Sábado, 01.01.11

Alta Cozinha

Alta Fotografia

 

 

 

"A percepção e o sentido da excelência não é uma expectativa passiva que leva à surpresa, é uma exigência interior e consciente que confirma a curiosidade."

 

Giacomo Favretto - Cozinha - Fotografia I-Phone (São Paulo SP Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 13:44 | Comentar | Adicionar

Resistência pela Vida

O século de Sabato


Mariana Ianelli


Sendo a sorte generosa, Ernesto Sabato completará este ano um século de vida. É uma pena que homens como ele sejam submetidos à mesma recôndita justiça que, assim como deu a vida, dá também a morte a todos. Porque a vitalidade deste senhor quase centenário é de fazer inveja aos jovens de hoje.


Quem sabe neste momento, em Santos Lugares, onde mora, Ernesto Sabato esteja desfrutando de algum prazer muito simples, rememorando, por exemplo, a campana das suas horas de infância em Rojas, pintando um autorretrato em azul e negro ou contemplando em silêncio, na ruína da sua casa coberta de trepadeiras, a imagem da sua própria velhice. Ernesto Sabato é um homem que pode se mirar, a essa altura da vida, sem o medo de encontrar pegada à cara qualquer espécie de máscara sinistra.


Não por acaso o ano de explosão da bomba atômica em Hiroshima oficializou sua entrada para a literatura. Entre as torres da ciência e um caminho escarpado de perigos, Sabato escolheu o que julgava ser o seu destino. Onde se encerrava uma prestigiosa carreira de físico, tinha início a peregrinação do artista, seu respeito pelo mistério de uma realidade que a razão não domina, sua observância a valores transcendentes que não se negociam, uma luta contra aquilo que, adoecendo o mundo contemporâneo, ele chamou de “indiferença metafísica”.


Em uma manhã de janeiro de 1975, Borges e Sabato, em um de seus últimos encontros, conversaram sobre Hölderlin e sobre a loucura que levou o poeta a viver em uma torre durante mais de trinta anos, aos cuidados de um carpinteiro. Borges fala dessa loucura como um cerco da noite. Sabato recorda, então, uma frase de Hölderlin citada anteriormente em seu livro O escritor e seus fantasmas: “O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa”. Frase emblemática da trajetória de Sabato como artista, como criador que, separando a luz das trevas, hospedou-se, também ele, dentro da noite, levando para ali sua lucidez, uma lucidez que, se teve algo de louco, foi sua resistência, sua esperança em uma vida mais humana, feita de convívio, de memória e de experiência, e não uma vida avassalada pela tecnologia, pela hipnose das telas, pelo utilitarismo.


Se faltam encontros verdadeiros e horas livres, é porque sobeja do outro lado um entorpecimento, uma esterilidade dos sentidos, uma epidemia de cegueira da qual já se teve notícia uma vez pelas páginas da literatura. Foi inclusive José Saramago que, na ocasião do aniversário de 97 anos do escritor, escreveu em seu Caderno: “Estou certo de que ao século que acabou se virá chamar também o século de Sabato, como o de Kafka ou de Proust”. Espera-se que o início desta nova década mereça também um século de vida de Ernesto Sabato.

 

 

 

 


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

Imagem: O túnel de poesia, de Mana Bernardes

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publicado por ardotempo às 13:12 | Comentar | Adicionar

Papelaria

 

 

 

O miúdo


António Lobo Antunes

Costumava ficar na loja, durante o almoço, para que o pai e o irmão pudessem ir a casa comer. As aulas da tarde começavam às três e embora tivesse só onze anos o pai confiava nele:


- Nasceu para isto


dizia à mãe com orgulho, a desfazer-lhe o ombro numa palmada satisfeita, o raio do miúdo nasceu para isto. Era uma loja pequena, uma papelaria, os clientes moravam no bairro, tratavam-no por tu, conhecia-os todos, sabia mexer na caixa, sabia o preço das coisas, e mesmo os estranhos, tão raros, gostavam de ser atendidos por ele. A maior parte do tempo, aliás, não atendia ninguém: lia revistas aos quadradinhos ou essas, de modelos, tão diferentes da mãe, magras, bonitas e quase sem roupa, que namoravam jogadores de futebol ou atores de novela, de peito ao léu e ele pasmado. Eram duas e meia, no relógio hexagonal por cima do tabaco e dos isqueiros de plástico, o pai e o irmão deviam estar a chegar, guardou os modelos na pilha dos modelos


(algumas cá fora, dos dois lados da porta, presas com pinças de roupa)


guardou os quadradinhos na pilha dos quadradinhos


(nenhuma cá fora, dos dois lados da porta, presas com pinças de roupa)


e só então deu pelo sujeito, de costas, a pegar num boneco de feltro, a examinar-lhe o preço, a poisá-lo, trocando-o por um Bambi cromado numa peanha de madeira, a voltar-se erguendo o Bambi à altura dos olhos


- Bonito, não achas?


antes de o deixar cair no soalho, a interessar-se


- Quantos anos tens, miúdo?


um sujeito mais ou menos da idade do irmão, vinte e um, vinte e dois, com uma tatuagem no pulso, de cabelo comprido e trança de cabedal à volta do pescoço. Respondeu


- Onze


no momento em que o sujeito dava um pontapé no Bambi, que desapareceu a saltar no passeio.


- Bela idade, miúdo, bela idade


aprovou o sujeito a fechar a porta da rua e a virar o cartão, pendurado de um anzol, do lado que anunciava Aberto para o lado que anunciava Fechado.


- Assim estamos à vontade, miúdo, só tu e eu cá dentro, não achas?


Depois de virar o cartão desceu a persiana metálica da porta. Não devia fazer a barba há uma semana e usava brincos a imitarem caveiras. O miúdo encostou-se à parede atrás do balcão, a sentir o puxador de uma gaveta contra os rins. Viu um amigo do pai passar lá fora, entre as prateleiras da montra, o senhor Lima, que trabalhava nos impostos, viu a dona da mercearia em frente a inspecionar pêssegos num caixote, com uma freguesa, e um automóvel da polícia, com um par de guardas lá dentro, a rodar devagarinho. O sujeito assentou os cotovelos no balcão numa confidência amiga


- Sou compincha do teu mano, miúdo


e inclinou-se para diante repreensivo


- O problema, percebes, é que me faltou ao respeito


enquanto o puxador da gaveta entrava na carne do miúdo e principiava a doer-lhe. O sujeito insistiu


- Faltou-me ao respeito


e pediu-lhe a opinião, a ajeitar o brinco


- O que é que tu fazes quando te faltam ao respeito, miúdo?


o olho direito guinava-lhe um bocadinho para dentro. Mais cinco ou dez minutos e o pai e o irmão chegavam. Respondeu


- Não sei


e não sabia de facto, nunca lhe tinham faltado ao respeito e não entendia muito bem o que faltar ao respeito significava. Na verdade não entendia mesmo o que faltar ao respeito significava. Às vezes a mãe, para uma vizinha


- O meu marido nunca me faltou ao respeito


a vizinha a aprovar, muito séria, e ele sem coragem de perguntar.


- O que é respeito, mãe?


por se lhe afigurar um assunto grave e terrível. Vinte para as três e a cara do sujeito, desiludida


- Entreguei ao teu mano uns saquinhos com uma coisa cara para vender e ele ficou com o dinheiro, miúdo


e o miúdo contente por aprender o que era o respeito: se a mãe desse ao pai saquinhos com uma coisa cara para vender o pai entregava-lhe logo o dinheiro. O sujeito percebeu o soslaio ao relógio:


- O teu mano gosta muito de ti, não gosta, miúdo?


enquanto tirava uma pistola do blusão e atarraxava, no cano, uma espécie de tubo


- Isto não me dá prazer nenhum mas vais ver como o teu mano entra na ordem


com o miúdo a pensar que a pega da gaveta lhe ia sair pelo umbigo. Não saiu. O sujeito disse


- Gostei de te conhecer, miúdo


e a seguir um estalo, e a seguir outro estalo. De bochecha nas revistas, o miúdo viu-o subir a persiana, virar o letreiro ao contrário, do lado que anunciava Fechado para o lado que anunciava Aberto, deixar a porta escancarada e sair. Por menos de trinta segundos, risquinho por risquinho no relógio da papelaria, não assistiu à chegada do pai e do irmão.


António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 12:46 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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