Segunda-feira, 01.11.10

Útil ou inútil?

Reflexões sobre um blog


Sobre o sentido, da permanência, da conveniência e da atividade de publicação de um blog.

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Quarta-feira, 27.10.10

Esqueletos

Amado Couto

Juiz de Fora, Brasil, 1948 - Paris, 1989

 

Couto escreveu um livro de contos que nenhuma editora aceitou.

 

O livro perdeu-se. Depois foi trabalhar para os Esquadrões da Morte, sequestrou, ajudou a torturar e viu como alguns era mortos, mas ele continuava a pensar na literatura e mais precisamente naquilo de que a literatura brasileira precisava. Precisava de vanguarda, de letras experimentais, dinamite, mas não como os irmãos Campos, que achava aborrecidos, dois professorezecos sem graça, nem como Osman Lins, que ele achava francamente ilegível (então porque é que publicavam Osman Lins e os seus contos não?), mas sim algo moderno, mais a atirar para o seu género, algo policial (mas brasileiro, norte-americano, não), um continuador de Rubem Fonseca, para nos entendermos. Esse escrevia bem e, embora dissessem que era um filho da puta, a ele não lhe constava isso.

 

Um dia pensou, enquanto esperava com o carro num descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer qualquer coisa a Fonseca. Disse isto aos seus chefes e estes ouviram-no. Mas não levou a cabo a ideia. Meter Fonseca no coração de um verdadeiro romance enevoou e iluminou os sonhos de Couto. Os chefes tinham chefes e a dada altura da cadeia o nome de Fonseca evaporava-se, deixava de existir, mas na sua cadeia privada o nome de Fonseca cada vez era maior, mais prestigiado, mais aberto e receptivo à sua entrada, como se a palavra “Fonseca” fosse uma ferida e a palavra “Couto” uma arma.

 

Assim que leu Fonseca, leu a ferida até esta começar a supurar, e depois adoeceu e os seus colegas levaram-no a um hospital e dizem que delirou: viu o grande romance policial-brasileiro num pavilhão de hepatologia, viu-o com pormenores, com trama, nó e desenlace e pareceu-lhe que estava no deserto do Egipto e que se aproximava como uma onda (ele era uma onda) das pirâmides em construção. Escreveu, pois, o romance e publicou-o. O romance chamava-se Nada a Dizer e era um romance policial. O herói chamava-se Paulinho e às vezes era o motorista de uns senhores, outras vezes era um detective e ainda outras um esqueleto que fumava num corredor a ouvir gritos distantes, um esqueleto que entrava em todas as casas (em todas não, só nas casas da classe média ou dos pobres abaixo do limiar de pobreza) mas que nunca se aproximava muito das pessoas. Publicou o romance na colecção “Pistola Negra”, que editava policiais norte-americanos, franceses e brasileiros, mais brasileiros ultimamente porque faltava o dinheiro para pagar royalties. E os seus colegas leram o romance e quase nenhum o percebeu. Nessa altura já não saíam juntos de carro nem sequestravam nem torturavam, embora um ou outro ainda matasse. Tenho de separar-me desta gente e ser escritor, escreveu Couto nalgum lado. Mas dava muito trabalho.

 

Uma vez tentou ver Fonseca. Segundo Couto, olharam um para o outro. Está mesmo velho, pensou, já não é Mandrake nem nada, mas teria trocado com ele nem que fosse só uma semana. Também pensou que o olhar de Fonseca era mais duro que o seu. Eu vivo entre piranhas, escreveu, mas o Sr. Rubem Fonseca vive num aquário de tubarões metafísicos. Escreveu-lhe uma carta. Não recebeu resposta. Então, escreveu outro romance, A Última Palavra, que a Pistola Negra lhe publicou e que trazia Paulinho novamente à cena e que no fundo era como se Couto se despisse diante de Fonseca sem qualquer pudor, como se lhe dissesse aqui estou eu, sozinho, a carregar com as minhas piranhas enquanto os meus colegas percorrem as ruas centrais, de madrugada, como os homens do saco que levam os meninos, o mistério da escrita. E embora provavelmente soubesse que Fonseca nunca leria os seus romances, continuou a escrever.

 

Em A Última Palavra apareciam mais esqueletos. Paulinho já era quase um esqueleto o dia todo. Os seus clientes eram esqueletos. As pessoas com quem Paulinho conversava, fornicava, comia (ainda que regra geral comesse sozinho), também eram esqueletos. E no terceiro romance, A Mudazinha, as principais cidades do Brasil eram como esqueletos enormes, e as povoações eram também como esqueletos pequenos, esqueletos infantis, e às vezes até as palavras se tinham metamorfoseado em ossos. E já não escreveu mais. Alguém lhe disse que os seus colegas da recolha estavam a desaparecer, ficou com medo, isto é, ficou com mais medo no corpo. Tentou desfazer os seus passos, encontrar caras conhecidas, mas tudo tinha mudado enquanto ele escrevia. Alguns desconhecidos começavam a falar dos seus romances. Um deles poderá ter sido Fonseca, mas não foi. Tive-o nas minhas mãos, anotou no seu diário antes de desaparecer como um sonho. Depois foi para Paris e lá enforcou-se num quarto do Hotel La Grèce.

 

 

 

(in A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2010)

 

Publicado por José Mário Silva, no blog Bibliotecário de Babel

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Quinta-feira, 07.10.10

Prêmio Nobel - Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa

 

 



Pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens incisivas da resistência, revolta e derrota dos indivíduos.

Comunicado da Academia Sueca, tradução de José Mário Silva

 

Publicado no blog Bibliotecário de Babel

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Terça-feira, 21.09.10

Julio Cortázar

Buenos Aires adormecida

 

João Ventura

 

 

 

 

 

Li já não sei onde que, quando tinha dez anos, Julio Cortázar viveu a inesquecível experiência de subir ao décimo andar de um edifício em Buenos Aires e dali observar a cidade adormecida.

 

Era, então, uma criança sensível, sem graça e estranha. A primeira metade da sua vida tinha-a passado com a sua família na Suíça, nas margens de uma guerra cujo alcance tardaria algum tempo a conhecer. No final da guerra, a sua família regressou à Argentina. Algum tempo depois, tinha, então, seis anos, o seu pai sairia de casa para não mais voltar, ficando, assim, a viver com a sua mãe, tias e a avó alemã, intuindo que a vida era algo mais do que as lições de piano e os livros de Julio Verne.

 

Era o único homem num território povoado de jasmins, pessegueiros e pianos, perto da estação de Ferrocarril Sud, no metasuburbio de Banfield, nos limites da zona portuária. Por essa altura, preferia os livros de Julio Verne aos jogos do clube local, o Atlético Bánfield, um dos pioneiros do futebol argentino, o que lhe causou alguns problemas de relacionamento com os seus colegas de escola, logo ultrapassados quando estes descobriram a sua assombrosa facilidade para escrever, com estilos apropriados, as composições escolares passadas pelos professores.

 

Dou, agora, com uma fotografia nocturna de Buenos Aires, tirada por Horacio Coppola, não sei se na mesma noite em que o pequeno Julio subiu ao décimo andar. Mas sei, porque leio nuns seus versos precoces, que a sua impressão foi tão intensa que desencadeou nele um tal estado de excitação donde só regressaria depois de escrever que «Ya la ciudad parece así, dormida/ una pradera noctural, florida/ por un millar de blancas margaritas».

 

 

 

João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

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Domingo, 12.09.10

A teologia do petróleo

 

Retóricas do 11 Setembro

 

João Ventura

 

 


 

Foi há nove anos que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos acontecimentos» - segundo a fórmula de Baudrillard - numa Europa e América sem guerras desde 1945. O espectáculo de fogo mortal, visível em tempo real em todo o planeta, superaria todas as ficções, tornando-se na grande metáfora de um mundo com anemia moral e alimentado pela hipocrisia e pela felicidade engarrafada, mas irremediavelmente ferido a partir do 11de Setembro de 2001.


A vida nova depois do 11-S, simultaneamente maculada e redentora, tem dado origem a uma repetição dos discursos sobre o acontecimento, visando a sua «legibilidade», à luz de interesses variados e, muitas vezes, antagónicos, legitimadores da resposta ocidental à «barbárie» de um Islão desfigurado, perseguida pelo «profeta electrónico» Bin Laden, cujas aparições acontecem na única realidade do nosso tempo, a televisão. Que caminhamos agora entre os vestígios de uma catástrofe cuja onda de choque continua a repercurtir-se no mundo já o sabemos. Só não sabemos é se a catástrofe ficará por ali, sepultada junto ao ground zero nova-iorquino, agora irremediavelmente ameaçado pelo novo skiline mercantil em construção no mesmo lugar ou se continuará, como uma onda de choque imparável, a desmoronar cidades e vidas longe daquele epicentro.


Haverá, ainda, redenção possível depois de tanta ruína? Se, num estado próximo do sonambulismo, W. G. Sebald caminhasse depois do 11-S sobre os mesmos tijolos calcinados, talvez voltasse a dizer: «Demasiados edifícios ruíram, amontoou-se demasiado entulho, são intransponíveis os sedimentos e as moreias» [Os Anéis de Saturno, Teorema, p. 172].


Mas será que o 11-S, nas suas causas e efeitos, constituiu uma cesura radical na narrativa moderna? Ou não terá sido antes mais um episódio de esbanjamento trágico do potencial redentor da humanidade? Foi, seguramente, um regresso ao fundamentalismo religioso incentivado pelo «choque das civilizações» (Samuel Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, 1999) ou «choque dos preconceitos» - como corrigiu Edward Said (Orientalismo, Cotovia, 2004] -, marcado pela tendência para a «teologização do político» e para a «instrumentalização política da religião» [Alain Badiou, Circunstances, Éditions Léo Scheer, 2004] tão presente nos discursos maniqueístas dos protagonistas desta tragédia global. Seja como for, cesura ou continuidade histórica, neste tempo de ebulição catastrófica, ganham adeptos as teorias salvícas que vão hipostasiando um «nós» ocidental contra um Islão desfigurado pela violência fundamentalista, fazendo-nos, assim, roçar um abismo cujo fundo negro desconhecemos. Multiplicam-se, por isso, os discursos que visam a «legibilidade» do 11-S à luz dessas mesmas teorias que conduzem a um perigoso resvalar para territórios de liberdade condicionada no mundo ocidental, refém, sempre, da maldição moderna do petróleo.


Eis a retórica dominante na efeméride negra do 11-S, como se o acontecimento apenas pudesse ter «legibilidade» através de um discurso legitimador da resposta americana enviesada, não tanto contra o terrorismo, mas contra um «inimigo providencial» [Carl Schmidt, Théologie politique, Gallimard, 1969] , em cujas fileiras se contam já milhares de vítimas inocentes, iraquianas sobretudo, mas também soldados das forças internacionais, enquanto deixa os sequazes de Bin Laden à solta no Afeganistão e no Paquistão. Ou, num sentido oposto, nos discursos negacionistas de uma certa esquerda, anacrónica, e também ela maniqueísta, só que invertendo os polos do bem e do mal.


E qual retórica da literatura sobre o 11-S? Tem sido ela capaz de retraçar o acontecimento dando conta da consternação do «mundo ocidental» pós 11-S? No epicentro da catástrofe, vários escritores americanos publicaram romances sobre a vida depois do 11-S. «Ela falou da torre […] claustrofobicamente, o fumo, os corpos desmembrados, e compreendeu que podiam falar daquelas coisas somente entre eles» - escreve Don DeLillo em Falling Man, um romance circular a várias vozes : a de um sobrevivente do atentado, a de sua mulher e de um terrorista. E Claire Messud, em The Emperor’s Children: «aquele imenso buraco parecia una extensão da sua própria dor». E Jay McInerney, em Good Life. E Jonathan Safran Foer, em Extremely Loud & Incredibly Close/Extremamente alto & incrivelmente perto (Quetzal, 2007).


Claro que mesmo nesta literatura estamos, ainda, diante de visões hipostasiadas de um «nós» que exclui os outros, enraizadas na experiência ocidental do acontecimento, visões parciais, portanto, mas que nem por isso deixam de constituir outras formas de retraçar o acontecimento, preferindo a ficção à interpretação, a experiência individual do acontecimento à sua explicação alegórica, a sua subjectivação discursiva à sua «legibilidade» compulsiva, sem cair na tentação didáctica, mas, como cabe à literatura, expondo-nos destinos tiritantes que poderiam ser os nossos, num mundo caminhando alegremente para um «pôr-do-mundo» cada vez mais desvanecido e alheado [Peter Sloterdijk, Weltfremdheit / Alheamento do mundo (Relógio d´Água).

 

João Ventura - Publicada no blog O leitor sem qualidades

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Sábado, 21.08.10

"O mar anda/ e a água canta"

"O mar anda/ e a água canta”


José Mário Silva

Quando a Alice tinha três anos (quase a fazer quatro), viu-me certo dia a rabiscar furiosamente um moleskine e perguntou logo: «O que é que estás a fazer, papá?» Expliquei-lhe que era um poema e ela ficou ao meu lado, silenciosa, a ver os traços deixados pela tinta negra da Bic.

 

Na manhã seguinte, apanhei-a deitada no chão do quarto, a rabiscar furiosamente um caderno. A página estava cheia de gatafunhos ilegíveis, mas muito bem ordenados, linha a linha. Pormenor importante: as linhas não chegavam ao fim da página. Foi a minha vez de perguntar: «O que é que estás a fazer, Alice?» E ela, como já terão adivinhado, respondeu: «poemas».Só isto já merecia ser contado, mas a história não acaba assim.

 

Quando peguei no caderno, apercebi-me de que o primeiro poema tinha apenas duas linhas. E fiz a pergunta óbvia: «Podes dizer-me, Alice, o que está escrito aqui?» Então ela aproximou-se e leu, muito desembaraçada, apontando o seu pequeno dedo aos gatafunhos:

 

«O mar anda /

e a água canta».

 

Eu nem queria acreditar no que tinha ouvido. Pedi-lhe que repetisse. O dedinho lá seguiu o primeiro verso,

 

«O mar anda»,

 

e depois o segundo,

 

«e a água canta».

 

O espanto, o espanto, o espanto. Fiquei a repetir os dois versos, a apreciar a sua música, a sua ressonância helénica (um vislumbre de Ulisses e as sereias), perplexo com isto de uma criança de três anos ser capaz de criar assim, out of the blue, um dístico que, perdoem-me o exagero, pede meças a muita coisa que se vê para aí publicada.

 

Agora, se um dia a Alice se tornar poeta e lhe perguntarem quando é que começou a escrever poemas, ela pode responder com a data exacta: 3 de Janeiro de 2009. E acrescentar os dois versos:

 

O mar anda/ e a água canta.

 

O entusiasmo foi tal que a Alice, à noite, teve dificuldade em adormecer. «Estou a pensar nos meus poemas», dizia ela, com os olhos a piscarem de sono.

 

Disse-lhe que dormisse, que sonhasse com palavras e que na manhã seguinte escrevesse mais versos no caderno. E assim aconteceu.

 

O primeiro contacto directo com a poesia foi tão belo e espontâneo que não merecia prolongamentos forçados. O reencontro acontecerá quando tiver de acontecer. E nessa altura ela saberá que o pai não se esqueceu dos seus primeiros poemas, escritos quando ela ainda nem sequer sabia escrever.


José Mário Silva - Publicado no blog  Bibliotecário de Babel

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Sábado, 19.06.10

"A Pilar, como se dissesse água"

 

Luto em vermelho

 

Helena Ortiz

 

A amiga me liga pela manhã para me contar. Foi assim que eu soube, por telefone, como se recebe a notícia da morte de um parente. Estamos viúvas, ela disse, e chorava. Mas eu sou forte, ainda consegui dizer à doutora que não tomo remédios, não tenho deficiência física e a pressão é boa. E daí, o que importava isso? José Saramago estava morto, e eu pensava primeiro no mundo, depois em Pilar del Rio, porque a ela sim foi dada a sorte de ter se tornado a amada do escritor. Foi para ela que ele escreveu a mais linda dedicatória que já vi: "A Pilar, como se dissesse água". E será ela, certamente, quem mais sentirá a falta dele.

 

Temos os livros, e a eles voltaremos quantas vezes quisermos. Ela não. Não mais a convivência em Lanzarote, não lerá os originais em primeira mão, não trocará com ele as carícias possíveis, não recolherá os silêncios em que trabalhava.

 

Para nós foi-se o grande escritor, um humanista que se teimava comunista, o anti-clerical por natureza (e acho que se divertia com isso). Um homem de talento, mas de igual coragem, que se aprendeu e se fez homem em condições difíceis, sem nunca esquecer. Mas para ela foi-se não só o grande escritor, o homo politicus que apontava os vícios neoliberais, o desvario belicista, a intolerância, foi-se o homem que amava, deixando mudos os espaços do entendimento, a casa, a sala, a cama, a intimidade. Escrevo isso porque uma das coisas que mais me chamava atenção na obra de Saramago era sua consideração pelas mulheres, pelo sentimento feminino que tão bem apreendeu, pela importância que reconhecia e conferia à mulher. Daí porque imagino com que delicadeza devia tratar sua Pilar.

 

Depois pensei em mim, na minha própria tristeza, na certeza de saber que perdi aquele que era meu deleite, fonte de compreensão, orgulho da espécie, que eu sempre achei que o artista deve ter um papel político, deve dizer o que pensa, deve assumir o que sente. Ele era assim. E quem mais? Me diga por favor que eu quero saber.

 

Em casa, não pude fazer mais nada que pensar, pensar em que talvez o poema de Idea Vilariño postado há dois dias, Pobre Mundo, tenha vindo ao encontro desse acontecimento tão temido, tão indesejado e tão previsível. Que ao morrer o escritor, o poeta, o incansável lutador, nossa voz ficou ainda mais fraca porque era ele, com sua coragem e lucidez, que nos abria os olhos para os equívocos dos caminhos obscuros que aceitamos percorrer.

 

E então fui à cozinha, e chorando sobre pimentões vermelhos e berinjelas pensei no luto vermelho daqueles que não podiam nem chorar, que precisavam se esconder para prosseguir, calar a respiração a bem de se manterem vivos, retrair-se para avançar, e sempre engolir o choro. Agora podemos chorar alto, falar palavrão, reacender as dúvidas. Mas porque aprendemos (ou ainda não?) a lição de Saramago: "Já estamos a viver neste planeta como sobreviventes. A cada dia que amanhece temos que fazer o possível para sobreviver. E devemos fazê-lo como insurgentes sistemáticos".

 

Talvez assim descubramos, cada um de nós, o segredo da ilha desconhecida.

 

 

 

 

 

 

 

Helena Ortiz - Publicado no blog Integrada e Marginal

 

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Terça-feira, 08.06.10

Poeta maior

 

Ferreira Gullar, poeta maior

 

A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.

 

Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos “imortais” da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de Lillias Fraser, 19 anos mais nova. "Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo", admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha "a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais".

 

 

 

 

Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é “inteiramente justa”, até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da Obra Poética completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem “inteligentíssimo”, correcto e afável, “um gentleman”. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da Obra Poética esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: Um Gato chamado Gatinho, volume de poemas infantis, “lindíssimos”, com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

 

Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (Um pouco acima do chão, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de Poema Sujo (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.

No livro de ensaios Indagações de hoje (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à Obra Poética editada pelas Quasi, sintetizou: “Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua”.

 

A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), o primeiro desde Muitas Vozes (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: “Meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.

 

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Domingo, 06.06.10

Regents Hotel, 44 Rue Madame

 

Hotéis de Passagem (IV)

 

João Ventura

 

E já agora o meu hotel pessoal de passagem, o Excelsior, na rue de Cujas, em Paris, onde havia, também, um quarto misteriosamente parecido com o do conto de Cortázar, com uma porta escondida atrás de um armário que deixava ouvir não os gemidos de amantes de passagem, mas o murmúrio de um casal de exilados chilenos que ali estavam também de passagem. 

 

Quando vou a Paris, subo sempre a Rue de Cujas, que liga o Boulevard Saint Michel à rue d´Ulm, e ao passar em frente da porta de entrada espreito, dissimuladamente, para o pequeno foyer onde se encontra o balcão da recepção, agora modernizado, depois de um upgrade remodelador que o dotou de um pequeno salão com amplas vitrinas que dão para a rua. Contudo, não se modernizam as recordações cegas da minha vida suspensa naquele pequeno hotel de passagem para hóspedes errantes sem pátria nem dinheiro. 

 

E recordo, então, o quarto, pequeno, no terceiro andar, com uma pequena janela de guilhotina que dava à esquerda para uma açoteia e para mais nada, porque se abria para um muro sobre o qual espreitava um inútil pedaço de céu quase sempre cinzento: uma pequena estante de madeira onde coleccionava livros que falavam de revoluções por fazer, um armário onde guardava parcos haveres, uma colcha escura de textura áspera sobre uma cama estreita onde deitava em noites de vigília a saudade, uma lâmpada florescente no tecto, uma cortina azul escura no cubículo de banho, uma chávena onde derramava água apenas tépida colorida pelas saquetas de chá verde. 

 

Com um golpe de google fico a saber que também o quarto foi vítima de um upgrade, e a porta entaipada pelo armário substituída por uma parede de alvenaria que já não deixa escutar os murmúrios do quarto vizinho. E concluo, então, que aquele Excelsior que ali está já não é o mesmo onde transitoriamente me encerrei nas minhas paredes interiores, mas que nem por isso deixarei de continuar a olhar, dissimuladamente, através da sua porta, sempre que suba a rue de Cujas.

 

 

 

 

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Abismos do mundo

 

Hotéis de Passagem (III)

 

João Ventura

 

E do lado de cá do mar, hotéis de passagem de escritores desesperados, atravessando como sombras os abismos deste mundo. O hotel Suède, na rue Vaneau, em Paris, e o hotel Troisi, em Nápoles, onde Pasavento procura dar-se como desaparecido, no romance homónimo de Enrique Vila-Matas. E outros hotéis parisienses já desaparecidos, vítimas de upgrades, de reconversões ou de demolições, como os hotéis habitados por Joseph Roth, cuja obra ando a ler: o Foyot, na rue Tournon, junto ao Jardin du Luxembourg, onde já tinha morado Rainer Maria Rilke, e que Roth abandonou quando os escombros da demolição já se amontoavam por detrás da porta entaipada do seu quarto; e o tétrico hotel Florida, no Boulevard Malesherbes; e o miserável Hotel de la Poste; e o albergue Principautés Unies onde morou Hannah Arendt; e em Zurique, o hotel onde às vezes Robert Walser se ocultava num quarto a que chamava a Câmara de Escrita para Desocupados e aí, sob a luz crepuscular de um candeeiro de petróleo, deixava que a sua mão indecisa o conduzisse pelos territórios do lápis, cujo traço o empurrava lentamente para o desaparecimento, para o eclipse, mimetizando-se para não ser descoberto; e também aquele quarto, não de um hotel mas de um edifício de dois andares, em Kierling, Viena – outrora um sanatório - derradeira passagem de Kafka.

 

Mas talvez o mais absoluto hotel de passagem de que ouvi falar seja aquele, em Port Bou, onde se abrigou Walter Benjamin em fuga para Lisboa, aonde não chegaria nunca porque as suas asas incertas de borboleta nocturna falhariam no último momento, incapazes de o levarem para fora do pequeno quarto onde se hospedara na última etapa da sua vida crepuscular. Também aí havia uma porta entaipada por detrás da qual se adivinhava a lenta irrupção da manhã, que já não chegaria a tempo de iluminar a sua solidão irredutível de ter sido sempre estrangeiro em todos os hotéis de passagem da sua vida e de não ter tido nunca nada, a não ser a pasta preta pousada em cima da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos "labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos".

 

 

 

 

João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

Imagem: O túnel - Gilberto Perin, Fotografia (2010)

 

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Terça-feira, 01.06.10

Camisa Brasileira - Exposição de Gilberto Perin

Dia 16 de Junho - Exposição de Fotografias

 

 

 

 

Exposição de fotografias de Gilberto Perin - CAMISA BRASILEIRA

50 fotografias em ampliações vintage sobre papel de gravura

Curadoria: Alfredo Aquino

Centro Cultural CEEE Erico Verissimo

De 16 de junho a 24 de julho de 2010

Porto Alegre RS Brasil

 

Blog Gilberto Perin - Fotografias

 

www.gilbertoperin.com

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Segunda-feira, 24.05.10

Horas Extraordinárias: Narrativa longa ou curta?

 

Romance ou novela?

 

Maria do Rosário Pedreira 

 

Por razões que não interessa aqui explicar, veio parar-me às mãos um pequeno livro de bolso dos anos 50, de um senhor chamado Paul Morand que, apesar de ter pertencido à Académie Française, é praticamente desconhecido em Portugal. Desse livro não falarei, porque mal iniciei a leitura; mas no prefácio encontrei algumas pérolas em defesa da novela (contra o romance?), que era, pelos vistos, o género em que este autor pontificava. 

 

Aí vão algumas:

 

“Ao organismo invadido pela celulite (o romance), prefiro o corpo magro e seco da novela.”

 

“Um romance, mesmo medíocre, pode conter boas páginas; uma novela não; como na arte do fresco, por menor que seja, um erro é sempre irrecuperável.”

 

“A novela é como uma noite num motel americano; recebe-se das mãos do porteiro as chaves do bungalow e depois é tudo self-service e cash and carry. O leitor recebe o tempo e o espaço na mesma embalagem.”

 

“Num romance a personagem instala-se, deixa de ser o inquilino para se tornar o senhorio. Numa novela, não, a personagem está sempre acampada. A novela é um móvel, o romance um imóvel.”

 

Se gosta de novelas (ou romances mais curtos), não deixe de ler um maravilhoso livro de Olivier Rolin, Porto Sudão, que a ASA publicou há muitos anos. Procure-o, se for preciso, num alfarrabista.

 

Maria do Rosário Pedreira - Publicado no blog Horas Extraordinárias

 

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Quarta-feira, 03.02.10

Os espiões

Os espiões
 
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote (Portugal) / Alfaguara (Brasil)
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-20-3922-2 (Portugal)
ISBN: 8560281991 (Brasil)
Ano de publicação: 2009
 
O narrador de Os Espiões (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais e pelas cartas de recusa, ele afoga em álcool a sua insatisfação profissional e familiar, até ao dia em que começa a receber às prestações o manuscrito de uma certa Ariadne, candidata a escritora, cujo projecto literário consiste em revelar a sua história de amores proibidos e crimes de sangue numa cidade do interior (Frondosa), suicidando-se no fim.
 
Apesar dos erros ortográficos e da ausência de vírgulas, o texto deslumbra tanto o editor como os amigos com quem costuma discutir no bar do Espanhol. Acreditando na veracidade do relato, o grupo decide montar uma «Operação Teseu» que inverta o mito e salve Ariadne, presa ainda no labirinto (à mercê de um temível Minotauro de apelido italiano) ou já em Naxos, aguardando um Dionísio que a redima.
 
Exímio na caracterização das personagens, Verissimo oferece-nos uma galeria de tipos inesquecíveis, de que fazem parte o Professor Fortuna, especialista em sexo tântrico sem contacto físico e em tiradas definitivas sobre autores que não leu («A literatura terminou com Sófocles. Tudo que veio depois é post-scriptum.»); o «Uruguaio», milionário que ganhou a sua fortuna ao apostar contra o Brasil na célebre e traumática final da Copa do Mundo, em 1950, esbanjando o dinheiro, desde então, para expiar a culpa; e Afonso, director do jornal Folha de Frondosa, estalinista empedernido que procura, à falta de revoluções, criar uma «rosa de um vermelho inédito» – a que chamaria, claro está, Rosa Luxemburgo.
 
Nunca perdendo o fio da narrativa (muito bem arquitectada, com os vários elementos da intriga a encaixarem-se na perfeição), o escritor gaúcho conseguiu urdir uma história sólida mas leve, alucinante e divertidíssima, onde cabem De Chirico e Sylvia Plath, conspirações e plágios, sequestros e resgates, cemitérios e bordéis, exercicíos meta-ficcionais e crónica de costumes, literatura e futsal. Em duas palavras: uma delícia.
 
 

 

José Mário Silva - Publicado no blog Bibliotecário de Babel 

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Sábado, 16.01.10

A culpa

O silêncio é a culpa

 

A convicção secreta e quase eterna de que a uma deusa não se contempla a possibilidade do erro. Todas as suas atitudes estarão acima do bem e do mal. Aliás, o mal somente estará encarnado num desacerto de perspectiva, do tempo congelado na memória inibida. A aproximação será concedida apenas ao cativo arbítrio da deusa. Pela deusa onisciente e a juíza sem equívocos do pensamento alheio. Estar apartado não é uma convicção, antes seria sempre a punição humilhante e inevitável. Contudo, e se não for assim o real? Se um dia, em mais de um dia, a deusa mentira? Se, naqueles noutros dias, olhou por espelhos alheios e as palavras refletidas estavam cirílicas? Se no palco do firmamento, as sombras estiveram retidas num caixa de chumbo repleta do material das nuvens? E se o silêncio, mal interpretado, fosse apenas a culpa? A culpa pelo erro do dia, a culpa no equívoco do julgamento, a culpa pelo sofrimento lapidado em mármore, a culpa pela morte?

 

 

 
 
Filme Spellbound - Alfred Hitchcock, 1945
 
“”Se queres falar de portas, falta-te aqui uma coisa: as quatro portas a abrir em linha quando Gregory Peck e Ingrid Bergman se aproximam num dos beijos mais extraodinários do cinema”. Quando eles ainda não estão juntos no mesmo plano e se olham, um pouco antes, em campo e contra-campo, a câmara já muito perto. É então que Hitchcock abre porta atrás de porta, naquele movimento contínuo de certos filmes que aceleram a vida das plantas para as vermos nascer e abrir, e abrir mais, mas não morrer (se bem que já só pensemos na morte), tudo em escassos segundos. Abro aqui outra vez essas quatro portas, como nos filmes que precipitam as coisas vivas. Folhas nascem e abrem) e abrem) e abrem) – porta atrás de porta, uma, duas, três, as quatro pétalas dessa flor acelerada. Eles aproximam-se, estão agora muito perto, dentro do mesmo plano, e vão beijar-se (enquanto que a morte continua fora de cena).”
 
 
(A Porta de Duchamp, de Rosa Maria Martelo, Averno, 2009) -
Publicado por José Mário Silva - blog Bibliotecário de Babel 
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Sexta-feira, 08.01.10

Conto

O Futuro

 

Deram-lhes carta branca para fazer o que desejassem, como desejassem, sem limites orçamentais. Junto à costa, os terrenos expropriados eram uma espécie de tábua rasa, estendendo-se até ao horizonte longínquo.

 

Construam o futuro, aqui e agora”, pediu-lhes o Presidente, num discurso inflamado, solene, feito para impressionar os Presidentes dos países vizinhos. Então, eles chegaram. Os melhores arquitectos. Os melhores engenheiros. Os melhores empreiteiros. Nos projectos que pousavam em cima das elegantes mesas de vidro, estava o futuro. O Futuro, com maiúscula. Uma cidade perfeita, ecologicamente sustentada, exemplar. A cidade-síntese. A cidade ideal.

 

Então, o Presidente morreu, em circunstâncias misteriosas. A primeira decisão do sucessor foi embargar o Futuro, dirigir as verbas para outros fins.

 

Os alicerces do Futuro ficaram expostos ao vento, consumidos pelo salitre. Ainda hoje podem ser vistos, junto à costa, por entre enormes extensões de areia, detritos e urtigas.

 

© José Mário Silva

Publicado no blog Bibliotecário de Babel

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Segunda-feira, 04.01.10

Uma das listas de José Mário Silva - Bibliotecário de Babel

Listas

 

José Mário Silva, atento e informado sobre o que acontece na literatura e na poesia dos países dos oceanos, lusófonos, publica suas listas de eleições no ano de 2009, no blog Bibliotecário de Babel:

 

 

LITERATURA LUSÓFONA (BRASIL E PALOP)

  • Leite Derramado, de Chico Buarque, Dom Quixote
  • Cinemateca, de Eucanaã Ferraz, Quasi
  • O Mago, de Fernando Morais, Planeta
  • Pequena Enciclopédia da Noite, de Carlos Nejar, Quasi
  • Os limites do impossível, de Aldyr Garcia Schlee, ardotempo
  • O Poema, a Viagem, o Sonho, de Arménio Vieira, Caminho
  • O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, Caminho
  • Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras
  • Pneuma, de Luís Carlos Patraquim, Caminho
  • Telefunken, de Luis Maffei, Deriva

 

Aldyr Garcia Schlee, autor de Os limites do impossível

 

 

Veja as listas completas no blogBibliotecário de Babel

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Quinta-feira, 31.12.09

Saída de cena no Da Literatura

Uma pena

 

Uma pena a saída de João Paulo Sousa do blog Da Literatura. Importante encontrar ali rotineiramente o seu pensamento agudo e sábio sobre o universo da literatura. Escreveu ali criticamente sobre vários autores brasileiros, auxiliou na sua difusão entre tantos e indicou-nos, didático, outros magníficos talentos da lingua portuguesa. Nessas descobertas, aprendemos a selecionar os melhores para ler e agradecemos a João Paulo pelo esforço dedicado e pela honestidade intelectual.Terá seus motivos, que serão respeitáveis, mas o mais desconfortável deles é a sua afirmativa do cansaço, porque significa que não o encontraremos noutro blog. O que será uma lástima porque perderemos o contato com sua letra e seu pensamento. Ao autor de O Mundo Sólido, excelente romance de linguagem e forma singular, a nossa saudação e o desejo de um ótimo 2010 com novas realizações, novos textos e o lançamento de um novo livro. 

 

Da Literatura é um excelente blog e conseguiu sê-lo pelas presenças diárias de Eduardo Pitta e até o dia de hoje, João Paulo Sousa. Uma pena sua ausência para 2010.

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Sábado, 26.12.09

"A escrita é uma prisão"

Da tipografia de Foucard
 
" L’écriture est une prison.
Chaque prison a son règlement intérieur.
Les traits d’union y sont prohibés car ce sont
des objets contondants qui peuvent blesser
les gardiens, impressionner les détenus ou
forcer les serrures. Pas de traits d’union."
 

Daniel Foucard 

 

 

 

Publicado por Laure Limongi no blog Rougelarsenrose

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Sexta-feira, 18.12.09

O próximo Coetzee

Summertime

 

José Mário Silva

 

 

Summertime é o livro com que Coetzee fecha a sua trilogia de memórias ficcionadas, iniciada com Boyhood (1997) – sobre a infância na Cidade do Cabo, no final dos anos 40 e início dos 50 – e Youth (2002), que descreve a sua vida em Londres, no início da década de 60, e as suas primeiras tentativas poéticas. Nessas duas obras, Coetzee fala de si mesmo na terceira pessoa e esse distanciamento reflecte o extremo cuidado com que o escritor sul-africano, conhecido pelo zelo posto na protecção da sua privacidade, aborda os materiais biográficos no processo de os transformar em literatura. Mesmo quando os factos são reais, o protagonista nunca é o verdadeiro Coetzee mas uma personagem em tudo semelhante, o seu reflexo no espelho da ficção.

Em Summertime, esta ambiguidade é levada ao extremo, pelo recurso a uma estrutura narrativa fragmentada e potenciadora das incertezas meta-literárias que Coetzee tanto aprecia. Em vez de uma história linear, o que o livro nos oferece é um conjunto de materiais que o biógrafo de Coetzee, um tal Mr. Vincent, reúne após a sua morte, tentando fixar uma certa época (os anos de 1972 a 1977), quando o escritor, então com trinta e poucos anos, ainda não era o escritor que veio a ser mas para lá caminhava. Vincent transcreve entrevistas com várias pessoas que terão conhecido Coetzee na altura (uma amante, uma prima, a mãe brasileira de uma das suas alunas, colegas do meio académico), além de excertos dos seus cadernos de notas. O retrato que emerge destes depoimentos em bruto – cheios de incongruências, animosidades, contradições – é de uma crueza devastadora.

 

Coetzee surge-nos como um homem emocionalmente opaco, incapaz de se relacionar com os outros, um corpo estranho fechado sobre si mesmo (a amante acusa-o de autismo sexual), um feixe de ideias confusas à deriva numa África do Sul em pleno apogeu do apartheid. O Coetzee de hoje não doura a pílula ao Coetzee trintão, nunca contemporiza com as suas fragilidades e falhanços. Mas, paradoxalmente, isso só o torna mais humano.


O resto é a arte da linguagem. Ou seja, o esplendor da língua inglesa, elevada aos céus por um dos seus melhores cultores.



José Mário Silva - Publicado no blog Bibliotecário de Babel

Imagem: Edward Hooper - Pintura, Óleo sobre tela - 1960

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Domingo, 01.11.09

A fumaça azul de um havana diz a paz

Havana para um Infante defunto
 
João Ventura
 
 
Há em Havana uma rua, a 23, que desce para o mar. Talvez, por isso, o troço final que desemboca no Malecón se chame La Rampa. Desci essa rua que mergulha no mar muito antes de alguma vez ter ido a Havana e de ter sentido o aroma achocolatado dos charutos cubanos. Subi-a e desci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante. E, depois, em Havana para um Infante Defunto, espécie de crónica pessoal de uma Havana pobre, carregada de sons, de intersecções. E, a partir daí, desde La Rampa, perdi-me na Havana dos anos cinquenta, no labirinto sonoro de rumbas e son, do rum Bacardi e dos charutos habanos. Uma Havana nocturna, insular, «com os seus cafés ao ar livre, cheios de novidade, e as suas inusitadas orquestras de mulheres que amenizavam os cafés do Paseo del Prado».
 
Quando alguns anos depois visitei a cidade, Havana já não era a Lost City do filme de Andy Garcia, baseado no romance Três Tristes Tigres que ontem, revisitei como quem regressa a uma cidade desaparecida. Ao descer La Rampa, e depois caminhar a pé ao longo do Malecón até ao Centro, num começo de uma noite quente de Verão tropical, amenizada por uma brisa refrescante vinda da vizinha corrente do Golfo, foi ainda a cidade nocturna fundada por Cabrera Infante que atravessei. Ali estava, pelo menos eu via-a assim, a mesma cidade reflectida na patine luminosa dos edifícios recuperados do Centro Histórico. Via-a, ainda, no contacto caloroso das pessoas, na sensualidade imediata dos corpos, no perfume adocicado dos charutos, na música omnipresente nos bares e cafés de Habana Vieja. Reencontrei-a, também, em algum imaginário e em alguma iconografia que moldaram a minha juventude. Paradoxalmente, Cabrera Infante já não veria, se ali estivesse, a mesma Havana que eu via, porque aqueles elementos dispersos que agora eu ia recuperando, pertenciam a uma certa mitografia de uma felicidade talvez mais sentida pelos estrangeiros do que pelos cubanos, à qual juntaria, depois, algumas imagens de uma decadência de charme.
 
Três Tristes Tigres, que Cabrera Infante começou a escrever ainda em Cuba, antes de se exilar, é uma homenagem a uma Havana sem tempo à qual ele não mais regressou, por culpa de um rancor quase irracional que marcou até ao final da sua vida a sua relação com o Estado cubano. Assim se compreenderá a amarga ironia que atravessa os seus livros. Trágica dissidência que o tornou ausente de uma cidade que foi sempre o centro festivo dos seus livros. E, talvez, nem ele nem Havana merecessem esse afastamento, pois cópias clandestinas de Três Tristes Tigres sempre circularam em Cuba, formando gerações de escritores, não obstante a opinião injusta e pouco amável de Cabrera Infante sobre os escritores que não abandonaram a ilha. A ausência preencheu-a Cabrera Infante regressando sempre aos mesmos temas com uma nostalgia feroz: a Havana dos anos quarenta e cinquenta, as mulheres, a música, o cinema.
 
O primeiro sinal de fumo de Cabrera Infante encontrei-o em Três Tristes Tigres: «O charuto [...] aceso é outra fénix: quando parece apagado, morto, a vida do fogo surge entre as suas cinzas». Em Havana, quando fumei o meu primeiro charuto, no bar do Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway, juntando assim mais um elemento à tal mitografia da felicidade, ainda não tinha lido o que Cabrera Infante escrevera sobre o prazer de fumar: «Llamo felicidad a sentarme solo en el lobby de un viejo hotel después de una cena tardía, cuando se han apagado las luces de la entrada y solamente se distingue, desde mi cómoda butaca, al portero en su vigilia. Es entonces cuando fumo mi puro en paz, tranquilo en la oscuridad: lo que fue antaño una hoguera, transformado ahora en las ascuas civilizadas que relucen en la noche como el faro del alma».
 
Puro Humo conta a história da relação entre o cinema e o fumo. Porque para Cabrera Infante, sabemo-lo desde Havana para um Infante Defunto, os filmes são feitos de sonhos. Como os puros. Por isso, em Puro Humo viagja-se de Cuba para o cinema, reacendendo na memória do leitor-espectador um certo voyeurismo: um cigarro lânguido nos lábios de Marlene Dietrich, uma beata rude entre o indicador e o polegar de Bogart, o universo opaco de maldade nos clássicos negros como A Dama de Shanghai ou A Sede do Mal. Também outras páginas que exalam o mais puro fumo literário, com referências a Daniel Dafoe, Edgar Poe, Conrad, Stevenson, Dickens, Mallarmé, Lewis Carrol, Conan Doyle, Raymond Chandler, Hemingway, Jack London, Lorca, Lezama Lima… – e J. M. Barrie – autor, talvez, do mais belo título de todos os livros que fumam: My Lady Nicotine. Pura literatura, portanto, que se esfuma e perfuma como um puro fumado em Havana. Como uma paixão consumida.
 
 
 
 
João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

 

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Espreitando à frente

Editora dinamiza na web
 
Publicado por VerdesTrigos 
 
 
 
O endereço é o mesmo, mas o conteúdo, quanta diferença! A famosa frase publicitária criada para divulgar um produto para os cabelos também pode ser aplicada ao novo portal da Cosac Naify, inaugurado nesta semana. Isso porque o conteúdo segue sendo disponibilizado no endereço www.cosacnaify.com.br , mas com seu conteúdo totalmente reformulado. Entre as novidades, a editora passou a disponibilizar livros para download.
 
O primeiro livro escolhido é Flores, do mexicano Mario Bellatin, que consentiu que a obra recém-lançada ficasse a disposição de todos. A editora também aposta na maior interatividade oferecendo canais de diálogo com o seu público. Twitter (@cosacnaify), com mais de 2600 seguidores espontâneos, Facebook, com mais de 800 membros e Orkut. No site reformulado, destaca-se ainda a estreia do Blog da Cosac Naify, com um capítulo inédito do livro Guerra e paz, de Tolstói, traduzido por Rubens Figueiredo, disponível para os leitores com um ano de antecedência ao seu lançamento, previsto para novembro de 2010. O blog continuará adiantando trechos de livros selecionados pelos editores, curiosidades sobre a escolha das capas e mais informações quentes sobre os próximos lançamentos da editora.
 
Além disso, a Loja Virtual ganha nova seção voltada para bibliófilos onde são disponibilizados em primeira mão, somente para aquisição online, livros com diferenciais gráficos que se tornaram raridade no mercado.
 
Publicado no Blog Verde Trigos
 

http://www.verdestrigos.org/wordpress/ 

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Domingo, 25.10.09

Aqui e ali, em todo lugar

Falemos de Deus
 
Contra as ressonâncias bíblicas que se ouvem por aí a propósito do livro de Saramago, outra forma de abordar «o teorema perfeito e terrível» de Deus.
 
Raramente falamos de Deus. E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome. E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos. A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de termos conhecido «as suas casas profundas». Na infância, Deus é, como escreveu Soares dos Passos, «aquele que povoa a imensidade». Depois, à medida que nos vamos adentrando no mundo, verificamos que caminhamos mais sós do que desejávamos. Por isso transformamos as perguntas nas respostas que procuramos, enquanto aguardamos pelo teorema da existência de Deus. E deixamo-nos arrastar pelo medo que cobre um mundo onde se apagaram as imagens que o paraíso já não devolve depois da «morte do criador» anunciada por Nietzsche. E desde aí, vivemos no medo de termos ficado órfãos para sempre, como se escrevêssemos um novo e desesperado Livro de Job.
 
 
Há quem explique esta angústia como um «erro genético» que a todos afecta. Porque todos, crentes e agnósticos, estamos inelutavelmente comprometidos com a dúvida original, oscilando entre um ascetismo puro e uma transcendência luminosa. Talvez, por isso, uns e outros, em qualquer momento das nossas vidas, já tenhamos sentido a falta de Deus. E outras vezes escutado os seus passos, os restos da sua voz no nevoeiro que cobre o mundo. E isso apazigua o medo. E, depois, estranhos de passagem, continuamos o caminho, cépticos ainda, mas com menos frio no coração. Mas será essa estranheza algo que devemos ocultar? Ou, como diz Henry James, «é preciso acreditar na dúvida, porque é isso que faz a grandeza do homem».
 
Diante da dúvida, que futuro, então, para Deus, num mundo que, ao mesmo tempo que vai perdendo o seu sentido ético, assiste à «instrumentalização política da religião», traduzida nos múltiplos fundamentalismos religiosos que enlouquecem os homens. «Talvez [como escreveu Enrique Vila-Matas] as ideias casuais de tanta gente incerta [...], as inquietações de cada um, dos vivos e dos mortos. Talvez algum dia com fluido abstracto e impossível substancia, formem um Deus ou um tecido novo e com a luz de outra vida ocupem o mundo».
 
Entretanto, «nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre/ o teorema perfeito/ e terrível» [Herberto Helder, Última Ciência].
 
João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

Imagem: Rene Magritte - Perspectiva I - Madame Recamier / Releitura da obra de David - Pintura - Óleo sobre tela 

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Sábado, 17.10.09

Bibliotecário de Babel

 

 

José Mário Silva é excelente escritor e poeta. Além disso, é respeitado crítico literário do Expresso de Lisboa, colaborador permanente da revista Ler e editor do blog Bibliotecário de Babel, blog que vale pelo menos uma visita diária. Autor do livro de contos Efeito Borboleta e outras histórias; e do livro de poesias Luz Indecisa, ambos editados e disponíveis apenas em Portugal, por enquanto.

 

Veja o blog Bibliotecário de Babel

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Sexta-feira, 16.10.09

Relendo Simenon

O homem do cachimbo
 
Isabel Coutinho - Ciberescritas
 
 
Quando, há 17 anos, Pierre Assouline escreveu a biografia sobre Georges Simenon (”Simenon”, colecção de livros de bolso Folio) ficou saturado. Já não podia ouvir falar mais do escritor belga que é autor de 400 romances, viveu em 33 casas e teve inúmeras mulheres. É que os três ou quatro anos que passou obcecado pelo criador do “commissaire Maigret” foram tão opressivos que nos anos seguintes Assouline nem conseguia abrir um romance de Simenon (1903- 1989).
 
O regresso à obra do belga foi progressivo e agora o ex-director da revista “Lire” voltou a ter prazer a ler os seus livros. Releu “Quand j’étais vieux” e achou que estas memórias têm páginas apaixonantes, um tom, uma violência e uma tensão de que só agora, mais velho, se apercebeu.
 
No ano em que se assinalam os 20 anos da morte deste escritor, o jornalista e escritor está a lançar em França “Autodictionnaire Simenon” (ed. Omnibus), dicionário de A a Z para se perceber o universo de Georges Simenon. Pode ser visto página a página (só até à 11, é um excerto…) no “site” Tout Simenon.
 
Quando estava a reler as provas deste livro Assouline percebeu que tinha redescoberto coisas de que se tinha esquecido, explica no vídeo que a editora fez para promover o livro e que está no “site” Tout Simenon onde também se podem ver as fotografias feitas pelo escritor belga, onde se podem ler testemunhos, ter acesso a uma lista de “links” para os lugares de Simenon na Internet.
 
Este projecto começou quando a editora Omnibus procurou um inédito para assinalar os vinte anos da morte de Simenon (4 de Setembro de 1989). Inéditos não havia e Pierre Assouline, que mantém no “site” do “Le Monde” o blogue La République des Livres, lembrou-se de um livro de homenagem com contribuições de pessoas que lhe deviam muito. A editora não aceitou o projecto, e o ponto de compromisso foi um dicionário que não fosse um dicionário clássico porque todas as entradas seriam retiradas do próprio Simenon, quer de coisas que ele tivesse escrito quer de coisas que tivesse dito. Só o ensaio- prefácio e a escolha dos termos são de Assouline.
 
Para concretizar a ideia, Assouline mergulhou nos 400 romances que Simenon escreveu (200 sob pseudónimo, obras de juventude, 70 livros com Maigret, etc). Para o fazer, contou à revista “Le Nouvel Observateur”, andou sempre com uma caneta USB (pendrive) e releu toda a obra no ecrã do computador. O facto de estar tudo em formato digital ajudou-o a fazer as buscas por palavra-chave. Mas isto foi só uma parte do trabalho. Tudo o que tinha a ver com decifração de cartas em fotocópias e de entrevistas áudio foi mais complicado.
 
Simenon, segundo Assouline, escrevia cinco livros por ano e emagrecia cinco quilos por livro (escrevia um livro em três meses). Quando falava não se calava durante horas. Quando enviava cartas eram às dezenas. Sofria de priapismo e quando o médico lhe deu três anos de vida deixou de beber e de fumar. Mas anos depois quando um outro médico lhe disse que o diagnóstico estava errado voltou a fumar. O seu cachimbo, é claro.
 
 
 

Isabel Coutinho - Publicado no Blog Ciberescritas
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Quinta-feira, 15.10.09

caim, de josé saramago - 1º parágrafo

 

"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama."

 

[in Caim, Caminho, 2009]

 

Publicado por José Mário Silva - BlogBibliotecário de Babel

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Segunda-feira, 12.10.09

Nuit Blanche, em Paris

 Paris, 2009

 

 

 

 

 

Fotografias de Eric Tenin - Publicadas no blog Paris Daily Photo (Paris França), 2009

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Quinta-feira, 08.10.09

Um blogueiro

Un 'bloguero' llamado Saramago
 
Umberto Eco
 
 
Curioso personaje este Saramago.
 
Tiene 87 años y (según dice) algunos achaques, ha ganado el premio Nobel, distinción que le permitiría no volver a producir nada porque, total, en el Panteón va a entrar en cualquier caso (el muy tacaño Harold Bloom lo ha definido como "el novelista más dotado de talento de los que siguen con vida... uno de los últimos titanes de un género en vías de extinción"), y le vemos escribiendo un blog en el que la toma con todo el mundo en general, atrayéndose polémicas y excomuniones de muchos sitios - a menudo no porque diga cosas que no deba decir, sino porque no pierde el tiempo en medir sus términos - y tal vez lo haga a propósito.
 
Pero ¿precisamente él?
 
¿Él, que cuida la puntuación hasta el extremo de hacer que desaparezca, que en su crítica moral y social no afronta jamás los problemas de frente sino que los rodea poéticamente bajo las formas de lo fantástico y lo alegórico, de modo que su lector debe poner algo de su parte para entender adónde quiere ir a parar; él, que -como en su Ceguera- hace que el lector viaje en una niebla láctea en la que ni siquiera los nombres propios, en los que tan parco es, dan una señal claramente reconocible; él, que en Ensayo sobre la lucidez efectúa una decidida elección política basándose en enigmáticas papeletas blancas?
 
¿Y este escritor fantasioso y metafórico viene a decirnos que Bush es de "una ignorancia abismal, de una expresión verbal confusa perennemente atraída por la irresistible tentación del puro despropósito", un cowboy que ha confundido el mundo con una manada de bueyes, un robot mal programado que confunde constantemente los mensajes que ha grabado en su interior, un mentiroso compulsivo, corifeo de todos los demás mentirosos que le han aplaudido y servido en los últimos años?
 
¿Y es este delicado tejedor de parábolas el que emplea palabras que no dejan lugar a la duda cuando define al propietario de la editorial que lo publica en Italia? ¿Y es ese ateo manifiesto, para quien Dios es "el silencio del universo y el hombre el grito que da sentido a ese silencio", el que saca otra vez a escena a Dios con tal de preguntarse qué pensará de Ratzinger?
 
¿Y quien, militante comunista (tenazmente aún), no duda en gritar que "la izquierda no tiene ni la más mísera idea del mundo en el que vive"? ¿Y quien se arriesga a una acusación de antisemitismo por haber criticado la política del Gobierno de Israel, olvidándose sin más, al sentirse tan airadamente partícipe en las desventuras palestinas, de recordar que no falta quien niegue el derecho a la existencia de Israel? Nadie tiene en cuenta, sin embargo, que cuando habla de Israel Saramago está pensando en Yahvé, "dios rencoroso y feroz", y en tal sentido no resulta más antisemita que anticristiano, dado que para cada religión intenta arreglar sus propias cuentas con Dios - que se llame como se llame en los distintos idiomas, le cae rematadamente mal -. Y que a uno le caiga mal Dios es sin duda motivo de ira furibunda contra todos aquellos que de él se sirven como escudo.
 
Si tuviera siempre en cuenta los pros y los contras, Saramago sabría también que hay maneras y maneras incluso en la invectiva. Cito (de memoria) a Borges que citaba (de memoria tal vez) al doctor Johnson que citaba el caso de un fulano que insultaba de esta manera a su adversario: "Señor, vuestra esposa, con el pretexto de que regenta un burdel, vende telas de contrabando". Saramago, por el contrario, no se anda con tantos cumplidos, es decir, dejándose de rodeos, en su actividad de comentarista cotidiano de la realidad que le circunda se toma la revancha de toda la vaguedad oblicua de sus fabulaciones.
 
Se ha hablado del ateísmo militante de Saramago. En efecto, sus polémicas no se dirigen contra Dios: una vez admitido que su "eternidad es sólo la de un eterno no ser", Saramago podría haberse quedado tranquilo. Su hastío se dirige contra las religiones (y por esa razón le atacan desde distintos frentes: negar a Dios es algo que se le concede a todo el mundo, polemizar con las religiones pone en discusión las estructuras sociales). En una ocasión, estimulado por una de las intervenciones antirreligiosas de Saramago, reflexioné sobre la célebre definición marxista según la cual la religión es el opio del pueblo.
 
¿Sería verdad que todas las religiones poseen esa virtus adormecedora? Saramago ha azotado a las religiones como germen de conflictos: "Las religiones, todas sin excepción, no servirán nunca para acercar y reconciliar a los hombres; todo lo contrario, han sido y siguen siendo causa de sufrimientos inenarrables, de matanzas, de una monstruosa violencia física y espiritual que constituyen uno de los más tenebrosos capítulos de la mísera historia humana" (La Repubblica, 20 de septiembre de 2001).
 
Saramago concluía en otra parte que "si todos fuéramos ateos, viviríamos en una sociedad más pacífica". No estoy seguro de que tenga razón, y parece como si indirectamente le hubiera contestado el papa Ratzinger en su encíclica Spe salvi, donde decía que es el ateísmo de los siglos XIX y XX el que ha provocado que "de tales premisas se hayan derivado las mayores crueldades y violaciones de la justicia".
 
Tal vez estuviera pensando Ratzinger en gente descreída como Lenin y Stalin, pero se olvidaba de que en las banderas nazis aparecía escrito Gott mit uns (que significa "Dios está con nosotros"), que falanges de capellanes militares bendecían los gallardetes fascistas, que se inspiraba en principios religiosísimos y se apoyaba en los Guerrilleros de Cristo Rey un culpable de tantas masacres como Francisco Franco, que religiosísimos eran los vendeanos en su lucha contra los republicanos, que católicos y protestantes se han masacrado alegremente durante años y años, que tanto los cruzados como sus enemigos estaban impulsados por motivos religiosos, que por razones religiosas se han encendido muchas hogueras, que religiosísimos son los fundamentalistas musulmanes, los terroristas de las Torres Gemelas, Osama y los talibanes, que son razones religiosas las que oponen a la India y Pakistán, y, para terminar, que fue al grito de God bless America como Bush invadió Irak.
 
Por todo ello se me ocurre la reflexión de que si tal vez la religión en ocasiones es o ha sido el opio del pueblo, más a menudo ha sido su cocaína. Creo que ésa es también la opinión de Saramago.
 
Escribo este prólogo porque creo tener una experiencia en común con el amigo Saramago, que es la de escribir libros (por un lado) y tener a mi cargo (por otro) una columna de crítica de costumbres en un semanario. Al ser este segundo tipo de escritura más claro y divulgativo que el primero, son muchos quienes me preguntan si lo que hago es trasvasar a esas breves piezas periodísticas reflexiones más ampliamente desarrolladas en los libros mayores.
 
Qué va, contesto, es la reacción irritada, el impulso que lleva a la sátira, la estocada crítica escrita al hilo de la actualidad lo que proporciona más adelante el material para una reflexión ensayística o narrativa más extensa. Es la escritura cotidiana la que inspira las obras de mayor empeño, y no al contrario.
 
Y por eso yo diría que en sus breves escritos Saramago sigue alimentando su experiencia del mundo tal como desgraciadamente es, para revisarlo posteriormente con más serena distancia sub specie de moralidad poética. Y además, ¿realmente se muestra siempre tan airado este maestro de la filípica y de la catilinaria?
 
Me da la impresión de que junto a la gente a la que odia está también la gente a la que ama, y así hallamos piezas afectuosas dedicadas a Pessoa (no es uno portugués en vano), o a Amado, a Fuentes, a Federico Mayor, a Chico Buarque de Hollanda, que nos demuestran lo poco envidioso que es este escritor y cómo sabe trazar de todos ellos delicadas y tiernas miniaturas.
 
Por no hablar de cuando el análisis de la actualidad roza temas (y aquí estamos de vuelta a los mayores asuntos de su narrativa) como los grandes problemas metafísicos, la realidad y la apariencia, la naturaleza de la esperanza, cómo son las cosas cuando no las estamos mirando. Y vuelve a escena el Saramago filósofo-narrador, ya no irritado sino meditabundo, e inseguro. Con todo, no nos disgusta tampoco cuando se enfurece. Resulta de lo más simpático.
 
© Umberto Eco - Publicado em El País 
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publicado por ardotempo às 18:28 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sábado, 03.10.09

Traduções

O que se perde na tradução
 
José Mário Silva
 
 
"Poesia é o que se perde na tradução", escreveu Robert Frost. E perde-se sempre muito, mesmo nos casos em que o tradutor domina bem as duas línguas (a de partida e a de chegada), mesmo nos casos em que o tradutor é, ele próprio, um poeta. Impunha-se, por isso, instituir uma lei: todos os livros de poesia traduzidos devem ser bilingues. Isto para que o leitor possa em qualquer momento recorrer ao original e reencontrar a tal matéria perdida de que falava Frost.
 
Vem isto a propósito do livro de John Updike que a Civilização acaba de publicar, Ponto Último e outros poemas, bem traduzido por Ana Luísa Amaral (especialista em literatura norte-americana e autora de poesia), mas que tem a pecha de não ser bilingue e por isso não permitir o confronto com os textos originais. Embora o trabalho de Ana Luísa Amaral seja meritório, é evidente que há particularidades e subtilezas da escrita de Updike que desaparecem completamente na versão portuguesa. Era o acesso imediato a essas particularidades e subtilezas que não devia ser negado ao leitor.
 
Veja-se, por exemplo, como traduziu Amaral os dois primeiros versos
do poema A Lightened Life:
 
Uma vida mais leve:
as últimas provas do romance
expedidas – a revisão final,
para trás, para a frente,
 
No original, os mesmos versos são assim:
 
A lightened life:
last novel proofs FedExed —
the final go-through,
back and forthing,
 
Para começar, parece-me que «last novel proofs» não são «as últimas provas do romance», mas sim as provas do último romance, do romance final, daquele a que não se seguirá nenhum outro (este poema, como quase todos os outros, é marcado pelo sentido do fim, da morte que se aproxima). E depois, como traduzir «FedExed»? Difícil. As provas foram expedidas, de facto, mas não apenas expedidas.
 
Foram expedidas pela FedEx, uma empresa americana que os leitores americanos conhecem bem. «Expedidas» faz pensar em estação dos correios; «FedExed» faz pensar num funcionário a bater à porta de casa do Sr. Updike e a levar o pacote das provas numa carrinha branca com letras roxas e cor-de-laranja.
 
Talvez não houvesse forma de passar decentemente aquele «FedExed» para português, mas se o livro fosse bilingue podíamos pelo menos intuir a urgência do verbo usado por Updike (a FedEx é uma empresa de entregas rápidas) e que o verbo português escolhido claramente não evoca.
 

© José Mário Silva – Publicado no blog Bibliotecário de Babel 

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publicado por ardotempo às 21:21 | Comentar | Adicionar
Sábado, 26.09.09

A loucura

Lalo Cura, La Locura
 
 
 
«Por aqueles dias Pedro Negrete viajou até Villaviciosa para arranjar um homem de confiança para o seu compadre Pedro Rengifo. Viu vários jovens. Estudou-os, fez-lhes algumas perguntas. Perguntou-lhes se sabiam disparar. Perguntou-lhes se poderia depositar a sua confiança neles. Perguntou-lhes se queriam ganhar dinheiro. Há muito tempo que não ia a Villaviciosa e a povoação pareceu-lhe igual à última vez. Casas baixas, de adobe, com pequenos quintais à frente. Só dois bares e uma mercearia. Para leste as ramificações de uma serra que parecia afastar-se e aproximar-se, conforme a deslocação do Sol e das sombras. Quando já tinha escolhido um jovem, mandou chamar Epifanio e perguntou-lhe à parte o que é que lhe parecia. Qual deles é, chefe? O mais novinho, disse Negrete. Epifanio olhou para ele de passagem e depois olhou para os outros, e antes de voltar para o carro disse que não estava mal, mas quem sabe.
 
(…) Negrete chamou o rapaz e disse-lhe que o tinha escolhido a ele. O rapaz olhou para Negrete e depois para o chão, como se estivesse a pensar no que lhe ia responder, mas de repente mudou de ideia, nada disse e partiu.
 
Quando Negrete saiu do bar encontrou o rapaz e Epifanio a conversarem apoiados no guarda-lamas do carro.
 
O rapaz sentou-se ao seu lado, na parte de trás. Epifanio sentou-se ao volante. Quando deixaram as ruas de terra batida de Villaviciosa e o carro rodava pelo deserto, o chefe da polícia perguntou-lhe como se chamava ele. Olegario Cura Expósito, respondeu o rapaz. Olegario Cura Expósito, repetiu Negrete, olhando para as estrelas, curioso nome. Durante algum tempo ficaram em silêncio. Epifanio tentou sintonizar uma emissora de Santa Teresa mas não conseguiu e desligou o rádio. Através da janela o chefe da polícia avistou, a muitos quilómetros de distância, o brilho de um raio. Naquele momento o carro deu um solavanco e Epifanio travou e saiu para ver o que é que ele tinha atropelado. O chefe da polícia viu-o desaparecer na estrada e depois viu a luz da lanterna de Epifanio. Abriu a janela e perguntou-lhe o que é que se passava. Ouviram um tiro.
 
O chefe abriu a porta e baixou-se. Deu uns quantos passos para desentorpecer as pernas, até que a figura de Epifanio apareceu sem pressas. Matei um lobo, disse ele. Vamos vê-lo, disse o chefe da polícia, e os dois voltaram a penetrar na escuridão. Na estrada não havia sinal de faróis de qualquer carro. O ar era seco embora às vezes viessem rajadas de vento salgado, como se antes de se estender no deserto esse ar tivesse limpado a superfície de uma salina. O rapaz olhou para o tabliê iluminado do carro e levou as mãos à cara. A alguns metros dali o chefe da polícia ordenou a Epifanio que lhe passasse a lanterna e focou o corpo do animal estendido na estrada. Não é um lobo, pá, disse o chefe da polícia. Ah, não? Olha para o pêlo dele, o do lobo é mais luzidio, mais brilhante, além de que não são tão parvos que se deixem atropelar por um carro no meio de uma estrada deserta. Vamos lá ver, vamos medi-lo, segura na lanterna. Epifanio focou a luz no animal enquanto o chefe da polícia o esticava e procedia à medição a olho. O coiote, disse, mede de setenta a noventa centímetros, contando com a cabeça, quantos dirás tu que este mede? Uns oitenta?, disse Epifanio. Correcto, disse o chefe da polícia. E acrescentou: o coiote pesa entre os dez e os dezasseis quilos. Passa-me a lanterna e levanta-o, não te vai morder. Epifanio pegou no animal morto ao colo. Quanto achas tu que pesa? Pois entre doze e quinze quilos, respondeu Epifanio, como um coiote. É mesmo um coiote, meu parvo, disse o chefe da polícia.
 
(…) Quando, em El Altillo, apareceram as primeiras luzes de Santa Teresa, o chefe da polícia quebrou o silêncio em que tinham mergulhado os três. Olegario Cura Expósito, chamou. Sim, senhor, respondeu o rapaz.
 
E os teus amigos como te chamam?
Lalo, disse o rapaz.
Lalo? Sim, senhor.
Ouviste, Epifanio?
Ouvi, disse Epifanio, que não conseguia deixar de pensar no coiote.
Lalo Cura?, perguntou o chefe da polícia.
Sim, senhor, confirmou o rapaz.
É uma brincadeira, não é?
Não, senhor, é assim que me chamam os meus amigos, disse o rapaz.
Ouviste Epifanio?, perguntou o chefe da polícia.
Claro que sim, ouvi, disse Epifanio.
Chama-se Lalo Cura, disse o chefe da polícia, e desatou a rir.
Lalo Cura, La Locura, topas?
Sim, sim, é claro, disse Epifanio, e também desatou a rir. Pouco depois os três puseram-se rir.»
 

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Pintura de Siron Franco, óleo sobre papel em fibra 100% algodão - 1999

Publicado no blog Bibliotecário de Babel

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publicado por ardotempo às 16:50 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 25.09.09

Roberto Bolaño

Inéditos
 
A caixa negra de Bolaño
 
«Estoy seguro de que moriré inédito», anotou, sem esperança, no seu diário, Roberto Bolaño, seis anos antes de morrer. Estava redondamente enganado. Depois dos livros póstumos - El secreto del mal, La Universidad desconocida, Entre paréntesis, Bolaño por el mismo e 2666 - que eu trouxe d uma recente viagem ao Chile, a voz fragmentária e testamentária de Bolãno ressoa, agora, na caixa negra do seu voo tragicamente inconcluso, convidando a adentrarmo-nos através da estranha cartografia dos seus livros por vir.
 
É que depois do agente Andrew Wylie ter anunciado a descoberta, na caixa negra bolañiana - ou se se preferir, por corresponder melhor ao cânone, na sua arca pessoana -, do romance inédito El Tercer Reich, a editar em breve, leio em La Vanguardia a notícia da descoberta de mais dois romances inéditos do assombroso escritor chileno: Diorama e Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora. «El futuro del archivo, un mar de libretas y cuadernos de todos los tamaños, una vez inventariado, será seguramente una universidad. Adentrarse en sus páginas requiere la paciencia del paleólogo o del domador de pulgas», pode ler-se em La Vanguardia.
 

Publicado por João Ventura - Blog O leitor sem qualidades 

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