05. Onde está o leitor? Onde está a leitora?

Ler liberta o leitor

 

"Quando o livro fez a sua primeira aparição, Sócrates rejeitou-o por o considerar inferior à conversação. Quando surgiu a imprensa, alguns leitores mais obtusos recusaram-se a permitir a entrada nas suas bibliotecas de produtos industriais e contrataram escribas para copiarem os textos impressos.

 
Quando apareceu a televisão, proclamou-se a morte do livro. Aconteceu o mesmo com a chegada do CD-ROM e do livro electrónico (e-book). Quando o mercado começou a consolidar-se em torno de alguns bestsellers, cadeias de lojas, livrarias virtuais (on-line) e conglomerados editoriais, receou-se pela diversidade.
 
Porém, as enormes vendas de poucos títulos não significam o desaparecimento de todos os outros – mas sim que estes se tornaram relativamente obscuros, menos visíveis. As novas tecnologias (Internet, impressão por encomenda) estão a aumentar os milhões de títulos disponíveis. E as consersações continuam, apesar de ignoradas pela televisão – que nunca as noticiará: “Ontem, um estudante leu a Apologia de Sócrates e sentiu-se livre.”
 
A liberdade e a felicidade experimentadas com a leitura viciam, e a força da tradição reside nessa experiência, que no fim de contas se alimenta de todas as inovações. Ler liberta o leitor e transporta-o do livro para uma leitura de si mesmo e da vida. Leva-o a participar em conversações e, em certos casos, a promovê-las, como fazem tantos leitores activos: pais, professores, amigos, escritores, tradutores, críticos, editores, livreiros, bibliotecários…
 
A singularidade de cada leitor, reflectida na natureza particular da sua biblioteca pessoal (o seu genoma intelectual), floresce na diversidade. E a conversação continua, entre os excessos da grafomania e dos do comércio, entre a expansão tentacular do caos e a concentração do mercado."
 
Ler e publicar na era da abundância - de Gabriel Zaid
 
Publicado no blog  Bibliotecário de Babel
publicado por ardotempo às 23:32 | Comentar | Adicionar