Quarta-feira, 09.04.08

OS ALEMÃO - 1




 

Aldyr Garcia Schlee


Stille Nacht, Heilige Nacht!


                        
            
N
a véspera do Natal de 1943, voltei a Santa Cruz do Sul numa viagem inesquecível: primeiro, de avião até Porto Alegre; depois, de trem até Ramiz Galvão – e, por fim, num carro-de-linha Ford Modelo T que varou a escuridão e o silêncio da noite sobre trilhos iluminados de vertiginosa magia, como para me deixar gloriosamente diante da árvore em torno da qual se cantava o Tannenbaum.

Stille Nacht, Heilige Nacht! 

O pinheirinho estava enfeitado com maçãs!


Vovó Anna era gorda, tinha uma grande cama com acolchoados de pena de ganso e fizera bolachinhas de mil formas – estrelas, corações, anjos, flores, sereias – além de bichinhos de marzipã – pássaros, ovelhas, galos, patos, cachorros...

Eu estava com nove anos, deslumbrado diante das maçãs de verdade na árvore de mentira, e ainda a sentir o inacreditável trepidar do fordeco sobre os trilhos brilhantes. Aquele dia fora tão fantástico, tão surpreendente e extraordinário, que tudo acontecia além do pretendido e esperado, além do que eu julgara possível e desejado em meus sonhos infantis de dirigíveis e aeroplanos, de soldados e bandidos, de comboios varrendo as telas do cinema, sem qualquer inimaginável automóvel sobre trilhos.

De modo que naquele dia eu não tinha ainda idade, eu não tivera ao menos tempo, eu não teria nem mesmo querer para descobrir algo além dos cânticos natalinos, das maçãs e da árvore, dos acolchoados de penas, dos bichinhos de marzipã, das sereias, das flores, dos anjos, dos corações e das estrelas – e do bolo de chocolate sobre o qual vovó havia escrito Sacher.

Meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha avó, nós morávamos numa fábrica de balas, na Avenida Independência, nº 100. Era uma maravilha de perfumes e de cores, os caramelos assim enormes em grossos rolos se afinando se afinando plac plac plac cortados cortadinhos cortadinhos se amontoando se amontoando montões de caramelos montões de caramelos coloridos... Até que um dia eu vi; eu estava sentado feliz diante de casa com minhas bolachinhas, minhas balas e meus sonhos, quando eu vi; eu vi pelo meio da rua soldados da Brigada, eu vi os soldados levando por diante quatro ou cinco velhos, eu vi os velhos presos a uma corda, um atrás do outro.

Não me lembro da cara daqueles velhos, de seus olhares perdidos, de seus gestos de desamparo, de seus chinelos vacilantes. Nem me lembro se corri para dentro, se chorei de susto e se me explicaram por que se prendia a gente, porque se arrastava a gente pela rua.

Só me lembro que naquele dia, deitado com meus sonhos, minhas balas e minhas bolachinhas nos acolchoados de penas de ganso de vovó Anna, eu me abracei fortemente nela, bem apertado, soluçando e tremendo muito, tremendo de medo, engasgado de medo.


                                             


– continua                                                   Os Alemão - Sequência  01  02  03  04

© Aldyr Garcia Schlee
Imagens ©Coleção Azevedo Moura
ardotempo às 21:53 | Comentar | Adicionar

Aldyr Schlee escreve

Aldyr Schlee, o grande escritor do Sul, das Américas, de vivências incomuns e densas histórias pessoais, enviou um texto esplêndido, uma espécie de relato emotivo biográfico que dá conta das histórias de uns alemães imigrantes que construíram suas vidas, suas famílias e uma legenda de boa memória, pelas lagoas extensas e nas descampadas fronteiras meridionais, as mais afastadas das grandes metrópoles brasileiras.



Um texto em 4 capítulos postados no blog ARdoTempo sob o título de

                 

                             
 
                                 "Pela manhã, têm-se ouro na boca"                                               
ardotempo às 20:53 | Comentar | Adicionar

Pintura de TOMIE OHTAKE

                                           


Tomie Ohtake - Pintura, óleo sobre tela,1964
tags: ,
ardotempo às 20:39 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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