Uma exposição de pintura

APENAS PINTURA

 

 

 

 

 

 

A mostra de 26 telas propõe-se a apresentar APENAS PINTURA.


O que significa isso, na realidade? Vamos pensar inicialmente sobre o que a mostra não é. O conjunto de pinturas contemporâneas e recentes não tem a pretensão de desencadear revoluções tampouco mudar o mundo. Se isso aconteceu com a arte em algum momento, ocorreu minimamente e por acaso, por acidente improvável, em tempos muito antigos e em circunstâncias especialíssimas. Não é um manifesto, nem um discurso ideológico sobre a atividade de pintar.

Nas pinturas apresentadas não estão representadas figuras simbólicas, nem a imaginária de guerras, de sagas, de ações, não há representações visuais históricas, de paisagens, de naturezas mortas ou de objetos. Não há semelhanças imagéticas à realidade,  não há busca da verossimilhança à fotografia, não há narrativa visual, portanto não está a fonte formal da semelhança literária,  do descritivo, da anedota, do remissivo histórico ou o jornalístico do cotidiano.

Também não está a função. Não está concebida para cumprir um papel de decoração, de edulcorar e colorir convenientemente os espaços. Não se propõe à finalidade da beleza apaziguada, domesticada e estéril. Não se pretende decorativa a cumprir o papel de paisagem harmônica em cenários. 

Igualmente a mostra APENAS PINTURA não está engajada ao modismo da Não-Arte. Não se propõe ao choque mediático, ao escândalo, a chamar a atenção pelo inusitado, ao movimento derrisório da destruição dos valores constitutivos da arte nem ao suícido do artista. Não apresenta a temporalidade da oxidação ferruginosa dos pregos, não mancha a tela com café ou chocolate, não utiliza excrementos como matéria pictórica, não se faz com lixo ou restos apodrecidos, nem utiliza os fluídos animais ou humanos (como o sangue e a água dos cadáveres) para tentar agregar os pigmentos e fazer a notícia.  

O conjunto dessas telas pintadas não traz mensagens pré-concebidas ao bizarro ou ao espetáculo feérico, pontificando alaridos estranhos ao seu intrínseco conteúdo visual. 

É apenas algo bem mais singelo, absolutamente silencioso: sustenta-se na atitude de pensar a pintura e realizá-la tão somente como pintura enquanto linguagem da pintura.

É simplesmente APENAS PINTURA. Nem se pretende pura ou sequer impura, porque a pintura é uma mistura complexa, que agrega tintas, pigmentos, solventes e outros materiais estáveis diversos sobre um tecido. E é dessa mistura ampliada condicionada pelo trabalho árduo e pela reflexão corretiva do artista, ao longo do tempo de sua execução, que se alcança o resultado. Afirmar a “pureza” da pintura seria um preconceito e um fetiche.

APENAS PINTURA revela o trabalho e a reflexão pictórica de um artista. Que apresenta um conjunto de obras em pintura contemporânea, nas quais está apontada a busca estrita de uma linguagem própria ao universo da pintura, utilizando-se apenas os valores artísticos.  Isso se apresenta na busca da cor, na construção de um espaço pictórico que acolhe alguns elementos sugeridos: um contorno de cabeça, algumas silhuetas, a sugestão de segmentos de uma linha de horizonte, uma caligrafia pictórica em que não se vêem signos identificados (não existem letras ou números nessa caligrafia). Com esses poucos elementos constrói-se um espaço de pintura onde a cor buscada, trabalhada com afinco, na superposição de cores, tonalidade e transparências se faz por mimetização e acréscimo. Uma cor que não existe crua e una, industrializada como estivesse intacta em seus tubos de origem e que se formará em progresso, na visão e na percepção de quem a observa: o próprio artista e o observador da pintura - o protagonista principal desta cena.

Para essa construção de linguagem estão os gestos do pintor, a atitude frente à tela, o jeito de fazer a pintura, a caligrafia pictórica, as tintas, os pigmentos, os objetos para a aplicação das cores (os pincéis, as hastes, as espátulas, as próprias mãos), as cores que se fazem por mistura, a cor misturada que “conversa” com outras cores igualmente misturadas e daí resulta a busca intensiva de um sentido, uma justificativa para si mesma enquanto pintura, que poderá ser a harmonia ou o contraste, o equilíbrio formal, a sutileza, a estruturação de um espaço cromático em cores profusamente trabalhadas, cores diferentes que ao olhar descuidado parecem ser idênticas. Estão ali para serem vistas e percebidas se o observador assim o quiser. 

A verdadeira razão dessa pintura e dessa linguagem será sempre a sensibilidade e a percepção desses observadores, que multiplicarão a condição  e o sentido de existência dessa pintura. Não fosse isso, o que justificaria a existência dos museus contemporâneos e dos centros culturais abertos ao público em todas as cidades do mundo?

APENAS PINTURA é uma mostra que apresenta um proposta de linguagem pictórica lastreada e apontada aos valores artísticos intrínsecos à pintura, apenas à pintura e endereçada aos observadores dessa pintura. Existirá como linguagem da pintura e de comunicação na medida em que for vista, percebida e sentida por seus observadores.

 

 

 

 

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publicado por ardotempo às 00:02 | Comentar | Adicionar