Domingo, 30.01.11

Os voluntários das drogas

Como cego em tiroteio


Ferreira Gullar


Em boa hora, o ministro da Justiça demitiu o novo secretário nacional de Políticas sobre Drogas, que mal assumira propôs acabar com a pena de prisão para o pequeno traficante. A ideia era trocar a prisão por penas alternativas e assim evitar que ele seja aliciado pelo crime organizado dentro das penitenciárias. Ou seja, se não for preso, para de traficar. Você acredita nisso? Sou a favor de penas alternativas para autores de delitos menores e, sobretudo, quando não significam ameaça grave à sociedade.


Não há por que meter na cadeia o sujeito que deu desfalque ou o autor de pequenas burlas no fisco. A prisão se torna indispensável para o homicida, o estuprador, o assaltante. No entanto, com frequência, se sabe de estupradores e homicidas que voltam a atacar graças a privilégios que a lei lhes concede, como o de passar o Natal com a família. Eles saem da cadeia, não retornam e voltam a estuprar e matar.


Há muita coisa errada na aplicação da justiça no Brasil. Todo mundo sabe disso. Mas muitos juristas insistem na complacência que favorece o criminoso e fere o direito dos cidadãos. Um ministro da Justiça chegou a propor a revogação da lei que pune o crime hediondo, alegando que como não reduzira esse tipo de crime, mostrou-se dispensável. Esse é o mesmo raciocínio com que se pretende pôr fim à repressão ao tráfico de droga, sob o pretexto de que, apesar dela, o tráfico cresceu.


Mas paremos para refletir: não faz séculos que a sociedade pune criminosos? Não obstante, a criminalidade continua a crescer. Devemos, então, acabar com a Justiça e todo o aparato policial, uma vez que se mostraram incapazes de reduzir o crime?

 

Essa é uma conclusão simplista, que ignora as inúmeras causas da criminalidade. Se o comércio de drogas tem aumentado, apesar da repressão aos traficantes, é que estes contam com a colaboração preciosa de centenas de milhares de consumidores de drogas. Entre estes estão desde os garotos de escola, os adolescentes das favelas até gente bem posta na vida, como executivos, artistas, esportistas etc. O que explica o aumento do consumo de drogas, mais que a ineficiência da repressão, é a adesão crescente de pessoas de todas as classes sociais. Basta raciocinar, honestamente, sem sofismas: quando o comércio de automóveis aumenta é porque aumentou o número de compradores de automóveis. A solução do problema do tráfico está na redução do número de consumidores de drogas. E isso só se conseguirá promovendo uma ampla campanha de esclarecimento (entre outras medidas) em nível nacional e internacional, a fim de que os jovens entendam o que a droga tem de destrutivo e nefasto. Se se conseguir reduzir o consumo, reduzir-se-á consequentemente a produção e o tráfico.


No entanto, não vejo quase ninguém preocupado com isso. Raramente li ou ouvi declarações de autoridades ou militantes nesse campo que considerem a redução do número de consumidores a medida prioritária para combater o tráfico de drogas.


Em vez disso, defende-se a descriminalização das drogas e a não punição dos consumidores, que seriam, todos eles, vítimas patológicas do vício e, como tais, devem ser tratados e não punidos. Na verdade, do mesmo modo que a maioria dos consumidores de bebidas alcoólicas não é alcoólatra, a maioria dos consumidores de drogas as consume socialmente. Desse modo, pensando ajudar os que são de fato vítimas, livra-se da repressão a grande maioria dos que consomem drogas socialmente e mantêm o mercado do tráfico.


Como se isso não bastasse, surgiu agora essa nova proposta tão ou mais desastrada que aquela: livrar de prisão o pequeno traficante, que logo contou com a adesão de especialistas nesse assunto. Um deles chegou a afirmar que quem a isso se opõe é "moralista", como se consumir drogas fosse uma conquista ética e combatê-las, um retrocesso moral. A alegação de que o pequeno traficante, se preso, será aliciado pelo crime organizado, não tem cabimento, uma vez que, se ele foi preso, é porque já traficava. Trocar a prisão por trabalho comunitário seria ampliar sua área de atuação, agora sob proteção oficial.


Ferreira Gullar - Publicado na Folha de São Paulo / UOL

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Domingo, 23.01.11

Os torturadores blindados do Brasil

A tortura protegida

 

Israel foi buscar, audaciosamente, inclusive em países distantes, os seus algozes no Holocausto, para ajustar as suas contas e fazer justiça frente às atrocidades medonhas que seu povo sofreu durante a 2ª Guerra Mundial. Juízes espanhóis encarceraram por algum tempo o sanguinário e assassino ditador chileno Pinochet.

 

Ernesto Sabato realizou um comovente trabalho de resgate da dignidade argentina identificando e relatando os fatos, as vítimas, os seus verdugos e hoje, os ditadores responsáveis e vários torturadores nominados daquele período terrível estão recolhidos aos presídios, cumprindo suas penas.

 

Uruguai e Chile identificaram, julgaram e condenaram diversos torturadores. Por que no Brasil os torturadores gozam dos privilégios da blindagem oficial, da liberdade de ação e do esquecimento de seus atos perversos? Por qual motivo iníquo os governantes e autoridades brasileiras, ano após ano, fingem-se de postes e de árvores silenciosas, para proteger no esquecimento e nas sombras, as ações tenebrosas e cruéis desses assassinos que serviram de forma sangrenta aos mais nefastos interesses e produziram malfeitorias doentias contra a população indefesa?

 

Até quando a tortura praticada por anos, durante os tempos de chumbo da ditadura, permanecerá oculta nas sombras da impunidade, nos arquivos cerrados da burocracia e do descaso oficial?

 

 

 

 

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Quinta-feira, 06.01.11

História de amor no País das Maravilhas

Um dia

 

 

Certo dia, a moça muito bela (e muito rica) disse ao rapaz: "Você é honesto demais. Não se pode ser assim todo o tempo. Receber 10% nos trabalhos, nos projetos que você faz não tem problema algum. Ajuda e você não ficará sem dinheiro".

 

O rapaz, que era jovem, respondeu: "Honestidade não se quantifica, não se é mais ou menos honesto. É como a virgindade. Ou se é honesto ou não".

 

A moça respondeu com firmeza: "Não se pode ser assim o tempo todo. Você se torna chato com essa história de honestidade e porisso está assim, sempre no limite, sempre sem dinheiro." E afastou-se.

 

O casamento da princesa e do sapo se desfez. A moça, linda, ficou cada mais rica e o sapo, pobretão, cada vez mais solitário.

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Segunda-feira, 06.12.10

Griffe de charme

Vitoria Cuervo

 

 

 

 

 

Coleção Capulana Verão 2011 - Design de alto estilo de Vitoria Cuervo (a estilista é a do centro na fotografia), realizada exclusivamente com tecidos africanos - (Brasil), 2010

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Quinta-feira, 11.11.10

Pasárgada

Uísque derramado

 


 

 

 

Em Pasárgada, todos os prêmios vão para o amigo do rei (e da rainha...)

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Sexta-feira, 06.08.10

Simpatia no cemitério

Para que tudo funcione a contento

 

 

 

 

 

Pierre Yves Refalo - Sepultura de Victor Noir, Cemitério Père-Lachaise Paris - Fotografia (Paris França), 2010

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Segunda-feira, 26.07.10

Melhor seria se não tivéssemos que fazer Copa do Mundo de futebol...

Gestor cultural, o profissional do futuro

 

Leonardo Brant

 

Estamos falando de um dos mercados mais potentes do mundo e um dos que mais cresce e se revigora a cada dia. De algo tão necessário ao ser humano como comer e respirar. De uma atividade que dá sentido ao ser humano, significa sua vida e projeta seu futuro.


Além dos mercados tradicionais, supostamente em crise, como o cinema, a indústria fonográfica e editorial, atropeladas pelo advento das tecnologias de informação e comunicação, surgem a cada dia novas formas de significar a presença do ser humano na Terra, de criar utopias, planos de futuro, ou simplesmente de amenizar o sofrimento de quem ainda não encontrou sua autonomia em relação ao próprio imaginário.


Os códigos culturais antes dominados por impérios, igrejas, estados autoritários e grandes corporações estão cada vez mais ao alcance de todos nós. A teia que se forma em torno dos elementos culturais, diversos, controversos, livres, colaborativos e, ao mesmo tempo, controlados, sistematizados, formatados, lineares, é cada vez mais complexa. Exigem dos terráqueos contemporâneos uma capacidade de decodificação, síntese e diálogo constantes.


O gestor cultural se habilita a esse exercício constante, com um diálogo permanente entre as formas mais lineares e alienantes do conhecimento e as mais revolucionárias maneiras de criação e conexão com os universos paralelos do sentido. Um diálogo que possibilita, ao mesmo, implodir e reforçar os sistemas estabelecidos de poder.


Um profissional detentor de uma chave mestra, capaz de promover a livre expressão e arbítrio, e de revelar os sistemas de cerceamento de conhecimento, opinião e expressão, aptos a afugentar os medíocres, robotizando-os em lógicas binárias e sistemas bancários.


Antes de qualquer coisa, um profissional pautado pela ética. Não necessariamente pautado pelo bem, mas um bom conhecedor do mal que há dentro de si.
Algumas características são marcantes nesse profissional, que ganha espaço a cada dia não somente nos mercados tradicionais de cultura e comunicação, mas em várias esferas da sociedade.

 

São elas:


A constante reflexão em relação a tudo o que faz.

Alto poder de aplicabilidade daquilo que pensa naquilo que faz.

Participa da vida política, articula e trabalha em rede.

É familiarizado com a língua e a lógica do mercado.

Subverte a lógica do mercado, propondo novas formas de superação.

É empreendedor e criativo.

 

É claro que estou idealizando este profissional, mas ao mesmo tempo reconheço-o em corpo presente nos corredores dos inúmeros empreendimentos culturais com que tenho contato pelo Brasil e pelo mundo afora.


Alguém que, como o artista, se prepara como nenhum outro para lidar com as incertezas de um tempo que colhe os frutos do desenvolvimento tecnológico e da ciência, mas ao mesmo tempo paga a conta da irresponsabilidade para com seus pares, seu planeta e com a vida.


Leonardo Brant


(NE: Um artigo algo otimista de Leonardo Brant, um pouco sonhador, um tanto utópico. Pena que tenhamos à frente a demência do compromisso de uma Copa do Mundo, que não comportamos realizar, por ser drenadora de recursos importantes que não possuímos e desviadora de todas as atenções. Não temos estradas adequadas, faltam as duplicações viárias e as grandes pontes; não temos ferrovias de transportes de cargas e pessoas; não temos metrôs adequados às metrópoles caóticas pelo trânsito excessivo; não temos aeroportos funcionais; faltam-nos as escolas e os professores preparados e bem remunerados (hardware e software); faltam os hospitais (quem atenderá os problemas que surgirão durante a Copa, o SUS, o Hospital Albert Einstein?); falta a seguranca do nosso dia-a-dia; não há hotelaria e restaurantes suficientes para demanda tão expressiva de turistas e jornalistas; falta-nos vencer a síndrome do jeitinho, do qual tanto nos orgulhamos como capacidade criativa e que não passa de um disfarce para o improviso mal-feito, mal-acabado e amadorístico com o qual empurramos para frente o péssimo hábito de fazer às pressas no último instante o que deveríamos ter feito antecidamente com previdência, denodo e exigência para alcançar a qualidade exemplar e a que se espera de algo bem planejado. Enfim, bem melhor seria que não fizéssemos a tal Copa do Mundo, deixando-a para a Inglaterra ou para a Ibéria, que têm melhores condições econômicas e mais infraestrutura...- ARdoTEmpo)

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Quarta-feira, 16.06.10

Exposição hoje: Camisa Brasileira (Abertura)

Gilberto Perin

 

                                                                                                                                                                                                                                        
Trabalhadores do futebol
 
A exposição de Gilberto Perin, que se inaugura hoje no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, no Centro Histórico de Porto Alegre é um majestoso ensaio fotográfico sobre um universo pouco conhecido (e muitas vezes oculto) acerca das atividades profissionais e do comportamento dos milhares de trabalhadores do futebol, os que jogam e os que os apoiam. Não é o do espaço dos astros televisivos do super-espetáculo regido pelo rico mercado dos clubes-empresas, dos formidáveis anunciantes, dos empresários negociantes e dos artistas a quem a fortuna sorriu.
É outra gente, mais numerosa, mais frágil, para quem os dramas humanos estão mais evidenciados e que são capazes de nos emocionar e comover com  a grandeza de sua humildade e de sua humanidade.

É outro espaço, é outro tempo, são grandes as carências, as limitações materiais – mas talvez seja mais genuína a paixão que o esporte, distanciado dos holofotes do negócio-futebol, desperte em torcedores desses times e clubes espalhados pelo Brasil inteiro.

Camisa Brasileira é o título do ensaio fotográfico (com cerca de 3.000 imagens), da mostra (com 50 imagens) e do livro de arte (com cerca de 100 imagens) que será lançado até o final do ano. Livro que contará com a luxuosa colaboração do escritor Aldyr Garcia Schlee.
Projeto inscrito no Ministério da Cultura - PRONAC nº 10 4301.

A mostra revela um espaço de tempo e de atividades em que os aficcionados do esporte, os torcedores, os profissionais de imprensa já não tem mais acesso pelas rígidas regras que se impuseram nas recentes exigências do mercado dirigido pelo estrito controle da imagem. Os bastidores do futebol, os vestiários, a intimidade mais reclusa e secreta desses trabalhadores que dependem dos resultados do dia-a-dia para a própria sobrevivência. É preciso que tudo dê certo, que o indíviduo esteja nas graças da torcida, que os deuses do esporte velem para que ele jogue sempre bem, não se machuque, nunca seja expulso do campo. Que ele, o indivíduo, nunca perca o jogo.

Porém, como os indivíduos são muitos, são vários e diversos os times e os locais das disputas, os deuses e os santos em sincrético conflito não conseguem atender a todos –  os adversários e os concorrentes em luta. O jogo sabe à dureza, acontecem todas as probabilidades imaginadas e daí decorrem as glórias e os dramas. Acontecem então o choro, as angústias, o medo, a dor, a exaltação, a alegria, o companheirismo, os conflitos, as vitórias e os fracassos.

É nessa convulsão secreta de ocorrências que a vida é capaz de provocar que o fotógrafo, autorizado e invisível, capturou com rarissima sensibilidade: um conjunto dinâmico e humano de cenas que ninguém mais testemunha há décadas e nos traz à luz numa espécie de depoimento visual, original e único.

Ele atravessou o estado do Rio Grande do Sul, sul do Brasil em longas distâncias, ao longo de quatro meses, sem apoios financeiros ou patrocínios, para acompanhar a equipe do Grêmio Esportivo Brasil, em suas jornadas futebolísticas em pequenos estádios de condições bastante limitadas (ao contrário de sua própria sede, como time de enorme popularidade, de fanática e numerosa torcida, a sede em Pelotas que é grandiosa, confortável e bem equipada).
Perin seguiu a trilha do futebol mais popular, mais tangível, mais próximo às pessoas, mais humano, como qualquer outra atividade, sem o glamour artificial da mídia.

Produziu assim uma obra de arte de incrível potência na qualidade das imagens colecionadas, que nos revelam um universo inédito, no dias atuais. Mais pungente, mais doloroso, mais humano, mais belo e profundamente original pela sua singularidade.

Este universo do futebol que ninguém mais vê, vale a pena ser descoberto nessa bela exposição, pelo testemunho silencioso dos olhos de um fotógrafo audacioso e de visão estética personalizada.
                                                                                                                                                                                                                                  
Alfredo Aquino - Curador da mostra Brasil Camisa Brasileira 
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Terça-feira, 08.06.10

A excelência usa cortiça

 

Franceses fazem campanha em defesa das rolhas de cortiça

 

Nos últimos 15 anos o uso de rolhas de cortiça em vinhos caiu consideravelmente. De sua posição dominante no mercado com 95% ela caiu para 70%, sendo agora substituída por tampas de plástico e de alumínio.

 

Reagindo a uma tendência do mercado, a Apcor - a maior produtora de cortiça do mundo - iniciou uma campanha internacional de 20 milhões de euros.

 

Uma das principais mensagens da campanha será a de que técnicas têm sido desenvolvidas para diminuir cada vez mais as chances de um vinho se tornar "arrolhado". Isso acontece quando a cortiça, por ter características maleáveis, contém imperfeições que podem alterar o aroma e até mesmo o gosto da bebida.

 

A Federação Francesa de Cortiça também tem feito a sua parte para que a tradição de séculos não seja abandonada. O órgão fez inúmeras pesquisas sobre a preferência do consumidor e chegou à conclusões animadoras. De acordo com os estudos, nove em cada dez franceses preferem a rolha de cortiça em seus vinhos e oito em cada dez associam a cortiça a bebidas de qualidade. 

 

A questão ambiental também é um importante fator a favor da rolha de cortiça. As pesquisas da federação mostraram que o material produz dez vezes menos emissões de carbono do que as tampas de plástico e 26 vezes menos do que tampa de rosca.

 

Em 2009, 11.300 milhões de rolhas foram vendidas no mundo, uma queda de 3,5 por cento em relação ao ano anterior. 

 

 

 


 

 

Publicado no Universo Online / UOL

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Domingo, 06.06.10

L'amour, de Alain Badiou

Éloge de l´Amour” (Elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês. 

 

Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de “heroísmo da fusão” dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes). 

 

Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é “uma construção”.

 

O que constroem os amantes?

 

Geralmente, explica Badiou, “minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela”. 

 

Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses. 

Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela. 

 

Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz. Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego.

 

O amor segundo Badiou, em suma, é uma aventura, mas que precisa ser obstinada: “Abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor. Um amor verdadeiro é o que triunfa duravelmente, às vezes duramente, dos obstáculos que o espaço, o mundo e o tempo lhe propõem”.

 

 

Publicado em Verdes Trigos

publicado por ardotempo às 14:20 | Comentar | Adicionar

Neotráfico

Novo tráfico de escravos?

A sede europeia por jovens jogadores africanos

 

Christoph Biermann e Maik Grossekathöfer

 


 

A Copa do Mundo de Futebol está sendo realizada na África pela primeira vez este ano, mas há muito tempo jovens jogadores africanos são uma mercadoria procurada entre os principais clubes da Europa. Enquanto alguns jovens chegam ao topo, muitos jogadores acabavam nas ruas. Os críticos falam em um novo tráfico de escravos.

 

O barraco tem 3 metros por 3, as paredes são feitas de concreto, o telhado é uma folha de metal corrugado e o mobiliário escasso inclui uma cama e uma lamparina de petróleo. Não há janelas. Também não há eletricidade, nem banheiro, nem água corrente para as cinco pessoas que vivem nesse barraco infestado de moscas em Bamako, capital de Mali.

 

Enquanto o sol se põe, o calor do dia gradualmente diminui, os cães latem e o muezim chama para as orações. Diante do barraco, a mãe cozinha mingau de milho sobre uma fogueira, enquanto as duas filhas se sentam no chão de terra descascando mangas. O pai e o filho conversam sobre o futuro. Ambos estão usando camisas do Milan.

 

O menino, cujo nome é Amadou Keita, disse que certamente pode se imaginar jogando para o Milan, mas se tivesse de escolher iria para o Barcelona jogar como meio-campo. Seu pai afaga sua cabeça e sorri. Um velho que trabalha como porteiro, ele tem dores nos joelhos, nas costas e no quadril.

 

Amadou pega uma bola de borracha e a mantém no ar, fazendo centenas de "embaixadinhas" com os pés esquerdo e direito, alternadamente, então a coloca sobre os ombros, na cabeça e de volta aos pés. A bola não toca o chão nem uma vez.

 

"Eu quero ser profissional. Quero ganhar dinheiro com o futebol para poder dar a minha família uma vida melhor", diz Amadou. "Não quero que meus pais morram neste barraco. Essa é minha missão. Não posso falhar." Ele soa estranhamente sério para um rapaz de 14 anos.

 

Fábrica de sonhos

 

É um longo caminho de Bamako até a Europa, um longo caminho da rua empoeirada no Mali até o Milan, mas Amadou já deu o primeiro passo.

 

Ele se lembra claramente quando, um ano atrás, ouviu falar de um homem branco que estava em Bamako procurando crianças que jogassem bem futebol, meninos rápidos, ágeis e capazes de controlar a bola. O homem, um francês, organizou torneios por toda a cidade, e Amadou jogou em um deles. Afinal o homem escolheu os cinco melhores - dentre 5 mil. Amadou foi um desses cinco.

 

Ele frequenta uma escolinha de futebol nos arredores de Bamako, perto das margens do rio Níger, desde o início de setembro. Treina em um campo gramado e bem cuidado, recebe três refeições por dia e dorme em sua própria cama.

 

A escola de futebol, chamada Maison Bleue (casa azul) por causa da cor de suas paredes, é uma fábrica de sonhos. Os jogadores que chegaram até aqui têm a probabilidade de se tornar profissionais na Espanha, Inglaterra, França ou Alemanha. "Meu pai chorou de alegria quando fui aceito no internato", diz Amadou.

 

Atlético e barato

 

Há muitas escolas de futebol na África. Algumas pessoas as consideram uma bênção, outras uma maldição. Escolas como a de Bamako treinam os jogadores pelos quais os clubes profissionais da Europa manifestaram interesse. Eles são jovens, tecnicamente aptos, atléticos - e baratos.

 

Os clubes europeus têm ido à África em busca de talentos desde os anos 1950, e nos últimos anos a busca se tornou um negócio altamente rentável. Cerca de um em cada quatro estrangeiros que jogam para clubes europeus da primeira divisão vêm da África.

 

É um negócio que joga com a esperança e que é dirigido por empresários sérios. Mas traficantes inescrupulosos também tiram uma parte do bolo.

 

Os africanos são atraídos para a Europa porque acreditam que lá tudo existe em abundância: trabalho, dinheiro, confiança. Alguns jogadores conseguem e tornam-se astros, como Mahamadou Diarra do Real Madrid, Samuel Eto'o da Inter de Milão e Didier Drogba do Chelsea. Mas para a maioria o sonho de conseguir uma vida melhor como jogador profissional nunca se realiza

 

Christoph Biermann / Maik Grosskathöfer (Tradução Luis Roberto Mendes Gonçalves ) - Publicado no Der Spiegel

publicado por ardotempo às 13:42 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 26.05.10

O ridículo sem limites e sem recato

NÃO-FUTiBOL

 

Os Bancos do Brasil fecharão durante jogos da seleção na Copa


A paixão dos brasileiros pelo futebol levou o Banco Central do Brasil a permitir que as agências bancárias do país fechem(!) e mudem seus horários de atendimento ao público quando a seleção nacional jogar durante a Copa do Mundo.


Nestes dias não será obrigatório o funcionamento sem interrupções das agências”, anunciou o Banco Central brasileiro em nota divulgada nesta quarta-feira, autorizando assim o fechamento dos bancos nos horários das partidas.


Na última Copa, os bancos também foram liberados para fechar as portas durante os jogos do Brasil. A medida, de acordo com a entidade, busca “evitar a falta de segurança nas agências bancárias e no transporte de valores”.


Publicado no UOL

 

Dá para acreditar (?) e levar a sério um País inteiro assim, em que tudo pára, o trabalho pára, a vida perde-se...primeiro o carnaval e depois o mega negócio-futebol...

publicado por ardotempo às 23:28 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 25.05.10

O bar-ateliê

Bar Santa Madalena

 

 

 

 

O bar Santa Madelena (Rua Santa Madalena, 27 - Bairro Paraíso São Paulo) é um dos mais charmosos e cults de São Paulo. Cozinha de gastronomia superior, comandada pela refinada chef Lucia Sequerra, tem excelente música criteriosamente selecionada, cerveja gelada e bons vinhos portugueses, argentinos e chilenos a preços abordáveis. Tudo muito amigável. Nas segundas-feiras, essas inusitadas e surpreendentes noites isentas de destino, o bar transforma-se em ateliê sob a mestria e recepção de Sergio Gagliardi, o senhor dos pincéis, dos cães e da chave da grande porta verde de metal. O pintor genial que promove a transformação da noite em alguma coisa sempre inesquecível. Aleph. Longa vida às incríveis jornadas das segundas-feiras do fascinante e singular bar-ateliê do Paraíso - sem nenhuma dúvida, o melhor lugar para se estar em São Paulo, nas noites frias de segunda na capital paulistana. Quem perde essas noites perde a magia do lugar, o seu próprio tempo e até um pouquinho da vida.

publicado por ardotempo às 02:22 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Quinta-feira, 06.05.10

A cerveja do diabo

Cerveja, cerveja

 

 

 

 

"Era uma vez uma cervejaria, clandestina, um lugar singular, secreto, um porão, um lugar sublime, com cervejas fabulosas, de diversos lugares do mundo e do interior, centenas de rótulos diferentes, um clube fechado, isento de senhas, bebidas raras e artesanais, um lugar de boas histórias, tevê Predicta, fogão a lenha, elegantes copos de cristal. Venenos de Deus, remédios do diabo..." 

publicado por ardotempo às 22:45 | Comentar | Adicionar
Domingo, 02.05.10

Créditos de Carbono. Alguém acredita?

Cultura e sustentabilidade


Sustentabilidade. O grande tema do novo milênio surge como um alerta promovido por ativistas e organismos internacionais para a escassez dos recursos naturais disponíveis no planeta diante da fúria do capitalismo global. Este, por sua vez, como se não fosse o grande responsável pela catástrofe anunciada, tomou a dianteira desse processo e ressignificou, talvez de maneira irreversível, o próprio conceito de sustentabilidade.


A demanda por desenvolvimento (agora sustentável) abriu novas frentes de exploração e especulação mercadológica, com base em créditos de carbono, carteiras de investimento “éticos” e uma série incontável de produtos, já anunciam um processo de “commoditização” da sustentabilidade.


Mas quando falamos de responsabilidade ambiental ou social, referimo-nos, em última análise, a uma necessidade de mudança de comportamento e atitude em relação a nós mesmos e ao planeta em que vivemos. Uma questão cultural, portanto.

 


Por outro lado, a questão cultural é inexplicavelmente deixada de lado. Não faz parte do vocabulário e das discussões estratégicas no campo da sustentabilidade.


Por que o mesmo tipo de convergência das agendas sociais não se efetivou do lado da cultura? Por que o apelo do marketing e do entretenimento sobrepõe-se às questões de relevância para o desenvolvimento cultural? Como buscar uma afinidade temática entre as questões ambientais e as responsabilidades social e cultural?


Leonardo Brant - Do livro O Poder da Cultura / Publicado no blog Cultura e Mercado

publicado por ardotempo às 19:44 | Comentar | Adicionar
Sábado, 01.05.10

O tempo

A valorização do tempo


A campanha NÃO-FUTIBOL é uma reflexão sobre a imensurável quantidade de tempo perdido por milhões de pessoas envolvidas passivamente - hipnotizadas abulicamente - pelo fenômeno espetacular do negócio-futebol.


Nada contra o esporte, de dinâmica física e filosófica que imita a vida no seu constante recomeçar cíclico - perde-se num dia, recupera-se no outro. No seu regramento estruturado para ser seguido ou ser burlado em sua atávica dialética apolíneo-dionisíaca. Isso é o esporte simples, singelo e barato, uma bola, dois grupos adversários, quatro pedras formando os objetivos a alcançar e transpassar na busca do ponto e da vitória. Esporte vigoroso e saudável, que as crianças, os adolescentes e os adultos (homens e mulheres), praticam de forma espontânea e amadora. Nas várzeas, nos campinhos sem as dimensões das regras oficiais, nas escolas, nas periferias das grandes cidades, nas áreas rurais. Ao apito inicial, uma nova chance, uma renascença, a metáfora fina da vida, isso é positivo para quem o pratica, para quem está dentro das linhas traçadas em tinta ou apenas as imaginárias. Para quem joga o jogo.

 

Longa vida ao esporte e aos que o praticam com denodo, suor e inteligência.


Do lado de fora das linhas de jogo, fora do esporte, corre o tempo e a concretude da vida real das pessoas. Fora do campo, a história será outra.


Quando se transforma no negócio do mega-espetáculo, as coisas começam a ter outros enfoques, muito mais complicados e oblíquos. O negócio-futebol que é boa coisa apenas numa mínima fração de sua espantosa dimensão, que é um tanto má nos seus desvirtuamentos inevitáveis à condição humana (propinas, subornos, lavagem de dinheiro, química, drogas, influências, apostas, acordos secretos, o estímulo à violência, a violência desmesurada no entrecho e no coletivo) e é assombrosamente daninha na expropriação do tempo das multidões. Esse é o pior problema, a doença oculta - o sequestro do tempo.


O tempo é o mais valioso bem não-renovável que possuímos. O tempo de vida perdido de uma pessoa, um minuto que seja de espera numa fila ou de distração num momento de fadiga, será irrecuperável. O que dizer do tempo de duas pessoas, ou de centenas ou de milhões de pessoas, vidas preciosas jogadas fora impunemente e de forma desviada, alienada. O tempo perdido, a aura fantasmal e precoce no cadáver ainda em movimento.


O tempo de não se aprender, de não se ler um livro, de não se produzir nada criativamente, de pintar, de escrever, de pensar, de gerar tecnologias ou alimentos e até conseguir aproximar-se um pouco do estado da consciência plena (o que é dificilimo, fugaz e raro - manter-se em estado de consciência).


Ter a informação não basta, é necessário saber o que fazer com ela. E fazer algo, de fato.


O tempo do negócio-futebol é ganho para uns poucos, em forma de grandes volumes de dinheiro e é perdido dramatica e silenciosamente pela imensa maioria, sem uma razão concreta e produtiva.


O que se perde não é apenas o dinheiro, que é absolutamente insignificante frente ao que se perde na realidade - o tempo de viver. E na semana seguinte perde-se novamente e na outra semana perde-se de novo. De novo. Sem novidades. No negócio-futebol tudo é velho, tudo se repete de forma programada, na redundância do vício, na repetição patológica do prazer idêntico e caduco.


Tudo é engodo no negócio-futebol. A saber: a trupe de artistas do espetáculo (são artistas, são gladiadores de tempo também efêmero e finito, são negociantes e não são esportistas) ganham muito pouco por aquilo que propiciam como atração sedutora. É uma questão aritmética - são apenas uns trinta artistas por espetáculo (os jogadores, os juízes, os treinadores, os coadjuvantes eventuais das cenas recorrentes) que se apresentam num estádio para 5.000 ou 20.000 ou 30.000 assistentes, observadores sedentos do espetáculo repetitivo.  As imagens são transmitidas à distância pela televisão para milhões ou bilhões que os assistem estáticos, estes todos perdendo inexoravelmente o seu tempo de vida, que jamais será recuperado. Aqueles protagonistas, tão poucos, que aparentemente ganham muito, na realidade ganham muito pouco, o que será insuficiente para remunerá-los pelo que acarretam, em benefícios e principalmente, em malefícios. Os atravessadores do negócio-futebol ganham fortunas (os clubes, as emissoras, os fabricantes dos produtos, os mercadores de carne humana, os publicitários, os jornalistas “especializados” em estimular o tempo sequestrado). As vítimas, os que perdem a sua vida e a sua chance de produzir arte e consciência, assistem paralisados, ao jogo errado.


Não percebem o seu tempo passando e a vida se extinguindo, segundo a segundo.


O negócio-futebol é uma auchwtiz gigantesca e sem resistência aparente, a incinerar o tempo de vida de bilhões de pessoas todos os dias, em todos os cantos do planeta. Chama-se entretenimento, aparentemente inofensivo, um mote eufemismo a disfarçar a terrível tragédia anunciada da renúncia à vida, a abdicação do tempo de criar. O tempo se esfuma ao som estridente de apitos e de uivos selvagens das torcidas enlouquecidas e distanciadas da realidade tangível . Na semana seguinte repetem-se as cenas já vistas com o mesmo ímpeto especular do videoteipe, que só não repete a data. Essa é cena de terror real: a data é outra, e depois tristemente será outra, para a mesma farsa de esforços estéreis.


Porém, todos estarão um pouco mais velhos, mais próximos da morte e nada de novo se terá produzido, sequer uma linha de texto, uma dança, um desenho, uma fotografia, um filme, uma invenção, um alimento, uma ideia, uma reflexão, um afeto, uma nova vida, uma percepção diferente do mundo e do planeta.


O tempo passa cruamente e cobra sua conta no final, adicionando o custo alto da gorgeta.

 

Neste ano teremos, infelizmente, a Copa do Mundo e tudo será tediosamente igual, o idêntico alarido publicitário, o fervor patriótico e a postura profundamente improdutiva do marasmo e da paralisia. A perda de tempo. individual e coletiva, irreparável. O sequestro do tempo das multidões inocula o veneno da impotência da criatividade. 


NÃO-FUTIBOL é um convite a pensar em nosso próprio tempo como o melhor e mais valioso bem que possuímos. Que precisa ser cuidadosamente aproveitado. Bem que é bastante limitado, que é finito e que não deveríamos entregar de forma tão ingênua e tão cordata aos que o assaltam de maneira tão espalhafatosa e sem recato. 

 

 

publicado por ardotempo às 21:12 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 29.04.10

Mitos do século passado

O beijo

 

publicado por ardotempo às 19:08 | Comentar | Adicionar
Domingo, 10.01.10

Todo vigilante é um voyeur

Os passageiros estão nus
 
Gilles Lapouge
 
 
 
 
No futuro, quando se quiser viajar, primeiro será preciso ficar nu. É uma moda nova. Ela chegou nos EUA, mas a Europa a está adotando com estardalhaço.
 
Holanda, depois Grã-Bretanha e França em seguida. O rebuliço todo foi motivado por um jovem nigeriano que tentou explodir um avião na rota de Amsterdã para Detroit, mas fracassou.
 
Para um atentado frustrado, ele até que funcionou. Temerosas, autoridades instalaram em aeroportos aparelhos complexos capazes de ver através das roupas e o nigeriano conseguiu obrigar uma legião de homens e mulheres a se despir diante de um funcionário de aeroporto.
 
A roupa - isso é, o pudor, a intimidade - é uma das marcas da condição humana. A quase totalidade das civilizações considera a nudez um tabu.
 
É por isso que, quando europeus enfiaram seus narizes na América e na África, duas coisas os chocaram: primeiro, que aqueles "selvagens comiam uns aos outros" e, depois, que estavam todos nus.
 
Cientistas e teólogos inicialmente opinaram que aquela gente nua não era humana. Foi preciso que o papa escrevesse uma bula para decretar que é possível estar completamente nu e, mesmo assim, ser homem ou mulher.
 
É preciso que o pânico das sociedades seja grande ante a ameaça dos terroristas para que esse tabu tão antigo, tão maciço, se desfaça.
 
As resistências são grandes, é verdade. Estudam-se novos scanners que terão a delicadeza de queimar logo em seguida as imagens.
 
Enfim, será dada aos viajantes a possibilidade de recusar o scanner, com a condição de aceitarem se submeter à "apalpação". A escolha é sua!
 
Podem-se imaginar os diálogos no aeroporto: "Minha senhora, o que prefere? Se mostrar inteiramente nua ou ser apalpada?" Tudo isso porque um nigeriano não conseguiu detonar uma bomba.
 
Ninguém subestima o terrorismo. Mas não será entrar no jogo do terror dar uma resposta tão gigantesca?
 
Publicado em O Estado de São Paulo
publicado por ardotempo às 14:12 | Comentar | Adicionar
Domingo, 15.11.09

Ar de Paris

Paris não tem fim

 

"A Paris de cada um é a real. A cidade é democrática, individual, pessoal e intransferível. A de cada um, miríade de espelhos, segredos e labirintos, é a verdadeira."

 

 


 

 

Imagem: Gilberto Perin (Paris França), 2009

publicado por ardotempo às 11:14 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 22.10.09

Onde está o inimigo?

A guerra do Rio é uma metáfora cavilosa
 
Elio Gaspari
 
 
O Rio ganhou um novo problema, a blindagem dos helicópteros da polícia (e por que só os da polícia?). Os três jovens mortos na entrada do Morro dos Macacos são uma nota de pé de página. Três dias de desordens nas estações da SuperVia já são coisa do passado. De uma hora para outra, o carioca sente-se num cenário de "Tropa de elite".
 
Primeiro ele parou de caminhar pelas ruas do bairro depois do jantar. Um país com a taxa de fecundidade de 6,3 filhos por casal não podia ir para a frente. Depois, faz tempo, surgiram as grades nos jardins do recuo dos edifícios. Do Leblon ao Leme há algo como 10 mil metros de calçadas gradeadas, mas não poderia ser diferente: nessa época a população favelada do Rio dobrara, de 335 mil pessoas para 722 mil.
 
Isso acontecia numa cidade em que, até 1983, pareceu irrelevante o fato de os ônibus não passarem pelo Túnel Rebouças, inaugurado em 1966. Parecia natural que a choldra da Zona Norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema.
 
Na virada do século foi preciso blindar o carro. Pensando bem, era uma impropriedade estatística. A taxa de fecundidade das brasileiras caíra para 2,9 filhos por casal. Estavam nascendo menos pobres, portanto, não fazia sentido que a população favelada chegasse a 722 mil almas, quase 15% da população da cidade.
 
Aos perigos e transtornos impostos ao carioca somou-se a cenografia de uma guerra. A crise da segurança pública do Rio não é uma guerra. Pode ser pior, mas não é guerra. Os quatro anos da ocupação alemã em Paris foram menos cruentos que quaisquer quatro anos do Rio, desde 1980.
 
A ideia de uma guerra pressupõe um inimigo perfeitamente identificado e a disposição de se utilizar todas as forças disponíveis para submetê-lo. Guerra pressupõe tentar devolver o Vietnã do Norte à Idade da Pedra.
 
Não há guerra no Rio, o que há é uma metáfora de conveniência. Ela cria o cenário da emergência, mas não pode dar o passo seguinte, que seria o reconhecimento de que uma parte da cidade está em guerra com outra, como aconteceu na Argélia, ou na África do Sul da fase mais agressiva do apartheid.
 
Esse passo não é dado porque, apesar dos surtos demofóbicos, a sociedade brasileira nunca se associou a um projeto desse tipo. Colocando a coisa de outro modo: o pedaço da sociedade que seria capaz de apoiar uma política de violência segregacionista, levando-a a consequências extremas, ainda não tem coragem para vocalizar suas propostas e não haverá de tê-la nos próximos anos. Pensar que essa linha de pensamento não existe é colocar a ingenuidade a serviço das boas maneiras.
 
A metáfora da guerra não define o inimigo mas, cavilosamente, deixa-o subentendido. Ele está na favela ("fábrica de marginais", na definição do governador Sérgio Cabral). Essa guerra sem inimigo produz cenários, cenas de batalha, vítimas e juras de vingança, nada mais. Tudo fica parecido com "Tropa de elite".
 
Uma metáfora pode sustentar um filme, mas não resolve as questões da segurança de uma cidade.
 
Se o clima de guerra sair da agenda do Rio não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas pelo menos será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas.
 

Elio Gaspari - Publicado no Blog do Noblat 

publicado por ardotempo às 18:27 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 01.10.09

Herói

Alan Turing

 

 

 

"Nunca tantos deveram tanto a um só" 

publicado por ardotempo às 14:32 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 25.09.09

Instalação

A performance do bloqueio

 

 

 

 

 

Depois de expandir suas fronteiras e povoar todos os recantos do planeta com os seus povos, a Comunidade Européia hoje enriquecida e solipsista, oferece sua mortalha ao imigrante desconhecido

publicado por ardotempo às 00:04 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 22.06.09

Para o retorno do que foi saqueado

Grécia abre novo Museu da Acrópole
 
Autoridades da Grécia inauguraram neste sábado o aguardado Museu da Acrópole, em Atenas, quase 30 anos desde sua concepção e ao custo de mais de R$ 350 milhões.
 
O prédio moderno, um projeto do arquiteto suíço Bernard Tschumi em vidro e concreto construído ao pé das históricas construções gregas, abriga esculturas da época em que a democracia de Atenas vivia o seu apogeu.
 
O ministro da Cultura grego, Antonis Samaras, disse esperar que a abertura do museu sirva como "catalisador" para a volta das esculturas que decoravam o Partenon – abrigadas há quase 200 anos no Museu Britânico, em Londres. As obras, também conhecidas como Mármores de Elgin, foram adquiridos pela instituição britânica em 1817.
 
"Depois de várias aventuras, obstruções e críticas, o novo Museu da Acrópole está pronto: um símbolo da Grécia moderna que presta homenagem aos seus ancestrais,o dever de uma nação à sua herança cultural", afirmou Samaris. O diretor do novo museu grego, Dimitris Pandermalis, criticou duramente a retirada das peças de Atenas, que classificou de"ato de barbárie".
 
"Um destino trágico as separou, mas os seus criadores tiveram a intenção de que ficassem juntas", afirmou Pandermalis.
 
 
O prédio tem três andares, vistas panorâmicas da Acrópole e abriga cerca de 350 objetos e esculturas que antes podiam ser vistas em um pequeno museu no alto do monte. No primeiro andar, encontram-se cerâmicas e esculturas, enquanto as famosas cariátides, colunas esculpidas na forma de mulheres, que sustentavam o pórtico sul do templo de Erecteion, agora decoram a rampa que leva ao segundo andar. Neste piso, pode-se ver as esculturas dos templos de Atena e o propileu na entrada da Acrópole. No terceiro, está uma reconstrução dos mármores do Partenon.
 
A cópia foi feita a partir de vários elementos que sobreviveram em Atenas, bem como reproduções dos polêmicos mármores do Museu Britânico. A instituição londrina abriga 75 metros dos 160 metros originais do friso que rodeava o salão central do prédio, e afasta a possibilidade de devolução das peças. "Acho que elas pertencem a todos nós. Somos todos cidadãos globais hoje em dia", disse a porta-voz do museu, Hannah Boulton.
 
A diferença entre os originais e as cópias é a cor mais branca das últimas, feitas a partir de moldes de gesso, enquanto os originais tem o tom amarelado do mármore milenar.
 
Publicado no blog BBC Brasil
 
N.E.: Essa é uma polêmica fundamental sobre a questão colonialista, talvez até tenha sido relativamente importante num certo momento (o que é imensamente duvidoso em sua raiz, por terem sido sempre atos brutais de saque e expropriação) que certas peças e obras de arte tenham sido levadas à Europa, como troféus ou tesouros de guerra. e ali tenham sido, por alguma sorte, conservadas até hoje. Foi o que aconteceu por um período de tempo com a Guernica, de Picasso - pela sua sobrevivência como obra de arte foi necessário que estivesse abrigada noutro museu, noutro país, distante do calor dos acontecimentos na Espanha. Depois foi importantissimo que este tesouro da humanidade fosse devolvido aos espanhóis e esteja atualmente conservado dignamente em seu solo, num grande museu espanhol. 

É imprescindível que esses grandes tesouros gregos antigos, os mármores, frisas e esculturas helênicas sejam devolvidos incondicionalmente ao povo grego - todos os que estão indevida e abusivamente em Londres, em Paris ou em Berlim (ARdoTEmpo
 
Fotografia de Mário Castello (Acrópole / Parthenon - Atenas - Grécia)
publicado por ardotempo às 13:01 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 27.04.09

Pensando em todos, para que todos entendam

Juan Marsé, contra la literatura "del ombligo"
 
El escritor catalán apela a la "memoria compartida" y se declara "narrador y no intelectual" al recoger el Premio Cervantes.
     
Emocionado, con la voz temblorosa al principio, firme después, el flamante Premio Cervantes de Literatura 2008, Juan Marsé, ha desgranado en el paraninfo de la Universidad de Alcalá un discurso comprometido con la literatura que cuenta "buenas historias". En presencia de los Reyes de España, el presidente del Gobierno, José Luis Rodríguez Zapatero, la ministra de Cultura, Ángeles González-Sinde y otras autoridades políticas, culturales y académicas, Marsé ha arremetido contra la literatura "del ombligo"(la llamada metaliteratura): "Me deja frío". El novelista ha defendido el valor de la memoria compartida "que fue durante años sojuzgada, esquilmada y manipulada", así como su identidad de catalán que escribe en castellano. Ha afirmado que los pensamientos y las ideas "deberían merecer más atención y consideración que la lengua en que se expresan".
 
"Soy un catalán que escribe en lengua castellana. Yo nunca vi en ello nada anormal. Y aunque creo que la inmensa mayoría comparte mi opinión, hay sin embargo quién piensa que se trata de una anomalía, un desacuerdo entre lo que soy y represento, y lo que debería haber sido y haber quizá representado. Dicho sea de paso, desacuerdos entre lo que soy y lo que podría haber sido en esta vida, como escritor y como simple individuo, tengo para dar y tomar, o, como decimos en Cataluña, per donar i per vendre".
 
Sobre la coexistencia de las identidades castellana y catalana, Marsé ha afirmado: "La dualidad cultural y lingüística de Cataluña la he vivido desde que tengo uso de razón. Nos enriquece". El escritor ha abogado por "el realismo" para asumir el hecho consumado de esa doble esencia catalana y castellana, aunque - ha matizado - no desea instalarse "en la identidad cultural para dar lecciones a nadie". Y citando al cineasta estadounidense Woody Allen, ha dicho: "El realismo es el único lugar donde puedes adquirir un buen bistec".
 
El autor de Últimas tardes con Teresa ha señalado que cuando comenzó a publicar en la editorial Seix Barral se crearon unas expectativas ("ideológicas, no literarias") sobre lo que su obra iba a representar. Esas expectativas, piensa, no se han cumplido: "Nunca he querido representar a nadie, más que a mí mismo".
 
"Yo podía quizás haber sido, lo digo sin un ápice de sarcasmo, el escritor obrero que al parecer faltaba en el prestigioso catálogo de la editorial. Halagadora posibilidad que a su debido tiempo, la fábula de un joven charnego del Monte Carmelo, desarraigado y sin trabajo, soñador y sin medios de fortuna, pero también sin conciencia de clase, se encargaría de desbaratar".
 
La firmeza ha vuelto a la voz de Marsé para hablar de la memoria, en clara alusión a la Guerra Civil y a la dictadura franquista. "Hay una memoria compartida, que no debería arrogarse nadie, una memoria que fue durante años sojuzgada, esquilmada y manipulada. El lenguaje oficial había suplantado al lenguaje real. En la calle y en los papeles las palabras vivían bajo sospecha, muchas cosas parecían no tener nombre, porque nadie jamás se atrevía a nombrarlas, otras se habían vuelto decididamente equívocas y apenas podía uno reconocerlas".
 
En cuanto a la tarea del novelista, Marsé ha elaborado en dos plumazos su teoría literaria: "No me considero un intelectual, solamente un narrador. Los planteamientos peliagudos, la teoría asomando su hocico impertinente en medio de la fabulación, el relato mirándose el ombligo, la llamada metaliteratura, en fin, son vías abiertas a un tipo de especulación que me deja frío y me inhibe; bastante trabajo me da mantener en pie a los personajes, hacerlos creíbles, cercanos y veraces. Con respecto al trabajo mantengo algunos principios, pocos, que bien podrían resumirse en dos: procura tener una buna historia que contar, y procura contarla bien, es decir, esmerándote en el lenguaje; porque será el buen uso de la lengua, no solamente la singularidad, la bondad o la oportunidad del tema, lo que va a preservar la obra del moho del tiempo".
 
Con especial cariño se ha referido a la novela de novelas, al Quijote: "Es el guardián del laberinto, el valedor de lo más noble, bello y justo que alienta en el corazón humano, el que vela por el espíritu, la vigencia y el esplendor de los sueños".
 
Con un punto de indignación, Marsé se ha denunciado la omnipresencia de los medios de comunicación: "Se siente uno tan asediado las 24 horas del día por una información tan apremiante, insidiosa y reiterativa, que casi no hay tiempo para la reflexión". En especial ha criticado el papel de la televisión: "La televisión debería contribuir a reconocer y asumir la variedad lingüística del país, y es de suponer que en cierta medida lo hace, pero no parece que nadie se pare a pensar en los contenidos de esa televisión ni en su nefasta influencia cultural y educativa. A riesgo de equivocarme, soy del parecer que más de la mitad de lo que hoy entendemos por cultura popular proviene y se nutre de lo que no merece ser visto ni oído en la televisión. En la lengua que sea."
 
Publicado em EL PAÍS
publicado por ardotempo às 18:24 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 20.04.09

O invisível

O repórter investigativo

 

Com o olhar voltado para a cidade, para o conjunto da sociedade, para a ética, para o interesse público e para os acontecimentos aparentemente triviais, o repórter conta a vida e traz a consciência para a história de uma comunidade. Revela o que todos enxergam sem ver e aponta as luzes sobre as sombras escondidas de uma realidade obscura e mal-disfarçada. Faz a investigação e mostra a todos o comportamento de alguns e os malefícios que se constróem à vista de todos e que, apesar disso, quase ninguém vê. Como afirma o repórter de televisão Daniel Scola, "a reportagem é a vida real".

 

Giovani Grizotti é o repórter televisivo sem imagem. Por razões de qualidade na profissão e por necessidade de proteção, em virtude da contundência e profundidade de suas reportagens, vencedor de mais quarenta prêmios jornalísticos (entre eles vários dos cobiçados Prêmios Esso de Telejornalismo). Ele preserva confidencialmente as suas fontes, a sua autonomia, a sua liberdade de ação e a sua integridade física. Jamais subiu num palco para buscar um prêmio. Não permite fotografias de seu rosto, não aparece no vídeo. Apenas a sua voz em locução off.

 

É necessário. Precisa se disfarçar às vezes, fazer-se passar por outra personagem como se fosse um ator, para obter a noticia real, crua, escancarada, na defesa tácita de uma sociedade que se vê muitas vezes indefesa frente a opacidade de atuação das autoridades responsáveis pela sua defesa. As regras e as leis existem, são boas e suficientes mas não são cumpridas. A imprensa muitas vezes exerce a função fiscalizadora e corrige as falhas que o DNA defeituoso dos seres humanos insiste em impor em ganância e em crimes contra o bom senso e o bem comum.

 

O repórter, temerário, por vezes faz o papel do promotor e do defensor público expondo a realidade e revelando o escândalo do inaceitável, do inimaginável. Começa em algo pequeno, por vezes aparentemente inofensivo e acaba por neutralizar uma grande manobra lesiva à sociedade, em larga escala e em números estratosféricos. Sempre envolvendo o dinheiro público...Casos de desvio de merenda escolar, casos de presídios superlotados e abandonados à própria sorte ou ao azar da gestão dos piores condenados, que administram a ruína carcerária e o crime organizado nos bairros dos cidadãos livres, loteados de dentro das celas desconstruídas, sem grades e sem limites.

 

A sociedade não sabe, o repórter vê e mostra. 

 

Grizotti mostrou o caso do contrabando que atravessava não mais pela grande ponte, na qual a fiscalização se intensificara em métodos policiais de contenção. Aparentemente eficientes. Ele observou que as mercadorias continuavam à venda clandestinamente nas ruas como sempre estiveram. Como isso era possível? Olhou sob a ponte e viu o ir-e-vir dos barcos. O tráfico continuava ali, irremovível, a solução líquida. Filmou os barcos, fez a travessia, entrevistou os próprios contrabandistas, gravou escondido as imagens e as conversas. Esteve no coração da máfia. Revelou tudo, desde as margens das favelas nos dois lados do rio, bem como navegando os riscos inerentes da superfície interfronteiras.

 

A coragem e o destemor de olhar as regras, de ser obediente às leis e mostrar como fazem os que as transgridem e as afrontam como hienas vorazes, quando todos ficam de costas ou apenas um pouco de lado, mas cabisbaixos e calados como se o bem público e o dinheiro público não fossem um coletivo que tem origem transparente no trabalho árduo e honesto de todos.

 

 

Man Ray - Fotografia - Rayograph / Gelatina, sal de prata e ampliação em papel fotográfico

publicado por ardotempo às 17:34 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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