Sábado, 11.02.12

A barbárie previsível

A barbárie é um mundo sem livros

 

 

Existe uma nova maneira de se queimar livros sem a utilização do fogo.

 

Um mundo sem arte, sem poesia, sem literatura, sem memória, sem cultura.

Um mundo concentrado exclusivamente no entretenimento frívolo, midiático (cada vez mais superficial, cada vez com menos palavras), no consumo demencial e na desenfreada especulação financeira, construindo um cenário idealizado em engenharia de gestão não-social que privilegia o desemprego como uma ideia de austeridade.

publicado por ardotempo às 23:37 | Comentar | Adicionar

O que cada vez mais se parece

Tempos difíceis

 

João Ventura

 

Por estes dias, celebram-se 200 anos do nascimento de Charles Dickens, e o mundo fora dos livros, desgraçadamente, vai-se parecendo, cada vez mais, com o mesmo mundo que ele retratou em romances como David Copperfield, Oliver Twist,

 

Tempos Difíceis ou História de Duas Cidades, que contribuíram para a minha formação literária e de algum modo, ajudaram a moldar as minhas convicções políticas. A actualidade da sua obra pode ver-se, por exemplo, no começo de História de Duas Cidades: "Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos; a idade da sabedora, e também da loucura; a época das crenças e da incredulidade; a era da luz e das trevas; a primavera da esperança e o inverno do desespero".

 

Em Tempos Difíceis, Dickens, critica com acidez as deploráveis condições de vida dos operários ingleses e o fosso abismal que existia entre a sua vida precária e o fausto obsceno dos ricos da Inglaterra vitoriana. Nestes tempos difíceis de crise que assola a Europa, com os impostos a aumentar e os salários a diminuir, com o desemprego a disparar para números impossíveis, com sucessivos cortes nas prestações sociais dos estados, enfim, com cada vez mais amplos sectores das populações a empobrecer, e com a Grécia, seguida de Portugal - onde, de acordo, com números do Eurostat, mais de 2.500 milhões de pessoas sobrevivem em estado de pobreza e de exclusão social - e de outros países europeus, caminhando à beira do abismo para onde os sucessivos desgovernos e os especuladores financeiros nos vão empurrando, impossível não nos assombrarmos ao constatar como este romance publicado em 1854 descreve a realidade actual.

 

É que a obscena desigualdade entre os miseráveis lares proletários, retratados por Dickens na sua frieza, obscuridade e pobreza extremas, e as luxuosas mansões dos capitalistas da época que tratavam os seus assalariados como bestas de carga, parece reproduzir-se nestes nossos tempos difíceis em que que aos magros salários de muitos se contrapõem aos altos salários de uns tantos gestores transitados da política para as empresas e para os bancos. A única diferença entre os privilegiados dos tempos difíceis de Dickens e os privilegiados de agora, é que os de antes se chamavam utilitaristas e os de hoje são neo-liberais, e que uns se reviam em Stuart Miller e os outros revêm-se em Milton Friedman.

 


Vale a pena recordar um acontecimento catastrófico vivido por Dickens, num início de Verão de 1865, quando viu despenhar-se num precipício sete carruagens do comboio em que viajava. Premonitória metáfora de uma Europa, primeiro a Grécia, depois a Irlanda e Portugal e logo as restantes carruagens deste comboio europeu - sem maquinista mas com maquinadores - que hoje vai descarrilando arriscando uma queda sem fim no abismo que se abre sob o seu gasto e destravado rodado metálico.

 

Talvez seja, ainda, possível evitar a queda se os maquinadores que nos conduzem para a catástrofe forem capazes de imitar o mesquinho senhor Scrooge de Um conto de Natal, que ao ver o futuro sombrio anunciado pelos espíritos do Passado, do Presente e do Futuro, onde podia ver-se um túmulo com o seu epitáfio e nenhuma flor flor, soube redimir-se a tempo e converter-se num homem generoso. Uma parábola, afinal, que a senhora Merkel deveria recordar se quiser, ainda, ter remissão.

 

João Ventura - Publicado no blog O que cai dos dias 

publicado por ardotempo às 22:59 | Comentar | Adicionar

Sem medo

Os gigantes

 

 

Gilberto Perin - Fotografia - Sem título (Uruguaiana RS Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 22:24 | Comentar | Adicionar

Ausência de mim mesmo em mim mesmo

Sem sofrimento nem dor

 

António Lobo Antunes

 

Ontem, a meio da tarde, o meu pai disse

 

- Ai filho

 

e ficou-se como um passarinho, sem sofrimento nem dor. Não aborreceu ninguém. Aliás, durante toda a vida, pelo menos desde que o conheço, nunca aborreceu ninguém. Antes calculo que também não, era a paz em pessoa: gritos, zangas, impaciências foram coisas que não lhe vi. Passava as tardes na sua cadeira, a olhar a janela, quase não comia, quase não falava a não ser para garantir

 

- Estou bem

 

a minha mãe foi-se embora com o irmão dele, era eu pequeno, informou

 

- Vou viver com o Zé

 

e até hoje, não houve cenas, partes-gagas, discussões, o meu pai e o meu tio levaram-lhe, a meias, a bagagem, despediram-se no passeio e não tornei a vê-los. Não fiz perguntas e o meu pai não me explicou nada, deixou falar os factos. De início ainda pensei que mais dia menos dia se casasse outra vez. Não casou. E, tirando a madrinha dele, não nos entrou qualquer mulher no apartamento. À parte um bocadinho de pó a mais e umas nódoas por aqui e por ali as coisas continuaram na mesma: o meu pai na oficina e eu na escola, a seguir o meu pai e eu na oficina, a seguir o meu pai reformado e eu na oficina, aos domingos um passeiozeco a ver o rio, lado a lado, em silêncio, não me apareceram namoradas em condições, não éramos pessoas de criar amizades, um de nós preparava qualquer coisa para o jantar, o que não preparava qualquer coisa para o jantar tratava da loiça, um bocadinho de televisão antes da cama, coloquei uma cadeira ao lado da sua para olhar a janela com ele, as árvores, os pombos, os prédios, essas coisas e o tempo foi passando sem a gente dar por isso e, tirando um ou outro

 

- Ai filho

 

da sua parte não necessitávamos de conversas. Volta e meia a vizinha de baixo, viúva, oferecia-nos uns enchidos que trazia da terra, uma senhora que uma tarde me abraçou nas escadas

 

- Não te sentes sozinho?

 

e, como não me sentia sozinho, ficámos por ali mas ainda me lembro do perfume e de pegar na minha mão e a espalhar no seu peito. Nem sequer a tirei, acabou por cair por si quando ela se afastou, do mesmo modo que os enchidos acabaram a partir dessa altura e, pouco depois, um homem começou a morar com ela, empregado na drogaria à esquerda da oficina.

 

De vez em quando escutavam-se uns barulhos, a vizinha pedia

 

- Não me batas mais Jorge

 

os barulhos iam cessando a pouco e pouco, o homem saía a encontrar-se com a dona da papelaria, um de cada lado do balcão, a murmurarem sorrisos e dava-me ideia que a vizinha a chorar. Posso estar enganado mas dava-me ideia que a vizinha a chorar, queixando-se ao marido defunto. Que eu tenha reparado o marido defunto não a protegeu, em regra os maridos defuntos não se metem nesse género de problemas, preferem não sair das molduras. Por acaso ainda não esqueci o perfume nem o peito.

 

Não é que pense muito nisso mas continuam presentes. O homem da vizinha mudou para a cave da dona da capelista, isto há cinco ou seis anos. Não sei se lhe bate também porque os barulhos não chegam aqui, mas há meses a mulher trazia gesso no braço, o que não é suficiente para tirar ilações visto haver dúzias de maneiras de partir braços, se for a pensar acho, sem esforço, uma porção delas e, juntar a isso, a dona da capelista não parecia infeliz.

 

O meu pai comentou uma ocasião

 

- Não se me davam uns enchidos

 

eu continuei a olhar a janela e a história acabou dessa forma, embora a mim também não se me dessem uns enchidos. São um bocado indigestos porém na família temos bom estômago, até parafusos, se fosse preciso, a gente almoçava.

 

Bom. Portanto ontem, a meio da tarde, o meu pai disse

 

- Ai filho

 

sem alarme, tranquilo, e ficou-se como um passarinho.

 

O funeral é amanhã, às três horas e, pelas minhas contas devemos estar nós dois e o padre, porque não disse nada na oficina, mais os sujeitos da agência, claro, e uma coroa de flores que está incluída no preço. Deve ficar tudo despachado por volta das cinco, cinco e picos e, ao regressar a casa, passo na vizinha de baixo. Talvez me mande entrar, talvez partilhe uma morcela comigo, talvez reencontre o perfume e o peito, talvez se interesse

 

- Não te sentes sozinho?

 

e, no caso de se interessar

 

- Não te sentes sozinho?

 

sou pessoa para responder logo que sim. Há momentos em que me vai apetecer, conheço-me bem, companhia para um passeiozeco a ver o rio, alguém que me pegue no braço, a respirar perto de mim. Como se tivesse uma esposa. Tenho a certeza que o meu pai compreendia. E um jantar em condições, numa mesa com toalha e tudo e um copito de tinto para amortecer. E a vizinha de sapatos e brincos e a boca pintada. E os dedos dela sobre os meus. E o volume a aumentar-lhe num suspiro. E um segredo na minha orelha

 

- Sentes-te muito ou pouco sozinho?

 

um segundo segredo

 

- Não vais tornar a sentir-te sozinho,

 

prometo um joelho pegado ao meu, sob a toalha

 

- Não te chamas Jorge, pois não?

 

e, como não me chamo Jorge, o meu lóbulo apertado com ternura. E a mão dela a pegar na minha, a espalhá-la no peito, no outro peito, na barriga, eu

 

- Chamo-me Carlos

 

e uma segunda almofada na cama, e a minha nuca arrepiada por um mindinho lento, e pedacinhos de enchido que me coloca na boca, e a janela para a mesma rua que a minha, e eu estendido nos lençóis, e o pedido dela

 

- Dá um abracinho à mamã

 

e dou um abracinho à mamã, dois abracinhos à mamã, três abracinhos à mamã, e o meu coração desabalado, o meu corpo a tremer de alegria, uma impressão no peito, uma névoa nos olhos, o meu tronco incapaz de mover-se, os meus ouvidos a zumbirem, uma espécie de tontura, uma espécie de ausência de mim mesmo em mim mesmo, uma tentativa de falar sem que nenhuma palavra, a língua presa, os dentes moles, um frio esquisito por dentro, tão esquisito por dentro, a suspeita que eu


- Ai filha

 

a quase certeza que eu

 

- Ai filha

 

a certeza absoluta que eu

 

- Ai filha

 

e a ficar-me como um passarinho, sem sofrimento nem dor.

 

 

 


 

António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 22:07 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

“Que triste a noite sem lua”

A arca perdida (e encontrada) de Fernando Pessoa

 

António Jiménez Barca 

 

A lo largo de toda su vida, Fernando Pessoa acarreó siempre de acá para allá un arcón que le acompañó en sus muchas mudanzas y en el que iba guardando, en un orden a veces indescifrable, los miles de papeles que contenían escritos suyos que no publicó.

 

Tras su muerte en 1935 el baúl quedó en la casa de su hermana, en Lisboa, que lo conservó casi intacto durante décadas. Allí, a la casa de la hermana, acudían los investigadores portugueses en los años cincuenta y sesenta —muchos casi de tapadillo a causa de la dictadura de Salazar— a expurgar entre los papeles del poeta en busca de tesoros literarios.

 

Los había: Pessoa dejó cerca de 25.000 documentos en ese baúl mágico. Entre otras cosas, el arca encerraba hojas sueltas, cartas, carpetas con libros inconclusos, poemarios, escritos inclasificables, reflexiones, cuadernos, semidiarios, confesiones, estrofas, los sobres que contenían el Libro del desasosiego y hasta un arranque de novela policiaca que Pessoa no terminó, inspirada en cuando, en 1930, ayudó a un mago famoso de la época a fingir un suicidio para que éste recuperara a su mujer.

 

El arcón de Pessoa permaneció décadas en casa de la hermana del escritor. Cartas, libros sin terminar, poemarios y diarios conforman este ‘tesoro’ literario El baúl aún esconde aparentes joyas: hace dos semanas dos especialistas de la obra del poeta editaron el — por ahora — último libro de Pessoa, con medio centenar de textos inéditos, titulado Sebastianismo e Quinto Império. El volumen es temático y reúne, según los compiladores, el portugués Jerónimo Pizarro y el colombiano Jorge Uribe, algunos escritos en prosa sobre "la dimensión mítica de la nacionalidad portuguesa".

 

Los estudiosos de la obra de Pessoa ya no tienen que ir a la casa de la hermana del escritor, abrir el arca y rebuscar. La herencia se encuentra ordenada en la Biblioteca Nacional de Portugal desde 1979 y el arcón fue subastado hace tres años y vendido a un particular anónimo por 60.000 euros.

 

Pero los papeles del poeta presentan las mismas dificultades para descifrarlos y ordenarlos que en los años sesenta: en una misma hoja, Pessoa solía escribir — con una letra intrincada y diminuta, además — un poema y al lado un bosquejo de ensayo; o una carta y por detrás la corrección del anterior poema citado; o varias versiones del mismo poema.

 

Según recuerda uno de los mayores especialistas actuales de Pessoa, Richard Zenith, el poeta solía comenzar proyectos de libros que luego se ramificaban en principios de obras distintas que a la vez se metamorfoseaban en otra cosa y que, la mayoría de las veces, quedaban inconclusas pero con descubrimientos bellísimos por el camino. Dentro de esta actualidad pessoana, la Fundación Gulbenkian, en Lisboa, organiza una exposición sobre el poeta, titulada Pessoa, plural como o universo, que se inaugura ahora. La muestra reúne algunos de esos cuadernitos suyos que comenzaban como diarios y poemarios y que acababan siendo, por ejemplo, libros de contabilidad donde anotar las deudas de las casas comerciales para las que el escritor trabajaba.

 


 

En la Gulbenkian se incluyen muchas referencias a los otros yo del poeta, a sus heterónimos, a los varios poetas distintos para los que el mismo Pessoa inventó estilo, biografía y carácter. Hay páginas memorables, como aquella en la que, al lado de un poema, figura este apunte premonitorio: Título: Desasosiego.

 

Richard Zenith conoce bien el legado de Pessoa: "Aún hay inéditas muchas de sus páginas en prosa, sobre todo las referentes a la política. En verso no tanto. El problema es clasificarlo todo. ¿Cómo ordenas esas hojas que están imbuidas de ese caos creativo en el que vivía Pessoa, en donde hay mezclados textos disímiles y, a veces, tal vez, escritos por heterónimos distintos? A él le gustaba estar en movimiento, y su obra parece responder a ese movimiento continuo también". En una de las vitrinas se expone la página que da título a la exposición: una hoja blanca en la que figura, escrita con la caligrafía complicada de Pessoa, Plural como o universo, sin que se sepa si es un verso suelto, el principio de una estrofa truncada, un aforismo o el título de un libro que no llegó a escribir.

 

Al lado, en uno de esos cuadernos-diarios, hay una hoja fechada el 1 de noviembre de 1935, sólo 30 días antes de morir, en la que figura el último poema que escribió, y que arranca así: "Que triste a noite sem lua [qué triste la noche sin luna]".

 

António Jiménez Barca - Publicado em El País

publicado por ardotempo às 20:33 | Comentar | Adicionar

Um ídolo e seu templo

Religião

 

 

 

 

Giacomo Favretto - Fotografia - Sem título (São Paulo SP Brasil), 2012

 

publicado por ardotempo às 20:31 | Comentar | Adicionar

Beijos interditados

A tumba dos beijos proibidos

 

 

O acesso à tumba-monumento dedicada ao poeta Oscar Wilde, no cemitério de Père Lachaise, em Paris, será bloqueado com altos vidros blindados para impedir a continuidade da profusão de beijos (e os seus vestígios de batom) sobre a pedra esculpida. A alegação alarmada das autoridades do patrimônio da cidade de Paris é que os beijos (poderosos) das moças estão causando danos irreversíveis ao monumento.

 

 

A justificativa oficial afirma que os produtos químicos contidos nos pigmentos e colorantes dos atuais cosméticos para os lábios femininos (e em alguns casos, masculinos) tornaram-se potentes demais com seus fixadores cromáticos e tão eficazes que as cores são absorvidas pela pedra e a tal profundidade que já não podem ser removidas por detergentes e produtos de limpeza convencionais.

 

 

 

O monumento deverá passar por uma restauração demorada para retornar à sua cor branca de giz original - e a partir deste início de ano de 2012 os beijos destinados à alma do grande poeta e às superfícies porosas da escultura estão desde já definitivamente interditados.

publicado por ardotempo às 20:25 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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