Sábado, 02.04.11

Reviver dos escombros

 

Nenhum sarcasmo sobre a nossa ruína

 

Mariana Ianelli

 

Sabem de grandes virtudes os que sobrevivem a uma cidade devastada. Um senso de comunidade desperta à força de uma tragédia em larga escala. Da noite para o dia, todos são convocados a participar de um assombro mútuo, a recomeçar daqui para frente cúmplices de um mesmo trauma. “Formamos esta ligação com estranhos no luto”, disse numa entrevista a escritora Edwidge Danticat, que enterrou quatro parentes entre os duzentos mil mortos no terremoto do Haiti no ano passado. Mede-se com pudor a diferença entre as desgraças pessoais. A igualdade é mais profunda, incontornável, um sentimento de segunda pátria à qual agora se pertence independentemente da vontade. Não há lugar para a arrogância nem para o tédio. Sobretudo, não há lugar para o sarcasmo.

 

Mas existem os sobreviventes de outras terras devastadas, os que dizem sua miséria sem necessidade de uma palavra. São os que vivem em perpétua quaresma, os que peregrinam e respeitam à risca os fundamentos de uma regra como se fossem precursores de uma disciplina monástica. Não aprendem debruçados sobre os livros, aprendem com a instrução da violência, essa linguagem selvagem que treina o corpo a comunicar logo à primeira vista muitos anos de convívio com a fome. Pedem qualquer coisa e, na falta do mínimo, obrigam aqueles que se desculpam a engolir de novo sua culpa no meio da omissão generalizada. É como se a terra tremesse para alguns e para outros se aquietasse. Como se fosse possível isto, ao mesmo tempo a terra tremer e se aquietar, um despautério que é o nome da injustiça, o descampado das virtudes, a pobreza maior de alguém já não sentir nojo por tantas vezes ter cruzado as mãos nas costas quando as mãos de um outro precisavam.

 

O fato é que quando a arca do dilúvio sai de uma estampa bíblica e desce para a realidade, nem a descrença nem a ironia acrescentam alguma coisa a uma paisagem que foi reduzida a nada. Há de repente um compromisso, uma compreensão tácita de olhares, a semelhança revelada em milhares de mãos estendidas, um laço de sangue que o discurso da razão não pode fazer caber nos limites do racional. É esse instinto de fé, essa longa e sobre-humana tarefa da paciência, da diligência e da humildade que levanta pilares concretos para reviver dos escombros um homem e uma cidade.

 

 

 

 

 Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Domingo, 27.03.11

Lâmina atômica

A espada de Dámocles

 

Ferreira Gullar

 

 


 

Esta minha mania de dizer que a vida é inventada pode nos ajudar a ver mais claro algumas coisas. Por exemplo, a energia atômica sempre existiu, mas era como se não existisse, até que cientistas a descobriram e inventaram meios de utilizá-la. Isso poderia não ter acontecido, ou ainda não ter acontecido, dependendo de uma série de fatores. Tanto assim que, durante milênios, o homem viveu sem se valer desse tipo de energia.

 

Afora a força de seus braços, recorreu à tração animal, à força dos ventos e das águas, até que inventou modos de utilizar o vapor e a eletricidade. Mas lá um dia descobriu-se que a desintegração dos átomos poderia gerar uma energia muito mais poderosa do que todas as energias conhecidas. E poderia ser usada tanto bélica quanto pacificamente.

 

O uso bélico teve precedência: construíram-se bombas que, em Hiroshima e Nagasaki, mataram centenas de milhares de pessoas. Isso foi em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Aí começou a Guerra Fria e o equilíbrio de terror determinado pelos arsenais atômicos norte-americanos e soviéticos. O mundo viveu, então, décadas de pânico permanente, temendo todos os dias que algum fato aleatório provocasse a guerra nuclear e, com ela, o fim da humanidade, uma vez que aquelas duas potências militares dispunham de poder atômico capaz de liquidar várias vezes a vida no planeta. Bastaria que um foguete extraviasse, acidentalmente, e tomasse a direção de um daqueles países. Por sorte, isso não aconteceu, a Guerra Fria acabou e com ela a corrida atômica. Não obstante, os arsenais nucleares não foram inteiramente destruídos.

 

Além disso, outros países também possuem esse tipo de arma, e há ainda os que trabalharam para tê-la. De qualquer modo, a possibilidade de uma guerra atômica mundial parece descartada. Mas não a ameaça nuclear em si mesma.

 

Paradoxalmente, hoje, a ameaça maior, que restou e se mantém, está no uso pacífico da energia atômica, isto é, nas usinas nucleares espalhadas pelo mundo.

 

É evidente que o que me leva a escrever sobre esse tema, agora, é o terremoto que atingiu o Japão. Dele decorreu um tsunami devastador que atingiu a usina nuclear de Fukushima, a cerca de 240 quilômetros de Tóquio. Em poucas horas, o grau de radiação, provocada pela explosão de um dos reatores, subia mil vezes acima do nível normal. Duzentas e dez mil pessoas tiveram que ser, imediatamente, evacuadas da região.

 

Depois disso, apesar das providências tomadas pelos técnicos, mais três reatores explodiram, vazando vapor, cujas consequências, até o momento em que escrevo, ameaçavam contaminar a população da capital japonesa. Esse fato trouxe, inevitavelmente, à memória de todos, a explosão do reator central da usina de Tchernobil, em 1986, na antiga URSS, tido como o maior desastre nuclear já ocorrido. O total de mortos, ao logo dos anos, calcula-se entre 30 e 50 mil. Se no caso atual da usina japonesa, a causa foi natural, o acidente de Tchernobil, segundo os técnicos, foi provocado por erros humanos.

 

Como afirmar que não voltarão a ocorrer em qualquer outra usina?

 

A alta tecnologia das usinas japonesas não impediu o desastre, cujas consequências últimas ninguém pode prever. Tudo isso prova que não há garantia de segurança. E o lixo atômico, onde iremos sepultá-lo? Já se fala em pô-lo na órbita da Terra! Já pensou?

 

A pergunta que, inevitavelmente, as pessoas se fazem é: por que manter funcionando tais usinas, que são um risco permanente para todos os seres vivos do planeta? Não está escrito em nenhum livro sagrado que a energia atômica tem que ser mantida, a qualquer preço. Há outros tipos de energia no mundo, cuja produção é inofensiva.

 

Se a utilização das energias solar e eólica, em escala capaz de atender as necessidades atuais da humanidade, terá alto custo, não será maior que o das usinas nucleares, não apenas com sua segurança e manutenção, mas, sobretudo, com a perda de vidas humanas, a destruição do meio ambiente e os desastres econômicos, como o que agora atinge o Japão: cerca de US$ 250 bilhões.

 

Por que teremos que viver com essa espada sobre nossa cabeça?

 

 

Ferreira Gullar

Imagem: Piscina, de Eloar Guazzelli

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Sábado, 26.03.11

Dedicados a escrever

 

Para aqueles a quem os dias são um sopro

 

Mariana Ianelli

 

Raramente concede entrevistas este ermitão chamado António Lobo Antunes. Não vai a lançamentos, não aparece, não promove seus livros. Uma vez, convidado a encerrar um congresso de medicina, não hesitou em frustrar as expectativas declarando que “esperar que um escritor diga coisas interessantes é o mesmo que esperar de um acrobata que ande aos saltos mortais na rua”. Por muito que soe antipático, e com isso prove a outra face da fama, Lobo Antunes não participa da indústria do espetáculo por uma razão muito simples, talvez por isso mesmo incômoda, elementar feito água. Lobo Antunes não aparece porque, sendo escritor, está a escrever. Porque o tempo é curto para o que de melhor ele tem a fazer, e está fazendo – diante do papel, não dos microfones.

 

Há um certo escândalo em se abster do espetáculo quando vigora a lógica de que todo o tempo, por uma boa causa, pode ser negociável. Há um escândalo no sentido radical da palavra, o impedimento de uma lógica perversa que arrebata o escritor da sua mesa de trabalho para um palco, aparentemente em favor da própria literatura.

 

É esperado que, além de escrever, o escritor fale a respeito do seu livro, e fale sedutoramente, que seja cativante, que desperte e faça durar o interesse de uma plateia, que conte um pouco sobre o seu método de trabalho, sobre como faz para pensar o que pensa e dizer o que diz.

 

 

 

É esperado que ele dê mais do que o inefável de sua escrita, ele, que já falhou tantas vezes na vida, e falhou com tanta excelência a ponto de criar um mundo novo dentro da órbita do espanto de estar vivo, ele, que escreve desde sua solidão sem fundo, desde súplicas remotas, fazendo das suas perguntas sem resposta o seu poema, ele agora é este escritor que deve estar apto a responder, a fascinar, a surpreender, como quem volta de uma longa jornada e abre sua bagagem cheia de lembranças exóticas, histórias de além-mar, relatos de pequenas grandes peripécias por trás de suas cicatrizes, tudo isso transformado de chofre num livro vivo, numa proeza, num evento digno de aplauso, como um acontecimento que, para além dos inenarráveis fracassos pessoais que porventura alimentam a própria escrita, possa ser considerado o fato de uma conquista, a razão de um sucesso, a prova de que um livro antes escrito sem plateia e sem garantia de resposta é um livro que, afinal, merece ser lido.

 

Basta pensar no teor venatório da expressão “público-alvo” para ver que alguma coisa aí não faz sentido. Num auditório que reúne uma centena de pessoas com o propósito de ouvir a uma única pessoa, ali, de frente para todos, caberia a pergunta de onde está realmente o alvo, deste lado ou do outro. Porque, ao fim e ao cabo, num verdadeiro encontro entre o escritor e seus leitores, não há quem não saia atingido, quem não se reconheça nas mesmas antigas interrogações de um único homem que, há muito tempo, nos confins da Arábia e do país de Edom, por falta de um consolo para a angústia que sentia, não encontrou outra saída senão cantar, e, assim, dentro de um longo poema, cantando, perguntava por que ele era cercado por todos os lados, vigiado, tomado por alvo, agarrado pela orla de sua túnica, confundido com o pó e a cinza.


 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Domingo, 20.03.11

Sol lá fora

 

Tudo o que cresce precisa de muito tempo para crescer

 

António Lobo Antunes

 

 

 

 

E começo a ter o livro. Quer dizer, sinto-me pronto a escutar as vozes que guiam a mão, já consegui despir-me interiormente de tudo o que não é ele, respiro palavras, como palavras, deito-me com palavras, acordo com palavras, os murmúrios interiores não cessam, vou começar. É apenas disso que necessito para começar: não ter mais nada dentro a não ser a obra e o que existe à minha volta se esbater até deixar de existir. Julgo que, por fora, não se nota, tenho a certeza que, por fora, não se nota. E o que vem até mim ou entra no livro ou é rejeitado.

 

Cheguei de França, tenho de ir a Espanha e mal volte de Espanha principio. Ao fim de dois ou três meses o material torna-se sólido, ou antes um núcleo sólido a que se vão acrescentando filamentos, cicios, murmúrios, pedacinhos de coisas, parágrafos, afinal inúteis, que se desprendem, permanecem um momento a vogarem, somem-se, um após outro, além das fronteiras que me limitam.

 

Ou não bem limitam, me cercam e mudam, porque o país que sou se altera, encolhe, cresce, anexa estranhas regiões desconhecidas, cujo idioma tento entender a pouco e pouco. Meu Deus, existem dúzias de línguas diferentes cá dentro, para as quais vou construindo uma gramática, de início rudimentar e depois progressivamente mais complexa.

 

Quem não inventa uma língua junta linhas, não escreve.

 

Acabo de chegar de Espanha nem há uma hora sequer, comi com alguns dos escritores de que mais gosto, Juan Marsé, Ana Maria Moix, o grande crítico Ignacio Echevarría. Juan e Ignacio acabaram agora cada qual o seu trabalho: um belíssimo romance chamado Caligrafia dos Sonhos e uma antologia de textos de Rafael Sánchez Ferlosio, na minha opinião a melhor mão viva de Espanha, julgo que nunca traduzido em Portugal (porquê?) que deu a mais perfeita definição de um escritor ao referir-se à primeira (acho que primeira) mulher, a também escritora Carmén Martin Gaíte:

 

- Carmén é uma viúva que tem o morto em casa.

 

Acabo de chegar de Espanha (Sánchez Ferlosio é inclassificável) revejo os poucos apontamentos que juntei para o livro e decido:

 

vou iniciar isto no dia 25 de fevereiro,

 

em homenagem ao aniversário de um amigo muito querido. Vai ser um texto longo, apetece-me segregar um texto longo com a mulher que me apareceu e anda cheínha de vontade de começar a abrir a boca.

 

Conserva-a fechada até ao dia vinte e cinco se faz favor.

 

No caso da pessoa que está sentada no escuro à minha espera consentir, publica-se lá para o fim de 2013. Carmén é uma viúva que tem o morto em casa. Anita Moix está com um romance. Andam todos a trabalhar menos eu. As traduções não param de me chegar a casa. E eu sem fazer nada, raios partam, adianto estas crónicas para ter espaço, mas as crónicas são um galope diferente, que me seca a cadência do livro e me atrapalha o ritmo.

 

O segredo de escrever é ser estrábico, ter um olho na bola e outro nos jogadores. Em miúdo espantava-me que os olhos dos lagartos fossem independentes um do outro, mas quando comecei nesta vida descobri-me lagarto numa pedra, à coca, muito quietinho, rodando as pupilas para sítios diferentes, guloso da mosca de uma frase.

 

Descobri também que o passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não pára de se transformar.

 

Lá vêm os mortos, diferentíssimos

 

- Olá, rapaz, que tal ficamos assim?

 

e eu a demorar a reconhecê-los, surpreendido, a escutar

 

- Sou este, sou aquele a olhar melhor, a concordar

 

- De facto e a ter de passar a existência a limpo para a adaptar àquilo. Terei mesmo o livro, será este?

Eu para Juan Marsé

 

- Será o livro?

 

ele

 

- Daqui a dois anos sabes e daqui a dois anos sei, mas daqui a dois anos o que será de mim?

 

Gosto de Barcelona com sol, gosto de falar de bola com os choferes de táxi. Carmén é uma viúva, etc. Jornal atrás de jornal, televisões, conferências, a maneira das espanholas cruzarem a perna até ficarem parecidas com chamas de vela e eu a acertar as pupilas de lagarto para as focar melhor.

 

Não tive tempo para estar com o pintor Albert Cruells que sorri com o corpo todo. E, atrás das casas, escondido, o mar. Tão escondido como o hotel, demasiado à vista, com cujo endereço nunca atino. A fotógrafa colombiana, arrastando botas de soldado de um exército perdido, que não pára de me tirar retratos.

 

Mostra-me fotografias de escritores, coisa que nunca me interessou (quero lá saber como são ou eram as caras deles) e eu a fingir que vejo para não parecer mal educado. E um caderno inteiro com imagens de um romancista que não me agrada por aí além, desde pequeno, nas suas diversas metamorfoses a caminho do insecto perfeito, de óculos escuros e gola para cima, severo, profundo. Encontrei-o em Paris há uns meses, grave e trágico. Acho que nunca o vi sorrir, sempre a tomar pastilhas, esquisitíssimo.

 

O jardim zoológico dos literatos e afins deixa-me sempre de boca aberta. Com o tempo conheço-os a todos, e aqueles que me interessam são pouquíssimos. Hoje, doze de fevereiro, faltam treze dias para o livro.

 

O que farei até lá?

 

Ler, com ganas de começar logo a corrigir o que leio. Agora, de novo em casa, posso fechar-me outra vez, não ver ninguém, não ter opiniões, não dar respostas, não dizer - Obrigado não fingir que me interesso enquanto penso noutra coisa. Apetece-me estar a sós comigo, na minha cadeira, em paz. De vez em quando um morto

 

- Lembras-te de mim?

 

e não sei se me lembro de ti. Lembro-me de hoje ter acordado a meio da noite a pensar que era feliz, e de voltar a adormecer agarrado a um brinquedo que não havia. Devo ser feliz porque há sol lá fora. Em havendo sol lá fora não preciso de mais nada. Até os móveis me parecem contentes.

 

Como se acaba esta crónica?

 

É simples: põe-se um ponto final. Aqui está ele: .

 


António Lobo Antunes

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Sábado, 19.03.11

Escondidos atrás da arte

Palimpsestos

 

Mariana Ianelli

 

Uma grande mulher por trás de um grande homem foi o que descobriu recentemente um restaurador do Museu de Belas Artes de Astúrias, na cidade espanhola de Oviedo. Trata-se de uma figura feminina pintada sob El Retrato de Jovellanos en el arenal de San Lorenzo, de Francisco Goya. Embora a identidade da mulher seja desconhecida, a radiografia de seu porte e seu vestido dá pistas de alguém pertencente à nobreza.

 

Gaspar Melchor de Jovellanos, o homem retratado, cujo braço apoiado à cintura enlaça invisivelmente o braço da jovem escondida atrás dele, foi um personagem eminente de sua época, acadêmico, jurista, filósofo, ávido leitor dos clássicos latinos, ele mesmo autor de vários poemas, peças teatrais e romances.

 

 

Impossível resumir a atuação de Jovellanos nos assuntos políticos, econômicos e sociais que rodearam sua intensa jornada de vida pública. Membro da Academia da História, da Sociedade Econômica de Madri e da Academia de Cânones, Liturgia, História e Disciplina Eclesiástica, além de ministro da Graça e da Justiça, foi um homem coerente com sua ideia de que só falta tempo a quem não sabe aproveitá-lo. Seu espírito audacioso e de embaraçosas virtudes para a época lhe rendeu, além de amigos ilustres, como Goya, inimigos digníssimos, como a rainha María Luisa.

 

¡Oh vilipendio! ¡Oh siglo!/

Faltó el apoyo de las leyes.

Todo/ se precipita: el más humilde cieno/

fermenta y brota espíritus altivos,/

que hasta los tronos del Olimpo se alzan.

 

Versos como estes ilustram bem não só a postura de Jovellanos contra uma aristocracia degenerada como fazem presumir os motivos que o levaram para a prisão em Palma de Mallorca em 1801.

 

Jovellanos era também colecionador de livros e quadros. Corre que suas ideias exerceram grande influência sobre Goya, que chegou a usar o verso de uma de suas sátiras no segundo Capricho.

 

Quinze anos depois de El Retrato de Jovellanos en el arenal de San Lorenzo, Goya retratou mais uma vez o amigo, agora em uma obra com atmosfera algo melancólica, Jovellanos sentado, rosto apoiado na mão esquerda, o olhar pensativo de quem vê e não vê. Um retrato muito diferente daquele primeiro, em que se esconde sob as tintas de um homem altivo e confiante o corpo de uma mulher, que, embora não se saiba ao certo quem é, poderia ser a Enarda de um poema do próprio Jovellanos, um amor de juventude que ele fez questão de preservar na sombra:

 

Quiero que mi pasión ¡oh Enarda! sea,/

menos de tí, de todo ignorada;/

que ande en silencio y sombra sepultada,/

y ningún necio mofador la vea/ (…)/

Amor es un afecto misterioso/

que nace entre secretas confianzas/

y muere al filo de mordaz censura.

 

Curiosamente, Jovellanos era também amigo de Antonio de Porcel e sua esposa, ambos retratados por Goya. O quadro de Don Antonio de Porcel, de 1806, teve o destino trágico de cento e cinquenta anos depois ter sido destruído em um incêndio no Jockey Club de Buenos Aires. Já o faustoso retrato em negro de Doña Isabel de Porcel guarda uma misteriosa cumplicidade com El Retrato de Jovellanos en el arenal de San Lorenzo. Também sob esse quadro existe uma outra pintura oculta: a figura de um homem.

 

Palimpsestos em pintura não são raros, como tem revelado a tecnologia avançada no trabalho de pesquisa de restauradores, que já desvendaram pela técnica de raios-X obras inteiras debaixo de quadros Edvard Munch, Jean-Baptiste Camille Corot, Hieronymus Bosch. Casos assim podem dizer muito sobre uma composição desde o seu primeiro esboço, sobre os caminhos incertos e mutáveis de um processo de criação. Dizem também mais do que isso, mais do que propõem as especulações no campo da ciência e da teoria da arte.

 

Palimpsestos falam de histórias recônditas, de um rosto debaixo de outro rosto, de uma página sobreposta a outra, tudo aquilo que existe subterraneamente e sobrevive, como a própria essência do pensamento, mantido em zona de penumbra, gravado porém com letras de fogo, guardando-se para o momento certo de ser revelado. Segredos da vida por trás da arte.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Sábado, 12.03.11

Vislumbre do infinito

Ciclópico, desmesurado, fenomenal

 

Mariana Ianelli

 

Folhear um dicionário analógico é, de partida, entrar na palavra cosmurgia. Usando uma expressão de Gonçalo Tavares, é algo assim como ingressar num “armazém metafísico” e perder-se numa baralhada de reflexões com energia para gerar muitas vidas.

 

Uma única palavra tem o efeito do grão que faltava para precipitar o sal dos mares, centenas, milhares de possibilidades e aproximações que estavam ali, no fundo do silêncio, só esperando o mote para ser glosado, o primeiro sopro que desperta e põe a máquina do mundo em movimento. Um luxo no passeio dos contemplativos, um dicionário como esse pode levar a um estado de excitação mental a ponto de ocupar o lugar da maior e melhor oficina de poesia.

 

Um bom medidor da intensidade dessa experiência poética é quanta tentação o livro nos inspira a elaborarmos nós mesmos a nossa galáxia pessoal de analogias, em dimensões proporcionais ao universo da nossa linguagem, uma espécie de cubo mágico de palavras que se ligassem umas às outras de acordo com a nossa própria astronomia. Pinçar, por exemplo, a palavra esquecimento e indagar o que ela nos atiça. Esquecer, redimir, desatentar, perder para o escuro, deitar uma pedra em cima – e assim é dada a largada para uma série potencialmente interminável de associações e diferentes matizes que uma palavra suscita dentro da nossa vida. Amar, abraçar sem a restrição da despedida, celebrar que o outro exista, alegrar-se com o pão, o quarto escuro, a fome e tudo o mais que seja repartido.

 

Pensando, então, em uma oficina poética, vale imaginar o dicionário analógico de Borges, algo possivelmente muito próximo do seu Livro de Areia. E que maravilhoso verbete dedicado a Deus no dicionário de Hilda Hilst – Sem Nome, sutilíssimo amado, relinho do Infinito, Cara Escura, Pássaro-Poesia, brusco Inamovível, cavalo de ferro colado à futilidade das alturas, Aquele Outro decantado surdo, O Grande Rosto Vivo, Grande Obscuro, Máscara do Nojo, Cão de Pedra, Grande Incorruptível, Cara Cavada, Sorvete Almiscarado, Tríplice Acrobata, Lúteo-Rajado, Querubim Gozoso, O Mudo-Sempre, Porco-Poeta, Grande Corpo Rajado, O Sumidouro, superfície de gelo ancorada no riso, Coisa incomensurável, Grande Perseguidor e Grande Perseguido, Caracol de Fogo, Grande-Olho, Obscura Cara, O Inteiro Desejado – e outros nomes mais, que, honrando o nome primeiro, inspiram uma lista sem fim.

 

No texto introdutório do dicionário analógico da língua portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, Chico Buarque diz que recebeu esse livro de seu pai como um bastão, e com essa herança escreveu muitas canções e decifrou enigmas. Obcecado pelo dicionário, chegou a correr os sebos para tentar deter o monopólio dos raros exemplares que na época existiam. Com a nova edição, publicada no ano passado, Chico sentiu-se espoliado do seu tesouro particular. É compreensível. Um livro assim guarda um vislumbre do infinito.

 

 

 

 


 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Domingo, 06.03.11

A arte que se afirma necessária

A obra necessária

 

Ferreira Gullar

 

 


 

Se é verdade, como tenho dito, que a arte só revela a realidade inventando-a, devo logicamente admitir que as pessoas podem se sentir instigadas, para inventá-la, a lançar mãos de recursos expressivos novos. Por isso, seria um contrassenso afirmar que só as linguagens artísticas consagradas - pintura, escultura, gravura - podem servir à expressão dos artistas. Na verdade, eles podem se valer de todo e qualquer recurso para se exprimirem e se inventarem. Logo, não há por que rejeitar, in limine, as manifestações do que se chama de arte conceitual ou contemporânea.

 

Tal afirmação, vinda de mim, pode surpreender os que me têm como crítico implacável dessas manifestações, mas a verdade é que, mais de uma vez, escrevi textos elogiosos sobre algumas delas. A questão, portanto, não é esta. De qualquer modo, como na maioria dos casos não me identifico com esse tipo de manifestação, procuro também rever minhas opiniões e tentar compatibilizá-las com aquela necessidade de invenção que define toda arte.

 

Não resta dúvida de que o mundo de hoje pôs nas mãos das pessoas novos recursos tecnológicos, meios outros de comunicação e criação de formas, tanto no espaço como no tempo, e tudo isso gera novas possibilidades de inventar mensagens e imagens inusitadas. É natural, portanto, que os artistas se sintam tentados a abandonar as técnicas de expressão tradicionais e busquem criar, com os novos meios, um inesperado universo de relacionamentos semânticos.

 

Essas novas experimentações diferem, no entanto, de outras que, de fato, visam negar a arte mais do que propor novos caminhos. Por exemplo, Marcel Duchamp, ao eleger um urinol como obra de arte, está afirmando que o objeto dito artístico pode ser feito sem o propósito de produzir arte. Essa visão negativa alcança um limite quando um cara põe merda numa lata e a envia a um museu. Não é difícil perceber o que o autor da proeza pensa da criação artística.

 

Numerosos são os exemplos de manifestações, como essa, que não passam de "boutades" niilistas, cujo propósito é negar sentido ao trabalho do artista. Noutro plano, situam-se as instalações e performances que nos mostram a realidade, em vez de inventá-la ou reinventá-la, através da linguagem da arte. São os exemplos de Marina Abramovic - que pôs casais nus no MoMA - ou de Tunga, que leva as pessoas a observarem larvas de moscas pelo microscópio.

 

O exemplo mais abjeto desse tipo de manifestação foi o do sujeito que prendeu um cão numa galeria de arte e o deixou lá até morrer de fome e sede.

 

Ainda que diversas em seu propósito, tais manifestações resultam do fato de que, sem linguagem, o artista apenas mostra coisas reais em lugar de recriá-las, como a arte sempre fez. Isso não significa que, fora das linguagens artísticas consagradas, não se possam realizar obras expressivas, de indiscutível força, beleza e senso de humor.

 

O problema talvez esteja no fato de que, não tendo uma linguagem própria, o artista se encontra a braços com uma experiência sem limites, que o leva, com frequência, a perder-se na gratuidade do que concebe. A tendência, por isso, é entregar-se ao exótico ou à extravagância, ao invés de buscar o rigor e os limites necessários à realização estética, qualquer que seja o meio que utilize.

 

A obra tem que, por sua qualidade, afirmar-se necessária a quem a aprecia. Aí reside o xis da questão. Porque toda obra de arte é uma invenção, o artista, ao começá-la, nunca sabe como ela será quando concluída. É que, em sua elaboração, os fatores casuais têm papel decisivo: realizá-la é tornar necessário o que surgiu por acaso.

 

Isso explica por que a maioria das obras de arte dita contemporânea - carentes de qualquer rigor na sua realização, já que não nasceram de uma linguagem - mostram-se como algo gratuito: falta-lhes esse traço de expressão "necessária" que define a criação artística.

 

Exemplo: na "Monalisa", de Da Vinci, como na "Noite Estrelada", de Van Gogh, nada excede nem falta - tudo é necessário, isto é, tornou-se necessário.

 

Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

Imagem: Pintura de Giorgio Morandi

publicado por ardotempo às 13:53 | Comentar | Adicionar

O rosto limpo

Como se chegasse a nossa hora vespertina

 

Mariana Ianelli

 

É um momento de raro equilíbrio, quando não esbanjamos mais tantas oportunidades e ainda não temos as mãos vazias. Os caminhos continuam abertos, mas alguma história já foi escrita e essa história nos acautela, pesamos o risco de estradas desconhecidas. Não temos muito nem pouco tempo, temos tempo suficiente. O corpo fica mais lento, experimenta a noção de volúpia, é um corpo que se perdoa por não ser mais tão cheio de energia.

 

É um momento de trégua de velhas disputas, a esperança volta, sem ingenuidade, agora um sentimento novo, cruento, difícil. Podemos ficar sentados à mesa entretidos com um pensamento por horas e horas, como um enxadrista. Exploramos pequenos prazeres, nossa fluência na língua dos gestos, aos poucos vamos nos tornando mestres na arte de falar em silêncio. Conhecemos bem aquela sala penumbrosa, com cheiro nauseante de gérberas e lírios, candelabros nos quatro cantos, estivemos ali muitas vezes, com a nossa cara compungida. Ficamos atentos aos indícios. 

 

Deitamos no escuro e conversamos conosco, vem a centelha, a grande solução, depois caímos no sono e esquecemos tudo. Já blasfemamos, arremetemos, amealhamos alguns desafetos, pecamos por ingratidão, chegamos ao excelente desempenho do nosso ódio. Agora queremos um pouco de delicadeza, ter a quem confiar a nossa parte humana dada à embriaguez e ao desastre. Sabemos melhor e mais fundo quais os nossos pontos fracos, aprendemos a rir das nossas rabugices, a nos reconhecer na dor alheia quando colocamos os nossos olhos nos olhos de um outro e o que vemos é dança involuntária e cor de bronze de lacraia torturada pelo fogo.

 

É como se chegasse a nossa hora vespertina, um ritmo moderado de meio de expediente, um sentido de geração parecido a uma vaga sensação de desperdício, o pressentimento de uma fábula moderna do incêndio de muitas outras bibliotecas alexandrinas, mas, na aritmética de desencantos e alegrias, provando do livrinho da vida, sentimos ainda um gosto doce, nosso saldo ainda é positivo. Daqui para amanhã é cuidar para que não nos aconteça aquele “sabor de promessa falhada” de um dos mais belos e tristes poemas de Mario de Andrade. Cuidar que seja um rosto limpo, sem rancor e sem vexame, o rosto que vier, oráculo do nosso passado.

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Pernambuco - Diário Oficial do Estado

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Sábado, 05.03.11

Manda mosca

Inverno

 

António Lobo Antunes

 

Dias gelados, tristes e feios, que apesar de curtos me parecem intermináveis. A luz acesa muito cedo sobre os móveis melancólicos, nos quais a chuva lá de fora dá ideia de tombar. Acabei um livro no mês passado e a minha cabeça, oca, demora-se no tecto. Nem uma memória nem um presságio: vazio, junto a um calorífero que frita mais do que aquece. O telefone de vez em quando: as pessoas dizem coisas. Não me dizem grande coisa.

 

Leio, sem vontade, não importa o quê. A humidade enche-me os ossos de água parada: sinto-me uma espécie de charco com folhas podres à tona. Se chego à varanda gente apressada, automóveis a garantirem que não com os limpa-vidros, distinguem-se mal as pessoas nos carros.

 

- Se ao menos penso eu,

 

e depois penso

 

- Se ao menos o quê?

 

A agência de viagens em frente sem clientes, a merceariazinha dos paquistaneses, que mal me entendem, vazia. Os paquistaneses escuros, secretos. Conheci uma outra mercearia mais acima, de outro paquistanês, que presidia ao balcão com as suas duas mulheres. A última tarde que lá fui segredou-me

 

- Não se vende nada, vou fechar.

 

Perguntei-lhe

 

- Para trabalhar onde?

 

e a cara caiu-lhe ao comprido dos ossos:

 

- Não sei.

 

A loja desapareceu, ele e as mulheres também: mudaram-se não faço ideia para onde. Um sujeito gordo, bem disposto, de barba. Gostava de conversar com ele, gostava de saber o que lhe aconteceu. E às duas mulheres, sempre impassíveis, misteriosas.

 

Interessei-me

 

- Dão-se bem uma com a outra?

 

e o sujeito gordo

 

- Têm de dar

 

enquanto elas me fitavam para além de mim, uma mais velha, outra mais nova, quase tão feias como este dia, chinelando em silêncio.

 

O sujeito gordo uma barba grisalha:

 

- Têm de dar

 

e elas plantadas à espera não se percebia de quê, de lenço, opacas.

 

Veio-me à ideia a frase de Oscar Wilde, bigamia é ter uma mulher a mais; monogamia também, e passou na rua a senhora de boina, reformada dos seguros, a morar com a mãe paralítica. Muito gorda, move-se numa majestade de navio de carga, quase deixando um rastro de gaivotas no passeio: quer dizer, onde os outros notam pombos eu noto gaivotas, que bicam não gasóleo, pontas de cigarro, caricas, papéis, porcaria.

 

A senhora sorri-me dentro de uns óculos enormes, cheios de dioptrias benevolentes. Deve ter uma vida de inferno e sorri.

 

- A gente habitua-se a tudo

 

esclarece ela

 

- A gente habitua-se a tudo

 

e a gente habitua-se a tudo, de facto, só eu é que não me habituo ao inverno.

 

Compra revistas cor de rosa no quiosque, cochicha com a dona. Acerca da mãe? Da vida? Do facto de a gente se habituar a tudo?

 

Em Vila Praia de Âncora as gaivotas poisam na varanda do Licínio, que andou comigo em África e tem um quase museu referente à guerra na garagem. Livros, fotografias, granadas, um ror de objectos. Sabe tocar acordeão. Eu não sei tocar nada: Uma boa parte sua continua em Angola, fala da tropa no presente, conserva tanto material, para ele precioso, e para mim dores passadas que, de longe em longe, tornam. Mas há gaivotas poisadas na varanda e, na minha, nem um pardal para amostra.

 

Vila Praia de Âncora, o mar, tão lindo, meu Deus. Não esqueço o jantar na casa dele, a ternura e a fidalguia com que me trataram, estava eu a ser feliz ali perto, em Caminha. Quase em Caminha, no meio do campo, a tirar o saco do pão da maçaneta da porta: há lá país mais bonito do que o meu, há lá língua mais bonita.

 

Se lhe tirassem a televisão e os políticos era um sítio perfeito. E os jornais, já que estamos com a mão na massa.

 

No jantar do Licínio o Costa, rádio também:

 

- Manda mosca, manda mosca

 

gritavam eles para os aparelhos. Alfa, Beta, Charlie, Delta, Eco, Fox-Trot, Golfe, Hotel, etc., olha, nem sabia que me recordava disto e, com isto, aluvião de nódoas negras.

 

Em que sítio estará o paquistanês das duas mulheres? Nunca as vi contentes: mudas e graves, sempre. Pequeninas.

 

- Manda mosca

 

e lá chegava o helicóptero. Pequeninas, com roupas que se me afiguravam sobrepostas. E se eu vivesse com elas? Dormem os três na mesma cama? Não arranjei coragem para me informar. O meu pai contou-me que em Benfica havia um homem com duas mulheres também, todos muito satisfeitos, e que lhe chamavam o Zé do Meio. Tinha uma carroça. Mal o Zé do Meio morreu começaram as discussões entre as esposas. Para andar com aquilo tudo na ordem o Zé do Meio devia ser um sujeito e pêras. E não uma carroça de burro, uma carroça de mula, que exige mais autoridade. Segundo o meu pai, e jamais lhe escutei uma mentira, o Zé do Meio bebia que se fartava e ao entrar em casa malhava logo na família. As bofetadas, distribuídas, custam menos. A mula recebia também a sua parte e, por conseguinte, a harmonia era total. Comia a mula e comiam elas, que mais se pode desejar? Isto no topo da Travessa dos Arneiros, quase ao pé do cemitério, uma zona de respeito, que eu evitava no pavor que um esqueleto me perseguisse. Até hoje nenhum me aborreceu, a cochichar atrás de mim

 

- Chega aqui, menino

 

mas dá azar afirmar isto porque a regata ainda não acabou. Um dia, estou eu descansado da silva, e começa um agitar de ossos no corredor. Se tivesse as paquistanesas pedia-lhes que averiguassem o que se passava:

 

- Cheguem ali ao corredor a ver o que se passa

 

e elas iam, que remédio, mudas e graves, de maneira que em vez de me comer a mim o esqueleto as comia a ambas.

 

Dias gelados, tristes e frios.

 

Peço ao Licínio

 

- Manda vir a mosca

 

o Licínio agarra-se às manivelas

 

- Manda mosca manda mosca

 

subo para o helicóptero, explico ao piloto

 

- Leve-me a Agosto

 

e dali a nada estou de papo para o ar, na praia, a olhar sorvetes e a lamber biquinis, perdão, ao contrário, a olhar biquinis e a lamber sorvetes. Pensando bem, a primeira frase fica melhor.

 

 

 

 

 

António Lobo Antunes

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Quinta-feira, 03.03.11

Llvros andando pelo mundo

Moacyr

 

Luis Fernando Verissimo

 

Eu brincava com o Moacyr Scliar e dizia que ele era a vergonha da classe literária: um escritor que não bebia. Ou, pior, só bebia Malzbier. Ele também tinha horror a peixe, contava com muito humor seu martírio diante de sushis e sashimis quando visitou o Japão. Viajamos juntos algumas vezes, mas ele me ganhava em matéria de trotear pelo globo.

 

Certa vez nos encontramos em Carlos Barbosa, no interior do Rio Grande do Sul, mas foi um encontro muito rápido, ele estava indo dali a minutos para Tocantins! O Moacyr vivia assim, de Carlos Barbosa para Tocantins, com escalas em Nova York e Paris, sem perder os chás da Academia nas quintas. Eu invejava seu talento e sua estampa de príncipe russo, mas invejava, acima de tudo, suas milhas acumuladas.

 

Era uma pessoa extremamente generosa e solidária. Quando um leitor me chamou de antissemita no jornal, o primeiro telefonema que recebi foi do Moacyr dizendo para não dar bola, ele mesmo já tinha sido chamado de antissemita várias vezes pela sua posição no conflito de Israel com os palestinos. Sua preocupação com saúde pública e com a questão social vinha dos seus tempos de estudante de Medicina e se refletiu desde o começo na sua obra literária. Que nunca foi panfletária, mas sim encharcada de humanismo e compaixão – mesmo quando tratava de personagens em guerra com o mundo.

 

Nenhum outro escritor brasileiro, que me ocorra, dominou, como o Moacyr, aquela estreita faixa da imaginação entre o cômico e o trágico também frequentada por Kafka, Vonegut e alguns poucos outros. E ele foi o único praticante, no Brasil, do melhor humor judaico, com suas narrativas urbanas e modernas que nunca deixavam de evocar arquétipos e mitos antigos, como se dispensadas por um xamã tribal num bar do Bom Fim, o bairro judeu de Porto Alegre.

 

Sua obra foi extensa, mas meus Scliars favoritos são A guerra no Bonfim, O exército de um homem só e Os voluntários, talvez por serem dos seus primeiros livros, os que revelaram sua originalidade. Nos enchíamos de orgulho, um pouco por bairrismo gaúcho e muito pela nossa velha amizade, sempre que em qualquer livraria da Europa ou dos Estados Unidos víamos os livros traduzidos do Moacyr numa prateleira. Os livros, pelo menos, vão continuar a andar pelo mundo.

 

Luis Fernando Verissimo

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Domingo, 27.02.11

A paciência tem limites?

O povo desorganizado
 
Ferreira Gullar
 
O fim da ditadura de Hosni Mubarak, no Egito, pode suscitar indagações acerca das consequências que podem advir dela, mas num ponto todas as opiniões parecem coincidir: foi o povo desorganizado que pôs abaixo o regime autoritário que durara 30 anos.
 
No Egito havia - e ainda há - numerosos partidos e organizações sociais que, de uma maneira ou de outra, vinham atuando na vida do país. Mas não partiu de nenhuma delas a mobilização popular que, concentrada na praça Tahrir, durante 18 dias, obrigou o ditador, obsessivamente apegado ao poder, a abrir mão dele. A fagulha que incendiou a nação egípcia foi o suicídio de um jovem, em resposta ao abuso da repressão policial.
 
Esse gesto desesperado despertou a revolta inicialmente de algumas dezenas de jovens, depois de centenas, de milhares e finalmente de milhões de cidadãos. Ignorando o poder repressivo do regime, foram para a rua, ocuparam a praça e receberam o apoio do povo egípcio. O povo desorganizado se mobilizou e através da internet passou a coordenar suas ações e seus objetivos. 
 
Parece um milagre? Pode parecer, mas não é. A razão disso é que o povo é, de fato, o detentor do poder, esteja ele organizado ou não.
 
Essa rebelião popular espontânea leva-me a refletir sobre o que chamo de "povo desorganizado". 
 
O que é, então, o povo organizado? Certamente aquelas parcelas da população que atuariam nos sindicatos e em outras entidades profissionais, estudantis e culturais. O objetivo de tais organizações, ao serem criadas, é defender os interesses das categorias e classes sociais que representam. A verdade, porém, é que isso nem sempre acontece e pode até mesmo ocorrer que tais organizações passem a se valer de sua suposta representatividade para atuar contra os interesses que deveriam defender.
 
Isso pode acontecer de várias maneiras, especialmente nos regimes autoritários. Por exemplo, no Brasil, quando os militares tomaram o poder, prenderam as lideranças sindicais e as substituíram por agentes do regime. A partir de então, essas entidades, que deveriam representar o povo organizado, agiam em sentido oposto, isto é, impedindo toda e qualquer manifestação contrária ao governo. Por isso que a primeira grande manifestação popular contrária à ditadura - a passeata dos Cem Mil - nasceu da mobilização espontânea de intelectuais e artistas que, em face da repressão policial, se concentraram num teatro e dali apelaram para a solidariedade da população, que aderiu a eles.
 
Mas essa noção da potencialidade política do povo desorganizado deveria ser acionada também no estado democrático, quando as entidades, que deveriam lutar pelos direitos da população, são cooptadas pelos que exercem o poder.
 
No Brasil, temos um péssimo exemplo: o de Getúlio Vargas, que, ao criar o imposto sindical, anulou a combatividade dos sindicatos de trabalhadores. Foi uma medida maquiavélica. Enquanto em outros países os sindicatos nascem da conscientização dos trabalhadores, que neles se organizam e os mantêm com sua contribuição mensal, os nossos, sustentados pelo imposto que é cobrado de todos os assalariados e controlado pelo governo, dispensam a participação efetiva dos assalariados.
 
Noutras palavras, são entidades-fantasmas, que não nasceram da necessidade dos empregados de se organizarem em entidades que defendam seus direitos. Por isso mesmo, poucos são os trabalhadores que delas participam, enquanto os oportunistas, com o apoio de minorais organizadas, passam a dirigi-las, impondo-se como lideranças fajutas.
 
Através delas, vinculam-se a partidos políticos, elegem-se deputados, tornam-se ministros e passam a atuar na vida política. Como a maioria dos trabalhadores ignora tudo ou quase tudo do que estou dizendo aqui, esses impostores passam por ser líderes de verdade e servem de "pelegos" para manter os trabalhadores submissos aos jogos de interesses.
 
Agora, mesmo esses falsos líderes apresentaram-se como defensores de um aumento do salário mínimo maior que o oferecido pelo governo, num jogo de cartas marcadas, demagógico, cujo resultado estava previsto.
 
E assim as coisas irão até que, um dia, o povo desorganizado perca a paciência e acabe com essas lideranças de araque e esses sindicatos de mentira.
 
Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL
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Sábado, 26.02.11

Fissura

Por onde a luz penetra
 
Mariana Ianelli 
 
 
Já faz quase seis anos, milhares de peregrinos atravessavam uma ponte sobre o rio Tigre a caminho da mesquita de Kadhimiya, em Bagdá, quando o boato de um homem-bomba entre os fiéis, com equivalente efeito explosivo, provocou a morte de quase mil pessoas, a maioria mulheres e crianças.
 
Foi também como um boato que a transmissão radiofônica da Guerra dos Mundos, de H.G.Wells, detonou uma histeria coletiva nos EUA em 1938. Os marcianos acabavam de aportar no Estado de Nova Jersey a bordo de um meteoro. A guerra começava. Orson Welles, autor da ideia da leitura do livro na rádio, simplesmente enriqueceu o urânio da ficção transformando-a numa verdadeira bomba jornalística. É uma radiância que escapa por esse intervalo de sombra entre o fantástico da literatura e a suposta objetividade da notícia. 
 
Nesse lugar de sombra também Edgar Allan Poe se colocou para escrever e publicar em uma revista, em 1842, O Mistério de Maria Roget, uma investigação do assassinato fictício de uma moça parisiense, cujas misteriosas circunstâncias remontavam às de um crime real, de uma garota chamada Maria Cecília Rogers, assassinada em Nova York. A solução do caso, só encontrada na época da publicação do artigo, confirmava o desfecho da investigação de Poe. Para Dostoievski, bastou a notícia de uma costureirinha ter se atirado do sexto andar de um prédio, agarrada a um ícone da Virgem, para que surgisse dois meses depois a novela A Dócil. Fazendo o caminho inverso, o escritor e jornalista argentino Rodolfo Walsh se serviu dos reposteiros da ficção para narrar no conto Essa Mulher a cena tenebrosa da sua entrevista, em 1961, com Carlos Eugenio de Moori Koening, responsável pela operação de sequestro do corpo embalsamado de Eva Perón. Dezesseis anos depois, salta da ficção a realidade: um comando militar persegue e mata o escritor em plena rua, em Buenos Aires, e seu corpo entra para o rol dos desaparecidos.
 
Como dizia o poeta, há uma fissura, um rasgo, um vão em cada coisa, e é por aí que a luz penetra, nesse lago de enguias onde os fatos, por si só, pouco explicam, nesse lugar da intuição sem propósito definido, na fábula de um homem que, fugindo da morte, vai ao seu encontro, no abraço à imagem da Virgem em queda livre.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve
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Segunda-feira, 21.02.11

A conveniência dos arranjos

Realpolitik


Luis Fernando Verissimo


Realpolitik é um termo alemão que significa política realista, pragmatismo, o sacrifício de ideais puros por objetivos práticos e o uso de meios espúrios para fins supostamente nobres. Resumindo: “realpolitik” é o nome que se dá ao processo pelo qual você vota no PT e elege o PMDB.


O chanceler Otto von Bismarck, que dominou a política alemã durante boa parte do século 19, era adepto da “realpolitik” mas o melhor exemplo que deu, sem querer, da sua tática nada teve a ver com questões de Estado. Está no livro do Edmund Wilson Para a Estação Finlândia. Bismarck disse ao socialista Ferdinand Lassalle que se ele pretendia ter sucesso na política deveria 1) adquirir uma propriedade rural e 2) casar com uma mulher feia. A propriedade rural lhe daria uma respeitabilidade senhorial que o ajudaria mesmo na sua pregação socialista e a mulher feia, presumivelmente, não o manteria em casa, liberando-o para a vida pública. Uma receita pouco romântica, mas realista e prática.


O caso mais notório de “realpolitik” em ação foi o pacto de não agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética de Stalin, em 1939. O pacto durou pouco – acabou quando a Alemanha invadiu a Rússia –, mas foi o bastante para desencantar comunistas no mundo inteiro. As recentes revelações de correspondência diplomática secreta mostram como a “realpolitik” ainda rege as relações internacionais. Não há exemplo atual maior do sacrifício de ideais pela conveniência, ou de hipocrisia, do que os 30 anos de amizade dos Estados Unidos com o Egito de Mubarak, que não era menos ditador antes de começarem os distúrbios.


Claro, não vamos comparar as alianças políticas feitas pelo PT para poder governar nem com Hitler nem com Stalin nem com qualquer outra calhordice histórica – mas a realpolitikinha exemplificada pela receita matrimonial do Bismarck eu acho que cabe. O PT abandonou seus ideais românticos e casou com uma mulher feia que obviamente não ama, mas que o ajudará na sua carreira.


Em tempo: não sei se Lassalle seguiu o conselho de Bismarck. O Google acaba de me informar que ele morreu num duelo causado por ciúme. Vê com quem você está se metendo, PT!

 

 

 

Luis Fernando Verissimo

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Domingo, 20.02.11

Ô sôflu e luz ta pompa inova orbita

 

Aqui: um outrora agora


Ferreira Gullar


É sábado à tarde, cerca das 16 horas. Estou parado na esquina da avenida Rio Branco com a Araújo Porto-Alegre. Às minhas costas, o Museu Nacional de Belas Artes; à frente, à esquerda, a Biblioteca Nacional e, à direita, do outro lado da avenida, o Teatro Municipal.


Diante do teatro está a praça Deodoro, ladeada pelo prédio da Câmara Municipal e pelo bar Amarelinho e os edifícios da antiga Cinelândia. Fora o cine Odeon, os demais fecharam, como o Astória e um outro, o Vitória, que ficava lá atrás, na rua Senador Dantas.


Mas importa é que estou, ali, de pé, às quatro da tarde deste mês de fevereiro de 2011. E o que vejo diante de mim é exatamente igual ao que via em 1954. Passaram-se 57 anos e estou ainda aqui vendo os mesmos prédios, a mesma praça. E o passado inevitavelmente invade o presente e me arrasta com ele.Estou, agora, num sábado de 1953 e cruzo a praça em direção à Biblioteca Nacional. Vim a pé da rua Carlos Sampaio, onde morava, próximo à praça da Cruz Vermelha. Sábado era um dia vazio. Nos dias comuns da semana, estava na Redação da "Revista do IAPC", ali perto, na rua Alcino Guanabara, onde passavam amigos que iam ali assinar o ponto, como Lúcio Cardoso ou Breno Acyoli. Lúcio era bom de papo e gostava de um chope; Breno, pirado, mastigava a ponta de um charuto no canto da boca. Além deles, apareciam ali Oliveira Bastos, Décio Victório e Carlinhos de Oliveira, todos entregues à aventura literária.


Mas, no sábado, ninguém aparecia e tampouco vinham, no final da tarde, para o encontro no Vermelhinho, que ficava em frente à ABI. Pior que o sábado só o domingo e dia feriado, quando nem a Biblioteca Nacional abria.

 

 

 

 

A BN era meu refúgio, meu amparo, minha salvação. Metia-me nela, buscava um livro, uma revista literária e entregava-me aos mais inesperados delírios. Nas revistas francesas, descobri Lautréamont, Antonin Artaud, André Breton, Paul Éluard, René Char. Ou eram seus poemas ou os ensaios sobre eles.


Mas, ao fim da tarde, quando saía de lá e daquele mundo feérico, encontrava-me de novo sozinho e desamparado em plena Cinelândia. Pessoas cruzavam a praça em direção aos pontos de ônibus, que os levariam não sei para onde. Flamengo, Botafogo, Copacabana? Só eu não tinha para onde ir, a não ser para o meu quarto, que dividia com dois desconhecidos e que só apareciam lá para dormir.


Antes perambular pelas ruas do que me deitar naquela cama estreita e ficar olhando, pela janela, a noite cair.


O que me salvava era a poesia, se ocorresse em determinado instante, se me surgisse um verso inesperado. Aí sim, entregava-me àquela viagem, esquecia o quarto, o mundo, a solidão. Pouco me importava, então, se anoitecia ou amanhecia.


Sucede que poema é coisa rara. No meu caso, sempre foi. Quem me dera escrever um poema por dia, alçar voo acima do vazio dos sábados, dos domingos e feriados! Sempre fui cismado com esses dias porque, além de me sentir sozinho, a poesia também preferia ir à praia a me visitar. Já nos dias normais, como disse, metia-me na BN, agarrava-me a uma "Nouvelle Revue Française" e valia-me dos poemas alheios.


Mas houve uma exceção. Foi numa Sexta-Feira da Paixão quando, ao me dar conta de que era dia feriado e por isso o Vermelhinho estava deserto e a Cinelândia também, encaminhei-me sem rumo para a rua do Catete e fui parar no Parque Guinle, entregue ao delírio de um poema louco, cuja erupção teve início exatamente quando cruzava a rua Santo Amaro: "Ô sôflu e luz ta pompa inova orbita". Naquele momento, em que violentava meu instrumento de expressão, vivia a ilusão de ter chegado ao inalcançável: fazer que a língua nascesse ao mesmo tempo que o poema. Só no dia seguinte, na Redação da "Revista do IAPC", ao passá-lo a limpo, dei-me conta de que ninguém o compreenderia e que, de fato, havia destruído minha linguagem de poeta... É nisso que dá fazer poema em dia santo.


Essa ocorrência, se não me engano, data de março de 1953. Depois daquele dia, muitas outras vezes me encontrei entre esses mesmos prédios -o teatro, o museu, a biblioteca, a câmara municipal- num sábado ou num domingo, sem ter o que fazer da vida. Exatamente como agora, nesta tarde de 2011.


Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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Sábado, 19.02.11

Estranheza

Um vaso de nardos e trinta moedas de prata

Mariana Ianelli

 

Ofereça um pouco mais do que o suficiente, escreva uma carta longa, de próprio punho, quando bastaria um bilhete, faça transbordar a taça no lugar da dose mínima, e uma sensação de desconforto irá pesar no ambiente. Não convém ser assim tão generoso. Via de regra, as pessoas desconfiam.

 

Como quando se pergunta pelo preço de uma joia linda e essa joia, sendo de graça, perversamente passa do conceito do que vale muito ao conceito do que não vale nada. Se é de graça, alguma coisa tem. Alguma coisa suspeita, sub-reptícia. Jesus não custou trinta moedas de prata? Pois então, é a célebre alma do negócio. Antes pecar por excesso de cautela do que se arriscar ao engano por ingenuidade. Como disse uma vez Martin Amis, “nós já surgimos não-inocentes”. Da falta de inocência à estranheza frente a um gesto magnânimo são poucos passos. Pois não foi justamente aquele que recebeu as trinta moedas de prata que se escandalizou com Maria Madalena ungindo os pés de Jesus com uma libra de nardo puro, quando podia ter vendido o perfume por trezentos denários? A casa recendendo a bálsamo um dia antes da Ceia e Judas indignado com tamanho desperdício.

 

Diga que sua mão esquerda não sabe o que faz a direita e para um desconfiado o provérbio comprova o delito. Para que seja uma dádiva mas pareça um acidente, como se o vaso, por azar, tivesse escorregado das mãos e só por isso os pés ungidos e a casa inteira perfumada, como se a taça transbordasse por simples distração, como se, afinal, não fosse tudo o que por isso mesmo não tem preço, capriche no delito: não diga nada.

 


 

P.S.: Para lembrar Vanessa de Vasconcelos Duarte, assassinada na manhã de 12 de fevereiro de 2011, último sábado:

A eternidade em uma hora não é mais um verso de William Blake, é este agora que desborda na imobilidade do pânico. Muitos nomes há para esta noite sem escolha: cólera, estupor, acrimônia, nenhum porém tão infinito quanto sorvedouro. Te arrastam para um sorvedouro e ali desgarram a alma do teu corpo. Mais do que a lei dos homens, mais do que uma sombra de culpa, fica a pena perpétua do teu grito se multiplicando até o céu da loucura. Ficam os teus olhos borrados, os teus punhos fechados, a tua forma congelada em posição de denúncia. Porque existem almas que Deus não captura, mas que lhe são enfiadas garganta abaixo, sob o castigo de um perdão a quem jamais, em eternidade nenhuma, a si mesmo se perdoa.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Sábado, 12.02.11

Sem assinatura

Os novos condes de Lautréamont


Mariana Ianelli


E se de repente artistas do mundo inteiro aderissem ao anonimato? Contando que toda obra de arte que se preze hoje exibe o epíteto da originalidade, este seria um expediente bastante original. Não deixaria de satisfazer também certo gosto pelo ato performático. Excetuando-se o mal que isso acarretaria para a vaidade e o mercado que dela se aproveita, vale pensar no bem que faria, por exemplo, para a literatura.


Apagados o nome e a figura do escritor, ficaria o seu livro, um livro sendo tudo o que há, nem maior por ter a chancela de uma grife, nem menor por carência de fama. Um livro com seu justo peso e sua justa medida, louvável ou desprezível, impressionante ou insípido, envolvente ou fastidioso por ele mesmo, pelo que nele está escrito, do modo como está escrito, sem os atenuantes ou os encômios da crítica por se tratar deste ou daquele autor, sem a ressalva ao demasiado jovem ou a concessão ao demasiado velho, sem o anexo dos afetos ou das antipatias pessoais.

 

Um livro sendo tudo o que nele há de pensamento, olhar e voz de alguém cujo mistério da autoria, não garantindo mais os privilégios da consagração de um nome, reconduzisse todas as atenções para o texto como um corpo total, com suas virtudes e suas falhas levadas ao primeiro plano, despojadas de manto, chapéu, lapela amedalhada, gravata de lantejoulas e outros distintivos. Quem sabe dentro deste fabuloso universo de escritos apócrifos surgissem muitas surpresas, e um livro, em circunstâncias costumeiras desprezado pela mídia, alçasse ao rol dos mais lidos e comentados, e um outro, antes merecedor do timbre das academias, fosse considerado simplesmente um gatinho perdido no meio de uma savana de leões.

 

 

 

 

O certo é que neste mar de vozes, um grande escritor, contrariando a ansiedade por seu reconhecimento e as ocasiões forjadas para sua autopromoção, levaria um tempo indefinível até ser descoberto, o tempo mágico em que se elaboram os encontros com os leitores, um a um. E agora, sem estar submetido ao peso de nomes que eventualmente falam mais alto do que os livros, o leitor seria respeitado em sua participação soberana nas garimpagens e nas descobertas que fizesse de acordo com seus próprios critérios de exigência, interesse ou predileção. Os escritores, por sua vez, não mais ocupados com atrativos adjacentes, poderiam empenhar um tempo extra no que é a alma mesma do seu ofício, a escrita, o livro, a palavra na sua força intrínseca e na sua jornada paciente através do tempo rumo a um destinatário igualmente anônimo. No correr das águas, os livros iriam se entender entre si e com seus leitores, seguindo uma vida conquistada por seus méritos, dependendo aqui e ali de um pouco de sorte, mas, ainda assim, fazendo prevalecer os méritos, como deveria ser a vida de todos os filhos, que, já de seus pais, antes e para além do nome, herdaram o sangue.


É possível imaginar, neste cenário infinito de textos e de vozes atravessadas por outras vozes, um homem passeando entre mundos de papel coligidos em lombadas enigmáticas, um visitante qualquer que fosse movido pelo sentimento que nele despertam os títulos de alguns livros apanhados ao acaso, até que, subitamente, numa dessas leituras, o susto, o tremendo calafrio, como o de encontrar, com uma estocada de picareta, ouro na rocha: a descoberta de um novo Conde de Lautréamont muitos anos após a sua morte.


Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

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Sábado, 05.02.11

O relâmpago

Ninguém mais senão eu comigo no escuro


Mariana Ianelli


O quarto feito um lago sem fundo e o corpo ali mergulhado, esperando o sono. Nesta hora do mais ninguém senão eu comigo no escuro, vai-se embora a pose de garça, o extenso currículo, a questão da honra. É quando tudo se aclara e as partes da bilha quebrada se encaixam.


Os dias voltam, tantas coisas voltam, o que nem imaginávamos ter salvado aqui dentro, o repique de um sino e um estrondo de portas, em algum lugar daquela casa uma briga mal contida, explodindo em sussurros, mas por que lembrar disso agora, dos móveis arrastados na enchente, das paredes cobertas de lama, de repente a prancheta branca onde o primeiro poema e uma gata siamesa debaixo do calor da lâmpada, tudo isso que vem num instante, e que já foi o pão de cada dia, durante anos e anos, agora é só uma aguada no tempo, um chumaço de nuvens desenhando formas, agora um lustre japonês, agora uma orquídea, agora uma salamandra, todas essas coisas que voltam misturadas, mas cada uma perfeitamente clara, inexplicavelmente viva, perto de ser tocada, nesta hora do corpo caído no escuro, ao comprido na cama, esperando o sono, nesta vigília do terceiro olho, este olho que se abre com perícia de lobo, que se abre e vai à caça de todas essas coisas, é então que lá de dentro vem o relâmpago, mas como foi que não vi isso antes, quanto descaso, quanta ansiedade inútil, ou será que vi e desprezei, pois também isso pode acontecer nesta hora, debulhar o terço do guardai-me em vosso nome, escutai-me, dai-me forças, minha rocha e meu refúgio.


Sabe-se lá quanto tempo dura essa hora que não tem fundo, para um corpo estendido que não está morto, que tem visões que não são as de um sonho, quando tudo fica tão nítido que mal chega o dia seguinte e já não lembramos que sabemos tanto.

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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Quinta-feira, 03.02.11

Moedas no semáforo

Não é meia-noite quem quer


António Lobo Antunes


Há anos que este verso de René Char me persegue.

 

Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto. Dorme, com os seus sacos de plástico, na paragem do autocarro quase por baixo da minha janela, puxando trapos para si. Nunca lhe entendi a língua, mais sopros que palavras.

 

 

Espera que o sinal fique vermelho e percorre os automóveis, de mão estendida, a murmurar. As pessoas dos carros fingem que não vêem, olhando, fixas, para diante: uma desgraçada, mais uma, o que não falta por aí é gente assim. O sinal torna-se verde e ela corre para o passeio, com os sacos. Um grande amigo meu, José Cardoso Pires, que não tinha muito dinheiro, que tinha muito pouco dinheiro, dava-o a todos aos infelizes que encontrava na rua. Isto era uma das coisas que eu mais admirava nele. E sentia-o, por dentro, comovido, o Zé que tentava sempre esconder as emoções. Fazia livros, como eu. Era irascível, temperamental, muitíssimo corajoso. Infelizmente a estrangeira nunca o encontrou. É em seu nome que entrego moedas à mulher


- Da parte do Zé


embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.


Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo


- É só dor, é só dor


e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje


- É só dor


e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade?

 

Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:


- Os meus rapazes


dizia ele dos filhos


- Os meus rapazes


e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las


- Não lhes apetece entrar?


começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico


- Uma ajudinha, amigo


e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo


- Uma ajudinha, amigo


vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre


- Uma ajudinha, amigo


a eterna queixa do Zé


- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?


e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem


- Vinho branco na sua idade?


e se queixem à minha mãe


- O miúdo bebe às escondidas


a minha mãe, severa


- Que história é essa do vinho?


mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres


- Quero lá saber do Hemingway


confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar


- E que fazes tu nos aviões, já agora?


quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo


- Não sei nada da vida, senhor, desculpe


e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste


- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?


eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.


António Lobo Antunes

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Domingo, 30.01.11

Os voluntários das drogas

Como cego em tiroteio


Ferreira Gullar


Em boa hora, o ministro da Justiça demitiu o novo secretário nacional de Políticas sobre Drogas, que mal assumira propôs acabar com a pena de prisão para o pequeno traficante. A ideia era trocar a prisão por penas alternativas e assim evitar que ele seja aliciado pelo crime organizado dentro das penitenciárias. Ou seja, se não for preso, para de traficar. Você acredita nisso? Sou a favor de penas alternativas para autores de delitos menores e, sobretudo, quando não significam ameaça grave à sociedade.


Não há por que meter na cadeia o sujeito que deu desfalque ou o autor de pequenas burlas no fisco. A prisão se torna indispensável para o homicida, o estuprador, o assaltante. No entanto, com frequência, se sabe de estupradores e homicidas que voltam a atacar graças a privilégios que a lei lhes concede, como o de passar o Natal com a família. Eles saem da cadeia, não retornam e voltam a estuprar e matar.


Há muita coisa errada na aplicação da justiça no Brasil. Todo mundo sabe disso. Mas muitos juristas insistem na complacência que favorece o criminoso e fere o direito dos cidadãos. Um ministro da Justiça chegou a propor a revogação da lei que pune o crime hediondo, alegando que como não reduzira esse tipo de crime, mostrou-se dispensável. Esse é o mesmo raciocínio com que se pretende pôr fim à repressão ao tráfico de droga, sob o pretexto de que, apesar dela, o tráfico cresceu.


Mas paremos para refletir: não faz séculos que a sociedade pune criminosos? Não obstante, a criminalidade continua a crescer. Devemos, então, acabar com a Justiça e todo o aparato policial, uma vez que se mostraram incapazes de reduzir o crime?

 

Essa é uma conclusão simplista, que ignora as inúmeras causas da criminalidade. Se o comércio de drogas tem aumentado, apesar da repressão aos traficantes, é que estes contam com a colaboração preciosa de centenas de milhares de consumidores de drogas. Entre estes estão desde os garotos de escola, os adolescentes das favelas até gente bem posta na vida, como executivos, artistas, esportistas etc. O que explica o aumento do consumo de drogas, mais que a ineficiência da repressão, é a adesão crescente de pessoas de todas as classes sociais. Basta raciocinar, honestamente, sem sofismas: quando o comércio de automóveis aumenta é porque aumentou o número de compradores de automóveis. A solução do problema do tráfico está na redução do número de consumidores de drogas. E isso só se conseguirá promovendo uma ampla campanha de esclarecimento (entre outras medidas) em nível nacional e internacional, a fim de que os jovens entendam o que a droga tem de destrutivo e nefasto. Se se conseguir reduzir o consumo, reduzir-se-á consequentemente a produção e o tráfico.


No entanto, não vejo quase ninguém preocupado com isso. Raramente li ou ouvi declarações de autoridades ou militantes nesse campo que considerem a redução do número de consumidores a medida prioritária para combater o tráfico de drogas.


Em vez disso, defende-se a descriminalização das drogas e a não punição dos consumidores, que seriam, todos eles, vítimas patológicas do vício e, como tais, devem ser tratados e não punidos. Na verdade, do mesmo modo que a maioria dos consumidores de bebidas alcoólicas não é alcoólatra, a maioria dos consumidores de drogas as consume socialmente. Desse modo, pensando ajudar os que são de fato vítimas, livra-se da repressão a grande maioria dos que consomem drogas socialmente e mantêm o mercado do tráfico.


Como se isso não bastasse, surgiu agora essa nova proposta tão ou mais desastrada que aquela: livrar de prisão o pequeno traficante, que logo contou com a adesão de especialistas nesse assunto. Um deles chegou a afirmar que quem a isso se opõe é "moralista", como se consumir drogas fosse uma conquista ética e combatê-las, um retrocesso moral. A alegação de que o pequeno traficante, se preso, será aliciado pelo crime organizado, não tem cabimento, uma vez que, se ele foi preso, é porque já traficava. Trocar a prisão por trabalho comunitário seria ampliar sua área de atuação, agora sob proteção oficial.


Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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Sábado, 29.01.11

Os diários

Los presentes lejanos

Antonio Muñoz Molina

A la luz de una vela Charlotte Brontë escribe con una letra minúscula en una hoja no mayor que la palma de una mano, una noche de tormenta, y para aprovechar más el papel la letra se va haciendo más diminuta todavía a medida que escribe y llena hasta el filo mismo de la hoja. Es noche cerrada, aunque sólo son las siete. Quizás ve su reflejo en el cristal de la ventana que sacude el viento.
Es febrero de 1836, Brontë tiene 19 años y ha empezado a trabajar como maestra en un colegio que es un caserón helado en medio de un páramo. Está agotada después de una jornada de trabajo de doce horas, entre gente ajena y hostil, que le despierta una añoranza infinita de su casa familiar y de sus padres y hermanos. Los rasgos de la escritura son veloces y quebrados: casi podríamos escuchar el roce continuo y entrecortado de la punta de la pluma, que moja de vez en cuando en el tintero. El acto de escribir le parece "un refugio que nadie conoce en esta casa salvo yo misma".
El cuarto, la luz de la vela, la soledad, la escritura, le hacen sentirse en un arca que flota sobre las aguas de un mundo tan ajeno a ella como si lo hubiera anegado un diluvio universal.

Pero no sólo escribe por las noches, cuando se encuentra a solas en su cuarto, antes de acostarse. En un aula helada, a primera hora de la mañana, con toda la pesadumbre del comienzo del día gris y de la jornada que le queda por delante, abre un libro de texto y toma un lápiz y quizás mientras los estudiantes hacen algún ejercicio ella escribe con el lápiz en el reverso de una página en blanco, la letra más pequeña todavía, casi como de un mensaje cifrado, y cuenta que no hay fuego en el aula y que está muerta de frío: ese momento me llega intacto como una sensación física cuando miro el viejo libro escolar con tapas de cartón muy gastadas en una vitrina de la Morgan Library y reconozco esa letra, y en ella esa voz tan precozmente llena de literatura y de ambición de vivir. En el interior de las vitrinas, en esta mañana en la que hace en la calle un frío como el que debió de sentir Charlotte Brontë, en las vitrinas de la Morgan Library hay cuadernos abiertos, páginas manuscritas, líneas de tinta o de lápiz desvaídas por el paso de siglos: pero hay sobre todo momentos en el tiempo, fechas exactas recién escritas al comienzo de páginas todavía en blanco, incisiones de vidas igual de visibles que una pisada en la superficie de la Luna.

El 16 de febrero de 1843 Henry David Thoreau acompañó la anotación en su diario con el dibujo de una hoja de árbol apresada en el hielo y el de la pluma de un pájaro. El 5 de agosto de 1842 Nathaniel Hawthorne, que llevaba casado muy poco tiempo, apuntó que no paraba de llover y que en aquella casa en la que vivía con su esposa tenía la sensación de ser un Adán que habitara en el Paraíso sin sospechar que alguna vez sería expulsado.

Lo digo en pasado, pero debería hacerlo en presente. El presente es el tiempo único en el que se conjuga el acto de escribir un diario. Un día de 1666 Samuel Pepys anota que lo han despertado a las tres de la madrugada y que al asomarse a la ventana ha visto un gran incendio extendiéndose por las calles de Londres.
El 8 de octubre de 1822, Elizabeth Eastman Morgan, un ama de casa de Nueva Inglaterra que llevó durante dieciséis años el registro de sus tareas domésticas, de los frutos de las estaciones, las fiestas y los pequeños acontecimientos de su comunidad, hace inventario de sus modestas posesiones materiales, entre ellas "un abanico verde, un abanico negro, un camisón, un par de guantes de seda, una biblia, unas tijeras, un dedal de plata, un diccionario, un libro de salmos".
Un día de 1812 el cirujano personal de Napoleón apunta con escritura rápida y temblorosa la escena terrible a la que acaba de asistir cuando una masa de soldados franceses envueltos en harapos, muertos de hambre y de frío, acompañados por mujeres y niños, intenta pasar un puente huyendo de la caballería cosaca. Caen al agua turbulenta y muy fría, muchos de ellos se ahogan, los que no se han decidido a cruzar son degollados por los sables de los cosacos. Su cuaderno está envuelto en un forro de cuero rojo, atado con cintas: lo llevaría en un bolsillo interior del uniforme, cerca del corazón agitado por latidos violentos, protegido de la humedad, como un mensaje urgente y secreto para entregar al porvenir.

Los presentes son simultáneos; el instinto de dejar constancia de una catástrofe que está sucediendo ahora mismo se prolonga idéntico: cerca del cuaderno del cirujano de Napoleón está el de un teniente de la policía de Nueva York escrito en las horas y días siguientes al 11 de septiembre de 2001. Las páginas tienen un membrete de formularios oficiales: los rasgos de la escritura a bolígrafo se inclinan en el empeño de contarlo rápidamente todo. El material inmediato es lo que acaba de ocurrir o lo que ahora mismo está ante los ojos.

 

Un día de 1973, en Memphis, en una habitación de hotel, durante su gira con The Band, Bob Dylan dibuja en un cuaderno de anillas: la mesa, la ventana, la calle con tráfico y coches aparcados, los edificios, una vista cualquiera en un día cualquiera que de pronto es memorable, porque a pesar de su apariencia de monotonía sólo existe una vez. El 30 de julio de 1863, Walt Whitman anota con una caligrafía de grandes vuelos gestuales su visita a un hospital de soldados heridos en Washington. En un cuaderno que tiene más de libro de contabilidad que de diario Edward Gibbon, que lleva años dedicado a la tarea interminable de escribir su historia de la decadencia y caída del Imperio Romano, apunta el importe de los libros, el papel, la tinta que ha comprado, así como la pequeña deuda que le ha devuelto al cocinero de un amigo suyo.
El 18 de agosto de 1841, Fanny Grenfell, separada a la fuerza por su familia del hombre del que está enamorada -él es católico y pobre-, escribe en secreto una entrada de su diario, que tiene la forma de una carta dirigida a él: ha soñado que recibía una carta suya, y que al abrirla reconocía su propia letra, la carta escrita por ella misma. El 31 de mayo de 1938 John Steinbeck consigna que acaba de empezar Las uvas de la ira.

Acabo estremecido y mareado de tantos presentes. En la tienda de regalos me compro un cuaderno de tapas negras y hermosas hojas en blanco. La acera llena de sol y de nieve, la calma del domingo en Madison Avenue, el taxista haitiano que conduce escuchando un noticiario en francés, son parte de un relato posible que quizás valdría la pena escribir, la crónica nunca banal de un solo día.
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Antonio Muñoz Molina - Publicado em Babelia/ El País
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O acaso em versão sinistra

O jogo dos anjos da morte

 

Mariana Ianelli

 

Uma guerra pode acontecer a qualquer hora, em qualquer parte. Você está no mercado fazendo sua compra do mês e de repente sente uma agulhada, um fogacho no estômago, tenta dar um passo e o passo retrocede, você desmorona, a cara enfiada numa gôndola de biscoitos. Pode acontecer. Os jornais noticiam tragédias como essa de quando em quando. Porque a paz, a paz reina mesmo é no além-mundo.

 

Do lado de cá, temos esta coisa selvagem, sombria, que é a sede de sangue, uma sede tamanha que às vezes faz pensar se não chegará o dia em que nenhum motivo de guerra, nenhuma causa política, religiosa ou social será tão explícita quanto a pura vontade de matar. Matar por esporte. Tal e qual a Caçada Alegre do teatro mágico de Hermann Hesse, onde, na beira de uma estrada, do alto de um pinheiro, o jogo macabro de dois homens é atirar nos carros que passam.

 

Então você sai logo cedo a caminho do trabalho, como de hábito, e alguém mira sua nuca, a única disponível naquele momento ali na esquina, alguém mira sua nuca e dispara. Por razão nenhuma, só por farra. Ou quem sabe a arbitrariedade da violência seja mais sofisticada e o jogo se estenda, exatamente como o ritual de uma caçada, e você antes seja perseguido, cuidadosamente observado nas suas repetições de circuito, que por mais inusitados que possam ser os seus dias, haverá sempre algo que se repete, pois há sempre uma triste mania na qual um homem se enraíza, o canto de um balcão de uma padaria, uma cadeira predileta no fundo de um bar, aos domingos, ou no caminho da casa para o trabalho, do trabalho para casa, uma rua preferida. Alguém segue seu rastro, liga os pontos que delimitam sua rotina, descobre um desenho para a sua vida, até que finalmente você se distrai, na famosa hora da onça beber água, e pronto, o jogo termina.

 

 

 

 

Fantasioso que seja, não parece cenário tão mais absurdo do que estudantes abrindo fogo em salas de aula ou meninos pistoleiros que, sob o comando de traficantes, recebem três mil dólares por homicídio. Apenas que nesta nova caçada já não haveria necessidade de um motivo. Seria o império do acaso na sua versão mais sinistra, homens que se designassem anjos da morte uns dos outros numa brincadeira sanguinária cuja lei é só o prazer da guerra, sem limites.

 

Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

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Sexta-feira, 28.01.11

Escravos de Jane

Remissão


Luis Fernando Verissimo


Uma única catedral gótica ou uma única cantata de Bach redimem a religião de todos os seus males. Ou não. Você pode atribuir a beleza da igreja e da música à devoção religiosa e perdoar as barbaridades que a mesma devoção inspirou através da história, ou concluir que uma coisa não determinou a outra — Bach seria Bach mesmo sem a devoção — e apenas se admirar que tenham sido simultâneas.


Escolha: a arte religiosa se nutriu da violenta história do cristianismo ou floresceu apesar dos seus conflitos, para compensar a violência? Pode-se até imaginar uma tabela de remissões. Quantos anos de obscurantismo e fanatismo da Igreja são absolvidos pela Pietà do Michelangelo, por exemplo? Só o Réquiem do Mozart basta para a absolvição da Inquisição?


Tudo depende do olhar. Há quem olhe as pirâmides do Egito e veja um fenômeno arquitetônico e um triunfo do empreendimento humano. Outros só veem o sofrimento dos escravos pela maior glória de senhores insensíveis. Há quem olhe a fachada de uma catedral antiga e sinta seu espirito se enlevar, há quem veja na sua imponência apenas uma declaração de poder.

 

 

 

 


No seu livro "Cultura e Imperialismo", o critico Edward Said escreveu sobre a relação, às vezes inconsciente, do romance europeu com o colonialismo a partir do século 19. Seu exemplo mais comentado é um estudo sobre "Mansfield Park", de Jane Austen, em que ele ressalta a importância para a vida na mansão descrita pela autora, que dá título ao livro, de uma plantação no Caribe.


Em nenhum momento do livro de Austen é sugerido que a família seja cúmplice do imperialismo, e muito menos que seu estilo de vida dependa de escravos, mas a tese de Said é que em boa parte da literatura feita na Europa na época — inclusive singelas histórias de donzelas pastorais vivendo o drama de arranjar marido — esta interdependência está implícita. Depende do olhar de quem a lê.


Como no caso de catedrais e cantatas, a literatura produzida na Inglaterra e na França principalmente (e Portugal e Espanha, já que estamos falando de colonizadores) redime ou não redime o crime, neste caso da conquista imperial. Vendo uma mansão inglesa em meio a um idílico parque de grama perfeita, você pensa em Jane Austen ou pensa nos escravos?

 

Luis Fernando Verissimo

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Quarta-feira, 26.01.11

Melhor permanecer vivo

 

O LADO DE CÁ

 

Cláudio Moreno

 

Ninguém sabe, com certeza, o que acontece conosco quando a luz finalmente se apaga e fechamos atrás de nós a estreita porta da vida. Essa eterna questão já recebeu dezenas de respostas — nas mitologias, nas religiões, nas crendices populares, nos sistemas filosóficos —, mas estamos tão longe de resolvê-la quanto estava nosso antepassado das cavernas. Alguns raros escolhidos, contudo, alegam que já deram uma passada pelo outro lado e voltaram para contar tudo o que viram por lá. Plutarco menciona o caso de um tal de Arideus, habitante da Cilícia, famoso por sua falta de escrúpulos.

 

Tendo dissipado toda sua fortuna na juventude, vinha levando uma vida de deboche e vilania, usando de todas as baixezas possíveis para se tornar rico de novo. Ao perguntar ao oráculo se ainda teria alguma chance de melhorar de vida, a resposta enigmática foi que só depois de morto isso poderia ocorrer — e Arideus não esperou muito tempo para entender o sentido dessas palavras, pois caiu do alto de uma ribanceira, bateu a cabeça e morreu.

 

Três dias depois, no entanto, quando já se cumpriam os ritos para seu sepultamento, voltou à vida, cheio de novidades. Não interessa a descrição daquilo que viu do outro lado, pois segue o padrão de experiências semelhantes, numa linguagem mais adequada para folhetos turísticos que promovam viagens de ida e volta ao Além: luz, muita luz, feixes de galáxias luminosas, miríades de estrelas cintilantes, sinfonia feérica de planetas, mais luz, cores e brilhos indescritíveis, ondas de luz, cataratas de luz, etc. (já que, estranhamente, ninguém volta falando nas labaredas e no forte cheiro de enxofre...).

 

Interessa, isso sim, que Arideus mudou radicalmente depois disso, tornando-se o homem mais virtuoso da Cilícia, bom pai e amigo leal.

 

 

 

 

Há quem diga que foi a visão daquele mundo luminoso — e o medo de perdê-lo — o principal responsável por esta mudança.

 

Eu, porém, que só conheço este mundo em que me encontro, prefiro acreditar que ele se corrigiu simplesmente porque entendeu o valor de estar vivo.

 

Miguel Esteves Cardoso, autor português de primeira, que também passou por uma dessas experiências de quase-morte, diz isso melhor que ninguém: "Ver o azul do céu, essas merdas. E os dias. Começas a apreciar a vida, a respiração, acordar bem disposto, a água do banho". Antes se comprava tudo; depois do susto da morte, os prazeres são diferentes: "Traz uma humildade absoluta", diz ele, "que é a gratidão, no sentido de olha lá a sorte que eu tive! Saber apreciar isso de estar vivo!

 

Cláudio Moreno - Publicado em Noites Gregas

Imagem: A fonte

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Domingo, 23.01.11

"A palavra maluco desapareceu desta casa"

O Casamento


António Lobo Antunes


Desenha-me uma árvore, desenha-me o sol, um sol a sorrir, com sobrancelhas e nariz, desenha-me nuvens com cerejas penduradas.


Desenha-me uma vaca. Ou um gato. Ou um elefante, já agora. Uma casa com um quintal. Isso: desenha-me uma casa com um quintal e nós dois à janela. Conta-me uma história. Não te vás embora ainda, conta-me uma história que acabe bem, com pessoas felizes para sempre. Mente-me. Faz o favor de me mentires desde que sejam mentiras que eu goste. Dá-me uma colher de compota, ervilhas com ovos escalfados, um beijinho na testa. Não custa muito, um beijinho na testa, de modo que a marca do baton fique na pele. Depois diz-me


- Podes ir


e eu vou, não me arrasto por aqui a maçar-te, prometo, a ler o jornal, a ocupar espaço, a encher tudo de fumo, a deixar cinza no chão. Aprendi a perceber quando as coisas acabam e, depois de onze anos de casados, é assim tanto pedir-te que desenhes uma árvore? Não te incomodes com o papel, qualquer papel serve, nem vale a pena procurares uma caneta, usa o lápis dos olhos, aquele com que, ao princípio, me sujavas o colarinho. Até nem me rala que ponhas a árvore, ou o sol, ou as nuvens no colarinho, se me perguntarem explico


- Foi a minha ex-mulher


e as pessoas compreendem. Não faças essa cara, compreendem, por que carga de água não haviam de compreender?


Não comentam


- Olha aquele com uma vaca na camisa


aprovam. Não acreditas em mim?


O problema é que nunca acreditaste em mim, a mesma conversa desde o princípio


- És maluco


e se calhar sou maluco, sei lá, que diferença faz se acabou? E uma vaca na camisa, o que tem? Quem diz vaca diz elefante, e vaca ou elefante o que tem? O mais natural é que nem reparem, conforme não repararam na falta de aliança no meu dedo. Pode ser que uma colega


- A tua aliança?


eu


- Perdi-a


ela


- Perdes tudo


e a voltar ao microscópio, desinteressada. Em todo o caso


- Perdes tudo


injusto, às vezes esqueço-me do guarda-chuva, como toda a gente, mas


- Perdes tudo


um exagero. Um exagero e uma mentira.


Perdi-te a ti e chega. Se me contares uma história que acabe bem, e acho que não custa contares uma história que acabe bem, ajuda. Não te levantes, por favor, espera um bocadinho que eu já saio, tenho a mala à porta, é só pegar nela, meter-me no carro e não tornas a pôr-me a vista em cima. Nem olho para as janelas, garanto, à procura de uma cara que não vai aparecer nos caixilhos, de uma mãozinha que não vai acenar, com esse verniz de unhas que me excita.
Desculpa confessar isto, que aliás neste momento não tem importância, mas excita-me, não leves a mal. Há outras partes tuas que me excitam, por exemplo aqui, não te zangues que não é uma carícia, é uma explicação, por exemplo aqui também e não vale a pena sacudires-me, sei perfeitamente que não sou desejado. Recordas-te de quando eu te lambia a orelha e tu


- Faz-me cócegas


mas sem tirares a orelha, a apertares-me a perna com mais força ainda? Consentes que te lamba uma última vez, uma vez pequenina, lambo e tiro logo, nem me sentes? Assim ao de leve, olha, a concha do ouvido, o lóbulo, o pescoço neste sítio, onde o cabelo tem caracolinhos pequeninos, lá estás tu a fechar os olhos e a respirar mais depressa, lá estão os teus ombros a tremerem. Tão bom quando os teus ombros tremem, quando te lamentas


- Estou toda arrepiada


e giras a cabeça, isso, para que te acaricie a nuca, desça um bocadinho ao longo do pescoço, te passeie no ombro devagar, estás a ver, toque ao de leve com a ponta do indicador, na ponta do peito que começa a ficar duro, que cresce, qual a razão da ponta do peito crescer, dos joelhos


- Não pares


começarem a afastar-se, da minha palma subir pelo interior da perna até este sítio, onde tudo mais tenro, mais dócil, mais suave, volta-te para este lado, desenha-me a tal árvore no peito, com a boca, vai descendo, se quiseres, que eu não levo a mal, não há motivo para levar-te a mal, que bom pegar no teu cabelo e guiar-te a cabeça, eu puxo o fecho éclair, não te incomodes, eu desaperto o cinto, o raio da fivela há-de obedecer, chamame maluco, chama-me doido, chamame fofinho, não pares, por amor de Deus não pares, mais depressa, assim, não mordas que aleija, quantas vezes é preciso dizer que aleija, raios te partam, vamos lá a fazer isso com jeitinho, como deve ser, vamos lá a fazer isso como uma maluca, uma doida, uma fofinha, ai tão lindo, estamos quase no fim, que árvore tão bem desenhada, que nuvem com cerejas penduradas, que gato, que elefante, que história bonita com pessoas felizes para sempre que me estás a contar, aguenta um segundo que tenho de ir à cozinha beber água e já volto, vou num pé e venho no outro, nem dás por isso, depois pões-me outra vez a aliança no dedo, a aliança pode esperar, o que interessa agora, que se lixe a aliança, mesmo sem aliança sou teu marido, tens aqui um sinal esquisito, umas rugas, de expressão uma ova, umas rugas, não te zangues se te confessar que envelheces sem graça, pede uma pizza pelo telefone que o fogão não é o teu forte, há onze anos que engulo o que me dás sem um protesto, comemos uma pizza, depois sentamo-nos no sofá, depois tu vês televisão e eu aborreço-me, depois tiras a minha roupa da mala e guardas tudo, como deve ser, nas gavetas, depois, antes de te deitares, não laves os dentes com a minha escova que detesto o teu hálito, e sobretudo pára imediatamente de me desenhares vacas na camisa com o lápis dos olhos, vão pensar que me passei dos carretos e fica sabendo que a palavra maluco, a partir de agora, desapareceu desta casa.

 

António Lobo Antunes

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O trenzinho

Cantando pela serra do luar


Ferreira Gullar

 


 

Na abertura da exposição comemorativa de meus 80 anos, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, fui surpreendido por um coral de jovens estudantes que, postado na escadaria, à entrada do museu, começou a cantar "O Trenzinho do Caipira". Após o primeiro momento de espanto, passei a cantar com eles, baixinho, claro, pois não desejava ser ouvido; é que não resisti ao impulso de participar daquele momento.


Não havia ali, a meu ver, um homenageado e, sim, uma encantada confraternização.


Mas, por incrível que pareça, enquanto cantava e me confundia com as demais pessoas ali presentes, veio-me uma constatação: a do contraste entre aquele momento e o outro, distante 40 anos, quando pus letra na tocata da "Bachiana nº 2", de Villa-Lobos.


Muita gente conhece a história do "Poema Sujo", escrito por mim em Buenos Aires, em 1975, mas o que constatei, de súbito, nesse momento de confraternização, foi o contraste entre a alegria de agora e o desamparo em que me encontrava naquele apartamento da avenida Honorio Pueyrredón, certo de que o mundo desabava sobre minha cabeça.


Não pretendo me valer desse pretexto para falar de mim mesmo ou do "Poema Sujo", de que a letra do "Trenzinho" é parte. Não é isso. A surpresa me arrebatou, ali, à entrada do museu, diante daqueles meninos e meninas que o cantavam, reacendendo, inesperadamente, em mim, a manhã de maio de 1975, quando, como quem faz a última coisa possível, escrevia aquele poema que, mal sabia eu, iria tornar-se o mais conhecido e traduzido dentre os tantos que escrevi na vida.


Assim foi que, subitamente, estou de volta àquele momento. Estou desgastado e ferido pelos anos de exílio, pelas perdas, pelas decepções e derrotas. A família, os amigos, o Rio de Janeiro, com suas praias e montanhas lilases, estão fora de meu alcance, e não me conformo com isso. É que, então, ali, era apenas um poeta às voltas com um poema que inventava - a única alegria possível.


Agora, em 2010, diante do coral, no hall de entrada do MNBA, o tempo se abre como um abismo e me suga e me atira, outra vez, para 40 anos atrás, naquele instante esvaído no curso da vida, mas que a cantiga do coral me traz de volta, sem que ninguém ali o perceba, cantando que estão ou encantados com o canto, senão eu que, não obstante, continuo a cantar com eles.


O presente é canto vibrante mas, dentro dele, estou eu-outrora, diante da máquina de escrever Lettera 22, inventando o "Poema Sujo". E é nesse momento do poema, quando lembro das viagens de trem que fazia com meu pai, que a "Bachiana nº 2" invade o quarto (a "Bachiana" que, quando ouvi pela primeira vez, me fez lembrar daquelas viagens e que agora, ao contrário, vem trazida pela lembrança delas). E a letra que, durante 20 anos, tentara escrever, sem o conseguir, escrevo-a então em menos de 20 minutos:


"Lá vai o trem com o menino

Lá vai a vida a rodar

Lá vai ciranda e destino

Cidade e noite a girar."


A mesma letra que ouço agora na voz dos garotos, nesse começo de noite em dezembro de 2010. Sim, a mesma, mas outra, pois a que ouvia, escrevendo-a, era quase silêncio, murmúrio que se juntava à melodia de Villa-Lobos tocando na vitrola. E me pergunto, agora, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória. Mas, veja bem, memória não é passado? Ou não é? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso.


De qualquer modo, não poderia nunca imaginar, naquela manhã distante, que aquele murmúrio se tornaria canção, que aqueles versos um dia seriam um canto público na voz de meninos e meninas do meu país, décadas depois, numa noite de alegria e comemoração, quando o que foi sofrimento e desespero se apagou para sempre, pois a própria vida, na sua alquimia, os mudou em festa.


"Lá vai o trem sem destino

Pro dia novo encontrar

Cantando vai pela terra,

vai pela serra,

vai pelo mar."

 

 

Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo/ UOL

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Sábado, 22.01.11

A Natureza dá sua notícia

 

Empédocles manda lembranças


Mariana Ianelli


A fotografia é da ordem do extraordinário: a visão noturna de uma cidade timidamente iluminada, com suas construções baixas em tom de ouro velho na penumbra e, ao fundo, contornando a silhueta da montanha ao pé da qual a cidade se espalha, uma cascata vermelho-viva rompendo encosta abaixo. Invisível na foto, o cimo da montanha é a razão do espetáculo.

 

Há anos que o vulcão Etna não se exibia assim com tanto luxo. De tempos em tempos, a força de suas profundezas parece querer dar notícias da sua exorbitância. Nem por isso povoados milenares deixaram de viver à sua sombra. A cidade de Catania já uma vez precisou ser refeita das cinzas pela audácia de haver se estabelecido a apenas 18 quilômetros do vulcão. Mas essa audácia, longe de ser uma insolência, é mais uma tenacidade de amante, uma cumplicidade que atrela o poder da natureza à história de uma ilha que abrigou nas suas grutas os ciclopes de Homero, que recebeu a visita de Platão e inspirou cantos épicos de Virgílio.

 

Aos templos da Antiguidade, aos teatros grego e romano, às dezenas de piazzas, fontanas, duomos e palazzos, junta-se o Etna como mais um monumento, tão ancestralmente vivo quanto a herança histórica e cultural das cidades sicilianas. Na verdade, não é menor a intrepidez de viver onde se ergueu o portento de tantos poemas, episódios e mitos da história ocidental do que a ousadia de dormir e acordar aos pés de um dos maiores vulcões ativos do mundo. É essa intimidade sobre-humana com a potência da terra que nutre a lenda de que Empédocles teria se jogado em uma das crateras do Etna, oferecendo-se em sacrifício de amor aos deuses, como antes oferecera à Natureza seu pensamento. Que teria se purificado no regresso aos quatro elementos, de sua união fazendo elevar-se o Éter. Que teria encontrado no magma o seu banho lustral.

 

 

 

 


A imagem daquele rio chamejante descendo a montanha no meio da noite, que registrou mais uma erupção do Etna na semana passada, se amedronta pela ameaça de uma catástrofe, também fascina pelo seu aspecto fantástico, que lembra Empédocles na versão romântica de Hölderlin: um taumaturgo no topo do vulcão, como um cristo dos poetas, que se despede dos homens conclamando-os a serem livres, iguais e irmãos. Para que se entreguem à Natureza. Que voltem, afinados com os deuses, os cânticos. Para que todos se lembrem do que mataram por descuido. Para que amem.


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 12:34 | Comentar | Adicionar
Domingo, 16.01.11

Populistas são populares

Quando dois e dois são quatro

 

Ferreira Gullar

 

Talvez seja esta a última vez que escreva sobre o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil. Com alívio o vi terminar o seu mandato, pois não terei mais que aturá-lo a esbravejar, dia e noite, na televisão, nem que ouvir coisas como esta: "Ele é tão inteligente que fala todas as línguas sem ter aprendido nenhuma". Pois é, pena que não fale tão bem português quanto fala russo.

 

É verdade que tivemos, ainda, que aturá-lo nos três últimos dias do mandato, quando "inaugurou" obras inexistentes e fez tudo para ofuscar a presidente que chegava. Depois de passar a faixa, foi para um comício em São Bernardo, onde, até as 23h, continuava berrando no palanque, do qual nunca saíra desde 2002.

 

Aproveitou as últimas chances para exibir toda a sua pobreza intelectual, dizendo-se feliz por deixar o governo no momento em que os Estados Unidos, a Europa e o Japão estão em crise. Alguém precisa alertá-lo para o fato de que a crise, naqueles países, atinge, sobretudo, os trabalhadores. Destituído de senso crítico, atribui a si mesmo ("um torneiro mecânico") o mérito de ter evitado que a crise atingisse o Brasil.

 

Sabe que é mentira mas o diz porque confia no que a maioria da população, desinformada, acreditará.

 

Isso dá para entender, mas e aqueles que, sem viverem do Bolsa Família nem do empréstimo consignado, veem nele um estadista exemplar, que mudou o Brasil?

 

É incontestável que, durante o seu governo, a economia se expandiu e muita gente pobre melhorou de vida. Mas foi apenas porque ele o quis, ou também porque as condições econômicas o permitiram?

 

Vamos aos fatos: até a criação do Plano Real, a economia brasileira sofria de inflação crônica, que consumia os salários. Qual foi a atitude de Lula ante o Plano Real? Combateu-o ferozmente, afirmando que se tratava de uma medida eleitoreira para durar três meses. À outra medida, que veio consolidar o equilíbrio de nossa economia, a Lei de Responsabilidade Fiscal, Lula e seu partido se opuseram radicalmente, a ponto de entrarem com uma ação no Supremo para revogá-la. Do mesmo modo, Lula se opôs à política de juros do Banco Central e ao superávit primário, providências que complementaram o combate à inflação e garantiram o equilíbrio econômico.

 

Essas medidas, sim, mudaram o Brasil, preservando o valor do salário e conquistando a confiança internacional. Lembro-me do tempo em que o preço do pão e do leite subia de três em três dias. Quem tinha grana, aplicava-a no overnight e enriquecia; quem vivia de salário comia menos a cada semana. Se dependesse de Lula e seu partido, nenhuma daquelas medidas teria sido aplicada, e o Brasil - que ele viria a presidir - seria o da inflação galopante e do desequilíbrio financeiro.

 

Teria, então, achado fácil governar? Após três tentativas frustradas de eleger-se presidente, abandonou o discurso radical e virou Lulinha paz e amor. Ao deixar o governo, com mais de 80% de aprovação, afirmou que "é fácil governar o Brasil, basta fazer o óbvio". Claro, quem encontra a comida pronta e a mesa posta, é só sentar-se e comer o almoço que os outros prepararam.

 

A verdade é que Lula não introduziu nenhuma reforma na estrutura econômica e social do país, mas teve o bom senso de dar prosseguimento ao que os governos anteriores implantaram. A melhoria da sociedade é um processo longo, nenhum governo faz tudo.

 

Inteligente, mas avesso aos estudos, valeu-se de sua sagacidade, já que é impossível conhecer a fundo os problemas de um país sem ler um livro; quem os conhece apenas por ouvir dizer não pode governar. Por isso acho que quem governou foi sua equipe técnica, não ele, que raramente parava em Brasília. Atuou como líder político, não como governante, e, se Dilma fizer certas mudanças, pouco lhe importará, pois nem sabe ao certo do que se trata. Para fugir a perguntas embaraçosas, jamais deu uma entrevista coletiva. Afinal, ninguém, honestamente, acredita que com programas assistencialistas e aumento do salário mínimo se muda o Brasil.

 

O tempo se encarregará de pôr as coisas em seu devido lugar. O presidente Emílio Garrastazu Médici também obteve, em 1974, 82% de aprovação.

 

Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo/ UOL

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publicado por ardotempo às 22:54 | Comentar | Adicionar
Sábado, 15.01.11

"No que você está pensando?"

 

Correndo com os búfalos


Mariana Ianelli


Ali está você, uma sombra num canto, aparentemente muito quieto, inofensivo, pensando, então vem aquela voz doce arrulhar no seu ouvido, aquele sorrisinho típico das chantagens do afeto, você começando sua jornada selvagem, já quase desaparecendo pelas estepes, desbravando o longe, revolvendo a poeira, e vem a pergunta ciumenta, indecente, infratora do último dos mandamentos, no que você está pensando?.


Como é impossível dizer, e desta vez você pretende ser sincero, absolutamente sincero, porque não lhe acode outra saída e, em situações como essa, recomenda-se um prólogo de gentileza, antes de tudo você também sorri, afinal, nada foi interrompido, nada se perdeu, vem a calhar a pergunta nesta hora amarela, porque, se quer mesmo saber, eu estava me lembrando da história do velho eremita que pastava com os búfalos no deserto, sem saber que naquele lugar os homens tinham colocado umas redes, pois não foi que o velho caiu na armadilha, caiu e ali ficou, sem se dar ao trabalho de se desvencilhar, como se não tivesse mãos para se libertar das redes, e assim permaneceu, um búfalo entre os búfalos, até o dia seguinte, quando chegaram os homens para apanhar os animais e, ao se darem conta do velho no meio das redes, ficaram tomados de pavor, então o eremita, sem uma palavra, foi solto e partiu desbaratado atrás dos búfalos…


A essa altura, quem fez a pergunta talvez esteja um pouco assustado, possivelmente confuso, porque você volta a sorrir, gaiato e tranquilo, provando que está tudo aí, que tudo foi dito e respondido da melhor maneira possível, agora só falta cada um regressar ao seu ponto de partida, quem veio delicadamente, delicadamente se vai, e você se acomoda outra vez num canto, aparentemente muito quieto, inofensivo, correndo com seus búfalos.

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

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publicado por ardotempo às 10:46 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 13.01.11

O time ideal dos jogadores é o Dinheiro F.C.

 

Não deu

 

Luis Fernando Verissimo

 

Nosso time é a nossa segunda pátria. Tem até hino e bandeira, como a outra pátria. Conhecemos a sua história, cantamos as suas glórias, queremos vê-la sempre vitoriosa entre as nações e a amamos com fervor. Mas, assim como acontece com a pátria de verdade, nem sempre sabemos o que amamos. Ser brasileiro é de nascença, mas o time a gente escolhe, geralmente seguindo uma tradição familiar, ou influenciado por alguém, ou pelo fato do time estar em evidência no momento, ou pela simples simpatia. E o que é, exatamente, o objeto dessa paixão que nos pega desde pequenos e nunca nos larga?

 

Não é o clube como entidade social, este nem nos pertence. Suas cores e seus símbolos nos emocionam, mas são apenas cores e símbolos – embora muita gente morra por apenas cores e símbolos. Amamos os jogadores, o time? Mas o time é provisório, é mesmo o que há de mais transitório e fugaz nesse estranho relacionamento. O que amamos, então, é uma abstração, uma ilusão de continuidade mesmo que o time seja sempre outro. Um ideal romântico.

 

O amor por um time é o último exemplo de romantismo puro do mundo. O problema na relação da torcida com o jogador é este: a torcida ainda vive no século 19, os jogadores vivem na era do realismo prático. O jogador ideal da torcida é o que se forma no clube, sobe das divisões de base para o time titular como grande revelação, recebe propostas fabulosas para mudar de time mas mantém-se fiel à camiseta. Enfim, não trai a pátria. Um perfeito herói romântico. Claro que o ideal é frágil e os torcedores já se resignaram aos novos tempos de empresários sem fronteiras, negócios sem limites e jogadores sem espírito de torcedor, mas vez que outra assoma o romantismo.

 

O retorno do Ronaldinho ao Grêmio, de onde saiu mal há 10 anos – se tudo acontecesse como o Grêmio queria – seria um triunfo de folhetim à antiga. Um filho do clube voltando perdoado e (se ainda jogasse metade do que jogava no seu auge) levando o time a novas grandes conquistas, resgataria o romantismo de um mundo tornado cínico e sem grandeza. Infelizmente – inclusive para a literatura – não deu certo.

 

 

 

 

 

Luis Fernando Verissimo

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publicado por ardotempo às 23:24 | Comentar | Adicionar

A camisola de Schlee

A camisola de Schlee


José Mário Silva

 

 

 


Os fios do acaso que levam duas pessoas a encontrar-se num dado lugar, num dado momento, são insondáveis. Quando me sentei numa esplanada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no recinto da maior feira do livro a céu aberto do continente americano, não imaginei que aquele escritor septuagenário de sorriso aberto e longo cabelo grisalho pelos ombros – Aldyr Garcia Schlee, apresentado ali mesmo pelo nosso editor comum (Alfredo Aquino, da ARdoTEmpo) – se converteria, poucos dias depois, num velho amigo. Mas foi isso que aconteceu.


Logo naquela primeira tarde, à sombra dos jacarandás e ipês floridos, a dois passos das barraquinhas com livros pendurados por cordéis, não falámos de literatura mas de futebol. Acompanhado pela mulher, Marlene, tão fanática pelo jogo quanto ele e capaz de recordar, com minúcia, factos ou lugares perdidos no tempo, Aldyr apresentou-me enciclopedicamente o mundo das grandes equipas brasileiras, sem esquecer as mais antigas, algumas das quais relegadas para divisões secundárias, como o time de que é torcedor: o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas, já perto da fronteira com o Uruguai. Estava dado o mote. Primeiro em Porto Alegre, depois nos três dias que passámos juntos em São Paulo, falámos bastante dos seus «contos gardelianos» (Os limites do impossível) e do imponente romance, com mais de 500 páginas, que escreveu sobre a vida extraordinária do General Fructuoso Rivera (Don Frutos), mas os olhos deste homem que tem exactamente o dobro da minha idade, embora não se note (conversou sempre tu cá tu lá, com aquela intimidade dos colegas de liceu que se reencontram muitos anos depois), os olhos deste homem ganhavam outro brilho ao resgatar da memória certos estádios, os nomes dos craques e o que eles faziam dentro de campo, o clamor das arquibancadas.


Por trás desta paixão, esconde-se uma história incrível que logo veio à tona. Além de escritor, Schlee já foi muitas coisas: desenhista, homem da imprensa, professor universitário. O primeiro momento de glória, porém, aconteceu quando tinha apenas 19 anos. Em 1953, para apagar de vez o trauma provocado pela derrota na final do Campeonato do Mundo de 1950, frente ao Uruguai, no Maracanã, o jornal carioca Correio da Manhã decidiu lançar um concurso para mudar o equipamento da selecção nacional brasileira, uma vez que o branco parecia ser funesto. Das centenas de candidaturas recebidas, a escolha recaiu na proposta de um tal Aldyr Garcia Schlee. Ou seja, a célebre canarinha (camisola amarela e calção azul), um dos maiores ícones do desporto mundial, é nem mais nem menos do que uma criação do meu companheiro de tournée literária.

 

Já em São Paulo, antes de visitarmos o MASP (com os seus Van Gogh, Renoir, Modigliani, Velázquez, Turner e outras maravilhas da pintura europeia), fomos ao Museu do Futebol, instalado por baixo do Estádio Pacaembu. Logo à entrada, uma imagem de Barbosa ainda desperta comentários ressentidos nos visitantes. Ele é o mais odiado dos guarda-redes (no Brasil diz-se goleiro), o bode expiatório da Copa perdida no Maracanã. Aldyr ri-se deste ódio que persiste há mais de meio século. Até porque ele, ó ironia, torce desde sempre pelo Uruguai (país que quase vê das janelas da sua casa-biblioteca e cujos principais escritores vem traduzindo para português). Quando Ghiggia marcou o 2-1 fatal, ele estava num cinema em Montevideu. Lembra-se de o filme ser interrompido e de ouvir, emocionado, o hino uruguaio. Como se lembra de quase tudo o que as fotografias, filmes e hologramas do museu documentam. A história do Brasil reflectida no verde da relva.


Talvez para selar uma viagem feliz e uma amizade inesperada, o nosso editor encontrou uma camisola da canarinha, em algodão, modelo de 1954 (sem as modernices estéticas e têxteis da Nike, que Schlee detesta). É para ela que olho agora, já deste lado do Atlântico. A gola verde, o emblema grandão, junto ao qual a firme caligrafia de Aldyr evoca «Pelé & cia». Depois arrumo-a no saco e vou ler Don Frutos.

 

 

 

 


José Mário Silva - Escritor e poeta - Publicado na revista Ler (Lisboa, Portugal)

Imagem: Caricatura de Aldyr Garcia Schlee

Fotografia: Don Frutos, por Alexandre Schlee Gomes

publicado por ardotempo às 11:01 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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