Quinta-feira, 25.11.10

Livros para serem lidos, sem pressa

 

Ano para reconhecer Schlee

 

 


 

HOMEM FORJADO no território por natureza incerto da fronteira, o escritor, tradutor e professor Aldyr Garcia Schlee acostumou-se a labutar em silêncio e a produzir sua obra em um ritmo próprio e compassado, alheio (“à margem”, como ele mesmo define) ao sistema literário e suas pressões de mercado. Basta notar que, em quase meio século de carreira, o número de seus livros individuais não chega a uma dezena. Por isso, é o próprio escritor o primeiro a apontar o quanto o último ano marcou em sua trajetória uma pequena revolução, iniciada em 2009, com o elogiado Os Limites do Impossível, e coroada na Feira do Livro de Porto Alegre com publicação do épico romance Don Frutos e com o reconhecimento do prêmio Fato Literário – Schlee foi escolhido na categoria “personalidade”, com 52% dos 123 votos do Júri Oficial.


Me surpreendi muito com a premiação. Achei, sem querer afetar modéstia, que a premiada seria a Lya Luft, a quem conheço há muitos anos. Ainda estou tentando entender como foi que obtive tantos votos. Se fosse eleição política, eu teria vencido no primeiro turno – brinca o autor, que completa 76 anos no próximo dia 22.


Antes de lançar, na Feira de 2009, Os Limites do Impossível – uma narrativa de estrutura ambígua pode ser lida como um romance formado de histórias curtas independentes ou uma coletânea de contos com uma unidade temática –, Schlee vinha de um silêncio de quase uma década. Seu livro anterior havia sido a coletânea Contos de Verdades (2000), que teve uma precária distribuição devido à complicada situação financeira em que se encontrava sua editora da época.


Foi um livro que não repercutiu fora de um pequeno círculo de leitores. A trajetória de um livro não se completa com o seu ponto final, é parte fundamental dela também o conjunto de leituras que ele ganha depois de ir a público, e esse livro, lamentavelmente, não completou ainda essa trajetória – lamenta.


Mas uma década de silêncio não significou uma década de inatividade. Schlee dedicou boa parte dela, ao contrário, à pesquisa e à redação febril de sua obra mais ambiciosa, Don Frutos, monumental romance histórico que reconstitui, em mais de 500 páginas, a passagem por Jaguarão, terra natal do autor, do caudilho uruguaio Dom José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), primeiro presidente constitucional do Uruguai.


É um romance sonhado por quatro décadas, desde que Schlee, ainda um jovem professor da Universidade Federal de Pelotas, topou, ao fazer uma pesquisa, com a informação de que Rivera havia morrido em Jaguarão. A obra só começou a ganhar feição, contudo, depois que o autor obteve a valiosa ajuda de um amigo uruguaio, o pesquisador Amílcar Brum, que o auxiliou a coletar a imensa massa de informações sobre a vida e os tempos do caudilho. Além de uma narração barroca e suntuosa, Schlee sustenta seu romance com a transcrição de documentos, cartas, notas de expediente, panfletos de época, alguns reais, outros fictícios. O livro ficou pronto antes mesmo de Schlee começar Os Limites do Impossível, mas só ganhou publicação este ano, pela editora ARdoTEmpo.


Duas grandes editoras chegaram a me solicitar o romance, eu enviei, e depois de um ano é que obtive resposta. Na primeira disseram que o livro era muito bom mas o “custo-benefício” não valia a publicação, ainda mais para um autor da minha idade. A segunda queria mutilar o livro da parte dos documentos – conta.

 

 

 

 

 

Tais episódios, contudo, ficaram para trás, ele garante. A repercussão obtida com a indicação e a premiação ao Fato Literário chamaram a atenção do público para o romance, principalmente na região da fronteira onde Schlee ambienta a maior parte de sua ficção. A versão em espanhol da obra deve ganhar publicação no Uruguai em breve, com tradução do próprio autor – que escreve indiscriminadamente seus livros tanto em português como em espanhol, o que pode explicar um pouco o ritmo sem pressa de sua produção literária. E sua surpresa no reconhecimento a ele ofertado como grande nome da cultura do Estado neste ano:


Das dezenas de e-mails que recebi me parabenizando, um terço veio do Uruguai. O que para mim tem um grande significado. Sou mesmo um autor de um universo pequeno e próprio. Quando falo que produzo à margem é que sou limitado ao meu pequeno mundo de fronteira: Rio Branco, Melo, Tacuarembó e Treinta y Tres, no Uruguai, e Jaguarão. Fora disso, não sei nada.


Carlos André Moreira - Publicado em Zero Hora

publicado por ardotempo às 17:35 | Comentar | Adicionar

Convite para DON FRUTOS em Pelotas

 

Convite para Lançamento do novo romance de Aldyr Garcia Schlee em Pelotas RS

 


 

publicado por ardotempo às 03:03 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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