Sábado, 09.04.11

Explosão de estrelas

Breve anotação sobre um tigre

 

Mariana Ianelli

 

Júbilo é uma palavra difícil de viver. Algo raro, tão raro quanto um tigre. Demora para acontecer, mas quando acontece, uma pessoa já não pode mais voltar ao que era antes de ter sentido o que sentiu.

 

Um acontecimento assim é o que excita um poeta a meter-se no escuro, procurando. Porque se existe um lugar além de um templo na Tailândia onde ainda hoje esse tigre passeia livre, longe de armadilhas, esse lugar é um poema. Precisa de silêncio para existir, por isso é tão raro o júbilo.

 

Não é algo que se possa dizer, é algo para ser sentido. Precisa de um tempo que perdure e, sobre esse tempo, um poema não mente. Não importa quantos dias sejam necessários trabalhando, vagando à procura, o tempo do poema depende do fulgor de um momento e esse momento depende de uma vida. Pretender tomá-lo à força, além de inútil, seria ridículo. Pode estar próximo e cada vez mais próximo, pode se fazer pressentir numa pausa do vento, num prólogo de bonança, e ainda assim não é certo que venha. Um júbilo não se compreende, é-se compreendido por ele, envolvido por ele, abraçado, possuído.

 

Traçar um plano de busca, estudar um provável cruzamento de rotas para encontrar esse animal rajado seria perder a explosão de estrelas que existe em ser por ele surpreendido numa estreita passagem. Procurá-lo pede um pensamento vago, qualquer coisa de desejo distraído, um devaneio sem pretensão de eficácia, sem meta a ser atingida, a sugestão de que está bem como está, o júbilo venha ou não venha.

 

É procurar indefinidamente até que chegue esse momento, um momento de presença, esse instante puro de descobrimento em que o poema diz amor e o amor é feito. Entra no poema quem entra nesse bosque sem palavra, nesse erotismo de uma comunicação profunda. Mas tudo o que se fala sobre o júbilo sempre é pouco, muito pouco fora do seu acontecimento. O júbilo acontece livre e no silêncio. É uma alegria rara, que perdura, um prazer de melodia quando irrompe, quando arrebata e transverbera um corpo. Não se pode apanhá-lo numa palavra. E mesmo que ficasse preso, que fosse agarrado, absurdamente enredado numa armadilha, já não seria júbilo, seria só um animal triste.

 

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 14:22 | Comentar | Adicionar

Anonimato como estratégia para a fama

 

Sobre um escritor que fugiu mesmo da fama

 

José Mário Silva

 

Eis o texto que li na primeira mesa do FLM (Os escritores que fogem da fama), sem uma breve introdução que isolarei daqui a nada num outro post: Ainda em Lisboa, anotei no meu moleskine meia dúzia de ideias gerais sobre o tema desta mesa e pensava improvisar à volta delas até perfazer os 15 minutos da praxe e passar a palavra a outra pessoa da mesa. Acontece que ontem à tarde, depois da abertura solene do festival, fui abordado por uma jornalista de rádio que me pediu para explicar, em dois minutos, o que tinha para vos dizer aqui agora. Eu caí no erro de lhe fazer a vontade. E depois percebi que aquelas generalidades são isso mesmo, generalidades, factos ao alcance de quem tenha uma ligação wireless e a Wikipedia nos favoritos do browser.

 

À noite, quando voltei ao quarto, depois de uma poncha de maracujá bebida à porta de um bar no centro do Funchal, enquanto um professor de Filosofia me alertava para a importância de ouvir o «toque de caixa» das coisas essenciais da vida; depois de regressar ao quarto, debruçado na varanda a olhar de cima para a rosa dos ventos junto às águas e para o vulto escuro daquele rochedo que parece ter sido plantado ali, no meio do mar, para nosso deleite contemplativo, decidi ignorar as notas do moleskine e sentar-me ao computador a escrever este texto. E sobre o que haveria eu de vos falar, para fugir às generalidades wikipédicas? Pois bem, não sobre os escritores que fogem da fama, em abstracto, mas sobre um escritor em particular, talvez o único escritor que verdadeiramente fugiu da fama. Ele é madeirense, tem 80 anos e… não, não se chama Herberto Helder.

 

Chama-se Aurelino Sousa Gomes. E se nunca ouviram falar dele é porque, ao contrário de outros escritores que supostamente fogem da fama (como Herberto Helder), ele levou essa fuga mesmo a sério. Tão a sério que não correu riscos e preferiu não publicar nada de nada. Há quem não publique porque não consegue. Aurelino Sousa Gomes não publicou porque não quis.

 

Fonte segura garante-me que Enrique Vila-Matas tencionava falar dele na primeira versão de Bartleby & Companhia, esse hino aos escritores do Não, aos escritores que se recusam a escrever, mas Aurelino, ao saber das intenções de Vila-Matas, terá viajado no seu FIAT 600 de cor creme até Barcelona, onde, à porta de uma estação de Correios, ameaçou de porrada o escritor catalão. Embora Aurelino fosse um homem já com quase 70 anos, enxuto e vigoroso mas frágil de ossos e sujeito a ser derrubado com um simples empurrão, a ameaça parece ter resultado, porque no livro de Vila-Matas não há uma só referência a Sousa Gomes, embora não faltem histórias sobre outros membros da confraria bartlebiana, como Juan Rulfo, Robert Walser, Daniele Del Giudice, Joseph Joubert, J. D. Salinger ou Julien Gracq – tudo nomes, diga-se, que eu trouxera de Lisboa anotados no moleskine.

 

O que torna singular a figura de Aurelino Sousa Gomes não é a sua recusa em publicar, ou sequer a sua recusa em escrever uma única frase (há outros casos de escritores que nunca escreveram uma única frase). O que o torna singular é o facto de as frases que nunca escreveu, os textos que nunca publicou, os livros que nunca editou, serem todos sobre um único assunto: precisamente o da relação dos escritores com a fama e as estratégias para lidar com ela. Ou seja, o tema desta sessão. Devo explicar que conheço Aurelino Sousa Gomes desde sempre.

 

Ele foi um grande amigo do meu avô paterno, o meu avô Mário, que tinha uma fábrica de cortiça e apreciava viajar pela Europa, com amigos, atrás do Benfica de Eusébio e Coluna, apesar de ser do Belenenses e no fundo não gostar por aí além de futebol. Ele gostava era da viagem, do estar com aqueles amigos estrada fora, das noites de comezaina e das idas aos casinos que surgiam entre Lisboa e as cidades onde o SLB disputava finais europeias. O meu avô terá conhecido Sousa Gomes numa dessas viagens e o que os aproximou, suspeito, foi o absoluto desinteresse do meu avô pela literatura. Seja como for, recordo-me de ver Aurelino no escritório da fábrica de cortiça, evocando uma qualquer aventura rodoviária ou gastronómica nos arredores de Zurique. O meu avô era uns dez anos mais velho e, para picar Aurelino, chamava-lhe “O Escritor. Ele ficava todo indignado, enrubescia de raiva fingida, e depois íamos todos comer doses industriais de cozido à portuguesa, a que o meu avô sempre pedia para acrescentar, num pratinho, uma dose extra de chouriço preto.

 

Muitos anos mais tarde, quando eu já estava mergulhado em literatura e começava rabiscar os meus primeiros versos, fui com o meu avô ao hospital visitar Aurelino. Ele estava todo partido porque caíra numa ribanceira ou por umas escadas abaixo, já não sei bem, e o meu avô, que não tinha paciência nem conversa para estar tardes inteiras ao pé de um homem engessado, pediu-me que fosse duas vezes por semana falar com Aurelino. O meu avô oferecera-me há pouco tempo o meu primeiro carro, um 2CV branco que ainda hoje lembro com saudade, pelo que não fui capaz de lhe dizer que não. Durante dois meses, fui a principal visita de Aurelino e ouvi atentamente as suas ideias.

 

Segundo Sousa Gomes, os escritores que fogem da fama só o fazem por uma razão: para se tornarem famosos. A forma como se ocultam, como desaparecem de circulação, como escapam do escrutínio público, mais não é do que uma estratégia inteligentíssima para criar uma curiosidade que eles sabem que perdurará. São lendas? Claro, mas lendas criadas por eles mesmos. São mitos? Sim, mas mitos criados por eles próprios. Por natureza, a fama é efémera, cíclica, fugaz. Quem se dá a conhecer, dá-se a esquecer. A única fama que resiste é a fama que se recusa, a fama que se desdenha. Quando Greta Garbo disse "I want to be alone", no fundo sabia que nunca mais deixaria de estar acompanhada. Em suma, não há escritor que procure mais a fama do que o escritor que foge dela.

 

Era este o conceito central do livro que Sousa Gomes nunca escreveu, mas do qual me falou longamente durante aquela complicada convalescença. Passaram-se os anos e nunca mais ouvi falar de Sousa Gomes. Ontem à noite, na varanda, enquanto olhava para o vulto negro do rochedo que parece ter sido plantado ali, no meio do mar, para nosso deleite contemplativo, pensei que quem devia estar aqui a falar-vos disto tudo não era eu, era Sousa Gomes, o único escritor que fugiu mesmo da fama, sem segundas intenções. O único que fugiu tanto da fama que ninguém sabe quem é, ninguém sabe sequer se existe ou existiu. Infelizmente, não sei onde está Sousa Gomes, nem sei se ainda é vivo. A última vez que estive com ele, talvez em 2004, foi à saída do hospital, ele ainda meio trôpego e dobrado sobre si mesmo, impecavelmente bem vestido, o rosto vincado pela melancolia como o de um general romano depois de assistir à derrota das suas legiões.

 

Há pouco, no meio do público, julguei ver esse rosto tão nobre. Mas deve ter sido ilusão. Se não foi ilusão, por favor, não me deixem sozinho no fim desta mesa redonda, porque nesse caso tenho a certeza que Sousa Gomes deve estar lá fora, à minha espera, pronto a dar-me os socos e pontapés a que poupou, há cerca de dez anos, em Barcelona, um assustado Enrique Vila-Matas.

 

 

José Mário Silva - Publicado no blog Bibliotecário de Babel

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publicado por ardotempo às 13:46 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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