ARCANGELO IANELLIAqui estão quatro exemplos da pintura de um artista maior,
Arcangelo Ianelli, em diferentes momentos de sua trajetória.
1.
(
1)Figurativo notável na década de 50, fazendo em seguida sua passagem para o abstracionismo, (
2) ainda com elementos de uma figuração bastante sintetizada em 1960; (
3) um exemplo de suas magistrais séries de quadrados superpostos em transparências, das décadas de 70/80 e (
4) o seu apogeu criativo com a série mais recente das Vibrações Cromáticas da década de 90 .
Em todas as suas fases o grande artista atingiu um grau de originalidade e de qualidade pictórica exemplar, tornando-se um
paradigmático, ou seja, assumindo a condição rara de ser o artista que funciona como referência para outros artistas e para um momento crucial da produção artística de seu tempo. E Ianelli conquistou essa condição singular em vários momentos de sua longa carreira. Já expressei claramente em vários textos a minha opinião sobre o papel de
protagonista da arte contemporânea brasileira, que é ocupado pelo pintor paulista.
2.
Amigo de lealdade pétrea, irremovivelmente ético, ele é admirado por artistas como Rufino Tamayo, Pierre Soulages, Arthur Luis Piza, Tomie Ohtake e críticos de arte como Juan Acha, Giulio Carlo Argan, Alfred Pacquement e Ferreira Gullar.
Ianelli sempre transitou no espaço mais difícil e áspero, aquele que exige o saber fazer com a maior qualidade possível, com o mais exigente grau de invenção: o da
beleza, sem cair nunca na redundância ou no previsível. Sim, porque este é um espaço também invadido pelo artesanato oportunista da decoração com seus temas vulgares e repetitivos: os grandes campos floridos de girassóis, os bravos cavalos em movimento, as paisagens ou as manchas tachistas, texturizadas e, atualmente, incrustradas com folhas de ouro, a sinalizar a pretensão de um valor que não possuem.
3.
No reverso dessa atitude, a eleição preferida por uma multidão prudente de artistas mais perspicazes será outra.
Uma opção mais barulhenta, porque sabemos como é um tantinho mais fácil alcançar a ilusão da densidade ou da profundidade apelando para o sensacionalismo, para o choque, para a expressão, para o bizarro, para alguma demagogia, em suma, para a
feiúra, na razão da imediata associação desse valor estético com os nossos tempos de escancarada ruína ética e comportamental.
É muitissimo mais dificil e raro ser um grande artista no espaço da beleza do que nos bem equacionados, compreensíveis, teorizados, aceitos e rotulados espaços da escatologia, do expressionismo, do escândalo, da denúncia e da arte brutal. Fazer assim alcanca um reconhecimento sólido e rentável pela
espetacularização mediática que é praticamente instantânea.
O que conta é ser ágil, instalar o choque mais impetuoso e promover a notícia, Essa é a parte importante, o compromisso em despertar o interesse da mídia. Aí vale tudo.
Vale acumular lixo e rejeitos, vale amarrar um cão até a morte por inanição, vale espatifar-se sobre uma tela como obra póstuma abstrata, vale pintar com sangue (desde que imprensa seja previamente avisada do fato), vale usar como matéria-prima, terra misturada com massa fecal importada de países pobres distantes, vale fazer cubos de concreto utilizando-se de água de cadáveres. Pouco importa o resultado das “obras” o que vale é disseminação judiciosa da
notíciadaousadiadaqueleindivíduo. Essa passa ser a “
obra” e não o resultado obtido. Nesse sentido, a feiúra é uma das muletas mais eficazes porque reduz o trabalho e o tempo da compreensão do que se está pretendendo alcançar. Algo pode até resultar bem, ter seriedade e alcançar a condição da obra artística, mas com certeza não será tudo o que nos é apresentado e chancelado como tal.
4.
Isso jamais se aplica no caso de
Arcangelo Ianelli, que optou pelo caminho e pelo espaço realmente
mais difícil. O tempo fará a decantação e a real quantificação dos valores artísticos e estéticos que permanecerão.