Domingo, 20.04.08

Do blog F–WORLD, para pensar



Vozes de sobreviventes de Auschwitz.

Falam as mulheres e o que se ouve é uma ínfima parte do que contam sem parar,
histórias em cima de histórias agarradas a detalhes de onde não saem
porque não querem sair.
A voz da última mulher treme, a belga hesita, repete bruler,
queimar na memória  coincide com o momento em que percebeu
onde estavam os pais, como estavam os pais, o que estavam a fazer aos pais,
separada dos pais por uma parede que essa mulher via e a voz quebra,
a mulher belga mais os pais que lhe morriam queimados.
Atrás de cada uma destas vozes de pessoas
estão vozes de outras pessoas.
Tudo se passa entre pessoas, grupos de pessoas como nós.
Nada as distingue de qualquer um de nós.
É fundamental perceber esta realidade porque sem nos dedicarmos à memória
desta precisa realidade corremos o risco de perder de vista a incerteza,
o significado da impossibilidade.
Há nazis grandes e pequenos.
Hoje quero escrever sobre os
pequenos,
ínfimos,
diminutos nazis.
Sobre nós.
Nós somos muitos de nós num ou outro grupo,
mas grupo que exija ilusões e extremos,
que se excite com o que parece ser excessivo
e reaja com o mais elevado grau de irritabilidade.
Neste grupo o líder pode ser uma abstracção,
pode ser o ódio contra
uma pessoa, instituição.
Vou citar Littell, Les Bienveillantes:
Je vous rappelle que Führerworte haben Gesetzeskraft,
la parole du Fürher a force de Loi.
Vous devez résister à la tentation d’être humains.
Estes nós que somos quase todos,
senão todos em grupo descemos com facilidade
ao estado mais bárbaro, animalesco,
nada que seja novidade em tudo o que sabemos dos/nos outros
mas um mundo desconhecido dentro de cada um de nós.
O nosso lado negro em grupo observa-se 
de forma muito prática e confortável
na blogosfera.
Na blogosfera, um grupo pode ser
de uma intolerância animalesca
e completamente imune à ideia de bondade
que parece ser coisa de gente fraca.
Neste rico planalto observo, inúmeras vezes,
indivíduos que se alimentam de suspeitas
que rapidamente passam a certezas
e em que pequenas antipatias
se transformam em ódios raivosos incompreensíveis
para quem estiver mais distraído consigo
ou com nada em especial.
O que é verdade e a verificação dessa mesma verdade passa,
desta forma, para nenhures porque os impulsos têm
um interesse superior e relacionam-se também
com uma ideia que faz Lei:
a ideia do que é o prestígio
e que arrasta groupies que arrastam groupies
numa frágil pirâmide mas, ainda assim,  poderosa.
São este alguns dos sinais de alerta dos pequenos nazis que nos habitam.
 Nazis de esquerda ou de direita.
 Nazis de esquerda ou de direita.
  Nazis de esquerda ou de direita.
  Nazis de esquerda ou de direita.
 Nazis de esquerda ou de direita.
                                                                                   
                                       

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ardotempo às 22:39 | Comentar | Adicionar

A vanguarda sem fazer artístico

O cachorro como obra de arte

Ferreira Gullar
- Poeta, ensaísta e crítico de arte   

A arte de vanguarda, que nasceu contra
a institucionalização, é refém da instituição

Ano passado, em 2007, um costarriquenho, que se diz artista e se chama Guillermo Habacuc Vargas, pegou
na rua um cão vira-lata, amarrou-o numa corda e o
prendeu à parede de uma galeria de arte, onde o animal ficou definhando até morrer de fome.

Tratava-se, segundo ele, de uma "instalação perecível", uma obra de vanguarda. Pois bem, para o espanto das pessoas que já se tinham revoltado com a crueldade
de Habacuc, a Bienal de Arte Centro-Americana de Honduras acaba de convidá-lo para dela participar
com a referida "obra" e concorrer a um dos prêmios
do certame.

Será tudo isso verdade ou apenas uma "pegadinha"? Custa crer que o dono de uma galeria de arte permita que um exibicionista pirado amarre ali um pobre cão e o deixe morrer de inanição.

Como se deu a coisa? O animal urinava e cagava preso à parede, ganindo desesperado? As pessoas iam assistir a esse espetáculo de sadismo e ninguém se revoltou nem nenhuma sociedade protetora dos animais protestou? A possibilidade de ter o cão morrido sem que ninguém tenha sabido está fora de questão, uma vez que o objetivo desse tipo de "autor" é precisamente chamar a atenção sobre si, já que nenhum outro propósito pode ser considerado. Mais surpresa causa ainda a notícia de que a Bienal de Honduras o tenha convidado a repetir, nela, aquele mesmo espetáculo de crueldade e sadismo.

Não obstante, essa informação está em vários sites, e surgiu até um movimento de protesto -um abaixo-assinado- para impedir que a Bienal mantenha o convite. Se o que Habacuc queria era escandalizar e ganhar notoriedade, conseguiu, ainda que a notoriedade própria aos torturadores e carrascos.

Não obstante, apesar da repercussão que o cerca, esse fato não é tão novo assim. Sem a mesma dose de cocô e urina nem a mesma animalidade, outras "obras" e atitudes ocorridas antes são reveladoras do impasse a que chegaram a arte dita de vanguarda e as instituições que a exibem, particularmente as Bienais. Uns poucos anos atrás, um gaiato enviou para a Bienal de São Paulo, como sua obra, a seguinte proposta: abrir uma segunda porta na exposição por onde as pessoas entrariam sem pagar. Não podia ser aceita, pois implicaria sério prejuízo ao certame, mas também não poderia ser rejeitada, porque, sendo a Bienal "de vanguarda", tal rejeição comprometeria sua imagem.

Em face disso, adotou-se a seguinte solução: improvisar, nos fundos do prédio, uma portinha meio secreta, garantida por um guarda que a manteria aberta por apenas uma hora e só permitiria a entrada de dez visitantes, no máximo. E assim as coisas se acomodaram, salvando-se a audácia do artista e o caráter vanguardista da instituição. Pode ser que me engane, mas a impressão que tenho é de uma luta farsesca entre falsos inimigos que necessitam um do outro para existir: sem o espaço institucional (galeria, museu, Bienal), não existe a vanguarda e, sem a vanguarda, não existem tais instituições. E a gente se pergunta: mas a vanguarda não nasceu contra a arte institucionalizada? Pois é...

Voltemos ao cachorro. O tal Habacuc pegou o cachorro na rua e o levou para a galeria de arte a fim de fazer dele uma "instalação perecível", ou seja, uma obra de arte. Se o tivesse levado para um galpão qualquer e o deixasse lá morrendo de fome, ele não passaria de um pobre vira-lata vítima de um maluco. Mas, como o Habacuc é artista -ou se diz-, levou-o para uma galeria de arte e aí o pobre cão, de cão virou instalação, por obra e graça do espaço em que o puseram para morrer. Esse é um dado que os críticos de arte (também de vanguarda) teimam em ignorar, ou seja, que, nessa concepção estética, é o espaço institucional que faz a obra: por exemplo, um urinol igualzinho ao de Duchamp, se estiver no Pompidou, é arte; se estiver no banheiro de um boteco, é urinol mesmo, pode-se mijar nele à vontade.

É, portanto, diferente da Mona Lisa, que depois de roubada do Louvre, em 1911, e levada para um quarto de hotel na Itália, continuou a obra-prima que sempre foi. É que a chamada arte conceitual dispensa o fazer artístico e afirma que será arte tudo o que se disser que é arte, mas desde que o ponham numa galeria ou numa Bienal.

Ou seja, a essência da arte de vanguarda, que nasceu contra a institucionalização da arte, é contraditoriamente, a instituição; não está nas obras e, sim, no espaço institucionalizado em que ela é posta. Talvez por isso, a próxima Bienal de São Paulo não terá obras de arte: exibirá apenas o espaço institucional vazio, que as dispensa.





© Ferreira Gullar - publicado na Folha SP / Ilustrada / UOL
- em 20.04.2008

Foto de Mário Castello
ardotempo às 21:00 | Comentar | Adicionar

Mãos da terra - 03

Divino

                                    


Peça de artesanato popular, em madeira esculpida e policromada, representando o Divino Espírito Santo, para as festas religiosas populares do Divino -
Anônimo
,  Minas Gerais.

Assista e escute Marisa Monte e Paulinho da Viola cantando
Um samba sobre o infinito. Veja aqui


© Mãos da Terra - Mostra de artesanato popular brasileiro
ardotempo às 19:22 | Comentar | Adicionar

Vladimir Velickovic

Pintura




















Vladimir Velickovic, A grande perseguição - Pintura, óleo sobre tela, 1986














O artista em seu ateliê em Paris, 2008
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ardotempo às 15:12 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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