Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
O piso da calçada
Fora da ordem

Itaci Batista - Os músicos - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2009
O mercado é uma bolsa flutuando no oceano
Uma reflexão sobre a arte contemporânea e o mercado
Obra de arte, artistas, marchands, colecionadores e outros atores compõem a análise de Luciano Trigo.
Em A grande feira, Luciano Trigo apresenta uma crítica incisiva à relação do artista e sua obra com o mercado de arte. Segundo o autor, desde o fim da década de 70, época do fim das vanguardas, a arte contemporânea atravessa uma crise. A mercantilização da obra de arte é um dos pilares deste cenário. Fatos da arte contemporânea mundial são utilizados por Luciano Trigo para mostrar a subordinação da arte ao mercado. Com prefácios de Gianguido Bonfanti e orelha de Gonçalo Ivo, A grande feira é um lançamento da Editora Civilização Brasileira (www.record.com.br ) e chegou às livrarias no dia 6 de novembro.
A década de 70 é o ponto de partida da análise, época apontada pelo autor como o início da crise no mundo da arte, até os dias de hoje. A relação entre os vários personagens que compõem o chamado mercado da arte é estudada pelo autor: o artista, o crítico, o marchand, os colecionadores, as galerias, os museus, entre outros, têm suas funções dissecadas no livro.
Com argumentos sólidos e relevantes, o autor utiliza fatos reais para ilustrar suas opiniões e fomentar o debate pouco realizado no Brasil sobre este sistema, que hoje tem o mercado como norteador. Segundo o jornalista, atualmente, a arte contemporânea é oposta à concebida pelas vanguardas dos anos 70 e a antiga disputa entre “apocalípticos” e “integrados”, narrada por Umberto Eco, acabou com a vitória dos últimos.
O valor atribuído a obras que por muitos não são consideradas arte e por outros são compradas por milhões também é destaque em A grande feira. “A capa deste livro reproduz a obra The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, do artista plástico inglês Damien Hirst. Em 2004, o tubarão mergulhado em formol foi vendido por 12 milhões de dólares ao administrador de fundos americano Steve Cohen. Dois anos depois, Cohen recebeu uma má notícia: o tubarão estava se decompondo. O pequeno alvoroço no mundinho da arte foi logo abafado. Artista e colecionador negociaram a substituição do animal original, e não se falou mais do assunto“, conta Luciano Trigo.

O autor utilizou essa imagem como metáfora para revelar uma facção da arte contemporânea que, segundo ele, é frágil e efêmera como um cadáver mergulhado em formol. Para escrever o livro, Luciano Trigo manteve diálogos com professores, teóricos, leigos interessados e, principalmente com artistas. Com A grande feira, ele empreende uma defesa do que chama de verdadeira arte – “aquela que é sempre criadora, subversiva e nova“.
Luciano Trigo é jornalista, escritor, editor de livros, crítico de cinema e colunista do site de notícias G1. Pela Editora Record, o escritor lançou O viajante imóvel e pelo selo Galerinha Record, os infantis Vira Bicho!, As cores do amor e A pequena ditadora, publicado recentemente.
A grande feira – Uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea
Luciano Trigo
Editora Civilização Brasileira
240 páginas
Publicado em Verdes Trigos
Apresentação de Livro: em Pelotas e Porto Alegre
Os limites do impossível
A partir da idéia estarrecedora de que o nascimento de Carlos Gardel ocorreu em Tacuarembó, no Uruguai, fruto de incesto e estupro, os contos deste livro transitam por algumas versões do espantoso acontecimento.
Aqui se imagina e se inventa como tudo terá acontecido − de forma a alcançar uma realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. Assim, qualquer semelhança entre os fatos narrados e algo que tenha realmente ocorrido ou deixado de ocorrer não será apenas mera coincidência: será a prova de que a realidade muitas vezes vai além dos recursos da ficção, alimentando-se do improvável e do inacreditável para chegar ao impossível − que nossa fantasia, geralmente, não consegue alcançar ou frequentar.
Aqui enfrentamos os limites do impossível.
Aqui, os limites do impossível são desafiados em cada uma das histórias de Clara, de Blanca, de Juana, de Cisa, de Felicia, de Rosaura, de Mulata-flor, de La Niña, de Manuela, de Constantina, de Berta, de La Madorell, mulheres de verdade ou de mentira cujas vidas ajudam a recompor a difusa memória do incrível e triste nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó.

Apresentação: Instituto Simões Lopes Neto
Dia 05 de dezembro - 21h / Noite Branca (sábado)
Rua D. Pedro II, nº 810 - Pelotas RS
(53) 30 27 18 65
Apresentação: Palavraria
Dia 19 de dezembro - 19h (sábado)
Rua Vasco da Gama, nº 165 - Bom Fim - Porto Alegre RS
(51) 32 68 42 60
O sagrado
Deuses
"Não creio que exista um deus, mas à medida exata do pensamento dos gregos, um conjunto de deuses e deusas, imortais na memória individual e um outro conjunto de semi-deuses, estes mortais, fruto da aproximação dos seres com as divindades. Falíveis, temperamentais, poderosos o suficiente em alterar as translações dos planetas e o fluxo das marés, mudando aqui e ali os destinos dos humanos. Sua presença entre nós, subtil e pontual, uma vez que são poucos e poucas espalhados pelo planeta, revela-se num invento, num segredo desvelado, na arte original, na escritura perfeita de um livro, na correção dos rumos, na felicidade momentânea, numa palavra inesperada. Esses deuses e deusas possuem a chama e sabem o sagrado."

Domingo, 15 de Novembro de 2009
No País da Copa, das Olimpíadas e dos relâmpagos
Retrocesso à vista
Ferreira Gullar
O fim da utopia marxista, que apostava na derrota do capitalismo, deu lugar, na América Latina, ao neopopulismo que, fazendo-se passar por socialista, explora, em vez da contradição classe operária versus burguesia, a oposição entre pobres e ricos. Se, no caso anterior, os sindicatos funcionavam como instrumento de organização e mobilização do operariado para a tomada revolucionária do poder, agora constituem uma burocracia de neopelegos, que passaram a ocupar posições estratégicas no aparelho de Estado e na máquina política.
Assim, pressionam o governo e os patrões para que façam pequenas concessões aos trabalhadores, com a condição de mantê-los quietos, enquanto eles, os neopelegos, enriquecem a se fortalecem politicamente. A ascensão de Lula à Presidência da República foi resultado desse jogo e, ao mesmo tempo, um salto qualitativo para a elite sindicalista.
As consequências disso para a democracia brasileira podem ser as mais desastrosas, como procurou mostrar Fernando Henrique Cardoso, num artigo recente, intitulado "Para onde vamos?".
O neopopulismo nada tem de revolucionário, como alardeia Hugo Chávez, travestido de líder esquerdista, mas que, na verdade, se apoia no voto do venezuelano pobre. Sustentado pelos vultosos rendimentos do petróleo, mantém programas sociais assistencialistas, que lhe garantem vasta popularidade.
Aparece, diante do povão desinformado, como seu providencial protetor, que o defende de um lobo mau chamado Estados Unidos. Seu verdadeiro projeto é manter-se indefinidamente no poder e, para consegui-lo, fez o Congresso aprovar a reeleição ilimitada.
Lula tentou seguir o mesmo caminho, mas teve sua pretensão rejeitada numa pesquisa de opinião. Precavido, mudou de tática e terminou adotando a candidatura de Dilma como a solução possível.
Invenção sua, se eleita, ela terá que fazer dele seu sucessor em 2014, e, assim, caso isso ocorra, teríamos mais oito anos de Lula na Presidência da República, o que somaria, no total, 20 anos de lulismo. Ou mais, muito mais, porque pode não parar aí, já que, àquela altura, as bases do neopeleguismo e do neopopulismo estariam amplamente assentadas em todo o país.
A ameaça é que, se já agora ele se rebela contra a ação fiscalizadora do Tribunal de Contas da União e pretende calar a imprensa, ou seja, não admite que ninguém critique ou cerceie suas decisões de governo, imaginem o que não fará durante tantos anos no poder.
A história tanto anda para frente como pode andar para trás. O propósito de, chegado ao poder, não sair mais, faz parte da ideologia petista, como deixou claro José Dirceu, em visita a Madri, logo após a posse de Lula, em 2003, ao afirmar que o projeto deles era ficar 20 anos no poder. Sim, porque, ao contrário dos outros partidos "burgueses", o partido dito revolucionário vem para salvar o povo e mudar o rumo da história. Logo, não pode se submeter às regras democráticas da alternância no poder. Se é verdade que, a esta altura, o petismo já abriu mão do revolucionarismo, não admite perder as posições conquistadas.
Lula, muito esperto, logo compreendeu que o Brasil não é a Venezuela. Sabe que, embora tenha maioria no Congresso, este jamais lhe concederia um terceiro mandato e muito menos a possibilidade de reeleição ilimitada. Por isso, adotou a tática de conseguir um mandato tampão para Dilma, enquanto, às carreiras, procura implantar o PAC e aparecer, diante da nação, como um presidente empreendedor, que visa elevar o país à condição de grande potência. Assim age Chávez e assim agiu nossa ditadura militar.
A fórmula é sempre aquela: inimigo dos poderosos e amigo dos pobres, defensor dos negros e mulatos, inimigo dos brancos de olhos azuis. Isso transparece, a todo momento, em suas declarações e discursos. Não faz muito tempo, falando aos catadores de lixo, criticou os ricos que, deliberadamente, sujam a cidade para que os lixeiros, humilhados por eles, a limpem.
É um presidente da República que, sem qualquer escrúpulo, faz questão de instigar ressentimentos e conflitos entre os cidadãos, jogar uns contra os outros. Isso no discurso, porque, de fato, usa a máquina do Estado para favorecer grandes empresas nacionais e estrangeiras.
O artigo de Fernando Henrique Cardoso chamou atenção para o perigo que o país corre. Em vez de desautorizá-lo, os formadores de opinião deveriam preocupar-se com o interesse maior da sociedade. É de se esperar, também, que Serra e Aécio assumam a responsabilidade que lhes cabe.
© Ferreira Gullar
Ar de Paris
Paris não tem fim
"A Paris de cada um é a real. A cidade é democrática, individual, pessoal e intransferível. A de cada um, miríade de espelhos, segredos e labirintos, é a verdadeira."

Imagem: Gilberto Perin (Paris França), 2009
Cabeça
Desenho

Carta - Desenho a tinta china, pincel , pena caligráfica e ponta de canivete sobre cartão (Porto Alegre RS Brasil)
Sábado, 14 de Novembro de 2009
Poucas fogueiras ainda ardem
El último Joyce
Enrique Vila-Matas
"Mi hora segunda insondable
Sin más dilación, recomienzo, releo el primer párrafo del 'Finnegans' profético
y encuentro ahí mi augurio para esta noche
Mi lectura oracular de este fragmento dice sencillamente que me espera para esta noche
– que es metáfora de toda mi vida – un 'riverrun' de insomnio
sin estrellas"
Como tengo insomnio, pasaré la noche con mi lenguaje nocturno. Me entretengo imaginando que soy un crítico, un especialista en ficción crítica. Y también imagino que me he pasado media vida leyendo Finnegans Wake en una edición de Faber and Faber de 1939, siempre acercándome a ella con cautelosos sorbos, porque esta última novela de James Joyce no es para leerla de un tirón, sino para abrirla en cualquier parte y sumergirse en su fascinante pluralidad, ambigüedad y lúdica riqueza. Siempre que me acerco al Finnegans lo hago sabiendo que estoy ante el más denso de los tapices y con el temor de que una vez más, como lector, me llegue una sensación, primero, de estar al borde del colapso y, después, el colapso mismo.
Imagino también que soy descubierto, pero no temo que alguien pueda hacerme confesar que no he leído el Finnegans. Y es que, de entrada, se supone que nadie ha sido tan idiota como para leerlo de corrido. Y, además, se sospecha que en realidad es ilegible y se dice - es pintoresca la leyenda - que nadie ha podido leerlo nunca.
Me quedo recordando que siempre me acerqué al Finnegans con esa impresión de que no tardaría en llegar el inefable y puntual colapso y, además, con el temor a no estar a la altura de la clase de lector que espera este libro: alguien en radical contacto con lo incomprensible y, por tanto, con el arte verdadero, con esa "hora segunda insondable sin estrellas" de los textos más próximos a nuestra gran verdad, a la realidad brutal y muda, sin significado, de las cosas.
Sea como fuere, nunca me faltaron los estímulos para regresar al libro de Joyce y a los prudentes sorbos. No sé cuántas veces me animé a releerlo diciéndome que no había nada de peligroso en volver al libro y que a fin de cuentas se trataba de una de las novelas favoritas de John Lennon. En más de una entrevista el músico dijo que el libro le parecía "so way out and so different" (excéntrico y diferente) y nunca, además, negó que no hubiera podido influenciarle a la hora de escribir la psicodélica letra de I'm the Walrus, composición (seguramente la mejor canción de Lennon) donde las palabras "Goo goo g'joob" podrían ser una referencia al "googoo goosth" que encontramos ya hacia el final del Finnegans.
Pero el hecho es que hasta ahora, siempre que he emprendido la lectura de este libro admirable, he acabado golpeado, tarde o temprano, primero por una sensación de colapso que se mezclaba con el pasmo por tan lúcido trabajo con el lenguaje, y luego por el colapso mismo, por ya ni hablar del consiguiente rubor al sentirme un negado para descifrar con precisión la espectacular exploración que hizo Joyce de los límites de la literatura.
Se me ocurre en pleno insomnio que en mi próxima relectura de algún fragmento del Finnegans podría contar con un método para atajar la llegada de esa onda extraña y horrible que siempre me anticipa mi desastre como lector del libro. El método podría parecerse al que empleo cuando leo el vaticinio de mi horóscopo y, por muy indescifrable y desconectado de mí que éste me parezca, siempre me las arreglo para que el párrafo oracular que me corresponde me acabe diciendo algo.
Se trataría de un método que me haría incluso más digeribles los fragmentos del Finnegans que decida abordar. ¿Abordo alguno ya esta misma noche? ¿Enlazo mi insomnio con el Finnegans en un viaje circular perfecto, adecuado a la estructura también circular del libro?
Mientras lo pienso, leo el pronóstico para el signo Aries que apareció en el periódico de ayer (por la hora no tengo otro a mi alcance): "Gran comprensión y apoyo de un colaborador en un proyecto que responde a sus ambiciones". Ya lo puedo leer las veces que quiera que, como no utilice mi particular método, no descifraré qué quiso decirme ayer el horóscopo. Porque, de entrada, no tengo "colaborador", de modo que difícilmente pude contar ayer con su apoyo para el supuesto proyecto.
"Comprensión y apoyo", termino escribiéndole en un email muy escueto a Eduardo Lago, que es caballero de la Orden del Finnegans y vive en Nueva York, donde ahora son las siete de la tarde y, por tanto, es probable que no tarde en leer mi mensaje. Es tal vez, por mi parte, la conmovedora petición de auxilio de quien teme ahora naufragar ante su inmediato reabordaje del Finnegans. Lo cierto es que, gracias al descarnado y escueto y en parte emotivo mensaje, el pronóstico del horóscopo ha cobrado sentido. Y hasta creo que yo he salido ganando. Porque donde antes no había nada, ahora hay un pronóstico y una petición de comprensión y apoyo. Y un colaborador (un lector en la noche).
No queriendo dar muchos rodeos, elijo el primer párrafo del Finnegans. No pienso que sea tan desatinado aplicar técnicas de horóscopo (de Whoroscope, de Puthoroscopo, que diría Beckett) a la lectura del temible libro. Después de todo, el propio Finnegans (durante mucho tiempo Work in Progress fue su título provisional) anunció, de forma no deliberada, palabras que luego cobraron inesperada vida y sentido. Como Quark, por ejemplo, que no significaba nada en concreto cuando a su autor le dio por incluirlo en su libro ("three quarks for muster mark"), pero que acabó relacionándose con la física cuántica a través del profesor Murray Gell-Mann, que extrajo directamente del Finnegans esa palabra, rompiendo así con la tradición de bautizar los descubrimientos de partículas con palabras derivadas de raíces griegas.
Sin más dilación, recomienzo, releo el primer párrafo del Finnegans profético y encuentro ahí mi augurio para esta noche:
"Correrrío, pasada Eve and Adam, desde el viraje de la ribera hasta el recodo de la bahía, nos trae por un vicio comodicio de recirculación de vuelta al Howth Castle y Enrededores".
En cursiva quedan las palabras que no existieron nunca hasta que no abrí este libro por primera vez y leí su primer párrafo. Desde entonces han pasado tantos años que incluso tiempo hubo para un gran correrrío muy comodicio por los Enrededores. De hecho, he acomodado comodiciamente mi mente, estos dos últimos años, por los alrededores del Liffey.
Y es que la ciudad de Dublín, que nunca pensé que podría siquiera algún día llegar a ver, he terminado por visitarla cuatro veces en el último año. Han sido cuatro correrríos siempre cerca del río Liffey, cuatro riocorridos, como los llama el mexicano Salvador Elizondo en su traducción joyceana.
El riocorrido o correrrío - el riverrun para la mayoría de lectores de Joyce y una clara referencia al curso del río Liffey a través de Dublín - es antesala de la referencia a Giambattista Vico (vicio comodicio), quien concibió la evolución histórica como un viaje circular, exactamente lo que es el Finnegans, cuyo inicio - ahí está vicio (por Vico) operando como señal o advertencia- se halla enlazado con el final de la novela.
Mi lectura oracular de este fragmento dice sencillamente que me espera para esta noche - que es metáfora de toda mi vida - un riverrun de insomnio, un trayecto que irá desde el viraje de la ribera hasta el recodo de la bahía, en travesía semejante a la de aquel viaje iniciático que hice en mi primera visita a Dublín, cuando fui de Pearse Station hasta el pueblo de Howth donde, desde lo alto de su castillo, vi el territorio en ruinas por el que se extendían los Enrededores de este libro excéntrico y diferente, que habría podido acabar con la literatura. Después de todo, tras el terremoto que desató en el lenguaje, los más lúcidos sucesores de Joyce nos parecen hoy sobrevivientes caminando entre los cascotes, bajo un cielo insondable sin estrellas, deteniéndose ante las pocas hogueras - y aún gracias - que arden.
Enrique Vila-Matas - Publicado em Babelia / El País
Onde está o leitor? Onde está a leitora?
Onde está?
Na Praça do Livro? Na chuva? Na Universidade? Na biblioteca? Em frente à televisão? Na rua, no trem, no metrô, no ônibus? No kindle? Na Academia? Nas academias de musculação? Na internet? No banco? No serasa? Nas escolas? Na Jornada? Na cama? No hospital?
Anteriormente, um bom autor era reverenciado, era aclamado, ler seus livros era considerado um privilégio pelos seus leitores.
Atualmente, um bom leitor é considerado um privilégio pelos autores.
Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Crime contra a humanidade
Não ao Desemprego
José Saramago
A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.
Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?
Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.
E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?
Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?
O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências. Não é exagero.
Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimento, quer dizer, o seu trabalho.
Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.
Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas.
José Saramago - Publicado no blog Caderno de Saramago
Lançamento de livro e Recital
Dia 14 de novembro - Sábado

Coquetel - 16 horas - Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Recital AVE, FLOR - 17 horas - Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Lançamento de livro - 18h30 - Pavilhão de Autógrafos - 55ª Feira do Livro de Porto Alegre RS


Diálogo das pequenas
As meninas
" – Meu avô é muito rico. Ele é industrial... ele faz chocolate lá na Serra. Todos os que visitam a Serra, compram e levam o chocolate que ele faz. E o seu avô, o que ele faz?"
"– Ah... o meu avô é escritor, ... ele também é desenhista, ... mas o mais importante, ele é observador de pássaros, ... ele passa muito tempo observando tudo o que os pássaros fazem, como eles são..."

Georges Braque - Pássaro branco e pássaro negro - Pintura - Gouache sobre cartão (Paris França) 1960
Aldyr G. Schlee na Praça e na TV
Entrevista do escritor

Aldyr Garcia Schlee e Tatata Pimentel - entrevista concedida pelo autor à TV Com / RBS TV (Rede Globo), desde a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre - Pavilhão de Autógrafos (Porto Alegre RS Brasil), 2009
Fotografia: Luiz Carlos Vaz
Ilustração inédita de Spacca
"As barbas do Imperador"

Ilustração de Spacca - 55ª Feira do Livro de Porto Alegre 2009
Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Flores, poemas, música e canto na praça
Recital e Livro Ave, Flor
Acontece neste próximo sábado, 14 de novembro, às 18h30, o lançamento do livro Ave, Flor de Cleonice Bourscheid, com ilustrações botânicas da artista Anelise Scherer, na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre RS Brasil. A obra, que tem prefácio do poeta e professor Armindo Trevisan, é composta por delicados poemas que cantam a flora brasileira. A apresentação das imagens e feita pelo artista plástico e curador Paulo Amaral. As reproduções e digitalizações das imagens para impressão foram realizadas por Pierre Yves Refalo.
O ciclo de canções sobre os poemas, composto especialmente pelo compositor Fernando Mattos, tem estréia na 55ª Feira do Livro de Porto, antes da sessão de autógrafos, às 17:00 horas, no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo. Na segunda parte do programa serão apresentadas canções de compositores diversos num tributo a natureza e contará com a a participação especial da soprano Laura de Souza e da pianista Elda Pires.
Coquetel de Lançamento e Recital AVE, FLOR
Às 16 horas
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Recital AVE, FLOR
Voz: Deisi Coccaro, Clarice Bourscheid
Viola: Fernando Mattos
Participação especial do
QUARTETO DE CORDAS DA UNISINOS
Soprano Laura de Souza e pianista Elda Pires
Às 17:00 horas
Local: Auditório Barbosa Lessa
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Rua dos Andradas, 1223 Centro - Porto Alegre RS
Sessão de autógrafos: 18:30 horas no Pavilhão de Autógrafos
Praça da Alfândega - Centro s/nº - 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
Edições ARdoTEmpo

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Palavras de Luiz Hossaka
Fidelidade à pintura
"Alfredo Aquino é um pintor cuja carreira dinâmica é marcada por uma profunda pesquisa e por um rigor verdadeiramente significativo. A produção respeitável deste pintor merece uma observação criteriosa: numa época em que nos defrontamos com uma grande variedade de manifestações artísticas, Aquino mantém-se fiel à pintura.

Cores, que remetem à atmosfera luminosa de um país de contrastes muito acentuados, e formas, em alguns momentos geométricas, às quais misturam-se figuras em que a imaginação pode sonhar ou buscar o seu melhor caminho."

Luiz Hossaka - Conservador-Chefe do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP, 2004
Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Autógrafos sob os jacarandás
Oportunidade rara

Novo livro de Aldyr Garcia Schlee, com a presença do autor no Pavilhão de Autógrafos da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

Os limites do impossível - Contos gardelianos
© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Capas: imagens fotográficas de Mário Castello
ISBN nº 978-85-62984-00-6
Edições ARdoTEmpo
Dia 10 de novembro 19h30 - terça feira - Pavilhão de Autógrafos
55ª Feira do livro de Porto Alegre - RS Brasil

Conversa de carnes
Fotografia

Mauro Holanda - Dois pescoços - Série Alma Descarnada - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2008
Domingo, 8 de Novembro de 2009
Gilberto Perin - Paris
Mês da Fotografia
GILBERTO PERIN - Paris
Galerie François Mansart
5, rue Payenne - 75003 Marais - Paris
10 a 28 de novembro - 2009
O poema enterrado
Uma experiência-limite
Ferreira Gullar
Entre 1959 e 1961,, quando nasceu e eclodiu o movimento neoconcreto, tornei-me amigo de Hélio Oiticica, que eu tinha como uma espécie de irmão mais novo. Ele, aliás, era o mais moço do grupo e o último a se juntar a ele, tanto que não participou da primeira exposição neoconcreta, inaugurada em março de 1959, no MAM do Rio, nem assinou o manifesto, publicado naquela ocasião.
Mas Hélio, de todos, era o mais determinado a buscar novos caminhos de expressão, a levar adiante as propostas que surgiam do trabalho e da troca de ideias e de experiências. Ele estava convencido de que a arte neoconcreta abrira um território novo à criação artística. Esse era um tema frequente em nossas conversas, que, na verdade, se limitavam a algumas hipóteses sem resposta. A resposta não estava no discurso, mas no trabalho criador.
O incêndio, que recentemente destruiu grande parte de suas obras, chegou-me como uma notícia inverossímil pelo telefone, quando a repórter me falou da perda de mil obras, o que me pareceu exagero uma vez que, pela própria natureza de suas criações, dificilmente teria feito tantas. De qualquer modo, as perdas seriam muitas. Pois incluiriam telas, desenhos, relevos espaciais, instalações e todos os "Bólides" e "Parangolés", que estavam na sala onde ocorreu o incêndio.
Uma perda irreparável, no plano artístico, impossível de calcular, uma vez que ali se teria perdido grande parte da própria história do artista. Agora se sabe que boa parte das obras se salvou e outras serão recuperadas ou refeitas.
Ainda assim, foi um desastre lamentável que, atinge todas as pessoas amantes da arte, atinge-me particularmente pela ligação que mantive com ele, no momento mesmo em que inventava o seu próprio caminho. E, mais ainda, porque o incêndio ocorreu onde ocorreu, na casa da Gávea Pequena, onde foi construído, em 1960, o "Poema Enterrado".
Cabe dizer ao leitor, que talvez não o saiba, o que era esse poema. A coisa começou quando publiquei no Suplemento Dominical do "Jornal do Brasil" um poema concreto que, para se realizar de fato, obrigava o leitor a ler, seguidamente, a palavra "verde", que se repetia até explodir na palavra "erva". Só que o leitor, ao perceber a repetição, não fazia a leitura prevista, por desnecessária.
Esse fracasso me levou a inventar um poema escrito, palavra a palavra, no verso das páginas e a cortá-las, conforme a necessidade do poema. Nasceu, assim, o livro-poema, que me levou aos poemas espaciais (placa de madeira com um cubo colorido que ocultava uma palavra), que obrigavam o leitor mover as peças do poema.
Pois bem, depois de levá-lo a participar do poema, manuseando-o, usando a mão, decidi levá-lo a usar o corpo - e bolei o "Poema Enterrado": uma sala no subsolo, a que o leitor descia por uma escada e entrava no poema. Sua invenção foi no final de 1959, quando publiquei, no "SDJB", a planta do poema e sua descrição.
Hélio ligou-me empolgado e dizendo que ia obrigar o pai a construir o poema no quintal da nova casa da família, essa mesma casa, onde houve agora o incêndio. Pronto o poema, marcou-se a inauguração num domingo, mas, como chovera muito na véspera, ao abrirmos-lhe a porta, vimos que estava inundado, para desapontamento de todos nós.
Soube, muitos anos depois da morte do Hélio, que o poema havia sido reconstruído, mas não fui informado. Esse poema nasceu azarado: o MAM de São Paulo tentou construí-lo, no Ibirapuera, mas a comissão estadual de cultura o proibiu.
De qualquer modo, o incêndio de agora junta-se em minha mente à inundação do poema, numa relação estranha que sinto sem saber explicar. Tenho diante dos olhos, agora, o rosto tenso de Oiticica, sentado comigo a uma mesa do Zepelin, pouco depois de seu retorno de New York. Daí a poucos meses, ele é encontrado agonizando no pequeno apartamento em que passara a morar, em Ipanema.
Hélio e Lygia Clark levaram às últimas consequências a proposta básica do neoconcretismo, de acrescentar à experiência visual -que define a pintura, a gravura e a escultura- o relacionamento corporal com a obra. Essa participação do espectador conduz, no caso do Hélio Oiticica, à série de "Bólides", que são, a meu ver, o momento-limite de sua busca, antes dos "Parangolés" e outras obras, de difícil definição estética. Algumas das experiências dele e de Lygia Clark anteciparam certos caminhos que a arte tomaria, a partir dos anos 60 e 70. Daí o reconhecimento internacional de que gozam. Isso nos dá a medida do que se poderia ter perdido com o incêndio de outubro passado.
Ferreira Gullar
Sábado, 7 de Novembro de 2009
Um dia imensamente triste...
Para os Museus, para a Arte, para os artistas, para a fotografia...
Homenagem ao querido amigo, o grande Luiz Hossaka - a competência, o entusiasmo, a lealdade e o sorriso cativante do fotógrafo e conservador-chefe do MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Morre o mais antigo colaborador do Masp
Luiz Sadaki Hossaka, Conservador Chefe do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), morreu hoje pela manhã, vítima de uma hemorragia interna. O corpo de Hossaka será velado no primeiro subsolo do museu, neste sábado (7), a partir das 16h30, em cerimônia aberta ao público. O enterro está marcado para este domingo, mas o local e horário ainda não foram divulgados. O conservador do acervo contava 82 anos.
Luiz Hossaka era o colaborador mais antigo do MASP, tendo participado, segundo a assessoria da instituição, de todos os passos da história do museu. Foram 59 anos dedicados ao principal acervo artístico da América Latina.
A jornada de Hossaka no Masp começou em 1950, quando o museu ainda ocupava o prédio dos Diários Associados, no centro da cidade. Já nos anos 60, Hossaka registrou por meio de fotos a construção e a inauguração da sede atual, na Avenida Paulista, projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi.
Depois, trabalhou como Secretário do Prof. Pietro Maria Bardi e exerceu uma série de funções no museu, inclusive como curador. No entanto, jamais deixou de lado o ofício da fotografia, uma de suas maiores paixões, registrando as obras que compõem o acervo do museu. Em nota, à imprensa, a direção do Masp declara que a morte de Hossaka é "uma irreparável perda para Arte".
Publicado na Folha de São Paulo / UOL
Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
10 de novembro - Os limites do impossível



Os limites do impossível - Contos gardelianos
© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Capas: imagens fotográficas de Mário Castello
ISBN nº 978-85-62984-00-6
Edições ARdoTEmpo
Dia 10 de novembro 19h30 - terça feira - Pavilhão de Autógrafos
55ª Feira do livro de Porto Alegre - RS Brasil


Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
CAIM é bom
O romance CAIM de José Saramago é boa literatura e, simplesmente, como uma obra de literatura, é que deve ser lido. Não como um tratado teológico ou uma bula de atentatória interpretação eclesiástica. Como tudo é inventado, biblia e romance, Saramango tem o direito de criar literariamente o que quiser. Nem estará mentindo ou profanando o quer que seja. Estará estimulando muitas perguntas, multiplicadas reflexões e a imaginação liberta, num exercício maravilhoso de inventividade. O seu texto, de luminosidade contemporânea, é pleno de remissões de hiper-texto em linguagem web, magistralmente incrustradas em barroco e resulta cinematograficamente fascinante em sua esgrima de inflexões passado/futuro, sempre o seu presente metafórico.
A construção do entrecho circula em volutas que visualmente resultam em puro cinema: há flash-backs, passagens de tempo, verduras luxuriantes, desertos monocromáticos, salteadores obscuros submetidos a efeitos especiais em que as espadas transformam-se magicamente em serpentes coruscantes a escalarem com agilidade braços petrificados, sexo, muito sexo em contraplanos de secretas luzes filtradas, serial-killers em disputas celestiais, querubins disfarçados sob rústicos tecidos encardidos, uma epifania. Um arraso.
Vale a pena. Leia o livro. Você vai se divertir muito.
Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Nacido en Tacuarembó...........Uruguay
CARLOS GARDEL

Para o nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó, mais precisamente na Estância Santa Blanca, em Valle Edén, há muitas explicações.
Os contos deste livro transitam por algumas dessas explicações − imaginando e inventando como tudo terá acontecido − de forma a alcançar uma realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. Assim, qualquer semelhança entre os fatos aqui narrados e algo que tenha realmente ocorrido ou deixado de ocorrer não será apenas mera coincidência:
será a prova de que a realidade muitas vezes vai além dos recursos da ficção, alimentando-se do improvável e do inacreditável para chegar ao impossível − que nossa fantasia, geralmente, não consegue alcançar ou frequentar.
Aqui enfrentamos os limites do impossível.
Os limites do impossível - Contos gardelianos
© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Capas: imagens fotográficas de Mário Castello
ISBN nº 978-85-62984-00-6
Edições ARdoTEmpo
Dia 10 de novembro 19h30 - terça feira - Pavilhão de Autógrafos
55ª Feira do livro de Porto Alegre - RS Brasil

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
A quem arremessa pedras
O muro do fundamentalismo
Inês Pedrosa
«Caim», de José Saramago, é um romance, isto é: uma ficção literária. É, além disso, um bom romance, isto é: uma narrativa de grande beleza que rasga o tecido dos saberes sossegados e ergue um vendaval de perguntas.
No lançamento deste romance, no «Escritaria» de Penafiel, evocando o Padre António Vieira, Saramago recordava essa coisa só aparentemente simples: escrever é «conhecer o sítio das palavras».
A sua disposição exacta na frase. Escrever é escolher, e a escolha pressupõe conhecimento das múltiplas possibilidades em jogo. Saramago debruçou-se sobre a Bíblia, o livro que determinou e determina ainda a visão do mundo que nos enforma, e interrogou as escolhas de deus – assim, com a mesma letra minúscula que usa para cada membro da humanidade por ele criada, porque é preciso abandonarmos a maiúscula da reverência quando queremos interrogar genuinamente. E viu-se mergulhado num dilúvio de vozes escandalizadas – algumas, poucas, de forma transparente, e a maior parte delas disfarçando o escândalo nas trincheiras da análise intelectual de segundo ou terceiro grau.
Explicam-nos essas vozes doutas, esforçando-se por conter a ira nos infolios da erudição (às vezes mal; salta-lhes o tom), que a Bíblia não pode ser lida de forma literal: tudo o que lá está é para ser interpretado, deduz-se que pelos doutores que reclamam a interpretação. Talvez por isso, de facto, a Igreja Católica nunca tenha feito grande esforço para publicitar o Velho Testamento, antes pelo contrário: nos meus dez anos de catequese consecutiva só me mandavam ler o Novo Testamento, e por partes. Quando, em 1991, Saramago publicou « O Evangelho Segundo Jesus Cristo», a polémica foi alta, mas o escândalo circunscreveu-se às instâncias religiosas propriamente ditas – e a um patético senhor do PSD, então com poder bastante para impedir que a obra fosse considerada num prémio europeu. Agora apareceu outro senhor do PSD, felizmente sem poder, a pôr-se em bicos dos pés para aproveitar a onda.
O escritor leu e releu a Bíblia e verificou uma evidência: que ela é um «manual de maus costumes, um catálogo de crueldades». Aliás, Saramago não foi, nem pretende ser, a primeira alma a ter feito essa verificação: sim, a Bíblia é também, entre outras coisas, esse catálogo.
Há cerca de dois anos, Christopher Hitchens publicou « Deus não é Grande – como as religiões envenenam tudo» e Fernando Savater publicou «A Vida Eterna», dois excelentes livros sobre a questão da maldade divina – ou de como os homens inventaram deus para se matarem uns aos outros. Na época, não vi nenhum dos que agora se assanham contra Saramago contestar as teorias idênticas de Hitchens ou Savater. É curioso que um romance, mesmo antes de ser lido, cause um terramoto que nenhum destes ensaios causou.
Uma vez um padre irritou-se comigo porque eu me recusei a ler, num casamento, aquela célebre carta de São Paulo que começa por dizer que o homem é a cabeça da mulher como Cristo a cabeça da Igreja, e exigi ler um texto do Génesis que a ele lhe parecia «muito carnal». Necessitado de exegese e enquadramento, portanto. Sucede que numa sociedade laica e livre ninguém tem que se fixar às leituras alheias. A acusação, repetida por intelectuais ( e aparentados) de diversos quadrantes, de que, ao escolher a letra da Bíblia, Saramago manifesta um espírito fundamentalista igual ao dos que, em nome da sua Bíblia ( no caso, o Corão, que aliás tem muitos enredos e personagens em comum com a Bíblia), se explodem a si mesmos e aos outros, não tem razão de ser. Há uma diferença radical entre escrever e matar, perguntar e bombardear, exercer a liberdade e proibi-la. Estas mistificações têm um objectivo: o de rasurar como terroristas, loucos ou ignorantes os que pensam de maneira diferente. Isso, sim, é fundamentalismo. Verifico, com preocupação, que esse fundamentalismo permanece muito aceso em Portugal.
Saramago tem o direito de ler na Bíblia o que lá está escrito. Cada palavra existe na frase para dizer alguma coisa – é aquela palavra e não outra que lá está. Todo o livro digno desse nome traça um pacto sagrado com a justeza de cada palavra. Escreveu Walter Benjamin: « A arte de narrar tende a acabar porque o lado épico da verdade – a sabedoria – está a morrer». A obra de Saramago prova que esta morte não está iminente.
E conseguiu já um feito notável: trazer para o horário nobre da televisão o debate sobre os fundamentos da nossa civilização, o sentido da vida e da morte – em vez da politiquice e do futebol que são os únicos debates constantes neste nosso mundo de crentes.
Inês Pedrosa
Publicado em Única / Expresso / Fundação José Saramago
Domingo, 1 de Novembro de 2009
Novo Livro de Aldyr Garcia Schlee
LANÇAMENTO
Os limites do impossível
A 24 de junho de 1935, Carlos Gardel morreu carbonizado, vítima de um misterioso e até hoje inexplicado desastre aéreo ocorrido dez minutos depois das quinze horas daquele dia, no aeroporto de Medellín, na Colômbia.
Só um passageiro sobreviveu ileso ao trágico acidente: foi um tal Flynn, que no momento da decolagem sentara-se junto à porta ainda destrancada do trimotor F-31 onde estava Gardel; e, vendo que o seu avião se projetava sobre outro, parado na pista, surpreendentemente atirou-se da aeronave em movimento, conseguindo escapar com vida.
Isso foi presenciado pelas pessoas que estavam no aeródromo e que, aterrorizadas, quase no mesmo instante viram o pavoroso choque, o estatelar-se dos aviões; ouviram o estrondear, a explosão espantosa; e já não puderam se aproximar do fogo, do aterrador fogaréu que se seguiu − queimando e queimando tudo lentamente, irremediavelmente, até que se dissipasse a fumaça, até que se pudessem ver os cadáveres calcinados espalhados pelo chão, enquanto prevalecia no ar o cheiro, o repulsivo cheiro dos queimados, o horripilante cheiro de carne humana torrada pelas labaredas.
De Carlos Gardel sobrariam uns dois ou três mínimos objetos; algumas moedas de ouro; e, apenas chamuscado, o seu passaporte, com a indicação do nome do cantor e a seguinte anotação:
Nacido en Tacuarembó
......................... Uruguay
Flynn nunca mais foi visto. E jamais se teve uma explicação para o acontecido.
Para o nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó, mais precisamente na Estância Santa Blanca, em Valle Edén, há muitas explicações.
Os contos deste livro transitam por algumas dessas explicações − imaginando e inventando como tudo terá acontecido − de forma a alcançar uma realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. Assim, qualquer semelhança entre os fatos aqui narrados e algo que tenha realmente ocorrido ou deixado de ocorrer não será apenas mera coincidência:
será a prova de que a realidade muitas vezes vai além dos recursos da ficção, alimentando-se do improvável e do inacreditável para chegar ao impossível − que nossa fantasia, geralmente, não consegue alcançar ou frequentar.
Aqui enfrentamos os limites do impossível.
Os limites do impossível - Contos gardelianos
© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Capas: imagens fotográficas de Mário Castello
ISBN nº 978-85-62984-00-6
Edições ARdoTEmpo

A fumaça azul de um havana diz a paz
Havana para um Infante defunto
João Ventura
Há em Havana uma rua, a 23, que desce para o mar. Talvez, por isso, o troço final que desemboca no Malecón se chame La Rampa. Desci essa rua que mergulha no mar muito antes de alguma vez ter ido a Havana e de ter sentido o aroma achocolatado dos charutos cubanos. Subi-a e desci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante. E, depois, em Havana para um Infante Defunto, espécie de crónica pessoal de uma Havana pobre, carregada de sons, de intersecções. E, a partir daí, desde La Rampa, perdi-me na Havana dos anos cinquenta, no labirinto sonoro de rumbas e son, do rum Bacardi e dos charutos habanos. Uma Havana nocturna, insular, «com os seus cafés ao ar livre, cheios de novidade, e as suas inusitadas orquestras de mulheres que amenizavam os cafés do Paseo del Prado».
Quando alguns anos depois visitei a cidade, Havana já não era a Lost City do filme de Andy Garcia, baseado no romance Três Tristes Tigres que ontem, revisitei como quem regressa a uma cidade desaparecida. Ao descer La Rampa, e depois caminhar a pé ao longo do Malecón até ao Centro, num começo de uma noite quente de Verão tropical, amenizada por uma brisa refrescante vinda da vizinha corrente do Golfo, foi ainda a cidade nocturna fundada por Cabrera Infante que atravessei. Ali estava, pelo menos eu via-a assim, a mesma cidade reflectida na patine luminosa dos edifícios recuperados do Centro Histórico. Via-a, ainda, no contacto caloroso das pessoas, na sensualidade imediata dos corpos, no perfume adocicado dos charutos, na música omnipresente nos bares e cafés de Habana Vieja. Reencontrei-a, também, em algum imaginário e em alguma iconografia que moldaram a minha juventude. Paradoxalmente, Cabrera Infante já não veria, se ali estivesse, a mesma Havana que eu via, porque aqueles elementos dispersos que agora eu ia recuperando, pertenciam a uma certa mitografia de uma felicidade talvez mais sentida pelos estrangeiros do que pelos cubanos, à qual juntaria, depois, algumas imagens de uma decadência de charme.
Três Tristes Tigres, que Cabrera Infante começou a escrever ainda em Cuba, antes de se exilar, é uma homenagem a uma Havana sem tempo à qual ele não mais regressou, por culpa de um rancor quase irracional que marcou até ao final da sua vida a sua relação com o Estado cubano. Assim se compreenderá a amarga ironia que atravessa os seus livros. Trágica dissidência que o tornou ausente de uma cidade que foi sempre o centro festivo dos seus livros. E, talvez, nem ele nem Havana merecessem esse afastamento, pois cópias clandestinas de Três Tristes Tigres sempre circularam em Cuba, formando gerações de escritores, não obstante a opinião injusta e pouco amável de Cabrera Infante sobre os escritores que não abandonaram a ilha. A ausência preencheu-a Cabrera Infante regressando sempre aos mesmos temas com uma nostalgia feroz: a Havana dos anos quarenta e cinquenta, as mulheres, a música, o cinema.
O primeiro sinal de fumo de Cabrera Infante encontrei-o em Três Tristes Tigres: «O charuto [...] aceso é outra fénix: quando parece apagado, morto, a vida do fogo surge entre as suas cinzas». Em Havana, quando fumei o meu primeiro charuto, no bar do Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway, juntando assim mais um elemento à tal mitografia da felicidade, ainda não tinha lido o que Cabrera Infante escrevera sobre o prazer de fumar: «Llamo felicidad a sentarme solo en el lobby de un viejo hotel después de una cena tardía, cuando se han apagado las luces de la entrada y solamente se distingue, desde mi cómoda butaca, al portero en su vigilia. Es entonces cuando fumo mi puro en paz, tranquilo en la oscuridad: lo que fue antaño una hoguera, transformado ahora en las ascuas civilizadas que relucen en la noche como el faro del alma».
Puro Humo conta a história da relação entre o cinema e o fumo. Porque para Cabrera Infante, sabemo-lo desde Havana para um Infante Defunto, os filmes são feitos de sonhos. Como os puros. Por isso, em Puro Humo viagja-se de Cuba para o cinema, reacendendo na memória do leitor-espectador um certo voyeurismo: um cigarro lânguido nos lábios de Marlene Dietrich, uma beata rude entre o indicador e o polegar de Bogart, o universo opaco de maldade nos clássicos negros como A Dama de Shanghai ou A Sede do Mal. Também outras páginas que exalam o mais puro fumo literário, com referências a Daniel Dafoe, Edgar Poe, Conrad, Stevenson, Dickens, Mallarmé, Lewis Carrol, Conan Doyle, Raymond Chandler, Hemingway, Jack London, Lorca, Lezama Lima… – e J. M. Barrie – autor, talvez, do mais belo título de todos os livros que fumam: My Lady Nicotine. Pura literatura, portanto, que se esfuma e perfuma como um puro fumado em Havana. Como uma paixão consumida.
Espreitando à frente
Editora dinamiza na web
O endereço é o mesmo, mas o conteúdo, quanta diferença! A famosa frase publicitária criada para divulgar um produto para os cabelos também pode ser aplicada ao novo portal da Cosac Naify, inaugurado nesta semana. Isso porque o conteúdo segue sendo disponibilizado no endereço www.cosacnaify.com.br , mas com seu conteúdo totalmente reformulado. Entre as novidades, a editora passou a disponibilizar livros para download.
O primeiro livro escolhido é Flores, do mexicano Mario Bellatin, que consentiu que a obra recém-lançada ficasse a disposição de todos. A editora também aposta na maior interatividade oferecendo canais de diálogo com o seu público. Twitter (@cosacnaify), com mais de 2600 seguidores espontâneos, Facebook, com mais de 800 membros e Orkut. No site reformulado, destaca-se ainda a estreia do Blog da Cosac Naify, com um capítulo inédito do livro Guerra e paz, de Tolstói, traduzido por Rubens Figueiredo, disponível para os leitores com um ano de antecedência ao seu lançamento, previsto para novembro de 2010. O blog continuará adiantando trechos de livros selecionados pelos editores, curiosidades sobre a escolha das capas e mais informações quentes sobre os próximos lançamentos da editora.
Além disso, a Loja Virtual ganha nova seção voltada para bibliófilos onde são disponibilizados em primeira mão, somente para aquisição online, livros com diferenciais gráficos que se tornaram raridade no mercado.
http://www.verdestrigos.org/wordpress/
No principado da olimpíada
Em direção à desordem
Ferreira Gullar
Fabiano Atanásio da Silva, o FB, que comandou a invasão do morro dos Macacos, estava preso e foi beneficiado pelo regime de prisão-albergue, isto é, foi lhe dado o direito de sair do presídio, de dia, para trabalhar, e voltar, à noite, para dormir. Atanásio, a exemplo de dezenas de outros bandidos, saiu e não voltou mais. E a gente se pergunta: se Atanásio foi condenado por ser chefe do tráfico naquela favela, a que trabalho o juiz, que lhe concedeu a prisão albergue, acha que ele iria se dedicar? Coerentemente, o FB foi fazer o trabalho que sempre fez: traficar.
É impossível negar que, em matéria de Justiça, vivemos, no Brasil, uma espécie de comédia: uma cena recente desse pastelão foi a briga entre a Justiça Estadual de São Paulo e a Justiça Federal, cada uma delas atribuindo-se o direito de julgar os ladrões que roubaram duas telas - uma de Portinari e outra de Picasso - do Masp. A Justiça Estadual os condenou, o advogado de defesa recorreu da sentença e o Superior Tribunal de Justiça a anulou, alegando que, como as obras tinham sido tombadas pelo Iphan, órgão federal, caberia à Justiça Federal julgar os ladrões, e mandou soltá-los. Ou seja, enquanto os juízes brigam, os ratos passeiam em cima da mesa.
Ainda como parte da comédia nacional, registre-se o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao dar posse ao novo ministro de Assuntos Estratégicos, aquele ministério que já por si é uma piada. Todos sabemos que esse ministério foi entregue ao não menos extravagante Mangabeira Unger, que já se foi, e era conhecido como o "ministro do futuro". Lula, que odeia ler, mas adora discursar, quando abre a boca diz qualquer coisa. Pois vejam o que ele disse, no discurso, confundindo o nome de seu ex-ministro com o do deputado Fernando Gabeira, seu adversário político: "O Gabeira não está aqui, está certamente naquela escola em Chicago...". E, sem se dar conta da confusão que fazia, acrescentou: "O dia em que o companheiro José Alencar e a direção do PRB entraram em meu gabinete para aprovar o nome do companheiro Gabeira para ministro...". Como se não bastasse, ao se dirigir ao novo ministro do futuro, Samuel Guimarães, chamou-o de Mangabeira, e, ao tentar corrigir o erro, piorou, trocando-lhe o nome de Samuel por Salomão... Parece que bebe!

Criticado pelo presidente do STF devido ao comício-piquenique que fez com Dilma e seus ministros, às margens do São Francisco, Lula respondeu: "Agora eles estão nervosos porque estamos inaugurando obras". Mentira, estavam ali, segundo a própria versão oficial, para "fiscalizar" as obras mas, ainda assim, desde quando é função do presidente da República fiscalizar obras? Apenas pretexto para fazer campanha eleitoral fora do prazo legal. A alegação de que isso está dentro da lei, porque só é proibido inaugurar obras públicas após 31 de julho do ano eleitoral, não significa que se pode fazer campanha eleitoral anos antes daquela data; é um sofisma, que o STF estranhamente engoliu. E Lula ainda teve a desfaçatez de afirmar que estava ali a trabalho (com Dilma e Ciro), comendo churrasco e ouvindo um cantor de forró, por ele contratado. E, com a maior cara-de-pau, afirmou: "É muito fácil assumir a Presidência da República e não fazer nada, porque ninguém nunca fez". Gente, até quando o país vai ter que aturar semelhante megalomania? Ninguém imaginou que um presidente oriundo da classe operária viesse a dar nisso.
Conforme a segunda lei da termodinâmica, os sistemas físicos tendem à desordem. A perturbação da ordem de um sistema chama-se entropia, como, por exemplo, os ruídos numa transmissão radiofônica. Isso vale também para outros sistemas, como a sociedade humana, cuja ordem é mantida pelas normas e leis que regem o comportamento de seus integrantes. A sociedade carioca, por exemplo, como sistema social, entrou em processo de entropia desde que, nos anos 70, o tráfico começou a instalar-se nas favelas. Os conflitos armados entre grupos de traficantes e desses com a polícia comprometem a ordem social e põem em risco a vida das pessoas. Essa tendência à desordem pode ser revertida se o governo e a sociedade, juntos, se dispuserem a isso.
O prefeito do Rio decidiu promover corridas de Fórmula Indy no aterro do Flamengo, área de lazer que ostenta belos exemplares da mata brasileira, ali plantados por Burle Marx. Vão atormentar os moradores do Flamengo e envenenar a fauna e a flora do parque, embora exista na cidade um autódromo. Sai um imperador entra outro!
© Ferreira Gullar
Sábado, 31 de Outubro de 2009
Uma história triste
Las amantes del pintor Modigliani
Manuel Vicent
La pintora Beppo, una inglesa alta y desgarbada, que a principios del siglo pasado, con 18 años, se fugó de casa y dispuesta a cambiar el té con pastas por el calvados cayó en el París de entreguerras en medio de la bohemia de Montparnasse, me contó que había sido amiga de Modigliani. Un día el artista le pidió que posara de modelo para una escultura. Quería tallarla en madera y para eso robó una traviesa de la vía del metro de la estación de Barbès-Rochechouart. Beppo le ayudó a saltar la verja. Este robo se repetía a menudo. Por eso durante una época las esculturas de madera de Modigliani todas medían un metro y eran tan estilizadas. Aquella escultura ha desaparecido. Puede que la usaran como leña para calentar el cubículo de la plaza de Ravignan, en los altos de Montmartre, donde vivía el artista.
La pintora Beppo llegó a España en los años cincuenta casada con el príncipe tunecino Abdul Wahab, al que abandonó por un guitarrista gitano. En una taberna de Madrid, oyendo cantar a Pepe de la Matrona, me contó también que en medio de una pobreza absoluta iba una tarde en compañía de Modigliani por el bulevar de Montparnasse y se encontraron con unos bloques de piedra al pie de un edificio en construcción. El artista se sintió de repente inspirado y comenzó a trabajar como un poseso durante tres noches de un fin de semana en plena calle con uno de aquellos bloques hasta terminar una escultura, que representaba la cabeza cubista, pero el lunes por la mañana los obreros no atendieron sus súplicas y arrojaron la escultura de Modigliani en los cimientos.
Por ese tiempo Modigliani tenía también de modelo y amante a la poetisa inglesa Beatrice Hastings, una chica excéntrica y seductora, que lucía sombreros cada vez más imposibles. Entre los perifollos del vestido a veces solía llevar enhebrado bajo el brazo un cesto con un pato vivo dentro. Fue ella la que inició a Modigliani en el hachís y en las experiencias sensoriales fuera de toda medida, pero él no le iba a la zaga. Picasso decía que Modigliani siempre se las apañaba para coger las cogorzas más clamorosas en el cruce de Montparnasse con el bulevar de Raspail, entre la Coupole, La Rotonde y el Dôme para exhibir su desdicha ante el mundo. Aunque algunas veces también lo sacaron borracho dentro de un cubo de basura en un barrio de extrarradio.
Amedeo Modigliani era judío, nacido en Livorno el 12 de julio de 1884. Recién llegado a París con 21 años, tímido, bien vestido, con un dinero en el bolsillo que le había dado su madre, fue capeando la vida con cartas de recomendación hasta que cayó en Montmartre, cerca del Bateau Lavoir donde reinaba el Picasso de la época azul y su cuadrilla de poetas y pintores alucinados. Allí Max Jacob inició al guapo italiano, todavía sano, puro y agreste, en el laberinto de la cábala. En ese tiempo llegaban a París las primeras máscaras negras que traían los colonialistas desde Malí y Gabón. Max Jacob hizo ver a aquellos artistas del Bateau Lavoir, muertos de hambre, pero con la cabeza llena de sueños, la cara oculta que esos ídolos exhibían a través de su misteriosa geometría. El esoterismo y la astrología mezcladas con la poesía, la pintura y la burla formaron un juego fascinante en el que este poeta judío introdujo a Picasso y a partir de Picasso a toda a aquella recua de bohemios que estaban dispuestos a romper todos los esquemas del arte.
Al principio Modigliani se presentó en sociedad como escultor y sólo porque la madera, el mármol o el granito eran muy caros se pasó a la pintura. En uno de los cafés de Montmartre dibujaba con un anuncio en los pies. "Soy Modigliani, judío, cinco francos". Por un dibujo no admitía el dinero que excediera a esta cantidad. Después fue subiendo el precio. Pintaba retratos por diez francos y un poco de alcohol.
Modigliani ha pasado a la historia tanto por sus pinturas de mujeres de cuello rosa e infinito como por las amantes, que fueron tantas como sus borracheras. Sólo una de aquellas mujeres le acompañó hasta el final de su vida. Se llamaba Jeanne Hébuterne, una muchacha lánguida, pelirroja, sensible e inteligente, también pintora, que conoció al artista en el carnaval de 1917, disfrazada con una capa rusa, cuando tenía 19 años. Era hija del cajero de una perfumería, un hombre culto que le leía a Pascal en voz alta mientras la madre pelaba patatas. Jeanne se enamoró perdidamente de aquel pintor bohemio, que ya llevaba una tuberculosis a cuestas y estaba muy metido en las drogas y en el alcohol. Se fue a vivir con este guapo maldito en la Rue de la Grande Chaumière y muy pronto quedó embarazada.
A medida que Modigliani caminaba hacia la destrucción su genio se hacía más patente. Sus pinturas habían comenzado a cotizarse. Uno de los marchantes que se equivocó fue Ambroise Vollard. Un día pasó por una galería de la Rue Boétie y vio en el escaparate un desnudo Modigliani de gran tamaño. "Qué voluptuoso tono de piel", pensó. "Hace cuatro años por unos de estos cuadros pedían 300 francos. Imagino que ahora pedirán 3.000". Preguntó por el precio. "Vale 350.000 francos", le dijo el galerista. Por supuesto Modigliani ya había muerto.
Pero mientras vivió este italiano seductor fue sobre todo amado por mujeres y protegido por sus amigos. Cuando la familia de Jeanne y sus primeros, únicos y fieles coleccionistas de sus cuadros, Paul Guillaume y Zboroswski, supieron que su amante estaba embarazada, tratando de rescatar al artista de aquel circuito diabólico de Montparnasse, llevaron a la pareja a la soleada Niza, donde nació la hija. Modigliani no aguantó por mucho tiempo aquella calma.
Volvió a París y dejó a su pareja en el sur con la promesa de casarse con ella cuando le llegaran unos papeles de Italia. Jeanne estaba de nuevo embarazada. Una vez más en el circuito de los cafés de Montparnasse el genio de Modigliani y su destrucción comenzaron a potenciarse mutuamente.
Un día de invierno, el pintor Kipling sorprendió en el estudio de la Rue la Grande Chaumière a Modigliani en plena agonía rodeado de botellas de vino vacías y latas de sardinas. Al pie de la cama Jeanne, embarazada de nueve meses, le estaba pintando mientras él le decía: "Sígueme en la muerte y en el cielo seré tu modelo favorito". Lo llevaron al hospital donde murió a las 10.45 de la noche del 24 de enero de 1920. Jeanne no besó el cadáver. Le miró largamente y retrocedió sin volverle la espalda. Esa noche no quiso dormir en el estudio con su hija. Se instaló en el hotel la Louisiane, de la Rue de Seine, donde intentó suicidarse. Sus padres la rescataron y se la llevaron a casa. En la habitación del hotel había dejado un puñal debajo de la almohada. El entierro de Modigliani fue un acontecimiento en Montparnasse. Todos los pintores, músicos, poetas, actores, antiguas amantes, acompañaron al artista al cementerio de Père-Lechaise y mientras el entierro más fascinante de aquel tiempo sucedía, Jeanne se tiró por la ventana de un quinto piso de sus padres a un patio llevando en el vientre un hijo de Modigliani. El cadáver lo recogió un obrero. Lo subió a casa. Sus padres le cerraron la puerta. En una carreta el obrero lo trasladó al estudio de la Grande Chaumière y fue también rechazado por el portero. El desconocido samaritano lo llevó a una comisaría. Jeanne fue enterrada en clandestinidad y el duelo lo componían unos amigos, que siguieron el féretro en un taxi bajo una lluvia desolada de invierno.

Manuel Vicent - Publicado em El País
Imagem: Auto-retrato de Amedeo Modigliani - Óleo sobre tela - MAC Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (São Paulo SP Brasil)