, vuelve a su Sarajevo natal a visitar a sus padres y es invitado por la Embajada de Estados Unidos a festejar a un escritor norteamericano, Richard Macalister, que acaba de ganar el Premio Pulitzer. Por amor propio, por envidia, por generosidad, el joven se presta a ser el lazarillo de Macalister en Sarajevo, y hasta lo invita a comer en casa de su familia. Ante la estupefacción del joven, Macalister acepta. La comida resulta, para el joven, una pesadilla: la familia se comporta con incultura y brutalidad, el padre apabullando a Macalister con preguntas personales y obligándolo a tomar vino (Macalister es abstemio porque sufre de alcoholismo), la madre llenando su plato de comida grasosa (Macalister es vegetariano). 
 
Tiempo después, el joven lee la nueva novela de Macalister, que trata de un veterano de la guerra de Vietnam, y descubre azorado que aquella comida se ha transformado en la escena clave del libro. Pero todo ha sido deformado: ahora se trata de un soldado que visita a la familia de un compañero muerto; la hospitalidad de la madre adquiere un tono nefasto, el interrogatorio del padre (que en la realidad giraba en torno a la carrera literaria del joven) es ahora sobre la guerra, y el valor y coraje del hijo muerto. Todo ha sido utilizado para la alquimia de la narración, incluso detalles atrozmente íntimos, para describir no una banal visita turística sino la vida y la muerte de personas y civilizaciones. De pronto, con una última vuelta de tuerca, Hemon transforma un ejercicio de autobiografía literaria en una lección sobre el arte de la ficción, sobre la verdad de la mentira literaria, sobre la constante injusticia de toda guerra, sobre la constante injusticia (y redención) de la condición humana.
 
 
 
Alberto Manguel - Publicado em El País
tags: , ,
publicado por ardotempo às 14:56 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 25.02.11

"Só Ele sabe minha hora"

O futebol que ninguém vê

 

 

 

 

O universo do futebol tem mistérios e detalhes sutis que poucos conhecem e quase ninguém vê.

 

© Brasil - Camisa Brasileira - Livro de Fotografias de Gilberto Perin

Texto de Aldyr Garcia Schlee

Projeto Camisa Brasileira PRONAC nº 10 4301

Imagem de © Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo

 

 

publicado por ardotempo às 12:07 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Domingo, 20.02.11

O retrato

(Trecho de Don Frutos)

 

Herrmann Rudolph von Drotte (ou Wendroth) esteve desaparecido durante os três dias seguintes a sua visita de apresentação a Rivera. Só alguns meses depois, quando frequentadores honestos exigiram que se cobrissem de cal as paredes com seus ofensivos desenhos, num lupanar da rua dos Prazeres, soube-se que ali ele permanecera esses três dias, desenhando aquelas indecências e bebendo sem parar, até ser arrojado porta afora.


Rudolph andava procurando por uma tal de Sophia, que conhecera no Rio Grande e atrás da qual chegara ao bordel, onde logo ofereceu seus préstimos artísticos em troca de bebida e carinho, tendo retratado a carvão as mulheres da casa e desenhado pelas paredes as coisas mais surpreendentemente obscenas que só a cabeça de um degenerado se animaria a imaginar (e cuja descrição as imposições da decência fazem-nos calar e esquecer). Se durante os três dias bebeu e bebeu e bebeu tudo o que havia, em troca de sua arte, por conta da rufiona e das marafonas retratadas, não chegou, ao que se saiba, a capacitar-se para desfrutar do carinho de nenhuma delas, tal seu continuado estado de ebriedade.


O alemão recebera convite do dr. Hart para prestar-lhe serviços de desenho e pintura no acompanhamento médico da saúde de Rivera, começando pelo retrato do próprio General, fiel ao estado em que o homem se encontrava. Seria uma nobre e relevante tarefa a ser cumprida artisticamente no respeito e em nome da ciência, havia lhe dito o doutor, ao anunciar-lhe que, tão logo fora apresentado a Don Frutos, já estava incorporado à escolta, a suas ordens e sob sua proteção. Rudolph, entretanto, não ficou alojado exatamente como os demais soldados da guarda de Rivera – nas tarimbas sobrepostas do armazém ao lado –, pois teve permissão para instalar-se no galpão de mantimentos. Além disso, na condição aparente de novo ajudante recém admitido, recebeu ordem de só sair e entrar pelo portão dos fundos; mas com liberdade de fazê-lo quando bem quisesse ou fosse necessário ao cumprimento de seu ofício e de suas obrigações, desde que portando o salvo-conduto assinado pelo General.


O retrato de Don Frutos foi pintado sobre um quadro de madeira feito à feição por um mestre carroceiro, na medida e esquadro, com duas tábuas bem aplainadas e melhor encaixadas entre si, tratadas com pasta de linhaça e alvaiade.


Quando menos se esperava, a feitura desse retrato colocou Rudolph diante de Rivera, com palheta, tintas e pincéis; e ante a necessidade de ambos tomarem alguma bebida – porque o pintor confessou que precisava de ânimo para enfrentar a empreitada de pôr no quadro o General; e o General advertiu que já não tinha ânimo para mais nada, muito menos para fazer pose de sair num quadro (de fato, o que pretendia Rivera, admitindo enfim que o retratassem, era uma oportunidade para ludibriar o dr. Hart e beber alguma coisa escondido – fazendo com o artista um pacto de silêncio, ao oferecer-lhe cerveja; e o que Rudolph queria, combinado com o dr. Hart, era ludibriar Rivera, ao retratá-lo por algum tempo – ganhando-lhe na cerveja a confiança, para depois poder dedicar-se livremente a pintar o que o médico mais pretendia).


Enquanto tratava de passar para o quadro a figura do General, Rudolph esteve por três tardes, três dias seguidos, bebendo com Rivera. E, por mais que se tenha cuidado da vestimenta e de melhorar o aspecto de Don Frutos, por mais que Don Frutos quisesse que a pintura retratasse fielmente sua figura decrépita, a capacidade e a habilidade do mestre pintor no trato com as tintas era tal que o resultado – como diria, ao constatá-lo, o dr. Hart – não ficou aquém do que pretendia o retratista e nem além do que esperava o retratado, tal a conformidade e a proporção obtidas entre o original e a cópia.

 

 

Trecho do romance DON FRUTOS - de Aldyr Garcia Schlee

Imagem: Retrato do General Fructuoso Rivera - Óleo sobre madeira, por Herrmann Rudolph Wendroth - 1853

publicado por ardotempo às 19:49 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 18.02.11

Livros e poetas: importantes por existirem

Desobediência


Maria do Rosário Pedreira


Conheço Eduardo Pitta há muitos anos e aprecio, acima de tudo, a sua frontalidade desarmante – qualidade que nem sempre se encontra nas gentes da cultura, por vezes demasiado preocupadas com o afecto dos outros ou a possibilidade de um tacho onde possam fazer os seus cozinhados sem grandes temperos.


Além de pessoa que assume o que diz e pensa, Pitta é um poeta consolidado há décadas, um crítico literário regular e um bloguista de respeito, escrevendo todos os dias no Da Literatura. Pois acaba de reunir uma escolha de poemas seus num volume que dá pelo nome de Desobediência, título que lhe fica bem, sob a chancela da Dom Quixote e com prefácio de Nuno Júdice, autor com obra publicada na mesma colecção. Entre os textos presentes na colectânea, há muitas pérolas, das quais destacaria para amostra este par de versos de que gosto particularmente: “Tinha na retina corpos / imperdoavelmente disponíveis.


Se gosta de poesia, guarde a sua retina e a sua disponibilidade para a leitura desta recolha.

 

 

 


Maria do Rosário Pedreira - Publicado no blog Horas Extraordinárias

publicado por ardotempo às 16:34 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 09.02.11

Espaço recluso

Figuras pasolinianas


João Gilberto Nöll

 


 

 

 

 

Uma das emoções estéticas mais verticais que tive nesses últimos tempos no Rio Grande do Sul deu-se no encontro com o trabalho fotográfico de Gilberto Perin. É inacreditável que, de dentro desse cidadão de expressão costumeiramente serena, possa irromper uma arte de toques metafísicos acompanhados de um gozo tão eloquente e avassalador, característica assombrosamente presente já em sua penúltima exposição. Na ocasião dessa primeira mostra, o que poderíamos acrescentar diante de uma fotografia a revelar um homem negro em algum ponto da África, de costas contemplando o mar? Em frenesi de cores, sentimos a nudez pagã entre o eu e o mundo, mais nada. Talvez um arrepio. Contemplamos a atual exposição um pouco de soslaio, tal um certo pudor em face do impacto frente a corpos masculinos periféricos, um tanto esquecidos pelos jornais de grande circulação. Vemos jogadores em um campeonato de segunda divisão  num intimismo viril, nos toscos vestiários, alguns ensaboados debaixo dos chuveiros, entre confidências discretas, surdos palpites talvez. Parecem as figuras populares pasolinianas, encenando a sua autenticidade singela. E as cores, sempre as cores, vivíssimas, tão vivas que sentimos nelas um santo laivo narcísico.


Gilberto Perin é um dos mais marcantes fotógrafos brasileiros em ação. Entre suas fotos, há uma expondo como que um túnel improvisado entre  o campo do jogo e o vestiário. Ninguém. Existe tal densidade em sua luz erma, entre o claro e o sombrio, que esse instante tem a qualificação de um mistério. Trata-se da pausa entre as múltiplas insinuações eróticas da exposição. As coisas sem a presença humana nos fazem descansar um pouco da força carnal, mesmo que essa força venha um tanto dissimulada no bojo de certa placidez do pós-futebol, no desfecho do trabalho-lazer, antes de os atores se dissolverem novamente na prática do cotidiano.


No fundo dessa fotografia, as sombras da entrada do vestiário não deixam nada tomar forma. Mas os atletas de um arrabalde distante podem ainda estar ali, dormitando, esboçando o sonho de uma nova partida, quando serão, aí sim, os herois...

 

 

 

 

© João Gilberto Noll

© Brasil - Camisa Brasileira - Livro de Fotografias de Gilberto Perin

Texto de Aldyr Garcia Schlee

Projeto Camisa Brasileira PRONAC nº 10 4301

Imagens de © Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo

publicado por ardotempo às 20:00 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 19.01.11

Letras sobre papel

A escrita dos livros


João Ventura


Como escrevem os escritores? Por que territórios da escrita se aventuram para deixar visíveis os rastos no papel? E a que instrumentos recorrem para gravar a consternação do mundo?


Primeiro, há a página em branco que é a praia onde se derrama a escrita. E que pode ser, também, a figura atrás da qual se escondem os rostos dos escritores. Muitos escrevem na banal folha A4 espécie de praia comum e sem surpresas, pronta a ser apagada pela subida da maré, que é como quem diz, a ser jogada no cesto dos papéis sempre que a corrente da escrita segue um curso diferente daquele que o escritor procura.


Mas a praia, qualquer praia de papel, nunca é virgem, a areia da página já foi percorrida de uma ou outra maneira e a sua geografia condiciona a inscrição da escrita. A lápis, com caneta de tinta permanente, com esferográfica ou, mecanicamente, utilizando a máquina de escrever, ou a tecnologia do computador, o suporte da escrita condiciona a sua inscrição.


Heidegger desconfiava da técnica, da máquina de escrever: “A máquina de escrever arrranca a escrita ao domínio essencial da mão, ou seja, da palavra”. Outros evocam a máquina de escrever como instrumento de escrita a contra-relógio. “Veio-me à memória um [filme] onde um escritor que não tinha dinheiro encontrava o lugar ideal para escrever, a sala de dactilografia da cave biblioteca da Universidade de Austin. Ali, em filas ordenadas, havia uma dúzia de velhas Remington ou Underwood que se alugavam por dez centavos a meia hora. O escritor metia a moeda, o relógio começava o seu tiquetaque enlouquecido, e o escritor punha-se a escrever como um selvagem para acabar o seu conto antes que o tempo se esgotasse” (in Doutor Pasavento, Enrique Vila-Matas). Nesse tempo havia ainda alguma intimidade entre os escritores e as máquinas de escrever, que até tinham nomes de gente: Remington, Olivetti ou de deuses, como Hermes, o deus das mensagens. Eram nomeáveis e fiáveis, à medida do nosso desejo. Delas, disse Clarice Lispector que “O ruído baixo do teclado acompanha directamente a solidão de quem escreve”. Talvez por isso, Álvaro Mutis continue, ainda, a escrever na mesma Smith Corona onde inventou Maqrol.

Hoje, os computadores, que têm nomes metálicos, baniram as máquinas de escrever, instaurando uma modalidade de escrita sujeita a margens, barras, menus, ferramentas, conexões, links… que tolhem errância na praia deserta da página, deixando-nos mais sós. Ou talvez não. Para Bragança de Miranda, o seu computador "é uma selva de heterónimos, um drama em máquinas", por isso, estima-o como se fosse a "última máquina". Mas se é verdade que por culpa do computador as máquinas de escrever já quase desapareceram, as ferramentas que são uma espécie de extensão da mão – o lápis e a caneta – resistem, deixando os seus rastos em qualquer folha de papel.


Como Hermann Hesse que escrevia nas costas de folhas de calendário, em facturas, em provas tipográficas, anúncios, sem fazer esboços ou correcções. Ou Novalis que em folhas limpas desenhava belas iniciais como se pretendesse imitar as iluminuras medievais, aventurando-se num romance fragmentário. Ou Hemingway e Bruce Chatwin que escreviam em cadernos moleskine. Ou Robert Walser que escreveu a lápis 526 “microgramas” em folhas separadas: envelopes, margens das folhas dos jornais, formulários oficiais, etc., autênticos labirintos de escrita que levaram vinte anos a ser decifrados e foram recentemente editados em duas mil páginas com o título Território do lápis (para quando a sua edição em Portugal?). Ou Robert Musil cujo fogo da escrita só verdadeiramente incendiava o papel no momento da correcção das provas tipográficas. Ou Jack Kerouac que, num ritmo alucinante alimentado a café e ao som do jazz improvisado, como se fosse um Proust "só que mais rápido", como ele gostava de afirmar, dactilografou Pela Estrada Fora (On the road) num parágrafo único, sem pontuação num rolo de trinta e seis metros de comprimento que o próprio manufacturou juntando 13 folhas de papel com três metros de comprimento cada uma, coladas com fita-cola e recortadas depois para que pudessem entrar na máquina. “Um único e magnífico parágrafo, de vários quarteirões, rodando, como a estrada em si”, disse Allen Ginsberg. Ou Alexander Kluge que escreve, primeiro, num caderno escolar e só depois trancreve para o computador onde redistribui capítulos. Ou António Lobo Antunes que continua a escrever em folhas de prescrição médica do hospital Miguel Bombarda. Ou, numa situação extrema, Vila-Matas que numa viagem de avião, tendo esquecido o diário em casa, transformou o saco higiénico da Ibéria num rascunho de ideias destinadas a uma crónica espasmódica.

 

 

 

Eis como sempre se escreveram os livros, sujeitos às várias modalidades de deambulação pelos territórios do papel, por geografias secretas cujo itinerário o escritor persegue e onde grava com ferramentas pessoais a memória do mundo.


João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

publicado por ardotempo às 14:12 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 18.01.11

Uma rua sem nome

Muito antiga, bem no centro, defronte ao rio

 

Existe uma rua em Jaguarão RS, bem no centro histórico recentemente tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). Anônima em sua inclinação elegante e sequencial em cotas, é literariamente preenchida de feitos, dramas e sonhos. É uma das mais antigas da cidade, partindo do cais, paralela à Ponte Mauá, ao lado da antiga Rua do Fogo (atual XV de Novembro), lindeira ao Mercado Público Municipal e à Delegacia da Capitania dos Portos. É parte integrante da história da cidade heróica, no frontão do sol e da linha divisória com o Uruguai. Traçada no mesmo eixo da ponte, simboliza um corredor de acesso, em abertura de diálogo generoso ao revés de uma trincheira transversal de obstáculo. Apesar de curta em sua extensão, está nutrida de testemunhos de fatos notáveis e triviais, estes talvez mais caudalosos, consistentes e humanos do que aqueles e em seus muros e paredes ecoam os murmúrios da memória da vida e da literatura. Esta rua central, debruçada e voluptuosamente entregue às lendas e aos caprichos do Rio Jaguarão, nunca teve um nome. Terá um nome e uma titulação até o final do ano de 2011.

 

 

publicado por ardotempo às 18:25 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 05.01.11

Verão: O velho e o mar

O génio simples


Maria do Rosário Pedreira


Nesta época em que vivemos, parece que já está tudo inventado – e, em matéria de literatura, é de facto muito difícil fazer bom e diferente. O segredo está muitas vezes em «baralhar e dar de novo», uma vez que se trabalha com um material abstracto chamado linguagem que, graças a Deus, não é estanque e aceita constantes combinações. Mas, se muitos críticos dão primazia à linguagem em detrimento da história para definir o génio literário, a verdade é que houve muitos génios da literatura que vingaram com um pelo menos aparente despojamento linguístico.

 

Os escritores norte-americanos, por exemplo, não são lá muito dados a rendas e franzidos, optando, frequentemente, por uma simplicidade quase comovente na escolha das palavras e na composição das frases e apostando quase tudo na estrutura e na temática. É, pois, a todos os títulos, admirável essa novela que todos os jovens deviam ler – e muitos lêem – chamada O Velho e o Mar, que vive com apenas duas personagens (e uma delas não fala) no mesmo cenário, do princípio ao fim da narrativa. Se, por mero acaso, nunca leu a pequena obra-prima do génio Ernest Hemingway, guarde umas duas ou três horas da sua vida para depois nunca mais se esquecer dela.

 

 

 

Maria do Rosário Pedreira - Publicado no blog Horas Extraordinárias

tags:
publicado por ardotempo às 21:10 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 30.12.10

Livro do Ano - DON FRUTOS

Livro do Ano 2010 - Zero Hora Retrospectiva 2010


DON FRUTOS


Depois de anos como um autor que se definia “à margem”, Aldyr Garcia Schlee tornou-se um dos nomes mais comentados de 2010. Recebeu o prêmio Fato Literário e o Açorianos na categoria Conto com o livro Os Limites do Impossível e, durante a Feira deste ano, lançou o mais interessante romance gaúcho da temporada: Don Frutos, elaborada reconstituição histórica da trajetória do caudilho uruguaio Don Fructuoso Rivera. Schlee reconstrói os últimos dias de Rivera, moribundo e encalacrado em Jaguarão (o caudilho viajava para tomar posse como governante do Uruguai, mas morreu sem conseguir cruzar a fronteira).

 

 


Publicado no jornal Zero Hora RS Brasil- 30 de dezembro 2010

publicado por ardotempo às 20:36 | Comentar | Adicionar
Domingo, 26.12.10

O exíguo livro de versos

Formigas do Colorado


Pedro Gonzaga

 

 

 


À luz de um sol branco

- dezembro arde em Porto Alegre -

busco abrigo às cegas

na fachada do antigo sebo

tantas vezes percorrida

em horas mais cálidas.

 

Mergulho na penumbra,

e um cheiro doce

que sabe a mofo

brota dos cadáveres,

silenciosos e encadernados faraós

desprovidos de pirâmides.


Enquanto meus olhos

se acostumam à noite ali dentro

meus dedos percorremcom vaga cautela

as estantes empenadas em que

livros de fantasiosas ciências,

roucos,

apelam da escuridão:

um compêndio de biologia,

um tratado de química orgânica em espanhol

que cansou de dizer a realidade em 1940,

tantos carbonos e hidrogênios

inutilmente

desperdiçados.


Pouco depois,

uma grossa lombada diz

em inglês

Fomigas do Colorado.


Assusta-me o fato de que um homem

perdido entre longínquas montanhas

tenha dedicado sua vida às

formigas do Colorado.


Que promessa de felicidade terrena

ou eterna

pode levar alguém

a dedicar a força de seus membros

a usina de seu cérebro

o combustível limitado das gônadas

às formigas do Colorado?


Quase posso vê-lo,

senhor das formigas,

circunspecto

lustroso de autoridade,

garboso na sala decorada com esmero

madeiras escuras

e envernizadas

o feltro verde sob o tampo

o digno gabinete

do digno autor de

Formigas do Colorado.


Você não tem seriedade,

mr. Gonzaga,

você se farta na galhofa.

Onde está sua obra,

mr. Gonzaga,

onde está o seu legado?


A custo

penso nos dois volumes de contos

e no exíguo livro de versos

à espera de publicação.


Uma coisa, no entanto, me consola,

senhor Formigas do Colorado,

e a você dedico este semi-sorriso frouxo

que meus lábios não labutam para manter:

eu estou aqui,

vivo,

meu sangue ferve,

posso ser fera esta noite,

meus músculos vibram

e tenho uma mulher

que me espera.


Tudo isso passa, eu sei,

mas, ah,

que se fodam

as formigas do Colorado.

 

 

 


Pedro Gonzaga

publicado por ardotempo às 17:44 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 21.12.10

“Não sei nada do México e tenho uma mochila.”

Um espelho de obsidiana


Viva México

Autora: Alexandra Lucas Coelho

Editora: Tinta da China

 

 


 


No verão passado, a jornalista Alexandra Lucas Coelho (ALC), do Público, desembarcou na Cidade do México como quem enfrenta uma página em branco. Três semanas depois estava de regresso à Europa, ao Velho Mundo, com material suficiente para desenvolver os textos publicados no jornal e juntá-los em mais um espantoso livro-reportagem, tão bom como os anteriores Oriente Próximo (2007) e Diário Afegão (2009). Mas se nesses livros ALC abordava realidades que conhecia bem (Israel, Palestina, Afeganistão), neste assumiu logo na primeira frase a sua virgindade: “Não sei nada do México e tenho uma mochila.” O “não sei nada” é relativo. Na mochila levava alguns livros orientadores (Octavio Paz, J.M.G. Le Clézio, o catálogo de uma exposição no Museu Britânico, uma antologia de poesia azteca organizada por José Agostinho Baptista), além de muitos contactos preciosos trazidos de Lisboa. Pouca coisa, ainda assim, para quem chega pela primeira vez a um país vinte vezes maior do que Portugal.

 

Em ano de bicentenário da Independência e centenário da Revolução, com o Campeonato do Mundo de futebol por todo o lado (nas conversas e nos ecrãs gigantes), ALC estava ali para saber que país é aquele, gigantesco e contraditório, agressivo e acolhedor, formoso e horrível, complexo e comovente:"O México dá vontade de chorar, um choro de séculos em que não percebemos porque choramos, se somos nós que choramos, se não seremos nós já eles. Nunca, em lugar algum, me pareceu que tudo coexiste, tempos e espaços, cimento e natureza, homens e animais, até aceitarmos que o nosso próprio corpo faz parte daquela amálgama acre, ligeiramente ácida, de pele suada com muito chile."

 

A viagem começa na Cidade do México, o monstro urbano, a cidade que não acaba. Numa escavação arqueológica, evoca-se o momento fundador em que Cortés subjugou Moctezuma, precipitando o declínio azteca: "Este Novo Mundo começa no extermínio, e isso há-de significar qualquer coisa. No tempo indígena significa que o extermínio histórico faz parte do presente." A violência sente-se no ar, é uma espécie de vibração que tolda a paisagem. Mas a beleza também irrompe quando menos se espera.

 

Uma flor, um céu violeta, cactos na berma da estrada, a Casa Azul de Frida Kahlo em Coyoacán (onde ALC se demora em páginas magníficas). E vejam como a Cidade do México mostra o seu rosto escuro, sujo, cheio de cicatrizes, no «bairro bravo» de Tepito, berço de pugilistas famosos e esconderijo de traficantes, contrabandistas e outros marginais. A repórter também visita museus e livrarias, também conversa com escritores, mas o que lhe interessa é a a pulsação frenética das ruas. E as ruas agradecem, oferecendo-lhe histórias daquelas que não vêm ter connosco (é preciso ir ter com elas). Este é um livro de lugares.

 

 

 

 

 

Depois da capital, entramos de chofre no epicentro da violência associada ao narcotráfico (Ciudad Juárez), escancaram-se as portas do inferno na terra, onde a morte anda à solta e o capitalismo exibe a sua face mais odiosa (paisagens de lixo e pobreza extrema, entre as maquiladoras que alimentam a globalização do baixo custo), descemos depois até paragens mais acolhedoras (Oaxaca), cruzamo-nos com os muxes de Juchitán («A mulher está aqui, o homem está ali, e o muxe está no meio») e com os imigrantes clandestinos de vários países da América Central em trânsito para os EUA (à espera em Ixtepec), trepamos as serras para chegar a San Cristobal de las Casas (no coração de Chiapas, encruzilhada do zapatismo) e fechamos o périplo no Yucatán, a península que é mais do que a pontinha do México em que se amontoam, em resorts todos iguais, os turistas da praia e do bilhete-postal.

 

Os lugares são importantes, mas o que nos fica na memória são as pessoas com as quais ALC se cruza e demora, em longas sessões de platica (a conversa à mexicana, sem pressas). As pessoas que procura e as pessoas que encontra por acaso. Os artistas, os padres, os antropólogos, os conhecidos que indicam outros conhecidos que também conhecem não sei quem, o casal que inventou uma «utopia a dois» no meio da natureza deslumbrante e agreste, um taxista chamado Adolfo ou as raparigas da banda Batallones Femininos, que dizem coisas como esta: «Quando te sentes mal, vomitas e sentes-te melhor. O rap é esse vómito.»

 

Alexandra Lucas Coelho sabe contar histórias, encadeá-las, fazer os saltos de uma para outra no momento certo. A escrita é rápida, muito nítida, às vezes lírica, sempre de uma extraordinária atenção aos detalhes e capaz de maravilhosos achados verbais. Por exemplo, certa mulher de 76 anos «parece uma rapariga que simplesmente envelheceu». E vejam este parágrafo: «Como se os deuses quisessem provar que um museu só volta à vida quando eles decidem, a estação das chuvas está a cair no pátio toda de uma vez. A água desaba em lençóis e acendem-se relâmpagos que depois ribombam. Começa a subir um cheiro intenso a terra. As árvores brilham. As copas agitam-se. O céu ruge. Os turistas correm

 

 

 

 

 

Mais à frente, a obsidiana transforma-se em arte poética: “Afiada, corta. Polida, faz de espelho. Nela se miraram imperadores, perscrutando o futuro. Pode servir para tudo e para nada, só a acumular energia séculos fora.” Se tivesse que resumir numa frase a experiência de ler Viva México, diria que esta é uma prosa que não descreve, ilumina. E assim a viagem de quem narra torna-se, quase sem nos darmos conta, a viagem de quem lê. Sorte a nossa.

 

José Mário Silva - Publicado no blog Bibliotecário de Babel

tags: , ,
publicado por ardotempo às 19:55 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 20.12.10

Uma constelação no Jantar

Na Livraria da Vila Itaim, celebridades em O JANTAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Naira Scavone e alguns dos vários amigos que participaram do lançamento de seu livro em São Paulo. (Emmanuel Bassoleil, José Dias, Aires Scavone, Mauro Holanda, Marcos Magaldi, Giacomo Favretto, Martha Dias entre tantos outros que compareceram e compraram o livro sobre gastronomia brasileira).

Estrela entre estrelas e estrelados.

Fotografias de Mario Castello

tags:
publicado por ardotempo às 12:38 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

Pesquisar

 

Fevereiro 2012

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29

Posts recentes

Arquivos

tags

Links

Vale a pena visitar


Verdes Trigos Cultural

Visitantes

Tradutor Torto

PageRank
eXTReMe Tracker